Primeiro fico olhando para o nada. Encarando uma parede chata pintada de branco, sem nenhum enfeite. Se pensar bem, nesta casa não tem nada de enfeite, nada “supérfluo”, é extremamente austero. Mas ainda tem aquele cheiro de construção nova, de cimento, de tijolo.
Depois vou pegar meu celular, mas nem chego a abrir nada. Coloco o despertador e não tenho coragem de dar a mínima chance para algo furar a minha bolha aqui. Sei que estou fazendo merda. Sei que não devia estar aqui me sujeitando a estas coisas, e sei que se eu pensar direito vou ter que sair por aquela porta e.....e.....e..... perder Roberto?
Não posso isso. Então até o alarme tocar eu encaro a parede e nada mais.
Coloco a ração para o Thor, que nem se digna a me olhar e depois vou direto ver o que tem para fazer de comida. Escolho fazer um arroz, e uns nuggets no forno e descongelo o feijão.
Cozinho coisas bem básicas, da época da faculdade. Espero que agrade ele... talvez assim seu humor melhore um pouco.
Assim que ele entra pela porta eu acabo de colocar a mesa e o encaro com um sorriso no rosto. Fiquei feliz de ver que voltou. Não sei como, nem porque, mas fiquei.
- Vem, vou mijar. Você já sabe como ficar – eu corro atrás dele, me ajoelho, coloco o rosto no lugar certo e fico vendo aquele jato forte.
- O que tem hoje?
- Nuggets, arroz e feijão senhor
Ele faz cara feia, se senta e começa a comer. Realmente esse homem esta com fome, devora tudo em minutos.
- Quero 2 ovos
Eu levanto rapidinho, tanto que fico tonto e vou fazer. O óleo espirra n minha barriga nua, mas eu nem reclamo. Não posso falar nada. Será que gritar é falar?
Coloco-os em seu prato e me ajoelho onde ele manda. Roberto aperta meu maxilar até eu abri a boca e enfia um dedo grosso e com gosto estranho dentro, pegando a minha língua e puxando para fora com força. Dói.
Em cima sinto um pedaço de ovo. O cheiro me atinge e a vontade de mastigar e engolir é pungente. Mas não quero outro soco, então fico parado.
Acho que nunca fiquei tão parado na minha vida.
Roberto simplesmente se levanta, sai nos fundos e depois entra no banheiro. Eu fico com a língua para fora e me babando inteiro não sei por quanto tempo. Mas o suficiente para ele sair do banho e entrar de pau balançando no quarto.
- Engole – eu avidamente como o pedacinho de gema que estava na minha língua. É pouco, só atiça mais meu estomago, mas eu faço rápido, e logo o sigo para o quintal
É um espaço bem grande, eu diria que uns 100m2 ou mais. Tem a mesma cerca de modo continuo e acaba no que parece ser um matagal, ou algum tipo de mata. Estamos realmente no meio do nada, não me estranha nem um pouco essa quantidade de natureza, mas me espanta o tamanho. Não pode ter sido barato.
A uns 40 metros tem uma casinha de tijolo grande, que eu acho ser do Thor, e nada mais.
- Eu vou te ajudar desta vez, mas a partir de agora é responsabilidade sua se manter limpo para mim, entendeu?
- Sim senhor – animado por tomar um banho. Olho ao redor e não vejo nenhum chuveiro, mas pelo menos eu vou poder tirar a nhaca.
Ele pega uma mesa baixinha e eu me posiciono de 4 em cima, com os braços altos, “facilitando o acesso” e já me animo. Alguma parte de mim quer sentir sua mão contra meu corpo, me ensaboando, escorregando pela minha pele macia.
- Se cair eu acabo de quebrar essa costela – ele fala, me tirando dos meus pensamentos e o olhando assustado. Em sua mão tem uma mangueira de lavar quintal com uma ponto afinada e ele de uma vez só enfia dentro de mim.
Arde, dói, me traz lagrimas, mas é algo que eu consigo aturar. o que não dá é a pressão que começa a fazer dentro de mim. É horrível. Realmente horrível. Começo a chorar e a fazer de tudo para expulsar, mas não sou pareô a sua mão segurando. Tento sair, mas o medo me atinge.
- Vou tirar. Você vai segurar. Entendeu?
Fico calado e ele coloca a mão sobre a lateral do meu corpo pressionando. A dor compete bem então digo um “sim senhor”
Quando ele manda eu me levantar, nunca prendi tanto o meu esfíncter. É a pior coisa que já passei.
- Ali – seu dedo aponta para uma arvore – é onde você pode cagar. Se abaixa e solta. Se se melecar não vai gostar do que vou fazer – sua voz é dura, e eu me arrepio enquanto choro.
Tento correr até o ponto, mas quase me cago todo, então vejo que vou ter que ir andando devagar.
Morrendo de vergonha eu fico de cócoras e solto uma merda escura, mole e fedida.
- Volta – eu abaixo o rosto, me sentindo o pior dos homens e obedeço.
Acho que toda a minha dignidade foi jorrada junto com aquela diarreia.
O monstro repete mais 4 vezes, até que a água sai límpida, aumentando cada vez mais o tempo que eu tenho que reter a e me dando mais e mais cólica. Eu já choro copiosamente enquanto as dores me atingem até a parte que parece ter um bicho dentro de mim.
Quando volto a subir na mesa pela 5ª vez eu já não acho mais nada. Já fui capaz disso. Serei mais do que?
As mulheres com que me relacionei sempre estavam limpas, mas era chuca, quentinha, feita com calma. Eu nunca vi, mas tenho certeza de que elas nunca sofreram isso. Eu nunca vi ninguém sofrer assim. As cólicas eram horríveis, a mangueira era horrível. O homem ministrando é horrível.
Nem uma vez ele falou nada além de “vai” e “volta”, ou me deu qualquer tipo de conforto. Pelo contrário, ele está tratando isso como algo tedioso que ele tem que fazer.
Eu sofrendo aqui, me sentindo o pior dos homens, é algo cotidiano, uma parte chata do seu dia.
- Pronto. Última vez.
Eu subo na maldita mesinha e sinto minhas entranhas enchendo. É muita água, agua gelada, que me faz tremer. As cólicas começam e eu já conto até 300, mas dessa vez ele não para, nem me manda ir lá, apenas coloca a mão por baixo e começa a massagear minha barriga.
O monstro faz movimentos circulares, que nem se faz em neném e o bicho dentro de mim parece que é um dragão soltado fogo.
Eu já estou em prantos, gritando e tentando sair, mas ele joga uma perna por cima de mim e me prende de algum modo na posição.
Como esse homem consegue ser tão forte assim?
- Calma caralho. Vai doer mesmo, mas você vai ser um buraco decente e aguentar o que eu quiser.
Foda-se ele eu quero, preciso sair daqui.
Mas ao mesmo tempo a sua mão me alisando é uma distração e eu tento focar nisso, nos calos me tocando.
- Vai – dessa vez eu realmente saio correndo, o caminho já é conhecido, a arvore fedida e nojenta é a melhor coisa do mundo. Depois de me aliviar eu levanto apoio a testa no tronco e minhas pernas quase fraquejam. Só não me deixo cair porque debaixo de mim parece que tem litros de merda.
Muita merda mesmo. Nem sabia que tinha isso dentro de mim.
- Volta – eu vou cambaleando até ele, tonto de dor, zonzo de vergonha. O que eu estou deixando acontecer comigo?
Porque eu simplesmente não consigo ir embora? O que este homem tão abaixo de mim tem?
Eu sou bonito. Sou rico. Sou inteligente. E ele é o que? Um velho gordo, com um carro cheio de durepox, que mora no fim do mundo?
E eu estou aqui, apanhando, com fome, sofrendo dores horríveis a troca de que?
De nada. Porque ele não me prometeu nada. Apenas me disse que um dia vai me fuder, que eu vou apanhar, que eu não sou nada nem ninguém aqui.
Chego na sua frente e desabo no chão. Caio primeiro sentado e depois me deito, precisando descansar. Não é algo que posso controlar, é uma necessidade do meu corpo.
- Você é um buraco muito fraco – ele ri do meu lado – mas eu gosto de treinar vocês para mim.
Roberto começa a rir e eu fecho os olhos. Continuo chorando, gemendo, fungando, é um choro feio, nojento, dolorido.
E não abala em nada meu “senhor”, meu “dono, meu “mestre”.
- Ó é o horário do jogo, como eu tou te dando uma colher de chá esse fim de semana, você pode ficar se recuperando aqui. No meio tempo eu volto, e aí acabo de te limpar.
Isso me faz olhar para ele. ele esta com um sorriso sádico, de meia boca
Acabar? Eu vou sofrer mais disso?
Mas isso não é problema meu agora. Eu só preciso descansar um pouco, até minhas pernas funcionarem e aí ir embora. Ele não precisa nem me ver saindo, vou pela lateral da casa e pronto.
É, esse é um bom plano. O melhor que tive nas ultimas semanas, simplesmente abandonar esse monstro e esquecer que essa loucura aconteceu.