— Ela está bem?
Carla: — Está melhorando. Teve uma crise de ansiedade — vou levar esse remédio pra ela.
Felipe: — Tem certeza? Esse remédio vai dopar ela. Já vi pessoas que começam assim e depois ficam dependentes pelo resto da vida.
Carla: — Mas Felipe, ou é isso ou ela piora e vou ter que levá-la ao médico — e provavelmente vão medicá-la da mesma forma. Ela ainda não está calma o suficiente.
Felipe: — Posso conversar com ela um pouco? Tentar distrair, ver se ela se acalma sem precisar disso.
Eu sabia bem o que esses remédios faziam. Perdi meu pai num acidente de carro quando era mais novo — minha mãe entrou em depressão depois, e esses remédios consumiram os últimos anos dela. Ou ela estava mal, ou estava dopada. Nunca estava ela. Não queria ver isso de novo.
Carla: — Tudo bem. Vou chamá-la aqui na sala.
Felipe: — Não precisa. Ela deve se sentir melhor no quarto. Deixa que eu vou até ela.
Carla: — Felipe, você não pode ficar subindo e descendo essas escadas assim...
Felipe: — Me ajuda a subir, Carla. Fico na cama descansando, juro que não dou mais trabalho. Kkkkk
Carla: — Tudo bem, cabeça dura. Kkkkk Vamos.
Ela me ajudou a subir. Me levou pro quarto — a Paula estava deitada no colchão no chão, rosto virado pro canto. A Carla me guiou até a cama, fez um sinal discreto de que ia nos deixar a sós e saiu.
Felipe: — Ei. Por que não deita aqui na cama?
Paula: — Porque não quero.
Felipe: — Só quero te fazer companhia.
Paula: — Me fazer companhia ou ter pena de mim? Não preciso da sua pena. Não preciso de ninguém.
Felipe: — Para com isso. Não estou com pena — estou preocupado. Sobe aqui, a gente conversa. Subi essas escadas assim pra ficar aqui com você.
Ela ficou quieta por um tempo. Depois veio pra cima da cama e se deitou ao meu lado, de costas, sem me olhar.
Felipe: — Até que enfim, menina birrenta. Kkkkk
Paula: — Para. Não tô pra piadas.
Felipe: — Não fica amargurada assim, Paula.
Paula: — Meu marido tá me traindo. Como você acha que eu deveria...
Ela parou no meio da frase. Sabia que eu já tinha passado por isso — ou pior.
Paula: — Felipe... você acha que eu devia perdoar ele? Como você fez com a minha irmã?
Era uma pergunta difícil. Eu perdoei a Ana, mas o caso era diferente. Traição é traição, não tem gradação. Só que a Ana não era ruim comigo — o que aconteceu foi um erro num relacionamento que ainda estava se formando. O marido dela fazia mal pra Paula muito além da traição. E também não posso negar que uma das coisas que me ajudou a perdoar a Ana foi o tesão daquele dia — coisa que não ia falar pra Paula.
Felipe: — Não sei, Paula. É muito pessoal.
Paula: — Para. Fala abertamente comigo.
Felipe: — Acho que foi porque parecia um erro, sabe? Um erro grande, no início do nosso relacionamento. No seu caso é diferente — vocês já estão casados há um tempo, já tem uma vida construída, os laços deveriam estar mais firmes. E a traição não é a única coisa ruim no seu relacionamento, pelo que estou ouvindo.
Paula: — Mas não é culpa dele. Como você se sentiria se a Ana não pudesse engravidar?
Felipe: — Não mudaria muito. Eu quero muito ser pai, mas... deixar minha esposa por algo que ela não controla? Se eu soubesse disso antes de entrar no relacionamento, não vou mentir — provavelmente pensaria duas vezes. Mas já casado, depois de anos com a pessoa, passando por tudo junto? Não teria coragem de ferir ela assim. Tentaria a adoção.
Paula: — Você aceitaria criar um filho que não é do seu sangue sabendo que tem a capacidade de ter um filho seu?
Felipe: — Teria, sim. Kkkkk No fim, ser pai vai muito além do sangue que corre nas veias. E não seria só ser pai — seria dar à minha esposa a chance de ser mãe, independente do problema dela.
Paula: — Entendo. — Ela ficou um tempo quieta. — Seja sincero — acha que devo me divorciar? Minha mãe fala isso, minha irmã fala. Mas eu tenho uma vida. Seria recomeçar do zero. Divórcio é muito desgastante.
Felipe: — A decisão tem que ser sua. Mas pensa assim: o divórcio é mais desgastante do que seu relacionamento tem sido, e do que ele pode vir a ser? Essa é a resposta que você precisa encontrar. Depois disso você decide.
Paula: — Hum. Você tem razão. A resposta é bem clara — eu só não tenho coragem. Coragem de recomeçar e de assumir que o meu casamento foi um fracasso.
Felipe: — Mas não foi por culpa sua.
Ela me olhou por um momento. Depois veio, me abraçou e colocou a cabeça no meu peito, chorando baixinho. Doía o peso do corpo dela nas minhas costelas — mas eu não queria tirar ela daquele momento.
Fiquei fazendo carinho no cabelo dela. Fui sentindo ela se acalmando aos poucos, a respiração ficando mais regular, o choro diminuindo. Eu nunca tinha tido essa proximidade com a Paula — nos três anos de casamento com a Ana mal tinha cruzado com ela cinco vezes. E agora estava ali, deitada nos meus braços, frágil de um jeito que ela claramente não costumava deixar aparecer.
Depois de alguns minutos ela foi parando de chorar. E dormiu.
Dormiu ali, cabeça no meu peito, respiração lenta.
Ela era diferente da Ana fisicamente — isso ficava evidente com ela deitada assim. Corpo mais cheio, mais pesado no ombro. Os peitos faziam peso. As curvas eram outras — mais volume em tudo, distribuído de um jeito que a Ana não tinha.
E o espelho.
Merda — o espelho.
Quando me dei por mim já estava olhando pra ele. O mesmo espelho da noite anterior — só que agora a Paula estava na cama, não no colchão lá embaixo. Muito mais perto. O vestido dela, o mesmo florido da véspera, tinha subido enquanto ela se mexia pra se acomodar. Estava na metade da coxa. A calcinha vermelha aparecia inteira, bem marcada contra a pele clara e cheia dela, enterrada entre as duas partes daquela bunda grande.
Não era momento pra ter esses pensamentos. Nunca era momento pra ter esses pensamentos com a minha cunhada. Pelo menos na noite anterior tinha o contexto — a Ana em cima de mim, a situação toda. Mas agora era só eu e ela num quarto quieto.
Tenho que cobrir ela.
Levei o braço livre na direção do vestido — e uma dor aguda na costela me travou no meio do movimento. Minha mão parou. Repousou.
Na bunda dela.
Na pele dela.
Felipe: — Aaaai, merda.
Aquela dor que trava tudo — você não recua com medo de doer mais, não avança pelo mesmo motivo. Fica paralisado exatamente onde está.
Só que junto com a dor tinha o calor da pele dela embaixo da minha mão. Aquela bunda grande e firme, quente, a pele lisa. Minha mão estava espalmada ali como se tivesse sido feita pra isso.
Que delícia de mulher. Merda — o que estou fazendo.
Tentei mover de volta. Dor aguda. Tentei subir a mão pra pelo menos ficar por cima do vestido. Dor de novo, forte, como se o universo tivesse decidido que minha mão ficava ali.
Meu pau começou a endurecer. Eu tentava não pensar besteira mas olhei pro espelho de relance — e não ajudou nada.
A imagem era: minha mão espalmada na bunda dela, a calcinha vermelha enterrada fundo entre as pernas, o volume da pele dela transbordando dos dois lados do tecido. E minha mão ali no meio de tudo aquilo, como se aquela mulher me pertencesse.
Ouvi passos no corredor. Me senti aliviado — ia poder pedir ajuda. Só que se fosse a Ana era fácil de explicar. Se fosse a Carla...
A porta foi abrindo devagar. Fiz um esforço que custou caro — levantei o braço com tudo que tinha, a dor queimando — e consegui tirar a mão da bunda dela. Mas não consegui ir além. O braço parou ali, suspenso de qualquer jeito.
A Carla entrou e me viu com aquela cara.
Carla: — O que houve, Felipe? Porque essa expressão?
Felipe: — Fui tentar ajustar o vestido da Paula, mas o braço travou. Toda vez que movo dá uma dor aguda na costela.
Carla: — Meu Deus, por que não me chamou, menino?
Ela pegou meu braço com delicadeza e foi trabalhando — massagem suave na região das costelas, movendo o braço de volta com calma até encaixar no lugar. O alívio foi imediato.
Felipe: — Nossa, que alívio. Kkkkk Estava tenso demais.
Carla: — Que situação. Kkkkk Você sempre se mete em problema com a Paula por perto, Felipe. — Ela levantou. — Vou pegar a pomada que a médica receitou pra essas dores.
Ela saiu. Olhei pra Paula — continuava ali, rosto praticamente no meu pescoço, respiração quente na minha pele. Com a movimentação toda, o vestido dela tinha subido mais ainda. Estava na cintura agora — a bunda dela completamente exposta, sem nada cobrindo. A calcinha vermelha enterrada fundo, ela sumia naquela bunda, dava pra ver o contorno da buceta dela, bem carnudinha, e a bunda.. . Era grande, cheia, redonda — aquela bunda que o espelho já tinha me mostrado duas vezes e que ficava melhor cada vez que eu via.
Puta que pariu.
A Carla voltou com a pomada — e os olhos dela bateram direto no que estava exposto antes mesmo de olhar pra mim.
Carla: — Meu Deus. Deixa eu resolver esse problema. Kkkkk
Ela ajeitou o vestido da Paula com aquela eficiência calma dela. Eu não sabia direito se estava aliviado ou decepcionado.
Carla: — Pronto. Agora vou passar isso — vai ajudar na dor.
Ela olhou pro rosto da filha dormindo tranquila.
Carla: — Obrigada, Felipe. Ela parece bem melhor.
Felipe: — Não precisa agradecer. Sei bem o quanto pessoas nesse estado precisam de alguém por perto pra conversar, pra distrair.
Carla: — Como você sabe disso? Já teve alguém assim por perto?
Felipe: — Já. Minha mãe. Mas não quero falar sobre isso.
Ela percebeu a dor na minha voz. A massagem que fazia no local foi mudando de jeito — deixou de ser pomada nas costelas e virou carinho, aquela feição de mãe que ela tem quando percebe que você não está bem mas não vai forçar nada.
Carla: — A Ana me disse que você não gosta muito de falar sobre seus pais. Não vou te forçar a isso. E...
Ela pausou. O olhar foi pra outro lado e voltou rápido — e as bochechas dela estavam levemente vermelhas. Constrangida. Por quê?
Segui a direção que ela tinha olhado. Meu pau ainda não tinha baixado da cena da Paula — estava marcando na calça de forma bem evidente.
Felipe: — Ah, desculpa, Carla. Eu...
Como ia explicar? "Ei Carla, meu pau tá assim por causa da bunda da sua filha" — não ia funcionar.
Carla: — Não precisa explicar. Kkkkk Entendo, juro. Agora entendo o esforço todo pra ajustar o vestido dela. — Ela pausou um segundo. — Mas ela é sua cunhada, Felipe. Você fica assim só de ver a bunda dela?
Direta. Mais do que eu esperava dela.
Felipe: — Bem... não sei, é que...
Não dava pra contar que na noite anterior tinha gozado dentro da Ana enquanto olhava pra bunda da Paula no espelho.
Felipe: — Eu estou errado, Carla. Mas não consigo controlar essas coisas assim.
Carla: — Olha nos meus olhos, Felipe. Você estava pensando coisas sobre a Paula?
Ela só tinha feito isso uma vez antes — quando me perguntou se eu tinha voltado com a Ana por perdão de verdade ou por vingança. Na época ela disse que sabia quando eu falava a verdade.
Felipe: — Não vou mentir pra você. Te tenho no coração e te respeito como se respeita uma mãe. Não estava com maldade — queria ajustar o vestido dela pra ela não ficar exposta no espelho.
Ao mencionar o espelho ela virou e olhou — a Paula de costas deitada, refletida inteira. Acho que entendeu bem a visão que eu estava tendo.
Felipe: — Mas conforme não consegui mover o braço, a situação foi tendo efeito. A Paula é linda, assim como a irmã dela. Não fiz nenhuma besteira — só fiquei assim. Me desculpa.
Carla: — Hum. Entendo. Tudo bem — você não está mentindo. Se não tinha maldade e tentou ajustar o vestido, isso mostra caráter. O resto é homem sendo homem. Kkkkk Nunca duvidei das suas atitudes. Mas homem é bicho safado mesmo, então melhor conferir.
Felipe: — Kkkkk Bem, obrigado por entender. E me desculpe mesmo assim.
Carla: — Ver minha filha tão calma já é presente suficiente. Mas deixa a bunda dela quieta — ela já te trouxe muitos problemas. Kkkkk
Ela nem sabia o quanto.
Acabei dormindo depois disso. Acordei com barulho de pessoas conversando — a Ana tinha chegado da casa da Sara, a Carla sentada numa cadeira perto da porta, a Paula ao lado da irmã na ponta da cama. A Paula estava rindo, mais calma que antes. Era bom de ver.
Carla: — Olha quem acordou. Kkkkk
Ana: — Amor! Que feio.
Felipe: — O que foi?
Será que a Carla tinha contado?
Ana: — Eu saio rapidinho e você acaba com o casamento da minha irmã. Kkkkk
Paula: — Nada disso. Kkkkk Ele me deu bons conselhos e foi muito legal comigo.
Felipe: — Você decidiu?
Paula: — Sim. Quando acordei conversei com a mamãe e decidi acabar com esse casamento. E não vou entrar em disputa judicial — abro mão de tudo que tenho direito. Não quero passar por isso, sei que ele jogaria duro. Começo do zero.
Felipe: — Tem certeza?
Paula: — Sim. Fica tranquilo. Kkkkk Se tudo der errado eu sempre posso te culpar pelos conselhos.
Felipe: — Ei! Kkkkk
O clima ficou bom. O Júlio chegou do trabalho mais tarde, jantamos todos juntos — os próximos passos da Paula, a vida em geral. Um jantar de família de verdade. Até que o Júlio começou a cutucar a Carla chamando ela pra ir dormir e ela foi com ele.
Ana: — Viram o pai cutucando a mãe? Acho que vai rolar alguma coisa essa noite. Kkkkk
Paula: — Ana! Respeita a mãe, sua vadia.
Ana: — Para de fogo, sua puta — eles são adultos. Você acha que viemos de onde? Quem sabe nosso irmão vai ser fabricado essa noite. Kkkkk
Paula: — Anaaaa, credo. Kkkkk
As duas eram bem diferentes quando a Carla não estava por perto. Com ela elas se comportavam — sem ela, era o que estava me apresentando agora.
Ana: — Mas não se faz de santa, irmã. Porque sei muito bem que você não é.
Eu olhei pra Ana. Não achei que ela ia trazer o assunto da noite anterior — mas ela me olhou bem tranquila, e eu entendi que estava fazendo isso de propósito.
Ana: — Até porque, se você fosse uma santinha, não ficaria se tocando enquanto eu transo com meu marido.
PUTA QUE PARIU.
Ela falou. Na minha frente. Com aquela calma toda. A Paula ficou vermelha de um jeito que eu nunca tinha visto nela — aquela pele clara dela não perdoava nada.
Paula: — Eu, eu...
Ana: — Para de gaguejar. Não estou brigando com você — só quero entender.
Paula: — Mas precisa ser na frente do Felipe?
Ana: — Foi ele que viu. Kkkkk
Paula: — QUE?!
Ela me olhou pela primeira vez em minutos — envergonhada, sem saber onde colocar o rosto.
Paula: — Me desculpa...
Falou olhando pro lado, sem conseguir me encarar. A Ana me olhou como se esperasse que eu falasse alguma coisa.
Felipe: — Relaxa, Paula. Como a Ana disse, só queremos entender. E principalmente te pedir desculpa — você que deveria estar ofendida por termos feito isso com você no quarto.
Ana: — Exato. A gente pensou que você estava dormindo. Então pedimos desculpas, irmã. E também — eu sei que você está passando por problemas no casamento há um tempo. Deve ser falta de rola, né? Você reagiu assim.
Felipe: — Ana! Olha o jeito de falar.
Ana: — Aff, você tá passando muito tempo com a mamãe. Kkkkk
Paula ficou quieta. Mas eu notei — um sorriso pequeno, involuntário, ao ver eu e a Ana indo um pro lado do outro.
Paula: — Olha... obrigada pelo pedido de desculpas. E eu também peço. Na hora não tive cabeça — nunca tinha ouvido alguém transando perto de mim, foi uma coisa completamente nova. E a Ana não está totalmente errada — sou humana. E tem um tempo sem sexo desde que o Bernardo começou a me culpar pela gravidez que não vinha. Talvez isso também tenha pesado.
Ana: — Ok então — pedidos feitos, bola pra frente.
Paula: — Você não se importa, irmã?
Ana: — Não né, porra. Kkkkk Você é minha irmã. Não é como se quisesse dar pro meu marido. — Pausa. — Ou quer?
Ela olhou direto nos olhos da Paula. A Paula desviou.
Felipe: — Ana, já falei pra parar com isso.
Ana: — Não é falta de respeito — é uma pergunta. Fácil de responder inclusive. Não estou com clichê de ciúme, Paula. Só quero entender a situação ao certo. Acho meu marido um gato — ele é carinhoso, atencioso, ótimo em tudo no nosso relacionamento. Você mesma disse que é humana. Isso é normal.
Paula: — O que você quer dizer com isso, Ana? Que se eu quisesse ele você não se importaria?
Ana: — Isso. Não estou dizendo que deixaria você dar pro meu marido. Kkkkk Mas não me incomoda vocês ficarem próximos. O que me incomodaria seria você ter algum desejo desse nível e esconder de mim.
Eu não estava entendendo onde ela queria chegar — na verdade estava, só não entendia por quê agora.
Ana: — Vou repetir a pergunta. Você sente algo por ele ou não?
Paula ficou em silêncio por um tempo longo. Quando falou, foi sem me olhar.
Paula: — Têm sido dias difíceis, Ana. Minha cabeça está confusa. Depois do acidente pensei que ele ficaria com raiva de mim — e ele se preocupou comigo. Hoje foi um fofo. Faz tempo que não descanso assim, que não durmo com aquela calma. — Ela pausou. — Não vou negar. Mas também não vou definir o que sinto porque nem eu sei. O Felipe mexeu comigo de alguma forma. Eu respeito o casamento de vocês, mana. Mas se você quer sinceridade — sim. Só que não sei o que é.
Nem eu pensei que ela ia falar isso.
Ana: — Viu? Sem problemas. Isso é normal — seu marido é um merda e o Felipe te trata como você merece. Claro que mexeu com seus sentimentos. E não quero que você mude nada. O Felipe tem minha total confiança — e você também, mana. Deixo você se apegar a ele, e ele cuidar de você.
Paula: — Ana, eu não sei se isso...
Ana: — Ei. Não se preocupa. Como eu disse, não te dou permissão pra dar pro meu marido. Kkkkk Mas não me importo com a proximidade, com o apego, com o carinho. Você pode ir além, Paula — de verdade não me incomoda. Acho até que vai te fazer bem nesse momento, quando você está duvidando tanto de si mesma.
A Paula continuou sem me olhar, como se quisesse dizer algo mas não conseguisse.
Paula: — Ok... eu quero me aproximar mais do Felipe. Não vou passar o limite que você colocou, óbvio — nunca pensei em dar pra ele, Ana. Mas comecei a gostar de conversar com ele, de ouvi-lo, de sentir o carinho que ele demonstrou hoje. Você tem certeza que não vai te deixar com ciúmes?
Ana: — Sim, totalmente. Mas você fecha um acordo comigo.
Paula: — Qual?
Ana: — Não esconda nenhum sentimento ou desejo sobre o Felipe de mim. Consegue fazer isso?
Paula: — Consigo.
Ana: — Então está tudo bem.
Ela abraçou a Paula e deu um beijo no rosto dela. Depois veio até mim, me deu um beijo na boca. Eu puxei ela pro abraço e perguntei baixinho, no ouvido dela.
Felipe: — O que foi isso?
Ana: — Não sei ainda. É novo. Mas depois conversamos a sós, amor.
Eu não sabia o motivo dela pra isso — mas alguma coisa naquele quarto tinha mudado de endereço. Sentia isso sem conseguir nomear.
Ana: — Ah, e Paula — hoje eu durmo no colchão. Você dorme na cama com o Felipe. Depois dessa conversa toda. Kkkkk
Paula: — Ana! Deixa eu dormir na—
Ana: — Kkkkk não.
E saiu correndo do quarto.
Paula: — Anaaaaaa!
E foi atrás dela.
Fiquei deitado ouvindo as duas correrem pelo corredor, a risada da Ana se afastando, a Paula gritando o nome dela. Aquele barulho de irmãs que brigam mas não brigam.
Alguma coisa tinha começado. Eu não sabia bem o quê ainda.
Mas sabia que não ia terminar em breve.