As Noites Longas

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2143 palavras
Data: 19/04/2026 22:45:22
Última revisão: 19/04/2026 23:00:14
Assuntos: Amigo, Beijo, BROMANCE, Gay, Prima

A cidadezinha do meu avô mudava de ritmo quando o sol ia embora. Durante o dia, era quase silenciosa demais, parada, passos espaçados, vozes baixas, o som distante de algum rádio ligado. Mas à noite, tudo se concentrava na praça. Como se a cidade inteira decidisse existir ali, ao mesmo tempo. Luzes amarelas, bancos ocupados, gente andando sem pressa, risadas fáceis. E olhares. Muitos olhares.

— É aqui que tudo acontece? — Rodrigo perguntou, olhando ao redor com um meio sorriso.

— Tudo é muita coisa — respondi — Mas é o que tem.

Ele assentiu, mas dava para ver que, para ele, já era suficiente. A camisa rubra do Flamengo não ajudava a passar despercebido (seu pior defeito, com certeza, era ser flamenguista... rs). Ou ajudava demais. Vermelho forte no meio daquele cenário meio neutro. Mas não era só a camisa que chamava atenção. Era ele.

Alto, corpo atlético, rosto bonito. O jeito de andar, o corpo solto, o sorriso fácil quando queria. Em poucos minutos, já tinha gente olhando, comentando, criando pequenas órbitas ao redor.

— Você faz isso de propósito — falei.

— O quê? – ele respondeu, olhando para um grupo de meninas que cochichava mais à frente.

— Vir com essa camisa ridícula.

Ele olhou para baixo, como se só tivesse percebido agora.

— Ué.

Mas o sorriso entregava, Rodrigo sabia exatamente o efeito que causava. E gostava. Não demorou. Primeiro foram os olhares. Depois os comentários mais baixos, que não eram tão baixos assim. Risadinhas, cochichos, alguém passando devagar demais perto da gente. Ele absorvia aquilo com naturalidade. Como se fosse esperado. Como se fosse o lugar onde ele funcionava melhor. Eu observava. Não com surpresa, mas com atenção.

— A cidade é animada — ele disse, irônico.

Não demorou muito.

— Mateus?

Virei. Uma prima distante de segundo grau. Daquelas que você sabe que existem, mas não vê há anos suficientes para precisar reaprender o rosto.

— Oi — respondi, sorrindo.

— Você sumiu!

— Tô por aqui.

Ela me abraçou com facilidade, aquele tipo de proximidade que o interior permite sem pedir licença. Depois olhou para Rodrigo. E ficou um segundo a mais.

— Você não vai apresentar?

Claro.

— Esse é o Rodrigo.

Ele estendeu a mão, mas ela ignorou, puxando um abraço leve.

— Prazer – ele disse, naquele tom educado que sempre funcionava.

Funcionou. E não era só educação. A amiga dela, logo atrás, já olhava também. Trocas rápidas de olhares entre elas, sorrisos mais demorados, aquele tipo de interesse que nasce fácil, puro cálculo.

— Vocês estão por aqui até quando? — minha prima perguntou.

— Vamos ficar mais uns dias — respondi.

Ela sorriu.

— Então dá tempo.

Pausa.

— A gente podia dar uma volta depois.

Simples. Direto. Interior não complica o que quer. Olhei para Rodrigo. Ele não hesitou. Claro que não.

— Vamos.

Olhei para ele.

— Vamos?

Ele sustentou o olhar por um segundo.

— Vamos.

E havia algo ali. Uma espécie de incentivo que não era exatamente desinteressado. Andamos os quatro pela praça, depois um pouco além, ruas tranquilas, o som diminuindo conforme a gente se afastava do centro. Conversa leve, risadas fáceis. Rodrigo estava solto. Mais do que eu tinha visto nos últimos dias.

Tocava no braço da garota sem pensar, inclinava o corpo quando ela falava, aquele jogo que ele dominava sem esforço. Eu via. E entendia. Era ali que ele sabia existir. Sem conflito. Sem dúvida. Minha prima se aproximou mais de mim.

— Você sumiu — ela disse.

— Sim, faz tempo que eu não venho aqui.

Ela riu. O resto aconteceu com uma naturalidade que me deixou levemente desconfortável, não pela situação em si, mas pelo que ela expunha. Minha prima se aproximou de mim, sem cerimônia. O toque leve no braço, o sorriso direto. Não havia hesitação. E eu… eu hesitei. Por um segundo. Dois. O suficiente para sentir o olhar de Rodrigo em mim.

— Estou doida pra sair daqui - ela comentou, despretensiosamente.

Pausa.

— E como você cresceu - ela continou - A última vez que a gente se viu nós erámos crianças.

— Mas eu não cresci tanto assim – falei rindo, zoando da minha própria baixa estatura.

O jeito que ela me olhava agora não era o mesmo de antes. Nada ali era.

— Vamos ali? — ela sugeriu, apontando para um canto mais escuro, afastado.

Olhei de novo para Rodrigo. Ele já estava envolvido na própria dinâmica, entrando no jogo com facilidade. Rindo, falando baixo, próximo demais da outra amiga. Sem conflito, sem dúvida, como sempre e, então, ele me olhou. Por um segundo. Só um. Mas suficiente. E fez um gesto leve com a cabeça. Vai.

— Vai, Mateus — ele disse, de longe, mas olhando direto — Para de pensar.

Simples assim. Incentivo. Ou autorização. Talvez os dois. O nó veio na hora. Não por falta de opção. Mas pelo excesso de significado. A frase ficou (“para de pensar”). Porque era exatamente isso. Sempre isso. Respirei fundo. E cedi. Ainda assim, fui.

Minha prima me puxou pela mão com naturalidade, como se não houvesse nada para decidir. E, talvez, para ela, realmente não houvesse. O beijo veio fácil, natural, sem hesitação. Sem peso. E foi isso que mais me desconcertou.

Porque meu corpo respondia, claro que respondia, fisicamente meu corpo responde, não importa se é homem ou mulher. Mas minha cabeça estava em outro lugar, deslocada, observando, registrando (“para de pensar”). Ou em dois lugares. Ou em nenhum. Quando nos afastamos, ouvi a risada de Rodrigo ao longe. Solta. Sem preocupação. Como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.

Ele estava lá com a outra amiga. Rindo, envolvido, exatamente onde deveria estar. E, ainda assim, havia um fio invisível entre nós. Sempre havia.

A volta foi mais silenciosa. A cidade já mais vazia, se recolhendo aos poucos, as luzes ainda acesas, mas com menos gente. O som distante de alguma conversa, passos ecoando na rua de pedra, o ar mais frio da noite. Rodrigo andava ao meu lado. Sem tocar, sem pressa. Mas perto o suficiente.

— E aí? — ele perguntou, depois de um tempo.

— E aí o quê?

— Você gostou?

Não era pergunta. Era afirmação. Olhei para frente.

— Foi… bom.

Ele riu pelo nariz.

— Bom?

— É.

— Você complica até isso.

— E você? Gostou dela?

Pausa.

— Pra mim é só… acontecer – ele disse, simples, direto.

Eu sabia. Era justamente isso.

— Eu percebi.

Ele percebeu o tom.

— O que você quer que eu diga?

Não respondi na hora. Porque, no fundo, eu sabia. Ou estava começando a aceitar.

— Nada — falei, por fim.

Ele deu alguns passos em silêncio.

— Você ficou estranho.

— Fiquei?

— Ficou.

Agora ele olhou direto.

— Por quê?

A pergunta veio simples. Mas não era. Respirei fundo. A rua de pedra ecoava o som dos nossos passos, mudando juntos.

— Você complica — ele disse, mais baixo agora — Sempre tenta achar algo que não precisa.

Olhei para frente. A casa do meu avô já aparecia ao longe, luz acesa na varanda.

— E você simplifica demais.

Ele soltou um riso curto.

— Eu não penso tanto — ele disse, por fim — Eu só…

Pausa.

— Eu só faço o que dá vontade.

O que dá. Não o que poderia ser. Não o que talvez fosse. Só o que cabia no espaço físico de um momento. Assenti de leve.

— Funciona pra mim – ele concluiu.

E era isso. Bem ali. Simples assim. Rodrigo não estava mentindo. Nunca esteve. Na verdade, eu nunca poderia acusá-lo de fingir ou prometer algo mais, isso ele jamais fez. Ele não fugia. Ele escolhia. Escolhia não ir além, não transformar aquela relação, não aprofundar o que tínhamos.

Não erámos melhores amigos, não éramos namorados, éramos amantes (??), nos conhecíamos a vida toda, compartilhávamos tanta coisa juntos, mesmo assim éramos distantes, fisicamente íntimos, emocionalmente distantes. O que a gente tinha cabia em outro lugar. No corpo. No momento. Naquilo que não exigia nome. Apenas.

O problema, obviamente, era eu. Uma relação apenas física, apenas química, sem envolvimento, era banal demais para mim. Eu tinha a necessidade de tentar extrair algum sentimento, alguma emoção mais profunda, mesmo que o exercício fosse tão árduo quanto retirar leite de pedra.

— Quando a gente fica... pra mim, não é só pelo sexo – eu tentei me justificar – Porque não é só isso pra mim.

Ele demorou um pouco para responder.

— Mas não precisa ser mais.

Novamente. Sem rodeio. Sem tentativa de suavizar. Só verdade. Continuei andando.

— Pra você não precisa.

— Pra gente não precisa.

Ele corrigiu. E essa diferença importava.

— E se eu quiser que precise?

Ele parou. Eu também. Rodrigo me encarou de um jeito diferente agora. Menos leve. Mais… cuidadoso. Ou mais fechado.

— Você vai se complicar.

— Eu já sou complicado.

— Não desse jeito.

Silêncio. O vento passou mais frio naquele momento.

— Você sabia que iria ser assim — ele disse, mais baixo.

Sabia. Sempre soube.

— Sei.

— Então não inventa coisa.

Não era grosso, era direto, como ele sempre foi. Olhei para ele, de verdade, sem tentar ajustar, interpretar, suavizar. Só vendo. Rodrigo não estava fugindo, ele estava escolhendo e, talvez, sempre tivesse estado. Ele sustentou meu olhar por um segundo mais longo do que o normal e, pela primeira vez, não respondeu de imediato.

— É só isso, então — falei.

Não como pergunta, mas como conclusão. Ele sustentou o olhar.

— É bom, não é? O que nós temos.

Era. E talvez esse fosse o problema. Assenti de leve. Voltamos a andar, agora com uma clareza que não aliviava, mas organizava. Porque, no fundo, eu já sabia, desde o começo: o que existia entre a gente não era ausência de algo maior.

Era outra coisa, completa do jeito dela, mas limitada. E a limitação não vinha de fora, vinha dele, ou da forma como ele escolhia existir. E, pela primeira vez, eu não tentei mudar isso, só aceitei, mesmo sabendo que aceitar… também era uma escolha.

E, naquele momento, a peça que faltava encaixou. Não com dor, mas com uma clareza desconfortável, melancólica, agridoce. Rodrigo não era uma promessa, nem um erro, era um limite, uma barreira, que eu não conseguiria transpor. E, de certa forma, eu também era.

A gente entrou no portão sem falar mais nada, mas o silêncio, dessa vez, não era dúvida, era entendimento. E talvez fosse isso que tornava tudo mais difícil, porque, agora, eu sabia exatamente o que aquilo era. E, mesmo assim… não queria abrir mão.

__________

As ruas desse lugar conhecem bem as noites longas, as noites pálidas, quando eu te procurava. As casas desse lugar se lembrarão do nosso abraço, da sombra insólita. Espelho azul no chão. As ruas desse lugar, agora eu sei, sempre escutaram a nossa música, quando eu te respirava. As pedras municipais se impregnaram da dupla imagem, da dupla solidão. A sombra ali no chão.

__________

Os dias seguintes não tiveram o mesmo ritmo, mas também não tiveram nada de extraordinário. E foi justamente isso que começou a me incomodar. Era como se alguma coisa tivesse sido dita, mesmo sem palavras, naquela noite na rua, e agora tudo orbitasse em torno disso. Rodrigo continuava ali, presente, mas diferente. Menos disponível. Ou talvez mais coerente com o que ele tinha deixado claro.

A fazenda continuava bonita, o mesmo lago parado, o mesmo barulho do vento passando pelos morros, o mesmo céu limpo demais à noite. Rodrigo continuava ali, presente em todos os espaços, rindo, dirigindo, jogando, sendo… ele. Mas não comigo. Não do jeito que eu queria.

A gente andava junto, cavalgava, dirigia, ria das mesmas coisas, tudo igual por fora, mas havia um espaço novo entre nós. Não físico. Um tipo de contenção. E aquilo me irritava mais do que deveria, porque não era rejeição explícita, era pior. Era decisão.

A gente se encostava às vezes, dividia o mesmo sofá, trocava olhares que duravam um segundo a mais. Existia uma eletricidade constante, isso nunca foi o problema. O problema era o intervalo entre nós, entre os nossos toques, entre os nossos olhares, o que vinha depois, ou o que não vinha.

— Você tá estranho — falei no terceiro dia, deitado na grama perto da lagoa.

— Eu? — ele respondeu, sem nem olhar – Você que tá.

— Eu sempre fui.

Ele riu baixo.

— Agora mais.

Silêncio.

— Você que se afasta — falei.

— Eu tô aqui.

— Não tá.

Ele virou o rosto.

— Mateus…

Mas parou. Como se não valesse a pena terminar. E talvez não valesse mesmo. Eu não respondi, porque não tinha uma resposta que não soasse maior do que eu queria admitir. Ele voltou a fechar os olhos e aquilo me irritou mais do que qualquer provocação.

As noites foram ainda mais silenciosas. Dividindo o mesmo quarto, o mesmo espaço, o mesmo ar, mas não o mesmo impulso. Rodrigo se deitava, mexia no celular, virava de lado, dormia. Simples assim, como se nada tivesse acontecido, como se nada estivesse acontecendo. E eu ficava acordado, olhando para o teto, tentando entender por que aquilo me incomodava tanto.

Eu sabia desde o começo, sabia o que era, sabia o que não era. Então por que agora parecia insuficiente? Ou pior, por que parecia que ele tinha mais controle do que eu?

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