Festa Universitária

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2451 palavras
Data: 03/05/2026 22:59:36
Assuntos: Amigo, BROMANCE, Festa, Gay, ruiva

Teve outras noites, outros encontros, outras repetições. Sempre com a mesma lógica: começo, meio, fim, nunca depois. Rodrigo nunca prometia, nunca pedia, nunca ficava além do necessário. E eu aprendi a não esperar. Não dele. Talvez de mim.

Com o tempo, fui entendendo melhor o que existia ali. Ou, talvez mais importante, o que não existia. Rodrigo nunca tentou ser mais, nunca escorregou para um lugar emocional que não fosse o dele e, de certa forma, eu também não. Havia uma química que não precisava de tradução, um tipo de encontro que funcionava exatamente porque não exigia continuidade.

O curioso é que, mesmo sem profundidade, havia intensidade. Mas era uma intensidade específica, limitada, como um fogo que aquece, mas não se espalha. Que existe naquele espaço exato e, fora dele, apaga.

— A gente é estranho — falei uma vez.

— Nem tanto.

— Não?

Ele negou com a cabeça.

— A gente só não inventa coisa.

Olhei para ele.

— Ou evita.

Ele sorriu.

— Dá na mesma.

Talvez desse. Ou talvez fosse só o jeito que ele encontrou de não precisar descobrir. Talvez a gente só estivesse confortável demais com o que não exigia esforço. Rodrigo seguiu vivendo do jeito dele. Namoros públicos, histórias paralelas, o cuidado constante com o que podia ou não aparecer.

Eu via, sem surpresa, sem cobrança. Porque, no fundo, aquilo já estava decidido desde o começo. O que a gente tinha não era falta de algo maior, era outra coisa. Mais simples, mais direta, mais fácil de repetir. E, talvez por isso mesmo, impossível de transformar.

Com o tempo, parei de tentar nomear, parei de comparar, parei de imaginar o que poderia ser. Porque o que existia já era claro demais. Rodrigo não era alguém que eu queria entender, era alguém que eu reconhecia. No corpo, no impulso, no instante. E só. E, por muito tempo, isso foi suficiente. Ou, pelo menos, foi o que a gente escolheu que fosse.

__________

Alguns anos passaram sem cerimônia, sem pedir licença. Não houve um momento exato de ruptura, só o afastamento natural de quem começa a construir outras rotas. A vida foi ocupando os espaços que antes eram nossos: faculdade, novos círculos, novas rotinas, novas pessoas, outras urgências. Rodrigo virou alguém que eu sabia que existia, mas não acompanhava mais de perto.

Às vezes, aparecia uma foto. Um comentário de alguém em comum. Um nome que surgia numa conversa qualquer, uma coincidência rara. E era isso, sem peso, sem falta. E, curiosamente, isso nunca doeu. Era como se a gente tivesse sido arquivado em um lugar específico, não esquecido, mas também não ativo.

Até que voltou, como sempre voltava, por acaso, sem aviso, ou por uma dessas coincidências que parecem pequenas demais para serem só isso: a gente se inscreveu no mesmo evento universitário. Eu descobri primeiro.

— Rodrigo também vai — um colega que conhecia a nós dois comentou.

Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento.

— Vai?

— Vai tá lá, sim.

Assenti. Como se não significasse nada. Mas significava.

O evento universitário era o tipo de caos organizado que só funciona porque ninguém tenta controlar. A cidade universitária, turística, pequena, mas inflada de gente jovem, tinha aquele tipo de energia desorganizada que só existe em lugares temporários. Gente demais, música em excesso, ruas ocupadas por grupos que não se conheciam, mas pareciam íntimos por alguns dias. Uma espécie de suspensão da realidade. Perfeita para reencontros.

A república que ficaríamos estava cheia quando cheguei. Mochilas espalhadas, colchões improvisados, vozes atravessando os cômodos. Uma casa enorme aberta, som alto, gente entrando e saindo sem ser convidada, bebida barata e uma sensação constante de que tudo podia acontecer, e provavelmente ia.

Eu cheguei no fim da tarde. Mochila nas costas, calor grudando na pele, tentando entender quem era quem naquele fluxo de desconhecidos. Foi quando eu o vi. Encostado na parede da sala, rindo de alguma coisa que alguém disse, com um copo na mão, completamente à vontade, como sempre, como se já fizesse parte daquele cenário.

Rodrigo. Mais velho, claro. Mas não diferente. O corpo mais definido, no ápice da sua beleza, o jeito mais seguro, talvez um pouco mais consciente de si. Ou só mais bem treinado, mais bem ensaiado. Ele me viu. Demorou um segundo a mais para reagir. E sorriu.

— Olha só… Mateus!

Aproximei.

— Coincidência – falei, meio rindo.

— Ou não — ele respondeu, com aquele meio tom que nunca entregava tudo.

Talvez. Ou talvez fosse exatamente o tipo de coincidência que sempre encontrava a gente. Nos abraçamos rápido. Sem prolongar. Sem necessidade. Mas o suficiente para reativar algo que não tinha desaparecido, só estava quieto. Havia memória ali.

— Você tá diferente — ele disse, me olhando melhor agora.

— Você também.

— Melhor?

Sorri.

— Mais você.

Ele riu.

— Sempre fui.

Sempre.

A casa era um caos. Colchões espalhados, gente dividindo espaço sem muito critério, mochilas jogadas em qualquer canto. Como já nos conhecíamos, a gente acabou no mesmo quarto, um cubículo minúsculo no segundo piso da casa, por pura logística, ou falta dela.

— Igual antes — ele comentou, jogando a mochila no chão.

— Nem tanto.

Ele me olhou de lado.

— Não mesmo.

Havia algo ali, um reconhecimento silencioso de que o tempo tinha passado e que, mesmo assim, algumas coisas não tinham mudado tanto quanto deveriam.

A festa começou antes mesmo de alguém decidir. A música aumentou, as pessoas chegaram, o álcool fez o resto. A casa foi ficando pequena, o ar mais quente, os corpos mais próximos, calor acumulado. Rodrigo se dissolveu no ambiente com facilidade. Conversava, ria, encostava, circulava, ocupava espaço como se fosse natural. Ele sempre soube existir em multidão. Eu observava, como sempre. Não só ele. Mas ele também.

— Você ainda fica muito na sua — ele disse, se aproximando com dois copos na mão.

— E você ainda fala com o mundo inteiro.

— Alguém precisa.

Ele me entregou o copo.

— Relaxa.

Fácil para ele, sempre foi. Foi no meio desse movimento que duas amigas apareceram. Primeiro como presença. Depois como foco. Primeiro, Bianca, a morena, chamava atenção de um jeito imediato, alta, segura, o tipo de corpo que ocupava espaço sem pedir licença, que não pede atenção, mas recebe. O cabelo escuro e cacheado caindo volumoso nas costas, o olhar direto, sem rodeio, quase desafiador.

Depois, Rose, a ruiva, era o oposto. Menor, quase delicada, mais contida, mas com um tipo de atenção silenciosa, um sorriso que desmontava qualquer tentativa de leitura simples. Olhos claros, expressão curiosa, como se estivesse sempre um pouco deslocada, mas por escolha.

Rodrigo viu antes de mim. Claro que viu.

— Aquela ali — ele disse, inclinando levemente a cabeça na direção da morena, perto o suficiente para que só eu o ouvisse.

— Eu imaginei.

— E você?

Olhei para a ruiva. Ela estava olhando de volta. Desviou quando percebeu.

— Talvez.

Rodrigo sorriu.

— Vai lá, então.

— Você também.

— Sempre.

Simples assim. Como se fosse só mais uma noite. Talvez fosse. As coisas aconteceram rápido. Conversas que começavam leves e, de repente, já tinham outra temperatura. Toques que pareciam casuais demais para serem só isso. Risadas que encurtavam a distância.

Rose falava baixo, mas não era tímida, pelo contrário, era muito divertida e falante. Era apenas comedida. Ela aproximava o corpo como se não houvesse espaço entre intenção e ação.

— Você não parece daqui — ela disse, inclinando a cabeça levemente.

— Nem você.

Ela sorriu.

— Eu não sou.

— Nem eu.

Silêncio curto. Confortável.

— E o seu amigo? — ela perguntou, olhando por cima do meu ombro.

Não precisei virar.

— Qual deles?

— Aquele que acha que tá disfarçando que quer ser notado.

Ri.

— Esse é ele sendo discreto.

Ela acompanhou meu olhar. Rodrigo já estava com a Bianca, perto demais, rindo de alguma coisa que não dava para ouvir. O corpo inclinado, o gesto fácil, a atenção inteira ali. Natural, orgânico, como sempre.

— Ele é bonito — ela disse.

— É.

— E você sabe disso.

Olhei de volta para ela.

— Sei.

Ela sustentou meu olhar por um segundo.

— E não parece incomodado.

Pensei.

— Não do jeito que você tá pensando.

Ela não insistiu. Mas percebeu. A noite avançou sem pedir permissão. A música mais alta, os corpos mais soltos, o limite entre espaço público e privado cada vez mais borrado. As conversas ficaram mais próximas, os espaços mais curtos, as decisões mais rápidas.

Rodrigo e Bianca já estavam em outro ritmo. Riam alto, se tocavam sem disfarce, como se o resto da casa tivesse deixado de existir, a morena encostada nele como se já se conhecessem há tempo. O braço dele na cintura dela, firme, natural. O tipo de cena que não deixava dúvida sobre onde aquilo ia dar. Quase senti vontade de contar para ela que ele tinha uma namorada fixa na nossa cidade natal (será que ela iria realmente se importar?).

E, ainda assim, em algum momento, ele me olhou. No meio da confusão, por um segundo só, mas foi o suficiente. Aquele tipo de olhar que não pergunta, só reconhece. Rápido, mas não superficial, como se estivesse conferindo alguma coisa. Como se dissesse: a gente ainda sabe exatamente o que é. Desviei primeiro, porque era mais fácil.

— Tá bem? — ele perguntou.

Assenti.

— Você?

Ele deu um meio sorriso.

— Sempre.

Mas havia algo ali, não exatamente dúvida, mas atenção. E isso já era diferente. A noite seguiu e cada um foi para um lado. Como sempre, como esperado, mas, dessa vez, com um detalhe novo: a consciência. De que, mesmo em caminhos separados, havia uma linha invisível que ainda nos conectava. Não o suficiente para mudar a direção, mas o bastante para ainda ser percebida. E talvez fosse isso que tornava tudo mais interessante. Ou mais perigoso.

Em algum momento, me vi sentado no chão de um quarto qualquer, Rose encostada em mim, rindo de algo que eu já não lembrava. A gente não transou, mas chegou muito próximo disso. Rodrigo passou pela porta. Parou, olhou. A morena logo atrás, o puxando de volta para dentro do fluxo.

— Seu amigo? — a ruiva perguntou.

— É.

— Vocês têm uma energia estranha.

Sorri de leve.

— Tem gente que percebe rápido.

— Eu gosto de coisas estranhas.

Claro que gostava.

— Eu também.

Mas não do mesmo jeito.

— Você observa muito — eu disse, encostando mais perto dela.

— Você também.

— Mas eu escondo melhor.

— Nem tanto.

Sorri e não neguei. Mais tarde, já longe do centro da festa, encontrei Rodrigo de novo. Encostado na parede externa da casa, respirando o ar frio da noite, que parecia mais limpo.

— E aí? — ele perguntou.

— E aí.

Silêncio. Mas não desconfortável.

— Ela é… — comecei.

— Boa — ele completou.

— Direto ao ponto.

Ele riu.

— E a sua?

— Também.

Pausa.

— Diferente.

Rodrigo assentiu.

— Você sempre escolhe diferente.

— E você sempre escolhe o que já conhece.

Ele me olhou. Mais atento agora.

— E mesmo assim a gente sempre se encontra no meio disso tudo.

A frase ficou. Entre a gente. Sem precisar de explicação.

— Você acha que isso muda algum dia? — perguntei.

— Isso o quê?

— A gente.

Ele respirou fundo. Olhou para frente. Depois para mim.

— Acho que não.

Sem peso, sem dúvida, só verdade. Assenti, porque, de novo, não era novidade, era confirmação.

— E tá tudo bem?

Ele deu de ombros.

— Pra mim tá.

Olhou de volta.

— E pra você?

Demorei um segundo. Talvez mais.

— Tá.

E, naquele momento… talvez estivesse mesmo. Porque, pela primeira vez em muito tempo, não era só repetição. Era escolha, de novo.

O fim da festa não aconteceu de uma vez, ele foi se dissolvendo, sem aviso. Só o cansaço chegando, gente indo embora aos poucos, a música diminuindo, as conversas se dissolvendo em despedidas vagas, o ar ficando mais pesado, como se a casa também estivesse cansada, se esvaziando o suficiente para parecer de novo um lugar habitável. O céu começava a clarear por trás das janelas, aquele azul pálido que não é mais noite, mas ainda não é dia.

Eu me despedi da ruiva sem drama. Um beijo de língua e um sorriso que não prometia nada.

— A gente se vê — ela disse.

— Talvez.

E estava tudo certo nisso. Eu subi as escadas devagar, minha cabeça leve, o corpo ainda carregando o resto da noite, cheiro de bebida, de gente, de proximidade. Quando virei o corredor, Rodrigo já estava lá, encostado na parede, como se estivesse me esperando, ou como se tivesse parado ali por acaso e decidido não sair. O cabelo um pouco bagunçado, a camisa amassada, o olhar mais lento por causa da bebida. Mas ainda atento, sempre atento.

— E aí? — ele perguntou.

— E aí.

Silêncio curto.

— Achei que você não vinha — ele disse, sem me olhar.

— E perder o conforto dessa suíte cinco estrelas?

Ele soltou um riso baixo. Ficamos nos olhando por um segundo a mais. A casa já quieta, o som distante de alguém rindo em outro quarto, um copo caindo em algum lugar.

— Vamos dormir — ele disse, por fim.

Concordei com a cabeça. O corredor que dava para os quartos parecia esticar-se infinitamente, iluminado por uma luz amarela e fraca que tremeluzia a cada passo desequilibrado. Colchões espalhados, gente já apagada, respirações profundas preenchendo o espaço. A gente se movimentou com cuidado, quase em silêncio, desviando de pernas, mochilas, qualquer coisa que pudesse denunciar.

O quarto pequeno em que iríamos dormir, no segundo andar da casa, estava escuro quando entramos, iluminado apenas pela luz dos postes lá embaixo, na rua. O ar frio da madrugada sibilava pela janela, mas não fazia nada para resfriar o calor que emanava dos nossos corpos. Nós tropeçamos, rindo baixinho de piadas que só nós entendíamos, o cheiro de álcool barato e suor misturando-se ao perfume que ainda restava em nossas roupas amarrotadas.

Rodrigo se sentou no colchão, encostado na parede, olhando para o nada como se estivesse tentando voltar para dentro do próprio corpo. Fechei a porta com as costas, tateando o interruptor, mas desistindo. A penumbra ela melhor, era mais honesta.

Joguei a mochila no canto, me sentei no colchão oposto. Por um momento, ficamos assim, dois corpos exaustos, o silêncio pesado finalmente mais honesto do que qualquer conversa da noite, carregado de uma expectativa elétrica que nem a quantidade de cerveja conseguia abafar.

— E aí? — ele perguntou, depois de um tempo, a voz rouca.

— E aí o quê?

— A ruiva.

Olhei para ele.

— E a morena?

Ele deu de ombros.

— Gente boa.

Sorri de leve.

— A minha também.

Silêncio, mas não era vazio, era preenchido demais. Rodrigo passou a mão no rosto, respirando fundo. O quarto estava quente, o ar parado, a luz fraca entrando pela janela desenhava sombras irregulares no chão. Rodrigo se levantou, começou a desabotoar a camisa, os dedos trêmulos lutando para abrir os botões. Depois, foi até a janela e abriu um pouco mais, deixando que eu admirasse o seu peito desnudo. O vento entrou leve, trazendo o cheiro da rua, madrugada virando manhã.

[continua...]

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