Júlia é evangélica. Não evangélica ocasional, mas terrivelmente evangélica. De pai, mãe e parteira. Deve ter por volta dos vinte anos, mas se veste como uma matrona de cinquenta: blusa de mangas compridas, decote inexistente, saia (muito) abaixo do joelho. Cabelo eternamente preso num coque. Não diz duas frases sem colocar Deus no meio. Mas tem um sorriso lindo, lindo – ainda que sem propósito algum de sensualidade.
Júlia é minha aluna de Filosofia, na universidade. Creio ter sido uma penitência ou um desafio que se impôs, para escolher pagar esta eletiva. Atenta a minha exposição, aos debates, num quase completo mutismo – só se pronunciava quando reconhecia que sua fala não geraria polêmica. Deve experimentar choques de realidade a cada trinta segundos, mas é fiel e assídua aluna. Extremamente cuidadosa e aplicada, bastante exigente consigo mesma, domina como poucos a arte de escrever. Exibe uma rodela de ouro no dedo da mão direita, como a dizer ao mundo que está noiva, na antessala da carolice eterna de sua igreja.
Certa manhã, após a última aula da disciplina, Júlia se demorou na arrumação de suas coisas, e enquanto a turma saía, abraços de despedida, beijos e sorrisos de final de período, ela nitidamente dava um tempo. Como eu precisava fechar a sala, tenho que esperar a saída de todos. Quando constatou que apenas ela restava, levantou-se e se encaminhou a minha mesa, indefinível rosto, entre sério e sereno. Perguntou se poderia falar comigo – aí notei certa ansiedade na voz.
“Só espero que não seja para me converter” – imaginei com meus botões, mas respondi, a simpatia em pessoa: “Claro, Júlia! Pode falar!”
Puxou uma cadeira, achegou-se e nitidamente procurava por onde começar. E começou falando sobre sua vida regrada, sua crença inabalável, sua família temente ao Senhor, seu futuro esposo (indicado pelos céus), seus trabalhos religiosos, sua intimidade com Deus (“Caralho!” – pensei...), sua certeza de salvação... Ou seja, tudo que uma verdadeira serva do divino poderia ser e ter. Estava tudo perfeito ou se encaminhando à perfeição em sua vida.
Entretanto...
Começaria a parte que realmente me interessava e que, provavelmente, seria a razão daquela interpelação no apagar das luzes do período letivo. Fiz-me todo atenção. Depois de curta hesitação, ela como que tomou fôlego e expôs:
– Acontece que eu somente conheço a vida de santidade em que estou inserida desde que nasci. Como posso ter certeza de que é exatamente isso que quero para minha caminhada, se isso é apenas o que conheço?! Falta-me o contraponto, o contraditório, falta-me conhecer a oposição, para poder aquilatar e fazer a minha escolha de forma consciente.
Eu deveria estar com o rosto em forma de ponto de interrogação, tamanha a ânsia em saber onde aquela conversa desembocaria. Não demorou muito minha ansiedade, que o discurso de Júlia é muito bem concatenado e objetivo: ela queria conhecer o lado profano da existência humana, mas queria ser a ele apresentada por alguém de confiança, que não a julgasse nem questionasse sua decisão e seus atos. Que apagasse momentaneamente tudo que ela era, fazia e representava, e a tratasse simplesmente como uma mulher. Assim, precisaria ser uma pessoa de sua máxima confiança e reconhecida discrição. “Eu” tinha sido sua escolha, se eu concordasse.
Após a exposição, calou-se, e, querendo passar impassibilidade, ficou a me fitar, esperando minha resposta. Eu estava em choque. Nem nos meus mais absurdos e bizarros sonhos poderia chegar a cogitar algo parecido. Recuperado o autocontrole, tentei passar firmeza: eu estaria à disposição e seria um prazer (ui!) poder contribuir com tão autêntico experimento.
Talvez acossada pelo medo de o peso na consciência fazê-la desistir, a urgência se fez: precisaria ser naquela mesma tarde, “se o senhor estiver livre” – ressaltou. Ainda que tivesse uma audiência com o papa eu desmarcaria. Marcamos o encontro para as quinze horas, em uma das cantinas do campus, praticamente deserto naquele final de período.
Fui para casa, o coração aos pulos, a ansiedade atingindo níveis inéditos, preparei-me como minimamente me foi possível, procurando me conscientizar de quão espontâneo precisaria ser tudo aquilo. Uma rápida sesta para acalmar o espírito e depois eu conto como tudo aconteceu.
