Caríssimos, Nanda teve um “insight” e acabamos reescrevendo o final que já estava quase pronto.
Consequentemente, ficou ainda maior.
Ao invés de duas partes, serão três.
Segue mais uma. Tentaremos postar a última no final de semana.
Forte abraço,
Mark e Nanda
P.S.: Aguenta mais um pouquinho, Ida! Já está quase acabando.
[...]
Saímos caminhando e logo encontramos um típico restaurante americano que também não servia almoço como o que estávamos acostumados, mas pelo menos serviam um lanche bem mais recheado que o simples hot-dog que havíamos comido, além de uma bela porção de batatas fritas. Já estávamos no meio do lanche quando resolvi conversar:
- Dos vídeos que a gente já assistiu... Ficou alguma dúvida, algo que você queira me perguntar?
- Helena, por mim eu nem estaria aqui. Vim mais por uma insistência sua...
- Eu sei. Você não está me cobrando, mas eu estou. Eu estou me cobrando ser verdadeiramente honesta e transparente de uma forma que eu deveria ter sido desde o começo com você.
[CONTINUANDO]
Voltamos caminhando tranquilamente pelas ruas, passeando juntos, embora não mais de mãos dadas. Em menos de vinte minutos já estávamos de volta à sala de exibição no escritório local da CIA. Assim que sentei, retomamos de onde havíamos parado e os próximos seriam justamente os mais críticos em Viena.
Havia outros ainda do meu cotidiano: na convenção, no hotel, com a Bri, alguns até de nossa intimidade juntas. Mas surpresa mesmo foi encontrar alguns do Beto, o que também o fez arregalar os olhos:
- Mas... sou eu, e a Annie! - Disse ele apontando para uma moça loira, bem bonita.
- Ah! Então, essa é a Annie... - Resmunguei meio... enciumada, afinal, era realmente uma moça muito bonita.
- É. - Ele resmungou de volta, sem tirar os olhos da tela: - Por que me filmaram?
- Deve ser porque você estava lá e acabava sendo uma variável imprevista, e que poderia pôr tudo a perder. - Deduzi, sem também tirar o olho da tal Annie: - Bonita ela, hein?
- É... - Ele concordou para me perguntar surpreso depois: - Hein!?
- A moça. Muito bonita ela... - Insisti, olhando para o Beto.
- Sério!? Você vai querer ter uma crise besta de ciúmes de mim, depois de ter me traído com a Brianna, Bronson e sei lá mais quem? - Ele retrucou, seu tom de voz se elevando.
Respirei fundo para não discutir com ele, porque, no fundo, era exatamente isso o que eu estava tendo. Enquanto respirava e tentava me controlar, acabei segurando na mão dele e apertando. Foi instintivo, mas eu precisava saber que ele estava ali e ele precisava saber que aquilo mexia comigo, porque realmente e inexplicavelmente mexia, e muito:
- Desculpa. Mas é que... é tão estranho saber que você e ela estavam lá... juntos.
- Não estávamos juntos! Ela era só uma amiga que estava me ajudando a atravessar um momento difícil. Inclusive, eu só consegui entrar naquele clube por intermédio dela.
- Como assim atravessar um momento difícil?
- Ah, Helena... Qual é!?
- Tá! Tá... Tá bom. - Sussurrei, tentando mais me convencer da normalidade daquilo, do que a ele mesmo.
Seguimos assistindo aos vídeos e inclusive surgiu outro no tal clube, primeiro filmando minha mesa, enquanto eu conversava com o filho do Bronson. Depois a mesa dele com a tal Annie. Depois a dele quando eu estava lá conversando com ele. A CIA realmente seguia todos os nossos passos, em qualquer lugar, sempre.
Chegamos então ao tal vídeo em que eu transei com a Brianna e ela com o filho do Bronson. Envergonhada, mas ainda tentando achar alguma justificativa, tentei fazer uma brincadeira:
- Em minha defesa, só a Bri que transou com ele. - Falei e sorri.
- Se deixar ser chupada, chupar e aceitar ser dedada por ele não me parece exatamente não transar. - Retrucou o Beto de imediato, a voz calma, assustadoramente comedida: - Aliás, bela depilação a sua.
Eu sabia o que ele queria insinuar. O Beto sempre pedia para eu deixar um triangulo de pelos pubianos bem baixinho, pois dizia se excitar com o efeito que a imagem fazia, contratando com a minha pele branca. Eu apenas suspirei e dei de ombros, afinal, aquele era o menor dos meus pecados.
Assistimos calados ao vídeo... todo o vídeo. Inclusive, da parte em que eu, em lágrimas, e Bri conversamos depois. Posso estar enganada, mas o Beto não parecia exatamente bravo nesse momento, ele me parecia mais... entristecido. Talvez aquelas minhas lágrimas tenham sido a única coisa boa que produzi em toda essa maldita operação.
Continuamos e chegamos num vídeo de uma invasão feita pelo Beto ao apartamento do filho do Bronson. Meu agente nada “smart” e bastante indiscreto até que agiu bem, mas apanhou feio no final. Não aguentei aquela situação e ri. Depois, olhei na direção dele, sorrindo:
- Pode rir. Fiz papel de besta. Eu sei...
- Besta!? Estou sorrindo de orgulho. Você, sem treinamento algum, conseguiu burlar a segurança de um hotel estrelado e ainda driblou a segurança particular do filho do Bronson para entrar no apartamento dele. - Falei, vendo-o sorrir também: - Se isso não é ser inteligente, não sei mais o que pode ser.
Ele também sorriu, acredito que satisfeito consigo mesmo. Assistimos mais alguns vídeos sem grande importância e então um subdiretório, com uma data específica, surgiu. Era a maldita data da minha primeira vez com o Bronson. Acessei o subdiretório e havia um único arquivo. Eu não precisava acessá-lo para saber o estrago que faria entre mim e o Beto, e acabei titubeando:
- O que foi? Aconteceu alguma coisa? - Ele me perguntou ao ver que eu havia congelado.
Meus olhos marejaram de imediato e minha voz sumiu. Ele me encarou com um pouco mais de atenção e ficou em silêncio. Foram minutos de uma indecisão, de uma incerteza, aliás, de uma dolorosa certeza, até que decidi fazer o que precisava ser feito. Dei um duplo clique no arquivo e a imagem surgiu imensa na televisão, chamando a atenção do Beto.
No início, havia apenas uma mesa de jantar requintada, posta para duas pessoas, mas logo a seguir entramos eu, usando um belíssimo vestido longo vermelho de frente única, salto alto e meias-calças, cabelo soltos bem penteados e uma maquiagem insinuante, mas não vulgar. Bronson vinha logo atrás de mim, com uma das mãos em minhas costas nuas. Eu tremia enquanto assistia o vídeo. Beto tomou o mouse da minha mão e pausou o vídeo:
- Não precisamos continuar.
- Mas... você precisa saber. Eu... também...
- Eu já sei o que eu precisava saber. Ver os vídeos não vai mudar o passado, nem o que eu sinto no presente. - Ele virou minha cadeira para si, fazendo com que ficássemos frente a frente: - Escuta, Helena... Você deveria ter sido honesta e transparente comigo lá atrás, antes de tudo acontecer. Agora isso não vai fazer a menor diferença e... Sinceramente? Acho que só vai trazer mais dor para nós dois.
- Mas... Mas...
- Não! Se você quiser assistir aos vídeos, é um direito seu. Mas eu não quero mais participar disso. Estou vendo que está te fazendo mal e não creio que vá me fazer bem algum também. - Ele se levantou e deu dois passos na direção da porta, mas antes de sair ainda falou: - Olha, se quer um conselho, não assista isso. Se você não fez por querer, se não tirou prazer algum dessa experiência, só esqueça. É o melhor a fazer.
Ele saiu da sala e me deixou só. Fiquei pensando no que ele falou e entendi que o mal que eu havia feito nunca poderia ser desfeito. Pelo menos, não daquela forma. Sem saber exatamente o que procurava, adiantei o vídeo em diversos momentos, apenas para confirmar o que eu já sabia por experiência própria: eu realmente havia me prostituído. Não fora por dinheiro, mas por um favor que, pelo menos, beneficiou uma pessoa que eu amava como uma mãe. Pelo menos, era isso que eu tentava me convencer.
A porta novamente se abriu e eu olhei na direção para ver a Bri entrando com um semblante preocupado. Pausei o vídeo na parte em que o Bronson me fodia de quatro e a ouvi perguntando:
- Brigaram, não foi?
Apenas neguei com a cabeça e resumi o que o Beto havia me falado. Ela se sentou onde ele estava até pouco e acariciou a minha mão:
- Acho que ele está certo. Assistir a esses vídeos só traria dor, nem sei por que você insiste? Você já luta todo dia para superar o que viveu... Então, para que reviver isso?
- Eu só queria que ele visse que estou sendo honesta.
- Ele sabe que você está sendo e...
Bri se calou ao me ver chorando e me abraçou. Ficamos minutos ali, abraçadas. Quando me acalmei, ela falou:
- Se eu soubesse que as coisas tomariam esse rumo, eu nunca teria te envolvido nessa maldita operação. No fundo, a culpa foi minha.
Neguei sua conclusão com um movimento de cabeça, mas ela continuou:
- É sim. Eu errei em ter... - Ela suspirou, parando algo que não queria confessar: - Mas se eu não fizesse, a CIA teria colocado outro agente para te acompanhar. Então, pelo menos, eu sei que te protegi, de uma forma ou de outra.
- Você não tem culpa de nada, Bri! Eu trai o Beto. Eu era a esposa dele. Eu era quem deveria ter sido fiel.
- Você nunca teve chance alguma contra mim, Helena. Eu sou treinada para seduzir qualquer tipo de pessoa. Eu só não contava me apaixonar por você nesse processo.
Talvez ela estivesse certa. Talvez eu tivesse sido só uma peça nesse tabuleiro. Infelizmente, no xadrez, nem sempre a Rainha termina a partida ao lado do seu Rei. E esse parecia ser o meu caso.
Levantei-me da minha poltrona e dei um passo na direção da porta. Mas virei-me na direção da Bri novamente:
- Não assistimos a todos. Será que você consegue uma cópia dos vídeos de Viena para a frente?
- Para que, Helena!?
- Não sei. Quem sabe um dia seja útil.
Ela acenou positivamente com a cabeça e veio na minha direção. Saímos da sala e encontramos o Beto sentado num sofá de uma sala contígua, olhando para uma janela lateral. Fomos até ele e eu me sentei ao seu lado, enquanto a Bri foi providenciar a cópia dos arquivos que eu havia pedido:
- Eu... não assisti.
- Acho que foi melhor assim.
- É.
Ficamos calados e Bri voltou em menos de trinta minutos com um pendrive. Entregou-me e nos convidou para voltarmos ao hotel. No caminho, ela me avisou que o nosso voo para o Brasil aconteceria na manhã do dia seguinte. Ninguém quis jantar naquela noite. Eu e Bri ainda comemos lanches rápidos em nosso quarto e dormimos. Não vi mais o Beto.
Na manhã seguinte, após um café da manhã, pegamos outro voo em direção ao Brasil. Essa segunda parte do voo, ao contrário da primeira, foi totalmente silenciosa e apática. Bri cuidava de questões com outros agentes. Já eu e Beto ficamos calados praticamente todo o voo.
Já em São Paulo, Beto impôs que queria conversar com o tal de Zico, o criador da S.I.N.A. Ele disse que ou iria sozinho para lhe explicar os riscos envolvidos com a IA que ele havia desenvolvido, ou ninguém o encontraria. O agente Rutterford bufou, insistiu, quase ameaçou, mas o Beto firmou posição e foi respeitado. Depois, Beto sumiu por um dia inteiro.
No dia seguinte, quando retornou, disse que o tal Zico estava disposto a conversar e cooperar com a CIA, desde que nem ele, nem ninguém da sua equipe, fosse preso. Rutterford disse que não podia garantir nada. Então, o Beto fez algo que ninguém esperava: ameaçou o próprio Rutterford:
- What the fuck!? - Bufou o Rutterford em certo momento.
- É isso aí! Ou será do meu jeito, ou não será. Ele e várias outras pessoas já estão avisadas, inclusive da Polícia Federal. Se algo me acontecer, ou a ele nas próximas horas e dias, um escândalo sem tamanho com todos os detalhes da operação, das chantagens, de nomes, enfim... Vou jogar merda no ventilar e vai espirrar bem no meio da sua cara!
Ainda bem que o Rutterford acompanhava tudo dos Estados Unidos, porque se estivesse ali, acho que teria dado um tiro no Beto. Ele sumiu por horas e quando voltou a ligar, aceitou todos os termos do Beto. Aliás, foi o próprio Beto quem intermediou a reunião entre ele, a Bri e um outro agente especialista em IA da CIA, que tinha vindo conosco no voo, na reunião com o tal Zico.
Acabou que o tal agente designado se surpreendeu com a inteligência do Zico e após passar um relatório minucioso dos detalhes da reunião ao agente Rutterford, ficou decidido que eles o recrutariam para trabalhar na CIA, num escritório lá nos Estados Unidos. Zico disse que não iria porque sua turma era bem brasileira e dependia dele. Então, a CIA precisou criar uma “filial clandestina” no Brasil, que seria comandada pelo “LittleChicken81”, o antigo nome hacker do Zico.
Como parte do “contrato de trabalho” oferecido ao Zico, todos os seus computadores que estavam na sua “sede”, foram levados aos Estados Unidos para uma minuciosa análise. Claro que eles queriam entender melhor todo o funcionamento da tal S.I.N.A. Entretanto, nada encontraram naquelas máquinas. Quando perguntado, o Zico disse que deixou tudo onde sempre esteve, ou seja, a S.I.N.A. estava na máquina, mas simplesmente desapareceu sem deixar rastros. Ainda assim sabíamos que um dia, mais cedo ou mais tarde, iríamos novamente encontrar aquela IA.
Quando as coisas se acalmaram um pouco depois, conversei com o Beto e pedi para visitar seus pais, dona Mariinha e seu Valdo. Ele mesmo me levou. A surpresa nos rostos deles ao me verem bem e viva foi quase hilária, se não fosse também meio trágica devido a todo o contexto. Ainda assim foi muito bom me sentir novamente acolhida dentro daquela família que eu ainda sentia ser a minha.
Na volta para a capital, também pude conversar com o Beto, mas ele seguia arredio e acabamos decidindo seguir nossa vidas separados, afinal, eu não podia obriga-lo a me aceitar. Doeu e doeu muito dizer adeus, um que parecia ser definitivo. Bri continuou comigo, sempre me apoiando. Mas, por mais importante que ela fosse, ela não conseguia preencher o vazio que existia no meu peito. Por isso, procurei ajuda com uma terapeuta.
O consultório da Dra. Laura Mendes ficava no 12º andar de um prédio discreto na Rua Oscar Freire. Nada de paredes brancas frias ou sofá de couro; o ambiente era quente: estantes cheias de livros variados, uma poltrona bergère verde-musgo, uma mesa baixa com um jarro de água e limão, e paredes pintadas num amarelo, algumas cobertas por quadros abstratos que, mais tarde, descobri que ela mesma pintava. Laura tinha 47 anos, pele negra retinta, cabelos curtos e cacheados que usava com orgulho, e olhos pretos que pareciam sugar a alma de seus pacientes antes mesmo de se abrir a boca. Era psicóloga clínica há 22 anos, com especialização em terapia de casais e relacionamentos. No currículo que eu encontrei no Google, havia uma linha discreta, mas curiosa: “Experiência comprovada em poliamor ético”. Acho que foi isso que me fez marcar a primeira consulta.
Cheguei na segunda-feira seguinte a minha última conversa com o Beto. Fui sozinha. Bri tinha insistido em me acompanhar, mas eu recusei. Eu queria entender o que eu sentia de verdade e isso poderia significar reavaliar o meu próprio relacionamento com ela.
Curiosamente, Laura não começou com um típico “me conte tudo”. Ela me serviu um copo de água, sentou-se na poltrona em frente à minha e perguntou, pura e simplesmente:
- Helena, se você pudesse voltar no tempo e apagar uma única coisa que fez, o que seria?
Eu pisquei, surpresa e meio sem entender. De todas as hipóteses que eu havia previsto, de tudo o que ensaiei mentalmente contar, essa não era uma delas:
- Eu… Eu... - Engoli a seco, embora estivesse com um copo de água nas mãos, agora trêmulas: - Eu não magoaria o Beto. Eu só não queria ter sido desonesta com ele. Mas... eu também não queria apagar a Bri. Eu... Eu não sei...
A Laura me encarou por sobre seus óculos, em silêncio. Um instante que durou mais do que eu imaginava ser necessário. Ela então anotou algo e voltou a me encarar:
- Errar é humano, Helena, e se você já reconhece que errou, significa que deu o primeiro passo para retomar o controle da sua vida. Pelo pouco que disse e se eu entendi corretamente, você mantinha um relacionamento com esse tal Beto e se relacionou com outra pessoa, Bri. Não é isso?
Acenei positivamente e expliquei:
- Beto era o meu marido. Bri é... - Suspirei novamente, olhando para o lado: - É a minha atual companheira.
- Entendo... Por que não me conta como tudo aconteceu?
Contei. Falei tudo, tim-tim por tim-tim. Não escondi nem um único detalhe, nem mesmo a operação da CIA, da qual participei. Ela me ouvia a tudo atentamente, vez ou outra, fazendo anotações. Quando me calei, ela suspirou:
- É. Realmente é um caso bastante “sui generis”.
- Pois é... Minha vida é uma bela tragédia.
- Já parou para pensar que talvez você não tenha exatamente uma culpa por tudo o que aconteceu?
- Como não!? Eu era casada, feliz, tinha um homem que me amava e a quem eu ainda amo, e me relacionei com outra mulher escondida dela! Como não tenho culpa?
- Sim, eu entendo o seu ponto de vista. Mas veja bem... Pelo que me contou, foi essa Bri que iniciou a aproximação, não você. Ela tinha uma missão e você fazia parte dessa missão. O que aparentemente ela, nem você contavam, é que iriam se apaixonar.
- Isso não muda o fato de eu ter traído o Beto.
- Não, não muda. Pode até parecer estranho, mas nem sempre controlamos nossos impulsos. Talvez, a Bri tenha apenas despertado algo que já existia dentro de você.
- Tudo bem. Mas eu era casada e não tinha o direito de magoar o meu marido.
- Correto. Mas se vitimizar irá resolver algo?
Eu a encarei meio brava, o que deve ter ficado estampado em meu rosto. Então, ela continuou:
- Ok. Então vamos começar por aí. Você já parou para pensar o porquê de ter ficado com a Bri enquanto ainda estava com o seu marido?
- Não. Sim. Bem... - Respirei profundamente, olhando para o copo de água: - Isso que é estranho. Eu nunca tive nenhuma vontade de ficar com mulher. Sempre fui bem convencional em questão a relacionamentos. Mas com ela... Eu não consigo entender.
- Você nunca teve uma namorada?
- Namorada... mulher!? Nunca! Tive alguns namorados antes do Beto, mas nada sério.
- Curiosidade pelo sexo alheio?...
- Não também. Lógico que quando a gente vê uma mulher bem vestida, ou um rosto bonito, isso nos chama a atenção, mas nunca a ponto de eu querer ficar com uma.
- Entendi. Como é essa Bri? Não pergunto apenas fisicamente, mas o “ela em si”.
- Ah... Ela é espirituosa, charmosa, bonita, sexy, sensual. Tem um jeito meio dominador, mas na verdade é bem princesinha. - Dei uma gostosa risada de meu próprio comentário, enquanto Laura permanecia séria: - E é bastante racional. Eu diria quase pragmática.
- É, sendo uma espiã, a profissão impõe que ela seja assim, não é?
- É. Acho que sim.
- E o Beto? Fale-me dele.
Meus olhos se encheram de lágrimas e precisei beber um gole de água para me dar um tempo e conseguir controlar meus nervos. Respirei fundo:
- O Beto é tudo de bom. Sempre me apoiou a trabalhar fora, ajudando-me a crescer na profissão, cuidando de mim, da nossa casa. Sinto uma falta dele...
- Ele parece ser bem legal... Mas e o jeito dele, como ele era no dia a dia, emotivo, racional, explosivo, ponderado?
- Racional, sem dúvidas. Emotivo só entre eu e ele, mas ainda assim bem racional. Ponderado também. Carinhoso, de um jeito tímido, mas eu adorava.
Laura anotou em seu caderno e me encarou:
- Você já parou para notar que ambos parecem bastante um com o outro no jeito de ser?
Pensei um pouco no que eu havia falado e concordei:
- É. Agora que você tocou nesse assunto.
- Vamos adiante... - Laura bateu seu lápis no caderno: - E o sexo? Como era o sexo com eles?
Dei um sorriso para mim mesma antes de responder:
- Ah... Muito bom. Com osBeto não deixa algo a desejar?
- Não. Nunca! Ele sempre foi um amante dedicado e preocupado com o meu prazer. Eu quase sempre gozava antes dele e quando isso não acontecia, ele fazia o impossível para eu me satisfazer depois.
- E com a Bri?
- Também é muito bom, mas é bem diferente. Bri sendo mulher não tem pênis, óbvio. Então, vamos dizer o nosso antes é bem maior que o nosso durante, se é que me entende?
- Entendo sim. Com ela é algo do tipo 70% preparação e 30% ação, enquanto com ele era 30% preparação e 70% ação, estou certa?
Dei uma risada e concordei, já emendando:
- Talvez por isso tenha sido difícil não continuar com ela, porque ela sempre me envolvia muito antes de “transarmos”... - Fiz um aspas com os dedos: - Daí eu me convenci de que iria contar para ele e fazê-lo aceita-la conosco.
- E por que não contou? Nem digo sobre a operação da CIA, mas especificamente sobre a Bri.
- Não sei. Eu queria falar, queria mesmo! Eu queria contar tudo, apresentar a Bri para ele, fazer ele se apaixonar por ela também. Eu... queria a gente juntos.
Laura anotava sem parar enquanto eu falava:
- Eu me sentia completa como esposa e como mulher dele. Mas tinha uma parte de mim que parecia... não sei... intocada. Quando a Bri surgiu, não senti nada demais por ela. Era só uma mulher linda, inteligente, mas casada. Logo, eu a via como uma amiga, uma confidente. Só que, com o tempo, foi como se ela tivesse acendido uma luz num cômodo da minha casa que eu nem sabia que existia, cheio de coisas interessantes.
- E quando você se permitiu ser tocada por ela pela primeira vez pela Bri… Você sentiu culpa ou alívio?
Eu baixei os olhos:
- Acho que... alívio. - Murmurei: - Um alívio tão grande que eu chorei enquanto gozava. Mas depois, em casa, enquanto jantava com o Beto a culpa veio, e veio forte. Quase chorei na frente dele, aliás, eu chorei naquela noite de madrugada. Mas sabe o que é mais estranho? O alívio ainda estava lá!
Laura assentiu, sorrindo discretamente:
- Parece que a Bri fez você descobrir um desejo sexual reprimido, Helena. Não foi falta de amor pelo Beto o que você teve, mas sim um momento de descoberta. É uma parte de você que hibernava, mas que estava lá, à espreita, só esperando uma chance para sair. Muitas mulheres passam por isso em suas vidas e a grande parte, imensa maioria, sequer descobre que tem esse desejo latente dentro de si, e fazem isso porque amam seus parceiros e ou porque seus casamentos são bons demais. O bom é bom, claro, mas mascara o que falta. Você não se relacionou com a Bri porque seu casamento era ruim ou não amava o seu marido. Você só se relacionou porque era o que seu inconsciente ansiava fazer.
- Mas ainda assim eu traí a confiança do Beto.
- Acho traição uma palavra tão pesada... - Ela olhou para o teto por um instante: - Não seria melhor considerar que você apenas ultrapassou um limite que você e ele haviam traçado para o relacionamento de vocês?
- E isso não é trair a confiança? Laura, eu o traí! Não acho que seja usando uma palavra bonita, ou tentando diminuir a importância do que fiz, que irei resolver o que me afligi.
A Dra. Laura sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Conversamos mais um pouco ainda. Saí da sessão tremendo, mas saí leve, com uma sensação boa. Laura ainda me deu um exercício: escrever uma carta para a Helena de antes de conhecer a Brianna:
- Por quê?
- Apenas faça. Não há limite para o que você pode escrever para a Helena. Apenas posicione-se, dizendo o que e como ela deve agir nos próximos anos. Depois, eu te explicarei o motivo desse exercício.
Não foi fácil, mas eu fiz. Demorei um tempão para conseguir colocar no papel tudo o que eu gostaria de ter dito para a Helena de ontem. Demorou mais ainda porque a Bri sempre estava por perto, curiosa, assertiva, querendo me ajudar. Mas eu não podia inclui-la, não naquele momento.
Na sessão seguinte, entreguei a carta e Laura se levantou, caminhando à minha frente. Então, ela fez o impensável: leu em voz alta, imponente, interpretando o texto e as emoções. Fiquei roxa no início, mas depois, ouvindo minhas próprias palavras, comecei a chorar e assim fiz até o final da leitura. Depois ela me fez a pergunta que mudou tudo:
- Helena, por que você quer tanto reconquistar o Beto? Não me diga porque eu o amo. Isso eu sei! Me diga por que sua vida depende tanto disso.
Eu fiquei em silêncio por quase dois minutos. Quando falei, a voz saiu rouca:
- Acho que, se não fizer isso, perco a única pessoa que me deu a mão sem exigir nada em troca, que me ajudou a crescer como profissional, que me via como uma mulher, aliás, como a mulher, que queria me dar fi... - Calei-me emocionada.
Laura foi buscar um copo de água e assim que me acalmei, continuei:
- Eu perco a sensação de ser a escolha certa de alguém. Eu acredito que a Bri me ame, mas como ela é diferente. Eu me sinto desejada sim, é claro. Eu gosto de estar com ela e sei que ela gosta muito de estar comigo. Mas com o Beto... eu me sinto em casa. Eu adorava fazê-lo sorrir com brincadeiras bobas, ou vê-lo comer uma lasanha que eu havia feito com prazer, mesmo sem saber se era tão boa assim. Eu queria poder conciliar as duas coisas: voltar a ser a mulher que o fazia feliz e que ele escolheu pra ser mãe dos filhos dele e, ao mesmo tempo, ser a mulher que a Bri escolheu para amar. - Calei-me por um instante, observando a Laura anotar: - É muito egoísmo da minha parte, não é?
- Não, querida, não é. Aliás, acho que encontramos a verdade nua. - Laura fechou o seu caderno e o colocou de lado, se inclinando na minha direção, os olhos fixos nos meus: - Helena, você não quer só reconquistar o Beto: você quer reescrever a sua história desde o início, com ele e com ela, mas agora de uma forma ética. Isso não é reconquistar; isso é conquistar. Não é um “eu quero os dois porque preciso deles”. É um “eu quero os dois porque eu só sou inteira quando faço os dois felizes”.
Ela fez uma pausa, pegou um copo de água que estava ao seu lado, bebeu um gole e sorriu para mim:
- Eu vou te contar algo que não conto pra praticamente ninguém... Eu vivi exatamente isso! Fui casada doze anos com um homem incrível, mas conheci uma mulher e acabei me descobrindo bissexual aos trinta e cinco anos. Daí, fiz praticamente igual a você: tive um caso com ela, escondido do meu marido. Bem... Ele descobriu. Brigamos, sofremos e hoje... - Ela fez uma pausa, mas logo sorriu novamente: - Hoje moramos os três juntos. Meu marido, eu e a nossa esposa. Faz nove anos. Deu certo porque procuramos ajuda e entendemos que somos falhos, mas que ter as pessoas certas para nos ajudar a corrigir essas falhas, é o que nos dá um motivo para seguir em frente. É bem como aquele filme dos mosqueteiros: um por todos e todos por um.
Eu fiquei boquiaberta:
- Você!?
- Sim, querida, eu! Quando você preencheu sua ficha de contato, resumindo brevemente uma traição dentro do casamento, senti que havia mais do que uma simples decisão mal tomada. Agora entendo o porquê. Mas, para isso, você precisa entender algumas coisas: primeira, você tem que parar de se punir e entender que você não é perfeita. Todos erramos e todos nós temos a chance de aprender com esses erros para não repeti-los. Segunda coisa, você precisa entender que o Beto pode não querer mais ser seu marido, ou mesmo a Brianna. Lembre-se que hoje você tem um relacionamento com ela e ela pode não aceitar te dividir com ele. Terceira coisa, e para mim a mais importante, você precisa se reencontrar e voltar a viver seus próprios objetivos, independentemente da existência de Beto ou Bri.
Uma semana depois, a Dra. Laura começou diferente:
- Hoje vamos fazer algo que eu chamo de “exposição controlada”. Você vai ligar pro Beto agora, na minha frente, e vai convidá-lo pra vir aqui. Só ele. Numa outra oportunidade, incluiremos a Bri.
Eu gelei. Eu já sabia que o Beto recusaria:
- Agora?
- Agora. E você vai ler a carta para ele. Você! Exatamente tudo o que escreveu. Sem filtro, sem medo, apenas entrega pura e crua.
- Laura, eu não sei se consigo...
- Como você pretende conquistá-lo ou seguir adiante, se você não aceita ser transparente com ele, e consequentemente com você mesma? Lembre-se que foi a sua inércia que te trouxe até aqui, Helena. Assuma as rédeas da sua vida, e viva!
Mesmo contrariada, liguei, colocando o aparelho no braço da poltrona com o viva voz ativado. Beto atendeu no segundo toque. Sua voz parecia cautelosa:
- Helena!?
- Oi, Beto. Eu... Tudo bem com você?
- Tudo. E com você? Aconteceu alguma coisa? Você parece tensa...
- É... Tô... Tô bem. Eu... tô na minha psicóloga. A... A Dra. Laura gostaria que você participasse. Você acha possível? Só vinte minutinhos.
- Pra que isso?
- Para... me ajudar a seguir em frente... - Falei, sem ter coragem de dizer que o queria de volta.
Laura sorriu pela forma como eu respondi. Já o Beto não falou nada, simplesmente se calou. Olhei para a Laura que ouvia tudo atentamente e fez um movimento de cabeça, me instigando a continuar:
- Por favor. Eu só queria que você me ouvisse. Nada além disso.
- Ué! Então fala.
- Não, Beto. É pessoalmente, aqui, no consultório.
- Não dá para ser por telefone?
Olhei para a Laura que negou com um movimento de cabeça:
- Não. Eu... Eu preciso falar isso olhando nos seus olhos.
Novo silêncio. Depois um suspiro:
- Olha... Agora não dá. Estou na casa dos meus pais e levaria um tempão para eu chegar na capital. Marca outro dia, de preferência fora do horário comercial, que eu vou dar um jeito de comparecer.
Combinamos o dia da nova sessão e lhe passei o endereço do consultório. Assim que desligamos, respirei aliviada. Laura explicou:
- Pode ser tenso no dia, e vai ser ainda mais pessoalmente, Helena, mas é necessário. Você precisa apresentar esse seu lado que ele nunca conheceu e ele precisa ouvir e aceitar que essa é você hoje. Se ele te amar e aceita-la de volta, terá que ser assim, inteira. Talvez seja chocante, mas certamente trará um alívio para vocês depois. Confie em mim.
No dia combinado, cheguei e o Beto já me esperava lá, conversando com a Dra. Laura. Congelei a poucos passos deles, sem saber se me aproximava, mas ela veio até mim e me trouxe até ele. Cumprimentamo-nos com um aperto de mão e um simples beijo na bochecha.
Assim que entramos na sala, fomos convidados para nos sentarmos num sofá de três lugares, ladeados por poltronas separadas. Beto preferiu uma poltrona, eu, a outra. Ficamos praticamente de frente um para o outro. Laura disse:
- Roberto, Helena gostaria de falar abertamente com você e acho justo seu pedido. Pode ser chocante, mas será bom para vocês conhecerem um ao outro de verdade. Eu só te peço que a escute respeitosamente. Depois, você decide se quer falar ou ir embora.
Eu tremia. Tentei ficar de pé para falar, mas não consegui, pois minhas pernas me faltaram. Então peguei a carta de minha bolsa, desdobrei e comecei a ler. Falei, falei, falei... Às vezes, eu parava, respirava para não chorar e continuava. Num momento específico, quando eu me preparava para falar que amava o Beto, Laura me interrompeu:
- E a Brianna, Helena? O que você sente por ela?
Engoli em seco, pois eu não havia me preparado para isso. Talvez fosse a intenção dela me tirar da minha zona de conforto, e conseguiu, pois gaguejei. Depois, a encarei perdida e respirei profundamente:
- No seu tempo, Helena... - Ela continuou: - Você quer falar. Então, fale tudo. Coloque para fora e deixe o Roberto conhecer quem é você hoje.
Olhei para o Beto que me observava em silêncio, suas mãos espalmadas sobre as pernas:
- Eu... acho que... a... amo... também... - Gaguejei, olhando para o Beto que se mantinha impassível: - Mas é diferente. O Beto... sempre foi o meu companheiro... nunca tive qualquer dúvida quanto a ele. Eu... Eu só... tomei uma péssima decisão no nosso casamento.
- Péssima decisão... Você fala da Brianna? - Insistiu Laura.
- Sim. Eu nunca deveria ter me relacionado com ela sem antes falar para o Beto o que estava acontecendo.
- E o que estava acontecendo?
- Eu estava curiosa. Acho que... me apaixonando por ela...
Beto arregalou levemente os olhos, claramente surpreso, mas ainda em silêncio. Laura continuou:
- Entendo... - Laura anotou algo em seu caderno: - Mas, Helena... e se o Roberto tivesse proibido você de viver essa relação, como você teria reagido?
Pensei por um instante e respondi:
- Não sei. Talvez eu tivesse aceitado, afinal era o que havíamos decidido quando nos casamos, ou talvez eu tivesse me separado dele. Não sei! Mas uma coisa é certa, eu não teria sido desonesta com ele, e certamente eu não estaria com esse buraco no meu peito hoje.
Todos ficaram quietos. Laura observava as reações do Beto e ele me observava, controlando sua própria respiração. Peguei minha carta que ainda não havia terminado a leitura e continuei. Após falar algumas frases, novamente Laura me interrompeu:
- Por que você tem certeza de que ama o Roberto?
- Poxa, Laura... - Resmunguei, mas vendo que ela me encarava, suspirei fundo e falei: - Porque eu sinto isso! E eu também tenho uma dívida moral com ele. Eu sinto que preciso fazer isso por ele e por mim, para encontrar aquela Helena de anos atrás. Se ele me aceitar, mas não a Bri, estou pronta para... - Minha voz embargou e suspirei novamente: - Mas eu gostaria muito... de coração mesmo... que ele desse uma chance para a Bri. Eu sei que eles podem se dar bem. Para mim, o paraíso seria os dois se entenderem. Mas se não der, eu queria muito ter a chance de fazê-lo feliz, mesmo que para isso eu tenha que abrir mão da alguma felicidade para mim.
Beto estava com olhos arregalados e com uma mão à frente da boca. Depois ficou branco, como se a pressão tivesse caído. A seguir, ficou vermelho, como se sua pressão tivesse subido de uma vez. Cheguei a pensar que ele iria passar mal e chamei pelo seu nome. Mas, segundos depois, ele... chorou. Simplesmente ele chorou. Eu nem me lembrava da última vez que o vi chorar, mas ele o fez, na nossa frente. Laura, inclusive, se levantou e foi buscar um copo de água para ele, mas ficou segurando, enquanto aguardava ele descarregar a tensão. Eu não aguentei e fui abraçá-lo, chorando também, porque sabia que aquela dor fora causada por mim. Ele não me recusou. Ao contrário, abraçou-me forte. Foram minutos de muito aperto e lágrimas. Quando ele se controlou e aceitou a água, após bebê-la, suas palavras foram duras:
- Desculpa, mas eu acho que não consigo, Helena. Eu te amei mais do que tudo, mas a mentira... toda essa enganação... Não dá! Você preferiu confiar numa estranha do que confiar em mim, o homem com quem estava casada há anos, com quem você dividia uma cama, com quem pretendia criar uma família. Mesmo tendo salvado a vida da minha mãe, você colocou a sua em risco, me deixando totalmente de lado. Como eu posso confiar em você novamente? Como!?
Laura interveio suavemente:
- Ninguém está sugerindo que tudo voltará a ser como antes, Roberto. Muito pelo contrário. Helena te convidou para poder abrir seu coração e tentar explicar um pouco do que ela mesma ainda não entende direito. Sei que é tudo muito estranho, complicado, mas ela está tentando apenas ser honesta e transparente com você, algo que faltou lá atrás.
- Faltou mesmo... - Ele resmungou, concordando.
- Sei que pode parecer estranho, mas se você quiser... Você poderia vir às sessões com a Helena. Só para ouvir, ou também para falar... Ninguém aqui quer te impor uma verdade. Nós estamos buscando descobrir as verdades de cada um e tentar fazer com que elas conversem entre si, entende?
Beto não respondeu. Ele se levantou e foi até uma janela próxima, onde ficou parado, olhando em silêncio para o lado de fora. Olhei para a Laura que fez um movimento de mão para esperarmos. O silêncio era sufocante e assim foi por segundos, minutos, uma vida... Beto então olhou para Laura, depois para mim:
- Eu não sei se quero isso para mim, mas prometo que vou pensar a respeito. - Ele então encarou a Laura: - Estou dispensado?
- Claro, Roberto! Você pode ir e vir quando quiser. - Ela pegou um cartão de visitas de uma mesinha lateral e se levantou, indo até ele: - Aqui tem meus contatos. Não hesite em me ligar se precisar conversar.
- Obrigado.
Ele se dirigiu até a porta do consultório e chegou a colocar a mão na maçaneta. Mas então se virou e voltou até onde eu estava, abaixando-se para me dar um beijo no rosto para se despedir. Só então voltou a porta e saiu. Laura voltou a se sentar na poltrona e disse:
- Acho que foi uma boa conversa.
- Em que parte? Ele acabou de dizer que não me quer.
- Não mesmo! Ele disse que acha, que não sabe, se quer isso para a vida dele. Nem ele mesmo tem certeza.
Continuei fazendo minha terapia nas semanas seguintes, mas o Beto não voltou a fazer contato, nem comigo, nem com a Laura. Em nossa última sessão, Laura me apertou:
- O que foi que te encantou no Roberto quando se apaixonaram, Helena?
- Ah... O jeito responsável dele, trabalhador, carinhoso.
- E o que você acha que ele se encantou em você?
- Não sei. Eu... - Pensei um pouco e respondi o que achava: - Acho que mais ou menos a mesma coisa, afinal, nós éramos bem esforçados e trabalhávamos para construir uma vida confortável para nós e nossa família.
- Ele continua trabalhando?
- Que eu saiba, sim.
- E você? Está trabalhando também?
- Não atualmente. Depois que a história da Imperium foi exposta, perdi o meu emprego e estou tendo dificuldade de me recolocar no mercado.
- Na sua carta, você disse que a CIA também estava te bancando. Você não teria se acomodado, por acaso?
- Não! Claro que não. Acho que não... Por que diz isso?
- Porque agora me ocorreu uma coisa... E se você ao invés de focar no Roberto, voltasse a focar exclusivamente em você, em se reconstruir? Talvez se você recriar a sua imagem de mulher, aquela mesma por quem ele se apaixonou, você possa diminuir a sua resistência.
Isso fazia sentido. Eu conhecia o Beto o suficiente para saber que ele nunca gostou de mulheres acomodadas, as chamadas mulheres troféus. Na verdade, e isso eu não revelei para a Laura, eu havia me acomodado um pouco sim. O dinheiro fácil da CIA, ou da S.I.N.A., haviam me desconstruído além do que eu esperava.
Decidi seguir seu conselho e já no dia seguinte eu estava à procura de uma recolocação profissional. Os dias seguintes foram um verdadeiro tapa na minha cara. Ouvi “nãos” dos mais variados tipos e naturezas. Só então me dei conta do estrago que a operação contra a Imperium havia me causado.
Bri vinha acompanhando minha “via crucis”, mas não se envolveu. Pelo menos, não diretamente. Um mês depois, consegui uma entrevista numa multinacional americana do ramo de informática. Após a entrevista, consegui uma colocação de diretora comercial temporária nessa empresa, com um salário menor que o que eu tinha na Imperium, mas já era alguma coisa. Voltei felicíssima para casa e quando quis comemorar com a Bri, vi um grande sorriso de felicidade, mas também notei um brilho estranho em seu olhar:
- O que foi? Não gostou?
- Gostei! Sim. Claro! Demais...
- Então, por que essa cara?
Ela tentou divagar, tentou fugir, mas eu pressionei até ela confessar que havia praticamente obrigado a CIA a ajudar em minha recolocação. Fiquei irada e já desconfiada de que poderia ser outra manobra, outra operação da CIA. Mas, dessa vez, ela me garantiu que o emprego era limpo e que um superior havia apenas cobrado um favor do presidente da empresa, sem me explicar qual.
Voltei a trabalhar e a me dedicar a recuperar a Helena de antes de tudo acontecer, de antes mesmo da Bri surgir. Meu trabalhado parecia estar agradando, tanto que fui efetivada no cargo, ganhando um razoável aumento em meu salário.
Minhas sessões com a Laura seguiram. Eu relatava a minha evolução profissional e pouco falava do Beto, apesar da saudade que queimava no meu peito. Laura também não parecia fazer questão de perguntar, provavelmente acreditando que eu pudesse estar esquecendo dele.
As semanas se transformaram em meses; os meses, em anos; os anos, em uma nova vida. Eu já era a vice-presidente executiva da Daetonic. Bri havia aberto uma loja de grife num shopping, mas demonstrando um bom tino comercial, já partia para sua segunda filial. A terapia havia acalmado o meu coração, ao ponto de eu entender que uma vida sem o Beto seria possível.
Entretanto, num início de noite de sexta-feira, eu havia saído da Daetonic e fora até o shopping buscar a Bri. Ela estava enrolada numa reunião com fornecedores que prometia demorar horas ainda. Decidi dar uma volta pelos corredores, pois queria comprar um perfume novo e depois me sentei para tomar um café numa cafeteria gourmet. Eis que vejo o Beto caminhando distraidamente pelo corredor do shopping, com uma sacola de uma camisaria na mão. De imediato uma vontade de brincar me tomou e assim que ele se aproximou de mim, não resisti e assobiei. Ele sorriu olhou curioso para os lados:
- Ei! Aqui, gatinho. - Assobiei novamente e ri quando ele me encarou: - Sozinho?
Ele riu da brincadeira e se aproximou. Levantei-me, cumprimentamo-nos com um abraço e um beijo no rosto. Eu o convidei para um café, que ele aceitou e ficamos papeando. Estranho que eu estava feliz por revê-lo, mas não mais sentindo aquela vontade quase vital de tê-lo por perto:
- Você parece estar muito bem, Helena? Trabalhando bastante?
- Muito mesmo, Beto! Voltei a ativa e já alcancei a vice-presidência de uma empresa de software.
- Credo! Essa palavra me lembra a S.I.N.A...
- Nunca mais soube dela?
- Sumiu. Conversei com o Zico há uns meses e ele disse o mesmo.
- Boas notícias, né?
- Então... Sabe aquela boa notícia que faz você desconfiar.
- Você acha que ela pode estar ativa ainda?
- Não sei. Só sei que ela nunca foi desativada, apenas sumiu e sinceramente? Acho que ela era avançada demais para ter dado defeito.
Nesse instante, recebo uma chamada de vídeo da Bri. Peço licença ao Beto e a atendo:
- Oi, amor, onde você está? - Pergunta a Bri.
- Tomando um café... e você não imagina com quem!? Com o Beto!
A surpresa ficou estampada em seu rosto. O sorriso dela diminuiu imediatamente, mas ela se recuperou rapidamente:
- Ah! O Beto... Que coincidência, não?
- Pois é. Estamos papeando aqui.
- Tá... Só liguei para avisar que aqui ainda vai demorar bastante. Então, se quiser ir para casa, fica tranquila. Eu pego um Uber depois.
- Acho que vou pedir para o Beto me levar... - Brinquei e vi ele sorrir, ao mesmo tempo em que a Bri estreitava os olhos.
- Sei... Juízo, Helena!
- Fica tranquila, Mommy. Não vou engravidar, prometo!
Seu sorriso sumiu de vez e ela respirou fundo para não me xingar. Eu já a conhecia o suficiente para saber que ela iria me cobrar uma DR depois. Mas eu estava tão bem e feliz que não me importava:
- Certo. Apenas volta pra casa, ok? - Ela pediu.
- Claro.
Despedimo-nos e desligamos. Beto bebia seu café, olhando distraidamente para o lado, mas rapidamente me encarou:
- Parece que ela ficou com ciúmes...
- É. Acho que ela sabe que eu nunca te esqueci no final das contas.
- Não esqueceu? - Ele agora me encarava ainda mais profundamente.
- Você está bem bonito, Beto. Anda malhando?
Minha tentativa de desconversar não adiantou nada, pois ele sorriu, e insistiu:
- Não esqueceu mesmo...
- Como?
- Você. Está mudando de assunto...
Bem... Nossa conversa não durou muito mais. Logo nos levantamos e fomos caminhando pelo shopping, papeando assuntos que nem me lembro mais. Chegamos ao estacionamento, entramos no meu carro e quando dei por mim, estávamos aos beijos. Não sei como começou, mas sei bem onde terminou: num motel. Descrever essa transa como tendo sido a transa da minha vida seria mentira. Foi boa, não maravilhosa, mas estranhamente boa. Gozei três vezes, a primeira chorando de saudade no pau do Beto. Ele gozou duas vezes, bem generosamente.
Cheguei em casa passando das 22:00. Bri já estava lá, terrivelmente chateada, sentada no sofá da sala, braços e pernas cruzados, a cara amarrada. Eu não sabia o que falar e quando tentei dizer algo, ela apenas levantou a mão pedindo que eu parasse, depois se levantou do sofá e foi até o nosso quarto, se trancando. Certamente ela sabia o que eu havia feito, mas achei uma grande hipocrisia dela querer me cobrar retidão depois dela mesma ter vivido o mesmo comigo anos atrás.
No dia seguinte, Bri não falou comigo, mesmo eu tentando me explicar. Foi assim por quase uma semana. Não encontrei com o Beto nesse meio tempo, nem ele me ligou, nem eu para ele. No domingo, Bri sentou-se na mesa da cozinha ao meu lado e colocou sua mão sobre a minha:
- Fala.
Falei. Contei o que havia acontecido naquele dia, sem entrar nos detalhes, mas fui sincera, dizendo que eu e ele havíamos acabado num motel. Vi seus olhos marejarem, mas ela se fez de forte, se controlou, e me pediu desculpas:
- Mas... por quê?
- Porque eu te coloquei nesse caminho. Eu te transformei numa traidora, primeiro com ele, agora comigo.
- Mas fui eu que...
- Não. - Ela me interrompeu: - Você só faz o que o seu coração manda. Você ainda ama o Beto e eu nunca vou ser suficiente para substitui-lo. Eu já entendi e aceito isso.
- Nossa, Bri! Eu... Eu não sei o que dizer...
- Não diga nada! Vamos apenas pensar em como faremos para trazê-lo para dentro do nosso lar...
- Oi!?
- Helena, você é um amor de pessoa, mas na área da sedução, sou professora.
Na semana seguinte, Bri me acompanhou numa sessão com a Laura. Expliquei o que havia acontecido e da decisão dela de me ajudar a reconquistar o Beto. Laura ouviu tudo, mas foi bastante prudente:
- Antes eu achava prematura a decisão de trazê-lo de volta. Agora que você já está num processo adiantado de reconstrução, pode até ser possível. Mas a questão que você deve responder é: Eu, Helena, quero isso? Eu, Helena, quero arriscar trazer outra tempestade para a vida do Roberto? Ou eu, Helena, já estou pronta1 para entregar meu verdadeiro eu para o Roberto? Pensem nisso.
Pensei... muito. Bri não quis opinar, pois se tratava do meu coração em jogo. Decidi arriscar, mas ciente de que poderia abortar a qualquer momento caso eu visse que o risco seria muito maior que a possibilidade de êxito.
Na sessão seguinte, com a Bri ao meu lado, após eu revelar a minha decisão, Laura propôs:
- Tudo bem. Ligue para ele e o convide a vir aqui.
- Ligar? Hoje... agora!?
- Já!
Liguei e pedi que ele viesse me encontrar numa nova sessão junto a Dra. Laura. Beto hesitou num primeiro momento, mas depois fez um pedido:
- Brianna também deverá estar presente. Não sei por que você precisa de mim, mas algo me diz que envolve ela também. Se for esse o caso, nada mais justo que eu conte com a ajuda de uma profissional para desmascarar eventuais mentiras dela. Afinal, ela é uma espiã treinada, eu não.
Bri fez uma expressão chateada, mas conformada, pois era verdade. Já Laura abriu um sorrisão para mim:
- Acho justo! Que tal marcarmos pra semana que vem? Os três...
A semana se arrastou, mas o dia da nova sessão finalmente chegou. Ela estava marcada para às 19:00 da manhã de uma quinta-feira chuvosa. Eu usava o tailleur do trabalho, apenas deixando os cabelos soltos, no rosto uma simples maquiagem. Brianna me encontrou na empresa e fomos juntas. Ela trajava uma calça jeans escura e blusa branca solta, o cabelo preso num coque frouxo que deixava escapar algumas mechas loiras. Enfim, estava linda! Ela me deu um beijo rápido na bochecha e sussurrou:
- Estou nervosa, Le. Será que ele vai mesmo?
- Claro que sim! Ele concordou e ainda pediu que você fosse.
- Acha mesmo uma boa ideia eu falar?
- Só seja sincera, Bri. Diga o que sente sobre tudo, sem mentir em nada. Acho que o Beto quer ouvir você para ver se confia. No fundo, ele deve ter alguma curiosidade.
- Sobre mim?
- Sobre você, sobre nós...
Bri ficou em silêncio por um instante e depois sorrindo, falou:
- Ok. Então, vou falar tudo o que sinto. Sem filtro.
- Nem tanto! Não o ofenda. Por favor...
Nem bem sentamos no sofá da antessala, vazia pelo horário, e o Beto entrou. Usava uma camisa social azul clara, calça social azul escura e sapatos reluzentes de tão limpos. Também usava uma gravata listrada em tons de azul. Certamente também vinha do trabalho. Ele nos olhou e fez um meneio de cabeça, cumprimentando-nos. Então se sentou num banco de frente para nós, mas do outro lado da sala. Bri sussurrou em meu ouvido:
- Ele não parece estar muito ok hoje...
- Impressão sua. Vamos fazer o nosso melhor.
Beto se levantou e foi até um bebedouro do lado de nosso banco. Ele se serviu e nos encarou, oferecendo água. Bri se levantou e esticou a mão para o Beto que a cumprimentou. Ela então me surpreendeu, inclinando-se em sua direção para lhe dar dois beijinhos na face. Pela cara dele, ficou tão surpreso quanto eu:
- Já está ficando bem brasileira, hein, Brianna? Com beijinho e tudo... - Disse com um meio sorriso nos lábios.
- "Si fueris Rōmae, Rōmānō vīvitō mōre; sī fueris alibī, vīvitō sīcut ibī." - Disse ela, inclinando levemente a cabeça.
- Latim!? Essa eu conheço... - Disse o Beto, abrindo um pouco mais o sorriso: - Se for a Roma, viva como os romanos; se for a outro lugar, viva como os de lá.
- Isso! Santo Ambrósio de Milão... - Ela complementou.
Levantei-me e fiquei ao lado dos dois, olhando curiosa e, pela primeira vez, esperançosa que talvez houvesse alguma chance para um arranjo entre a gente:
- Acho que vou aceitar um pouco de água. - Falei, tentando entrar no assunto deles.
Beto me serviu e agora ele me surpreendendo, deu-me um beijo na bochecha:
- Você está linda! Sempre gostei de te ver de cabelos soltos. Você é que insistia em dizer que não combinava com tailleur. - Disse ele, alisando uma mecha de meu cabelo.
Eu apenas sorri, agradecendo.
A porta da sala da Dra. Laura se abriu nesse exato momento, fazendo com que nós três a encarássemos, parando tudo o que estávamos fazendo. Ela, espertamente, sentiu um clima de proximidade, o que fez surgir um sorriso em seu rosto e um convite em seus lábios:
- Vamos entrar, meus caros. Temos muito o que conversar.
Entramos os três, eu e Bri na frente. Beto veio depois, cumprimentando-a com um formal aperto de mão, que ela aceitou, o que não evitou que ela lhe desse um abraço. Enfim, ela fechou a porta e nos acomodou num sofá, os três, lado a lado. Talvez a intenção dela fosse colocar o Beto no meio, mas acabamos ficando Bri, eu e Beto. Ela se sentou à nossa frente e disse:
- Vi que estavam conversando...
Beto deu um sorriso e explicou o motivo de sua surpresa. Ela sorriu e aguardou que mais alguém falasse. Ninguém quis. Então, ela insistiu:
- Podíamos começar essa dinâmica com um jogo. O que acham?
- Doutora, eu preferia que não perdêssemos tempo. - Beto a interrompeu: - Não sei o que estou fazendo aqui, mas já que estou, quero tentar entender.
Laura sorriu, serena, e se aconchegou em sua poltrona, ajeitando um livro sobre o colo e posicionando melhor os óculos no rosto:
- Ok. Não serei então a terapeuta, mas sim uma mediadora. Meu papel será garantir que cada voz seja ouvida com respeito e que ninguém saia daqui mais ferido do que entrou. Helena, Brianna, Roberto… o espaço é de vocês. Quem quer começar?
Eu respirei fundo. O coração batia forte, mas não era mais o pânico de antes. Era esperança misturada com medo.
Bri levantou a mão, como se estivesse na escola fundamental e se dispôs a ser a primeira a falar, surpreendendo a todos. Ela se inclinou para frente, olhos fixos no Beto, usando uma voz baixa e direta:
- Eu sei que você me vê como a vilã da história, Doutor Roberto, que me vê como a mulher que tirou a sua esposa e...
- Por favor, Brianna. - Laura a interrompeu: - Doutor Roberto não! Nem eu o chamo assim. Eu gostaria que você o chamasse de Roberto ou de Beto.
Laura então encarou o Beto e perguntou:
- Algum problema em ser assim, Roberto?
Beto negou com um movimento de cabeça. Bri sorriu e Laura continuou:
- Ótimo! Então vamos fazer assim. Todos nós tentaremos usar apelidos para criar uma melhor fluidez durante a conversa, tudo bem? Vamos usar Beto, Lena, Bri e podem me chamar de Lalau, ok?
Eu e Bri concordamos, mas o Beto não, retrucando:
- Desculpa, doutora. Quanto ao doutor, eu concordo em ser exagerado, mas não vou forçar uma intimidade onde não existe. Se quiserem me chamar de Roberto ou Beto, fiquem à vontade. Mas eu não farei isso.
Laura levantou a mão e fez um joinha para ele, concordando ainda com um movimento de cabeça. Depois anotou algo e olhou para a Bri, como se pedisse que ela continuasse, e ela continuou:
- Tá... Eu só quero dizer para o Roberto que não vim aqui pra me defender. Vim pra ser honesta. Eu amo a Helena. Amo de um jeito que me assusta às vezes. Ela abriu mão de muita coisa para poder cuidar da mãe do Roberto como se fosse a dela. Eu vi isso tudo. E eu me apaixonei. Mas… - Ela pausou, olhando para mim com carinho - Eu também sei que ela nunca deixou de amá-lo. Eu via o conflito nos olhos dela sempre que estávamos juntas, toda vez que ela falava do Roberto.
Beto se ajeitou no sofá. Algo o incomodava enquanto encarava a Bri que agora o olhava, meio constrangida:
- E você pode até não acreditar, mas isso doía. Doía porque eu sabia que ela não estava feliz por ocultar o que vivíamos de você. Eu... Eu queria e tentei ser suficiente para ela. Só que depois de muito refletir e de ver como ela fica feliz perto de você, eu entendi que talvez eu não precise ser suficiente sozinha. Talvez a gente possa ser dar o luxo de sermos suficientes juntos. Eu não sei ainda como vai ser dividi-la com você, nem sei se você aceitaria isso, nem mesmo eu sei se também gostaria de tê-lo para mim, mas eu queria tentar, porque se ela te ama tanto assim, e se você ainda sentir alguma coisa, eu gostaria de tentar aprender a gostar de você também.
Beto ficou em silêncio por longos segundos. Eu vi o maxilar dele relaxar. A mágoa ainda estava lá, e não sumiria facilmente, mas as palavras da Bri pareciam ter aberto uma passagem. Ele finalmente olhou para mim, mas voltou a encará-la:
- E se eu não te quiser conosco? E se eu quiser reconstruir o meu casamento só com a Helena? Você estaria disposta a desistir dela?
Todos nós a encaramos e vimos a surpresa em seu olhar. Ela mordeu os lábios, a tensão explodindo, e após alguns segundos, disse:
- Não quero abrir mão dela, mas também não a quero insatisfeita comigo. Se essa for a sua decisão, se você se comprometer a fazê-la feliz, e ela concordar, eu respeitarei. Mas espero, de coração, que você possa me dar uma chance, pelo menos.
Beto olhou para a Laura que o encarou em silêncio, aguardando que ele dissesse algo. Como ele parecia meio perdido, ela se adiantou:
- Parece que tudo converge para você, Beto.
- Como eu posso saber se ela está sendo honesta, afinal, ela foi uma espiã? Ou é ainda, não sei...
- Ela me parece estar sendo honesta. - Disse a Laura, anotando algo antes de explicar: - Além do mais, a vida em si é um risco. Amar é um risco. E de todos as consequências possíveis, acho que não tentar seria uma certeza muito triste para você no futuro.
Ele balançou a cabeça, negando e desviando o olhar. Eu segurei a mão dele e como ele não puxou, falei:
- Eu errei feio, Beto! Eu sei. Mas eu te amo. Eu nunca te esqueci. Só que eu também amo a Bri. Eu queria construir algo novo, sem segredos, entre nós três.
- Acho que é a primeira vez que você me fala que ama ela... - Beto resmungou.
Olhei para a Bri que sorria com a espontaneidade de minha declaração. Laura também sorria e anotava em seu caderno.
Enfim...
Essa sessão durou quase três horas. Laura mediou cada lágrima, cada silêncio, cada pergunta dura, ora apertando, ora aliviando, incluindo os três numa dinâmica que mais parecia uma roda de tortura. Quando terminamos, estávamos cansados e ainda assim, ela nos deu um último exercício:
- Uma noite só, Beto. Sem pressão. Só presença. Jante com elas, conversem os três. Falem, ouçam, tentem negociar expectativas e limites. Deem uma chance ao diálogo. Depois voltem e me contém o que sentiram.
Saímos juntos. Uma chuva fina e insistente caía. Eu peguei as mãos do Beto e da Bri, e ele entrelaçou os dedos nos meus. Ele nos ofereceu uma carona, mas eu estava de carro. Decidi então reforçar o convite para ele jantar conosco e propus que fosse ainda naquele dia, afinal, ninguém ainda havia jantado. Ele aceitou.
Pedimos um jantar pelo Ifood e ficamos bebericando um vinho enquanto aguardávamos a comida chegar. Bri decidiu tomar um banho enquanto isso. Fiquei fazendo sala para o Beto. Uns 15 minutos depois, meu celular vibrou: era ela perguntando como o Beto gostava que eu me vestisse. Pedi licença ao Beto e fui até o quarto. Ela estava nua, olhando vários vestidos. Indiquei um azul.
Enquanto ela se vestia, decidi que também tomaria um banho rápido. Ela me jogou um lindo conjunto de lingerie rendado azul bebê e ainda brincou:
- Se a coisa esquentar, Le, eu fico na sala e vocês vão para o quarto. Vocês dois precisam disso.
- Cê tá achando que a gente vai transar!? - Perguntei, sorrindo.
- E você não quer?
- Querer eu quero, mas... o Beto não vai se deixar levar assim tão fácil, Bri. Não com você aqui.
- Eu saio.
- Não! A ideia é ele nos conhecer juntas. Vamos dar isso para ele.
Ela saiu do quarto e eu tomei um banho rápido, vestindo um vestido floral de alcinhas. Por baixo só a calcinha. Coloquei uma rasteirinha, passei um batom quase cor da pele e saí. O jantar já havia chegado com mais duas garrafas de um bom vinho chileno.
Como eu imaginava, o clima era ainda meio artificial entre nós. Bebemos e comemos, conversamos e rimos meio forçadamente de brincadeiras e piadas bobas. Quando parecia que o jantar terminaria por falta de assunto, Bri propôs:
- Que tal um filme? Podemos assisti-lo tomando a outra garrafa de vinho...
Beto não queria. Dizia que precisava trabalhar no dia seguinte, mas com jeitinho nós o convenceu a ficar. Sentamos no tapete felpudo, colocando algumas almofadas para maior conforto. Bri foi engatinhando de quatro até a televisão e acessou um canal de streaming, escolhendo uma comédia romântica. Ela então tirou os sapatos e se sentou do lado do Beto:
- Não vão tirar os sapatos? - Perguntou, sorrindo.
Eu tirei os meus. O Beto não precisou se esforçar, pois a Bri se adiantou, tirando para ele. Passamos a beber, assistindo ao filme. Beto parecia um paxá com suas esposas o mimando. Não sei que horas tudo aconteceu, mas só voltei a dar por mim quando acordei no dia seguinte, eu deitada no peito do Beto, Bri com a cabeça no seu colo e ele escorado no sofá, com o pescoço todo torto.
Não foi a noite dos meus sonhos, mas foi boa, sem briga, sem estresse, sem cobranças, mas com uma promessa sutil de que seria repetida em breve. Após o café da manhã, Beto se despediu da gente, dando um beijo no rosto e um abraço em cada uma. Quando a porta se fechou atrás dele, Bri estava eufórica:
- Acho que vou gostar de ter um marido, amor.
A espontaneidade dela me atingiu como um martelo e deve ter refletido em minha face, pois ela perguntou:
- Está tudo bem?
- Está... - Resmunguei, tentando disfarçar o meu desconforto, e decidi ser sincera: - É estranho... dividir o meu Beto. Acho que só agora caiu a ficha.
Ela me puxou para nos sentarmos no sofá. Segurou na minha mão e perguntou, olhando nos meus olhos:
- Nunca conversamos sobre isso... Eu sei que você o quer de volta, mas você nunca me disse se estava disposta a dividi-lo comigo. Se ele... Se acontecer dele voltar, como faríamos? Seria... tipo... eu e você nas segundas, quartas e sextas, você e ele nas terças, quintas e sábados, e domingo jantar em família? Ou seria todo mundo junto e misturado?
A pergunta era justa e direta. Eu precisava ser honesta com ela também:
- Antes, eu não me preocupava com isso porque parecia impossível, mas agora... A verdade é que acho que sinto um pouco de ciúmes do Beto, Bri. Mas...
- Mas?
- Mas eu estou disposta a deixar vocês dois se entenderem da melhor forma possível. Você é minha mulher e eu gostaria que ele te visse como eu vejo. Claro se vocês dois quiserem.
- E o ciúme?
- Vou ter que aprender a conviver. Só... não vai me trocar pelo meu marido, sua safada! Se ficar com ele, vai ter que ficar comigo também. - Brinquei, uma lágrima brilhando no meu olhar.
- Prometo!
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
