A rotina da semana seguiu um ritmo de tirar o fôlego. Na terça de manhã, acompanhei a Natielly até a universidade. No portão, o Marcos estava parado com outros professores. Quando ele viu o nosso carro, o corpo dele ficou rígido. A Naty saiu do carro com aquela postura de professora impecável, o blazer fechado e o coque no cabelo não deixando escapar nem um fio de rebeldia.
Ela passou por ele e deu apenas um aceno de cabeça.
— Bom dia, professor Marcos
disse ela, a voz fria como gelo.
Vi pelo retrovisor o Marcos morder o lábio, os punhos cerrados. Ele estava possesso. O gelo que a gente estava dando nele, misturado com a cena que ele viu do Pastor Gilberto por vídeo, estava derretendo os miolos do cara. Ele, o bonitão da educação física, tinha sido trocado, mesmo que temporariamente, por um homem de terno e Bíblia na mão.
No meu escritório, eu não conseguia trabalhar. Abria as petições e só via o rosto da Naty de joelhos no gabinete. O segredo era um vício.
À noite, fomos à reunião de obreiros. A igreja estava na penumbra, apenas algumas luzes acesas no altar. O Pastor Gilberto estava lá, com as mãos trêmulas segurando o cálice. Quando a Naty passou pelo corredor, o cheiro do perfume dela invadiu o altar. O Pastor gaguejou na leitura do salmo. Ele olhou para ela buscando um sinal, um sorriso, qualquer coisa que confirmasse a promessa de segunda-feira.
Mas a Naty foi cruel. Ela sentou na última fila, de cabeça baixa, agindo como se estivesse em profundo arrependimento. Ela nem olhou para ele. Deixou o homem em brasas, cozinhando na dúvida se o que aconteceu no gabinete tinha sido um sonho ou o começo do seu fim.
Finalmente segunda chegou. O gabinete do Pastor Gilberto era o cenário. Eu já estava posicionado no corredor lateral, com o celular no modo gravação e a respiração contida.
A Naty entrou. Ela estava vestida de preto, uma roupa que lembrava luto, mas a saia era tão justa que, a cada passo, desenhava o movimento do bumbum que o Pastor tanto cobiçava.
— Pastor... eu não deveria ter vindo
ela começou, a voz carregada de uma falsa angústia.
— Eu orei a noite toda. Pedi perdão. Mas o toque do senhor... ele não sai da minha pele.
O Pastor Gilberto levantou da cadeira num salto. Ele contornou a mesa, a respiração já pesada.
— Natielly... eu também tentei lutar. Mas o Senhor sabe da nossa fraqueza. Você prometeu... você disse que hoje eu seria o único.
Ele não aguentou. Agarrou a Naty pela cintura e a prensou contra a estante de livros de teologia. O barulho dos livros vibrando na madeira ecoou pelo gabinete.
— Me mostra, Natielly... me mostra que você é minha e não daquele professorsinho, ou do seu marido frouxo
ele rosnou, as mãos descendo nervosas para a barra da saia dela.
Desta vez, a Naty não facilitou. Ela segurou as mãos dele.
— O senhor quer mesmo entrar onde ninguém nunca entrou com tanta vontade, Pastor? Quer marcar a sua ovelha para sempre?
O pastor Gilberto estava fora de si. Ele ajoelhou na frente dela, ali mesmo, entre as estantes de doutrina. Ele levantou a saia e viu que, novamente, ela não usava nada. A pele branca da Naty brilhava na penumbra do gabinete.
— Eu vou te limpar de todo o mal
disse ele, a voz num sussurro profano, antes de virá-la de costas.
Pela fresta da porta, eu via o rosto do Pastor Gilberto. O suor escorria pela testa dele, a lente dos óculos embaçada. Ele tremia. Ele se posicionou na entrada do cuzinho dela, onde o Marcos ja comeu.
O clima de perversão no gabinete estava no ponto mais alto. O Pastor Gilberto, aquele homem que todo domingo falava de santidade, estava ali, tremendo de luxúria, prestes a cravar sua marca no lugar onde ele achava que seria o primeiro. A Naty estava entregue, com as mãos apoiadas nos livros de capa dura, arqueando as costas para facilitar o trabalho do "homem de Deus".
Mas, bem na hora que o Gilberto ia dar a primeira estocada funda, o silêncio da igreja foi cortado pelo toque estridente de um celular. Não era o da Naty. Era o dele.
O Pastor parou no meio do caminho, ofegante, o rosto vermelho de sangue acumulado. Ele tentou ignorar, mas o aparelho em cima da mesa vibrava como se fosse explodir. Ele olhou de soslaio e o nome na tela fez o pau dele murchar pela metade na mesma hora: Vera.
— É... é a minha esposa
ele sussurrou, a voz saindo num fio de pânico.
A Naty, maliciosa, não se recompôs. Continuou de costas, com a saia levantada, olhando para ele por cima do ombro com um sorriso desafiador.
— Atende, Pastor. Vai que é importante
provocou ela, a voz carregada de veneno.
A irmã Vera é a personificação da rigidez e da tradição evangélica, uma mulher de 45 anos que ostenta um visual severo marcado pelo inconfundível coque alto, onde esconde seus longos e lisos cabelos pretos. Sob a moldura dos olhos castanhos afiados e vigilantes, ela carrega uma presença imponente e fervorosa nos cultos, vestindo saias longas que, embora discretas, não escondem totalmente suas pernas grossas e o corpo moreno que ainda se mantém em forma.
O Gilberto, com as mãos trêmulas, atendeu. Eu, na fresta da porta, prendi a respiração.
— Alô... Vera?
disse ele, tentando controlar a arritmia.
Do outro lado, a voz da irmã Vera veio alta, chorosa e carregada daquele sotaque de crente fervorosa. Dava para ouvir o desespero dela.
— Gilberto! Onde você está, homem?! Eu estou passando mal, uma dor terrível no peito... minhas pernas estão sem força! Acho que é a pressão, Gilberto! Vem logo pra casa, eu preciso ir pro hospital agora! Misericórdia, Senhor, me ajude!
O Pastor olhou para a Naty, que agora passava a mão lentamente pela própria coxa, ignorando o drama da mulher traída.
— Eu... eu já estou indo, Vera! Calma! Estou terminando um aconselhamento urgente aqui na igreja! Cinco minutos!
Ele desligou o celular e parecia que ia ter um infarto ali mesmo.
— Ela está mal, Natielly... eu preciso ir. Se ela morre e eu estou aqui... o Senhor vai me cobrar!
A Naty se levantou devagar, ajeitando a saia com uma calma irritante. Ela chegou perto dele, limpou uma gota de suor da testa do Pastor e deu um beijo no canto da boca dele.
— O dever chama, né, Gilberto?
ela disse, rindo.
— Vá cuidar da sua morena. Mas olha só... o senhor me deixou no meio do caminho. E o Marcos está me mandando mensagem dizendo que está com saudade do que o senhor acabou de ver.
O Pastor Gilberto estava num beco sem saída. A culpa cristã lutava contra o vício que a Naty tinha plantado nele. Ele olhou para a porta, depois para as pernas da Naty.
— Segunda-feira que vem...
ele disse, a voz num rosnado de derrota.
— Segunda-feira eu não deixo você sair desse gabinete enquanto eu não descarregar tudo o que eu guardei hoje.
Ele saiu tropeçando nas próprias pernas, vestindo o paletó às pressas e limpando os óculos. Eu saí de fininho pelo corredor lateral e cheguei no carro segundos antes dele passar pelo pátio da igreja em disparada com o seu sedã prata.
Logo em seguida, a Naty apareceu na porta da igreja. Ela caminhava com uma vitória no olhar que chegava a brilhar. Ela entrou no carro, jogou a cabeça para trás e começou a rir.
— Você ouviu, Paulo? A irmã Vera ta passando mal!
disse ela, pegando o celular.
— Mas o Gilberto agora está com uma dívida de sangue comigo. Ele vai passar a semana inteira cuidando da pressão da mulher e imaginando o que ele deixou de fazer aqui.
Eu liguei o motor, sentindo o tesão de corno queimar mais forte do que nunca.
— O perigo só aumenta, Nati. A Vera é esperta. Se ela desconfia que o "aconselhamento urgente" tem cheiro do teu perfume, a casa cai.
— Deixa cair, amor
a Naty respondeu, com aquele brilho de quem adora ver o circo pegar fogo.
— Se a casa cair, a gente reconstrói em cima dos escombros.
A semana seguiu naquela tensão silenciosa. O Pastor Gilberto sumiu do mapa, ocupado demais bancando o marido exemplar no hospital e em casa.
A Vera, com aquele jeito de crente que não deixa escapar nada, postava fotos de mãos dadas com ele no WhatsApp, com legendas sobre "o cuidado do Senhor através do meu esposo".
Eu ria sozinho no escritório. O "cuidado" do Gilberto era puro medo e culpa, e a Naty sabia disso melhor do que ninguém.
Na quarta-feira, a Naty me mostrou o celular no café da manhã. O Marcos tinha enviado uma foto do vestiário da faculdade, só de toalha, com os músculos saltados.
— Ele não aguenta o vácuo, Paulo
ela disse, dando um gole no café.
— Disse que se eu não aparecer na sala dele hoje, ele vai na igreja procurar o Pastor para "tirar satisfação" sobre o vídeo.
— Ele tá desesperado, Nati. O ego dele não aceita ter perdido o posto de favorito para um "velho da igreja". Vai lá. Dá o que ele quer, mas do nosso jeito.
Ela foi. E eu, claro, estacionei no lugar de sempre. O rádio do carro passava uma música qualquer, mas no meu ouvido, o som era o da chamada silenciosa.
— Você demorou, Natielly
a voz do Marcos veio carregada de agressividade. Ouvi o som dele fechando a porta da sala com força.
— Onde você estava? Rezando com aquele hipócrita?
— O Pastor é um homem ocupado, Marcos. Diferente de você, que só pensa em se exibir
a Naty respondeu, provocando.
— É mesmo?
ouvi o barulho de tecido sendo puxado.
— Então deixa eu te mostrar o que um homem de verdade faz. Aquele velho te marcou? Deixa eu ver se ele teve coragem.
Houve um silêncio, seguido pelo som do zíper da saia de couro.
— Não tem marca nenhuma aqui
o Marcos rosnou.
— Ele amarelou, não foi? Ele não teve culhão para te encarar de verdade.
— A esposa dele ligou... ela passou mal
a Naty disse, a voz ficando ofegante.
— Ele teve que ir.
— Azar o dele. Sorte a minha
o Marcos disse, e eu ouvi o som de um tapa estalado, bem em cima da raba dela.
— Hoje você não sai daqui enquanto eu não apagar qualquer lembrança daquele gabinete da sua cabeça.
Eu fechei os olhos, sentindo o volante suar nas minhas mãos. O Marcos era bruto, direto, sem as cerimônias do Pastor. Ouvi o som dele jogando os materiais didáticos no chão e prensando a Naty contra a parede de espelhos da sala de ginástica anexa.
— Olha pro espelho, Natielly
ele ordenou.
— Olha pra você. Olha pra quem tá te possuindo agora. Não é o Pastor, não é o seu marido frouxo. Sou eu.
O som da carne batendo com força começou. Era um ritmo selvagem. A Naty gemia alto, sem se importar se alguém passava no corredor. Ela estava entregue ao momento, saboreando a diferença entre a "benção" trêmula do Gilberto e a "surra" atlética do Marcos.
De repente, o meu celular vibrou com uma mensagem de um número que eu não conhecia.
Abri, curioso. Era a irmã Vera.
"Irmão Paulo, a Paz do Senhor. O Gilberto comentou que a irmã Natielly estava em aconselhamento com ele quando eu passei mal. Gostaria de agradecer a ela pessoalmente por entender a urgência. Podemos nos encontrar na igreja hoje à noite? Quero dar um presente para ela."
O sangue gelou. A Vera não era boba. Aquele "presente" tinha cheiro de armadilha. Olhei para o prédio da faculdade, onde a Naty ainda estava nos braços do Marcos,
e digitei a resposta:
"A Paz, irmã Vera. Claro, ela ficará muito feliz. Estaremos lá às 19h."
