O golpe de Carla no jantar foi devastador. Maximilian Voss não apenas perdeu o controle da negociação; ele perdeu a compostura, e a semente da dúvida plantada por Carla, reforçada pelo ruído de Alessandra, germinou imediatamente na mente dos executivos da G-Net.
No dia seguinte, a G-Net cancelou a reunião matinal agendada com a AuraTech, citando a necessidade urgente de "reavaliar a exposição ao risco" mencionada pela Vice-Presidente da Mirana Corp. O acordo de Voss estava prestes a ruir.
Voss estava em uma fúria controlada, ligando freneticamente para seu escritório, exigindo relatórios de crise. Ele sabia que Carla havia exposto uma fragilidade que ele tentava desesperadamente esconder. Seu ego, ferido por ter sido confrontado e superado por uma mulher trans tão jovem e deslumbrante, transformou-se em ressentimento puro e malicioso.
Ele ligou para um contato em comum na cidade buscando informações sobre a vida pessoal e a origem de Carla de Souza, determinado a encontrar alguma vulnerabilidade para usar. A AuraTech já sabia que Carla era uma figura nova, mas o relatório que Voss recebeu, com rumores de sua rápida "transformação" e o sigilo total de seu passado, acendeu uma chama sórdida em sua mente. Ele encontrou o ponto fraco que Mirtes e a rede se esforçavam para proteger: a verdade de sua transição.
Horas depois, Carla recebeu uma ligação em seu telefone seguro em Milão. Era Voss.
— Carla de Souza. - Ele sibilou, sua voz grossa e carregada de desprezo.
— Você acha que essa sua performance barata vai funcionar? Você pode enganar a mídia com seus vestidos de grife e toda essa sua maquiagem de executiva, mas eu sei o que você é.
Carla manteve o fone levemente afastado, o rosto sem expressão. Letícia, ao seu lado, observava atentamente, pronta para intervir ou registrar o ataque.
— Eu não sei do que o senhor está falando, Sr. Voss. - Carla respondeu, a voz mantendo sua modulação perfeita e profissional.
— Não se faça de desentendida! Essa sua empresa de aberrações, cheia de "mulheres fortes" fabricadas, não vai me derrubar! Eu sei de onde você veio. Eu sei quem você era antes de Mirtes comprar essa sua nova vida para você. Você é um homem que está brincando de boneca executiva. Sua identidade é uma fraude, assim como o valuation da sua empresa. - Voss vociferou, atacando diretamente a transição de Carla, um ato claro de transfobia motivado pelo desespero e misoginia.
Carla deu um sorriso frio e se recompôs. A transfobia de Voss, embora pessoalmente dolorosa, não a desestabilizou; ela a fortaleceu, lembrando-a do motivo de sua luta e da força da irmandade. O "Carlos" que se encolheria sob o ataque havia morrido no treinamento.
— Sr. Voss. - Carla respondeu, a voz agora carregada de autoridade gélida.
— Sua raiva é compreensível. Perder um contrato de bilhões para uma mulher, depois de ter sido avisado sobre sua exposição em ativos de risco, deve ser humilhante.
Ela fez uma pausa estratégica, deixando a verdade inegável pairar no ar.
— Quanto à minha "maquiagem", eu sou a Vice-Presidente Sênior de Relações Públicas Estratégicas da Mirana Corp. Minha função é garantir a credibilidade e a força da minha empresa. A sua função, aparentemente, é demonstrar a todos os seus stakeholders que o CEO da AuraTech é um misógino ineficaz que recorre a ataques pessoais e linguagem inadequada quando perde no jogo de negócios. A G-Net já está reavaliando a parceria e está ciente do seu comportamento. Eu sugiro que o senhor se preocupe mais com os seus balanços e a iminente crise de compliance do que com a minha identidade. Tenha um bom dia, Sr. Voss. E não me ligue novamente.
Carla desligou o telefone e colocou-o na mesa com uma calma calculada. Ela havia absorvido o ataque, transformando a transfobia em uma falha de conduta corporativa para ser explorada, provando que sua força não residia na ausência de vulnerabilidades, mas na impossibilidade de ser atingida por elas.
