Capítulo Quatro
Rubens
Tinha esperança de ter entendido errado quando Antônio me falou “amor temos um pequeno problema em casa”, esse pequeno problema é um recém nascido. Acabei de chegar em casa e tem um recém nascido na minha cama e um PitBull no meu quintal. Mas isso nem é o pior, se fosse só esses dois hóspedes eu estaria de boas, mas Luana está tomando café sentada no meu sofá.
— Vocês tem que procurar a polícia, já tem mais de 24 horas que essa maluca sumiu Antônio — diz Luana e por mais que eu deteste, tenho que concordar com ela.
— Amor, Luana está certa, não podemos ter um bebê de alguém que nem conhecemos aqui em casa.
— Eu sei, mas gente eu sei que ela vai voltar, ela só estava exausta — Antônio entende a seriedade da situação e mesmo assim quer insistir nisso — amor só mais um dia por favor.
— Quando mais o tempo passa, pior fica — diz Luana.
— Luanna tá certa, mas hoje é domingo, vamos resolver isso amanhã, se até amanhã ela não der nenhum sinal a gente procura o juizado de menores e entrega essa criança.
— Obrigado — Antônio diz olhando para mim.
— Você é maluco Antônio, é só isso que vou dizer, vocês dois são — Luana diz por fim antes de ir embora.
Odeio o fato dela ter estado na minha casa com meu noivo sem mim, mas não é uma situação atípica então, posso relevar dessa vez. Aliás, não tem nada de comum nessa situação. Minha família está desmoronando e tenho um bebê na minha casa, ha, no meio dessa confusão toda acabei esquecendo que não é só um bebê e um cachorro.
— Acho melhor eu pegar uma pousada Rubens — diz Zé Filho com sua mochila ainda às costas.
— Claro que não, Zé Filho, você é família, você fica, só não liga para essa bagunça que tá nossa vida no momento — Antônio diz, enquanto arranca a mochila das costas do cunhado.
Nem tive tempo de avisar ao meu noivo que meu irmão que acabou de descobrir a pior traição da sua vida simplesmente se enfiou dentro do Fuscão Preto quando eu falei que tinha que voltar o mais rápido possível para casa. Não tive nem cara de dizer que não, afinal fiz o mesmo quando terminei meu noivado com meu ex — e olha que a minha traição foi até menos pior já que eu não conhecia o cara.
Zé Filho me pediu para ficar com a gente por uns dias, eu tenho a leve sensação de que vai ser bem mais que uns dias, pois denovo, me identifico com esse sentimento de fuga para a serra. Meu irmão precisa de mim, os dois, mas o homem que eu amo também precisa e por mais que eu ame minha família, eu escolhi o Antônio quando entre no Fuscão dele naquele dia. E pelo menos mantendo o Zé Filho aqui, consigo garantir que eles não briguem.
Antônio me explica mais uma vez só que agora com mais detalhes como o bebê e o cachorro vieram parar aqui em casa. É inacreditavel que uma mãe simplesmente deixe seu filho com um estranho e desapareça.
— Você não tem nem o endereço dela? — Zé Filho pergunta e pela cara já sei que meu noivo não pensou nisso.
— Deve ter no sistema da ong — ele diz.
— Vai olhar isso logo então — digo para ele.
— E o Bebê?
— Eu fico com ele, o mais importante é acharmos a mãe dele logo ou esse rapazinho vai crescer sem mãe — o corpo do meu noivo estremece com minha fala, isso toca num ponto dele que nem eu sabia que ele tinha.
— Vou com você cunhado — Zé Filho se prontifica.
— Vamos então, ele já comeu e eu comprei fraldas e a fórmula para ele, Luana deixou a receita escrita tá na porta da geladeira.
— Ótimo — digo, sinto ciúmes da ex do meu noivo? Sim, muito. Mas ela é enfermeira e eu não estava por perto então não posso reclamar por ter pedido ajuda dela.
Os dois saem e como se esse pequeno ser humano soubesse da minha total falta de saber sobre cuidar de bebês, ele começa a chorar. Vou até o quarto, e ele está esperneando todo. O menino é lindo, com bochechas vermelhas enormes, como alguém pode ser tão indefeso e pequeno? E pior ainda, como alguém pode não querer cuidar de um garotão lindo desses.
— Vamos lá, Rubens, você vai lidar com milhões de Euros no trabalho, não deve ser tão difícil assim segurar uma criança.
Ele é tão mole, frágil mesmo, até o pescoço dele é fraco, minhas mãos são enormes perto dele, levo ele até meu colo com o máximo de cuidado possível, mas ele não para de chorar. Queria minha mãe aqui, ela cuidou de tantas crianças que faz isso até dormindo.
Não sou o tipo de cara que perde as estribeiras e nem reajo mal sob pressão, mas o choro desse pequeno é desesperador. O sentimento de impotência me atingiu feito um raio, e para piorar tudo o cachorro está latindo loucamente no quintal agora. Estou arrependido de não ter ido eu para a ONG. O que eu faço?
Poderia ligar para Luana, mas não, meu orgulho é idiota de mais para me deixar fazer isso e também não quero preocupar o Antônio que já está a beira de um colapso. Julia odeia crianças e o Ben não está com cabeça e nem disposição de fazer nada para ninguém, ele também está longe então não tenho muito o que fazer. Estou quase desistindo quando me ocorre um pensamento meio desesperado.
— Tia Marli — digo em voz alta, mas aí vão ser muitas pessoas sabendo disso, eu confio na tia, mas as fofoqueiras de plantão não sei se dá para arriscar.
Que droga! Pego a porra do telefone e ligo para uma pessoa que pode me ajudar e que não tem problema de saber sobre eu ter um bebê em casa.
— Rubens? Que surpresa boa meu filho — diz Dona Diana, mãe do Mariano e minha ex -sogra.
— Oi Dona Diana, tudo bem.
— Tudo meu filho, e você, espera, isso é choro de criança? — Ela pergunta, até porque não tem como não ouvir.
— Então dona Diana, eu estou cuidando desse rapazinho só que não sei o que fazer — explico para ela minha situação, mas sem entrar muito nos detalhes também.
— Certo, o cachorro está agitado por causa do neném é normal — é reconfortante ter alguém sabia no meu ouvido — agora Rubinho veja se ele não precisa trocar a frauda.
Me sinto um idiota por não ter notado antes que era isso, a frauda, levo o pequeno até a cama de novo, pego o pacote de fraudas aberto e o lenço umidecido, mudo a chamada para video e Dona Diana me passa o tutorial mais bizarro que já tive que ouvir na vida. Nunca achei que trocaria uma fralda na vida, embora ser pai seja um desejo meu, querer e viver são duas coisas diferentes. Pelo menos nojo, eu não tive, já é um bom sinal. Meu consolo é saber que dos meus irmãos todos só uns dois ou três se sairiam melhor do que eu nessa tarefa.
— Limpo e de frauda nova — digo e o moleque me lança um sorriso que me faz errar uma batida do coração — meu noivo é ciumento em pequeno, se ele te pegar rindo assim para mim — digo rindo, e ele rir como se entendesse a piada.
— Agora leva ele para ver o cachorro e pronto, vai ter uns minutos de paz — diz Dona Diana com seu bom humor de sempre.
— Minutos — ela rir da minha cara de pânico.
— Você se dá conta Rubinho, sempre pensei que você e o Mariano me dariam vários netinhos.
— A vida tinha outros planos para a gente Dona Diana — digo.
— Eu sei, o Mariano me disse que o Antônio é um namorado maravilhoso para você.
— Ele é sim.
— Que bom lhe ver assim filho, olha não suma não, independente de qualquer coisa para mim você sempre vai ser um filho Rubinho — meus olhos se enchem d’água, queria tanto ouvir isso da minha própria mãe.
— Obrigado, Dona Diana.
Encerro a chamada e faço o que ela falou, levo o pequeno até quintal, o cachorro é um pitbull, enorme, forte e muito ameaçador, mas bastou chegar perto segurando o pequeno que o cachorro mudou, nem pular em cima de mim ele pulou, Tigela — eu acho que esse é o nome dele — se comporta como um lord, quietinho depois de cheirar a criança ele fica do meu lado me encarando e estranhamente não sinto meu dele.
— Você só está zelando pelo seu irmãozinho né Tigela — é estranho me identificar com um cachorro? — Quer saber, sai desse quintal, vem me ajudar a ficar de olho no seu irmão enquanto meu noivo volta com a mãe de vocês.
Tigela me segue obediente, vou até o sofá, descobri que sentado é um pouco mais fácil de segurar o pequeno. Sabe não me lembro da última vez em que fiquei sem o Antônio e ainda sim consegui não pensar em trabalho, tipo só o meu noivo tem o dom de me desligar do corporativo, mas aqui sentado com o pequeno no colo e o Tigela deitado perto no chão, nós três passamos facilmente uns vinte minutos vendo tv — quer dizer eu e o Tigela, porque o Pequeno deu dois bocejos e dormiu. Com a mão na boca, que fofura cara.
Escuto o Fuscão e meu coração se aperta. Por um lado estou aliviado de finalmente esse perrengue com Pequeno e o Tigela tenha chegado ao fim, porém uma parte de mim simplesmente curtiu ser pai por uns o que? Quarenta minutos? Enfim, se antes eu sabia que queria ser pai, esse curto tempo com esses dois me deram uma certeza nova na minha vida.
— E ai amor, tudo bem por aqui? — Antônio pergunta quando entra na sala e me vê com meus novos amigos.
— Sim, e aí achou a mãe do Pequeno?
— Amor, nem sei como te falar isso — ele começa a escolher as palavras, mas o Zé Filho que anda desacreditado do amor e da capacidade da humanidade de amar, fala antes dele.
— Ela estava de favor na casa de uma prima e a prima dela disse que ela foi embora.
— Como assim embora? — Eu entendi, mas quero muito fortemente acreditar que não.
Antônio senta do meu lado e pega o Pequeno do meu colo, Zé Filho se abaixa para cumprimentar o Tigela — e na moral esse deve ser o Pitbull mais dócil do planeta, pois o cachorro até dá a barriga para o Zé Filho fazer carinho — meu noivo me conta que o Pequeno é filho de um homem casado que nem mora em Tianguá, o cara é um caminhoneiro do quinto dos infernos do Sul do país.
Basicamente, a mãe do ano, ficou com esse caminhoneiro e engravidou, depois nunca mais na vida viu o cara de novo e nem o contato do cara ela tinha. Grávida, sem emprego e sozinha ela veio só ela e o Tigela para Tianguá a fim de pedir abrigo para a prima. Segundo o que a prima contou ela é de Ubajara — uma cidade aqui do lado.
— E como assim ela foi embora? E tipo essa prima pelo menos contou o nome do bebê?
— Não, amor, a Angela deixou o bebê lá na ONG e fugiu.
— Como ela pode fazer isso? — Estou puto com essa mulher, pois não importa qual foi a motivação dela, isso não se faz.
— Ela disse para prima só que tinha achado uma família para cuidar dele e do Tigela e saiu de casa, depois disso a prima não viu mais ela e nem faz ideia de para onde ela foi.
— Gente você tem que levar essa criança para polícia — Zé Filho disse o que Antônio e eu pensamos, mas tem algo no meu coração que não quer fazer isso e só de olhar nos olhos do meu amor sei que ele pensa igual.
— Ela vai se arrepender, não tem como, ela não é essa pessoa, eu sei — diz Antônio.
— Mas ela deixou o filho para trás, o que vocês vão fazer, não podem ficar com o Pequeno esperando que ela volte.
— Bem, combinamos de esperar até amanhã, então vamos esperar — digo — Zé Filho, pode me dar um segundo com o Antônio por favor?
— Claro, vem aqui Pequeno — ele pega o bebê do colo do Antônio e até me surpreende ver o quanto ele leva jeito com crianças.
Vou até o quarto com meu noivo, quando a porta se fecha ele me puxa para um beijo, nossa saudades é tanta que esse beijo até me tira do ar um pouco, mas então volto para o foco que preciso ter agora.
— Amor, Zé Filho pode passar um tempo com a gente?
— Claro que pode, amor sua família e minha família também.
— Ele anda muito mau por causa do que aconteceu.
— Imagino, mas fica tranquilo, o Zé Filho pode até morar com a gente que não ligo.
— Obrigado amor, eu te amo muito — digo beijando ele de novo.
— Também te amo, faço qualquer coisa para te ver feliz — Antônio é o amor da minha vida e cada dia que passa percebo mais ainda o quanto sou sortudo por ter esse homem para mim.
— Agora sobre o Pequeno amor? — De repente resolver os problemas do meu irmão parece bem mais simples.
— Vamos dormir e amanhã será um novo dia — é tudo que consigo dizer por hora.
