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SOCIEDADE SECRETA DO TERCEIRO ANO TEMPORADA 2 CAP 2

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Um conto erótico de GABRIEL SILVA
Categoria: Heterossexual
Contém 7105 palavras
Data: 25/06/2026 12:33:36

O sol ainda não havia se erguido completamente sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas quando atravessei os portões do Colégio Helsing pela segunda vez em vinte e quatro horas. Mas agora era diferente. Ontem eu fora um visitante, um intruso sendo instalado. Hoje eu era um aluno — ou tentativa disso.

O uniforme novo rangia contra minha pele. Camisa social azul-marinho, gravata dourada, calça de alfaiataria, sapatos de couro italiano que Ricardo mandara entregar em meu apartamento junto com uma nota curta: "Aparência é poder. Vista-se como quem manda, mesmo sendo quem obedece." Os sapatos apertavam. Eu sentia-me um ator que havia esquecido as falas, prestes a entrar em cena diante de uma plateia hostil.

O saguão principal estava uma loucura controlada. Alunos de todas as idades — do ensino fundamental ao médio — circulavam entre colunas de mármore, carregando mochilas de grife que custavam mais que o aluguel mensal do apartamento onde minha mãe vivera a vida inteira. O som dos sapatos batendo no piso de granito polido criava uma sinfonia de privilégio, cada passo ecoando riqueza.

Eu consultei o mapa que me fora entregue na portaria. Sala 12-B, terceiro andar, ala leste. O elevador de acesso aos alunos era de espelhos fumê, com capacidade para vinte pessoas, mas eu subi sozinho, encostado na parede fria, observando meu reflexo distorcido — um jovem de dezenove anos tentando parecer mais velho, mais duro, menos assustado do que realmente estava.

Quando as portas se abriram, o corredor do terceiro andar me recebeu com um silêncio sepulcral. As salas eram identificadas por placas de bronze, não de plástico como na escola pública. As portas de madeira maciça absorviam o som, dando a impressão de que cada ambiente era uma câmara isolada, um mundo próprio onde regras diferentes vigoravam.

Sala 12-B. Eu empurrei a porta.

O interior me fez parar por um instante. Não era uma sala de aula. Era um auditório reduzido. Fileiras de carteiras em duplas, sim, mas feitas de madeira de lei, com encostos de couro. O quadro-negro era digital, uma tela sensível ao toque de quase três metros de largura. Havia ar-condicionado central — não aqueles aparelhos barulhentos de janela, mas um zumbir silencioso que mantinha a temperatura em vinte e um graus exatos. Estantes repletas de livros encadernados em couro ocupavam uma parede inteira. Janelas de vidro duplo anti-ruído mostravam uma vista panorâmica da lagoa, o Cristo Redentor ao fundo, imponente e distante.

Cerca de vinte alunos já estavam sentados. Eles se distribuíam de forma estratégica — os mais próximos das janelas eram os que ostentavam mais, conversando em voz baixa, gestos teatrais, risadas contidas. Os do centro pareciam os estudantes de verdade, focados, organizando cadernos de capa dura. E havia os das fileiras de trás — sombras, observadores, aqueles que preferiam ver sem serem vistos.

Eu procurei uma dupla vazia. Havia uma no meio da sala, estrategicamente neutra. Caminhei até lá, sentindo os olhares me seguirem como agulhas. Minha mochila — uma simples, preta, sem marca aparente, a mesma que usava na escola pública — parecia um estranho em festa entre as Louis Vuitton e Gucci ao redor.

Sentei-me na cadeira da esquerda, deixando a da direita vazia. Coloquei a mochila no chão, tirei um caderno simples e uma caneta bic. O som da caneta sendo colocada sobre a madeira da carteira pareceu ensurdecedor no silêncio da sala.

Minutos depois, Neguin e Paulo entraram. Eles pareciam peixes fora d'água, ainda mais perdidos que eu. Neguin vestia o uniforme como quem veste uma camisa de força — apertada, desconfortável, errada. Paulo puxava a gravata como se fosse uma coleira. Eles me viram, acenaram discretamente, e ocuparam a fileira atrás de mim, dupla vazia também, mantendo a tradição de sempre estarem de costas para o perigo, observando a porta.

— Caralho, mano — sussurrou Neguin, inclinando-se para frente, com a voz baixinha. — Isso aqui é outro mundo. Olha esses moleques.

— Calma — respondi sem virar. — Observa. Aprende. Não chama atenção.

A porta se abriu novamente.

Quando Pamela entrou, senti o ar da sala mudar. Não era apenas porque ela era bonita — embora fosse, com aquele cabelo castanho solto caindo nos ombros, o uniforme azul-marinho adaptado de forma sutil para marcar a cintura fina, as pernas longas em meias finas de seda. Era porque ela carregava uma aura de propriedade. Esta era a filha de quem mandava em muita coisa, ou pelo menos de quem pagava bem a mensalidade.

Seus olhos varreram a sala rapidamente, profissionalmente, como se estivesse avaliando território. Eles pararam em mim. Por um segundo, algo passou por seu rosto — reconhecimento, talvez, daquela noite no iate, ou talvez apenas curiosidade sobre o novo. Então ela caminhou diretamente até a carteira vazia ao meu lado e sentou-se.

O perfume dela — algo floral caro, provavelmente importado — invadiu meu espaço. Ela não olhou para mim. Abriu uma pasta de couro legítimo, tirou um tablet slim, e começou a digitar algo, os dedos longos e manicureados dançando sobre a tela.

Eu mantive os olhos no quadro, mas minha visão periférica a captava. Ela estava diferente daquela noite no iate. Mais controlada. Mais fria. A menina rica assustada que perdera a virgindade comigo havia sido substituída por uma jovem que sabia exatamente o quanto valia, e o quanto os outros não valiam.

A professora entrou exatamente quando o sinal de início tocou — um toque suave, quase musical, nada como o sino estridente da escola pública.

Ela tinha uns cinquenta anos, talvez cinquenta e cinco. Cabelo grisalho preso em um coque severo, óculos de armação grossa de acetato preto, vestindo um tailleur cinza que parecia ter sido costurado sobre o corpo magro e ereto. Seus olhos — cinzentos, frios, avaliadores — varreram a sala como um raio laser. Não havia sorriso de boas-vindas. Não havo "bom dia, alunos". Apenas um silêncio denso que se instalou naturalmente, sem que ela precisasse pedir.

— Sentem-se — disse ela, autoritária, com o sotaque carioca da elite antiga, aquele que pronunciava os "r" de forma suave e os "s" de forma afiada.

Ela foi até a mesa, colocou uma pasta de couro marrom-gastar sobre o tampo de madeira, e escreveu seu nome no quadro digital: Profa. Dra. Helena Vasconcelos. A letra era caligráfica, perfeita.

— Filosofia Política — anunciou ela, virando-se para nós. — Não é matéria para crianças. Não é matéria para quem busca nota fácil. É matéria para quem quer entender como o mundo realmente funciona. Quem não aguentar a verdade, pode sair agora. Não farei perguntas. Não aceitarei desculpas. E não tolerarei ignorância.

O silêncio foi absoluto. Alguém pigarreou no fundo. Helena Vasconcelos nem piscou.

— Começaremos com Maquiavel. Não o Maquiavel das frases de efeito que vocês veem no Instagram. O Maquiavel do poder real. Do cálculo frio. Da pergunta: é melhor ser amado ou temido?

Seus olhos varreram a sala. Quando passaram por mim, pareceram demorar um segundo a mais, como se detectassem algo. Ou talvez fosse imaginação minha.

Ela começou a aula. E para minha surpresa, ela era brilhante. Não havia pausa para risos, para comentários laterais, para o barulho de celulares — embora ninguém ousasse tirar um celular na frente dela. Mas sua explicação era cristalina. Ela traçava paralelos entre o Príncipe e a política brasileira contemporânea, citava fontes sem consultar anotações, desenhava diagramas conceituais no quadro digital com precisão cirúrgica.

— O príncipe — ela disse, escrevendo a palavra em letras grandes — — deve ser leão e raposa. Leão para defender-se dos lobos, raposa para conhecer as armadilhas. Mas acima de tudo, deve parecer ser tudo para todos, enquanto é nada para ninguém. A aparência de virtude é mais importante que a virtude em si.

Eu anotava freneticamente. Ao meu lado, Pamela permanecia imóvel, exceto pelos dedos que ocasionalmente deslizavam sobre o tablet, fazendo anotações digitais. Ela não olhava para mim. Não falava comigo. Mas, em determinado momento, quando Helena mencionou o conceito de "virtù" — a capacidade de adaptação do governante —, eu hesitei na escrita. Não sabia exatamente como grafar o termo em italiano.

Antes que eu pudesse levantar a mão, um bilhete pequeno deslizou da carteira de Pamela para a minha. Eu o peguei discretamente, sob a mesa. Havia uma única palavra escrita em letra cursiva elegante: Virtù. Do latim virtus, qualidade masculina, coragem. Não confundir com virtude moral.

Eu olhei para ela. Pamela não retribuiu o olhar. Seus olhos estavam fixos na professora, a expressão inerte. Mas ela havia me ajudado. Silenciosamente. Sem compromisso.

A aula continuou por noventa minutos — não cinquenta como na escola pública. Noventa minutos de concentração absoluta, de conceitos densos sobre poder, manipulação, controle social. Quando Helena Vasconcelos anunciou o intervalo, foi seca:

— Leiam os capítulos um a três para a próxima aula. Não me venham com desculpas de que não entenderam. Entenderão quando precisarem.

Ela saiu sem olhar para trás, o salto dos sapatos batendo ritmado no mármore do corredor.

O silêncio na sala demorou alguns segundos para ser quebrado. Então, como uma represa que cede, o som das conversas inundou o ambiente. Os riquinhos das janelas se levantaram em grupos, rindo alto, já planejando o que fariam no intervalo. Os estudantes sérios fecharam cadernos com suspiros de alívio. E eu fiquei sentado, processando.

Pamela se levantou. Ela demorou a guardar o tablet, a arrumar a pasta. Por um instante, nossa proximidade física me fez lembrar daquela noite no iate — o corpo dela debaixo de mim, o grito abafado quando perdera a virgindade, o gozo quente dentro dela. Ela deve ter sentido algo similar, porque quando seus olhos finalmente encontraram os meus, havia uma complexidade ali — não era apenas frieza. Era máscara sobre caos.

— Obrigado — murmurei, referindo-me ao bilhete.

Ela assentiu, quase imperceptivelmente. Então se afastou, juntando-se a um grupo de meninas no fundo da sala, todas com o mesmo ar de pedigree canino, o mesmo jeito de olhar para o mundo como se ele lhes devesse algo.

Neguin e Paulo se aproximaram por trás.

— Caralho, mano — Neguin disse, massageando a nuca. — Essa velha é braba. Não entendi metade do que ela falou.

— É por isso que a gente está aqui — respondi, fechando meu caderno. — Para aprender. Vamos. Intervalo.

Saímos da sala. O corredor já estava tomado por alunos. O movimento era diferente da escola pública — não havia correria, não havia gritaria. Havia uma coreografia organizada de privilégio. Grupos se formavam naturalmente, separados por invisíveis muros de classe. Os filhos de embaixadores em um canto, falando em inglês ou francês. Os filhos de empresários em outro, discutindo cotações de bolsa como se entendessem do assunto. E havia nós — os três intrusos, deslocados, observando de fora.

Eu precisava ver Edna e Isabela.

Deixei Neguin e Paulo explorando o corredor — instruí-os a não se afastarem muito — e desci as escadas até o térreo, onde ficava a sala dos professores. Ou melhor, onde deveria ficar. No Colégio Helsing, não havia uma sala dos professores comum. Havia um Lounge Acadêmico — um espaço de couro e madeira, com café gourmet, poltronas de design, e uma atmosfera de clube fechado onde os docentes descansavam entre aulas.

Encontrei-as sentadas juntas em um canto, isoladas. Edna tinha uma pilha de livros sobre a mesa de centro — livros de arte que pareciam pesar toneladas. Isabela segurava um tablet, mas seus olhos estavam vidrados, não focados na tela. Ambas pareciam ter envelhecido cinco anos em uma noite.

— Como vocês estão? — perguntei, sentando-me na poltrona em frente a elas, inclinando-me para frente, mantendo a voz baixa.

Edna levantou o olhar. Seus olhos estavam vermelhos, inchados. Ela tentou sorrir, mas foi um esforço hercúleo.

— Estou tentando preparar aula para daqui a pouco — disse ela — Artes Visuais Avançadas. Eles esperam que eu ensine história da arte como se fosse doutorado em Oxford. Eu tenho mestrado, Matheus, mas não tenho... — ela fez uma pausa, engolindo em seco — — não tenho a postura. Eles sentem. Eles sabem que eu não pertenço aqui.

Isabela nem olhou para mim. Ela continuou encarando o tablet, mas eu via que ela não lia nada. A tela mostrava um documento em branco.

— Isa — chamei, suavemente.

Ela finalmente virou o rosto. O que vi me assustou. Não era apenas cansaço. Era terror existencial. O rosto pálido, os lábios trêmulos, as mãos que apertavam o tablet com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Eu não consigo — ela sussurrou, quase inaudível. — A aula de literatura começa em quarenta minutos. Eu preparei aula sobre Clarice Lispector. Mas eles não querem Clarice. Eles querem teorias pós-estruturalistas, análise de discurso foucaultiano. Eu li Foucault na faculdade, Matheus, mas eu não sei ensinar isso para adolescentes de dezessete anos que já leram tudo em inglês antes de mim.

Ela baixou a cabeça, as mãos cobrindo o rosto.

— Eles me olham como se eu fosse uma impostora. E eles estão certos. Eu sou.

Eu quis tocá-la. Quis segurar sua mão, abraçá-la, dizer que tudo ficaria bem. Mas havia câmeras nos cantos do lounge. Havia outros professores circulando. E havia a Seita, que observava tudo, que transformaria qualquer demonstração de fraqueza em arma contra nós.

— Vocês são competentes — falei, mantendo a voz firme, apesar do coração apertado. — Mais competentes que metade desses doutores aqui. Eles têm pedigree, vocês têm substância. Aguente mais um dia. Apenas mais um dia.

Edna riu, um som sem humor.

— Mais um dia — ela repetiu, amarga. — Até quando, Matheus? Até quando nós aguentamos?

Eu não tive resposta. Pamela apareceu na entrada do lounge, olhando para dentro, procurando alguém. Quando me viu, seus olhos pararam. Ela não entrou — o lounge era restrito a professores eu nem sei como entrei— mas ficou ali, na porta, um aviso silencioso de que meu tempo com as "professoras" havia expirado.

Levantei.

— Tenho que ir — disse a elas. — Qualquer coisa, me liga. Qualquer hora.

Isabela não respondeu. Edna assentiu, já voltando aos livros, já se perdendo naquele mar de inadequação.

Eu sai do lounge sentindo o peso de ter abandonado duas mulheres que confiavam em mim, mesmo sabendo que não havia escolha. Pamela esperava no corredor, encostada na parede, os braços cruzados.

— Amigos íntimos? — perguntou ela, a voz neutra, mas carregada de subtexto.

— Conhecidas — respondi, igualmente neutro.

Ela não acreditou. Mas também não insistiu.

— Vou mostrar a escola venha — disse ela, já se afastando, esperando que eu a seguisse. — Você precisa saber onde está pisando, ou vai ser devorado antes do almoço.

Eu acompanhei. Neguin e Paulo nos encontraram no meio do caminho — Pamela os olhou com desdém leve, mas não disse nada. O tour começou.

O Colégio Helsing era uma cidade dentro da cidade. Pamela me mostrou o Centro de Convenções — onde palestrantes internacionais davam talks aos alunos. O Laboratório de Robótica — que parecia uma fábrica da NASA. A Biblioteca Central — três andares de livros raros, com um bibliotecário que era descendente de reis. O Centro Esportivo — quadras de tênis de saibro, piscina olímpica aquecida, campo de golfe próprio.

Ela falava pouco, mas quando falava, era precisa.

— Aquele grupo ali — ela apontou discretamente para um cluster de cinco rapazes perto da quadra de basquete — — são os predadores naturais deste lugar.

Eu olhei. Eram todos altos, bem-proporcionados, uniformes impecáveis com adaptações sutis — um relógio caro demais, um colar de ouro discreto, um corte de cabelo que custava mais que meu antigo aluguel mensal. O líder era um rapaz de cabelo escuro cacheado, olhos verdes, sorriso fácil que não alcançava os olhos. Ele ria de algo que um dos outros dissera, um riso alto, arrogante.

— Daniel Karam — Pamela disse, a voz baixa, quase um sopro. — Filho de Otávio Karam. Sim, aquele Otávio. Seu pai é sócio da minha família em... vários empreendimentos. Daniel é o príncipe deste lugar. Não oficialmente, mas na prática, o pai dele estava no iate lembra.

— Quem são os outros? — perguntei, mantendo o olhar casual, fingindo interesse na arquitetura.

— Ao lado dele, o loiro alto é Enzo Moreira. Ao lado de Enzo, o irmão gêmeo, Lourenço. Filhos de Dona Catarina Moreira, viúva de um dos maiores empresários do país. Eles têm dinheiro suficiente para comprar este colégio três vezes e ainda sobrar para comprar a cidade. Atrás deles, o ruivo é Rafael Dias, filho do embaixador de Portugal, e o asiático é Kenji Takahashi, herdeiro de um império de eletrônicos.

— Eles são perigosos? — perguntei, já sabendo a resposta.

Pamela riu, um som seco.

— Daniel odeia perder. Enzo odeia quem não nasceu em berço de ouro. Lourenço odeia quem olha para ele por mais de três segundos. Rafael odeia quem não fala três idiomas fluentemente. E Kenji... Kenji odeia todo mundo, mas esconde bem. — Ela me olhou de lado. — Vocês três — ela indicou Neguin e Paulo, que nos seguiam a distância respeitosa — — já chamaram atenção negativa. Uniforme mal-ajustado, postura de quem veio da rua, mochilas erradas.

— E eu? — perguntei.

Ela parou de andar e me encarou. Seus olhos — castanhos, quase dourados na luz da manhã — me examinaram com uma intensidade que me fez lembrar daquela noite no iate, quando ela pedira que eu tirasse a camisinha.

— Você — ela disse, devagar — — é o mistério. E Daniel odeia mistérios que ele não pode resolver.

Como se tivesse ouvido seu nome, Daniel Karam levantou o olhar. Seus olhos verdes encontraram os meus. O sorriso fácil desapareceu, substituído por uma máscara de avaliação fria. Ele disse algo aos amigos, que também viraram para olhar. O grupo de cinco começou a caminhar em nossa direção.

— Prepare-se — Pamela murmurou, dando um passo atrás, me deixando na linha de frente. — O teste de fogo chegou mais cedo que eu esperava.

Daniel parou a dois metros de distância. Ele era mais alto que eu, talvez um metro e oitenta e cinco, com uma postura atlética de quem pratica esportes desde que nasceu. Seus olhos varreram meu uniforme, minha mochila, meus sapatos — ainda não trocados, ainda os da escola pública que Ricardo mandara entregar, mas que não eram de grife adequada.

— Novato — Daniel disse. Não era uma pergunta. — Transferido da... onde mesmo? Ah, sim. Daquela escola pública no Morro do Guri. Ou era na favela mesmo? Difícil distinguir.

Seus amigos riram. Um riso ensaiado, de coro.

Eu mantive a expressão neutra. Não baixei o olhar, mas também não o desafiei abertamente. Maquiavel, pensei. Leão e raposa.

— É da pública sim — respondi, a voz calma. — E você é o Daniel. Filho do Otávio. Ouvi falar.

A expressão dele mudou levemente. Ele não esperava que eu soubesse quem ele era. Ou talvez esperasse, mas não da forma como eu disse — sem reverência, sem medo, apenas constatando fatos.

— Ouviu falar? — ele repetiu, dando um passo mais perto. — De quem? Da sua amiguinha rica aqui? — ele indicou Pamela com o queixo, sem olhar para ela. — Ela gosta de projetos sociais. Gosta de pegar lixo da rua e trazer para casa. Depois joga fora quando enjoa.

Pamela não respondeu. Seu rosto permaneceu inerte, mas eu vi a mandíbula trancar.

— Não — eu disse, dando um passo também, diminuindo a distância entre nós. — Ouvi falar do seu pai. Dos negócios dele. Do iate. Das festas. — Eu sorri, um sorriso pequeno, frio. — Parece que ele gosta de diversão. De coisas... exóticas.

O rosto de Daniel endureceu. Ele sabia exatamente a que eu me referia. Ou desconfiava. O iate. As festas. A Seita. Ele não sabia se eu era um convidado, um servo, ou uma ameaça. E essa incerteza era minha única vantagem.

— Você está me ameaçando? — ele perguntou, a voz baixando, ficando perigosa.

— Estou me apresentando — respondi. — Matheus. Prazer. Sou o tipo de problema que não se resolve com dinheiro. Aprendi isso na... como você disse... favela.

O silêncio ficou denso. Neguin e Paulo se aproximaram, sentindo a tensão, prontos para intervir. Os amigos de Daniel também se posicionaram, formando um semicírculo. Era cinco contra três, mas a matemática não importava. O que importava era quem piscaria primeiro.

Foi Pamela quem quebrou.

— Daniel — ela disse, a voz clara, autoritária, diferente do tom que usara comigo. — Aula vai começar em dez minutos. E você sabe que sua mãe verifica as câmeras pra te ver. Você quer explicar por que está ameaçando um bolsista no primeiro dia de aula?

A palavra "bolsista" saiu estranha da boca dela — não como insulto, mas como escudo. Ela me colocava na categoria de protegido da escola, não como intruso, mas como projeto legítimo. Isso mudava as regras. Daniel não podia simplesmente me destruir sem explicações.

Ele me encarou por longos segundos. Então o sorriso fácil voltou, mas agora era venenoso.

— Claro, Pam — ele disse, dando um passo atrás, levantando as mãos em gesto de rendição falsa. — Não quero problemas. Só estava sendo... hospitaleiro.

Ele me olhou diretamente nos olhos.

— Bem-vindo ao Helsing, Matheus. Vamos nos ver muito por aqui.

Ele virou as costas, seus amigos o seguindo, risos baixos, comentários que não consegui ouvir. Mas o recado estava dado. Eu havia sido marcado. E agora eu tinha um inimigo que tinha recursos para destruir não apenas mim, mas todos ao meu redor.

Pamela soltou um suspiro que parecia ter segurado por minutos.

— Você é louco — ela disse, mas havia algo como admiração em sua voz. — Ou muito corajoso. Ou muito estúpido.

— Talvez os três — respondi, sentindo as pernas trêmulas agora que a adrenalina começava a baixar.

— Vem — ela disse, já se afastando. — Vou mostrar o resto. E você — ela olhou para Neguin e Paulo — — fiquem longe do Daniel. Ele tem memória longa e braços mais longos ainda.

Nós a seguimos. O resto do tour foi um borrão — mais salas, mais laboratórios, mais espaços de luxo que eu não conseguia processar. Minha mente estava em Daniel Karam. Em seu pai. No iate. Na Seita. E em como, em menos de uma manhã, eu já havia criado um inimigo que poderia ser minha sentença de morte.

Quando o sinal tocou para o retorno às aulas, Pamela me deixou na porta da sala 12-B. Ela hesitou, a mão na maçaneta.

— Matheus — ela disse, baixo, sem olhar para mim. — Aquela noite... no iate. sobre a camisinha. Não contei a ninguém. Nem ao meu pai. Nem à minha mãe. Especialmente não à minha mãe.

Eu assenti, sem saber o que dizer.

— Mas se você me fizer de idiota aqui — ela finalmente virou o rosto, e seus olhos eram duros — — se você me usar ou me expuser, eu não terei piedade. Eu tenho recursos que você nem imagina. E eu sei onde você mora agora.

Ela entrou na sala, deixando-me no corredor, com a advertência pairando no ar como fumaça.

Neguin veio até mim, a voz baixa, preocupada:

— Mano, o que a gente faz agora? Aquele cara vai te comer vivo.

Eu olhei para a porta da sala, para o mundo de privilégio e perigo que existia além dela.

— Agora — eu disse, ajustando a gravata, sentindo o peso do anel da Seita no bolso, escondido, frio contra minha pele — — agora a gente joga o jogo deles. Só que a gente joga melhor né.

Entrei na sala. Pamela já estava sentada em sua carteira, olhando para a frente, a máscara de indiferença perfeitamente colocada. Eu sentei ao lado dela. Ela não olhou. Mas quando abri meu caderno, encontrei outro bilhete já sobre a mesa, em sua letra cursiva:

Daniel já mandou investigar você. Cuidado com o que come.

Eu olhei para ela. Ela não retribuiu. Mas havia um quase sorriso no canto de seus lábios.

O primeiro dia de aula no Colégio Helsing estava apenas na metade. E eu já sabia que esta escola não seria apenas um novo capítulo. Seria uma nova guerra.

Uma guerra onde eu era soldado raso, em território inimigo, cercado por tubarões que usavam uniforme de grife e sorrisos de predadores.

E a única pessoa que parecia disposta a me ajudar — Pamela, a filha de Barreto, a menina cuja virgindade eu havia tomado no iate — era também a pessoa que mais motivos tinha para me destruir.

Naquela tarde o sol já se punha sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas quando atravessei o portão do Colégio Helsing pela última vez naquele dia. As sombras se alongavam entre as palmeiras imperiais, e o ar da noite carioca chegava úmido, carregado de sal e poluição. Meu corpo doía — não fisicamente, mas de uma exaustão existencial que parecia ter se instalado nos ossos desde aquela confrontação com Daniel Karam.

Os apartamentos dos funcionários e bolsistas ficavam num anexo lateral, separados do prédio principal por um jardim zen de pedras brancas e bambus que fariam qualquer jardineiro japonês chorar de inveja. Meu apartamento — 4B — era funcional, frio, com móveis de design escandinavo que pareciam mais adequados para uma revista de arquitetura do que para serem usados por humanos reais.

Deitei-me na cama king-size, olhando para o teto branco e liso. O ar-condicionado zumbia baixo, mantendo o quarto em uma temperatura glacial que contrastava com o calor do meu sangue. Meus olhos pesavam, mas a mente não parava. Imagens do dia se sucediam em flashes desordenados: o olhar predatório de Daniel, o bilhete de Pamela, o desespero de Isabela no lounge dos professores, a frieza calculada de Helena Vasconcelos.

E então, como um raio de lucidez em meio à névoa, lembrei dela.

Minha mãe.

Será que ela se adaptara ao novo apartamento? Ricardo prometera que seria seguro, confortável, que ela teria tudo que precisasse para continuar o tratamento. Mas eu não a vira desde que chegara ao Helsing. Desde antes disso, na verdade — desde aquela noite no hospital, quando a abracei e prometera que cuidaria de tudo.

Senti uma pontada de culpa. Eu estava tão envolvido em meu próprio inferno — a Seita, Isabela, Edna, o Colégio, O Núcleo — que havia esquecido a mulher que sacrificara tudo por mim.

Tinha o endereço. Ricardo me enviara por mensagem na semana passada, junto com um conjunto de chaves que eu guardara no fundo da mochila, esquecidas. Apartamento 12, Edifício Solaris, dizia a mensagem. Rua General Venâncio Flores, 45.

Levantei-me, o corpo protestando. Tomei um banho rápido, troquei o uniforme por roupas civis — calça jeans simples, camiseta preta, tênis surrados que eram os únicos remanescentes da minha vida anterior. Olhei-me no espelho. Parecia mais velho. Os olhos tinham um fundo escuro, círculos de insônia e segredos.

Peguei o Corolla Cross que Ricardo mantinha à minha disposição e dirigi pela Linha Amarela, o trânsito noturno fluido, quase surreal. A Barra da Tijuca se revelou como sempre fora: uma cidade dentro da cidade, arranha-céus de vidro refletindo as luzes da noite, shoppings vazios, ruas largas demais.

O Edifício Solaris era um prédio novo, moderno, com segurança na portaria e câmeras em todos os cantos. O porteiro me reconheceu — ou reconheceu o carro — e liberou a entrada sem perguntas. O apartamento 12 ficava no terceiro andar.

Toquei a campainha. O som foi ecoar dentro do apartamento, vazio por alguns segundos. Então ouvi passos apressados, a tranca sendo destravada.

A porta se abriu.

Minha mãe estava ali, usando um vestido simples de algodão azul, cabelo preso em um coque desfeito, óculos de leitura pendurados no pescoço. Ela parecia... diferente. Mais corada. Mais viva do que naquele hospital. Mas também mais tensa, como se carregasse um peso invisível.

— Matheus! — ela exclamou, surpresa, as mãos voando para cobrir a boca. — O que você faz aqui? Está tudo bem?

— Está — menti, forçando um sorriso. — Vim ver como você está. Posso entrar?

Ela hesitou por um segundo quase imperceptível, depois abriu a porta mais largo. — Claro, filho. Entra.

O apartamento era agradável, espaçoso para uma pessoa só. Sala com vista para a lagoa, cozinha americana equipada, dois quartos. Mas havia algo estranho no ar — uma tensão, como se o ambiente estivesse esperando por algo. Ou como se escondesse algo.

Sentamos no sofá de couro bege. Ela trouxe água para mim, e eu percebi que suas mãos tremiam levemente ao colocar o copo sobre a mesa de centro.

— Você está bem? — perguntei, pegando sua mão. — O tratamento? Os médicos?

— Estou bem, filho. Estou bem. — Ela sorria, mas o sorriso não alcançava os olhos. — O apartamento é lindo. Muito confortável. Ricardo... o senhor Ricardo... tem sido muito gentil.

Havia algo na forma como ela disse o nome de Ricardo. Uma familiaridade que me incomodou.

— Mãe — comecei, hesitante. — Eu preciso te perguntar uma coisa. É sobre... uma amiga minha.

Ela ergueu uma sobrancelha, curiosa.

— Pamela — continuei. — Ela é... filha de pessoas que conheci. A mãe dela é a Lucia. Lucia Barreto. Ela era atriz, famosa antigamente.

O rosto da minha mãe mudou. Não foi uma mudança sutil. Foi uma transformação completa — a cor sumiu de suas bochechas, seus olhos se arregalaram, e ela recuou no sofá como se eu tivesse mencionado um fantasma.

— Como... — ela balbuciou, a voz falhando. — Como você conhece ela? A Lucia?

— É mãe de uma amiga minha — repeti, confuso com a reação. — Por quê? Você a conhece?

Minha mãe não respondeu imediatamente. Ela olhou para as próprias mãos, que agora tremiam visivelmente. — Não... não exatamente. Só de nome. De... de ver na TV.

Algo na forma como ela disse isso soou falso. Profundamente falso. Eu a conhecia bem demais para não perceber.

— Mãe — pressionei, inclinando-me para frente. — O que está acontecendo? Por que você está assim?

— Não é nada, filho. Só estou cansada.

— Não é nada — insisti, a voz subindo de tom sem que eu pudesse controlar. — Você fica pálida só de ouvir o nome de uma ex-atriz? Tem algo que você não está me contando. Tem algo a ver com... com a Seita?

A palavra escapou antes que eu pudesse contê-la. Não foi planejado. Foi um reflexo, um acidente de linguagem que carregava todo o peso dos meus últimos meses.

O efeito foi elétrico.

Minha mãe congelou. Seus olhos — meus olhos, a mesma cor castanha, o mesmo formato — se arregalaram de um terror que eu nunca vira antes. Não era medo comum. Era pavor existencial, o tipo de medo que se reserva para monstros reais, não imaginários.

— Como... — ela sussurrou, a voz saindo como um fio de seda. — Como você sabe dessa palavra? Como você sabe da Seita?

O sangue gelou nas minhas veias. Ela sabia. Ela não estava perguntando o que era. Estava perguntando como eu sabia.

— Mãe...

— Responde! — ela gritou, levantando-se abruptamente do sofá, as mãos tremendo no ar. — Como você sabe? Quem te contou? Foi ele? Foi o Augusto?

— Eu sou membro — eu disse, a voz saindo mais firme do que eu sentia. — Entrei há semanas. Ricardo me recrutou. Eu subi de nível. Estou no 12 agora.

O impacto foi físico. Minha mãe cambaleou, como se eu tivesse dado um soco em seu estômago. Suas pernas cederam, e ela caiu de joelhos no carpete, as mãos cobrindo o rosto. Um som saiu dela — não um grito, mas um gemido profundo, animal, de uma dor que parecia ter sido reprimida por décadas.

— Não... — ela chorou, o corpo sacudindo. — Não, não, não... não era para isso acontecer. Ele prometeu. Ele prometeu que você estaria seguro. Que nunca saberia. Que nunca entraria.

Eu me ajoelhei ao lado dela, tentando segurá-la, mas ela se encolheu, resistindo ao meu toque.

— Mãe, por favor — eu implorei, o pânico crescendo em mim. — Quem prometeu? Do que você está falando? Como você sabe da Seita?

Ela levantou o rosto, molhado de lágrimas, a maquiagem borrada, e me olhou com uma mistura de amor e desespero que partiu meu coração.

— Augusto — ela sussurrou. — Augusto prometeu.

O nome caiu entre nós como uma sentença.

— Como você conhece o Seu Augusto? — perguntei.

Ela riu, um som horrível, quebrado, sem alegria. — Conheço? Matheus... Augusto é meu irmão. Meu irmão mais velho.

O mundo parou.

As peças do quebra-cabeça caíram em lugar, mas formavam uma imagem que eu não queria ver. Augusto. A mãe. A Seita. A proteção. O dinheiro. O tratamento médico pago. A bolsa no Helsing. Tudo. Tudo fazia sentido agora, de uma forma horrível.

— Você nunca me disse que tinha um irmão — falei, a voz oca. — Você disse que sua família tinha morrido. Que não tinha ninguém.

— Era para você acreditar nisso! — ela gritou, agarrando meus braços com força surpreendente. — Era para você estar seguro! Longe disso tudo! Eu dei minha vida por você, Matheus. Deixei minha família, minha casa, meu nome, minha posição. Casei com seu pai, um homem honrado , que lutou contra o mundo deles. Fizemos uma vida normal. Uma vida limpa.

Ela soluçou, as unhas cravando na minha pele.

— Quando você nasceu, Augusto veio me ver. Disse que você tinha... potencial. Que era especial. Que a Seita sempre observava. Eu implorei a ele. Chorei. Disse que daria qualquer coisa para você ter uma vida normal. Longe disso. Longe deles.

Ela me olhou nos olhos, o rosto contorcido em dor.

— Ele prometeu que te deixaria em paz. Que você cresceria sem saber. Que eu nunca precisaria te contar. E agora... agora você está dentro. Você é um deles.

Eu a abracei, sentindo o corpo dela tremer contra o meu, sentindo o peso de uma história que eu nunca suspeitara.

— Por que você nunca contou? — sussurrei no ouvido dela.

— Porque seu pai não... — ela disse, a voz abafada contra meu ombro. — Ele nunca soube muito. Pensei que se ele soubesse toda a verdade... que se você soubesse... vocês seriam alvos. E agora você é. Eles não deixam ninguém sair, Matheus. Ninguém. Você sabe demais. Você é deles agora.

Ela se afastou, segurando meu rosto entre as mãos.

— Prometa uma coisa — ela disse, a voz urgente, desesperada. — Nunca diga a palavra Seita perto do seu pai. Nunca. Ele sabe da seita mas não sabe do Augusto. E não pode saber. Ele é um homem bom, filho. Um homem simples. Isso o destruiria. Prometa.

— Mãe...

— Prometa! — ela gritou, sacudindo meu rosto. — Diga que promete, Matheus. Diga!

— Eu prometo — eu disse. — Eu prometo, mãe.

Ela desabou contra mim, chorando silenciosamente, o corpo inteiro sacudindo com soluços contidos. Eu a segurei, sentindo o peso da herança que eu carregava sem saber. Augusto era meu tio. Meu tio materno. O homem mais poderoso da Seita no Rio de Janeiro talvez no Brasil. E eu, seu sobrinho, estava sendo usado como peça no tabuleiro dele, sem nunca ter sido consultado.

Ficamos ali no chão da sala por longos minutos, mãe e filho, unidos por um segredo que agora nos aprisionava aos dois. Quando ela finalmente se acalmou, eu a ajudei a sentar no sofá, trouxe água, fiquei ao lado dela até que suas pálpebras pesassem.

— Vou embora — eu disse, beijando sua testa. — Mas vou voltar. E vamos resolver isso.

Ela assentiu, os olhos já fechando, exaustos. — Toma cuidado, filho. Por favor. Não era para você saber. Não era para você entrar.

Saí do apartamento sentindo que carregava um novo peso, um novo segredo que mudava tudo. Augusto não era apenas um mentor, um chefe distante. Era família. E isso tornava tudo mais perigoso, mais pessoal, mais irreal.

Voltei para o Colégio Helsing em transe. Dirigi no piloto automático, as mãos firmes no volante enquanto a mente girava. O anexo dos apartamentos ficava ao lado do prédio principal, conectado por uma passagem subterrânea que poucos usavam. Eu sempre preferia o portão principal, a rua, o ar livre. Mas hoje entrei pela passagem, sentindo-me como um fantasma em minha própria vida.

O corredor do apartamento 4B estava silencioso. Passei devagar pelo quarto de Isabela — 4C. A porta estava fechada, mas havia luz por baixo. Toquei levemente. Nenhuma resposta. Toquei de novo.

— Isabela? — chamei baixo.

Nada.

Preocupado, fui até o quarto de Edna, 4E. Toquei a campainha. Esperei. A porta se abriu.

Edna estava em pé, usando um pijama de seda simples, cabelo molhado de banho, óculos de leitura na cabeça. Ela parecia surpresa de me ver, mas não desagradavelmente.

— Matheus — ela disse, a voz suave. — O que você faz aqui? Está tudo bem?

— Procurei a Isabela — eu disse, a voz rouca de cansaço. — Ela não está no quarto.

— Ah. — Edna assentiu, compreensiva. — Ela disse que ia ficar na biblioteca até tarde. Até as vinte e três horas, ela falou. Está desesperada para não passar vergonha amanhã nas aulas.

Eu suspirei, o peso do dia inteiro caindo sobre meus ombros.

— Você está bem? — Edna perguntou, percebendo algo em meu rosto. — Você parece... destruído.

— Longa história — eu disse, tentando sorrir e falhando.

Ela me estudou por um momento, aqueles olhos maduros e perspicazes vendo através da máscara que eu tentava manter. Então ela deu um passo para o lado, abrindo a porta .

— Quer entrar? — ela perguntou, a voz baixa, íntima. — Posso fazer um chá. Ou... posso apenas ficar com você. Você parece precisar de alguém.

Eu a olhei. Edna. A primeira mulher que eu destruíra na Seita. A que eu prometera proteger. A que agora estava aqui, oferecendo refúgio sem fazer perguntas.

— Sim — eu disse, entrando. — Eu preciso.

O apartamento de Edna era diferente do meu. Mais quente. Havia livros empilhados em toda parte — não apenas de arte, mas de literatura, filosofia, poesia. Velas perfumadas queimavam em cantos, criando sombras dançantes nas paredes. E havia uma cama de casal, grande, convidativa, coberta por um edredom de linho macio.

Ela fechou a porta atrás de mim e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, envolveu-me em um abraço. Não foi um abraço sexual. Foi de conforto, de compreensão, de duas almas quebradas que reconheciam uma a outra.

— O que aconteceu? — ela sussurrou no meu ouvido, segurando-me forte.

— Descobri que minha família está mais envolvida nisso do que eu imaginava — eu disse, a voz abafada contra seu ombro. — Descobri que nada é o que parece. Que eu sou um peão em um jogo que começou antes de eu nascer.

Ela se afastou, segurando meu rosto entre as mãos. Seus olhos buscaram os meus.

— Então vamos esquecer tudo por uma noite — ela disse, e havia uma determinação em sua voz que eu não esperava. — Vamos lembrar que ainda somos humanos. Que ainda podemos sentir prazer, conexão, calor. Deixe o mundo lá fora, Matheus. Só por algumas horas.

Ela se aproximou e me beijou. Não foi um beijo de desespero, como com Isabela no motel. Não foi um beijo de violência, como com Lucia. Foi um beijo de cura. Lento, profundo, cheio de promessas silenciosas.

Minhas mãos encontraram a cintura dela, sentindo a seda do pijama deslizar sob meus dedos. Ela não usava nada por baixo — eu percebi isso quando minhas mãos subiram, encontrando pele nua, macia, quente. Edna gemeu baixo no beijo, arqueando o corpo contra o meu.

— Vamos para o quarto — ela sussurrou, puxando minha mão.

A cama era macia quando caímos sobre ela, os corpos se entrelaçando naturalmente. Edna tirou minha camiseta por cima da cabeça, depois desfez a calça jeans, liberando meu pau já duro, pulsando com a necessidade de esquecer, de sentir, de estar vivo. Ela deslizou o pijama pelos ombros, revelando o corpo maduro que eu conhecera bem — seios grandes, ainda firmes apesar dos quarenta anos, barriga suave, curvas que falavam de uma vida vivida.

— Deixa eu te fazer sentir bem — ela sussurrou, empurrando-me de costas na cama.

Ela desceu, beijando meu peito, minha barriga, até engolir meu pau em sua boca quente e úmida. Não foi rápido ou brutal. Foi adorador, reverente. Ela chupou devagar, a língua circulando a cabeça, as mãos massageando as bolas, olhando para mim através de cílios pesados, buscando aprovação.

Eu gemei, as mãos no cabelo dela, não puxando, apenas segurando, sentindo a conexão. Ela continuou por minutos, trazendo-me à beira do orgasmo, depois parando, sorrindo com malícia.

— Ainda não — ela disse, subindo sobre mim.

Ela guiou meu pau para a entrada da buceta, já molhada, pronta, e desceu devagar, sentindo cada centímetro entrar. Nós dois gememos em uníssono, os olhos travados, a conexão profunda. Ela começou a cavalgar, movimentos lentos, circulares, profundos, buscando não apenas o prazer físico, mas a intimidade que nos haviam roubado.

— Você é tão bonito — ela sussurrou, inclinando-se para beijar meu pescoço enquanto rebolava. — Tão forte. tão jovem, você lindo, gostoso.

Eu segurei sua cintura, ajudando o ritmo, sentindo cada estocada como uma afirmação de vida. Ela acelerou, os seios balançando na minha frente, e eu os segurei, chupando os bicos, fazendo-a gemer mais alto.

Viramos, colocando-a de costas, e eu entrei profundamente, metendo com força mas sem violência, buscando o ponto que a fazia arquear as costas. Encontrei. Ela gritou, as unhas na cama rasgando o lençol pedindo mais, mais fundo, mais forte.

O sexo durou longos minutos, uma dança de duas almas cansadas buscando refúgio um na outra. Quando ela gozou, foi com um grito abafado, o corpo convulsionando, a buceta apertando meu pau em espasmos ritmados. Eu gozei segundos depois, enchendo-a, caindo sobre ela, ofegante, suado, mas pela primeira vez naquele dia, em paz.

Ficamos abraçados por longos minutos, o suor esfriando em nossos corpos, o silêncio confortável. Edna acariciava meu cabelo, murmurando palavras de conforto, de apoio, de promessas de que sobreviveríamos juntos.

— Você precisa ir — ela disse finalmente, quando o relógio marcava quase vinte e duas horas. — Isabela pode voltar a qualquer momento. E... não seria justo com ela.

Eu assenti, entendendo. Beijei-a profundamente, uma última vez, vesti-me devagar, ainda em transe.

— Obrigado — eu disse na porta, olhando para ela, nua e linda sob a luz amarela do quarto.

— Volte quando precisar — ela respondeu, o sorriso triste mas genuíno. — Estou aqui sou sua puta lembra.

Voltei para meu apartamento, o 4B, fechando a porta e encostando nela, sentindo o coração ainda acelerado. O silêncio do lugar era opressivo agora, carregado de segredos.

Deitei na cama, olhando para o teto, e deixei que a realidade me atingisse em ondas.

Augusto era meu tio. Minha mãe era irmã do homem mais poderoso da Seita. Eu era sobrinho dele, sangue dele, e estava sendo usado como peça em um jogo que eu não entendia completamente. Pamela era filha de um sócio de meu tio. Daniel Karam, filho de outro. O Colégio Helsing era um campo de batalha disfarçado de instituição de ensino. E eu, Matheus, um rapaz de dezenove anos que só queria proteger a mulher que amava, estava afundando em um oceano de sangue, traição e poder que se estendia por séculos.

O Núcleo. A Seita. Minha família. Minha mãe chorando no chão. A promessa que fizera. A herança que eu não pedira.

Fechei os olhos, sentindo o peso de tudo. Amanhã eu ajudaria Isabela, tentaria explicar o que sentia, tentaria protegê-la de um mundo que agora sabia ser mais perigoso do que imaginara. Amanhã eu lidaria com Daniel Karam, com Pamela, com as aulas, com as missões.

Mas agora, na escuridão do meu quarto, eu permiti-me sentir o medo. O medo real, frio, de quem descobriu que nasceu dentro de uma prisão que achava ser o mundo.

E pela primeira vez desde que entrara na Seita, eu não sabia se conseguiria sair vivo. Ou se queria sair. Porque agora eu sabia: o sangue que corria em minhas veias já era deles. Sempre fora.

O sono veio pesado, carregado de sonhos de rostos distorcidos, de Augusto sorrindo, de minha mãe chorando, de um futuro que se desenhava escuro e inevitável.

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Comentários

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Interessante... gostei da interação da Pamela e do Matheus. Fica mais real, até pelas idades, maturidades. Sem falar que o cara que tira sua virgindade, marca. Pelo jeito ela gosta dele e é bom ter uma aliada ali na escola. Nesse sentido, se ele for crescer e buscar mais segurança na seita, ela seria uma grande parceria.

Edna é sem dúvida a mulher mais sortuda, ela não passou um terço do que passou Isabela, na questão do estrupo coletivo, com certeza muito mais traumático. Não teve missão difícil, e acima de tudo tem um jovem dotado que faz tudo do jeito que ela quer e quando ela quer, a disposição de seus desejos e vontade. É a mulher que mais se da bem com certeza na série. Tem exigências, mas tem o melhor dos panoramas.

Agora, Mateus diz amar Isabela, mas da mais carinho pra Edna, difícil compreender. Foi mal começar a mentir pra Isabela. Transando e fingindo por trás dela. Até agradecendo no final, como verdadeiros apaixonados... A mulher já ta quebrada, descobrir que o seu porto seguro, é o cachorrinho no cio de sua parceira... É pra se suicidar mesmo. Afinal, com Edna não se trata de missão, ele a procurou e faz porque quer... acho estranho esse romance...

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