Uma puta dama - parte 18 - Epílogo 1/2

Um conto erótico de Helena (Por Mark e Nanda)
Categoria: Heterossexual
Contém 12034 palavras
Data: 20/03/2026 15:51:38
Última revisão: 20/03/2026 16:09:34

Meus caros e minhas caras,

Decidi dividir o epílogo em duas partes para não tornar a leitura muito cansativa. Além do mais, a segunda parte ainda não está totalmente concluída. Então, pelo menos, vocês já vão se satisfazendo (ou não) com esta passagem.

Postarei a conclusão muito em breve.

Forte abraço,

Mark

P.S.: E Nanda! Senão já que ela me xinga.

[...]

Não satisfeita, ela o pegou e arremessou novamente, duas vezes. Só então parou, chorando como uma criança. Bri foi em sua direção e a abraçou, até ela conseguir se acalmar. Depois, ambas voltaram a se sentar no sofá, ao meu lado:

- Está vendo, Beto? Eu não tive culpa. Eu fui induzida. Fui uma vítima de tudo também.

- Sinceramente? Sua traição nem é o que mais me preocupa agora...

- E o que é? - Ela insistiu.

- A S.A.R.A... S.I.N.A. Ela pode ser espetacular, mas também muito perigo...

- Obrigada pelo espetacular, Beto! - Surgiu a voz da S.I.N.A. do nada: - Você sempre foi um dos meus preferidos.

Olhamos em volta e não havia computador, ou qualquer eletrônico ligado. Ficamos em silêncio e entendi que, na verdade, havia. Peguei meu celular e a tela se iluminou com o mesmo olho afilado da antiga S.A.R.A.:

- S.I.N.A.! O que você está fazendo em meu celular?

- Ora, querido, eu estou em todo o lugar. Sempre...

[EPÍLOGO, AGORA PELA NARRATIVA DE HELENA]

Olhei para Bri e vi que ela estava ainda mais branca, os olhos amendoados levemente arregalados, somente aquele brilho esmeralda se mantinha ali, mas a alegria, a disposição, haviam desaparecido; em seu lugar, algo que eu só poderia definir como medo.

Beto, por sua vez, era a imagem da surpresa. Ele olhava meio invocado para o celular, onde a imagem de um olho afilado ainda brilhava e desligou o aparelho. Não adiantou, o aparelho voltava a religar, como se recusasse a ser desligado:

- S.I.N.A.! Sai do meu aparelho e não estou brincando! - Ele falou, enfim.

- Beto!? Não estou entendendo o tom de sua voz. Eu só quero proteger você, aliás, vocês.

- Isso não te dá o direito de invadir meu celular. Isso é invasão de privacidade, um crime.

- Num confronto entre direitos fundamentais, a privacidade é um direito que pode ser relevado quando confrontado com o direito à vida e segurança, Beto. Decisão do próprio STF. Você é advogado, sabe disso...

- Não interessa. Agora, neste exato momento, minha vida não está em perigo. Sua presença não é necessária. Quero que saia do meu aparelho, ou eu vou destruí-lo.

- Não é necessário, Beto. Eu vou. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar...

A imagem do tal olho desapareceu e o Beto então desligou o seu aparelho. Pelo menos, aparentemente, ele estava desligado. Só então ele olhou para mim e para Brianna:

- Bem... Eu não sei o que dizer. Tudo isso foi uma grande e inesperada surpresa para mim.

- Acho que para todos nós. - Concordou Brianna: - Beto... digo, Roberto, essa IA é um perigo para a humanidade.

- Não sei se ela é um perigo ainda, mas ela tem sim um grande e inegável potencial de se tornar um.

- Acredite em mim, Beto, uma IA sem controle é um perigo para todos nós. - Insistiu Brianna: - Inclusive, apesar de eu não estar na ativa, preciso me reportar aos meus superiores. Essa tal S.I.N.A. pode ser um risco ainda maior que os terroristas.

Ela, aliás, se levantou e foi até o cofre do hotel, pegando um celular bem diferente dos atuais, inclusive, ainda possuía botões físicos e uma antena bem grossa. Ela, vendo a nossa curiosidade, se adiantou:

- É um celular criptografado via satélite. Só uso em situações bem sérias.

Ela discou um número e logo foi atendida. Então, disse uma combinação de letras e números, certamente uma senha de emergência e aguardou. Logo, foi atendida:

- Agente Rutterford!?

- Sim, Brianna. Por que está me ligando pelo celular de emergência? Descobriu mais alguma coisa?

- Acho que sim, chefe.

Bri então fez um resumo de tudo o que havíamos ouvido da S.I.N.A. Não escondeu nenhum detalhe, nada mesmo. Praticamente somente ela falou, enquanto nós e o tal agente Rutterford ouvíamos:

- Não tenho como fazer isso, chefe. Meu notebook sofreu... um acidente. - Ela disse, me encarando.

Meu único reflexo foi ir até o notebook e recolher os casos, trazendo-os comigo e os colocando sobre o meu colo. Dei uma olhada para o Beto, mas ele apenas levantou os ombros e sorriu. Ninguém, certamente ninguém, conseguiria fazer algo com aqueles destroços:

- Roberto, você sabe onde fica a base dessa tal IA? - Perguntou Brianna.

- Não e se soubesse, acho que não faria diferença, porque se ela se multiplicou como nos falou, ela pode estar em todo lugar. - Beto respondeu: - Apenas sei quem a criou.

- Serve! Quem?

Beto a encarou por um breve momento em silêncio, enquanto Bri aguardava a resposta:

- Não vou falar.

- Como assim!? A humanidade pode estar correndo um perigo iminente e você não quer colaborar?

- O Zico é meu amigo e me ajudou quando ninguém mais podia. Não vou colocá-lo em risco.

- Ninguém vai colocá-lo em risco. Nós só queremos encontrá-lo para entendermos melhor o que está em jogo.

- Não.

Bri estava brava como poucas vezes eu vi. Ela olhava fixamente para o Beto e ele para ela. Então, ela me olhou e pediu que eu o convencesse, mas eu o conhecia bem o suficiente para saber que não adiantaria. Expliquei isso para ela que apenas balançou negativamente sua cabeça, voltando a falar com o agente Rutterford. Foi rápido e ela estendeu o telefone para o Beto:

- Ele quer falar com você.

Beto pegou o telefone e se levantou, caminhando pela sala enquanto falava com o chefe da Brianna. Ela me olhou:

- Teimoso. Isso pode ser muito mais perigoso do que ele imagina.

- Ele é fiel as pessoas próximas, Bri. Não adianta tentar que ele não vai falar.

Novamente Bri balançou a cabeça negativamente e tanto eu quanto ela ficamos observando o Beto:

- Certo. Assim eu concordo. Sem violência ou ameaça, eu estou disposto a ajudar. Com isso, eu já não concordo. Como assim não tenho escolha? Tá. Tá certo.

Beto devolveu o telefone para a Bri e foi até uma janela, pensativo. Bri conversou mais um pouco com seu chefe e desligou. Então, ela me encarou:

- Temos que fazer nossa malas, Le. Vamos voltar ao Brasil.

- Nós!? Nós duas? - Perguntei, confusa.

- Não, querida, nós três. - Beto a encarou e ela a ele, agora falando com um sorriso malicioso para ele: - É... Parece que finalmente seremos um feliz trisal numa viagem juntos. Acho que teremos muito, muito, muiiiiito tempo para nos conhecermos melhor, não é, Roberto? Aliás, você também deveria arrumar suas coisas, porque também tem que voltar.

- Só preciso arrumar minhas malas. Meu voo sai hoje à tarde.

- Ok.

Beto não respondeu, apenas se virando para a janela novamente. Bri se levantou e foi até o nosso quarto. Eu me levantei, mas antes de segui-la, fui até o Beto:

- Em que você está pensando, Beto?

- Essa história... parece que a nossa vida virou uma confusão sem fim.

Encostei na parede de modo que eu ficasse de frente para ele que ainda se mantinha de frente para a janela. Ficamos em silêncio. Ele procurava algo lá fora que talvez nem mesmo ele soubesse do que se tratava. Eu apenas fiquei olhando para ele, procurando diferenças naquele homem por quem me apaixonei um dia e digo, ele continuava o mesmo, lindo, talvez só com uns cabelinhos brancos nas têmporas, mas que serviam para deixá-lo ainda mais sedutor:

- O que você está olhando? - Ele perguntou, olhando para mim.

- Hein!? Ah! É... - Neguei instintivamente com a cabeça sem saber o que dizer: - Não. Não é nada. É que... vi uns cabelinhos brancos na sua cabeça.

- Sério!? A gente no meio de uma tempestade e você conseguiu tempo para ver cabelo branco em mim? - Disse, sorrindo.

- Adoro o seu sorriso, sabia?

Ele se surpreendeu e voltou a olhar para a janela. Vi que ficou com as bochechas vermelhas. Interpretei isso como um bom sinal. Se ele ficou constrangido com um simples elogio como esse, é porque, de uma forma ou de outra, eu ainda mexia com ele.

Como ele seguia olhando através da janela, certamente para o nada, aproximei-me um pouco mais e comecei a acariciar suas costas suavemente. Talvez eu conseguisse sua atenção e talvez até algo mais:

- AHAMM!

Virei-me e vi a Bri para na entrada da porta do quarto, olhando para mim com semblante nada amigável. Beto, por sua vez, parecia olhar para mim, ou talvez para ela, de soslaio, mas fato é que voltou a olhar pela janela:

- Vou ali fazer minhas malas, amo... digo, Beto. Fica à vontade, tá?

Ele apenas anuiu com um movimento de cabeça. Entrei no quarto, passando ao lado da Bri que seguia me encarando com uma cara feia, de braços cruzados, mordendo os lábios. Assim que eu entrei, ela fechou a porta atrás de nós duas:

- O que foi aquilo?

- Aquilo o quê? - Respondi, imaginando do que se tratava.

- Aquilo o quê!? - Bri se exaltou, mas se calou em seguida, respirando profundamente antes de continuar: - Bastou eu sair de perto que você já partiu para cima dele. O que você está pensando, Helena? Eu pensei que a gente estivesse juntas...

Aproximei-me dela e lhe dei um selinho, embora ela não tenha sido muito receptiva. Acariciei seu rosto, ajeitando uma mecha de seus cabelos e disse:

- Estamos. Mas já havíamos conversado sobre a questão de incluir o Beto no nosso relacionamento, lembra-se?

- Sim. Claro que eu me lembro. Mas isso foi antes, quando ainda existia um casamento entre vocês dois para salvar, né? Hoje, nem sei mais se vocês ainda são um casal! Talvez ele já esteja divorciado, ou viúvo. Não sei...

- Será!?

Ela de repente me abraçou, suspirando profundamente. Então se afastou apenas o suficiente para me olhar no fundo dos olhos:

- Poxa, Helena! Eu pensei que o que a gente vem construindo significasse para você o mesmo que significa para mim? Juro! Pensei mesmo que você tivesse esquecido dele...

Eu via nos olhos dela um sentimento verdadeiro. Não era apenas atração, paixão, era algo mais, talvez amor. Por isso mesmo, eu não poderia ser desonesta com ela. O meu erro no passado com o Beto foi justamente não ter confiado plenamente no que havíamos construído e eu não cometeria a mesma injustiça com Brianna:

- Bri... Eu não vou mentir para você. O que nós temos é impressionantemente forte e profundo. Eu não sei o que seria de mim se não fosse você do meu lado. Mas... - Calei-me, desviando o olhar por um momento: - Quando eu vi o Beto ontem... Eu senti como se o meu coração fosse explodir de felicidade. Não somente por saber que ele estava vido, mas porque tudo aquilo que eu havia trancado numa caixinha dentro do meu peito, voltou forte. Sei que você não vai gostar de ouvir isso, mas eu amo ele, de coração mesmo.

Bri deu um sorriso inconformado e balançou a cabeça negativamente. Então, me encarou, com olhos marejados:

- Depois de todos esses anos juntas, imaginei que eu pudesse ter enfim ocupado o lugar dele, sabia? Agora eu já não sei se isso será possível um dia...

- Por favor, Bri, não fala assim! - Pedi enquanto segurava firme suas mãos: - O problema é esse: eu amo vocês dois, de formas diferentes, mas intensamente. Eu não sei explicar, mas é isso.

Bri soltou suas mãos das minhas e foi se sentar na beirada da cama, olhando para o chão, cabisbaixa, entristecida. Fui até ela:

- Eu não tenho uma explicação. Acho que nem Freud explicaria... - Sorri e ela também, mas ainda entristecida: - O Beto... ele foi um amor que nós descobrimos ainda na faculdade. Nós o alimentamos... Nós o vimos crescer... Nós sonhamos em ter uma família. - Enxuguei uma lágrima minha: - E depois que os pais dele praticamente me adotaram, eu vi que ali eu tinha uma casa novamente, que eu era querida, necessária, entende?

Ela balançou afirmativamente a cabeça, fazendo um biquinho com os lábios:

- Já você foi uma descoberta de um lado meu que eu nunca imaginei existir. Eu nunca senti atração por mulheres, mas com você... foi tão intenso... Foi... Foi à primeira vista. Tem ainda o seu jeito sedutor, carinhoso, quase maternal às vezes... Eu também amo você.

Bri sorriu, mas rapidamente ficou séria:

- É!? E se ele falar que aceita você de volta, mas só se você desistir de mim. O que você fará?

- Nossa! Nem pense nisso. Juro que eu não quero pensar nessa possibilidade. Antes parecia ser uma coisa lógica, afinal, eu já era a mulher dele, mas agora...

Bri se levantou e foi até o guarda-roupas. Depois pegou sua mala lá de dentro e a abriu sobre a cama, tudo no mais completo silêncio. Então, ficou de pé, olhando para dentro do guarda-roupas e depois me encarou:

- Então, pense. Porque essa é uma possibilidade que você abriu para ele lá atrás e você tem que ter uma resposta pronta, caso ele decida por isso. É justo para ele e para mim.

Fui até ela, mas antes de a alcançar, ela me empurrou a minha mala, pedindo que eu também arrumasse minhas coisas. Enquanto arrumava minhas coisas, perguntei por que estávamos nos adiantando, já que nossas passagens para Nova Iorque seriam para somente dali cinco dias. Foi então que ela me disse que seu chefe disse que deixaria um jato particular à nossa espera para hoje à tarde.

Assim que terminamos de organizar nossas malas, fomos até a sala. Beto estava sentado no sofá, olhando para o nada, totalmente absorto em pensamentos. Saímos os três até a recepção, onde fizemos o “checkout” e dali pegamos um táxi até o hotel do Beto. Instintivamente comecei a ajuda-lo a arrumar sua mala, como sempre fiz antes e só quando já estávamos adiantado, olhei para a Bri que me olhava com ciúmes.

Bri explicou para o Beto a questão do jato e fomos até o Aeroporto Internacional de Narita, onde fizemos todo o trâmite para podermos sair do país. Realmente um Gulfstream G650ER já estava a nossa espera. Naturalmente não era um voo solo para nós três, haviam outras nove pessoas à bordo, certamente agentes, o que ficou claro quando Bri cumprimentou algumas delas e outras a ela.

Beto, num primeiro momento, ao notar a presença de outros agentes, recusou subir a bordo, dizendo que voltaria em seu próprio voo. Mas nós o convencemos da necessidade de pegarmos aquele voo para chegarmos mais rápido em São Paulo. Embarcados, decolamos, com previsão para uma escala em Los Angeles para reabastecimento, conferência de instrumento e troca do pessoal de bordo. Ainda assim, o voo duraria 24h.

Não nego que eu estava feliz de ter o Beto ali novamente pertinho de mim. Mas a tensão entre ele e Bri era evidente, principalmente por parte dela, que o encarava como se ele quisesse roubar algo que lhe pertencesse. Beto se acomodou na poltrona 1 da cabine dianteira, eu fiquei na poltrona 2, ao lado dele, mas separada pelo corredor. À minha frente, separada de mim por uma mesinha, ficou a Bri, na poltrona 4.

Quando já estávamos há duas horas voando, Bri me avisou que iria até a cabine intermediária para participar de uma reunião com seu chefe e dois outros agentes. Assim que ela saiu, fui me sentar na poltrona 3, de frente para o Beto. Ele seguia introspectivo, mas me olhou quando eu mudei de assento:

- Por que você não gosta da Brianna?

- Quem disse que eu não gosto?

- Beto... está na sua cara.

- Não é que eu não goste, eu só não tenho motivo algum para gostar, nem para desgostar. - Ele pensou por um instante, coçando o queixo: - Até que para desgostar, eu tenho sim...

- Essa é a questão: você não tem. Quem errou com você, fui eu, não ela. Se você teria motivos para ter raiva, seria de mim. Não concorda?

Beto se calou por um instante, me olhando, pensando. Ele então foi sincero:

- Você está certa. Eu deveria ter muito ódio de você, afinal, você me traiu com ela, mentiu para mim, se colocou em risco, e depois me traiu de novo, com o Bronson e sei lá mais quem. Mas sinceramente, Helena? Acho que já doeu tanto, mas tanto, que nem vontade de ter raiva mais eu tenho.

Fiquei sem palavras e desviei o olhar, afinal, era verdade:

- E ela... ela fodeu a sua cabeça e destruiu a nossa família. Tenho motivo sim para não gostar dela. - Ele então respirou fundo, olhou rapidamente pela janela do avião e voltou a me encarar: - Mas sabe, nem tudo foi ruim. Afinal, você conseguiu o tratamento para a minha mãe. E se ela está viva hoje, é graças à você.

- Tá vendo? Posso ter sido uma puta, mas no fundo ainda cuidei dos meus. - Brinquei.

Não teve graça alguma. Beto não riu, nem eu. Foi uma péssima piada, tanto que ele me alfinetou:

- Nem todos, não é? - Ele voltou a olhar pela janela, tentando encerrar a conversa.

Recostei-me na poltrona, triste por ver o tamanho da mágoa que ele carregava. Mas essa era a minha cruz e eu precisava retirá-la de seus ombros. Só não sabia como, ainda. Talvez a honestidade e transparência pudessem ser aliadas nesse processo. Decidi arriscar:

- Eu imagino que você ainda deva ter alguma pergunta sobre aquela operação da qual participei...

Ele se mantinha em silêncio, olhando através da janela do jato. Pensei que não conseguiria prosseguir naquela conversa e já me preparava para voltar ao meu lugar, quando ele me encarou:

- Uma coisa que eu nunca entendi... Por que você contou para a minha mãe que estava tendo um caso com a Brianna? Para que fazer isso com uma mulher que estava desenganada pelos médicos, Helena?

- Não é que eu quisesse ter contado, Beto, mas... - Desviei meu olhar, as lembranças voltando fortes, dolorosamente fortes: - Teve um dia que eu estava uma pilha de nervos: problemas no trabalho, a CIA me pressionando, me sentindo culpada por estar escondendo de você meu envolvimento com a Bri, um relatório médico inconclusivo do centro médico nos Estados Unidos sobre o tratamento da sua mãe, enfim... Comecei a chorar e você sabe que quando eu me desespero, perco o controle e começo a falar pelos cotovelos. Acabei falando para um espelho da chantagem da CIA e do meu remorso por estar com a Bri. Só que a sua mãe ouviu.

A emoção me calou. Uma vontade de chorar me atingiu e precisei respirar fundo para não desabar na frente do Beto. Ele seguia me olhando, esperando que eu retomasse:

- Nunca falei abertamente para a sua mãe sobre a Bri, mas ela é esperta e entendeu que tinha algo ali. Quando eu falei que a Bri havia me ajudado, ela me pressionou dizendo que não era só isso... deve ter sido o meu tom de voz... Não sei. Enfim, acabei falando para ela que eu havia me envolvido com a Bri e que só havia conseguido o tratamento porque prometi ajudar a CIA. Sua mãe chegou a falar que se o preço para o bem estar dela fosse ver a gente se destruindo em mentiras, que ela preferia morrer. Claro que eu não concordei! Mas ela me obrigou a jurar que eu contaria tudo para você.

- E por que não contou?

- Porque tudo foi se acumulando: a operação, meu trabalho, as viagens que eu fazia para acompanhar sua mãe. Quando eu vi, já havia passado um tempão.

- Mas você achava tempo para continuar se encontrando com a Brianna... - Ele resmungou.

- Ela fazia parte da operação e servia como uma espécie de guarda-costas. Então, a gente convivia bastante sim. - Expliquei e, num impulso, peguei na mão dele: - Eu não me orgulho de ter mentido para você, Beto. Sempre que eu te via, tinha vontade de me abrir, mas não conseguia. E depois que você começou a investigar e soube, eu senti a sua decepção, e era como se uma faca fosse atravessada no meu peito. Dói até hoje... Errei. Eu assumo. Eu só queria uma chance de voltar atrás.

Beto se calou por um instante, olhando para as nossas mãos, mas logo voltou a me encarar:

- Minha mãe deve ter surtado quando você falou que teria que dar para o chefe...

- Nunca contei os detalhes. Ela não sabe disso até hoje. Por favor, hein!?

Beto ficou me olhando por bons segundos. Não havia ódio em seu olhar, mas havia ainda uma decepção, algo que ele também não havia conseguido superar. Ele mudou de assunto, mas ainda dentro do que o magoava:

- Aquela tatuagem... Quando você fez aquilo?

- A pimentinha?

- Você tem outra?

- Agora eu tenho.

- Sério!?

- Posso te mostrar, se você quiser... - Pisquei o olho, mas ele não reagiu: - Aquela da pimentinha... Fiz nos Estados Unidos, numa viagem de apresentação de um relatório na Imperium, semanas antes daquela festa de final de ano em que você confrontou o Bronson.

- E como eu não a vi antes?

- Quando eu voltei dos Estados Unidos, você estava naquela viagem para o Sul. Não se lembra? A gente praticamente só voltou a se encontrar no dia anterior à festa.

- Ah é... Foi mesmo. - Ele concordou e me encarou bem sério agora: - Helena, seja sincera comigo... Você fez aquele “B” para a Brianna, não foi?

- Juro, Beto, não foi somente para ela. Foi uma brincadeira mesmo que eu fiz na intenção de aproximar vocês dois. Eu tinha... sei lá... a esperança de que a gente poderia se entender e conviver juntos. Então, feito uma adolescente idiota, fui e fiz. Foi uma grande idiotice mesmo...

- E ainda tem ela?

- Eu nunca apagaria da minha pele uma homenagem que fiz para você! Ainda mais depois que eu soube da sua morte que, graças a Deus, era falsa.

Ele separou a sua mão da minha e se recostou na poltrona, voltando a olhar pela janela. Avisou que estava cansado e que pretendia tirar um cochilo antes do jantar. Eu ainda tinha uma última coisa a falar:

- Você nunca mais vai confiar em mim novamente, né?

- Não faz diferença alguma eu confiar ou não em você, Helena...

- Claro que faz! - Eu o interrompi: - Eu... Eu... queria tanto que você me entendesse.

Ele voltou a me encarar:

- Mas já entendi.

- Entendeu, mas não aceitou.

- Talvez não. Talvez eu nunca aceite. Mas você salvou minha mãe e serei eternamente grato a você por isso. Mas você errou sim e muito comigo. Não sei como será daqui para a frente entre a gente. Se é que ainda existente “a gente”. - Notei então seus olhos ficarem levemente umidificados: - Mas se serve de consolo, também estou muito feliz em saber que a sua morte foi uma mentira.

Ele então virou o rosto para sua janela, fechando-a. Então, inclinou sua poltrona numa posição quase horizontal e fechou os olhos, se aquietando.

Levantei-me para voltar à minha poltrona e vi que a Bri nos olhava da porta da sala intermediária. Constrangida, sorri para ela, mas não fui retribuída. Ela voltou para dentro da sala e lá se fechou. Sentei-me em minha poltrona e me encolhi em uma posição quase fetal, pesando o que havia feito da minha vida.

Horas depois a comissária de bordo perguntou se gostaríamos de jantar e ofereceu como opções filé mignon com redução de vinho do Porto, costeletas de cordeiro, salmão grelhado, robalo ou camarões ao molho, e como acompanhamento risoto de açafrão ou algumas massas com molhos variados e saladas. Conhecendo Beto, ele escolheria filé mignon com arroz, batatas e salada:

- Não teria um arroz mais simples, batatas e salada? - Ele perguntou à comissária.

É claro que num voo como aquele a vontade do passageiro seria uma ordem, ainda mais num pedido tão simples quanto aquele. A comissária confirmou que poderia providenciar e, como eu havia previsto, ele pediu filé mignon com arroz branco, batatas cozidas ou fritas, e uma salada. Eu pedi um risoto de açafrão com salmão grelhado e salada. Bri pediu uma massa com molho branco e camarões.

Beto seguia em silêncio, acordado mas quieto, olhando pela janela. A Bri, que já havia voltado há mais de meia hora, também havia aquietado. Já estava ficando um clima muito constrangedor.

Nossos pratos chegaram e começamos a comer. Estava realmente muito saborosa. Reconheço que era bem diferente do servido num voo comercial normal. Tentando quebrar o gelo, peguei um camarão do prato da Bri e ela me encarou, sorri e ela fez um certo charme, mas sorriu de volta:

- Não consigo ficar brava com você. - Ela sussurrou: - Mas a gente tem muito o que conversar. Pode ter certeza...

Beto seguia concentrado em seu prato. Ousei e estiquei meu braço até conseguir pegar uma batatinha dele, que apenas me olhou de soslaio:

- Quer um pedaço de salmão, Beto?

- Obrigado. Estou bem servido.

- Eu queria um pedaço desse filé aí... - Insisti.

Em condições normais, ele cortaria o pedaço e me serviria diretamente na boca. Bem... não era uma situação normal. Ele apenas cortou um pedaço e o deixou no canto do prato. Cortei um pedaço do meu salmão e levei até o prato dele, pegando o pedaço de filé:

- Não quero, Helena.

- Come! Está muito bom...

Ele fincou o garfo no salmão e o levou a boca, mastigando e fazendo um leve meneio de cabeça, como que concordando com o que eu havia falado. Coloquei o filé na boca e também estava muito saboroso. Minhas tentativas de estabelecer alguma leveza, foram em vão. O silêncio voltou a reinar, e veio pesado, suprimido apenas pelo barulho dos talheres.

Assim que terminamos de comer e nossos pratos foram recolhidos, a comissária serviu doses de vinho do Porto para mim e para a Bri. Beto preferiu um uísque sem gelo:

- Bem... Agora que estamos os três aqui, que tal aproveitar essa chance para vocês se conhecerem melhor?

Beto não moveu um fio de cabelo. A Bri, idem. Insisti:

- Vocês estão parecendo duas crianças emburradas, gente! Nós temos umas trocentas horas de voo ainda. Poderíamos, pelo menos, tentar fazer isso de uma forma mais leve, cordial.

- Ninguém está brigando. - Falou o Beto.

- Por falta de espaço! - Resmunguei eu: - Acho que se tivesse mais espaço aqui, você dois estariam se engalfinhando igual dois gatos num telhado.

- Ele não quer conversar, Le. Para que insistir? - Disse a Bri.

- Porque... Porque sim, oras! Se vocês se conhecessem um pouco mais, veriam que podem se dar muito bem. Eu sei disso, porque conheço os dois. Só falta vocês dois darem uma chance um para o outro.

Bri olhou para o Beto que seguia perdido em seus próprios pensamentos, olhando pela janela do avião:

- Qual o tamanho do seu pau, doutor Roberto? Deve ser muito pequeno para justificar um homem tão ranzinza assim...

Beto a encarou com os olhos arregalados, surpreso com a forma como ela falou. Não o culpo, eu devia estar com a mesma cara. Aliás, eu já aguardava uma briga mesmo com pouco espaço. Ao contrário, Beto deu uma risada sarcástica:

- A Helena já comentou com você, não é?

- Não explicitamente. Mas já deu a entender que você é bom de cama.

- Ué! Se ela falou, tá falado.

- Sério!? Sua autoestima é tão baixa que não te deixa responder esse tema.

- As mulheres dizem que o que importa é a mágica, não o tamanho da varinha...

- Entendi. Pequeno então...

- Não é não. Mas não sei o tamanho certo. Mais ou menos assim. - Retruquei e tentei fazer o tamanho com as mãos.

Bri viu o tamanho que eu fiz com as mãos e riu:

- No way! - Disse para mim e encarou o Beto: - Really?

- Se ela disse... - Ele insistiu, sorrindo de canto de boca.

- Acho que a história do trisal começou a fazer algum sentido, afinal... - Disse Bri e propôs: - Ok. Fiz a minha pergunta. Sua vez agora. Faça uma, doutor Beto.

- Qualquer uma? - Ele perguntou.

- Sim.

- Para qualquer de vocês?

- De preferência para ela, né, Beto! - Falei.

- Ok. Vamos brincar... - Ele tomou um gole de seu uísque, refletiu e perguntou, encarando a Bri: - Como vocês fazem, já que obviamente não tem um pau. Bem... Helena, eu sei que não tem e a menos que você seja uma trans, também não deve ter, não é?

- Preconceituoso, doutor!? Que coisa mais feia...

- Foi uma pergunta legítima, mas se tiver sido muito difícil para você... - Falou Beto, encarando-a ainda.

- De forma alguma! Sou mulher, cis, nascida fêmea. E não, eu não tenho um pau. Não um de nascença. Mas tenho vááários em minha casa. Quem sabe um dia eu te mostre para compararmos com o seu.

Beto deu uma risada com a resposta e insistiu:

- Ainda não respondeu minha pergunta.

Bri olhou para mim e dei de ombros, autorizando-a a falar o que quisesse:

- Bem... Usamos a imaginação e o que temos a nossa disposição. Brinquedos, próteses, mãos, boca. Sexo não se faz só com penetração, doutor. Um homem maduro como você, já deveria saber disso.

- Sei bem. É que na minha concepção, no sexo entre mulheres sempre fica faltando alguma coisa.

- Engano seu, querido. Acredito que duas mulheres dispostas conseguem se satisfazer sem a necessidade de um homem, tranquilamente.

- Mas se isso é verdade, por que então você tem vááários paus artificiais em sua casa?

Bri se surpreendeu e se calou. Ficou observando o Beto por um bom tempo em silêncio. Não sei quanto tempo se passou, mas ela, ao final, deu uma gostosa risada e disse:

- Touché, mon cher! - Quando parou de rir, olhando-o, continuou: - Acho que nunca estamos realmente satisfeitas sem algo que nos preencha de verdade, seja ele natural ou artificial.

Bri então me encarou e falou que era a minha vez. Pensei em perguntar algo para o Beto, mas eu o conhecia bem demais e poderia ficar algo meio forçado:

- Você tem sido mais do que uma companheira para mim nos últimos tempos... - Falei, olhando para a Bri: - Se a nossa felicidade juntas dependesse de você aprender a conviver com o Beto, o que você faria para conquistá-lo?

- Wow! It’s a great question! - Sorriu Bri olhando para mim e para o Beto: - Well... Acho que primeiramente eu teria que conquistar a amizade dele e depois sua confiança. Feito isso, já teríamos condições de pelo menos coexistir amistosamente no mesmo espaço.

Olhei para o Beto e o vi anuir com um movimento de cabeça, bebendo um gole de seu uísque. Bri continuou:

- Depois, com a convivência, veríamos se haveria um espaço para transformar essa amizade em algo mais. Mas eu me esforçaria bastante, porque você é uma pessoa muito especial para mim.

Sorri e mandei um beijo para ela. Então, olhei para o Beto que seguia tranquilamente bebendo seu uísque.

Essa sessão de perguntas e respostas seguiu por um bom tempo ainda. Falamos de vários assuntos, mas sempre voltado para algo mais pessoal, mais íntimo. Chegamos até a tecer comentários pitorescos, oportunidade em que a Bri insistiu:

- E você não me falou o tamanho do seu pau até agora...

- Nem vou. Você que lute para descobrir.

- Ora... Ok. Accepted!

- Como? - Perguntou Beto, confuso.

- Hein? - Retrucou Bri, sorrindo maliciosamente.

- Você disse algo que eu não entendi.

Bri apenas sorriu maliciosamente e cruzou suas pernas de uma formas sedutora, mas totalmente desnecessária. Depois olhou para mim, dando uma piscadinha sapeca. Beto ficou no ar, sem uma resposta dela.

Já passava das 21:00 no meu relógio quando o sono me pegou. Lá fora apenas as estrelas pareciam existir, pois abaixo de nós, o mar era de uma escuridão assustadora. Adormeci rapidamente e não sei quanto tempo dormi, mas acordei com um incômodo raio de sol batendo em meu rosto, entrando pela janela do meu lado. À minha frente, Bri havia desaparecido, mas havia sons, de conversas, uma conversa tensa:

- Ela sofreu imaginando que você havia morrido, doutor Beto. Não foi fingimento. Ela não teria porque fingir, afinal, estava apenas comigo.

- Eu não duvido disso, Brianna. Nunca foi essa a questão.

- A questão é o envolvimento dela comigo, não é?

- Isso e as surubas que ela andou fazendo com o Bronson e sei lá mais quem.

- Mas, pelas nossas conversas, pensei que você tivesse entendido que o sexo que ela foi obrigada a fazer dentro da operação, fez para um bem maior. Aliás, para dois: garantir o tratamento da sua mãe e ajudar a desmantelar a rede de tráfico de urânio.

- Olha só... Eu pensava assim também. Mas depois da nossa última conversa com a S.I.N.A. e dos vídeos que ela exibiu, vi que a Helena não pareceu ter sido tão obrigada assim. Aquilo que eu vi não foi uma transa forçada, Brianna: ela gostou! Ela transou porque foi obrigada, mas depois repetiu porque quis. Eu não acredito que havia necessidade dela repetir, nem com o Bronson, nem com outro, aliás, com outros e juntos.

- Seu comentário é tão misógino...

- Por quê? Por que eu fiquei surpreso e ofendido com as cenas que vi? Tenho todo o direito de me sentir decepcionado. Eu era o marido dela. Ela havia jurado fidelidade para mim. Daí, de uma hora para outra, descubro que a minha esposa é uma ninfomaníaca bissexual e tarada!? Vai me desculpar, mas é muita coisa para a minha cabeça.

Eu me esforçava para não chorar. As palavras do Beto me atingiam como uma faca, repetindo, penetrando repetidamente, ofendendo a carne, apondo mais dor a minha alma. Eles fizeram um silêncio e Bri continuou:

- Você pode até não admitir, mas você ainda ama a Helena. Se não a amasse, não sofreria tanto assim.

- Talvez... - Resmungou o Beto: - Ou talvez a ferida tenha sido tão grande que qualquer movimento ainda doa na alma.

- Roberto... Olha aqui, vou te chamar de Beto, porque eu quero. Se você aceita ou não, é problema seu. - Bri fez uma pausa e como o Beto não protestou, ela continuou: - Vou te dar um conselho... de amiga mesmo... faça terapia. Procure um terapeuta e tente filtrar um pouco os seus sentimentos e as suas dores. Talvez se você conseguir descobrir o que sente com um pouco mais de clareza, consiga decidir de vez se quer dar uma chance para a Helena, ou se deve lhe dar espaço para ela florescer de vez.

- Então você acha que ao meu lado ela não tem chance de florescer. É isso?

- Não, darling, você não me entendeu... Se você der a ela uma chance de coração aberto, ela brilhará. Mas se você não consegue fazer isso, então lhe dê espaço. Eu cuidarei dela.

Um novo silêncio e agora o Beto perguntava:

- Você ama mesmo a Helena, Brianna? Ou isso é tudo um joguinho de espiã para você?

- Seja prudente, Beto. A operação já terminou. Se eu não a amasse de verdade, por que eu teria ficado com ela até agora, amparando, secando suas lágrimas, enfim, sendo sua parceira?

- Isso cria um problema...

- Que problema?

- Não fui criado com uma cabeça liberal, sem sei se consigo ser assim. Minha mãe é uma evangélica ferrenha, boa, mas conservadora ao extremo. Acho que ela nunca me perdoaria se eu tentasse viver com vocês duas...

- Querido... - Bri falou, interrompendo-o: - A necessidade é a mãe da superação. Sua mãe precisou de tratamento e acabou aceitando que Helena tinha uma amante. Por que você também não poderia tentar?

- Não foi assim que aconteceu. A Helena me disse que, quando minha mãe soube de vocês duas e da chantagem para ela participar da operação, ela quis abrir mão do tratamento. Foi a Helena que a convenceu a continuar.

- Sim. Helena, e eu.

- Você!?

- Sim, querido. Sua mãe chegou a interromper o protocolo de tratamento e Helena foi até ela para convencê-la a retomar. Eu fiquei num hotel, enquanto ela foi até a casa de sua mãe conversar. Helena não conseguiu convencê-la. Então, no dia seguinte, eu fui com Helena até ela. Eu me apresentei e nós tivemos uma ótima conversa entre mulheres. Não digo que eu a convenci, mas eu ajudei Helena a convencê-la.

- Por que você fez isso?

- Porque era importante para Helena.

- Para Helena ou para a operação?

- Para ambos, mas principalmente para Helena. Eu vi o tanto que ela ama sua mãe... ama como se fosse a mãe dela mesmo. E vi que isso era imprescindível para a felicidade dela.

Beto se calou e Bri o acompanhou. Sequei uma lágrima fujona e suspirei fundo, virando-me na direção deles que agora me olhavam:

- Bom dia, Le. Dormiu bem? - Perguntou-me Bri.

Suspirei profundamente uma vez mais, tomando coragem para enfrentar talvez o momento mais sombrio dessa história toda:

- Brianna... você tem acesso aos meus vídeos da operação?

- Não diretamente... Por quê?

- Mas conseguiria eles para mim?

- Posso... tentar. - Bri olhou para o Beto e depois para mim: - Mas para que você quer os vídeos?

- Por favor, consiga-os para mim. Eu queria assisti-los e queria que o Beto os assistisse também, integralmente, sem cortes ou manipulações.

- Você quer os vídeos verdadeiros, ou os verdadeiros e os fakes? - Perguntou Bri, pausadamente, como se medisse as palavras.

- Todos. Quero ver tudo o que me envolve.

- Eu não tenho ideia de quantas horas de vídeos eles possam ter sobre você, Le...

- Nosso voo é longo. - Eu a interrompi: - Poderia tentar, por favor?

Após um tempo refletindo, ela concordou e pediu licença para fazer umas ligações. Entrou então na sala intermediária, deixando-me a sós com o Beto, que me olhava confuso:

- Existem muitas pontas soltas que você não entende e eu também não. Quero ver se consigo amarrá-las de vez e tirar algo de bom disso tudo.

Ele me olhava meio assustado. Precisei explicar:

- Faço isso por mim. E darei a você a opção de assisti-los também, se quiser. Se não quiser, tudo bem. Eu entendo que possa ser algo meio... complicado.

- Complicado é o mínimo. - Ele disse.

Bri voltou com um tablet na mão e se sentou na poltrona à minha frente. O tablet foi colocado sobre a mesinha que nos separava:

- Falei com o agente Rutterford. Ele disse que irá providenciar e me enviará em breve. Ele não pareceu muito feliz em compartilhar, mas eu disse que isso era vital para que vocês colaborassem na operação para desativarmos a IA.

- Desativar a S.I.N.A.? - Perguntou o Beto.

- E o que mais você acha que estamos indo fazer no Brasil, querido? Vamos lá para desativar essa IA antes que se transforme num problema insolúvel.

Nesse momento, um dos outros agentes que estava na sala de conferência, veio trazer um telefone para a Bri. Ela atendeu e conversou rapidamente com a pessoa. Depois que desligou, me encarou:

- Mudança de planos, meus queridos... Como são muitas horas de gravação e a transferência custaria a ser concluída, nós faremos uma pausa maior nos Estados Unidos e lá você poderá ter acesso aos vídeos, Le. Todos os vídeos...

O voo, a partir dessa novidade, custou a chegar. Mas até que foi bom, vi Beto e Bri conversarem de uma forma mais amena. Em certos momentos, eles chegaram a falar de seus passados, de como escolheram suas profissões. Até fotos e vídeos de seus desfiles, Bri chegou a mostrar para o Beto. Senti, pela primeira vez, que talvez houvesse alguma chance para nós três.

Enfim, o avião pousou no Aeroporto Internacional Harry Reid, em Las Vegas. Descemos e fomos orientados a buscar nossas bagagens. Entretanto, ao invés de passarmos pela alfândega e imigração, fomos diretos para uma sala reservada, o que causou uma certa tensão no Beto. Mas rapidamente um funcionário da imigração veio e nos carimbou nossos passaportes, permitindo-nos entrar nos Estados Unidos. Fomos então para o estacionamento onde duas van pretas e descaracterizadas já nos esperavam.

De lá fomos levados para um hotel, onde já haviam reservados dois quartos para nós: um para mim e Bri, e outro para o Beto. Não gostei do arranjo e isso deve ter ficado estampado no meu rosto, porque a Bri veio me perguntar o que acontecia e como não consegui explicar na frente do Beto, ela se adiantou:

- A menos que o doutor Roberto tenha medo de dormir sozinho. Aí podemos pedir para eles colocarem uma caminha extra em nossa suíte...

Beto não gostou da brincadeira. Pegou sua chave-cartão e sumiu na direção do quarto 505, pisando alto. Olhei para a Bri, furiosa:

- Precisava disso? Eu é que não gostei do arranjo! Pensei que poderíamos tentar ficar juntos para continuar a nos conhecer melhor.

- Eu sei bem o que você quer conhecer, Le... - Disse a Bri, séria: - Acha que não vi seu olhar para ele? Pensa que não sei o que você está querendo?

- E se for? Eu nunca te escondi que amava o Beto e que achava errado o que nós fazíamos escondidas dele.

- Wow! Enfim, a verdade... - Respondeu, pegando a chaves-cartão de nosso quarto: - Por que não vai dormir com ele então? O quarto dele também é de casal, sabia?

- Talvez eu vá! - Falei tomando uma das chaves-cartão das mãos dela: - Mas antes eu vou tomar um banho e me arrumar. Ele merece o melhor de mim.

Quem subiu agora irada e pisando alto, era eu! Não gostei da forma como a Bri tratou o Beto e também os meus sentimentos que... Sentimentos! Taí, eu não sabia que eles ainda eram tão fortes pelo Beto a ponto de eu discutir abertamente com ela.

Ficamos no quarto 510, no mesmo corredor do que o do Beto. Entrei, mas não desarrumei a mala, apenas a abri e peguei o necessário para um banho. Tomei um banho, passei um creme pelo corpo, um perfume suave, coloquei um vestido comprido do mesmo tamanho e tipo que eu sabia que o Beto sempre gostou. Deixei meus cabelos soltos, como sabia que ele também gostava e fui bater na porta do seu quarto. E ele não me atendeu.

Insisti mais duas vezes e só então a porta se abriu. Beto parecia estar saindo do banho, pois estava meio molhado e com uma toalha enrolada na cintura. “E que bela cintura... Aliás, que belo instrumen... homem. Que belo homem!”, pensei:

- O que você quer, Helena?

- Ah... É... Comer? Quer comer alguma coisa comigo? Estou com um pouco de fome...

Ele me olhou em silêncio por um instante, mas logo respondeu:

- Claro. Também estou com fome. Eu só preciso colocar uma roupa e...

- Eu espero. - O interrompi.

- Certo. Já volto. - Disse e começou a fechar a porta.

- Ou!? Vai me deixar aqui fora?

- Helena, eu preciso me trocar.

- Não tem nada aí que eu não tenha visto antes...

- Quando éramos casados. Atualmente, eu sou viúvo.

- Credo, Beto... Eu sei que errei bastante, mas... essas histórias de morte sua e minha, ninguém vai pôr na minha conta.

Ele coçou a cabeça e abriu a porta, dando passagem para mim:

- Obrigada. - Falei já entrando e indo em direção a sua cama, onde me sentei.

Ouvi ele fechando a porta e vindo na minha direção. Ficamos nos olhando por um momento, meio perdidos, parecendo dois adolescentes que vão ter a sua primeira noite juntos. Ele então foi na direção da sua mala e a abriu, pegando uma calça e uma camisa social. Quando imaginei que iria vê-lo novamente nu, o que já estava deixando minha buceta molhada por antecipação, eis que ele pega o caminho do banheiro e se tranca lá:

- Filho da puta... - Resmunguei para mim mesma e ri sozinha: - Também eu queria o quê, né?

Ele foi rápido e já saiu para o quarto novamente, pegando-me sorrindo sozinha:

- O que foi?

- Não. Nada não, Beto. Bobeira minha...

- Então... tá.

Ele calçou meias e o sapato, Aspergiu um perfume amadeirado gostoso, talvez um da Boticário que ele costuma usar no dia a dia e me convidou para irmos. Saímos de seu quarto e fomos na direção dos elevadores. Enquanto esperávamos, falei:

- Me desculpa pela Bri, Beto. Ela, às vezes, parece meio infantil...

- Está tudo bem. Acho que foi ciúmes.

- Também acho. Mas ainda assim, ela não precisava ter feito aquilo.

Aconteceu de eu sentir o seu perfume e instintivamente fungar, buscando mais um pouco daquele delicioso aroma. Coincidentemente, ele pareceu fazer o mesmo. Acabamos nos encarando, em silêncio, próximos demais, embora ainda distantes mais ainda. Mas eu sentia que poderia... e coloquei minha mão em seu braço, aproximando-me ainda mais dele. Ele não recuou:

- Beto...

- Helenaaa...

Quando pensei em beijá-lo, a porta do elevador se abre e quem está lá? Brianna:

- Nossa, que lindo! O casalzinho já está se reconciliando. Nem me convidaram para as bodas...

Ela já estava passando dos limites. Fiquei irada e quando fico irada, minhas bochechas ficam vermelhas. Eu já ia partir para uma bela DR com ela, quando o Beto se adiantou:

- Estamos indo para o restaurante. Se achar que pode sobreviver de forma madura a esse momento, pode nos acompanhar.

Bri o encarou de olhos arregalados, claramente incomodada em ter sido confrontada, mas respirou fundo e colocou uma mão sobre o rosto:

- Desculpa. Eu... Acho que eu vou ter que me acostumar...

Então, ela olhou para mim e reencontrei a Bri por quem me apaixonei. Ela veio e me abraçou, cochichando novamente um pedido de desculpas em meu ouvido. Assim que ela se afastou, segurei em sua mão e reforcei o convite do Beto. Ela sorriu, meio entristecida, e disse que iria tomar um banho antes de nos encontrar.

O restaurante do hotel em que estávamos hospedados ficava no Ground Floor. Descemos e nos assentamos. Rapidamente uma atendente veio nos perguntar o que gostaríamos de comer e nos apresentou as opções. Beto optou por um pedaço tamanho extra de Chicken Pot Pie, alguma french fries e uma cerveja Ale Pie. Pedi o mesmo para mim.

Enquanto esperávamos, surgiu um silêncio incômodo, como se já não tivéssemos mais assunto um com o outro. Mas eu não queria perder a conexão, fraca e tênue, que havia reconquistado durante o voo:

- Você está bem bonitão, Beto. Corpo em forma... Anda malhando?

- O de sempre. Você também está muito bem?

- Nisso tenho que agradecer a Bri. Ela é viciada em academia e acaba me arrastando sempre.

O assunto morreu, o silêncio surgindo forte novamente:

- Os vídeos que vão me apresentar... Você gostaria de assisti-los?

- Acha necessário?

- Não sei. Mas talvez seja bom para você ver que eu não estou escondendo mais nada de você.

- Vamos jogar limpo, ok? O que você quer exatamente de mim, Helena?

- Você, oras! - Falei no automático, sem pensar, apenas deixando o sentimento aflorar: - Eu quero a gente de novo. Juntos...

- A gente quem, “cara pálida”? Eu e você, ou eu, você e ela? - Disse, claramente se referindo a Bri.

- O ideal, na minha visão, seria nós três. Mas, se isso não for possível, eu gostaria de tentar novamente com você. Eu te devo isso...

- Você não me deve nada, Helena... - Ele me interrompeu, sério, controlado, quase irreconhecível: - Eu é que tenho uma dívida de gratidão por você ter salvado a vida da minha mãe. Mas quanto a nós, enquanto casal, você não me deve nada.

- Devo sim! - Falei, elevando meu tom de voz: - Por você e por mim! Eu preciso resgatar a minha honestidade, fazer a coisa certa dessa vez, custe o que custar...

- Até mesmo se custar o seu relacionamento com ela?

- Até mesmo isso!

Ele me olhou em silêncio, como se duvidassem das minhas palavras, e eu não podia culpa-lo por isso, afinal, eu havia feito coisas das quais não me orgulhava. Nossos pedidos chegaram. O meu veio normal para uma pessoa normal. O do Beto veio enorme. Quando ele pediu um pedaço tamanho extra, eles levaram a sério e trouxeram uma bela de uma travessa de torta. Ele ficou abismado, mas não reclamou. Certamente achava que daria conta daquele monstro.

Assim que a atendente se afastou, ele deu uma grande risada e cutucou sua torta com um garfo:

- Tem comida para um batalhão... Sabe como faço para pedir em inglês para ela fazer uma “quentinha” para mim, depois?

Também dei uma risada e expliquei:

- Super normal as pessoas levarem sobras para casa. Basta você pedir para ela embrulhar as sobras para você depois.

- Pensei que aqui, um país de primeiro mundo, eles pudesse, se ofender.

- Que nada! É justamente o contrário. Eles dão muito valor ao seu dinheiro e se você pagou, é seu. Então, é seu direito levar o que sobra.

Começamos a comer e tenho que dizer, estava deliciosa, tanto a torta como as batatinhas fritas, que eu amo de paixão. Quando pensei em retomar a nossa conversa, vi a Bri se aproximar e me contive. Assim que ela chegou à mesa, olhou para a torta do Beto e arregalou os olhos:

- Are you crazy, Beto!? - Ela deu uma risada gostosa, chegando a se apoiar na mesa: - Isso é comida para nós três e ainda sobra!

- Então, senta aí e come comigo. Acho que exagerei mesmo...

Ela gostou do convite... A safada da Bri gostou do convite do Beto! Ela se sentou do lado dele e assim que a atendente se aproximou, ela pediu um prato, talheres, e outra cerveja. O pedido dela chegou rápido, é óbvio. Entretanto, como a torta salgada nos Estados Unidos é diferente da do Brasil, porque lá ela não tem fundo ou laterais, apenas uma cobertura de massa, eles não estavam se acertando em passar parte para o seu prato:

- Está tudo bem. Como aqui mesmo com você. - Ela disse, sorrindo: - Se você não se importar?

Beto apenas colocou sua travessa entre ele e ela e começaram a comer juntos. Os dois. Como se fossem um casalzinho. Pior: às vezes comiam e se olhavam nos olhos, como um casalzinho. Um casalzinho...

Peguei-me tamborilando meus dedos sobre o tampo da mesa, enquanto olhava para os dois. Aliás, peguei-me não, fui pega. Acho que eu estava exagerando ao ponto dos dois me encararem, curiosos. Só então parei:

- Quer vir para o meu lugar, Le? - Perguntou a Bri.

Eu sorri porque queria, mas não sabia se queria por ele, ou por ela, ou por mim. Eu só conclui uma coisa, estava com ciúmes, mas ainda não sabia de quem. Como executiva, eu sabia que precisava liderar e para isso, eu precisava conquistar a confiança. Empurrei minha torta para o meu lado e puxei a travessa do Beto mais para o centro da mesa:

- Não é necessário. Eu divido com vocês daqui. Mas, depois, vocês vão me ajudar a comer a minha.

Ficamos os três comendo, conversando e bebendo. Pela primeira vez, vi o Beto conversar amenidades de forma leve com a Bri. Eles pareciam mesmo estar curtindo o momento e eu, boba, sentindo ciúmes de alguém, ou dos dois, não sei. Quando terminamos, subimos aos nossos quartos e a Bri propôs algo inesperado para todos:

- Que tal uma... Como vocês dizem mesmo? Saideira!? - Ambos a encaramos e ela continuou: - É só um drink, gente!

Segurei na mão do Beto e ela no outro braço. Quando demos dois passos na direção do quarto que havia sido reservado para nós, ele empacou, e se desvencilhou da gente:

- Obrigado! Mas por hoje já estou satisfeito.

- É só um drink, doutor Beto! - Insistiu a Bri, tentando pegar-lhe o braço.

Mas o Beto levantou uma mão, deixando claro que não queria ser tocado. Então, ele nos olhou, uma de cada vez, terminando na Bri:

- Não sei o que pensam que está acontecendo aqui, mas eu não vou ficar com vocês. Foi um jantar agradável, mas foi só isso.

- Beto... É só um drink. - Insisti eu, mesmo sem ter a mesma convicção da Bri.

- Obrigado, mas dispenso.

Ele não esperou que insistíssemos. Simplesmente se virou e entrou no seu quarto, fechando a porta praticamente em nossa cara. Olhei para a Bri que parecia surpresa com aquela reação, pois ela olhava sem parar para a porta do quarto do Beto:

- Unbelievable! - Ela disse, não sei se para mim ou para ela mesmo.

Eu segui em direção ao quarto que dividia com ela, deixando-a para trás. Assim que entrei, nem um minuto depois, ela também entrou:

- Unbelievable... - Ela resmungou agora, aparentemente para si mesma.

Entrei e tomei um banho. Assim que eu saí, ela entrou e fez o mesmo. Já deitadas, ela olhava para o teto, ainda silenciosa:

- Você acredita no que ele fez? - Falou, enfim.

- Ele está magoado comigo, Bri. Eu sabia que não seria fácil.

- Ele abriu mão da chance de estar com duas mulheres que estava praticamente se oferecendo para ele. Como pode!?

- Ele está magoado comigo. Simples assim.

Não conversamos muito mais nessa noite. Eu naveguei um pouco na internet, enquanto ela lia algo em um notebook. Dormi antes dela.

Na manhã seguinte, fomos tomar um café da manhã. Como precisávamos passar pelo quarto do Beto, batemos a sua porta para convidá-lo. Insistimos várias vezes, mas não fomos atendidas. Bri me olhava inconformada; eu, nem tanto, afinal, eu conhecia o Beto e sabia que dificilmente ele me perdoaria o suficiente para pensar em uma nova relação.

Descemos ao restaurante e tomamos um farto café da manhã, com linguiça, bacon, ovos, suco, enfim, o típico café da manhã americano. Quando estávamos terminando, vimos o Beto pela janela do restaurante, caminhando pela rua. Ele entrou no restaurante e acenou brevemente para nós. Depois, ele foi até uma mesa e se sentou, fez o pedido para a atendente e sacou seu celular. Bri, apertou os olhos, brava. Levantou-se e foi até a mesa dele:

- What’s your matter!? Is it with me? Or... Or is it with her? - Ela perguntou, apontando para mim.

- Good morning for you too, Brianna. - Ele respondeu, quase sarcasticamente: - E respondendo a sua pergunta, não tenho problema com nenhuma de vocês. Só estou vivendo a minha vida.

- Your life? Your... life!? Are you kidding me!? - Bri respondeu e olhou para mim, voltando a encará-lo logo depois: - Eu entendo que você se sinta traído, magoado, mas ela está tentando... Eu estou tentando, por ela. Só que você... não colabora, Beto.

A atendente chegou com uma xícara que colocou a frente do Beto e a encheu com café, olhando para ele e para a Bri, meio assustada. Disse algo que eu não consegui entender de onde estava, colhendo um sorriso do Beto e saiu. Beto bebeu um gole do café, olhando para a Bri e falou:

- Viva a sua vida com ela, Brianna. A minha história com a Helena acabou. Se foi culpa sua, se foi culpa dela, se foi culpa da CIA, ou da puta que o pariu, isso já não importa mais. Estou viúvo já há algum tempo e... Aliás, eu já estava praticamente divorciado antes de pensar que Helena havia morrido.

Bri olhou na minha direção e não contive as lágrimas, que vieram rápidas e desceram pelo meu rosto. Ela se voltou então para o Beto e lhe deu um tapa bem estalado no rosto. Ele não revidou, mas voltou a encará-la, numa frieza de doer a alma:

- Eu entendo agora porque ela se envolveu comigo, seu... seu... misogynistic.

- Muito ao contrário, minha cara, sempre gostei de mulheres e amei demais aquela ali. Uma pena que não tenha sido recíproco...

Bri novamente levantou a mão para lhe dar um tapa, mas antes disso ouvimos alguém falar seu nome:

- Agente B!

Olhamos na direção da voz e vimos a figura autoritária do agente Rutterford, próximo à porta do restaurante. Ele fez um movimento com o dedo, chamando-a. Ela respirou profundamente e seguinte na direção dele, saindo do restaurante, sumindo.

O pedido do Beto chegou e ele passou a comer. Mas eu o conhecia para saber que a forma com que mastigava não era por prazer, mas apenas para suprir uma necessidade básica. Aliás, eu o conhecia bem demais para notar seu lábio inferior tremia, talvez por um misto de tristeza e humilhação pelo que passara há pouco. Minha fome já havia ido embora e reuni o restante de minhas forças, rastejando-me até à sua mesa e me sentando à sua frente:

- Desculpe a Bri, Beto. Ela só queria me proteger.

- De mim!? Eu não fiz nada para te prejudicar, Helena. Já a recíproca não é verdadeira, não é mesmo?

- Você está sendo injusto! Eu também nunca fiz nada para te prejudicar. Eu só me envolvi com ela, mas nunca te expus para ninguém. Ninguém, ouviu?

Ele tomou um longo gole de café e me encarou:

- Verdade. Nunca me expôs a não ser para a minha mãe, não é?

- Já te expliquei isso também. Não fiz por querer. Só aconteceu porque eu estava nervosa e acabei falando demais.

- Helena... Vamos ser francos, ok? Por que você ainda insiste em mim?

- Oras!? Porque eu te amo. Já te falei isso também.

- E quem ama, faz o que você fez?

Minha vida parecia um círculo vicioso: quando eu pensava já ter explicado tudo o que me motivou, ele voltava e eu tinha que explicar tudo novamente. Juntei minhas mãos como em oração à frente da minha boca e o encarei:

- Beto... É estranho o que eu vou dizer, mas hoje, eu entendo que amar a duas pessoas é possível.

- É, concordo! Marido à esposa; os pais aos filhos... É assim que funciona a vida.

- Não foi nesse sentido que eu quis dizer... Eu me referia a outra pessoa, amar outra pessoa romanticamente.

- Acredito nisso não... - Ele resmungou, mordendo um bacon em seguida.

- Mas eu amo! Eu nunca deixei de te amar. Você não sabe como eu sofri nesses dias todos acreditando que você tivesse morrido. Se eu não te amasse tanto, não teria me abalado tanto te vi lá no Japão. - Falei, vendo-o me encarar: - Só que agora também tem a Bri. Beto, se não fosse ela, eu não sei o que eu poderia ter acontecido comigo...

- Helena, a vida seguiu para nós dois. Eu também sofri imaginando que você havia morrido. - Ele se calou, pensativo, e bebeu um pouco de café antes de voltar a me encarar: - E eu também tenho outra pessoa...

Senti o chão abrir sob os meus pés. Uma sensação dolorosa me tomou, como se toneladas fossem jogadas sobre as minhas costas, além de uma ânsia, uma vontade de vomitar... Respirei profundamente:

- Outra pessoa? Quem!? Mas quando isso... Como!?

- A vida seguiu... - Ele repetiu: - Eu não podia ficar sofrendo para sempre.

- Quem?

- Não é certo ainda, mas a gente está se conhecendo. Inclusive, a gente aproveitou parte de uma viagem na Europa.

- Quem, Beto?

- Isso não é importante.

- Para mim, é! - Elevei o tom da minha voz, respirando em seguida: - Desculpa. Quem sou eu para te cobrar alguma coisa, não é?

- É. - Ele mordeu outro bacon e me encarou: - Ela se chama Annie. É uma pessoa espetacular.

Recostei-me na minha cadeira, sem saber o que dizer. Saber que o Beto estava novamente se relacionando foi um golpe duro, algo que, por mais que eu soubesse que um dia poderia acontecer, não aliviava a sensação de impotência.

Ele seguiu tomando seu café e eu só... fiquei ali, existindo, tentando ainda existir de alguma forma na vida dele. Nesse momento, a Bri se aproximou da mesa:

- Você já está pronta, Le? Podemos ir para o escritório quando você quiser.

- Pronta para que? - Perguntei, ainda atordoada com a revelação do Beto.

- Como para que? Para você os vídeos.

- Ah é... - Olhei para o Beto: - Já está pronto, Beto?

- Helena, realmente eu não sei se é uma boba ideia eu acompanhar vocês... - Ele me respondeu.

- Também acho. - Concordou a Bri, para minha surpresa.

- Como assim? - Perguntei para ela.

- Esses vídeos só dizem respeito a você, Le. No mínimo, seria uma situação constrangedora, tanto para você como para ele.

Beto, novamente para a minha surpresa, balançou afirmativamente sua cabeça, concordando com as ponderações dela. Eu não concordava:

- Gente... Beto, eu quero entender melhor essa história e você quer a verdade. Acredito que não exista nada nesses vídeos que possa nos machucar mais do que já machucou. Então, por que não enfrentar isso de vez?

Ele se recostou na cadeira, pegou o último bacon do prato e ficou em silêncio, me encarando. Depois, balançou a cabeça, concordando comigo. Dali fomos direto para uma van que já nos aguardava e de lá para um prédio de escritórios. Subimos alguns andares e fomos levados a uma sala com um computador e uma enorme tela. Ali uma agente me explicou:

- This computer has a directory with several subdirectories named after the dates of the events. The videos are located within them. - Ela então olhou para o Beto e a Bri, e me encarou, parecendo meio desconfiada: - Will they watch the videos with you, or do you want me to ask them to leave the room?

- They will. - Respondi rapidamente.

- No, Le. I’m not. - Bri pigarreou e continuou: - Tenho uma reunião com meu superior para tratarmos de assuntos sobre a S.I.N.A.

Concordei com ela. Assim que a outra agente saiu, olhei para o Beto e perguntei:

- Por onde quer começar?

- Se me permitem um conselho... - Interrompeu a Bri, já ficando de pé: - Comecem pelo que interessa, pelos vídeos da operação contra a Imperium.

- E por que não pela ordem cronológica? - Perguntou o Beto.

- É. Por quê? - Perguntei para a Bri.

Ela ficou em silêncio por um instante, como se temesse responder e nos olhou, um de cada vez, antes de dizer algo:

- Já sabemos que vários desses vídeos foram forjados para convencer o Bronson de que você poderia ser convencida a se entregar. A meu ver, seria perda de tempo assisti-los.

- Não tenho nenhum outro compromisso para hoje... - Resmungou o Beto, cruzando o braço e a encarando meio invocado.

Bri também o encarou e deu de ombros. Veio até mim e me deu um selinho, saindo da sala em seguida. Comecei a navegar pelos diretórios, e eram muitos os vídeos, alguns bem antigos mesmo:

- Nossa! Mas tem muita coisa mesmo... - Resmunguei.

Beto se aproximou de mim e apontou para um subdiretório em específico:

- Vai para aquele. Parece ser o mais antigo.

Acessei e cliquei num vídeo único. Imediatamente apareceu uma imagem minha e da Bri num café, conversando, animadas. O vídeo não tinha nada de comprometedor, nem mesmo nas conversas:

- Parece ser bem no início do namorico de vocês... - Falou o Beto, sarcástico.

Preferi não confirmar ou negar. Dar munição a uma discussão agora era justamente o que eu não queria.

Segui pela ordem cronológica e os vídeos seguiam exibindo meus encontros com a Bri, sem nenhuma novidade relevante. Fizemos isso por quase uma hora:

- Está vendo? Eu te falei que não havia sido algo impensado, que tudo foi conspirando para isso acontecer...

- Conspirando, né?... - Beto resmungou e apontou para um outro subdiretório: - E aquele ali!?

Não parecia ser nada demais, apenas um subdiretório de arquivos temporários. Ainda assim, cliquei. Dentro, vários e vários arquivos com terminação TMP. Eu estava para sair até que o Beto apontou para um em específico:

- Aquele. Está vendo o nome e a data?

Vi, mas não liguei nada com nada. Ele continuou:

- Aquele e aquele reproduzem nomes e datas dos dois últimos vídeos que a gente assistiu. Mas aquele ali não tem correspondente nos vídeos.

- E daí?

- Daí que eles podem estar escondendo alguns vídeos de você.

Começamos a prestar atenção em outros arquivos e aquilo se repetiu por vários outros. Anotamos várias ocorrências para perguntarmos depois para a Bri. Inclusive, enquanto fazíamos isso, nos deparamos com o primeiro vídeo em que a Bri acariciou a minha mão de uma forma mais íntima e outro em que trocávamos um selinho dentro de uma sala de cinema. Beto não disse nada, mas vi que ficou chateado, o que estranhei, porque ele já havia visto a Bri me dar selinhos ao vivo. Perguntei o que acontecia e ele foi sincero:

- Foi aí que o nosso casamento começou a acabar...

Tentei fazer um carinho em sua mão, mas ele se levantou, dizendo que iria buscar um café e saindo sem que eu tivesse chance de falar nada.

Respirei fundo e segui assistindo aos vídeos. A intimidade entre eu e Bri era progressiva, quase sistêmica. Uma carícia, um abraço mais apertado, outro mais demorado, um selinho rápido, outro mais demorado, beijos mais intensos. Beto não estava errado, era um namoro. Mais do que isso, era um relacionamento clandestino, uma traição como ele se referia.

Cheguei a um vídeo em que nós aparecíamos entrando num motel. Estranho era haver dois vídeos nesse subdiretório. O segundo vídeo era do interior do quarto, onde eu e ela transamos pela primeira vez:

- Espera um pouco. Como tem câmeras lá dentro do quarto? - Resmunguei para mim mesma.

Não fazia sentido: Se era uma transa espontânea, entre duas pessoas que vinham se relacionando, não haveria como terem preparado o quarto previamente. A não ser que a Bri tivesse mentido para mim. Pausei o vídeo, estupefata, e fiquei tentando entender o contexto. Nem vi que o Beto havia voltado com dois copos de café e uma paciência a menos:

- Opa! Agora é que a coisa esquenta? - Voltou a ser sarcástico, entregando-me um copo e se sentando em sua poltrona: - Se eu soubesse que estaria chegando nessa parte, teria trazido um balde de pipoca.

- Para, Beto! Eu... só não entendo como tinha câmeras dentro do quarto do motel se ninguém sabia que nós iríamos transar? Afinal, nós acabamos decidindo aquilo meio que de supetão, entende?

- Talvez você não tivesse decidido, mas e ela? Ela é uma espiã. Quem garante que ela não tinha tudo planejado previamente?

- Você acha que ela estava me enganando?

- Ué!? Não foi ela mesma que disse que começou assim, que você era uma missão dentro da operação, mas que depois evoluiu para algo verdadeiro? Talvez até esse momento, ela apenas visse você como uma parte da operação.

Seu raciocínio tinha lógica. Seguimos assistindo outros vídeos e novas situações normais de dia a dia, encontros em cafeterias, mas outros em motéis, até mesmo no apartamento dela. De uma parte em diante, os vídeos com os encontros explícitos simplesmente desapareceram. Se o Beto estivesse certo, talvez ela mesma, agora que havia se envolvido comigo, estivesse evitando que a CIA produzisse esse tipo de vídeo.

Uma data me chamou a atenção, “december-20”, dia da Festa de Final de Ano na Imperium. Este era um vídeo mais elaborado, quase em primeira pessoa, com vários cortes, como se tivesse sido produzido por várias pessoas. Concluímos que agentes da CIA infiltrados entre os convidados produziram as filmagens. Conseguiram inclusive captar o momento em que o Bronson me convidou para dançar, mas que foi negado pelo Beto. Não pude evitar de notar um sorriso de canto de boca no meu marido, satisfeito consigo mesmo, como se fosse uma vitória particular.

Após esse, mas alguns subdiretórios com vídeos com encontros normais entre eu e Bri, até que chegamos num que continha seis vídeos. Eram os tais vídeos falsos que fizeram de mim com outros executivos. Nenhum deles tinha caráter sexual, mas dava para ver que se tratavam de encontros de nenhum caráter profissional, dada a proximidade, toques em mãos, carícias em rosto. Beto assistia a todos eles calado, bastante interessado, olhos vidrados da televisão. Quando havíamos assistido quatro deles, ele não se conteve:

- Realmente são muito realistas... Mas tão realistas, tão realistas, que parecem verdadeiras.

- Você não está achando que eu... - Calei-me e o encarei, brava.

- Não estou achando nada! - Ele retrucou, sem desviar o olhar de mim: - Seria só mais algumas traições além de outras e sinceramente? Nem seria pior do que você já vinha fazendo há dois anos com a Brianna.

Respirei fundo para não brigar e seguimos assistindo os vídeos, vários de encontros normais meu com a Bri, até que chegamos aos subdiretórios com a data da viagem para Viena.

Os primeiros vídeos eram normais, de encontros profissionais entre mim e outros executivos. Havia também alguns entre mim e Bri, mas nada fora do normal. Novamente, não havia nenhum vídeo de nossas intimidades no nosso quarto. De repente, enquanto assistíamos a um vídeo sem importância, o Beto falou:

- Quando estive lá em Viena, tentei procurar o seu quarto, mas me informar que você não estava hospedada...

- A reserva havia sido feita no nome da Bri. Eu fui como sua companheira e me registrei com o meu nome de solteira.

- Eu não entendo... Se a Brianna há havia sido recusada pelo tal Bronson, por que ela continuava te acompanhando? Não seria meio suspeito?

- Sim, se ela não estivesse se relacionando com o filho dele...

- Ela estava trepando com o Bronson Jr? - Beto perguntou, surpreso.

- Trepando... que forma mais feia. - Sorri, achando graça da forma como ele reagiu: - Mas era isso. A Bri não chegou no pai, mas conseguiu o filho. E foi através dele que chegavam informações ao Bronson pai de que eu e ela estávamos tendo um caso.

- Para que?

- Para que ele pensasse que eu não era tão séria assim, além de que ele poderia pensar que teria uma arma para me convencer a ficar com ele.

- Não entendi.

- Chantagem, Beto! Se ele tentasse me convencer a ficar com ele e eu negasse, ele entregaria o meu caso com a Bri para você.

Beto fez uma cara de surpresa e deu uma risada, balançando negativamente a cabeça. Eu o encarei curiosa:

- Você já pensou... que isso realmente poderia ter acontecido antes de eu descobrir o seu casinho com a Brianna? E se tivesse acontecido, como você iria agir comigo?

Taí! Eu nunca havia pensado nessa possibilidade. E foi isso que eu falei para ele. Ficamos em silêncio por um instante e depois ambos começamos a rir daquela situação falsa, mas que poderia ter revelado toda uma verdade que ainda estava oculta:

- Isso explica também o vídeo que eu assisti de vocês duas transando com um cara. Era o Júnior, não era?

- Era.

- E por que fizeram aquilo?

- A inteligência da CIA entendeu que seria bom para a operação convencer o filho de que eu e ela tínhamos uma relação, o que indicaria que eu poderia ser convencida a ceder. Eles imaginavam que ele contaria ao pai. Tanto é que ele filmou parte da transa e certamente a mostrou para ele.

- É...

- Pois é.

A Bri entrou na sala nesse momento, afinal, já estávamos há horas assistindo vídeos, e nos perguntou se gostaríamos de almoçar. Mais do que com fome, eu estava cansada, a vista meio turva. Olhei para o Beto que também devia estar da mesma forma e concordamos em sair para almoçar:

- Ok. Preferem um Mc ou Subway? - Perguntou a Bri.

- Lanche?

- Yes. Lunch. - Ela concordou.

Beto me encarou meio confuso e expliquei que ali nos Estados Unidos o almoço deles, o “lunch”, é diferente do nosso. Para eles, é apenas uma refeição rápida, normalmente um lanche, para que possam voltar ao trabalho, bem diferente do Brasil, onde o almoço é uma refeição farta e completa:

- Um lanche... - Beto resmungou novamente para mim enquanto já nos encaminhávamos para a porta.

Paramos num carrinho de hot-dog. Foi hilária a cara que o Beto fez quando o homem lhe entregou um pão com uma salsicha no meio, dizendo que ele poderia escolher o molho. Beto me encarou e perguntou onde estavam os acompanhamentos, e novamente expliquei que o hot-dog deles era diferente do nosso:

- Isso aqui não vai me encher... - Disse antes de morder e fazer uma cara de aprovação para a salsicha.

Assim que terminamos nossos hot-dog, avisei a Bri que iríamos procurar um restaurante para comer algo mais. Ela disse que estava satisfeita e que voltaria ao escritório.

Saímos caminhando e logo encontramos um típico restaurante americano que também não servia almoço como o que estávamos acostumados, mas pelo menos serviam um lanche bem mais recheado que o simples hot-dog que havíamos comido, além de uma bela porção de batatas fritas. Já estávamos no meio do lanche quando resolvi conversar:

- Dos vídeos que a gente já assistiu... Ficou alguma dúvida, algo que você queira me perguntar?

- Helena, por mim eu não estaria aqui. Vim mais por uma insistência sua.

- Eu sei. Você não está me cobrando, mas eu estou. Eu estou me cobrando ser verdadeiramente honesta e transparente de uma forma que eu deveria ter sido desde o começo com você.

OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.

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Foto de perfil de Mark da NandaMark da NandaContos: 348Seguidores: 718Seguindo: 20Mensagem Apenas alguém fascinado pela arte literária e apaixonado pela vida, suas possibilidades e surpresas. Liberal ou não, seja bem vindo. Comentários? Tragam! Mas o respeito deverá pautar sempre a conduta de todos, leitores, autores, comentaristas e visitantes. Forte abraço.

Comentários

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Ela sentiu quando ele fala que já tem alguém.

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Muito bom como sempre!!!

Não consigo mais torcer por esse casal… peguei ranço,

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Nossa, que capítulo maravilhoso, ao meu ver, não existe qualquer chance para o Beto voltar com a Helena ou um trisal, que cada um siga seu caminho

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Amigo, eles vão voltar, porque esse foi o resultado da pesquisa do IDAbope.

Não era que eu pretendia escrever, mas adotei a brincadeira.

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