Colegas de Sala & Video Games

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2543 palavras
Data: 05/04/2026 21:55:22
Última revisão: 05/04/2026 22:19:55
Assuntos: Amigo, BROMANCE, colega, Gay, Viagem

Foi mais ou menos nessa época que o Rafael apareceu. Outro Rafael. Como se o nome viesse sempre carregado de alguma promessa fácil. Esse outro Rafael sentava duas fileiras atrás de mim. Alto, magro, aquele tipo de corpo que ainda parecia em formação, mas já chamava atenção sem esforço.

Cabelo preto, caindo um pouco sobre a testa. Branco demais para o sol que a gente pegava todo dia. Ele tinha uma postura relaxada, quase distraída, mas não era desatenção. O olhar era direto demais para ser despretensioso.

Ele apareceu sem aviso, ou talvez eu só não estivesse prestando atenção antes. Demorou um tempo para que nos aproximássemos de verdade. Ele era um garoto sensível, inteligente, completamente geek, gostava de desenhar, de anime (morria de vergonha que ele usava aquela faixa do Naruto na testa... rs), de games e, não menos importante, tínhamos a mesma idade.

Estudávamos juntos desde o primeiro ano. Eu sempre o achara bonito (magro, alto, branco, cabelo preto, será que eu tenho um tipo? rs), mas envolvido no turbilhão que havia sido Heitor/Rafael/Julia e, agora, Rodrigo, nunca havíamos nos aproximado de verdade.

Demorou mais de um ano, mas, com o tempo, um comentário aqui, uma troca de caderno ali, uma conversa que se estendia um pouco além do necessário, e conseguimos nos conhecer melhor e deixar o interesse fluir livremente entre nós.

— Você pensa demais — ele disse uma vez, sorrindo de canto, depois da aula, como se já me conhecesse.

— E você pensa de menos (essa resposta eu já tinha praticado antes, sabia que funcionava).

Ele riu.

— Por isso dá certo.

Não dava, mas, por um tempo, parecia dar. Rafael era leve onde eu era denso. Direto onde eu hesitava. Não tinha o mesmo tipo de conflito interno ou, se tinha, não deixava aparecer. E isso era confortável. Perigoso, mas confortável.

A gente começou a se aproximar cada vez mais. Conversas no intervalo que viravam caminhadas sem rumo depois da aula. Risadas fáceis. Um tipo de proximidade que não exigia explicação. E, ainda assim, havia tensão. Sempre havia.

— Você tá a fim de mim — ele disse uma vez, parando na minha frente, bloqueando meu caminho de propósito.

— Tô nada.

— Tá, sim.

Ele deu um passo mais perto. Não o suficiente para ser escandaloso, mas o suficiente para não ser inocente.

— E você não disfarça.

Fiquei em silêncio, ele também. Mas não era um silêncio vazio, era cheio de possibilidades. Aquilo me pegou desprevenido. Ele sorriu de lado, satisfeito com o efeito. Havia algo nele que me puxava para um lugar mais leve, menos carregado. Como se, ao lado dele, eu não precisasse sustentar tantas camadas ao mesmo tempo.

A gente ficou algumas vezes. Nada que virasse história longa, mas o suficiente para ocupar espaço. E, sem perceber, eu me afastei. Não só de Rodrigo, mas de tudo que ele representava. Rodrigo soube. Não porque eu contei. Mas porque ele sempre soube ler o que eu não dizia.

— Esse Rafael aí… — ele comentou, jogando a bola contra o chão com mais força do que precisava, numa quadra vazia de fim de tarde — Você tá andando muito com ele.

— E daí?

— Nada.

Mas não era “nada”. Nunca era.

— Só tô falando.

— Tá falando o quê, Rodrigo?

Ele me encarou. Dessa vez, sem desviar.

— Que o povo comenta.

A frase veio seca. Sem rodeio. Aquilo me irritou mais do que deveria.

— Comenta o quê?

Ele deu de ombros, olhando para o lado.

— Esquece.

Mas eu não esqueci. E ele também não.

___________

Até que as férias de meio de ano chegaram e com elas, a decisão dos meus pais.

— Você vai pra fazenda do seu avô — minha mãe disse, como se fosse uma informação simples, incontestável, sem espaço para negociação.

— Ah, não, mãe…

— Não tem “mãe”. Você precisa sair um pouco dessa rotina. Já está resolvido.

Rotina. Como se fosse só isso.

A fazenda ficava longe o suficiente para parecer outro mundo. Interior do interior do interior de Minas Gerais. Se a minha cidade já era pequena, nem se comparava com a cidade do meu avô. Pouca gente, pouco sinal, muito tempo. Tempo demais. Distante de tudo que, naquele momento, fazia sentido para mim. Eu ia surtar.

— Não dá pra ficar aqui?

— Não.

Simples assim.

Fiquei alguns dias mastigando a ideia, com aquilo atravessado na garganta, sem opção real de recusa, tentando encontrar uma saída que não vinha. Até que veio, do nada, ou talvez não tão do nada assim.

Pensei em Rodrigo. Não de forma óbvia, mas veio aos poucos. Como quase tudo que envolvia Rodrigo. Encontrei ele na rua, em um fim de tarde. Camisa larga, bermuda, o sol batendo de lado no cabelo castanho claro, deixando tudo com aquele tom quase dourado que eu lembrava bem demais, a mesma expressão entediada no rosto.

— Vou viajar — falei, sem muita introdução.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Tá.

— Meus pais tão me mandando pra fazenda do meu avô.

— Parece animado.

— Não é.

Silêncio curto.

— Deve ser um tédio. Vai ficar lá quanto tempo?

— Umas duas semanas. Vai ser um tédio.

Ele assentiu, olhando para o nada por um segundo. E foi nesse intervalo que eu disse:

— Vamos comigo.

A frase saiu antes que eu pudesse pensar direito. Ele virou o rosto na hora.

— Quê?

— Vamos comigo.

Falei como se fosse simples. Mas não era. Ele ficou parado, o tipo de silêncio que não é recusa imediata, mas também não é aceitação.

— Pra quê?

Boa pergunta. Não respondi de imediato. Porque qualquer resposta honesta seria demais.

— Pra não ser um tédio completo. E pra não ir sozinho.

Ele me encarou de maneira longa, me avaliando, tentando entender se havia alguma armadilha ali. Embora não houvesse, ou houvesse muitas. O que havia, de fato, era mil motivos para ele dizer não: imagem, família, orgulho ferido, o histórico entre a gente. Tudo.

— Seus pais deixam? — ele perguntou.

— Deixam.

Pausa.

— E os meus…

— Sua mãe vai adorar a ideia de você viajar comigo – respondi, meio irônico.

Ele soltou um riso curto.

— Você não aguenta ficar quieto, né?

— Não.

Dessa vez, fui sincero. Ele desviou o olhar, pensando. Rodrigo sempre demorava mais para decidir quando a escolha importava. Ele respirou fundo, passou a mão no cabelo, bagunçando levemente. O gesto de sempre, quando estava pensando.

— Você é complicado.

— Você gosta.

Ele soltou um riso pelo nariz. E ali, por um segundo, voltou a ser o Rodrigo que eu conhecia. Ou achava que conhecia.

— Quando é?

— Semana que vem.

— E lá… — ele começou — Tem o quê?

— Nada.

— Nossa, melhor ainda.

Sorri de leve.

— Justamente.

Mais silêncio, mais cálculo, mais coisa não dita.

— E aquele seu amigo? — ele perguntou, casual demais para ser casual — O… Rafael.

— O que tem?

— Não vai sentir falta?

Olhei para ele. Direto.

— Não.

Rodrigo sustentou meu olhar por um segundoE então assentiu, quase imperceptivelmente. Como se tivesse entendido mais do que eu disse.

— Tá — ele disse, por fim.

Simples assim. Mas nada ali era simples.

— Tá?

— Tá.

Ele deu de ombros, como se fosse uma decisão qualquer.

— Melhor do que ficar aqui.

Melhor do que ficar aqui. Talvez fosse. Ou talvez fosse só uma nova forma de não encarar o que já estava entre nós. Mas, naquele momento, isso não importava. Porque, pela primeira vez em muito tempo, não era distância, era escolha. E eu sabia, mesmo sem admitir: aquilo não era só uma viagem. Era outra encruzilhada. E dessa vez, não tinha ninguém para interromper no meio. Era um retorno e, talvez, um teste. Do que a gente ainda era ou do que insistia em não deixar de ser.

__________

A viagem começou antes mesmo do ônibus sair. Rodrigo chegou com uma mochila maior do que precisava e um cuidado exagerado com algo que ele fingia não ser importante. Eu descobri rápido.

— Você trouxe o Play Station? — perguntei, quando vi o volume estranho no fundo da mochila.

Ele deu de ombros.

— Ué. Vai que…

— Vai que a gente morre de tédio?

— Exato.

Sorri de lado.

— Prioridades.

— Você que não tem nenhuma.

A resposta veio automática, mas o olhar demorou meio segundo a mais em mim, o suficiente. O ônibus saiu ainda de manhã, com aquele cheiro típico e meio nauseante de estofado quente e estrada longa. A cidade foi ficando para trás devagar, casas baixas, ruas conhecidas, tudo se dissolvendo num cenário mais aberto.

Rodrigo se sentou na janela. Sempre foi assim, nunca foi do tipo de ceder o melhor lugar para ninguém. Ele tomava o espaço, pernas abertas, braço apoiado de um jeito descuidado, como se o corpo dele nunca precisasse pedir licença. Ao contrário de mim, sempre tão contido, educado e solícito. Ele olhava para fora como se estivesse prestando atenção em alguma coisa importante, quando na verdade era só uma forma de não precisar sustentar o que estava do lado.

— Você sempre quis sair daqui, né? — ele perguntou, depois de um tempo.

Não respondi na hora. Só depois de um tempo.

— É mais do que sair – pausa – É não ficar pra trás, aqui.

Ele olhou meio intrigado para mim, que tinha respostas simples para coisas complicadas ou, ao menos, fingia ter. Encostei a cabeça no banco, deixando o silêncio crescer entre a gente. Não era desconfortável. Não mais. De vez em quando, nossas pernas se encostavam por causa do espaço apertado. Nenhum dos dois afastava. Eram pequenos acordos.

— Você dorme em qualquer lugar? — perguntei, o vendo fechar os olhos preguiçosamente.

— Se eu quiser — respondeu, sem abrir.

Não demorou. A cabeça dele caiu levemente para o meu lado, encostando de forma involuntária, ou talvez não tão involuntária assim. Eu fiquei imóvel por alguns segundos, sentindo o peso, o calor, a respiração lenta batendo de leve no meu ombro. Era um gesto pequeno, mas carregado demais. Olhei pela janela. A estrada passava em linhas contínuas, repetitivas, como se o tempo ali fosse outro. Mais lento. Mais honesto. Não me afastei.

A cidade da minha avó parecia grande demais para nós. Ou talvez fosse só a gente que ainda carregava a medida do interior. Shopping, escada rolante, gente demais andando rápido, tudo tinha um ritmo diferente. Rodrigo olhava ao redor com uma curiosidade mal disfarçada, um interesse quase infantil, tentando parecer indiferente.

— Olha isso aqui — ele falou, parando na frente de uma vitrine como se estivesse analisando algo sério.

— Você nunca viu um tênis antes?

— Não um desse jeito.

Ri. A gente comeu fast food como se fosse um evento. Rimos de besteira, dividimos batata, discutimos por causa de molho. Coisas pequenas, quase infantis. Falamos de gente que não estava ali, como se a distância autorizasse uma liberdade que, na nossa cidade, sempre vinha com algum tipo de vigilância. Era leve, quase simples. E, ainda assim, havia algo por baixo. Sempre havia. Um tipo de atenção que não desligava.

— Cara… — ele disse, girando o pescoço como se quisesse ver tudo ao mesmo tempo — Isso aqui é outra coisa.

— Outra coisa tipo o quê?

— Tipo… vida de verdade.

Eu ri baixo.

— Deixa de ser dramático.

— Não é drama — ele respondeu, meio sério agora — Lá parece que tudo já tá decidido. Aqui… sei lá.

Não terminei a frase por ele, mas entendi. A gente andou pelo shopping como dois estrangeiros. Entrando em lojas sem intenção real de comprar, só para testar possibilidades. Ele experimentou um boné que não combinava com nada, mas ficou bom nele mesmo assim.

— Ficou ridículo — eu disse.

— Você acha tudo ridículo.

— Não tudo.

Ele me olhou pelo espelho. Por um segundo, sustentou o olhar. Depois tirou o boné. Era assim, às vezes, nossos olhares se cruzavam sem motivo. Ficavam um segundo a mais do que deveriam e desviavam quase ao mesmo tempo. Como se houvesse uma regra silenciosa entre nós. E talvez fosse isso que deixava tudo mais perigoso.

No final da tarde, já na casa da minha avó, ela saiu.

— Não vão fazer bagunça — ela disse, pegando a bolsa com calma — E nada de mexer nas coisas.

— Tá bom, vó — respondi.

Rodrigo só assentiu, educado demais, com aquele sorriso meio torto que nunca garantia nada (minha avó ficou encantada com ele, assim como eu, ela tinha uma queda incorrigível por homens bonitos). Esperamos o portão fechar. O silêncio da casa veio logo depois. Diferente do silêncio que havíamos experimentado no sítio da tia de Rodrigo, ali, o silêncio era mais contido, mais íntimo. Rodrigo foi o primeiro a quebrar.

— Finalmente — Rodrigo disse, já puxando a mochila.

— O quê?

— Vou montar o videogame.

Ele abriu o zíper com pressa contida, tirando o videogame como se estivesse resgatando alguma coisa importante demais para ficar guardada.

— Eu trouxe isso aqui à toa?

Claro que não. Observei ele tirar os fios, concentrado, quase sério demais para algo tão simples. Se sentou no pufe grande do quarto, afundando de um jeito confortável, testando o controle como se aquilo fosse uma extensão natural do corpo. A televisão ligou. Sons rápidos, cores piscando. Ele mergulhou ali com facilidade, atenção inteira na tela.

— Você vai ficar nisso mesmo? — perguntei, encostado na porta, meus braços cruzados sobre o peito.

— Ué.

— A gente tá numa cidade diferente.

— Já fomos no shopping.

— Isso não conta.

Ele deu um meio sorriso, sem tirar os olhos da tela.

— Pra mim conta.

Fiquei olhando. Não para o jogo, mas para ele. Para o corpo quase adulto, belo, másculo, delineado, para sua beleza física, que, de fato, me atraía. O corpo dele afundava levemente no pufe, as pernas cruzadas sob o short. O tecido, macio pelo uso, colava-se às coxas que ele mexia inquietamente.

Daí eu via o adolescente jogando futebol no videogame e xingando bravo com a partida de mentira, e sentia um certo desdém comedido. Era uma contradição: a carne contra o espírito. Será possível ter somente atração física por uma pessoa, e não ter admiração por quem ela é?

Observava Rodrigo e me lembrava de uma frase de um livro do Harry Potter (o Cálice de Fogo, salvo engano), em que Hermione acusa Rony de ter a profundidade emocional de uma colher de chá. Era assim como eu me sentia com Rodrigo.

Era curioso. Os dedos dele dançavam sobre os botões da manete, os olhos fixos na tela da TV. Ali, daquele jeito, ele parecia mais novo ainda. Eu fiquei alguns minutos olhando, tentando me encaixar naquela cena. Não consegui. Me perguntei preocupado se eu não tinha crescido rápido demais e pulado alguma etapa da juventude.

A manete vibrou em suas mãos quando ele fez um gol e Rodrigo soltou um grito de comemoração, satisfeito, sem perceber que já estava sendo observado há alguns minutos. Eu observava o jeito como o corpo dele relaxava ali, jogando videogame, sem preocupação.

Ele se sentia no seu elemento. A concentração simples. A ausência de conflito, pelo menos na superfície. Rodrigo, quando não estava sendo observado, era quase leve, despreocupado. Isso me incomodava mais do que deveria. Dei alguns passos até o quarto.

— Você vai ficar aí, fazendo nada? — ele perguntou, sem tirar os olhos da tela.

— Tô fazendo.

— O quê?

— Te observando.

Ele riu.

— Vai se foder.

Mas sorriu. Eu dei alguns passos pelo quarto, sem destino real. Só… inquieto. Havia algo ali que não encaixava mais na normalidade. A proximidade, o histórico, o fato de estarmos sozinhos depois de tudo, não dava para fingir que era só uma tarde qualquer.

(continua...)

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Comentários

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Esses dois aí! Mas lá vem o Mateus querendo analisar demais os sentimentos dele, fazer comparações...

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Os caminhos da felicidade estm logo ali basta segui-los.

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