O choque não veio imediatamente. Veio aos poucos. Primeiro, o reconhecimento automático: o jeito de se sentar, o sorriso torto quando me enxergou, a expressão de quem ainda parecia um garoto tentando parecer despreocupado. Depois, os detalhes, senti o impacto como um soco no estômago, antes mesmo de organizar o pensamento, misturando choque e uma atração visceral que eu não conseguia explicar.
Rodrigo tinha envelhecido brutalmente rápido para um jovem que, como eu, ainda estava beirando os 25. Não dramaticamente, mas cedo demais. O corpo ainda era alto, ainda ocupava espaço, mas diferente. O antigo vigor atlético tinha cedido lugar a uma barriga masculina já marcada, saliente sob a camisa do Flamengo apertada demais (claro, ainda a porra da camisa do Flamengo). Não enorme, mas presente.
O rosto ainda bonito, porém, mais inchado, menos definido. As entradas no cabelo claro já começavam a desenhar o futuro inevitável da calvície que logo viria. Alguns fios brancos surgiam perto da têmpora. A barba irregular e malfeita dava um ar cansado. Me assustei, porque ele parecia assustadoramente com o seu próprio pai. A imagem dele estava gasta, desleixada, como uma fotografia muito tocada pelas mãos.
Mas o pior, ou o mais fascinante, era que nada disso diminuía o efeito dele em mim. Meu corpo reagiu na mesma hora. Idiota, instantâneo. Como se o desejo ignorasse completamente a passagem do tempo. O sorriso, o jeito, a maneira como me olhou, ainda estava tudo lá. A química absurda, animal, ilógica. Rodrigo abriu os braços.
— Olha quem finalmente chegou.
Abracei de volta. O cheiro dele ainda era o mesmo. Ou parecido o suficiente para embaralhar minha memória.
— Você tá diferente — falei, me sentando.
Ele riu.
— Você também.
Mas o jeito que ele me olhou dizia outra coisa. E ele sabia.
Por um instante, ficamos só nos olhando, tentando medir o estrago do tempo. Ou procurando vestígios. Mas logo depois, conversamos por horas. Ou fingimos conversar. Porque a maior parte do tempo era feita de observação silenciosa, cheia de pausas e olhares demorados que dissecavam as mudanças um no outro.
Eu não conseguia desgrudar os olhos dele. Havia algo naquela decadência prematura, naquela masculinidade desgastada e bruta, que me excitava muito mais do que a polidez dos meus colegas de trabalho na cidade grande. A tensão elétrica entre nós era palpável, densa, pedindo um escape.
Rodrigo bebia mais devagar do que antes. Falava das mesmas pessoas, dos mesmos lugares, das mesmas histórias repetidas. Assuntos soltos, gente antiga, causos da cidade, comentários ácidos sobre conhecidos. Rodrigo ainda estava preso ali. A mesma faculdade. A mesma cidade. A mesma namorada. A mesma vida, que parecia girar em círculos pequenos.
— E a faculdade? — perguntei.
Ele fez uma careta.
— Tamo aí.
— Rodrigo…
— O quê? — riu — Uma hora sai, falta pouco agora.
Mas não parecia acreditar. E talvez fosse isso que mais envelhecesse alguém: a convivência diária com a própria estagnação.
— E você? — ele perguntou — Tá importante agora?
— Muito. Tô insuportável.
Ele riu alto e, por um segundo, voltou a ser o garoto de dez anos atrás. Aquilo me desmontou mais do que devia.
— E a namorada?
Ele deu de ombros.
— Ainda com ela?
Ele riu.
— Você fala como se fosse prisão.
Olhei para ele.
— E não é?
Rodrigo sustentou meu olhar por um segundo. Depois desviou.
— Algumas pessoas gostam de estabilidade.
Aquilo tinha endereço. E nós dois sabíamos. Saímos do bar tarde. A cidade estava quieta, suspensa naquele silêncio de interior onde até os postes parecem sonolentos. O ar da noite estava frio, daquele jeito típico do interior mineiro, um frio seco que parece aumentar o silêncio das ruas.
Andamos lado a lado sem rumo e, como sempre acontecia com Rodrigo, o espaço entre as coisas ditas começou a crescer. Ele me ofereceu uma carona para casa. Paramos perto do carro dele. Um carro velho, malcuidado, cheio de marcas pequenas. Como ele.
— Você sumiu mesmo — ele falou.
— Você nunca veio atrás.
Ele colocou as mãos no bolso.
— Achei que você tinha ido embora de verdade.
Olhei para ele.
— E fui.
Ele assentiu devagar. Como quem já sabia. Silêncio. Depois:
— Mas você voltou.
Aquilo ficou entre nós, pesado, quase íntimo demais.
— Nem que seja só por uma noite — falei, antes de pensar.
Rodrigo me olhou imediatamente, sem ironia, sem defesa. Só aquele olhar antigo que sempre parecia perigoso.
— Então vamos.
Simples assim. Eu nem perguntei onde.
•
O motel ficava na saída da cidade. Um lugar discretamente decadente, luz vermelha demais, recepcionista entediada, cheiro de ar-condicionado velho e lençol limpo tentando esconder o resto. O quarto, com sua luz difusa e cheiro de aromatizante cítrico, se tornou o nosso universo assim que a porta trancou com um clique metálico. E ainda assim… quando a porta fechou atrás da gente, algo mudou.
Não era juventude, não era impulso adolescente, era outra coisa. Mais consciente, mais melancólica, mais faminta. Rodrigo tirou a camisa devagar, sem pressa, e eu vi o tempo inteiro diante de mim. O corpo diferente, mais pesado, menos firme. Mas também mais verdadeiro, mais humano. Havia algo brutalmente íntimo em testemunhar o envelhecimento de alguém que já tinha sido tão desejado por você. E continuar desejando. Talvez ainda mais.
— Tá me olhando? — ele perguntou, rindo de canto – Decepcionado?
— Não.
— Então o quê?
Demorei para responder. Porque a verdade era complicada.
— Admirado.
Ele ficou quieto. E aquilo atingiu nós dois. Quando nos aproximamos, não havia mais a ansiedade da adolescência. Ninguém precisava provar nada, não precisávamos correr. O desejo continuava ali, violento, físico, irracional, mas agora misturado com outra coisa. Luto, talvez. Pelo que fomos, pelo que nunca fomos, pelo tempo perdido e desperdiçado por duas almas que não souberam se amar.
Não houve romantismo, nem reconexão lenta. Foi uma fome de anos liberada de repente. Empurrei Rodrigo contra a parede, colando meu corpo magro contra a massa macia e quente do corpo dele. A barriga de Rodrigo pressionou o meu abdômen, uma barreira sólida e excitante.
O beijo foi selvagem, dentes roçando, línguas batalhando por domínio, com gosto de cerveja e desejo reprimido. Minhas mãos desceram avidamente, puxando a camisa de Rodrigo para cima e expondo a pele pálida e quente. Rodrigo me beijava como quem ainda conhecia exatamente o caminho do meu corpo, e isso era quase cruel. Porque algumas pessoas desaparecem da nossa vida sem desaparecer da nossa pele.
— Você ainda mexe comigo — ele murmurou em algum momento, a testa encostada na minha.
Fechei os olhos. Porque eu também odiava essa verdade. O resto aconteceu como aconteciam todas as nossas colisões: sem delicadeza emocional suficiente para virar amor, mas com intensidade física demais para ser casual.
Cada gesto carregava memória, cada toque parecia atravessado pelos anos todos entre nós, e talvez fosse exatamente isso que tornasse tudo tão avassalador. Porque não era só desejo, era despedida, mesmo sem ninguém dizer.
— Você tá igual, seu safado — sussurrou Rodrigo entre beijos, suas mãos ásperas agarrando as minhas nádegas com força, apertando a minha carne através do jeans fino da minha calça.
— Cala a boca e me chupa — retruquei, mas a ordem perdeu força quando a boca de Rodrigo desceu pelo meu pescoço, mordendo a pele sensível perto da minha clavícula.
Nós nos arrastamos para a cama, uma estrutura de madeira barata que rangeu sob o peso combinado. Roupas foram jogadas no chão sem cerimônia. Quando ficamos nus, a luz destacava as diferenças: o meu corpo pequeno e magro contrastando com a curva opulenta e os pelos espalhados pelo peito de Rodrigo.
Mergulhei naquele corpo, minha boca encontrando o mamilo de Rodrigo, que já estava duro e teso. Suguei com força, chupando a auréola, o sentindo se contorcer e gemer alto, os dedos afundando no meu cabelo.
— Ah, caralho... não para — gemeu Rodrigo, arqueando as costas, empurrando a barriga para cima em um convite involuntário.
A brincadeira evoluiu para um sarro intenso, mãos roçando corpos, punhos envolvendo cacetes endurecidos, medindo o tamanho e a rigidez um do outro. A masturbação mútua foi rápida, frenética, apenas um aquecimento para o que estava por vir. Rodrigo, recuperando o fôlego, me virou de bruços, me impulsionando com uma força surpreendente. Ele abriu as minhas pernas e, sem aviso, desceu a cabeça.
O beijo grego foi brutal e molhado. A língua de Rodrigo, áspera e quente, atacou o meu cuzinho sem piedade, lambendo, sugando, penetrando o meu anelzinho com a ponta da língua. Enterrei o rosto no travesseiro, gritando abafado, as pernas tremendo de prazer.
A barba por fazer de Rodrigo roçava a pele sensível das minhas nádegas e do meu períneo, adicionando uma textura áspera que intensificava a sensação de estar sendo devorado. Era sujo, era primordial, e era exatamente o que eu precisava.
Quando não aguentei mais a tortura deliciosa, me virei e agarrei o pau de Rodrigo, grosso e pulsante, com uma veia saliente que eu lembrava bem. Abaixei a cabeça, engolindo a glande e descendo até o máximo que minha garganta permitia, sentindo o cheiro forte e masculino da virilha dele. Rodrigo gemeu, colocando a mão na minha nuca, controlando o ritmo, fodendo a minha boca com movimentos de quadril.
— Agora eu vou te comer — rosnou Rodrigo, me puxando para cima pelo cabelo.
Ele me colocou de quatro novamente. Dedicou um tempo para me preparar, usando a própria saliva e um lubrificante que encontrou na cabeceira. Um dedo entrou, depois dois, abrindo o caminho, esticando meu anelzinho que apertava em volta dos dedos grossos e calejados de Rodrigo. Suspirei, empurrando meu traseiro para trás, pedindo mais.
Rodrigo não me fez esperar. Ele posicionou a cabeça da pica na entrada e, segurando a minha cintura com força, me penetrou num movimento único e profundo. O gemer foi uníssono. A sensação de estar cheio, de sentir a barriga de Rodrigo bater nas minhas nádegas a cada estocada, era avassaladora. Rodrigo começou a me foder com uma cadência pesada, ritmada, usando o peso do corpo para ir fundo dentro de mim.
— Toma essa, Mateus... toma tudo — grunhiu Rodrigo, suando profusamente, os fios de cabelo colados na testa.
O quarto ecoava com o som de pele batendo em pele, o ranger da cama e os nossos gemidos abafados. Eu me masturbava enquanto era penetrado, meu punho deslizando rápido no meu próprio pau, sincronizado com as investidas de Rodrigo. Minha pressão subia, uma bola de fogo no meu baixo ventre. Rodrigo apertou as minhas coxas com força, acelerando o ritmo, me fazendo perder todo o controle.
— Vou gozar, cara... vou gozar dentro de você — avisou Rodrigo, a voz trêmula.
Com um urro gutural, Rodrigo atingiu o clímax, ejaculando em jorros quentes e fortes dentro de mim, apertando a minha cintura até deixar marcas. A sensação do calor explodindo dentro de mim foi o suficiente.
Arqueei as costas, meu corpo rígido, e gozei sobre o lençol manchado, gritando o nome de Rodrigo, enquanto o prazer varria a minha consciência e me deixava inerte, ofegante e completamente satisfeito na cama escura do motel.
•
Depois, ficamos deitados em silêncio. O quarto escuro, o barulho distante da rodovia atravessando as paredes finas. Rodrigo respirava pesado, olhando para o teto. Mais velho, mais cansado, ainda lindo para mim de um jeito que não fazia sentido.
Olhei para ele. Para os fios brancos aparecendo. Para as entradas que começavam a surgir no cabelo. Para o corpo já distante daquele garoto de dezenove anos que incendiava qualquer ambiente sem esforço.
E, ainda assim, senti aquela atração absurda me atravessar outra vez. Porque o desejo nunca tinha sido racional. Nunca. Por um pequeno instante, me permiti fantasiar sobre como seria crescer e envelhecer ao lado de Rodrigo.
— A gente desperdiçou isso? — perguntei baixo.
Ele pensou muito antes de responder.
— Não.
Virei o rosto.
— Não?
Ele negou devagar.
— A gente viveu do jeito que dava.
Aquilo era tão Rodrigo. Sem romantizar, sem aprofundar, mas profundamente verdadeiro. Fiquei olhando para ele no escuro e entendi, talvez pela primeira vez com total clareza, eu nunca tinha amado Rodrigo. Mas passei anos amando o que meu corpo sentia perto dele. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Ainda assim… naquela última noite, deitados lado a lado num motel perdido na saída de uma cidade pequena, pareceu suficiente. Rodrigo ficou quieto, muito quieto, a luz baixa do quarto deixando sua aparência ainda mais cansada, mais humana, mais vulnerável do que ele jamais se permitiria.
Depois ele sorriu de canto. Aquele mesmo sorriso torto e ensaiado. Um traço que o tempo não conseguia apagar. E eu soube, ali, naquele quarto barato, naquela cidade pequena, naquele fim inevitável, que aquela seria a última vez. Não porque faltasse desejo, mas porque, finalmente, o tempo tinha alcançado nós dois.
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Eu procurei em outros corpos encontrar você
Eu procurei um bom motivo pra não falar
Procurei me manter afastado
Mas você me conhece faço tudo errado
(...)
Mas só de ouvir a sua voz eu já me sinto bem
Mas se é difícil pra você tudo bem
Quando a gente se diverte com o que tem
Só por uma noite.
