Fedendo a Esposa Safada do Vizinho Corno - Capítulo 3: Conhecendo o Corno

Um conto erótico de Allan Grey
Categoria: Heterossexual
Contém 5516 palavras
Data: 16/04/2026 20:23:28

Bebi água direto da torneira. A água estava morna, mas eu tinha uma sede que vinha de dentro. Deixei o líquido escorrer pelo queixo. Limpei a boca com as costas da mão. Senti um aperto estranho no peito. Um desconforto que não era físico. O silêncio desta casa me obriga a encarar o que estou me tornando. Cada sombra na parede parece um julgamento. Não me olhe assim. Eu sei o que você está pensando. Você acha que eu sou o vilão. Talvez eu seja. Mas o vilão também sente o estômago revirar.

Ouvi batidas secas na porta. Estaquei. O coração deu um solavanco, uma pancada surda no peito que ressoou até a base do crânio. Foi uma mistura de medo e expectativa, o tipo de descarga elétrica que precede o desastre. Caminhei até a sala, ajeitando a camisa do time que vesti por pura inércia. O poliéster era áspero contra a minha pele, mas nada era tão agressivo quanto o que me esperava do outro lado da madeira.

Abri a porta e parei. O ar fugiu dos meus pulmões como se alguém tivesse me socado o estômago. Aparecida estava lá, enquadrada pelo batente, e o sol da manhã iluminava a malícia crua no rosto dela. Ela usava aquela mesma expressão de quem sabe exatamente onde dói — e de quem gosta de apertar a ferida.

Mas o que me paralisou não foi o sorriso; foi o modo como ela decidiu se embalar para aquela visita. Aparecida vestia um vestido de malha fina, com listras horizontais em preto e branco que pareciam hipnotizar a visão. O tecido era barato, dessas malhas que se rendem a qualquer curva, e estava tão justo que parecia ter sido pintado sobre a pele oliva dela. Cada respiração de Aparecida era um desafio para as costuras.

O vestido era cavado, deixando os braços e os ombros de fora, revelando a pele brilhante, talvez untada com algum hidratante que cheirava a pecado e baunilha. As cavas eram profundas demais, e por baixo do tecido, o relevo dos seios volumosos se denunciava sem pudores. Não havia sutiã; o frio matinal ou a própria excitação do jogo faziam com que os mamilos marcassem a malha listrada como dois pontos de interrogação que eu não sabia responder.

O corte era curto, perigosamente curto. Terminava no meio das coxas grossas e tonificadas, onde o atrito entre as pernas criava uma sombra que me fazia perder o juízo. A malha esticava tanto sobre os quadris largos que o desenho da calcinha — ou a ausência dela, eu não conseguia ter certeza — criava um relevo obsceno no baixo ventre. Cada movimento que ela fazia, um simples deslocar de peso de uma perna para a outra, fazia o vestido subir mais alguns milímetros, revelando a firmeza da carne que o sol teimava em dourar.

As listras pretas e brancas se distorciam sobre o volume do bumbum e a curvatura da cintura, criando um efeito psicodélico que me deixava tonto. Ela estava ali, a poucos centímetros, cheirando a mulher pronta, com o cabelo preto escorrendo como uma cascata de piche sobre os ombros nus.

— Bom dia, vizinho. Eu disse que voltava, num disse? — ela disparou, a voz rouca, vibrando num tom que só quem quer ser possuída consegue alcançar.

Eu não respondi. Não conseguia. Meus olhos estavam ocupados demais mapeando o modo como a malha se moldava ao sulco profundo entre os seios dela. Sabe de nada. Você acha que eu tive força de vontade. Eu fui um animal hipnotizado pela própria armadilha.

Aparecida inclinou a cabeça. O olhar dela desceu pelo meu corpo. Foi uma curiosidade lenta, cirúrgica. Recuei um centímetro. Foi instintivo. Minhas pupilas se dilataram. Senti o calor subir pelo pescoço. Era uma reação biológica que eu não conseguia domar. O corpo é um traidor.

— Bom dia. É... você voltou — respondi.

Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Eu deveria fechar a porta. Inventar uma desculpa qualquer. Dizer que a casa estava em quarentena. Mas minhas mãos não obedecem à minha consciência. Elas continuaram segurando a maçaneta, dando passagem ao desastre.

— Tu tá com uma cara péssima, vizinho. Dormiu direito não, foi? — ela perguntou.

Desviei o olhar para o chão. Senti o peso da mentira antes mesmo de proferi-la. Eu sabia exatamente por que não tinha dormido. Sabia o que tinha feito enquanto olhava as fotos dela.

— É... não. Muita coisa na cabeça — falei.

Cida soltou uma risada baixa. Ela deu um passo para mais perto. Invadiu o meu espaço vital com aquele perfume doce e denso. A distância entre nós era perigosa.

— Sonhou comigo, é? — ela sussurrou.

Sonhei. E o suor que cobria meu corpo no sonho agora era frio, de culpa. Ela não tem freio. E eu estou perdendo os meus. Abri a boca para dizer algo que nos afaste. Algo que colocasse um limite. Mas o som de passos pesados e o tilintar de metal batendo no chão cortaram o momento.

Djair surgiu logo atrás dela. Ele carregava uma caixa de ferramentas gasta. Tinha um sorriso no rosto. Um sorriso tão honesto que doeu olhar. Cida se afastou milimetricamente. Mas a eletricidade do toque dela ainda vibrava no meu braço.

— Miguel, esse aqui é Djair, meu marido. Falei pra ele que a torneira da tua mãe tava num vazamento só, uma agonia de se ver — ela apresentou.

O marido. Ele não era um obstáculo para ser odiado. Não parecia o monstro que eu projetei. Parecia ser um homem bom. E isso é o que torna tudo mil vezes pior. Sabe de nada. Você acha que é mais fácil quando o cara é um escroto. Quando ele é gente boa, a facada entra mais fundo.

Djair colocou a caixa no chão com cuidado. Ele estendeu uma mão calejada e firme. O aperto foi sincero. Era um aperto de quem confia sem reservas. Retribui o gesto. Mas senti o desejo de retirar a mão o mais rápido possível. Tive medo de contaminar a decência dele com a minha podridão. Djair arregalou os olhos ao notar minha camisa. Ele apontou para o escudo no meu peito com um entusiasmo infantil.

— Não acredito! Você também torce pro glorioso? É do time, então é meu irmão! — ele exclamou.

"Irmão". A palavra ecoou como um soco no estômago. Estávamos vestindo a mesma bandeira. E eu estava cobiçando a mulher dele. Meu peito se contraiu. Senti uma súbita vontade de trocar de camisa. De me despir daquela coincidência cruel que nos ligava.

— Coincidência, Djair... Peguei a primeira que vi no armário hoje — tentei minimizar.

— Pois olhe... ficou foi bem em tu, Miguel — Aparecida interveio.

Ela cruzou os braços. O movimento acentuou a postura dela. Ela olhou para o marido com uma impaciência mal disfarçada. Uma crueldade gratuita.

— Djair usa a dele e parece um botijão de gás enrolado em bandeira. Tenho gastura quando ele veste, fica tudo esticado — ela disse.

Djair riu de si mesmo. Foi um som humilde. Sem malícia. O riso dele me fez travar o maxilar de angústia. Eu queria que ele revidasse. Queria que ele fosse um bruto.

— Que é isso, Cida... O pano que é apertado, não sou eu que sou grande demais! — ele brincou.

— Mas em Miguel... — ela baixou o tom de voz, os olhos fixos em mim — No Miguel o caimento ficou uma lindeza só.

Senti o olhar de Cida como uma brasa na pele. Mas o olhar de Djair, cheio de camaradagem, foi o que me fez querer recuar para o escuro. Eu deveria mandá-los embora agora. Dizer que o vazamento parou por milagre. Mas o cheiro dela... o cheiro dela me sabota. Dei um passo atrás para o corredor. Estava encurralado entre a empatia por aquele homem e a pulsão por aquela mulher.

— Minha mãe não está, mas podem entrar — convidei.

Fiz um sinal para que passassem. Quando Djair passou por mim, senti um impulso genuíno de tocar o ombro dele. Um pedido mudo de desculpas que ele nunca entenderia. No corredor estreito da casa antiga, parei na porta da cozinha. Meu corpo estava tenso como uma corda de piano prestes a estourar.

— Aceitam uma água? — perguntei.

— Não, obrigado, patrão! Vamos direto ao serviço que o trabalho chama! — Djair respondeu com disposição.

"Patrão". Ele me elevava enquanto eu sentia que deveria estar rastejando. Ele confiava em mim. E eu era um traidor em potencial. Conduzi os dois ao banheiro social. O espaço era minúsculo. O calor humano ali dentro se tornou claustrofóbico em segundos. Cida se encostou no batente da porta. Ela observava o marido trabalhar, mas seus olhos buscavam fixamente o meu reflexo no espelho manchado.

Baixei os olhos para o escudo do time no meu próprio peito. Senti uma náusea amarga. Eu via o suor no pescoço de Djair enquanto ele trabalhava honestamente por mim. Ele estava ali para consertar algo quebrado. Mal sabia ele que eu estava quebrando algo muito maior. O olhar predatório de Cida queimava as minhas costas. Eu estava suspenso. De um lado, a salvação do caráter. Do outro, o abismo do desejo. E o abismo, como sempre, parecia muito mais convidativo. Você provavelmente teria saído da sala. Mas eu? Eu continuei olhando o reflexo.

Fiquei parado no limite da porta do banheiro. O espaço era mínimo. Observei Djair ajoelhado no piso frio, uma posição que ele parecia ocupar com uma naturalidade conformada. Ele abriu a maleta de ferramentas. O som do metal batendo contra o plástico ecoou como um tiro naquele cubículo.

Contrai os lábios ao ver a mancha de suor se espalhando pelas costas da camisa dele. Uma mancha de trabalho, de esforço real. Djair retirou uma chave inglesa pesada. Ele a manuseava com uma destreza bruta, sem elegância, mas com eficácia. Ele se ajoelhava com uma facilidade que me assustava. Era a postura de quem nasceu para servir, para consertar o que outros — como eu — apenas quebram.

— Vê se não faz lambança hoje, Djair — Aparecida disparou. — Tu se mete a fazer as coisa e no fim eu que tenho que limpar o rastro da tua ruindade.

Djair não levantou a cabeça. Ele apenas fechou os olhos por um segundo, aceitando o golpe verbal como quem aceita o clima. Cada palavra dela era uma martelada nos dedos dele. E o pior é que ele sorria para o martelo. Dei um passo para dentro do banheiro. O ar ficou pesado, quente. Eu conseguia sentir o calor que emanava do corpo de Djair.

Cida esticou o braço. As unhas pintadas de um vermelho vibrante apontavam para a base da torneira como uma garra.

— Olhe aí, tá vendo? É um pingo-pingo que me tira o juízo — ela disse, a voz pingando veneno. — Parece que a casa tá chorando por ter um homem tão devagar.

Senti uma pontada de empatia por Djair. Eu conhecia o peso de ser insuficiente para uma mulher que quer tudo e não se contenta com nada. Ela estava castrando o coitado na minha frente, usando a minha presença como a faca.

Djair apoiou uma das mãos no chão para ganhar impulso e trocar de posição. Os dedos dele, grossos e calejados, tocaram o meu pé por acidente. Senti a pressão daquela mão contra o meu sapato. Era a mão de um homem de verdade.

— Ô, patrão, desculpa aí! — ele exclamou, sem me olhar. — É que o espaço é curto demais pra tanto homem e tanta ferramenta.

Forcei um sorriso reconfortante. Meus olhos encontraram os de Cida no reflexo do espelho manchado. Ela não olhava para a torneira. Ela olhava para mim.

— Sem problema, Djair — respondi.

Eu estava mentindo. Eu queria que ele terminasse logo. Queria que ele fosse embora para que eu não precisasse continuar vendo esse massacre. Queria parar de me sentir cúmplice de uma execução. Cida se inclinou sobre o ombro do marido. O decote da blusa quase tocava a nuca dele, mas os olhos dela estavam cravados na minha braguilha.

— Com essas ferramenta velha dele? Esse aí só entende de força bruta, Miguel — ela provocou. — Pra coisa delicada, ele não serve não.

Desviei o olhar para a maleta aberta. Foquei no brilho de uma chave de fenda. O contraste era obsceno. O esforço honesto dele contra a minha luxúria silenciosa. Ele estava suando água; eu estava suando pecado.

Djair começou a desrosquear a porca da torneira. O som do metal rangendo era agoniante, um grito de socorro do ferro.

— É que essa peça aqui é de confiança, Cida — ele murmurou. — O novo nem sempre é melhor que o que já aguentou o tranco.

Observei os músculos do antebraço dele se tensionarem. Era um braço forte. Um braço de provedor. Ele é o alicerce, pensei. Eu sou a infiltração que vai fazer a parede cair. Senti nojo de mim, mas o nojo me dava um tesão que eu não conseguia explicar. Respirei fundo. O cheiro de mofo do banheiro misturado ao perfume de Cida criava uma atmosfera inebriante.

Cida bufou. Uma lufada de ar quente que atingiu o meu pescoço.

— Confiança não enche barriga nem conserta goteira, Djair. Tu é muito romântico com tuas tranqueira — ela desdenhou.

Djair soltou a peça e, de repente, um jato de água fria espirrou. Molhou o rosto dele e a camisa do time que ele tanto admirava.

— Eita! O bicho tá com pressão! — ele riu, surpreso.

Instintivamente, me abaixei para ajudar. Peguei um pano que estava em cima da pia. Ao me abaixar, meu rosto ficou a centímetros do dele. Vi a pureza no olhar assustado do vizinho. Ele era uma criança grande. Um gigante gentil que eu estava ajudando a trair.

— Deixa que eu seco aqui, Djair. Foca na rosca — falei.

Cida deu uma risadinha maliciosa ao ouvir a palavra "rosca". Só eu entendi o subtexto. O som da risada dela foi como um chicote.

— Isso, Miguel. Ajude o coitado, que ele se perde em tudo — ela disse.

Toquei o ombro de Djair para estabilizá-lo. O tecido da camisa dele estava encharcado. Sequei o rosto dele com o pano. Foi um gesto de uma intimidade distorcida, quase um carinho fúnebre.

— Valeu, patrão — ele agradeceu, os olhos brilhando de gratidão.

Meu estômago revirou. A bondade de Djair era uma lâmina que cortava mais fundo que o desprezo de Cida. Ela aproveitou que o marido estava focado na água e deslizou a mão pelas minhas costas. Foi um toque rápido, mas carregado de promessa. Subiu pela minha espinha e parou na nuca.

Endureci a postura. Meu maxilar travou tão forte que os dentes rangeram. Pare com isso, pensei. Vá embora. Fique. Eu era um monstro dividido em dois, e as duas partes estavam famintas. Você acha que é fácil escolher entre ser um homem ou ser um animal quando a gaiola está aberta. Eu continuei ali, segurando o pano, enquanto a água de Djair e o fogo de Aparecida me consumiam por igual.

Djair tentou se levantar do chão úmido, mas o joelho dele estalou alto no silêncio do banheiro. Foi um som seco, de cartilagem gasta. Ao se apoiar para não cair, ele deixou uma marca de mão acinzentada, um borrão de graxa e rejunte úmido sobre o piso branco imaculado da minha mãe.

A marca da besta. O rastro do trabalho que a limpeza dela não tolera. Observei os olhos de Aparecida se estreitarem; ela olhou para o chão como se Djair tivesse cometido um crime hediondo, uma profanação no templo dela.

— Mas num é possível! Olhe a imundície que tu fez no chão de Miguel, Djair! Tu é um porco, é? — ela explodiu.

Ela apontou para o rejunte manchado com uma agressividade que fez Djair se encolher visivelmente. O homem pareceu diminuir de tamanho dentro da própria carcaça. Senti um nó no estômago. Ela não estava brava com a sujeira. Estava criando o cenário. O carrasco precisa que a vítima pareça culpada antes do enforcamento, e ela era mestre em fabricar carrascos.

Djair voltou a se ajoelhar rapidamente, desesperado. Começou a tentar limpar a mancha com a manga da própria camiseta.

— Valei-me, Cida... foi sem querer. Desculpa aí, patrão, eu sou um desastrado mesmo, me perdoe — ele implorou, sem me olhar.

Senti uma pontada aguda de náusea ao ver aquele homem se humilhando por um borrão de rejunte. Estendi a mão e segurei o braço dele, impedindo que ele continuasse a estragar a roupa. O braço dele era pesado, sólido.

— Deixa disso, Djair. Levanta daí. É só um chão, homem. Isso sai com qualquer pano — falei, tentando manter a voz firme.

Minha caridade era o combustível dela. Quanto mais eu defendia o cordeiro, mais o lobo dentro dela babava. Aparecida deu um passo à frente, ficando ombro a ombro comigo. O calor do corpo dela pressionou o meu braço. O cheiro de baunilha agora lutava contra o cheiro de suor de Djair.

— Tu é muito bom, Miguel. Esse homem aqui não merece tua paciência não. É um bruto, não tem jeito pra nada que preste — ela disse, a voz aveludada de um jeito cruel.

Notei o brilho úmido nos olhos dela. A humilhação do marido a deixou fisicamente acesa. Era um ritual: ela esvaziava a humanidade dele para preencher o vazio com o que queria fazer comigo. Djair se levantou, a cabeça baixa, as mãos sujas pendendo ao lado do corpo como se pesassem toneladas. Ele olhou para mim com uma gratidão canina. Uma confiança que fazia o escudo no meu peito parecer um alvo em chamas.

— Obrigado, Miguel. A gente tenta ser limpo, mas a mão da gente só conhece o peso da chave — ele murmurou.

Eu queria que ele me desse um soco. Que ele fosse um monstro doméstico. Seria muito mais fácil trair um monstro do que esse santo de mãos sujas. Cida soltou um suspiro teatral de desprezo, revirando os olhos.

— É um fardo, Miguel. Tu num sabe o que é viver com uma criatura que só faz desmantelo — ela reclamou.

Enquanto falava, ela inclinou o corpo. O decote se abriu na minha direção enquanto ela fingia avaliar a sujeira no rejunte. Ela estava se oferecendo sobre o corpo simbólico do marido caído. Uma profanação em tempo real. Desviei o olhar para o chão, focando na fresta entre os azulejos onde o rejunte novo começava a secar. Meu maxilar pulsava. A tensão entre a pena por Djair e a eletricidade de Cida estava me partindo ao meio.

Ela passou por Djair, esbarrando propositalmente no ombro dele para chegar mais perto de mim naquele espaço exíguo. Cida fingiu perder o equilíbrio no piso úmido e apoiou a mão espalmada no meu peito, exatamente sobre o escudo da camisa. Prendi a respiração. Senti os dedos dela tateando o relevo do bordado, uma massagem proibida diante do marido.

Ela estava marcando território. O escudo que nos unia agora era o que ela usava para me puxar para o abismo.

— Êpa! Quase que eu ia ao chão também. O rejunte tá escorregadio que só a moléstia — ela justificou, a voz rouca.

Djair deu um passo instintivo para acudi-la, mas parou ao ver que ela já estava amparada por mim. Um lampejo de dúvida cruzou o rosto dele, uma sombra rápida que ele logo espantou com um sorriso bobo. Ele viu. Mas ele se recusava a acreditar. A bondade dele era a sua própria cegueira.

— Cuidado, mulher! Miguel, segura ela aí senão o prejuízo aumenta! — Djair exclamou, rindo da própria desgraça.

Segurei a cintura de Cida por um segundo a mais do que o necessário. A carne dela era firme sob o tecido fino da legging. O convite do marido. "Segura ela". Ele mesmo estava me entregando as chaves do castelo.

— Está tudo bem, Djair. Eu seguro — respondi, as palavras saindo amargas.

Cida olhou para mim de baixo para cima, a língua passando rapidamente pelos lábios superiores. A crueldade dela me atraía como um ímã. Ela odiava a fraqueza dele e eu... eu odiava a minha própria força. Soltei a cintura dela bruscamente, como se tivesse me queimado, e apontei para a porta. Você acha que eu tive controle. Eu só estava tentando não desmoronar antes da obra acabar.

— Miguel, me dê um copo d’água, que minha garganta tá é seca de tanto falar com esse homem — Aparecida pediu, a voz projetada para o corredor.

Entrei na cozinha com o coração martelando contra as costelas. O som era surdo, mas parecia sacudir minha caixa torácica. Aparecida entrou logo atrás e fechou a porta com um clique suave e definitivo. Aquele som de trinco foi o ponto sem retorno. Peguei um copo de vidro sobre a bancada; o tilintar do cristal contra o granito pareceu um grito no silêncio súbito que se instalou entre nós.

O isolamento é um gatilho. Quatro paredes, uma porta fechada e o som de Djair batendo lá fora — Tum. Tum. Tum. — como um lembrete do que eu deveria ser, mas não sou. Abri a torneira do filtro. O som da água enchendo o copo era o único ritmo que competia com as batidas do martelo no banheiro. Minha mão tremeu levemente, não de hesitação, mas de uma eletricidade que percorria meus nervos, do cérebro à ponta dos dedos.

Não é medo. É a vertigem de quem parou na beira do precipício e decidiu que a queda pode ser revigorante. Entreguei o copo para ela, mas Aparecida não o pegou de imediato. Ela envolveu minhas mãos com as dela, forçando o contato, a pele quente e úmida me prendendo ao objeto. Encostei-me na parede fria da cozinha, sentindo o contraste do azulejo gelado com o calor quase febril que emanava dela.

— Tu é calado, né? Mas teus dedos dizem outra coisa quando tu tá no celular... — ela provocou, os olhos castanhos brilhando por trás das lentes.

Arqueei uma sobrancelha, tentando recuperar o fôlego e o sarcasmo que sempre usei como escudo.

— O celular aceita tudo, Aparecida. A realidade é que costuma ser mais... complicada — respondi.

Cida bebeu a água sem tirar os olhos de mim. Observei o movimento da garganta dela com uma fixação doentia, as gotas de água escorrendo pelo canto da boca.

— Complicada nada. Tu gostou do que viu no Insta, num gostou? — ela atacou direto na jugular. Sem rodeios, sem a coreografia da vizinha perfeita.

— Fiquei impressionado com o... conteúdo. Você pega pesado na academia — admiti.

O canto da minha boca subiu. Eu agora era o cúmplice oficial da traição que acontecia a cinco metros dali.

— E você? Pelo visto também gostou do que viu por lá — completei.

Ela colocou o copo vazio na bancada com um estalo seco e deu um passo à frente, me prensando contra o azulejo. O cheiro de Cida — suor da manhã, perfume de baunilha barato e um toque de sabão em pó — invadiu minhas narinas. É uma mistura sufocante. É o cheiro do proibido sob o teto da minha mãe, na cozinha onde tomei café a vida inteira. Inclinei a cabeça para trás, sentindo o pescoço exposto. A respiração dela estava quente contra minha pele, um bafo de luxúria que me desarmava.

— Tu tira foto muito bem, Miguel... mas infelizmente não deu pra ver o que eu realmente queria — ela sussurrou.

Antes que eu pudesse formular uma resposta, a mão de Cida desceu rápida e firme, como um falcão sobre a presa. Ela apertou o volume por cima da minha bermuda, uma pegada possessiva, bruta, que ignorava qualquer tentativa de sutileza. Meus olhos se arregalaram por um segundo antes de se fecharem com força. Soltei um grunhido baixo que morreu na garganta, abafado pela tensão do momento.

O mundo sumiu. Só existia a pressão da mão dela e o som rítmico do martelo de Djair lá fora. Tum. Tum. Tum. O metrônomo do desastre.

— Você é louca... o seu marido está ao lado — consegui dizer, embora meu corpo pedisse o contrário.

— Ele tá cuidando do que é dele, e eu tô cuidando do que me interessa — ela retrucou.

Cida aproximou os lábios do meu ouvido. Senti a ponta da língua dela roçar levemente o meu lóbulo. A audácia dessa mulher é uma droga pesada. E eu já sou um viciado em reabilitação que acabou de encontrar o estoque principal. Levei minhas mãos à cintura dela, os dedos cravando na carne firme sob a blusa de oncinha. Meu rosto se contorceu em uma mistura de prazer e agonia moral; a imagem de Djair sorrindo com o escudo no peito brilhou na minha mente como um alerta de incêndio ignorado.

Cida intensificou o aperto lá embaixo, sentindo a reação imediata e descontrolada do meu corpo.

— Danou-se... tu é bem mais perigoso do que parece no Instagram, visse?

Eu não sou perigoso. Eu sou patético por deixar isso ir tão longe. Mas a sensação de quebrar esse tabu é melhor que qualquer ar que eu já respirei. Abri os olhos e encarei os dela. Havia um desafio mudo, uma pergunta que nenhum dos dois queria fazer em voz alta. O suor começou a brotar na minha testa; o calor da cozinha parecia ter dobrado em poucos segundos. Deslizei uma das mãos para o pescoço dela, sentindo a pulsação acelerada de Aparecida sob o meu polegar.

— O que você quer, Aparecida? — perguntei, a voz rouca.

— Eu quero é ver o resto, Miguel. Quero ver o que tu esconde por trás desse jeito de bom moço.

Nossas faces estavam a milímetros. O beijo era uma força gravitacional inevitável. Só mais um centímetro. Só mais um pecado. Deus que me perdoe, mas eu quis que Djair batesse esse martelo até amanhã. Fechei os olhos novamente, inclinando o rosto para encontrar o dela.

Subitamente, o som do martelo parou.

O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor que qualquer barulho. O som de passos pesados e rítmicos começou a ecoar no corredor, subindo a pequena escada que leva à cozinha. Meu sangue gelou instantaneamente. Retesei cada músculo. O tempo acabou. O dono da mulher — o verdadeiro dono — estava chegando para cobrar o conserto.

Dei um passo brusco para trás, pegando o copo de água novamente como se estivesse apenas terminando de servir. Limpei o suor da testa com o antebraço. A sombra de Djair apareceu no vidro fosco da porta da cozinha, transformando o azulejo onde eu estava encostado na parede de uma cela de culpa.

Girei a torneira da pia com uma força excessiva. A água jorrou com violência, um estrondo líquido para camuflar o som da minha respiração, que ainda insistia em ser descompassada. O oxigênio parecia não chegar onde devia.

— Ô, Cida — a voz de Djair surgiu antes dele.

A porta da cozinha se abriu e ele apareceu no portal. Apoiou a mãozona suja de graxa no batente branco. Observei a mancha preta que ele deixou na pintura imaculada da casa da minha mãe. O rastro do trabalho. Ele marca o território com honestidade e sujeira. Eu marco com traição e silêncio.

Djair usou o antebraço para secar o suor da testa, deixando um rastro de fuligem na própria pele. Ele parecia exausto e satisfeito, o contraste exato do que eu sentia.

Se ele soubesse do que ela tem sede, ele usaria aquela chave inglesa para abrir o meu crânio, não a torneira. Minha mente projetou a cena por um segundo: o metal encontrando o osso. Um castigo justo.

Aparecida passou por ele no portal. Roçou o corpo no dele com uma naturalidade assustadora, como se os últimos dois minutos fossem um delírio da minha cabeça, um surto psicótico de Miguel. Ela lançou um olhar de soslaio para mim, um brilho de satisfação pura ao me ver desestabilizado diante daquela inocência bovina do marido.

— Pois tá feito, patrão! A torneira tá nova em folha. Pode testar lá que o serviço é de confiança — Djair anunciou, orgulhoso.

Enfiei a mão no bolso da bermuda e retirei uma nota de cinquenta reais. Estendi-a rapidamente para ele. Minha mão tremeu visivelmente. Eu precisava que ele aceitasse. Pegue. Por favor, pegue. Deixe-me comprar o direito de não me sentir um lixo completo. Transforme isso num negócio, numa transação fria, não numa "ajuda" entre irmãos.

— Que é isso, homem? Guarde esse dinheiro! Dinheiro de amigo eu num recebo não — ele recusou, com um sorriso largo.

Djair empurrou minha mão de volta, fechando meus dedos sobre a nota com um aperto firme e quente.

— Isso aqui foi coisa de irmão. O glorioso une a gente, Miguel! — ele completou.

O "glorioso". O escudo no meu peito agora parecia um ferro em brasa, queimando a pele, atravessando o músculo até o osso. A gratuidade dele era a minha maior tortura. Senti o peso do papel moeda na palma da mão; parecia que eu segurava o cano de uma arma carregada contra a minha própria têmpora.

Aparecida observava a cena encostada no batente. Um sorriso de canto nos lábios, deliciando-se com a minha agonia moral. Ela bebia o meu desconforto como se fosse o vinho mais caro do mundo.

​— Já que tu num quer o dinheiro, Djair, a gente podia era armar um petisquinho qualquer dia desses lá em casa... — ela sugeriu, a voz mansa, os olhos pregados em mim. — E o Miguel paga as cervejas pra retribuir o favor, né não?

Ela quer o palco. Ela quer o perigo de me ter à mesa, sob o olhar do marido, enquanto o pé dela me busca por baixo da toalha. Ela quer a adrenalina de ver o mundo pegar fogo enquanto ela assa a carne.

— Tá aí! Cida deu a ideia certa! Tu sabe, Miguel... essa mulher é a minha sorte. Sem ela eu tava perdido no mundo — Djair afirmou, com uma adoração tão absoluta que precisei desviar o rosto para não vomitar.

"Sua sorte". Você está dormindo com o azar, Djair. E eu sou o prêmio de consolação que ela escolheu para se divertir.

Caminhamos em direção à saída. Os passos de Djair ecoavam com a satisfação do dever cumprido. No portão, ele parou e colocou a mão pesada no meu ombro. Um gesto de intimidade fraternal que me fez querer desaparecer.

— Então tá combinado. Domingo, jogo do time, tu vai lá em casa. Você leva a cerveja gelada e a comida é por minha conta! — ele decretou.

Senti o olhar de Aparecida fixo em mim. Ela esperava a resposta como quem espera o veredito de um crime.

— Eu... eu vou sim, Djair. Pode contar comigo — aceitei.

Acabei de assinar o contrato de renovação do meu próprio inferno. O vício é mais forte que a vergonha. Sempre foi.

Djair entrou no carro, um modelo antigo mas bem cuidado. O motor tossiu antes de pegar, um som metálico e cansado. Aparecida subiu no banco do carona, ajustando o cinto de segurança que cortava o seu busto, evidenciando exatamente o que eu tinha apertado minutos antes na cozinha.

O carro começou a se afastar lentamente pela rua tranquila. Pelo espelho retrovisor, Aparecida sustentou o meu olhar por três segundos — um tempo eterno, uma vida inteira de pecados prometidos — antes do carro dobrar a esquina.

A faca já foi cravada. O cabo está aparecendo, e eu estou aqui, parado na calçada, pedindo para que ela empurre um pouco mais fundo.

Entrei em casa e bati o portão. O som metálico ecoou na rua vazia, solitário. Voltei para dentro e olhei para a torneira que Djair consertou. Não havia mais nenhum pingo. O silêncio era absoluto. E o silêncio é a pior parte. Ele me diz exatamente quem eu sou agora: o vilão que veste as cores da amizade para esconder as manchas do desejo.

Caminhei até o espelho do corredor e encarei a minha imagem. Toquei o escudo da camisa, sentindo um desprezo profundo por aquele símbolo que eu acabava de profanar. Mas, enquanto o nojo crescia, o medo do flagra era substituído por uma antecipação doentia pelo próximo domingo.

Eu sou um lixo. Mas sou um lixo que mal pode esperar para ver o que Aparecida vai fazer no próximo encontro.

Apaguei a luz do corredor, mergulhando a casa na escuridão. Restou apenas o brilho fraco do poste da rua entrando pela fresta da cortina. No escuro da sala, percebi que a torneira parou de chorar, mas a minha alma começou a vazar um veneno que conserto nenhum no mundo será capaz de estancar.

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Se essa cena mexeu com você, "Em Nome do Pai" — o quarto volume da minha série spin-off A Madrasta — vai te puxar pelos cabelos pra dentro de um universo ainda mais intenso: mais ousado, mais proibido, mais emocionalmente perigoso.

No livro, Miguel e sua madrasta, Alessandra, não apenas cruzam limites: eles rasgam qualquer noção de segurança emocional, entregando um erotismo cru, psicológico e viciante.

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Saga Principal

• O Mundo é Meu! – Amor em Família: Prólogo

• O Mundo é Meu! – Amor em Família: Vol. I – A Madrasta

Série Derivada

• A Madrasta – Volume I: Quem Planta Colhe

• A Madrasta – Volume II: Paixão Desenfreada

• A Madrasta – Volume III: Desejo Por Um Fio

• A Madrasta – Volume IV: Em Nome do Pai

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