LUNA CALIENTE

Um conto erótico de Ryu
Categoria: Heterossexual
Contém 6093 palavras
Data: 24/03/2026 16:02:49
Última revisão: 24/03/2026 18:39:47

{Esse conto foi escrito especialmente para o Desafio 3 – Escritores, e é baseado no livro Luna Caliente do escritor Argentino Mempo Giardinelli}.

Ramiro chegou ao anoitecer, trazendo ainda no corpo o cansaço da Europa e uma inquietação que não soubera nomear durante a viagem inteira. A casa de Carlos e Lourdes era enorme, ficava em um sitio afastado alguns quilômetros da cidade.

Foi recebido com grande alegria e entusiasmo. Ramiro, entregou os presentes, um perfume para Lourdes, um vinho para Carlos e chocolate francês para as crianças.

— Mas que crianças Ramiro? — disse Lourdes, rindo. — A nossa caçula, Arieli, já tem 18 anos de idade.

Aquilo o desajustou por dentro. Como o tempo passa. Arieli já estava com 18 anos.

Foi então que ela entrou na sala.

Ramiro não soube exatamente o que mudou, se foi o tempo ou se foi algo nele. Mas o ar pareceu mais denso, mais quente. Ela cumprimentou com naturalidade, quase indiferença.

Realmente Arieli não era mais criança, já era uma mulher, linda deslumbrante e muito gostosa, além disso chamou a atenção o modo como ela parou à porta, a luz atrás do corpo, o olhar direto.

A conversa seguiu irregular. Ramiro mal escutava. Sentia apenas uma tensão crescente, desconfortável.

O calor estava insuportável, e a Lua parecia maior do que nunca.

Carlos abriu o vinho, e sem querer derrubou um pouco, atingindo Arieli, que para se limpar levantou levemente o vestido, mostrando a calcinha!

Ramiro não resistiu, olhou e se deliciou com a visão das pernas de Arieli, e começou a imaginar como seria sua bocetinha. Lamberia ela todinha, se tivesse oportunidade.

Após o jantar, quando se despediu, já era noite fechada.

Caminhou até o carro com pressa, como se fugir fosse possível.

Foi então que levantou os olhos.

Arieli estava na janela.

Parada, imóvel, olhando diretamente para ele.

Ramiro desviou o olhar, e teve uma ideia. Afogou o motor do carro de proposito, sem que Lourdes e Carlos percebessem.

Então, ao dar a partida, o carro falhou. Tentou outra vez. O motor engasgou, morreu. Tentou de novo — nada. O calor parecia ainda mais sufocante ali dentro.

— Vai acabar passando a noite aqui? — disse Carlos, com uma leve ironia. — Entre. Amanhã você vê isso.

Olhou mais uma vez para a janela. Ela ainda estava lá.

Ramiro retornou para dentro da casa, entrou devagar, Carlos falou algo sobre o quarto de hóspedes, sobre o calor daquela época, sobre como os carros sempre falhavam quando menos se esperava. Ramiro assentia sem ouvir.

— Fique à vontade — disse Lourdes. — Vou arrumar o quarto.

Ele agradeceu, com um sorriso automático. Sentou-se por um instante, mas logo se levantou. Não conseguia permanecer parado. Caminhou até o corredor, olhou as portas fechadas, escutou o som distante de água correndo — talvez um chuveiro.

Carlos surgiu com uma garrafa e dois copos.

— Europa, hein? — disse, servindo. — Deve ser outro mundo.

Ramiro pegou o copo. Bebeu rápido demais.

— É… diferente.

— Aqui, no Oeste de Santa Catarina nada muda.

Conversaram mais um pouco, frases curtas, desconexas. O ventilador girava no teto com um ruído irregular, empurrando o ar quente de um lado para o outro. Ramiro sentia a camisa colar nas costas.

Então Arieli voltou.

Cabelos loiros ainda úmidos, olhos claros, pele branca, passos leves, parecia que não tocava completamente o chão. Parou perto da mesa, observando os dois por um instante antes de se aproximar.

— Vai ficar? — perguntou, olhando diretamente para Ramiro.

— Só esta noite — ele respondeu rapidamente.

Ela assentiu, como se já soubesse.

Lourdes voltou e anunciou que o quarto estava pronto.

— Você deve estar cansado.

Ramiro concordou. Levantou-se, murmurou boa noite, seguiu pelo corredor. Sentia o olhar de Arieli acompanhando cada passo, mesmo sem se virar para confirmar.

O quarto era simples. Uma cama, um ventilador antigo, uma janela entreaberta deixando entrar a noite quente .

Ele fechou a porta. Ficou parado por alguns segundos, sem fazer nada.

Então soltou o ar, como se o tivesse prendido desde que chegara.

Sentou-se na cama. Levantou-se logo em seguida. Caminhou até a janela. Lá fora, o silêncio era interrompido apenas por insetos. A lua gigantesca e o calor que não diminuía.

Ramiro não se moveu. Ficou ali. Não soube em que momento adormeceu.

O calor era constante, esmagador, e o ventilador apenas deslocava o ar quente de um lado para o outro. Acordou, quando abriu os olhos, a casa estava mergulhada em silêncio.

Levantou-se.

Precisava de água. Ou de qualquer coisa que o afastasse daquela vigília inquieta.

Abriu a porta devagar. O corredor estava escuro, cortado apenas por uma faixa de luz vinda de um dos quartos.

O de Arieli. A porta estava entreaberta. Ramiro parou. Empurrou levemente a porta.

Arieli estava deitada na cama, somente de calcinha e sutiã. Deslumbrante, tentadora, irresistível.

Como se fosse um objeto de metal atraído por um imã, Ramiro simplesmente se deixou levar, não tinha forças para resistir.

Aproximou-se de Arieli e começou a acariciar suas pernas.

Ela o olhou levemente surpresa e assustada

— Eu só quero te tocar — Disse em voz baixa, quase sussurrando — Simplesmente não consigo resistir aos seus encantos.

Arieli, ainda deitada, não se opôs, Ramiro, sentado na beira da cama, começou a beijar-lhe os pés, depois as pernas, até que chegou perto da vagina.

Arrancou sua calcinha com força, revelando sua bocetinha pequena, delicada e rosada.

Arieli sentiu a língua de Ramiro beijando sua xoxotinha com devoção, em seguida a língua penetrando com muito desejo.

Ao mesmo tempo que chupava, Ramiro começou a tirar a própria calça, colocando o pau para fora. Sentiu o corpo de Arieli se retrair, mas para ele era impossível ´parar naquele momento.

— Não grite — Disse temeroso — Não podemos fazer barulho.

Aproximou seu pau da Buceta de Arieli com cuidado, tentando conter o desejo que o seu lindo corpo lhe causava.

A penetração foi difícil, a xoxotinha muto apertada, quando ela começou a gemer, Ramiro tapou-lhe a boca com a mão

Começou a socar cada vez com mais força, sem se importar com o desconforto que a menina parecia sentir. Ao mesmo tempo beijava-lhe o pescoço, em seguida os seios, pequenos, delicados e bem feitos. Sugava os mamilos deliciosos, ao mesmo tempo que continuava socando na xoxota.

Ramiro só procurava a própria satisfação sexual, não havia qualquer romantismo ou preocupação com Arieli.

Quando se satisfez com a vagina, tentou vira-la de costas, para o sexo anal.

Seus movimentos não buscavam resposta, nem adaptação. Não havia escuta, nem espera. Apenas continuidade. Ele conduzia tudo com uma firmeza.

— No cuzinho não – Suplicou Arieli — Sou virgem.

Apesar dos protestos, Ramiro continuou e a posicionou de bunda para cima.

Se encantou com a visão da bundinha bem feita, delicada. Seria o primeiro a penetrá-la.

Não conseguia desviar os olhos, não conseguia parar, não conseguia se controlar.

— Para com isso, Ramiro! — a voz dela saiu firme — Se você não parar agora, eu vou gritar!

Ele não respondeu. Nem uma palavra. Encostou cabeça do pau na entrada do cu, como se a ameaça dela não tivesse peso algum.

— Eu tô falando sério! — ela insistiu, a voz falhando no final.

Mas Ramiro continuou. Ignorou cada sílaba, cada aviso.

Começou a penetração. Arieli congelou por um segundo, até que o medo virou impulso.

— SOCORRO! — o grito explodiu, alto, desesperado. — SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA!

Ramiro arregalou os olhos, finalmente reagindo — não às palavras de antes, mas ao grito que agora podia atrair testemunhas.

E Arieli não parou.

— SOCORRO! — gritou de novo, ainda mais alto!

Ramiro transformou-se numa besta, cobriu o rosto de Arieli com um travesseiro, enquanto continuava a penetração.

Um impulso, um erro, uma decisão que não chegou a ser formulada, apenas executada.

O resto aconteceu rápido demais, percebeu que ela estava desacordada.

E então o silêncio. Um silêncio diferente. Pesado. Irrecuperável.

Ramiro recuou primeiro, como se despertasse de um transe. Olhou para ela — imóvel, sem reação, o corpo estranho àquele instante.

Chamou seu nome.

Nada.

Aproximou-se de novo, tocou seu braço. Frio não — mas ausente.

— Arieli…

Nenhuma resposta.

O ar sumiu dos pulmões dele.

De repente, tudo se reorganizou em uma única certeza brutal: tinha ido longe demais.

Muito longe.

Saiu do quarto quase tropeçando, fechando a porta sem perceber. O corredor parecia mais longo agora, a casa maior, como se quisesse retê-lo.

Precisava sair!

Agora!!

Pegou as chaves com mãos trêmulas, abriu a porta da frente com cuidado que não combinava com o pânico, atravessou o quintal quase correndo.

O carro.

Entrou, bateu a porta, girou a chave.

Nada.

Tentou de novo.

O motor engasgou.

— Anda…

Mais uma vez. O som falho, irritante. O mesmo de antes, mas agora insuportável.

Foi então que ouviu a voz.

— Não conseguiu ir embora?

Ramiro congelou.

Virou devagar.

Carlos estava ali, apoiado no carro, uma garrafa na mão.

— Esses carros… — ele riu baixo. — Sempre na pior hora.

Ramiro não respondeu. Tentou outra vez.

O motor tossiu.

E, de repente, pegou.

Carlos, cambaleando, abriu a porta do passageiro sem pedir.

— Vou com você — disse, sentando-se com dificuldade. — Dar uma volta… esfriar a cabeça.

O cheiro de álcool invadiu o carro. Ramiro segurou o volante com força. A casa ficou para trás.

O carro avançava pela estrada vazia, cortando a noite espessa. O farol iluminava apenas o suficiente...

Carlos afundava no banco, mas não dormia.

— Você demorou lá dentro… — disse, arrastando as palavras.

Ramiro não respondeu. Mantinha os olhos fixos na estrada.

— Eu vi.

Ramiro sentiu o corpo endurecer.

— Vi o que você fez.

O motor continuava em um ronco constante, quase indiferente.

— Você está bêbado — Ramiro disse, sem olhar.

O homem soltou uma risada curta, sem humor.

— Tô. Mas não tanto.

Ramiro apertou o volante.

— Cala a boca.

— Você acha que eu não sei?

O carro desviou levemente e voltou para a pista.

— Eu disse pra calar a boca.

— Vai fazer o quê agora?

Ramiro freou de repente.

O carro parou atravessado na estrada de terra. O motor ainda ligado, vibrando.

Os dois ficaram imóveis por um segundo.

Então começaram a falar ao mesmo tempo, vozes sobrepostas, desordenadas. Carlos gesticulava, tentando se erguer, a garrafa caindo no chão do carro. Ramiro virou-se, tentou contê-lo, empurrá-lo de volta.

O movimento foi brusco. Seco. Um soco.

Carlos perdeu a consciência.

Mais um golpe ... Carlos perdeu a vida

Ramiro ficou olhando, esperando algum sinal — qualquer um.

Nada.

Encostou-se no banco, passando a mão no rosto, tentando pensar. Não havia tempo, então a ideia veio. Ele estava a aproximadamente 1 Km de casa.

Perto do rio. Perto da ponte.

.

Ramiro agarrou o corpo de Carlos pelo colarinho e puxou com força. A cabeça bateu no volante com um som seco. Ele congelou por um segundo — esperando alguma reação que não veio.

— Fica, porra…

Empurrou de novo. O braço do morto escorregou e ficou preso entre o banco e a porta. Ramiro prendeu a respiração, forçando até ouvir um estalo abafado. Não quis pensar no que era. Só precisava que aquilo funcionasse.

O rosto do homem estava torto, a boca entreaberta. Ramiro evitava olhar direto. Sentia o estômago virar.

Pegou a garrafa e despejou sem cuidado. O líquido escorreu pelo pescoço, pela camisa, acumulando no banco. O cheiro ficou mais forte, quase sufocante.

Colocou Carlos no banco do motorista, como se fosse ele que estivesse dirigindo. Saiu do carro. O joelho encostou no corpo. Gelado.

Dessa vez não hesitou. Empurrou com tudo, usando o peso do corpo. O carro resistiu, depois cedeu de uma vez, fazendo ele quase cair junto. Continuou empurrando até sentir que não precisava mais.

Soltou.

O carro foi sozinho. Desalinhado. Sem controle. Caiu barranco abaixo no rio, com o corpo de Carlos no banco do motorista.

Todos pensariam que Carlos dirigia o carro bêbado e caiu no rio, e que esta seria a causa de sua morte. E assim ele se livraria

A queda veio em dois tempos: primeiro o impacto duro lá embaixo, depois o som grosso da água engolindo. Um borbulhar que parecia longo demais. Como se demorasse a terminar.

Ramiro ficou olhando até não ver mais nada.

Começou a andar para casa, os passos eram rápidos no começo, quase tropeçando. Depois desaceleraram, mas ele não parou. A estrada parecia maior do que antes.

A sensação não ia embora. Olhou para as mãos. Esfregou uma na outra. Ainda sentia. Como se o peso tivesse ficado grudado nelas.

Parou de repente.

Tinha ouvido alguma coisa.

Virou o corpo devagar, olhando para trás. Só a estrada vazia. O escuro. O rio longe, invisível agora.

Ficou assim por alguns segundos.

Nada.

Voltou a andar, mais rápido.

A cabeça começou a trabalhar contra ele. E se alguém tivesse visto? E se o carro não afundasse direito? E se encontrassem alguma coisa… alguma marca… qualquer coisa fora do lugar?

Ele tentou organizar os pensamentos, mas eles vinham quebrados, repetindo imagens: a cabeça batendo no volante, o braço preso, o som da água.

O som não saía.

A certa altura, teve certeza de que estava sendo seguido. Parou de novo. Ouviu passos atrás dos dele — só que, quando parava, o som parava também.

Respiração curta. Boca seca.

— Não tem ninguém… — disse em voz baixa, sem acreditar.

Apurou o ouvido até doer. Nada além do próprio sangue pulsando.

Continuou.

Chegou em casa sem lembrar do caminho final. Só percebeu quando a chave já estava na mão, tremendo na fechadura.

Entrou. Fechou a porta rápido, como se algo pudesse entrar junto. Encostou as costas na madeira e ficou ali, ouvindo.

Silêncio.

A casa parecia intacta. Igual. Segura.

Foi direto para o quarto, sem acender luz. Tirou os sapatos com dificuldade, chutando um deles para longe. Deitou na cama ainda vestido.

O corpo queria apagar. A cabeça não deixava.

Fechou os olhos.

Veio o som da água.

Abriu de novo.

O quarto estava escuro, mas não vazio. A sensação continuava ali, como se tivesse atravessado a estrada com ele.

Virou de lado, puxou o lençol, tentando se esconder de algo que não tinha forma.

Demorou.

Mas, em algum momento, o cansaço venceu.

E ele dormiu, não em paz, mas por exaustão.

Depois de um tempo que não soube precisar, acordou como se tivesse sido empurrado de volta para o corpo.

Os olhos abriram de repente, o ar entrando pesado, irregular. Por um segundo, não sabia onde estava. O quarto foi se formando aos poucos — teto, parede, a porta fechada.

Então veio tudo.

O rio. O som. O peso.

Ramiro virou de lado, passando a mão no rosto. A roupa ainda era a mesma. Cheirava mal. Ele sentia isso, mesmo sem querer.

Uma batida na porta fez o corpo dele travar.

— Ramiro?

A voz da mãe.

Ele não respondeu.

— Ramiro, tem gente aqui querendo falar com você.

O coração disparou na hora. Seco. Violento.

Gente. Já era de manhã, havia dormido por algumas horas.

Ele sentou na cama devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse piorar aquilo. A cabeça começou a correr na frente: encontraram o carro. Alguém viu. Não deu certo. Acabou.

— Já vou… — a voz saiu mais baixa do que ele queria.

Ficou alguns segundos parado, olhando para o chão. Pensando se existia alguma forma de sair dali que não fosse atravessando aquilo.

Levantou. Passou água no rosto, sem realmente se lavar. Olhou para si mesmo rápido demais no espelho — evitou sustentar o olhar.

Saiu do quarto.

Quando virou o corredor, viu primeiro a mãe dele, parada, tensa. Depois, as duas figuras sentadas.

Lourdes.

E… ela.

Arieli.

Ramiro parou.

Por dentro, foi como se algo tivesse quebrado de uma vez só. Um vazio rápido, seguido de um choque frio que subiu do estômago até a cabeça. O corpo inteiro reagiu, mas por fora, quase nada.

Ele piscou.

Uma vez.

Como se aquilo fosse se corrigir sozinho.

Mas ela continuava ali. Viva. Inteira. Olhando para ele.

O primeiro impulso foi recuar. Não chegou a se mover.

A cabeça dele não acompanhava. Não fazia sentido. Não encaixava. Ele tinha certeza. Tinha visto. Tinha…

O pensamento travou antes de terminar.

— Filho — disse a mãe dele — elas vieram falar com você.

A voz dela parecia distante.

Ramiro forçou o corpo a funcionar. Endireitou um pouco a postura, passou a mão no cabelo, um gesto automático, quase mecânico.

— Oi… — disse, controlando o tom. — Aconteceu alguma coisa?

O choque ainda estava inteiro dentro dele, batendo contra as costelas.

Viva.

Ela estava viva.

Lourdes estava com o rosto cansado, os olhos fundos de quem não dormiu.

— Ramiro… — começou ela, apertando as mãos uma na outra — Carlos… ele sumiu desde ontem à noite. A gente não sabe onde ele foi. Ninguém viu ele voltar.

O coração de Ramiro bateu mais forte, mas agora de um jeito diferente. Não era só medo — era cálculo.

— Sumiu? — ele repetiu, franzindo a testa, como se estivesse tentando entender.

— Sim. Disseram que ele estava bebendo… mas isso não é novidade — ela continuou, a voz falhando um pouco. — A gente só queria saber se você viu ele. Se sabe de alguma coisa.

Silêncio.

Ramiro sentiu o olhar das duas sobre ele. Principalmente o de Arieli. Ele evitava, mas sentia.

A história começou a se montar na cabeça — rápida, torta, mas suficiente.

Ele assentiu devagar, como se estivesse lembrando.

— Eu vi, sim.

As duas se mexeram quase ao mesmo tempo.

— Você viu? — a mãe perguntou, dando um passo à frente.

Ramiro passou a mão na nuca, olhando para o chão, como quem organiza a memória.

— Eu… acordei no meio da noite — começou escolhendo as palavras — e fui mexer no carro de novo. Ele não tava pegando antes, né… aí dessa vez funcionou.

Fez uma pausa curta. Respirou.

— Aí eu pensei em ir embora logo. Já tava tudo meio estranho…

Ele levantou o olhar, rápido, só o suficiente para parecer sincero.

— Foi quando ele apareceu.

Lourdes arregalou levemente os olhos.

— Ele tava bêbado. Bastante. Falando alto… meio perdido. Aí pediu pra dar uma volta comigo.

Ramiro deu de ombros, como se fosse algo banal.

— Eu acabei vindo dirigindo até aqui, com ele.

Arieli continuava em silêncio. Observando.

Aquilo incomodava mais do que qualquer pergunta.

Ramiro engoliu seco, quase imperceptível, e continuou:

— Quando a gente chegou, ele disse que queria ir num bar… depois da ponte. Pediu o carro emprestado.

Outra pausa.

Ali era o ponto mais frágil.

Ele sustentou.

— Eu emprestei.

O silêncio voltou, mais pesado.

— Você deixou ele ir sozinho? — perguntou a mãe, com um traço de preocupação mais forte agora.

Ramiro assentiu, tentando não acelerar demais a resposta.

— Ele insistiu. Disse que tava bem… que só ia rapidinho.

Olhou de novo para elas, dessa vez um pouco mais firme.

— Eu fiquei aqui. Esperei um tempo… mas ele não voltou.

Lourdes levou a mão à boca, claramente abalada.

— Meu Deus…

Ramiro desviou o olhar.

Não para ela.

Para Arieli.

Só por um segundo.

E foi pior do que antes.

Porque agora não era só o choque de vê-la viva.

Era a sensação de que ela estava olhando através dele.

Como se, de algum jeito, soubesse.

Ele quebrou o contato primeiro.

— Talvez ele tenha dormido em algum lugar… — disse, a voz mais baixa — ou ficou no bar.

Mas nem ele acreditou direito no que acabou de dizer.

E, no fundo, sabia: aquela história não ia aguentar por muito tempo.

Lourdes respirou fundo, como se estivesse tentando se segurar.

— Eu vou até o bar… depois da ponte. Alguém deve ter visto ele.

A mãe de Ramiro assentiu na hora.

— Eu vou com você. Melhor não ir sozinha.

As duas já começaram a se mover, pegando bolsa, falando baixo uma com a outra. A pressa vinha misturada com preocupação.

— A gente já volta — disse a mãe de Ramiro, olhando para ele.

Ele só concordou com a cabeça.

Arieli, até então quieta, falou pela primeira vez:

— Eu fico aqui.

As duas aceitaram sem questionar.

A porta se fechou.

Silêncio.

Pesado.

Ramiro não se mexeu de imediato. Ficou olhando para o mesmo ponto, como se ainda tivesse alguém ali. Só quando teve certeza de que estavam sozinhos é que soltou o ar, devagar.

Virou-se. Arieli estava olhando direto para ele, sem desviar.

Aquilo incomodava.

— …Obrigado — ele disse, a voz baixa, quase presa. — Por não falar nada.

Arieli inclinou levemente a cabeça.

— Falar o quê?

O estômago dele apertou. Ela sabia. Ou estava brincando.

Ramiro engoliu seco, sustentando o olhar dessa vez, mesmo contra a própria vontade.

— Você sabe.

Um pequeno silêncio.

Então ela deu de ombros.

— Meu pai? — disse, simples. — Ele é um bêbado. Sempre foi.

A forma como ela falou — seca, sem emoção — fez alguma coisa girar dentro dele.

— Ninguém vai estranhar ele sumir por um tempo.

Ramiro ficou em silêncio.

Tentando entender.

Tentando acompanhar.

— Ele não presta — ela continuou, agora com um leve endurecimento na voz. — Nunca prestou.

Os olhos dela voltaram para ele, mais atentos agora.

Mais próximos.

— Você não fez nada que já não fosse acontecer com ele uma hora.

Ramiro sentiu o corpo tenso de novo, mas por um motivo novo.

— Arieli…

Ela parou na frente dele, perto o suficiente para não precisar levantar a voz.

— Eu tenho interesse em você.

Assim. Sem desvio. Sem vergonha. Sem espaço para fingir que não entendeu.

— Você tá tremendo — ela disse, quase curiosa.

— Não… — ele murmurou, baixo. — Espera.

Ela não parou.

A outra mão veio, mais firme agora, subindo pelo peito dele, como se testasse até onde podia ir. Não havia hesitação nela. Só decisão.

Ramiro segurou o pulso dela.

— Arieli…

Ela se aproximou mais.

— Você quer — disse, como se fosse óbvio.

Ele não respondeu.

Porque, em algum nível, ela estava certa, e era isso que tornava tudo pior.

O conflito rasgava por dentro: desejo, culpa, medo. Tudo misturado, sem separação possível.

— Para — ele disse, dessa vez mais claro.

Mas a palavra não teve efeito.

Ela encostou a testa na dele, a insistência já não era só provocação, era pressão.

Um avanço constante. Ela começou a guia-lo para o quarto. Sem espaço. Sem pausa.

Arieli estava diferente, Seu olhar não apenas encantava, mas comandava; era uma mistura de doçura, desafio e sedução.

O seu rosto pontudo e simétrico, com maçãs do rosto delicadas e lábios naturalmente sedutores. prendiam a atenção. Seu corpo dizia silenciosamente “me perceba, me sinta, me possua”.

O corpo de Ramiro endureceu.

— Eu disse pra parar.

Agora havia tensão na voz.

Mas Arieli não recuou. Pelo contrário, avançou de novo, já dentro do quarto atirou Ramiro na cama.

Começou a tirar a roupa. movimentos na medida exata entre graça e autoridade.

O corpo dela, magro na proporção perfeita, cada curva era magnetismo .Era sedução e autoridade em perfeita sincronia. E Ramiro, em nenhum momento, conseguiu desviar o olhar.

Quando Ramiro percebeu já estava sem as calças, não se lembrava de ter tirado.

Sentado na beira da cama, de pau duro, assistiu Arieli se aproximar, e encaixar seu corpo no dele. Abraçando-o de frente, sentando no seu pênis e colocando-o dentro da vagina.

Enquanto quicava no seu pau, Arieli passou a mão abraçando-o pelo pescoço, olhando de forma sedutora e safada, diretamente em seus olhos e soltando gemidos de prazer.

A buceta estava bem molhadinha, o movimento fluía fácil. Ramiro permanecia enfeitiçado, como se fosse um objeto de prazer de Arieli.

— Agora eu quero de quatro – Disse Arieli sussurrando sensualmente no ouvido de Ramiro

Ela se levantou e se colocou de quatro em cima da cama, levantou o quadril de forma sutil, enfatizando suas curvas. O movimento foi lento e deliberado, atraindo o olhar de Ramiro para sua bunda perfeitamente contornada.

Ela sentiu a atenção dele e, Ramiro, totalmente absorvido pela cena, não conseguia desviar o olhar. Arieli sabia que estava no controle.

— Vem lamber o meu cu bem gostoso - Falou Arieli com um sorriso brincalhão, provocando ainda mais – Quero que lamba com vontade! – Disse enquanto balançava levemente o quadril.

Ramiro começou a lamber e a sugar o cuzinho de Arieli enquanto brincava com o grelo.

— Você queria o meu cu, né seu safado?

— Teu cu é delicioso, irresistível! – Falou Ramiro enquanto passava a língua e babava no cu de Arieli.

— Agora meu rabinho quer levar pau! – Respondeu Arieli enquanto piscava o cu.

Ramiro obedeceu e se posicionou para penetrar. Começou a forçar o pau pra dentro, e enquanto o cuzinho ia se abrindo ele ia penetrando mais e mais.

— Me abre inteira com seu pau! Soca gostoso!

Ramiro meteu com tudo, socou a vontade no cu de Arieli, até que gozou.

O calor no quarto parecia aumentar, parecia grudado na pele, pesado, quase sufocante.

Depois que gozou, Ramiro encostou a cabeça no travesseiro e respirou fundo, Arieli ficou surpresa pela penetração já ter acabado. Seus olhos brilhavam com uma inquietação que não diminuía.

Ela se aproximou, pegou no pau de Ramiro, que agora estava mole

— Mais — murmurou.

Ramiro virou levemente o rosto, tentando recuperar o fôlego.

— Espera… eu tô cansado.

Arieli soltou um riso curto, quase desafiador. Os dedos dela bateram de leve no peito dele, primeiro como brincadeira, depois com mais firmeza.

— Cansado? Já? — provocou, estreitando os olhos. — Que frouxo.

Ele fechou os olhos por um instante, como se quisesse se desligar daquilo, mas os tapinhas continuaram, agora mais ritmados, exigentes.

— Para com isso — disse, a voz mais baixa, tensa.

Ela não parou. Aproximou o rosto do dele outra vez, o tom agora mais intenso, quase provocativo demais.

— Anda, Ramiro… eu quero mais pau!

Ele abriu os olhos de repente, a paciência começando a se desfazer. O corpo ainda pesado, mas a mente já irritada, pressionada pelo tom dela.

— Eu falei pra parar.

A porta ainda estava encostada, deixando entrar uma faixa estreita de luz do corredor. Ramiro passou a mão pelo cabelo, inquieto, olhando para ela e depois para o relógio.

— Arieli… — ele sussurrou, a voz tensa — as nossas mães podem voltar a qualquer momento. Você precisa se recompor.

— Ué, você não queria tanto o meu cuzinho? — Disse, rebolando perto do rosto de Ramiro.

Ramiro se irritou ainda mais :

— Eu tô falando sério. Se alguém entra aqui agora…

Arieli levantou, encurtando a distância entre eles, como se a preocupação dele fosse só mais um detalhe irrelevante. Passou os dedos de leve pelo braço dele, subindo devagar.

— Foda-se — murmurou, com um meio sorriso.

Ele segurou o pulso dela, não com força, mas firme o suficiente pra tentar trazer alguma razão de volta à situação.

— Para com isso, Arieli. Não é brincadeira.

Ela soltou uma risadinha curta, descrente.

— E se eu chupar essa tua piroquinha mole, será que fica dura? — provocou. —

Ramiro respirou fundo, claramente dividido entre o impulso e o medo. Olhou de novo para a porta, depois para ela.

Enquanto isso Arieli abocanhou o pau de Ramiro e começou a chupar. Mas de nada adiantou, continuava mole.

— Para Arieli. Eu tô tentando evitar um problema gigante.

— Eu quero mais, no meu cu. — Respondeu, num tom baixo, mais sério agora. Em seguida mordeu o pau de Ramiro, com força.

— AAAAííií, Arieli! Que Porra é essa!? Quer arrancar meu pau fora!!!

Ramiro perdeu totalmente o controle, agarrou Arieli pelos cabelos e tirou o pau de sua boca, em seguida começou a apertar o pescoço dela. “ Já sou um assassino mesmo, o que custa matar mais uma pessoa” pensou Ramiro.

Arieli começou a se debater, Os movimentos ficaram mais rápidos, desordenados, como se estivesse tentando agarrar alguma coisa que pudesse salva-la.

Ramiro viu o pânico nos olhos dela, arregalados, perdidos. Ela tentava respirar, mas ele não a soltou.

Os braços dela moviam-se desordenadamente em desespero tentando atingi-lo.

Arieli começou a mudar de cor, parecia perder o tom, ficando pálida, quase acinzentada. Os movimentos foram diminuindo, de agitação caótica para gestos cada vez mais lentos, pesados.

O corpo dela começou a ceder, ficando pesado, sem reação. Os braços, antes frenéticos, caíram inertes. A cabeça tombou para o lado.

Ramiro ficou ali por um segundo que pareceu infinito, segurando-a, olhou para seu pênis, durante todo aquele processo ele havia tido uma ereção!

Ramiro demorou para entender o que estava acontecendo — ou talvez não quisesse entender.

Só quando o silêncio persistiu é que ele soltou.

Deu um passo para trás.

O ar voltou de forma irregular, quase dolorida.

— Arieli…?

Nenhuma resposta.

O nome caiu no quarto sem retorno.

Ele ficou parado, olhando — mas sem realmente ver. Como se o cérebro se recusasse a organizar aquela imagem.

Então veio.

De uma vez.

Mais forte do que antes.

O mesmo vazio.

O mesmo choque frio.

Só que agora pior.

Muito pior.

— Não… — a palavra saiu quebrada.

As mãos dele começaram a tremer de novo.

Dessa vez não havia dúvida.

Nem erro.

Nem possibilidade de corrigir.

Ele passou a mão no rosto, andando de um lado para o outro, rápido, descontrolado. O pensamento não organizava — pulava.

Porta. Rua. Vizinho. Mãe.

Carro.

Parou.

O olhar fixou em um ponto.

Carro.

A decisão não veio como escolha.

Veio como necessidade.

Automática.

Ele se mexeu.

Evitar olhar.

Evitar pensar.

Só fazer.

O resto veio em blocos desconexos — fragmentos de ação sem reflexão completa.

Abrir.

Arrastar.

Fechar.

Respirar.

Sempre rápido demais.

Entrou no carro da mãe com as mãos ainda instáveis. Demorou um segundo para conseguir encaixar a chave.

Colocou o corpo sem vida de Arieli no porta malas do carro de sua mãe.

Para onde iria? O que faria com o corpo?

Por via das duvidas pegou uma pá .

Ficou parado por um instante.

Um último instante.

Mas não havia mais nada ali que pudesse ser resolvido.

A fronteira com o Paraguai ficava a menos de 1 hora de carro.

Ligou o carro e saiu

A rua parecia longa demais, mesmo sendo a mesma de sempre. Cada esquina vinha carregada de uma sensação de exposição — como se tudo estivesse vendo.

Observando.

Ele não olhou para trás.

Não olhou para a casa.

Manteve os olhos na estrada, fixos, duros.

A direção já estava decidida antes mesmo de ele perceber.

Fronteira.

Distância.

Fuga.

O som.

Não o da água, dessa vez.

Outro.

Ramiro percebeu sem realmente decidir. Quando viu, já tinha saído da via principal e entrado numa secundária, mais estreita, cercada por mato alto.

Ele diminuiu a velocidade.

O volante parecia mais pesado nas mãos.

Ele respirou fundo, uma vez, tentando estabilizar.

Não conseguiu.

Parou no acostamento sem pensar muito. O motor ficou ligado por alguns segundos antes de ele desligar.

Ficou ali.

As mãos ainda no volante.

Olhando para frente.

Como se pudesse simplesmente continuar sem fazer o que sabia que precisava fazer.

Mas não dava.

Nada mais dava para ser deixado para depois.

Saiu do carro.

O ar estava mais frio ali. Ou talvez fosse só o contraste com o interior fechado. Ele deu a volta, evitando olhar diretamente para trás do veículo, como se adiar aquele momento pudesse mudar alguma coisa.

Não mudou.

Pegou a pá e começou a cavar uma cova para o corpo.

A terra era dura no começo. Depois cedeu um pouco. O esforço veio rápido, pesado, irregular. Cada movimento parecia maior do que deveria ser.

Ele não pensava.

Ou tentava não pensar.

Quando algum pensamento começava a se formar, ele empurrava para longe, voltando para o gesto seguinte. Sempre o próximo gesto.

Só mais um.

Só terminar.

Em algum momento, parou.

Ficou olhando para o que tinha feito, mas sem realmente registrar. Como se aquilo pertencesse a outra pessoa.

O resto aconteceu no mesmo ritmo fragmentado.

Pegou o corpo no porta malas

Evitou olhar diretamente

Cobriu

Alisou a terra com pressa.

Olhou em volta.

Nada.

Ninguém.

Mesmo assim, a sensação não ia embora.

Quando voltou para o carro, as mãos estavam sujas. Ele passou uma na outra, sem resultado, como se o problema não fosse aquilo.

Entrou.

Fechou a porta.

Ficou parado por um segundo. Depois ligou o motor.

A estrada principal apareceu de novo como um retorno estranho à normalidade. Asfalto mais liso, linhas marcadas, direção clara.

Mas nada estava normal.

Ele dirigia com os ombros tensos, os olhos fixos, atentos a qualquer luz distante. Cada carro que surgia ao longe parecia uma ameaça até passar.

A ideia da fronteira crescia como um único ponto possível.

Chegar.

Atravessar.

Continuar.

E, de repente, estava do outro lado.

A sensação não foi alívio.

Foi outra coisa.

Como se tivesse atravessado fisicamente — mas levado tudo junto.

A cidade apareceu aos poucos, luzes espalhadas, algumas ruas ainda movimentadas. Gente que não sabia. Que não via.

Perfeito.

Era isso que ele precisava.

Dirigiu sem rumo definido por alguns minutos, até encontrar um hotel pequeno, discreto, quase escondido entre outros prédios baixos.

Estacionou.

Ficou dentro do carro por alguns segundos antes de sair.

O corpo doía. Um cansaço pesado, acumulado, mas que não trazia descanso.

Entrou.

A recepção era simples. Luz amarelada. Um ventilador girando devagar no teto. Um homem atrás do balcão que mal levantou os olhos.

Ramiro pediu um quarto.

A voz saiu normal.

Quase.

Pagou em dinheiro.

Pegou a chave.

Subiu.

O quarto era pequeno. Cama, banheiro, uma janela fechada demais. Ar parado.

Ele entrou e trancou a porta com mais cuidado do que o necessário.

Ficou ali, encostado, ouvindo.

Nada.

Ainda assim, demorou a se mover.

Quando finalmente tirou os sapatos e sentou na cama, o corpo cedeu um pouco — mas a cabeça não.

Fechou os olhos.

Por um segundo.

E veio.

Não imagem.

Sensação.

Peso.

Contato.

Abriu de novo.

O quarto continuava o mesmo.

Mas ele não.

E não havia distância suficiente para isso.

O corpo afundou no colchão, pesado, mas a cabeça continuava acelerada, girando em círculos fechados.

Opções.

Nenhuma boa.

Voltar era impossível.

Seguir também não resolvia.

Dinheiro. Documento. O carro. A fronteira já tinha ficado para trás, mas isso não significava nada. Podiam rastrear. Podiam ligar os pontos. Sempre ligavam.

Ele virou de lado.

Depois para o outro.

Pensava no que dizer.

Se perguntassem.

Se encontrassem.

Se já soubessem.

A mente começava a montar versões — histórias mal acabadas que desmoronavam antes de ficarem de pé. Nada se sustentava por muito tempo.

As imagens vinham junto.

Sempre elas.

Interrompidas, fragmentadas, mas insistentes.

Ele fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar tudo para fora.

O cansaço, em algum momento, venceu pela força.

Não foi descanso.

Foi apagão.

Acordou com um som cortando o quarto.

Agudo.

Demorou um segundo para entender.

Sirene.

Outra sirene.

Mais próxima.

Levantou, tropeçando levemente, e foi até a janela. Abriu só o suficiente para olhar.

Lá embaixo.

Dois carros.

Luzes girando, refletindo nas paredes, no asfalto, no vidro.

Polícia.

O ar sumiu por um instante.

— Não… — ele murmurou, mas sem convicção.

Era rápido demais.

O interfone tocou.

O som foi seco, direto, alto demais no silêncio do quarto.

Ramiro virou devagar.

Ficou olhando para o aparelho como se fosse outra ameaça.

Tocou de novo.

Ele atravessou o quarto e atendeu.

— ¿Sí? — a voz saiu baixa, controlada à força.

Do outro lado, a recepcionista:

— Señor… hay alguien en la recepción que quiere verlo.

O coração bateu mais forte.

Alguém.

Não precisava de mais.

Era isso.

Acabou.

Ele ficou alguns segundos em silêncio depois que a linha caiu, ainda segurando o aparelho.

Então colocou no lugar.

Respirou fundo.

Uma vez.

Duas.

Não havia mais cálculo possível.

Só o fim do caminho.

Passou a mão no rosto, tentando organizar o mínimo de aparência. Alisou a roupa, ajeitou o cabelo sem pensar muito.

Abriu a porta.

Saiu.

Desceu as escadas.

A recepção veio surgindo aos poucos.

E lá estavam.

Os dois policiais.

Conversando com o homem do balcão.

Ramiro não hesitou dessa vez.

Caminhou direto.

Cada passo mais firme do que sentia por dentro.

Parou na frente de um deles.

Estendeu as mãos.

— Eu… — a voz falhou por um segundo, mas ele continuou — eu me entrego.

O policial franziu a testa.

Olhou para as mãos dele.

Depois para o rosto.

Confusão.

— ¿Qué? — disse, com um meio sorriso incrédulo. — ¿Estás loco?

Ramiro ficou desorientado.

— Vocês… não vieram me prender?

O policial trocou um olhar rápido com o outro, ainda sem entender.

— No. Vinimos por otra cosa. El dueño llamó… un huésped quería irse sin pagar.

Silêncio.

O mundo pareceu desalinhado por um instante.

Ramiro baixou lentamente as mãos.

Virou-se para a recepcionista, a confusão agora aberta no rosto.

— Você disse… que tinha alguém… que queria me ver.

Ela assentiu, tranquila, como se nada fosse estranho.

— Sí.

E então apontou.

— Aquella chica.

O gesto foi simples.

Leve.

Ramiro seguiu a direção com o olhar.

E o corpo inteiro travou.

Ela estava ali.

Encostada em um canto da recepção, parcialmente na sombra.

Arieli.

Inteira.

De pé.

Imóvel.

Arieli.

O mesmo rosto.

Os mesmos olhos.

Fixos nele.

E aquele sorriso.

Errado demais.

Ramiro não se mexeu.

Não respirou.

Não pensou.

Porque o detalhe veio depois.

Devagar.

Como se o olhar dele demorasse para aceitar.

No cabelo dela.

Preso entre os fios.

Terra.

Escura.

Úmida.

Como se ainda estivesse fresca.

O sorriso dela aumentou um pouco.

Só um pouco.

Mas o bastante.

E os olhos de Arieli não piscaram.

Nem por um segundo.

FIM

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Comentários

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CARA!!!

História genial

Parabéns

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Valeu Zanon!

Obrigado por sempre acompanhar meus contos e comentar! Fico feliz que gostou.

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Foto de perfil de Tito JC

Não conhecia o livro, mas sei que a literatura argentina, assim como o seu cinema, são de primeira qualidade. Vou ler o livro e conhecer o autor. Se essa obra foi capaz de lhe inspirar a escrever essa maravilha de texto, ela merece ser explorada.

Olha, eu como autor e curioso da alma humana, vi o seu conto e a história do Ramiro, como uma reflexão sobre a culpa, uma metáfora, por assim dizer.

Não importa pra onde você vá, não importa o que você faça, ela sempre te acompanha, e te consome por dentro.

Cara sinceramente, eu fiquei impactado pelo conto. Achei maravilhoso.⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐...

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Foto de perfil de Ryu

Muito obrigado Tito.

Se não me engano foi o Leon que comentou sobre a força do mercado editorial na Argentina. Eles tem o hábito de ler, e reflete-se no fato de que realmente a literatura argentina é de primeira linha.

Sobre o cinema, conheço pouco, mas sou fã do Ricardo darin.

Você vai gostar de ler o livro que inspirou o conto,vem outras camadas interessantes, como a ligação com a ditadura, que é algo sobre o qual os argentinos debatem até hoje

Quando li o livro e vi a série, tive a mesma impressão que você, é uma reflexão sobre a culpa.

Fico feliz que o conto te impactou!

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Foto de perfil de Dani Pimentinha CD

Não conhecia a obra mas ela é tão importante que tende uma adaptação para filme na argentina e uma para série na globo.

Muito chocante estou de verdade chocada, Ramiro é um monstro e vai continuar matando enquanto não for parado.

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Foto de perfil de Ryu

Sim, virou uma série na globo, se não me engano em 1998, se passando no Rio grande do Sul.

A história original, do livro, se passa na Argentina e faz referência à ditadura.

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Foto de perfil de Dani Pimentinha CD

Sim eu sei pesquisada, me deixou bem abalada, pelo que entendi a história original meio que a ideia era um paralelo com os crimes da ditadura.

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Foto de perfil de Ryu

Se vc não conhecia, e passou a conhecer agora essa obra, então só por isso já valeu ter escrito esse conto.

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Foto de perfil de Giz

Fiquei simplesmente chocada. Nem mais nem menos…

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Foto de perfil de Ryu

Então acho que acertei.

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Definitivamente acho que sim.

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