Capítulo 03 - ENTRE A TRISTEZA E A CURIOSIDADE

Um conto erótico de NASSAU & ID@
Categoria: Heterossexual
Contém 5631 palavras
Data: 12/02/2026 12:02:03

Principais Personagens:

Blanche Leblanc (https://postimg.cc/s19x9kWV)

Hamdi Moreau (https://postimg.cc/ZBzY6HK)

Só de brincadeira:

Blanche e Hamdi (https://postimg.cc/svgjPvy5)

Stravos e Ioannis (https://postimg.cc/hJTc4m8L)

Continuando ...

Tarnos, França, dezembro de 1938

Era uma sexta-feira, dia vinte e quatro de dezembro e a mansão à beira do Rio Adour tremia com a agitação de seus moradores se preparando para os festejos de Natal, mas a preocupação maior de Pierre não era o que seria servido na ceia, qual vinho estaria na taça dos poucos convidados ou se a discussão entre Aimée e Michel sobre o tamanho da árvore de Natal não ser o que eles queriam. Ela achava que era grande demais e ele, que vencera a discussão, continuava a ser atacado pela irmã com a acusação de ter atravancado a sala com aquele mostrengo, que era como ela se referia ao trabalho dele.

A preocupação de Pierre era com seu irmão Bernard e a filha dele, sua sobrinha Blanche. Já fazia vinte e dois dias que eles haviam chegado e, apesar das tentativas, suas e de seu amigo Gerard, ambos permaneciam a maior parte do tempo fechados em seus quartos e evitavam qualquer tipo de contato.

Quanto ao irmão ele conseguia entender. Afinal, ele perdera a esposa em condições terríveis e, sabedor que era de tudo o que ele abriu mão por amor à Sarah, era normal que sua dor o impedisse de buscar um relacionamento familiar e imaginar o que fazer da vida. Pensando assim, o Marquês resolveu esperar que o tempo curasse as feridas de Bernard.

Mas, com relação à Blanche, não acontecia o mesmo. Ele não entendia como ela, apesar do trauma, sendo jovem e cheia de vida, se isolasse e teimasse em não aceitar a presença das pessoas que tentavam se aproximar dela. A seu pedido, os filhos de Gerard, Michel e Aimée, gêmeos com vinte e três anos de idade, tinham feito de tudo, porém, todos os esforços desses, também não serviram de nada para tirar a garota do casulo em que se fechara.

Já irritado com o seu fracasso em fazer com que sua sobrinha voltasse a ser aquela garota que tanto gostava de sua companhia, ele se atreveu, pela primeira vez, a ir até o quarto dela para uma conversa. Quando lá chegou, a porta não estava trancada e tinha uma abertura de uns vinte centímetros por onde ele pode ver Blanche de costas. Ela estava sentada diante de uma escrivaninha e tinha alguma coisa na mão.

Não querendo invadir a privacidade dela, bateu com os nós dos dedos na porta e estranhou a reação da garota que, antes de se virar para ver quem estava desejando entrar em seu quarto, jogou algo que tinha na mão na segunda gaveta da mesa que estava aberta e depois a fechou, só se levantando depois disso e, ao ver que era seu tio quem tinha batido a porta, disse com o seu jeito desanimado que se tornara comum:

– É você, tio? Deseja alguma coisa?

Pierre sorriu, deu com os ombros e Blanche não pode deixar de notar que, naquele sorriso, não existia nenhuma alegria. Como ela permaneceu parada esperando pela resposta, ele disse:

– Quero conversar com você. Posso entrar?

– Lógico, tio. Desculpe minha falta de educação. Entre, por favor.

Murmurando palavras para tentar minimizar a culpa demonstrada pela sobrinha em não ter tomado a iniciativa, ele entrou e se sentou em uma poltrona que havia diante da escrivaninha e Blanche voltou a ocupar a cadeira onde estava antes. Ficaram ali olhando um para o outro em um exame, não de aparência, mas de expressões. Pierre querendo enxergar o que estava deixando sua sobrinha tão triste, e ela, se ele tinha alguma notícia da Alemanha, pois recebera a promessa dele que mandaria alguém até lá para descobrir o que acontecera com sua mãe e seu irmão.

– Blanche, vim aqui porque estou precisando de um favor seu – Falou Pierre finalmente quebrando o silêncio que já se tornava constrangedor.

– Sim, tio. É só pedir que, se estiver ao meu alcance, farei com prazer.

Pierre abriu a boca para falar. Sua intenção era pedir para que ela saísse de seu habitual mutismo e se entrosasse com as pessoas que moravam naquela mansão. Entretanto, antes mesmo de abrir a boca, percebeu que isso seria inútil. Procurou, em sua mente, por algo que pudesse despertar interesse na garota e, tirando de um canto de sua cabeça, disparou:

– É sobre essa garota que você trouxe para cá. Precisamos decidir o que vamos fazer com ela.

– Como assim? O que o senhor quer dizer com “fazer com ela”?

– Não sei. Ela precisa seguir o caminho dela. Voltar para a vida que tinha antes ou, sei lá, talvez voltar para o país que nasceu.

– Voltar a ser uma puta? É isso que o senhor quer dizer? Isso ou então voltar a um local para passar fome e ser abusada?

A voz alterada de Blanche e o fato de ela usar a palavra ‘puta’ na frente dele fez com que Pierre percebesse que tinha irritado à sua sobrinha o que significava um mau começo. Então tentou consertar:

– Não! Não é isso. Olha, ela pode decidir o que quer fazer da vida dela. Qualquer coisa que ela escolher eu dou apoio e dinheiro para que ela não passe necessidades.

– Entendi! O senhor quer que ela vá embora daqui. Só não entendi o motivo. Seria por ela ser negra ou por ser ter sido obrigada a se prostituir?

– Não, Blanche. Você sabe que eu não sou preconceituoso. Mas a vida tem que seguir seu curso. Veja você? Fica o dia inteiro dentro desse quarto, mal se alimenta. Olha só como você está magra! E enquanto você fica aqui ela perambula pela propriedade sem saber direito o que fazer. Tudo o que ela faz é perguntar como você está e, quando a inquiri se queria vir conversar com você ela se recusou. E é justo que ela siga a vida dela do jeito que ela quiser.

– E você já perguntou sobre isso para ela?

– Perguntar o que?

– O que ela quer fazer da vida dela?

– Não. Ainda não toquei nesse assunto. Achei que seria melhor deixar para você resolver isso com ela.

Aquela informação fez com que Blanche ficasse pensando. A notícia de que Hamdi não estava normal, pois ela não era de ficar parada e estava sempre conversando, rindo e fazendo os outros rirem lhe chamou a atenção. E o fato de a garota somali ter perguntado por ela também mexeu com seu íntimo.

Blanche se perguntou por que ela estava tão zangada? Lógico que a dor da perda da mãe e do irmão, além da traição desse último e, pior ainda, a do namorado, era algo que a deixava muito triste. Mesmo assim, isso era algo que ela deveria saber administrar melhor, mesmo porque, seu pai estava precisando de ajuda e ela estava tão abalada que nem se lembrou de perguntar de dele para seu tio.

Ou seja, não era só a dor. A dor teria feito com que ela ficasse triste, porém, não abandonaria seu pai e tampouco ficaria fechada no quarto o tempo todo. Ela estaria cabisbaixa, triste, porém, não agindo como se o mundo tivesse se acabado.

Se não era apenas a dor, então o que seria?

A essa pergunta ela tinha a resposta na ponta da língua. Ela sabia exatamente o que a deixara assim tão revoltada que até ver gente era um trabalho árduo. Só que era algo que ela não tinha coragem de contar a ninguém. Aliás, ela não gostava nem de pensar que seu isolamento auto aplicado era para que isso não acontecesse, pois sabia que só de ver Hamdi tudo o que aconteceu viria à tona.

Naquela madrugada, seguir Hamdi na floresta ainda na Alemanha não foi um impulso. O que aconteceu foi que não confiava plenamente na garota porque ela era solícita demais e útil além da conta e isso podia significar que ela pretendia entregar a ela e ao seu pai aos alemães para obter algum favor deles, entretanto, ao assistir a cena protagonizada por ela ao gozar dizendo seu nome, algo nasceu em seu íntimo. Algo que ela não sabia existir.

Para ela, que meses antes ainda era virgem, conhecera o sexo com seu namorado e nunca foi sequer tocada por outro homem a não ser ele, a reação de seu corpo foi algo que não conseguia entender. Sua mão, deslizando para dentro de sua saia e tocando sua buceta parecia que tinha vida própria ao ser guiada pelos instintos e o sentimento de prazer uma coisa pecaminosa demais para ser imaginada. Pior de tudo é que ela gostou do que viu e do que fez.

E depois vieram os seis dias em que ficaram em Estrasburgo. Se já era difícil entender o que acontecera durante a fuga naquela floresta na Alemanha, não havia como assimilar o que aconteceu naquela cidade enquanto tentava se comunicar com seu tio para pedir ajuda.

Nesse ponto de seus pensamentos, Blanche foi interrompida por Pierre que chamou sua atenção:

– Blanche ... Hei, menina. Eu ainda estou aqui. Você não quer mais conversar comigo? Quer que eu saia?

“Aterrizar” no planeta Terra, naquele momento, depois de ter seu pensamento viajado para um passado recente e por terrenos nunca visitados, faria com que Blanche jamais fosse a mesma, ela gaguejou ao responder ao tio:

– Aí, de ... esculpa. Ti ... tio. O que o ... O que o senhor estava falando mesmo?

– Nada. Eu não disse nada. É que ao ver você com a cabeça tão longe daqui, perguntei se você quer que eu saia e ...

– Não! Por favor, não. Fique aqui. Vamos conversar.

Entretanto, nesse momento Pierre já estava em pé na sua frente. Ele se dobrou para poder depositar um beijo em seus cabelos e saiu enquanto falava:

– Deu para notar que você está carregando muitos conflitos e não quer falar sobre eles. Quando mudar de ideia e quiser conversar com alguém, saberá onde me encontrar.

Com um olhar de quem tinha entendido o drama de sua sobrinha, Pierre saiu do quarto sem olhar para trás e não precisou de trinta segundos para que a mente de Blanche voltasse a divagar, voltando aos detalhes do que aconteceu com ela depois de escapar da Alemanha.

Foram necessários outros seis dias para que Blanche, seu pai e Hamdi pudessem abandonar Estrasburgo com direção à Paris. Essa demora se deu em virtude da dificuldade que encontraram para falar com Pierre que não foi encontrado em lugar algum, só sendo localizado com a ajuda de Grace, uma mulher gentil, porém, muito firme, que se apresentava como secretária dele, o que a jovem fugitiva acatou como sendo uma verdade, pois quando finalmente conseguiu um contato telefônico com ela, Grace se encontrava no escritório das empresas da família Leblanc em Paris.

A informação que recebera era que Pierre se encontrava em uma fazenda que ficava na região rural de Tarnos, uma pequena cidade próxima na região sudoeste da França e, para entrar em contato com ele, seria necessário marcar um horário, pois a casa onde estava no momento, não dispunha de um telefone. Combinaram que Blanche deveria ligar no dia seguinte. Ela concordou e, quando ligou novamente, recebeu um número de telefone e, junto com ele, instruções do horário que deveria fazer a ligação, ainda na tarde daquele mesmo dia.

Feita essa nova ligação, a conversa entre tio e sobrinha foi muito difícil. A comunicação estava muito ruim por causa dos ruídos, ela estava muito emocionada e sequer conseguia falar direito e Pierre, que no início da ligação se mostrara muito ansioso, logo se irritou com essas dificuldades. A única coisa de útil na ligação foi que eles conseguiram se fazer entender para, pelo menos, ficar combinado de que Pierre iria até onde Blanche estava para buscá-la.

Durante todos esses dias, Bernard quase não viu sua filha. Ela estava muito ocupada em sua tentativa de conseguir contato com seu tio Pierre e ainda tinha que lidar com os homens que ocupavam aqueles barcos e se transformaram em seus salvadores. Dos cinco, dois simplesmente desapareceram e ela só ouviu seus nomes citados algumas vezes e sequer se preocupou em memorizá-los.

Os outros três eram Andreas, aparentando estar na casa dos quarenta anos, Stravos e Ioannis. Esses dois últimos eram filhos de Andreas e gêmeos, sendo impossível para ela saber quem era quem. Dos três, sempre havia pelo menos dois à sua volta, como se estivessem exercendo uma vigília sobre ela.

Sua sorte era que, em suas prolongadas ausências, Hamdi não arredava pé do lado de Bernard que, no momento seguinte ao que foram salvos, se fechou em si mesmo como se fosse uma ostra e se isolou de tal forma que a única pessoa que conseguia se comunicar com ele era a garota africana, o que provocou ciúmes em Blanche que comentou:

– Por que meu pai não fala comigo? Por que ele só escuta a você?

Hamdi ficou pensando antes de dar uma resposta, porém, o que preocupou Blanche não foi isso, mas sim a expressão de malícia que ela mostrava em seu rosto trigueiro. Quando já estava para explodir, finalmente Hamdi falou com um sorriso nos lábios:

– Acho que é porque você está muito ocupada cuidando dos gregos.

– Que gregos?

– Aqueles dois monumentos ali. Disfarça que eles estão olhando pra você como sempre fazem. Um deles está até babando.

– Pare com isso, Hamdi. Não estou para brincadeiras. E são eles que não saem do meu lado.

– Tudo bem. E aí? Me conta. Foi bom?

– Bom o que, garota? Do que é que você está falando?

– Dos gregos, ué. Foi bom? Eles são bons na cama?

Blanche explodiu:

– Não seja idiota, menina. Não aconteceu nada. Imagine! O que você pensa que eu sou? Acha que sou você para sair me atirando nos braços de qualquer homem?

Assim que terminou a frase, Blanche se deu conta de que tinha sido muito rude na resposta. Ela ia se desculpar do que havia dito para a garota quando percebeu que a outra não havia se indignado com as palavras dela. Como um olhar malicioso, Hamdi disse:

– Mas, não são quaisquer homens, Blanche. São deuses gregos.

– Eles nem gregos, são. São cipriotas.

– Não seja boba. Você me entendeu. Afinal, cipriotas, gregos, turcos. Quem se importa com isso quando se está na frente de dois monumentos como esses? E ainda por cima tinha que ser dois? E mais, idênticos!

Não fosse o fato de estar constrangida com o rumo que aquela conversa estava tomando, Blanche teria rido do gesto que Hamdi fez ao falar dos gêmeos, abanando a mão na frente do seu rosto como se estivesse tentando amenizar o calor que sentia. Ainda séria e um pouco irritada, falou com energia:

– Pra mim chega. Vou sair daqui. Você só fala besteira mesmo!

– Você está certa. Eu devia era parar de falar besteira e começar a fazer besteira. Olha só, quando você enjoar deles, você me empresta um pouquinho?

– VÁ A MERDA, HAMDI!

Ao som da risada de Hamdi que ecoava atrás dela, Blanche saiu do quarto em que estava pisando duro, porém, ainda deu tempo de ouvir a outra falar entre risos:

– Wow! Die sind so lecker, ich würde beide nehmen. Und zwar gleich zusammen, damit keine Zeit verloren geht. (Nossa. São tão gostosos que eu pegava os dois. E os dois juntos para não perder tempo).

– Eu ouvi isso, sua devassa. Eu falo alemão, lembra? – Gritou ela sem olhar para trás e sem saber que os dois rapazes que a tudo ouviam também falavam o idioma. Pela expressão de surpresa deles, isso ficava bem claro.

Novamente o que se ouviu foi a gargalhada da garota somali, enquanto Blanche se afastava sentindo um mal-estar que a invadiu quando a garota disse aquela frase e ela, imediatamente, imaginou a cena em que Hamdi se contorcia em gozos sucessivos enquanto aqueles dois jovens faziam de tudo para agradá-la. Isso a deixava confusa, pois embora seu instinto obrigasse sua mente a não pensar naquela situação, seu corpo a contrariava reagindo de forma totalmente diferente.

Ao se afastar de Hamdi, Blanche foi ao encontro de Andreas que aguardava por ela. Aquele era o dia marcado para ela falar com seu tio Pierre por telefone e a única forma de fazer isso era ir até a central telefônica da cidade e solicitar a ligação.

Infelizmente, por problemas na comunicação, Blanche demorou mais que esperava e quando voltou para a casa de Andreas já era noite. A primeira coisa que ela fez foi procurar por seu pai e o encontrou sentado em uma varanda com o olhar perdido no infinito. Perguntou como ele estava se sentindo e obteve respostas em forma de resmungos dando a entender que estava bem.

Depois começou a relatar o resultado de sua ligação para Pierre, mas logo notou que o pai não demonstrava o menor interesse. Era como se, para ele, não houvesse diferença entre ficar ali, ir ao encontro do irmão ou voltar para a Alemanha. Parecia que Bernard tinha perdido o interesse por tudo que existia nesse mundo.

Com um nó na garganta e se controlando para não chorar, Blanche o deixou sozinho e, quando estava se retirando, perguntou para ele:

– Papai, o senhor viu a Hamdi?

A resposta foi outro resmungo, mas o balançar da cabeça indicava que esse foi um resmungo de “não”. Então foi até a cozinha onde a esposa de Andreas preparava a janta para o marido e para ela e perguntou:

– A senhora viu a Hamdi?

Sem olhar para ela, a mulher respondeu:

– Vi, mas já faz tempo. Ainda estava claro quando a vi indo na direção ao rio.

Blanche olhou para o caminho que levava ao rio e resolveu ir até lá, mas mudou de ideia quando a mulher voltou a falar:

– Não saia agora. Já vou servir o jantar. Espere.

Por educação, ela resolveu ficar e logo se arrependeu porque demorou muito. O atraso foi porque ela, por educação, se recusou a jantar antes que Andreas, que tinha ido tomar banho, esperando até que ele voltasse e ele demorou mais que o esperado. Meia hora depois, ela estava começando a se alimentar quando perguntou:

– E seus filhos? Eles não vão jantar?

– Eles já jantaram. – Respondeu a mulher e completou: – Não sei o que deu naqueles meninos. Eles estavam com uma pressa de jantar hoje!

– E aonde eles foram?

– Com certeza foram atrás da sua amiga. Aqueles dois agem como se vocês duas fossem as únicas mulheres do mundo! Daqui a pouco vão descobrir que você já voltou e virão até aqui. São uns bobos.

A boca de Blanche permanecia aberta enquanto ela segurava o garfo próximo a ela. Foi como se, de repetente, ela tivesse se transformado em estátua. Mas isso por fora, pois internamente seu coração batia acelerado e ela sentia o sangue martelar em seu cérebro. Então soube que não conseguiria engolir mais nada com aquelas borboletas revoando em seu estômago enquanto pensava:

“Não acredito que aquela vadia estava falando a sério. Ela vai ver só”.

E anunciou para Andreas e sua esposa:

– Obrigado pelo jantar. Olha! Não estou me sentindo muito bem. Preciso ir me deitar.

Dizendo isso, ela saiu da casa quase correndo. Em sua pressa, ela não percebeu que tinha tomado o caminho do rio e não para o quarto que estava ocupando, o que fez o casal de anfitrião trocar um olhar e a mulher dizer com uma voz cheia de orgulho:

– Parece que temos um problema aqui. Não sei por que, afinal, eles são dois e basta saber dividir.

– Não interfira na vida dos outros, mulher. Cuide de sua obrigação e me sirva mais um pedaço desse carneiro.

Blanche foi apressando seus passos até que, sem perceber, estava correndo. Chegou até a margem do rio e se viu em um gramado que ia até água, onde as pessoas ficavam tomando sol durante o dia, porém, naquele horário não havia ninguém ali. Continuou andando e, quando não encontrou o que procurava, virou para a direita e começou a caminhar em direção às árvores que ficavam no ponto em que o gramado acabava. Porém, antes de chegar até elas, ouviu vozes masculinas e risos vindo em sua direção. Parou e aguardou.

Eram Stravos e Ioannis. Eles vinham felizes, mesmo sob o peso de um enorme gamo que abateram e carregavam pendurado em uma vara, cujas extremidades estavam apoiadas nos ombros de cada um deles. Blanche nunca sabia quem era quem diante da semelhança entre os dois e perguntou sem se dirigir a nenhum deles que, naquele momento, tinham parado e estavam olhado para ela como se estivessem diante de uma fada que tinha surgido ali como por encanto:

– Onde está a Hamdi? O que vocês fizeram com ela?

O tom da pergunta feita de forma brusca, juntado a expressão de raiva que a garota exibia, deixaram os rapazes confusos e com muito custo um deles, respondeu:

– Não sei. Desde que você saiu que nós não a vimos.

– Você está mentindo, Stravos! Cadê ela? Fala logo ou vou chamar a polícia.

– Calma, moça. Nós não a vimos hoje. Eu juro. E eu não sou o Stravos, sou o Ioannis.

– Não acredito em vocês. Vou ... Vou ...

A voz de Blanche sumiu quando ela ouviu a voz suave de Hamdi às suas costas:

– Blanche! O que você está fazendo aqui?

Olhando para trás, ela viu Hamdi caminhando em sua direção, porém, vindo de um ponto diferente daquele de onde surgiram os gêmeos, pois era o mesmo que ela usara para chegar até ali.

– Hamdi! Onde você estava. Pensei que você ... Pensei que ...

Enquanto falava, Blanche alternava seu olhar entre Hamdi e os dois rapazes o que fez com que a morena entendesse a preocupação dela e falou:

– Pensou o que? Que eu estava com esses dois? E fazendo o que? Trepando?

A espontaneidade de Hamdi era tamanha que ela sequer se preocupou com o fato de os dois jovens estarem ouvindo a conversa que ela tinha com sua amiga na hora que fez as perguntas. Só que Blanche ficou tão constrangida com aquilo que ela não pode deixar de notar e, com um sinal, Hamdi pediu para que os dois se afastassem dali e as deixassem sozinhas. Quando teve a certeza de que eles não podiam mais ouvi-la, se aproximou mais de Blanche e falou com uma voz que atingia os ouvidos da outra como se fosse uma carícia:

– Isso tudo é ciúme, não é? – E sem esperar que ela respondesse, continuou: – Sua boba. Não precisa ficar com ciúme de mim. Tudo o que eu quero agora é poder beijar você, beijar todo o seu corpo, sentir sua pele macia e seu gosto. Ando sonhando com isso, sabia?

– Não fala assim, Hamdi. A gente não pode.

– Não? Por que não? Eu quero e sei que você também queria. Então, o que impede a gente de ...

– É que isso é ... tão errado?

– Errado é você pensar assim. Veja bem, eu vi você naquela noite lá no mato, você sabia?

Aquela revelação foi um choque para Blanche. Foi como se o segredo mais escondido fosse revelado. E o pior é que ela não conseguia encontrar palavras para negar, pois tudo o que pensava em falar travava quando tentava, ficando preso em sua garganta. Foi Hamdi que continuou:

– Eu vi que você me olhava. Vi que quando eu gozei você levou a mão e apertou seus peitinhos. Vi quando você enfiou a mão por baixo de sua saia e se tocou e depois levou seus dedos à boca, assim como tinha visto eu fazer. Nossa, minha vontade naquela hora foi a de ir até você e chupar os seus dedos. Melhor ainda. Chupar o lugar onde seus dedos tinham ido buscar aquele mel que você tanto gostou.

As pernas de Blanche se transforam em geleia. Nunca em sua vida ela tinha se sentido assim. Nem mesmo quando caminhava para aquela praia na França ao lado de Kurt sabendo o que aconteceria quando chegasse lá. Então o inevitável aconteceu e ela perdeu o equilíbrio, só não desabando sobre a grama porque foi amparada por Hamdi que evitou a sua queda, mas não impediu que ela se deitasse sobre a grama enquanto se deitava sobre seu corpo que tremia.

Suas bocas ficaram perto e o hálito de uma queimava a pele do rosto da outra enquanto seus olhos permaneciam presos uns nos outros. Hamdi ainda receava dar o primeiro passo pois temia que Blanche a expulsasse, não só daquele lugar, mas de sua vida. Então disfarçou todo o seu desejo atrás de um sorriso que tinha a pretensão de ser divertido.

Blanche, olhando aqueles olhos brilhantes e tão próximos dela ainda teve tempo de perceber que eles, embora fossem castanhos, naquele momento estavam mais claros e refletiam em um tom dourado como ouro velho. Mas sua mente entrou em parafuso quando olhou para os dentes pequenos e brilhantes que surgiam atrás dos lábios repuxados da garota. Sem conseguir mais se conter, falou com voz embargada pelo tesão:

– O que você estava dizendo? O que você queria fazer comigo mesmo?

– Eu queria chupar os se ...

– Cale a boca, Hamdi. Não é para responder, é para me beijar. – Disse Blanche com uma coragem que nem ela mesma sabia que possuía.

Não houve espaço para pensar no que era certo ou errado, pois para aqueles dois corpos estendidos na grama, não havia mais nada a não ser o desejo que as atraía uma para a outra. O beijo foi longo e não demorou para que as mãos de Hamdi começassem a explorar o corpo de Blanche que gemia a cada toque enquanto se movimentava no sentido de ficar mais disponível para a outra e gozou no exato instante em que as mãos hábeis da africana subiram por suas coxas trazendo com ela a saia e tocou sua bucetinha protegida apenas pelo tecido da calcinha de algodão.

Completamente desvairada, Blanche erguia o corpo tentando pressionar qualquer parte do de seu corpo contra o da amante, não importando qual fosse. Para ela, bastava sentir o contato. Mas encontrava dificuldade porque Hamdi estava preocupada com a repercussão do que estava para acontecer e se afastou dela desfazendo o beijo. Depois falou:

– É muito arriscado ficar aqui. Vem. Vamos para o nosso quarto.

Elas ocupavam um único quarto por insistência de Blanche, pois Andreas ofereceu a ela um quarto exclusivo. Esse quarto ficava dentro da casa e elas poderiam ser ouvidas, o que fez com que Blanche respondesse:

– Melhor não. Vão nos ouvir.

– É só não fazer barulho.

– Mas tudo o que eu quero é fazer barulho. Hoje eu quero tudo. Por favor, faça amor comigo sem limites. Eu tenho tanta vergonha, mas agora que começamos, eu não quero parar. Nunca.

Hamdi olhou a volta e viu que estavam apenas as duas. Examinou melhor e percebeu que, indo em direção às árvores, ficariam fora da vista de alguém que passasse pelo local. Então ela falou enquanto se levantava:

– Vem comigo. Vamos ali para baixo daquelas árvores. Vamos fazer naquele mato o que devíamos ter feito na outra noite.

– Sua safada! O que você queria fazer comigo, hein?

– Queria? Não! Você está errada. Eu quero chupar você todinha. Quero devorar esse seu corpinho. Quero beber todo o suco que essa sua bucetinha puder me dar. Anda, vamos logo senão eu vou morrer de tesão aqui.

– Credo, Hamdi. Assim eu fico com vergonha.

– Quero ver essa vergonha quando você estiver gozando.

Antes mesmo de atingirem o local onde havia as árvores as duas se atracaram em um beijo e só chegaram aonde pretendiam porque, enquanto se beijavam, iam se arrastando naquela direção.

Para Blanche, foi como se as comportas que represavam os desejos que sequer deveriam existir se abrissem e arrastassem todo seu corpo em direção à uma entrega completa. Era como se não fosse ela que estava ali, pois havia momentos em que tinha a sensação de estar fora do seu corpo assistindo sua entrega àquele momento, enquanto Hamdi retirava lentamente cada uma das peças de roupa que usava e, a cada parte de seu corpo que era revelado, um tempo era gasto para que ele fosse beijado e devidamente degustado, para no momento seguinte sentir-se explodindo em um orgasmo tão intenso que a sensação era que flutuava no espaço. Quando finalmente se viu livre da calcinha, a boca de Hamdi se aproximou, ela sentiu o hálito cálido da amiga atingir sua buceta e sentiu o calor daquele sopro morno e gentil como se fosse algo sólido tocando sua intimidade.

Naquele momento, seus sentidos estavam tão ligados que percebeu o contato da língua áspera da garota em sua buceta antes mesmo de isso acontecer e, quando aconteceu de verdade, sentiu a língua deslizar de um lado para outro, forçando seus grandes lábios a se abrirem e assim poder tomar posse de seu grelinho que reagiu de uma forma estranha, revelando querer receber aquele toque, pois, parecendo ter vida própria, ficou inchado como se procurasse pelo contato daquela língua, mas quando isso acontecia se retraia em um desejo de se livrar daquela posse que, em virtude da alta sensibilidade, não suportava o contato.

Entre gritos transformados em sussurros pelos beijos intensos que recebia em sua boca, Blanche aprendeu a diferença entre um orgasmo com um garoto que tinha como principal preocupação o seu próprio prazer e com aquela garota que, embora mais nova que ela, estava ali para lhe dar prazer e sabia exatamente o que fazer para que isso acontecesse.

Foi tão intenso que, quando acabou, Hamdi teve que ampará-la no caminho de volta. Mas o desejo foi maior que qualquer receio de ser descoberta. Durante aquela noite, praticamente obrigou Hamdi a repetir o ato por mais de uma vez, obtendo ainda mais prazer ao ter sua boca coberta pela mão firme de Hamdi, ou então mordendo o travesseiro para não acordar a todos na casa.

Abriu os olhos na manhã seguinte com o mundo sorrindo para ela e a fazendo sentir como se as mazelas recentes pelas quais passara tivessem acontecido há muito tempo. Entretanto, naquele momento se lembrou que havia algo que ainda a perturbava e impedia que sua paz fosse plena, pois, ainda durante a noite, quando tentou retribuiu o prazer que recebia fazendo em sua amante o mesmo que ela fizera, foi impedida pela garota que, tentando ser professoral, explicou à Blanche que ela ainda não estava pronta para fazer aquilo.

Assim que se levantou da cama, revirou uma mochila de onde retirou uma foto de Kurt e ficou olhando para ela tentando entender o sentimento que a invadia. Sabia que não era amor, mas também não era ódio. Era como se estivesse olhando para algo que representava o que ela entendia ser o maior erro de sua vida.

Pouco tempo depois, ouviu Hamdi se mexer ao seu lado indicando que também estava acordando, voltou a guardar a foto apressadamente e bastou isso para tirar o jovem alemão de seu pensamento, ajudado pelos lábios da jovem africana que corria por seus ombros em direção à sua nuca.

Entretanto, logo depois de saírem do quarto, a alegria de Blanche foi toldada pela reação dos cipriotas que a olhavam com um sorriso de mofa e paravam de falar quando ela entrava no ambiente, indicando que ela fazia parte do assunto e que sua pequena aventura, que era para ser segredo absoluto, já era do conhecimento de todos.

Sem estar preparada para isso, a garota começou a ficar preocupada com o que as pessoas iam dizer dela e fez algo que provou que Hamdi estava certa quando disse que ela não estava preparada para um relacionamento daquela espécie, pois começou a tratar à garota com hostilidade, em uma tentativa de transferir para ela toda a culpa do que tinha acontecido.

Essa reação de Blanche feriu demais Hamdi. Porém, ela já estava acostumada a ser rotulada de puta e ser usada como se fosse um objeto. Por isso não a confrontou. Em vez disso, aceitou o afastamento imposto por Blanche e passou a se preocupar somente com o bem-estar de Bernard.

O dia seguinte passou sem nenhum acontecimento e no outro Pierre chegou para buscá-los, os levando para sua mansão em Tarnos.

O comportamento que Blanche assumiu desde que chegou à mansão era em virtude dos sentimentos contraditórios que a invadiam. Ela se sentia estranha por ter transado com uma mulher e mais estranha ainda por ter gostado, o que lhe dava o desejo de repetir e, sabendo não ser isso possível, mantinha distância de Hamdi com medo de não ter forças para resistir. Em seus sonhos durante as noites, o roteiro era sempre o mesmo. Hamdi compartilhando de sua cama e ela, assumindo o controle, proporcionava à garota os mesmos prazeres que tinha sentido.

Depois de reviver, em pensamento, todos esses acontecimentos, Blanche se convenceu de que seu afastamento não estava resolvendo nada, pois seu corpo ainda queimava de desejo. Também fez um exame de consciência e viu que estava deixando seu pai aos cuidados de outros, quando na verdade era sua obrigação cuidar dele. E tinha que ser forte e resistir ao anseio, pois não poderia viver o resto de sua vida fugindo.

Algumas horas depois, quando todos estavam reunidos em volta de uma mesa repleta de pratos preparados especialmente para a ocasião, os presentes foram surpreendidos por Blanche que, simplesmente linda, vestida com uma elegância que ela mesma não sabia ser possível e com um sorriso no rosto, desceu as escadas enquanto era admirada por todos que a olhavam sem dizer uma palavra até que ela quebrasse o silencio dizendo:

– E então, pessoal. Vamos degustar essa deliciosa ceia ou vão ficar me olhando a noite toda? – E depois, olhando para Pierre: – Tio, faça o favor de abrir o champanhe.

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