Tem coisa que não faz barulho quando quebra. Não tem tiro, não tem grito, não tem sirene. Só um silêncio estranho, pesado, que vai se instalando devagar até você perceber que já não é mais o mesmo — e, quando tenta lembrar exatamente em que momento tudo saiu do controle, não encontra um ponto claro, porque a queda não aconteceu de uma vez… ela foi acontecendo em pequenas concessões, em decisões que pareciam inofensivas, em portas que eu continuei abrindo mesmo sabendo, lá no fundo, que uma hora não ia conseguir mais fechar.
Mesmo depois das brigas, das mentiras descaradas e daquele jogo cruel de aproximação e fuga que Alfredo insistia em manter, a gente não se afastou.
Pelo contrário. Foi ficando mais intenso, mais perigoso. Como se cada erro só empurrasse a gente mais fundo naquilo.
_____________
Numa tarde quente, dessas em que o ar parece parado e até o morro respira devagar, ele apareceu no meu barraco sem avisar, como fazia sempre, mas com um peso diferente no corpo, no olhar… uma espécie de cansaço que não vinha só das noites mal dormidas.
A gente ficou um tempo em silêncio. Sentado, fumando. E aquele silêncio, que antes aproximava, naquele dia parecia pedir alguma coisa: decisão ou ruptura.
— Alfredinho, a gente não pode continuar assim — eu falei, quebrando o ar pesado entre nós.
Ele não respondeu na hora. Só ficou olhando pro chão, passando a mão no rosto, como quem tentava organizar alguma coisa por dentro.
— Então para. — Ele disse, baixo, mas sem convicção.
Eu balancei a cabeça.
— Não é isso que eu tô falando.
Esperei ele me olhar. E quando olhou… Eu fui.
— Eu quero você de verdade, Alfredo. Inteiro, não pela metade, não só quando tu resolve aparecer. Eu quero… você comigo.
Não foi bonito. Não foi ensaiado. Mas foi a primeira vez que eu falei sem defesa. Ele ficou em silêncio. E aquele silêncio… porra… parecia maior do que qualquer resposta. Mas não era vazio, era uma luta.
— Eu não sei viver isso do jeito que você quer — ele disse depois, com a voz mais baixa do que eu já tinha ouvido sair dele. — Mas… eu também não sei mais viver sem você.
Aquilo não era uma resposta. Mas foi o mais perto de verdade que ele tinha chegado. E, naquele momento, foi suficiente pra mim. O que veio depois não foi só desejo. Foi desespero e tentativa de segurar alguma coisa que a gente já sentia escorrendo pelas mãos.
No quarto, o mundo lá fora deixou de existir por alguns minutos, como sempre acontecia quando a gente se encontrava naquele ponto onde não tinha mais nome, nem classe, nem certo ou errado. Só a gente.
A gente se beijou com muita gula, muito tesão, muita paixão. Ele deitado na cama e eu sobre ele, acariciando seu corpo todo. Tiramos a roupa e fizemos um 69 caprichado, um fodendo a boca do outro. Tirei a tora dele da boca e molhei meu dedo indicador com saliva e comecei a enfiar no cuzinho dele, e aí engoli o pau dele de novo. Ele gemeu alto, e com sua voz grave me dizia obscenidades. “Me fode seu filho da puta! Deixa meu cuzinho aberto pra esse pauzão!” Se eu já estava excitado antes, fiquei ainda mais com essas palavras e lhe respondia e o chamava de “meu playboyzinho safado” ou de “doutorzinho puto”.
Virei Alfredinho de bruços e fiz nele um cunete que fez ele se arrepiar todo e se contorcer naquela cama barulhenta. Enfiava minha língua naquele cu e o chupava com uma baita gula. Queria devorar aquele safado! E aí, apenas peguei o frasco de vaselina e lambuzei o buraquinho dele e minha rola que tava até doendo de tão dura. Entrou de uma vez, apenas escorregou pra dentro dele. Agarrei Alfredinho por trás, colando nossos corpos, e naquele dia fizemos amor, mais lento, mais intenso, com mais carícias e beijos que o normal... E, mano, tive a melhor sensação do mundo naquela hora, nem sei descrever. Foi um troço muito doido, uma conexão forte; eu dentro dele pulsando, agarradinho, sentindo o cheiro dele de perfume caro misturado com suor e as palavras dele se repetindo na minha cabeça... o mundo podia acabar naquela hora ali.
Depois, coloquei ele de ladinho sem tirar o pau de dentro dele e abracei ele forte, fazendo movimentos lentos para tentar conter o gozo que já tava perto, enquanto batia uma punheta nele também devagar pelo mesmo motivo.
— Seja só meu, Alfredinho! Não sei mais ficar sem você. — Eu disse sussurrando, com voz trêmula.
— Sou só teu, Nandão...
Não aguentei naquela hora. Gozei forte dentro do meu Alfredinho. Senti cada jato de porra enchendo o rabinho dele, meu corpo todo suado, com espasmos e tremendo todo... e Alfredinho gozando com meu pau dentro dele.
Ficamos ali grudadinhos, eu ainda duro dentro dele fazendo carinhos e sentindo o cheiro do cabelo dele, molhado de suor... um cheiro de xampu. E foi exatamente ali… no único lugar e no único momento em que Alfredo parecia inteiro… que tudo acabou.
________________________________________
Eu ainda curtia o cheiro de sexo, porra e suor no ar, quando a porta explodiu aberta. Não teve aviso. Não teve tempo de entender. Só o barulho seco, pesado, violento — madeira cedendo, grito, ordem, arma apontada. Dois homens grandes entraram gritando:
— Parados aí, seus viados! Não mexam! — E olhando para mim — Quer dizer que o famoso Nandão gosta de rola!? Quem diria que o traficante mais famoso desse morro é boiola!
Eu não tive tempo de reagir. Nem de pensar. Só lembro de mãos me puxando, me jogando no chão, joelho nas costas, e arma na cabeça. Depois, só senti porrada, socos, chutes... Eu encolhido no chão em posição fetal. E, no meio disso tudo… eu procurei Alfredo.
Ele já tava de pé, perto da porta, vestindo a máscara de novo. O olhar… ilegível. Por um segundo — só um — eu achei que ele fosse falar alguma coisa. Que fosse reagir. Ou até mesmo que fosse apanhar como eu. Mas não. Um terceiro cara entrou e o segurou pelo braço e lhe deu uma ordem clara: “Sai daqui agora garoto! Foge, porque a parada aqui é com essa outra bichona!”
Alfredo saiu correndo, sem olhar pra trás, sem olhar pra mim... e não o vi mais desde então. Naquele momento eu entendi, mesmo sem querer aceitar, que a queda não veio da polícia, nem da lei, nem do crime. Veio de algo muito maior.
Os dois caras debocharam de mim e então me bateram de novo, e de novo, até eu desmaiar ensanguentado. Acordei na cadeia com um balde de água fria que jogaram em mim. Fiquei três dias ali sendo maltratado, chutado, cuspido... Acordei duas vezes com eles à minha volta mijando em mim enquanto riam e me humilhavam. Depois, me conduziram pro presídio pois eu tinha sido condenado por um monte de coisa que eu nem tinha feito.
Enquanto o carro saía da delegacia em direção ao presídio, vi pela janela o pai de Alfredo, com um sorrisinho de satisfação no rosto. Sabia que tinha o dedo desse filho da puta nisso tudo.
______________
O tempo passou e só me restou a prisão, as versões desencontradas, o silêncio, o sumiço, as histórias mal contadas sobre o que aconteceu com Alfredinho depois. Disseram que alguém lá do morro tinha vingado minha prisão e dado um paletó de madeira pra ele... depois disseram que ele tinha saído do país e várias outras coisas que não se encaixavam.
Eu continuo aqui aguardando o momento em que vão finalmente abrir esse portão e me devolver um pedaço da vida que ficou apodrecendo entre essas grades, embora eu saiba que certas partes minhas nunca mais saem daqui, porque prisão não é só concreto — às vezes é memória, é ausência, é o nome de alguém ecoando na cabeça da gente tarde da noite quando o silêncio pesa mais do que deveria.
Há um mês apareceu um advogado novo pegando meu caso. Homem caro, desses que claramente não pisaria aqui por vontade própria. Disse que encontrou inconsistências no processo, depoimento estranho, prova mal construída, coisa que até então ninguém tinha tido interesse de olhar direito. Agora fala em revisão, em anulação, em indenização pelo tempo que me fizeram cumprir sem prova. Engraçado como, depois de tanto tempo, alguém resolveu se importar.
Perguntei quem mandou ele. O sujeito só respondeu que tinha gente interessada em “corrigir certas injustiças”. Não disse mais nada e eu não perguntei, só fiz colaborar com o que ele tá me mandando falar.
Ontem à noite eu não consegui dormir. Fiquei lembrando do Alfredo como ele era antes de tudo afundar — deitado na minha cama depois de uma foda daquelas, o pau ainda durão com uma gota de porra na ponta, ele ofegante olhando pro teto como se estivesse cansado demais de sustentar o próprio sobrenome. Lembrei também dele sentado na laje só de cueca daquelas que tem uma braguilha na frente, o vento batendo na cara, silencioso daquele jeito que só ele conseguia ser, como se metade da vida estivesse presa dentro dele tentando sair. E eu olhando pra ele, sorrindo que bem bobo.
E pela primeira vez em muito tempo eu me permiti pensar numa coisa que até hoje evitei. Que talvez ele não tenha mesmo morrido. Ou talvez tenha morrido aquele Alfredo que eu conheci, e sobrado outro homem em algum lugar distante, vivendo quieto, longe do pai, do Rio de Janeiro, do passado… carregando as mesmas feridas que eu.
Não sei. Talvez eu nunca saiba. Mas às vezes, quando o carcereiro apaga as luzes e a noite fica grande demais, eu ainda imagino o dia em que fui preso, e ao invés de fugir, Alfredo tivesse impedido aquilo de alguma forma... Também imagino se ele tivesse aceitado quando eu falei pra ele “brincando” que a gente podia ir embora pra Minas morar com meu tio na fazenda dele, ao invés de debochar “E o quê? A gente vai morar junto e virar um casal de bicha no meio do mato? Viajou na maionese, bicho?”
Mas no fim das contas, acho que o pior castigo não foram os socos, as costelas quebradas, o sangue descendo pela minha boca enquanto me arrastavam algemado pelo chão daquele barraco, nem os anos que arrancaram da minha vida como se eu fosse só mais um corpo descartável perdido no sistema.
O pior foi descobrir tarde demais que, por trás de toda arrogância, medo e covardia, Alfredo talvez tivesse me amado de verdade — só não o bastante pra enfrentar o mundo inteiro comigo naquele momento.
E talvez eu também esteja sendo injusto agora, porque tem noite em que penso naquele advogado aparecendo do nada depois de tanto tempo, naquele processo voltando à tona justamente quando ninguém mais lembrava de mim, e me pergunto se, em algum lugar desse país, existe um cara tentando consertar em silêncio aquilo que não teve coragem de impedir há três anos.
Talvez não. Talvez seja só mais uma fantasia de preso, dessas que a gente inventa pra continuar respirando sem enlouquecer entre essas paredes. Mas, sinceramente… depois de tudo que rolou, prefiro carregar essa dúvida comigo do que encarar a realidade que nossa história terminou com uma porta arrombada, eu espancado e coberto de sangue e Alfredo desaparecendo da minha vida sem olhar pra trás.
__________________
Comentem e deem estrelas pra esse escritor continuar entregando contos excitantes pra vocês!