Capítulo 2 - Ele sempre voltava

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 1448 palavras
Data: 09/05/2026 21:17:01

Tem coisa que a gente só entende depois que perde, ou pior, depois que continua vivendo sem nunca ter realmente saído daquilo, como se o tempo seguisse em frente mas uma parte da gente ficasse parada, presa num ponto específico onde tudo começou a dar errado — e, no meu caso, esse ponto sempre volta a ser o mesmo: Alfredo atravessando de novo o meu caminho, uma semana depois daquela primeira vez, com o mesmo jeito contido, a mesma roupa impecável e aquele silêncio carregado que dizia muito mais do que qualquer palavra que ele tentasse usar pra se proteger.

Eu lembro que ele veio até mim como quem não queria estar ali, mas também não sabia mais estar em outro lugar, sustentando uma postura que já começava a rachar nas bordas, e quando disse, seco, que tinha voltado pela droga, eu quase tive vontade de rir — não por deboche, mas porque já era evidente demais que o problema dele não era mais aquilo que queimava no papel, mas aquilo que tinha começado a queimar dentro dele.

E talvez tenha sido ali, naquele retorno mal disfarçado, que eu comecei a cometer o erro que mais caro me custaria depois, porque em vez de tratar aquilo como tratava todo o resto — rápido, superficial, descartável — eu deixei que ele ficasse, deixei que voltasse, deixei que ocupasse um espaço que nunca deveria ter sido oferecido a ninguém, muito menos a um cara como ele, que vivia dividido entre o que sentia e o que podia ser.

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A gente foi pro mesmo lugar da primeira vez, como se repetir o cenário pudesse dar alguma ilusão de controle sobre o que já estava completamente fora dele, e fumamos quase sem falar, deixando que o silêncio fizesse o trabalho de nos aproximar de novo, mas dessa vez tinha alguma coisa diferente, mais pesada, mais consciente, como se ambos já soubéssemos que aquilo não era mais um acidente.

Quando ele me beijou, não teve a explosão da primeira vez, mas teve algo mais perigoso — uma entrega silenciosa, quase resignada, um carinho sutil, como se ele estivesse aceitando, mesmo sem admitir, que já não conseguia mais fingir que aquilo não existia. Foi um beijo demorado, daqueles em que você fecha os olhos e só curte o pau endurecer dentro da calça e o tesão subir.

E subiu como fogo alastrando em um rastro de gasolina. Abaixei já abrindo o zíper da calça cáqui dele, e tirando seu pau branquinho pra uma mamada daquelas. Caprichei tanto, engolindo o pau e acariciando seu sacão, que o doutorzinho não aguentou e começou a gozar na minha boca sem avisar. Mas, apesar de que não curtia levar gozada na boca, eu não fiquei zangado. Muito pelo contrário, engoli a porra dele todinha até a última gota. A partir desse dia, passei a gostar de tomar o leitinho dele. Acabei gozando na punheta ali agachado com a rola de Alfredo na boca. Em seguida, ele quis sentir o gosto da própria gala na minha boca e me deu outro beijo daqueles.

E foi nesse tipo de detalhe que Alfredo começou a me ganhar de um jeito que eu não percebi de imediato, porque não foi só o corpo dele, nem só o desejo, foi aquela contradição constante, aquela luta interna acontecendo ali na minha frente, visível em cada gesto contido, em cada palavra medida, em cada momento em que ele parecia querer ficar e fugir ao mesmo tempo. Ainda assim, a gozada foi daquelas que te deixam com o corpo mole.

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Com o passar dos dias, os encontros que eram semanais, passaram a ser três por semana, e deixaram de ser exceção e começaram a virar rotina, primeiro dentro do campus, escondidos entre prédios, depois em lugares cada vez mais afastados e até em motéis daqueles chiques. Sim, a gente sempre transava nesses encontros depois que Alfredo fumava. E depois, eu quis experimentar ser enrabado por ele, e passamos a revezar na foda... Não me lembro de nenhuma trepada que tenha sido ruim ou meia boca... O tesão sempre foi intenso e o orgasmo também.

Aí, um dia, inevitavelmente, ele cruzou a linha que separava o mundo dele do meu e apareceu no morro, carregando junto tudo que não cabia ali — o dinheiro, o sobrenome, a educação, o medo. E eu nunca esqueci da primeira vez que vi Alfredo subindo aquelas vielas, porque tinha alguma coisa profundamente errada e ao mesmo tempo inevitável naquela cena, como se dois mundos que deveriam se manter separados tivessem decidido se chocar sem se importar com as consequências.

Ele tava de bermuda jeans e de regata vermelha, mostrando seus brações fortes, provavelmente pelos treinos que fazia. Alfredo andava tenso, olhando pros lados, claramente deslocado, mas sustentando uma pose de machão que me deixou de pau duro só de ver. E aí, quando entrou no meu barraco e a porta se fechou atrás dele, aconteceu de novo aquilo que mais me prendia nele: o corpo dele mudou.

Era sutil, mas era real. Os ombros desciam, a respiração desacelerava, o olhar perdia um pouco daquela vigilância constante, como se, por alguns instantes, ele finalmente pudesse existir sem estar sendo observado, julgado, moldado.

E eu, que sempre vivi sem ter que pedir permissão pra ser quem sou, comecei a entender que, pra ele, aquilo era mais do que desejo. Era alívio.

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E a coisa foi ficando mais profunda. Depois de fumar e de transar, a gente passou a dividir momentos na laje, fumando devagar enquanto o Rio se estendia lá embaixo, bonito e indiferente. Ou às vezes, passávamos a noite no motel. E nessas horas, entre uma tragada e outra, Alfredo deixava escapar partes de si que durante o dia ele enterrava com cuidado.

Falava pouco, mas quando falava, vinha carregado — do pai que nunca aceitava nada além da perfeição, das expectativas que pesavam mais do que qualquer responsabilidade real, da sensação constante de estar representando um papel que não tinha escolhido. E eu escutava, mais do que deveria. Mais do que era seguro. Porque, sem perceber, comecei a me importar.

E aí, meu mundo começou a girar em torno dele. Pensava nele o tempo todo, desejando o dia em que a gente ia se ver. E até chegar o dia, antes de dormir eu ficava imaginando safadezas que queria fazer com ele na cama e acabava batendo aquela bronha demorada que me fazia jorrar gala no meu peito todo.

Só que junto com tudo isso começou a vir também as ausências, as desculpas mal encaixadas, as mentiras, e os silêncios que já não eram só reflexão, mas esconderijo.

Demorou mais do que eu gostaria pra admitir, mas descobri que Alfredo não estava só comigo, nunca esteve, e talvez nem soubesse como estar, porque ele não buscava apenas prazer — buscava fragmentos de si mesmo espalhados em várias pessoas, tentando montar uma identidade que nunca tinha sido permitido construir de forma inteira.

Quando confrontei, não foi explosão, foi cansaço. E ele, em vez de negar ou reagir com raiva, fez o que sempre fazia quando a verdade encostava demais: recuou pra arrogância.

— Ah, isso não foi nada, não significou nada pra mim. Você está exagerando. A gente nem é namorado, nem tem sentido ser... a gente não é nada. Então, nem tem que cobrar coisa nenhuma.

Eu lembro do peso disso mais do que de qualquer grito que já ouvi na vida, porque algumas palavras não machucam pelo tom, mas pelo lugar onde acertam, e ali ele não estava só tentando me afastar — estava tentando se convencer de que aquilo não tinha importância, de que podia continuar vivendo dividido sem pagar o preço inteiro. Mas eu já estava fundo demais. E talvez ele também.

— Eu não posso ser o que você quer — ele disse depois, mais baixo, já sem a mesma defesa.

E naquele momento, olhando pra ele, eu entendi que não era falta de sentimento. Era excesso de medo. Medo do pai, da sociedade, do nome que carregava, do futuro que tinham desenhado pra ele antes mesmo dele nascer. Mas, acima de tudo, medo de si mesmo.

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Mesmo assim, ele continuava voltando. Sempre voltava. E toda vez que batia na minha porta, com o olhar perdido e o corpo tenso, eu sabia que não era só a droga que ele vinha buscar. Era o único lugar onde ele conseguia, por algumas horas, não mentir completamente sobre quem era.

E eu, mesmo vendo o estrago se formando diante dos meus olhos, mesmo sentindo que aquilo não tinha como terminar bem, abria a porta do meu barraco e da minha vida. Porque, no fundo, eu já não sabia mais viver sem ele.

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