Eu, Joaquim, garçom do Cabaré Mère na Rua do Ouvidor, vivia nas entranhas da corte como uma sombra que serve taças de absinto e sorrisos falsos para os senhores que pensam serem deuses. Minha vida era um emaranhado de noites suadas, cheiro de perfume barato misturado ao suor rançoso dos nobres, e o som constante de risos forçados ecoando pelos salões de veludo vermelho. Nasci nas ruas do Rio, filho de uma lavadeira mulata e de um pai branco que nunca conheci, provavelmente algum marinheiro português que sumiu no mar. Aos doze anos, já limpava copos em tabernas do porto, aprendendo que o corpo de um rapaz bonito valia mais que dias de trabalho honesto. Aos dezoito, já sozinho no mundo sem minha mãe, com olhos verdes herdados de sabe-se lá quem e um corpo esguio moldado pela pouca comida e pelas noites em claro, entrei no cabaré descobri que os clientes pagavam não só pela bebida, mas pelo que vinha depois: um olhar cúmplice, uma mão que roçava "acidentalmente", e, para os mais ousados, um encontro nos becos onde a decência da corte se dissolvia em gemidos abafados.
Naquela noite, o ar do cabaré estava pesado como sempre, impregnado de fumaça de charutos cubanos e o perfume adocicado das cortesãs em corsets que mal continham seus seios fartos. Eu circulava entre as mesas, bandeja em mãos, o sorriso fácil colado no rosto como uma máscara. Sabia reconhecer os tipos: os barões gordos que babavam pelas moças, os arrivistas que contavam mentiras sobre fortunas, e os nobres.
Servia conhaque para um ministro da côrte como quem serve veneno doce, mas ainda pensava sobre a pergunta paga do novo garçom sobre a família Araguaia... Fantasmas que ainda assombram as conversas sussurradas aqui no salão, mesmo quando o piano toca modinhas para disfarçar.
São da velha nobreza, daqueles que não precisavam provar nada porque o sangue já grita. Excelentes produtores, possuem terras que engolem gente e cospem ouro, cana, café, escravos, tudo misturado no mesmo caldo quente. Bons comerciantes dos que sabiam o preço exato de uma letra de câmbio, de contratos com comissários ingleses e holandeses ou de uma honra vendida. Implacáveis com inimigos, eu ouvi de boca em boca, de cocheiros que levavam recados e de criados que limpavam sangue de chicote. Se você cruzasse o caminho de um Araguaia, ou pagava caro ou sumia nas matas, e ninguém perguntava. Aquele tal de Bento parecia saber bem disso, por isso falei apenas aquilo que pensei que ele queria ouvir
O velho visconde, o pai do Dom Luís, era o pior ou o melhor, dependendo de quem contava. O leão de São Lourenço, chamavam. Gênio forte como trovão, voz que calava salões inteiros no paço. Temido, sim. Quando ele morreu de febre terçã, rápido demais, como se o diabo tivesse vindo cobrar uma dívida, o ar mudou. Os inimigos, como o marquês de Jacarepaguá, cochichavam: “O velho Araguaia era de ferro; o filho é de vidro fino. Vamos ver quanto tempo dura antes de rachar.”
Entretanto os Araguaias são os menores dos meus problemas, afinal o Conde de Barbacena, Dom Pedro, com sua casaca azul impecável e olhos que queimavam como brasa sob a luz dourada dos lampiões, acabara de entrar no salão. Eu o via vir aqui de tempos em tempos, sempre sozinho, bebendo absinto como quem tenta afogar demônios. Rumores corriam pelos bastidores: ele era prometido a alguma donzela rica, mas eu sentia seu olhar cravar no meu peito sobre a camisa de algodão fino, eu percebia quando embriagado demais, suas mãos sempre tocavam as minhas na ansiedade de buscar a próxima taça.
Quando ele chegou, tarde da noite, aproximei-me à sua mesa reservada com uma taça extra, o pretexto perfeito. Nossos olhares se cruzaram, fogo puro, daqueles que prometem dor e prazer em doses iguais. "Mais uma, meu senhor?", murmurei, voz baixa, rouca e submissa, inclinando-me o suficiente para que ele sentisse o calor do meu corpo. Ele assentiu, os olhos certeiros vagando pelo meu peito sob a camisa, e sussurrou algo sobre "noites longas demais". Troquei palavras baixas, carregadas de insinuações: "A corte cansa, não é? Às vezes, um alívio rápido é o que salva." Ele sorriu, aquele riso predatório que eu conhecia bem, e pagou a conta com moedas a mais que tilintavam como promessas vazias, dizendo que talvez eu precisasse o acompanhar.
Assim o fiz, saí atrás dele, fingindo o fim do turno, o coração acelerando não por medo, mas pela excitação crua de saber o que viria. Já havia tido um ou dois clientes, homens de título que, na luz do dia, ditavam leis e casamentos, mas nenhum tão belo e nem tão cortejado. No entanto, eram as moedas que me levavam atrás dele nas ruas escuras.
Viramos na viela atrás da confeitaria, um buraco onde o cheiro de urina e doces velhos se misturava ao da podridão urbana. Ali, longe dos olhos da Rua do Ouvidor, ele me empurrou contra a parede com uma força que me tirou o ar, mãos cravando-se nos meus ombros como garras famintas. Seus lábios atacaram os meus num beijo selvagem, dentes mordendo meu lábio inferior até o gosto metálico de sangue se espalhar na boca, línguas se chocando com fúria, como se ele quisesse me consumir inteiro.
Gemi alto, um som gutural que veio do fundo da garganta, as mãos enfiadas nos seus cabelos claros, puxando com brutalidade. Ele rasgou minha camisa num puxão violento, botões voando para o chão imundo, expondo meu peito suado e os mamilos endurecidos que ele beijou, lambeu e mordiscou-os com dentes afiados, fazendo meu corpo arquear contra a parede rachada, sussurrando palavrões roucos:
“Miserável...”, murmurei eu, com a voz já partida entre riso de ódio e a rendição, “...pegue-me de uma vez, encha-me até que tu escorra e lave essa sua vontade.”
O conde me olhou assustado, ofegante como um animal no cio, desceu as mãos com urgência insana, abrindo minhas calças num gesto que quase rasgou o tecido, libertando meu pau duro, veias pulsantes inchadas, a cabeça rosada babando de pré-gozo grosso.
Ele se ajoelhou ignorando a imundície do local e engoliu meu membro com voracidade feroz. A garganta dele se contraiu ao redor de mim, quente, apertada, sufocante. Saliva escorreu pelos cantos da boca dele, pingando no meu saco. Sugando com força brutal que me fazia ver estrelas.
Gemidos ele mr arrancava com sua língua chicoteando a fenda sensível, a mão apertando minhas bolas pesadas e puxando com rudeza, torcendo levemente para intensificar a dor que se transformava em êxtase. Agarrei sua cabeça com as duas mãos, empurrando fundo, forçando-o a engasgar, lágrimas escorrendo pelos seus olhos enquanto ele grunia vibrando ao redor do meu pau, sons molhados e obscenos ecoando pela viela como um ritual sujo e profano. Meu quadril se movia por instinto, fodendo sua boca com estocadas rápidas, sentindo a garganta apertada se contrair em torno de mim. Os sons molhados, obscenos, ecoavam na viela como algo vivo e sujo.
Ele se ergueu de repente e eu temi pela minha vida, olhos injetados de raiva, o rosto vermelho e suado.
“Maldição, acabo de sufocar um conde com minha verga até o fundo de sua goela, até as lágrimas lhe saltarem dos olhos. Um mísero serviçal arrancando prantos de um fidalgo da alta nobreza... em que trevas andava a minha razão?”
Sem dizer uma palavra, virou-me de costas com um giro violento, prensando meu peito contra a parede fria e úmida, minhas nádegas expostas ao ar gelado. Cuspiu na palma várias vezes, espalhando a saliva grossa e quente no meu ânus apertado, dedos invadindo rude para preparar o mínimo, esticando com impaciência. Eu merecia pela minha ousadia. Entrou em mim de uma estocada selvagem, sem misericórdia, o pau grosso rompendo-me com um som de carne cedendo, arrancando um grito rouco da minha garganta, meu corpo tremendo com a dor lancinante que se espalhava como fogo pelas entranhas. Ele movia-se como um demônio possuído, estocadas rápidas e brutais, quadris batendo contra minha carne com força que me fazia tremer, suor rançoso dos nobres escorrendo em rios pelas minhas costas, misturando-se à umidade da viela.
Sua mão tapava minha boca com violência, sufocando os gemidos que viravam soluços abafados, dedos cravando na minha bochecha, enquanto a outra mão descia para masturbar meu pau com vigor cruel, apertando a base, puxando a pele num ritmo frenético que beirava a tortura, polegar pressionando a glande até me arrancar sons.
— Cala-te essa boca imunda e aguente tudo...” — Murmurou ele, os olhos semicerrados, um leve sorriso irônico curvando os lábios inchados de absinto e de luxúria, enquanto entrava mais fundo, sem pressa, como quem saboreia a ruína alheia. Dentes cravados no meu ombro, mordendo fundo, cada palavra pontuada por uma investida mais funda, mais violenta, seu pau pulsando dentro de mim, esticando paredes internas que se contraíam em espasmos desesperados. Empurrei para trás, querendo mais apesar da dor que rasgava minhas entranhas, os músculos internos apertando-o com força, arrancando grunhidos primitivos e guturais da sua garganta, o cheiro de sexo cru e suor dominando o ar podre.
O clímax explodiu como uma lâmina cortando carne: gozei primeiro, jorrando forte e abundante nas pedras sujas, o corpo sacudindo em espasmos violentos, sêmen grosso e quente escorrendo pelos seus dedos que continuavam a bombear sem piedade, um grito abafado escapando apesar da mão que me sufocava. Ele seguiu logo depois, enterrando-se até o fundo com uma estocada final que me fez ver branco, derramando-se em jatos quentes e violentos dentro de mim, enchendo-me até transbordar, o pau pulsando enquanto meu corpo o ordenhava até a última gota, seu corpo colapsando contra o meu, ofegante, trêmulo, suor pingando como sangue de uma ferida aberta.
Quando ele se afastou, ajustando as calças com mãos trêmulas, me olhou talvez pela primeira vez nos olhos. Eu ali, encostado na parede úmida da viela, o corpo moído como se tivesse sido moído duas vezes, uma pelo conde, outra pela vergonha de existir. Pedro recompôs-se em dois tempos: casaca abotoada com a precisão de quem arruma uma gravata antes de entrar no salão, cabelo alisado pelas mãos firmes e macias, como se a sujeira da noite fosse mero detalhe. Enfiou a mão no bolso interno, deixou cair três moedas de ouro na minha palma aberta. Três, nem mais nem menos, o número exato que a cortesia exige quando se quer pagar sem parecer generoso demais.
— Que nem um sussurro que escape desses lábios. A corte não perdoa confidências baratas.
Fechei os dedos devagar, sentindo o metal frio cravar na carne suada. Três moedas. Três pedaços de ouro que comprariam meses de aluguel, comida para três semanas e talvez tecido para roupas novas. Nada para luxo, nada para arrependimento, nada para a alma. Apenas o estritamente necessário para recusar investidas indesejáveis sem ter que pensar nas dívidas.
— Pode deixar, senhor — respondi, voz rouca, mas com a polidez que o ofício exige. — Estou sempre à disposição. Quando quiser.
Ele assentiu uma vez, seco, sem mais palavras, e virou as costas. Os passos ecoaram rápidos na direção da luz da Rua do Ouvidor, onde as carruagens ainda passavam cheias de damas e cavalheiros que, por certo, também tinham seus pequenos segredos pagos em ouro. Eu fiquei na sombra, olhando o chão: o sêmen dele e o meu, duas manchas indistintas que o primeiro chuvisco apagaria, como apagam tantas reputações na corte.
Guardei as moedas no bolso, o peso delas latejando contra a coxa junto com a ardência entre as pernas e as marcas roxas nos ombros. Cada passo para sair dali era uma lição de aritmética moral: amanhã volto ao cabaré, sirvo absinto com o mesmo sorriso falso, porque parar é morrer devagar e morrer devagar é o luxo que só os nobres podem se permitir por inteiro e eu, pobre Joaquim, sou apenas mais um lançamento no livro-caixa da hipocrisia humana.
Porque eu via tudo. Via os segredos da nobreza se desfazendo em gemidos. E, diferente dos escravos subservientes que ouviam e calavam. Eu falava, eu usava os segredos deles em silêncio, para sobreviver uma noite de cada vez.
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Obrigado mais uma vez a todos pelos comentários.
Este é um conteúdo (extra) dessa história, afinal joaquim não poderia ser somente um corpo usado.
Próximo final de semana chegaremos ao penúltimo capítulo da história e provavelmente no fds do dia 14 e 15 finalizaremos.
Espero que continuem acompanhando, comentando e dando estrelas nos contos.
Abraços
