Capítulo XLI — O futuro é logo ali!
Rafael narrando...
A sede das Empresas Santos Montenegro sempre teve um cheiro específico: café recém-passado misturado com metal, vidro limpo e ar-condicionado. É um cheiro de poder silencioso. De decisões tomadas atrás de portas fechadas. De números que movem o mundo.
Durante anos, esse lugar foi a minha casa emocional. Era aqui que eu pensava, respirava, controlava. Mas naquele dia… nada disso importava mais do que a mão do Caio entrelaçada na minha.
Entramos pelo saguão principal. Os funcionários cumprimentavam com a cabeça, alguns sorriam discretamente, outros fingiam não notar o jeito como a gente caminhava lado a lado. Eu sentia o peso da expectativa no ar. Não era só sobre negócios. Era sobre o fato de eu estar mudando. E eles percebiam.
O elevador subiu em silêncio. Caio encostou o ombro no meu.
— Nervoso? — ele perguntou baixo.
— Não. Consciente.
— Pior ainda — ele sorriu.
A porta se abriu no andar da presidência. Caminhamos até a sala de reuniões. A mesa oval ocupava quase todo o espaço. Telas ligadas, relatórios já projetados. Mamãe estava sentada com a postura impecável de sempre. Miguel folheava um tablet, tentando parecer tranquilo.
Puxei a cadeira pro Caio.
— Senta.
— Você é antiquado — ele brincou.
— Sou cuidadoso.
Ele se sentou. Eu fiquei em pé por alguns segundos observando a cena. Pela primeira vez, eu não me sentia dono daquele espaço. Eu me sentia… visitante.
Um homem que estava só de passagem por um capítulo antigo da própria vida.
— Vamos direto ao ponto — disse Dona Eloísa. — Rafael, Caio… vocês vão se ausentar oficialmente após o casamento. Período estimado?
— Três semanas — respondi. — Talvez quatro.
Ela assentiu.
— As diretorias precisam de comando. E estabilidade.
Miguel pigarreou.
— Eu estou pronto.
Olhei pra ele.
— Não é só estar pronto, Miguel. É saber que você vai errar, aprender e continuar.
— Eu sei — ele respondeu sério. — E eu vou fazer isso por você.
Dona Eloísa completou:
— Então fica definido: Miguel assume como vice-diretor interino durante a lua de mel de vocês.
Silêncio.
Um silêncio respeitoso, pesado, simbólico. Caio segurou minha mão por baixo da mesa.
— Caio, você tem capacidade para isso, já demonstrou interesse e competência, então, decidimos que seria você a assumir meu lugar. Não apenas por ser meu melhor amigo, mas porque é alguém profissional e em quem podemos confiar.
— Ele merece — Caio disse. — E precisa dessa chance. Eu também concordo inteiramente com esta decisão.
Olhei pra ele com orgulho. Meu noivo. Meu parceiro. Meu igual.
A reunião seguiu com detalhes técnicos: cronogramas, assinaturas digitais, delegações, limites de alçada, autonomia financeira. Eu expliquei tudo a ele. Sem pressa. Sem esconder nada. Eu não queria um substituto. Eu queria um sucessor em formação.
Quando tudo terminou, as pessoas saíram uma a uma. A sala foi esvaziando. Caio foi falar com a secretária sobre alguns documentos pessoais. Dona Eloísa atendeu uma ligação. Miguel ficou parado perto da janela, olhando a cidade.
Me aproximei.
— Quer falar comigo?
Ele virou devagar.
— Quero.
Entramos numa sala lateral, menor, mais clara, com uma mesa simples e duas cadeiras. Miguel sentou. Eu fiquei em pé.
— Rafa… eu tô feliz por você e pelo Caio. De verdade.
— Obrigado.
— Vocês… mudaram o jeito que eu vejo as coisas.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Eu cresci achando que força era fechar o coração. Vocês mostram que é abrir.
Respirei fundo.
— E o que você quer me dizer de verdade?
Ele hesitou.
— Eu sinto que nossa ligação de amizade é maior sabe? Maior do que com Caio, é claro que eu amo ele como um dos meus melhores amigos depois de tu (risos), mas contigo tenho uma leveza para falar e contar as coisas.
Sorri de canto.
— Talvez seja porque o teu sangue corre nas minhas veias. Você salvou minha vida, lembra? Miguel, tu é meu melhor amigo, não há nada que eu não tenha que não dá dividir contigo, a prova disso é que estou cedendo meu lugar na diretoria para você, eu mesmo pedi à mamãe que fosse você. Enfim, tamo junto, pow!
Eu o abracei forte. Ele me olhou como se aquilo tivesse atravessado o peito dele.
— Então… somos irmãos?
— Somos. Cê tem dúvida disso ainda?
Miguel respirou fundo.
— Não tenho dúvida, mas às vezes tu faz tanto por mim que eu jamais poderei retribuir da mesma forma, como ceder seu apartamento e permitir que eu fique em seu lugar durante este tempo. Cara, são coisas que eu nunca poderei fazer igual.
Os olhos de Caio estavam marejados. Ele abaixou o rosto.
— Mano, entenda uma coisa: não é sobre retribuir nada. Não quero que pense que me deve alguma coisa. Tu já fez muito quando esteve com Caio enquanto eu estava preso a uma cama de hospital. Doou sangue quando eu precisei e sofreu com a gente quando meu pai me sequestrou. Tu já fez demais. Relaxa!
Sua expressão mudou rapidamente.
— Rafa, tu não existe mesmo (risos). Bem que Caio já disse que tu é coração, só coração mesmo. Muito obrigado por tudo!
— (Risos). Pode ser que Caio esteja certo. Mas diz aí, não é só isso que tu queria dizer era?
— Não, na verdade eu também ia dizer tô conhecendo alguém.
— E isso é bom?
— Muito.
Coloquei a mão no ombro dele.
— Então eu te desejo o que eu tô vivendo e que seja tão feliz quanto eu sou. Escreva agora a sua história, mano.
— Eu escreverei. E já tenho um exemplo bem perto de casal em que um nasceu para o outro.
— Chega. Já estamos emotivos demais, não acha?
Rimos. Rimos juntos como dois grandes amigos que se preparam para grandes mudanças.
A porta se abriu de repente.
— EU PRECISO ROUBAR MEU NOIVO!
Caio entrou como um furacão. Miguel riu.
— Eu vou fingir que não vi nada.
Caio me puxou pela mão.
— Sua sala. Agora.
Assim que entramos, ele fechou a porta com força. Veio até mim e me roubou um beijo demorado e cheio de vontade.
— Eu tava doido pra te beijar.
— No meio da empresa?
— Principalmente no meio da empresa.
Ele me beijou. Sem pressa. Sem controle. Só desejo. Encostei ele na mesa.
— Você tá impossível hoje.
— Culpa sua.
Nossas testas se tocaram.
— A gente vai casar… — ele sussurrou.
— Vai ser você e eu.
— Pra sempre?
— Pra sempre.
Ele fechou os olhos. E naquele instante, eu entendi: Eu não estava mais tentando ser forte. Eu estava aprendendo a ser inteiro. E inteiro… eu só sou quando estou com ele.
A porta da minha sala ainda estava fechada quando o Caio me puxou mais uma vez pela gola do paletó e colou a boca na minha. Não foi um beijo educado. Não foi um beijo contido. Foi aquele tipo de beijo que nasce da urgência, da saudade que nem chegou a acontecer ainda, mas já dói só de imaginar.
— Você tá diferente hoje — ele murmurou contra minha boca.
— Diferente como?
— Mais… inteiro. Mais solto.
Sorri sem separar nossos rostos.
— Talvez porque eu finalmente entendi que não preciso mais provar nada pra ninguém.
Ele me beijou de novo, devagar dessa vez. Como se quisesse me aprender com calma.
— Miguel parecia bem vibrante — eu disse entre um beijo e outro. — Ele tá conhecendo alguém.
Caio abriu um sorriso leve.
— Fico feliz por ele.
— Eu também.
— Já era hora — Caio completou. — Miguel passou tempo demais vivendo em função dos outros.
Passei o polegar pelo maxilar dele.
— Igual eu fazia.
— Igual você aprendeu a parar de fazer — ele corrigiu.
Encostei minha testa na dele.
— Porque você apareceu.
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um segundo.
— A gente podia… sair um pouco.
— Agora?
— Sim. Antes que o mundo comece a nos cobrar tudo de novo. Só a gente. Comer fora. Beber alguma coisa.
— Tipo despedida de solteiro versão civilizada?
— Exatamente.
Ri.
— Então vamos.
Pegamos o elevador rindo baixo, ainda grudados um no outro. No carro, Caio ligou o som. A cidade começava a acender as luzes. Eu me sentia leve. Talvez leve demais.
No meio do caminho, o mundo girou. De verdade. Minha visão embaçou por um segundo. O volante pareceu se afastar das minhas mãos. Um frio atravessou meu estômago.
— Rafa? — Caio percebeu na hora. — O que foi?
— Nada… só uma tontura.
— Encosta o carro.
— Amor, tá tudo bem…
— Encosta o carro.
Obedeci.
Assim que parei, ele virou pra mim com os olhos cheios de atenção.
— Você comeu hoje?
Pisquei.
— Acho que… café.
— Só isso?
— E meio sanduíche.
Caio suspirou fundo, daquele jeito que já conheço.
— Não é hora de sair. A gente vai pra casa.
— Mas a gente ia…
— Rafa — ele segurou meu rosto com as duas mãos. — Você não vai desmaiar no meio de um restaurante pra manter um plano bobo.
Sorri fraco.
— Você é chato.
— Sou responsável.
Ele colocou o cinto de novo em mim.
— Vamos pra mansão.
O caminho de volta foi silencioso, mas não pesado. Era um silêncio de cuidado. De presença.
Quando chegamos, Caio nem me deixou discutir.
— Banho. Agora.
— Eu tô bem.
— Tá nada. Anda.
O banheiro da mansão era grande, claro, com aquele cheiro de sabonete caro que sempre me lembrava casa. Caio ligou o chuveiro e começou a tirar minha gravata.
— Você não precisa…
— Eu quero.
A água caiu morna. Ele me ajudou a tirar a camisa. As mãos dele eram firmes e gentis ao mesmo tempo.
— Fica parado.
— Você manda em mim agora?
— Desde sempre.
A água escorria pelas minhas costas. Caio passou o sabonete devagar pelos meus ombros.
— Melhor?
— Já.
— Viu? Alimentação, banho e carinho resolvem metade dos problemas do mundo.
— A outra metade é você.
Ele sorriu.
Depois me levou até o quarto e me sentou na cama.
— Fica aqui.
— Você vai aonde?
— Buscar comida.
Pouco depois voltou com uma bandeja: sopa, pão, suco.
— Come.
Obedeci.
Enquanto eu comia, ele sentou ao meu lado, observando cada movimento meu como se estivesse checando se eu ainda existia.
— Eu vou tomar banho — ele disse depois.
— Vai lá.
Fiquei ouvindo a água cair. O som do chuveiro sempre me acalma. Terminei a comida. O corpo já estava mais leve.
Levantei. Tirei a roupa devagar e fui até o banheiro.
Caio estava de costas pra mim, a água escorrendo pelos cabelos.
— Você não mandou eu esperar?
— Mudei de ideia.
Ele virou.
— Oi.
— Oi.
A gente ficou se olhando por alguns segundos. Aquele tipo de silêncio que fala tudo.
— Você tá melhor?
— Tô. Graças a você.
Ele se aproximou.
— Eu cuido de você porque você cuida de mim.
— Eu sei.
A água nos envolvia. A gente se tocava devagar, sem pressa. Não era fome. Era comunhão.
— A gente vai casar — ele disse de repente.
— Vai.
— Dá medo?
Pensei um pouco.
— Não. Dá paz.
Ele encostou a testa na minha.
— Eu também sinto isso.
A gente se abraçou ali, debaixo do chuveiro. A água misturando com o calor do corpo. Com a respiração.
Não era só sobre sexo. Era sobre pertencimento. Beijei o pescoço de Caio, dava mordidas de leve, beijava suas costas em cada lugar que podia. Desci mais abaixo e beijava sua bunda, também dava mordidas, ele enlouquecia toque após toque e eu mal podia me conter, meu pau babava e nossas respirações já pesavam misturadas ao vapor da água.
— Tu me deixa louco, e nem precisa fazer muito.
— Amor, eu amo cada parte do teu corpo. Eu te quero inteirinho. Eu sou louco por você. Só quero tu, mais nada, mais ninguém.
— Então, me come vai. Enfia seu pau em mim, eu quero sentir você dentro de mim.
Cuspi no pau, encaixei a rola e o abracei. Nossos corpos se envolveram numa sinergia louca e densa. Como se nossos corpos foram criados para estarem unidos e amalgamados nessa combinação que tínhamos.
Caio apertava e trancava o rabo, rebolava enquanto eu metia ferro. Eu beijava sua boca, lambia sua orelha e mordia seu pescoço. Ele estremecia e gemia sacanagens, algumas até incompreensíveis.
Ele se virou e me jogou no chão do banheiro. Ele abaixou-se, mirou a pica no seu rabo e sentou. Eu nem conseguia mais dizer nada, eu me perdi naquele êxtase de tesão e luxúria em que estávamos.
— Você é gostoso demais, Rafa. É por isso que eu te quero só pra mim, porque todo mundo pode olhar e te desejar, mas tu é meu, só meu e quando estivermos no altar, eu direi "sim". Sim para sempre, até que a morte nos separe, meu amor.
Eu ouvi aquelas palavras sussurradas em meu ouvido e as lágrimas caíram, aquela declaração foi a mais linda que já havia ouvido dele.
Eu não consegui dizer nada, apenas o beijei profundamente. E ali entre promessas, toques e beijos nos perdemos. Quando dei por mim já havíamos gozado litros de gala, eu gozei dentro dele e ele em minha barriga.
Depois de alguns minutos de descanso e desaceleração, Caio ficou abraçado a mim, eu podia ouvir sua respiração lenta, não falamos nada, apenas nos abraçamos.
Ele se levantou primeiro, levantei em seguida e nos lavamos. Ele estava exausto. Cuidei dele com carinho, sequei seu corpo e o meu. Depois fomos pra cama. Caio se deitou comigo, me puxou pro peito dele.
— Dorme.
— Com você.
— Sempre. Pois de mim você sempre terá tudo, absolutamente tudo. Eu te amo com todas as minhas forças, Caio.
Caio sorriu e logo pegou no sono. Eu fiz o mesmo. E pela primeira vez em muitos anos… eu dormi sem lutar contra o amanhã.
Eu acordei antes da luz. Não foi insônia. Não foi preocupação. Foi aquela sensação estranha de que o peito estava cheio demais para continuar dormindo
Abri os olhos devagar.
O quarto ainda estava mergulhado naquele azul suave que antecede o amanhecer. O mundo inteiro parecia suspenso entre o sonho e a realidade. Ao meu lado, Caio dormia profundamente, virado de lado, com o rosto parcialmente afundado no travesseiro. A respiração dele era lenta, ritmada, como se o universo estivesse marcando o tempo através daquele som.
Eu fiquei observando. Há algo sagrado em ver quem se ama dormindo. Sem máscaras. Sem defesas. Sem palavras. Apenas existência.
A ponta dos dedos deslizou devagar pelo braço dele, quase sem tocá-lo. Eu não queria acordá-lo. Queria guardar aquela imagem.
Porque nos últimos meses nós enfrentamos o inferno. E ainda assim, ali estávamos. Vivos. Inteiros. Juntos. Eu me levantei com cuidado, sentindo o piso frio sob os pés.
Caminhei até a janela e abri levemente a cortina. A cidade ainda estava quieta. Algumas luzes distantes piscavam como se fossem estrelas indecisas entre ficar ou partir.
Respirei fundo. Eu precisava escrever. Peguei o caderno azul na gaveta da escrivaninha. Aquele mesmo que carregava desde os dias mais turbulentos. Aquele que guardava versões minhas que nem eu tinha coragem de reler.
Sentei. E deixei a caneta tocar o papel antes mesmo de pensar no que dizer. As palavras vieram como se já estivessem prontas.
“Para o homem que me ensinou a ficar.”
Caio,
Eu sempre fui feito de fuga.
Fui feito de silêncios mal resolvidos e despedidas antecipadas.
Eu aprendi cedo demais que quem ama vai embora,
então eu me adiantei e fui primeiro.
Mas você ficou.
Você ficou quando eu não sabia como pedir ajuda.
Você ficou quando eu me fechei.
Você ficou quando eu tive medo de não ser suficiente.
Você segurou minha mão no tribunal.
Você segurou minha mão no hospital.
Você segurou minha mão no dia em que eu pensei que nunca mais teria futuro.
E você não soltou.
Eu não quero o mundo inteiro.
Eu quero o seu riso no meio da sala.
Eu quero o barulho da sua xícara batendo na mesa de manhã.
Eu quero as suas manias espalhadas pela casa.
Você é o único lugar onde eu nunca quis fugir.
Se um dia eu parecer distante, me chama de volta.
Se um dia eu parecer perdido, me lembra quem eu sou.
Eu sou o homem que escolheu você.
E escolho todos os dias.
Eu te amo com uma calma que nunca senti antes.
E com uma intensidade que não tem prazo de validade.
— Rafael
Quando terminei, percebi que minhas mãos estavam tremendo levemente. Eu li de novo. Depois dobrei o papel com cuidado e deixei sobre criado-mudo dele.
Ainda fiquei ali por alguns segundos, observando o envelope com o nome dele escrito à mão.
Eu precisava sair. Não para fugir, mas para respirar o que nós construímos. O banho foi rápido. A água morna escorreu pelas minhas costas e eu fechei os olhos sob o chuveiro.
Eu pensei no hospital. No pai dele. No enterro. Na carta. Nas lágrimas que ele tentou esconder. Caio estava forte demais.
E eu sabia que força demais às vezes vira peso.
Saí do banheiro, me vesti de maneira simples, camiseta branca, bermuda clara, e peguei as chaves.
Desci as escadas devagar, passando pela sala silenciosa da mansão. A casa ainda dormia. Quando abri a porta, o ar da manhã me envolveu. E eu senti algo parecido com paz.
A praia estava quase vazia. Alguns pescadores ao longe. Um corredor atravessando a areia molhada. O mar respirando. Eu caminhei descalço. A água fria tocou meus pés e eu fechei os olhos.
Ali foi onde tudo começou. O primeiro “eu te amo”. O primeiro medo de dizer em voz alta. O primeiro beijo que mudou o rumo da minha vida. Eu me sentei na areia, abraçando os joelhos.
“Eu vou cuidar de nós”, eu pensei.
Não era promessa para o mundo. Era promessa para mim mesmo. Depois da praia, dirigi até o mirante. O mesmo de sempre. O lugar onde nossas histórias se misturaram com o vento.
Encostei no parapeito e observei a cidade lá embaixo. O sol já começava a subir, dourando prédios e ruas.
Eu lembrei da primeira vez que levei Caio ali. Lembrei da blusa azul. Lembrei da forma como ele me olhava como se eu fosse mais do que eu acreditava ser. Eu sorri.
— Eu não vou colocar nada acima da nossa felicidade — murmurei.
Fiquei ali por muito tempo. Até sentir que estava pronto para voltar.
Caio narrando...
Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi estender a mão. E encontrei vazio.
Meus olhos abriram imediatamente. O quarto estava claro o suficiente para perceber que ele não estava ali.
Meu coração apertou, não de medo, mas de estranheza. Então vi o envelope.
Meu nome escrito na letra dele. Sentei devagar.
O mundo parecia ter diminuído de tamanho enquanto eu abria aquela carta.
Li devagar. E conforme cada palavra atravessava meus olhos, eu sentia como se estivesse sendo desmontado por dentro, não de dor, mas de amor. Lágrimas, elas foram se derramando a cada palavra que se perfazia em meus lábios.
Eu reli a parte em que ele dizia que me escolhia todos os dias. Escolher. Ele estava ficando.
Quando terminei, as lágrimas já tinham caído no papel. Eu levei a carta ao peito por alguns segundos.
Depois levantei e desci para o café.
Dona Eloísa já estava à mesa.
— Bom dia, meu filho!
Minha voz saiu rouca.
— Bom dia… a senhora viu o Rafa?
Ela sorriu levemente.
— Ouvi ele sair cedo. Portas suaves, passos leves. Mas não falou comigo.
Eu sentei.
— Ele sempre me avisa…
Ela pousou a xícara na mesa com cuidado.
— Rafael precisa desses momentos, Caio. É assim que ele se reencontra.
Eu fiquei olhando para o café fumegando diante de mim.
— Eu fico com medo de ele se sobrecarregar… ele vive carregando tudo sozinho.
Ela inclinou a cabeça.
— Ele não está sozinho. Ele tem você.
Houve um pequeno silêncio.
Então ela continuou:
— Ele me contou uma coisa ontem.
Eu levantei os olhos.
— O quê?
— Que não quer permanecer totalmente envolvido com a empresa. Vai manter a diretoria, mas pretende ir presencialmente só dois dias por semana. O resto será remoto.
Eu pisquei.
— Ele falou isso?
— Falou. Disse que não quer que o trabalho interfira no casamento de vocês.
Meu peito aqueceu.
— E a senhora… o que acha?
Ela sorriu.
— Acho que meu filho finalmente entendeu o que realmente importa.
Fez uma pausa breve.
— E tem mais.
Meu coração acelerou.
— Ele comprou um apartamento.
Eu fiquei imóvel.
— Como assim?
— Para vocês dois. Privacidade. Vida de casal. Ele foi comigo escolher. Já está mobiliado.
Eu não consegui conter as lágrimas.
— Ele… já fez isso?
Ela levantou-se, aproximou-se de mim e apertou meu ombro com carinho.
— Rafael te ama, Caio. Eu nunca vi alguém amar como ele ama você. Aliás, eu mesma nunca amei alguém como ele te ama. O amor é a força dele!
Eu abaixei o rosto, tentando respirar direito.
E naquele momento eu soube que, onde quer que ele estivesse naquela manhã, ele estava pensando em nós.
Depois que Dona Eloísa terminou de falar, eu permaneci sentado à mesa por alguns minutos, encarando a xícara já fria diante de mim.
Um apartamento. Ele tinha comprado um apartamento para nós. Minha mente tentava acompanhar a grandeza do gesto, mas meu coração já tinha entendido muito antes. Rafael nunca fazia nada pela metade. Quando ele decidia amar, ele mergulhava.
Subi para o quarto com a carta ainda na mão.
Sentei na cama e reli cada linha devagar, como se quisesse memorizar o ritmo da respiração dele entre as palavras.
“Eu sou o homem que escolheu você.”
Eu fechei os olhos. Nunca ninguém tinha me escolhido com tanta certeza. Ouvi passos no corredor. Mamãe entrou devagar, como se não quisesse interromper nada sagrado.
— Posso?
Eu assenti.
Ela sentou à minha frente, me olhando com aquele olhar que só mãe tem — o tipo que enxerga por dentro.
— Ele saiu cedo, né?
— Saiu.
— E você tá com essa cara de quem chorou.
Eu ri, enxugando o rosto.
— Ele comprou um apartamento pra gente.
Ela sorriu como se já soubesse.
— Eu sei.
— Você sabia?!
— Rafael veio conversar comigo. Perguntou das suas manias, do jeito que você gosta das coisas organizadas, do cheiro que te acalma… ele queria que fosse do seu jeito.
Eu senti um nó na garganta.
— Ele chorou enquanto eu contava histórias suas de pequeno. Sabia?
Minha respiração falhou por um segundo.
— Chorou?
— Chorou. Disse que queria te dar um lar onde você nunca mais se sentisse instável.
Eu abaixei o rosto.
— Mãe… por que ele faz tanto?
Ela segurou minhas mãos.
— Porque ele encontrou em você o que ele nunca teve: permanência. Rafael encontrou alguém que o enxergasse, filho.
O silêncio que se seguiu não era pesado. Era profundo.
— O amor de vocês — ela continuou — não é comum. É coisa de quem já se procurou antes.
Eu ri entre lágrimas.
— Vocês tiraram o dia pra me fazer chorar?
Ela beijou minha testa.
— Não. Só estamos confirmando o que você já sabe.
Eu sabia..Mas ouvir ainda era diferente.
Rafael narrando...
Voltei para a mansão no fim da tarde. O sol já estava mais baixo, espalhando aquele tom dourado que parece transformar qualquer coisa em promessa.
Eu respirei fundo antes de entrar. E encontrei silêncio. Subi as escadas devagar. Quando abri a porta do quarto, vi um envelope sobre a cama.
Meu nome. Na letra de Caio.
Meu coração acelerou de um jeito quase infantil. Sentei e abri.
“Para o homem que me ensinou a não desistir.”
Rafa,
Você escreve sobre ficar, mas foi você quem ficou primeiro.
Você ficou quando eu estava quebrado pela perda de um pai que eu nem conhecia direito.
Você ficou quando eu tremi no hospital.
Você ficou quando eu não sabia como lidar com a culpa, com o passado, com o medo.
Eu não sei amar pela metade.
E você também não.
Você me deu uma família.
Você me deu um futuro.
Você me deu o direito de sonhar sem pedir desculpas.
Eu sei que você carrega muita coisa dentro de você.
E eu sei que às vezes você precisa ir até a praia, até o mirante, até qualquer lugar onde o vento te lembre quem você é.
Mas saiba:
Eu sou seu porto.
Você pode ir.
Mas sempre vai ter para onde voltar.
Eu amo você com a força de quem sobreviveu ao caos.
E eu prometo:
Não importa o que aconteça, eu escolho você."
— Caio. Teu para sempre!
Eu não percebi quando as lágrimas começaram a cair.
A carta tremia levemente entre meus dedos.
— Droga… — murmurei, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Foi então que senti a presença dele. Levantei os olhos. Caio estava encostado na porta, me observando.
Não havia palavras naquele momento. Só verdade. Ele atravessou o quarto devagar.
Eu levantei. E quando ele me abraçou, foi como se tudo dentro de mim encontrasse o lugar certo.
— Eu sei exatamente como você se sente — ele sussurrou.
Eu apertei ele mais forte.
— Eu precisava respirar hoje…
— Eu sei.
— Eu precisava lembrar de tudo que a gente construiu.
Ele afastou o rosto apenas o suficiente para me olhar.
— Você nunca esteve sozinho, Rafa.
Eu toquei o rosto dele.
— Eu sei disso agora.
Nos beijamos devagar. Não era urgência. Era reconhecimento.
Tomando banho e descemos para jantar juntos.
Nossas mães conversavam sobre flores, lista de convidados, detalhes da cerimônia na praia.
— Nada extravagante — dizia Dona Eloísa — mas tudo significativo.
— Simples e verdadeiro — completava Dona Lúcia.
Caio segurava minha mão por baixo da mesa. E eu pensava que, depois de tudo que vivemos, simplicidade era luxo. Mais tarde, já no quarto, ele se aproximou enquanto eu estava sentado na cama.
— Você ficou muito tempo no mirante?
— Fiquei.
— Pensando?
— Em nós.
Ele sorriu.
— Eu também.
Nos deitamos lado a lado.
O quarto estava iluminado apenas pela luz suave do abajur.
— Você tem medo? — ele perguntou.
— De quê?
— De casar.
Eu ri baixo.
— Tenho medo de não merecer tudo isso às vezes.
Ele virou para mim.
— Você merece mais do que imagina.
Eu toquei a testa dele com a minha.
— Eu quero que a nossa vida seja leve.
— Ela vai ser — ele respondeu. — Porque a gente vai cuidar dela.
Ficamos ali, conversando por horas. Sobre a lua de mel. Sobre a viagem que ele escolheu. Sobre o futuro. Sobre nossos planos. Sobre filhos, talvez. Sobre envelhecer juntos.
E em algum momento, sem perceber, o cansaço venceu. Ele adormeceu primeiro. Eu fiquei observando.
Sempre que penso que já senti tudo o que podia por ele, algo novo nasce. Talvez amar seja isso: uma construção diária. E naquela noite, antes de fechar os olhos, eu tive certeza de uma coisa: Nós não estávamos apenas nos preparando para um casamento. Estávamos nos preparando para uma vida.
Alguns dias depois...
Eu achava que estava no controle da surpresa. Achava que estava conduzindo tudo. Achava que Caio não fazia ideia. E talvez, naquele momento, eu ainda não soubesse que o amor também tem seus pequenos teatros, e que ele, às vezes, gosta de fingir para preservar a magia.
A semana seguiu com uma leveza diferente. Depois daquele dia na praia, depois das cartas, depois das conversas profundas com as nossas mães, alguma coisa tinha se assentado dentro de nós. Não era apenas paz. Era maturidade.
Eu finalizei os últimos detalhes do apartamento em silêncio. Combinei tudo com mamãe. Ela me acompanhou na escolha dos últimos objetos: um abajur de luz quente para o quarto, uma mesa de madeira maciça para a sala de jantar, quadros com tons de azul, porque azul sempre lembrava o mar, e o mar sempre lembrava Caio.
— Ele vai chorar — ela disse enquanto observávamos o corretor entregar as chaves oficialmente.
— Eu espero que sim — respondi, sorrindo. — Eu quero que ele sinta que é dele.
Ela me olhou com aquele ar sereno que só mães muito sábias possuem.
— Ele já sente que você é dele, Rafael. Isso já é o suficiente.
Mas eu queria mais. Eu queria construir.
Na sexta-feira à noite, pedi que ele se arrumasse.
— Pra onde a gente vai? — ele perguntou, desconfiado.
— Confia em mim.
Ele fingiu reclamar.
— Você anda muito misterioso.
Eu beijei o canto da boca dele.
— Confia.
Ele suspirou.
— Tá bom.
Hoje eu sei que aquele suspiro era quase ensaiado. Entramos no carro. Eu dirigi sem dizer nada. Ele ficou olhando a paisagem pela janela, como se estivesse distraído, mas seus olhos estavam atentos demais.
Quando estacionei na frente do prédio novo, ele inclinou levemente a cabeça.
— O que é aqui?
— Vem comigo.
Subimos pelo elevador silencioso.
Meu coração estava acelerado. Eu nunca tinha sentido tanta expectativa. Parei diante da porta. Respirei fundo. Girei a chave. A porta se abriu.
A luz natural invadiu a sala ampla, com janelas de vidro que davam para o horizonte urbano. O cheiro de madeira nova ainda estava presente.
Eu virei para ele.
Caio levou a mão à boca.
— Rafa…
A voz saiu trêmula.
Ele caminhou devagar pela sala. Tocou o sofá. Passou os dedos pela mesa. Olhou para mim como se estivesse à beira de desmoronar.
— Você… comprou isso?
Eu sorri, com o peito inflado de amor.
— É nosso.
Ele deu alguns passos até mim.
Os olhos brilhavam.
— Nosso?
— Nosso. Pra gente começar a nossa vida como casal. Com privacidade. Com espaço. Com liberdade.
Ele respirou fundo.
— Eu não sei o que dizer…
E então ele fez algo que, naquele momento, eu interpretei como pura emoção: me abraçou com força, enterrando o rosto no meu peito.
— Eu não acredito que você fez isso.
Eu acariciei o cabelo dele.
— Eu faria tudo por você.
Ele se afastou, ainda com os olhos marejados.
— Você já faz.
Ele percorreu o apartamento como se estivesse descobrindo um território sagrado. Entrou no quarto. Sentou na cama. Passou a mão pelo lençol.
— Você pensou em tudo…
— Em você.
Ele virou o rosto, como se tentasse conter as lágrimas.
— Eu sempre quis um lugar assim.
Eu me aproximei.
— Eu sei.
— Como?
Eu ri.
— Porque eu te escuto.
Ele me beijou. Devagar. Grato. Profundo. Só mais tarde, naquela mesma noite, eu descobriria que aquele teatro tinha sido encenado com maestria. Mas naquele momento, eu só via amor.
Voltamos para a mansão já tarde. No quarto, ele parecia ainda emocionado.
Sentou na cama e me puxou pela camisa.
— Você me surpreende todos os dias.
Eu toquei o rosto dele.
— Era isso que eu queria. Te surpreender.
Ele abaixou os olhos por um segundo. E então sorriu. Um sorriso diferente. Quase cúmplice.
— Você conseguiu.
Eu não percebi nada. Ainda não.
No dia seguinte, enquanto eu estava na cozinha com Dona Eloísa, ela me olhou com um ar divertido.
— Ele fingiu bem, não foi?
Eu franzi a testa.
— Quem?
— Caio.
Eu parei.
— Fingiu o quê?
Ela riu baixinho.
— Eu contei pra ele.
Eu fiquei imóvel.
— Você… contou?
— Ele estava inseguro esses dias. Achando que você estava distante demais. Eu só disse que você estava preparando algo bonito.
Meu coração disparou.
— Então ele sabia?
— Sabia. Mas decidiu não tirar de você o prazer da surpresa.
Eu fiquei em silêncio.
Uma mistura de indignação e admiração me atravessou.
— Ele fingiu não saber?
— Fingiu. E fez isso por você.
Eu respirei fundo. Deus!
Como eu pude amar tanto alguém que ainda conseguia me surpreender assim? Subi as escadas.
Encontrei ele no quarto, mexendo no celular.
Cruzei os braços.
— Você sabia.
Ele levantou os olhos.
Tentou manter a expressão neutra.
— Sabia o quê?
Eu estreitei os olhos.
— Do apartamento.
Silêncio. E então ele riu.
Uma risada leve, rendida.
— Dona Eloísa não sabe guardar segredo.
Eu balancei a cabeça, incrédulo.
— Você fingiu.
Ele se levantou.
Veio até mim.
— Eu queria que você tivesse aquele momento.
— Então você chorou por atuação?
Ele colocou a mão no meu peito.
— Não. Eu chorei porque era real. Só já sabia que vinha algo. E eu amei cada detalhe, Rafa.
Eu não consegui evitar o sorriso.
— Você é impossível.
Ele deu de ombros.
— Eu só queria ver seus olhos brilharem.
Eu o puxei pela cintura.
— Você fez isso por mim?
— Sempre.
Eu encostei a testa na dele.
— Eu acho que te amo mais do que é saudável.
Ele riu.
— Ainda bem que amor não tem limite médico.
Eu beijei ele. Dessa vez mais profundo. Com gratidão. Porque amar alguém que ama assim é um privilégio raro.
Naquela noite, deitados lado a lado, ele confessou em voz baixa:
— Eu fiquei imaginando como seria a nossa vida lá.
— E como é?
— Silenciosa. Intensa. Nossa.
Eu segurei a mão dele.
— Você não precisava fingir.
Ele virou o rosto para mim.
— Precisava sim. Às vezes, a gente precisa fingir que não sabe pra deixar o outro feliz.
Eu fiquei pensando nisso por muito tempo. O amor não era só entrega. Era também escolha consciente de proteger o encanto.
E naquele momento eu entendi uma coisa: eu tinha planejado uma surpresa para Caio. Mas ele tinha me dado algo maior. Ele me mostrou que o amor dele não era apenas sentimento.
Era intenção. Era cuidado. Era delicadeza. E talvez, no fim das contas, a verdadeira surpresa não fosse o apartamento. Mas descobrir que ele estava disposto a pregar peças para me ver feliz (Risos).
