Já passava das treze horas quando estacionei o carro no prédio da empresa. Nem percebi como o tempo tinha corrido, nem quanto tempo realmente ficamos no escritório de Daniel. Era como se as horas tivessem se dissolvido dentro daquele momento.
Eu não estava com fome. Atravessei o corredor até minha sala, mas antes passei na copa. O cheiro de comida misturava-se ao aroma constante de café fresco. A maioria do pessoal ainda estava no horário de almoço, alguns sentados nas mesas, outros em pé, conversando.
Peguei um copo com água, bebi devagar, e depois servi um café, como quem precisava de algo para ancorar o corpo no presente. Troquei algumas palavras rápidas com o pessoal — um cumprimento aqui, um comentário ali —, tentando parecer o Pedro de sempre.
Na minha sala, larguei a mochila sobre a cadeira, tirei o notebook de dentro e o coloquei sobre a mesa. Sentei e o abri, mas fiquei olhando para a tela preta por alguns segundos, como se ela fosse um espelho onde eu pudesse ver a manhã que tinha acabado de viver.
Suspirei. Peguei o celular e digitei:
Irmão, deixa eu te falar... Não vou conseguir seguir aquele seu conselho, não. De viver, de experimentar. Fiz algo... alguns minutos atrás. Fui até o escritório do Daniel pra tentar entender tudo isso. E acabou acontecendo um pouco mais. E... eu não vou conseguir viver com isso. Não tô arrependido do que aconteceu, eu permiti. Mas pretendo chegar em casa e contar tudo.
Enviei.
E depois veio o silêncio. Fiquei com o celular na mão, esperando qualquer notificação. Mas nada. Nenhum "visualizado", nenhuma resposta. Só o meu reflexo na tela.
Eu entendia. O Henrique tinha um dia cheio. Liderava uma equipe de programação, vivia em reuniões no Discord e no Teams, resolvendo problemas que pareciam não ter fim. Eu sabia que, assim que visse a mensagem, ele ia me responder. Sempre respondia. Mas a ansiedade era traiçoeira.
Quem tá afobado não entende de prazos, de agendas, de rotina. Quem tá afobado só quer resposta. E eu queria. Queria saber o que ele achava daquilo. Queria ouvir dele se eu estava prestes a cometer uma loucura ou se estava, de fato, encontrando um caminho.
A verdade é que, no fundo, eu já estava decidido no que faria. Só precisava da voz dele como um chão. Como um sinal verde. Porque, de algum jeito, eu sabia que aquele dia mudaria minha vida para sempre.
E mesmo com a coragem ainda quente no peito, lembrando das palavras do meu irmão e do que tinha vivido mais cedo, o medo se infiltrava. Hoje eu já estava assustado. Mas e amanhã? O que seria de mim depois do amanhã?
Foi quando o celular vibrou. Mensagem dele.
Eu quero te ver antes, tá? Posso passar no seu trabalho, ou você passa aqui em casa? Eu quero falar contigo.
Antes mesmo de eu começar a digitar a resposta, fiquei alguns segundos só admirando a mensagem. Havia algo de urgente nela, quase assustador, como se o Henrique tivesse pressentido a gravidade do que eu estava prestes a fazer.
E, de repente, o celular vibrou outra vez. Ele estava me ligando. Atendi no mesmo instante.
— Se você não estiver fazendo nada de vida ou morte aí, dá uma fugida do trabalho — ele disparou, sem nem me deixar falar. — São vinte pras duas agora. Eu só vou terminar de delegar umas demandas e já pego um Uber. Vou direto pro seu trabalho. Você desce e a gente vai pra praia.
Ele falava num ritmo acelerado, mas cheio de firmeza.
— Stella Maris, Porto da Barra, sei lá... tanto faz. A gente vai tomar um banho de mar. Vou separar uma roupa de banho pra você aqui, bermuda, sunga, o que você quiser. Sem desculpa, Pedro. Faz tempo que a gente não vai juntos. Muito tempo. E, sei lá, eu acho que um banho de mar vai te animar. Sempre te animava, né? A gente conversa melhor lá, antes de você tomar essa decisão.
Sorri sozinho, segurando o telefone no ouvido. Ele tinha trabalho, responsabilidades, um time inteiro dependendo dele. Mas, ainda assim, não pensou duas vezes.
— Tá... tá certo. Eu vou — respondi quase automático, ainda sorrindo.
Eu sempre fui responsável com o meu trabalho. Nunca faltei, nunca deixei nada pendente. Mas, naquele dia, tudo estava diferente. Eu me sentia atropelado por uma montanha-russa de acontecimentos que não me deixavam raciocinar direito. Era uma certeza estranha: eu sabia o que queria, mas ao mesmo tempo havia o medo do que poderia acontecer.
Tudo era muito intenso. Por mais que eu escreva aqui, ainda acho que não consigo traduzir de verdade a dimensão desse peso. Era uma mistura de algo reconfortante e, ao mesmo tempo, assustador.
No fundo, eu sabia que não haveria problema em sair naquela tarde. Nunca fui de falhar com minhas responsabilidades. E o próprio Henrique, que também sempre foi um cara extremamente comprometido com o trabalho, estava fazendo um esforço imenso pra sair no meio do expediente. Aquilo me dizia muito. A gente não estava apenas indo à praia. Estava claro pra mim que ele estava preocupado. De verdade. E isso, de alguma forma, me fez feliz. Porque me lembrava que, apesar de todo o caos que eu estava vivendo por dentro, eu tinha alguém com quem contar.
Quando já passava um pouco das duas da tarde, o celular vibrou de novo. Era o Henrique:
Tô levando a mochilinha aqui, vou ter um short pra você tomar um banho, uma toalha... enfim. Tô pegando um Uber, tá? Não vou de carro, porque aí eu vou com você, você me deixa em casa e depois segue pra sua casa.
Li a mensagem rindo sozinho, quase ouvindo o tom dele por escrito. Respondi apenas com um "ok, tô te esperando".
Fechei o celular e olhei em volta. Naquele tempo todo ali dentro, eu não tinha feito absolutamente nada de trabalho. O corpo estava presente, mas a mente... estava em outro lugar. Respirei fundo, juntei minhas coisas, coloquei de volta na mochila e caminhei até a sala do Paulo. Bati na porta.
— Paulo, amigo... vou precisar sair agora, tá? — falei, tentando soar tranquilo. — Tá tudo bem, só algumas questões familiares que eu preciso resolver.
Ele me olhou por cima dos óculos.
— Tudo certo mesmo? — perguntou, com aquela seriedade habitual.
— Tudo certo, sim. Obrigado por perguntar. Qualquer coisa me liga — confirmei, assinando com a cabeça.
Ele assentiu em silêncio. Eu devolvi o gesto, fechei a porta e saí pelo corredor. Desci até o térreo.
Henrique já me esperava na frente do edifício, acenando de longe. Estava sorridente, leve. Vestia uma regata preta, bermuda branca e um par de Havaianas também brancas. A mochila pendia de um lado só do ombro, como se tivesse largado tudo às pressas.
Sorri de volta, meio sem jeito.
— Só você mesmo pra me fazer ir à praia hoje. Assim, do nada. — Balancei a cabeça. — Tá de boa pra você? Imagino que esteja cheio de trabalho.
Henrique deu de ombros, ainda com aquele sorriso tranquilo.
— Deleguei o que tinha que delegar. Tá tudo certo. O importante agora é isso aqui — apontou pra mim, firme. — É você.
Aquelas palavras me fizeram respirar fundo. Fiz um gesto pra ele me acompanhar de volta e entramos juntos no edifício. Pegamos o elevador até o subsolo, onde meu carro estava estacionado.
No caminho, fomos conversando sobre o dia, sobre coisas corriqueiras, como se estivéssemos tentando atrasar a tempestade que rondava minha mente. Confessei que não tinha conseguido trabalhar direito, que minha cabeça tinha virado um redemoinho desde a manhã. Henrique ouvia em silêncio, apenas assentindo. O simples fato de ele estar ali já me trazia uma sensação estranha de segurança, como se nada fosse maior do que aquele momento.
Estranhamente, desde o que tinha acontecido no escritório, nem eu nem Daniel mandamos mensagem. O silêncio parecia pesado demais, mas ao mesmo tempo fazia sentido. Era como se nós dois estivéssemos processando aquilo em paralelo, cada um no seu canto.
Já no carro, enquanto seguíamos pela orla, Henrique ao meu lado, o vento entrando pelas janelas baixadas, eu acabei soltando:
— Eu encontrei o Daniel hoje de manhã... — pausei, como quem mede as palavras. — E tivemos um envolvimento.
Henrique virou o rosto devagar, mas não disse nada.
— Pelo amor de Deus, não me pede pra falar além disso — brinquei, tentando aliviar o peso. — Mas sim, aconteceu. E agora... eu preciso chegar em casa e conversar com a minha esposa. Sinto que tudo pode desabar nas próximas horas. Não quero pensar nisso. Mas é impossível não pensar.
As palavras saíam atropeladas, como se eu precisasse falar tudo de uma vez, sem respirar. Minhas mãos apertavam o volante com força, numa mistura de tensão e necessidade de me manter no controle.
O tempo estava bom. Não havia sol forte, mas o céu claro deixava a estrada mais bonita. A brisa entrava pelas janelas abertas, refrescando o carro, e por alguns segundos tentei me deixar levar apenas por aquilo: a simplicidade de dirigir com o vento batendo no rosto.
Henrique então quebrou o silêncio, direto:
— Vamos pra Stella Maris. O Porto da Barra hoje deve estar cheio, mesmo em dia de semana. Lá em Stella vai ser mais tranquilo.
Assenti, ajustando o retrovisor.
— Tá certo. Stella Maris.
E seguimos rumo à praia, cada quilômetro parecendo carregar junto um pedaço do peso que eu trazia. A viagem não demorou muito. Fomos conversando, eu atropelando palavras, ele tentando ser o mais positivo possível. Às vezes, ficava em silêncio, apenas olhando pela janela, e depois o quebrava com um pedido quase tímido de desculpa:
— Eu não sei o que falar, Pedro. Mas eu tô aqui.
Assenti. Era o que bastava.
Chegamos a um estacionamento em Stella Maris. Achei uma vaga, estacionei e desliguei o carro. Antes que eu pensasse em qualquer coisa, Henrique já jogou a mochila no meu peito e falou:
— Se troca logo aqui dentro, pô. Assim você já desce pronto, não precisa sair, voltar e perder tempo.
Olhei pra ele, incrédulo, mas ele só deu risada. Respirei fundo e comecei a me trocar ali mesmo, dentro do carro. Tirei a camisa, depois a calça, em seguida o sapato. Sempre deixava um par de chinelos no carro, porque às vezes tudo que eu queria, na volta do trabalho, era dirigir descalço e sentir um mínimo de liberdade. Agora, ali, fiquei só de cueca, desconfortável, tentando me mexer no espaço apertado. Henrique ria sem parar, já abrindo a porta para descer.
— Vai, véi, se adianta.
Revirei os olhos, mas peguei a mochila. Vesti um short preto e uma regata azul. Saímos do carro. Peguei chave, carteira, celular, tranquei a porta e seguimos pela orla. A brisa bateu no rosto, fresca, salgada. Fechei os olhos por um instante, respirei fundo, e por alguns segundos pareceu que o peso todo tinha dado uma trégua.
Foi quando Henrique quebrou o clima:
— Caramba... ficou meio apertado em você. Não que tenha ficado feio, acho até que vai chamar atenção.
Olhei torto pra ele.
— Ah, vá à merda, Henrique...
Ele riu alto.
Fiquei sem graça, ri de volta, constrangido, mas sentindo a brisa no corpo, gostando daquela sensação de leveza que eu já não lembrava mais quando tinha sentido pela última vez.
Fomos caminhando pela faixa de areia. Henrique olhava em volta, animado.
— Caramba, olha só... a praia tá linda hoje. Vazia, limpa... perfeita.
Ri e balancei a cabeça.
— Henrique, lembra que hoje é terça-feira, né? Não é normal a praia estar cheia. Nós é que somos a exceção aqui, largamos o trabalho em plena terça em troca do lazer.
Henrique gargalhou, chutando a areia de leve. A cena parecia libertadora. Paramos perto de umas barracas, ajeitamos a mesa e as cadeiras de plástico quando uma jovem se aproximou, sorridente.
— Boa tarde! Posso ajudar vocês? Querem consumir alguma coisa? — entregou o cardápio sobre a mesa.
Henrique abriu um sorriso largo.
— Boa tarde! Como é o seu nome?
— Jéssica.
— Prazer, Jéssica. Então... eu e meu namorado aqui vamos querer uma água de coco.
Na hora, engasguei com o ar. Nem tinha o que engasgar, mas quase gritei: caralho, puta que pariu, Henrique! O choque foi tão grande que só consegui rir, rir de nervoso. Jéssica também riu, surpresa, sem jeito.
Henrique aproveitou para provocar:
— O que foi? Não acha que eu sou bonito pra ele? Ele é mais bonito do que eu, é isso?
A atendente gargalhou, ainda sem graça.
— Não, imagina... é que vocês são até parecidos.
— É a convivência, né? Já são anos juntos.
— Cala a boca, porra! — falei, rindo e irritado ao mesmo tempo. — Não acredita, não, Jéssica. Ele é meu irmão, mais novo que eu. Tá só procurando confusão, esse palhaço. Mas sim, traz duas águas de coco pra gente.
Ela saiu rindo, balançando a cabeça. Eu virei pro Henrique, ainda meio nervoso:
— Caralho, Henrique, o que é que você tá fazendo?
Ele apenas deu risada, levantando os ombros.
— Calma, pô. Só tô te colocando na sua rotina nova.
Revirei os olhos, mas, por dentro, não consegui deixar de sorrir. Apesar da irritação, era bom ver meu irmão lidando com tudo aquilo de uma forma tão leve.
Meu coração palpitava. A cena que Henrique tinha acabado de armar com a atendente me levou a imaginar outras situações possíveis, e aquilo era assustador. O simples gesto dele, a naturalidade, me deixava ao mesmo tempo nervoso e, de alguma forma, reconfortado.
Enquanto Jéssica voltava com os cocos, Henrique já tirava a camisa. Ficou só de short, descalço, o chinelo jogado de lado. Caminhava pela areia, deslizando os pés como um menino, fazendo pequenos riscos no chão, tentando arrancar de mim alguma reação.
— Se anima, Pedro. Vai... tira essa camisa, esse chinelo. Olha esse mar, esse vento. Vai tomar um banho de mar comigo. Se anima, pô. — Ele sorriu, com a leveza que sempre teve. — De alguma forma, vai dar tudo certo.
Jéssica colocou os cocos sobre a mesa. Agradecemos, e ela completou:
— Qualquer coisa é só me chamar, tá? Só acenar depois.
— Valeu, Jéssica. — Henrique sorriu de volta.
Assim que ela se afastou, ele se virou pra mim, mais sério. O olhar já não era só brincadeira.
— Pedro... você quer que eu seja totalmente sincero com você? Ontem eu já fui. Mas... você quer mesmo que eu fale tudo o que eu tô pensando?
Henrique deu um gole no coco, olhou pra mim e respirou fundo antes de começar:
— Meu irmão... você errou. Mas sabe que pra sua esposa vai ser um choque gigante. Só Deus sabe o que ela vai sentir. Então... conta tudo. Seja totalmente transparente. Tira esse peso.
Ele fez uma pausa, firme:
— O que pode acontecer é que ela queira terminar. E ela vai estar no direito dela. Assim como você tá no direito de viver a sua vida. Eu sei que você vai ser um bom pai. Sei também que você tá fodido pensando nisso... pensando nos meninos, nos dias em que pode ficar sem vê-los. Tá com medo dela surtar, de sair por aí dizendo que foi trocada por um homem. Você tá com medo, cara. E talvez isso não vá passar agora.
Eu engoli seco, e Henrique seguiu:
— Eu quero que você entenda, Pedro: você é um cara muito bem de vida. Você não vai passar dificuldade financeira, não vai faltar nada. O que vai pesar mesmo é o emocional. Provavelmente ela vai querer sair de casa... mas eu conheço você. Você não vai deixar. Você vai ser o primeiro a sair.
Olhei pra ele, quase perguntando se era isso mesmo. Henrique confirmou com a cabeça.
— Se for necessário, sim. Provavelmente vai ser necessário, meu irmão. — Ele respirou fundo. — Você consegue imaginar esse convívio?
As palavras bateram como ondas fortes.
— Então... é isso que você quer? Porque filho cresce, Pedro. Filho cresce e segue o próprio caminho. Você não pode se prender. Só não pode deixar de ser presente na vida deles.
Henrique parou de falar. Silêncio. Ficou apenas me olhando, como quem queria que eu processasse cada palavra. Peguei o coco e bebi um gole, devagar, sem saber o que responder. Repousei a mão sobre os olhos, respirei fundo e soltei um sorriso curto.
Respirei mais uma vez, tentando me recompor. Mas as palavras escaparam de dentro de mim com força, como se não coubessem mais ali.
— Henri... eu não quero perder meus filhos. Eu tenho medo de me destruir. Mas, se não for pra viver isso com o Daniel, eu quero viver com outra pessoa. Eu não consigo mais reprimir. Eu passei tempo demais escondendo isso. Tempo demais...
Olhei pra ele, a voz firme, mas carregada:
— Eu não sei nem o que eu sou. Não sei se sou gay, se sou bissexual. Eu só sei que sempre tive curiosidade, vontade, tesão em estar com um homem. Era quase desesperador. E, pra não matar nossos pais do coração, eu acabei namorando mulheres. Me casei. Construí essa vida.
Soltei o ar, pesado.
— Eu sou apaixonado pela minha esposa. Ou pelo menos eu achava que era. Hoje eu me questiono se é por convívio, por desejo, por amor de verdade. E por mais que eu fale isso aqui pra você, parece que não consigo explicar.
Olhei para a areia, a boca seca:
— Só de imaginar que ela vai ficar destruída... me destrói duas vezes mais. Porque tudo o que ela sofrer de decepção vai bater em mim. Eu quero o bem dela, eu quero a felicidade dela. Mas eu não posso chegar e dizer "eu quero ficar com você e também com outras pessoas". Não é justo, Henri. Eu não queria que fizessem isso comigo. Eu não posso fazer isso com ela.
Henrique respirou fundo, sorriu e falou:
— Irmão... não vamos falar disso agora. Faz o que você tem que fazer. Eu vou estar com o celular ligado, vou estar atento. A hora que você me mandar mensagem, a hora que quiser falar comigo mais tarde, é só chamar.
Ele ajeitou o copo de coco na mesa e continuou:
— O que você precisa entender é que isso tem muitas camadas: sua esposa, seus filhos, nossos pais... até o seu trabalho, se você quiser colocar na conta. Mas que tal não sofrer com antecedência? Faz, e vá lidando com cada coisa quando ela acontecer.
Henrique se inclinou pra frente, rindo de leve:
— Agora... vamos só aproveitar essa praia. Vamos tomar mais um coco, vamos entrar no mar, falar de outras coisas: viagens, seus projetos, a empresa. Se alguma decisão que vai mudar sua vida pra sempre tiver que acontecer, que não seja essa a única lembrança do dia. Guarda também o que teve de bom.
Ele ergueu a sobrancelha, malicioso:
— Afinal, aparentemente você já teve uma aventura pela manhã, safadinho.
Henrique riu alto, e eu não resisti: acabei rindo também.
— E agora estamos aqui. O futuro... a Deus pertence.
Henrique pegou a chave, o celular e a carteira de cima da mesa, enrolou tudo na própria camisa e olhou pra mim:
— Tira essa camisa também.
Obedeci, meio sem pensar, e entreguei pra ele. Ele fez o mesmo embrulho, juntou as duas camisas e foi até o balcão do bar. Lá, uma senhora cuidava da barraca.
— Dona Delma, né? — ele confirmou, depois de se apresentar. — A senhora pode guardar isso pra gente? A gente vai só tomar um banho de mar.
Ela sorriu, solícita, e aceitou sem problema. Eu, desconfiado, falei baixo:
— Henrique... você sabe que aí estão nossos documentos, celulares... tão tudo aí dentro, né?
Ele apenas riu e respondeu:
— Para de viver com a mente pesada, Pedro. Relaxa um pouco.
E pronto. Ficou tudo ali com dona Delma.
Seguimos em direção ao mar. O vento batia, a areia estava morna sob os pés, e eu só de short, ao lado dele. Henrique não parava de brincar:
— Caralho, Pedro, olha esse físico! Tá grande, forte... tá tomando bomba, é? Como é que você arruma tempo pra isso? — ria alto. — Bota essa camisa de volta, fiquei constrangido agora.
Na hora, sem pensar, abracei ele de lado, forte, como se fôssemos dois moleques na praia. Dei um beijo no pescoço dele e falei, rindo, emocionado:
— Te amo pra caralho, cara. Obrigado por isso aqui.
Fomos para a água. Nadamos, mergulhamos, como fazíamos quando éramos mais novos. Henrique sempre acreditou que nadava mais do que eu — e, em parte, era verdade. Teve uma época em que nossos pais o colocaram na natação, e ele se destacou. Hoje, não tinha dúvida: ele nadava muito melhor do que eu.
Entre braçadas ele avançava com força, abrindo espaço como se a água fosse extensão do corpo. Eu tentei acompanhar, mas logo reduzi o ritmo, sentindo o fôlego pesar. Voltei em direção ao raso, respirando fundo. Henrique percebeu e voltou também.
— O que é isso, Pedro? — falou debochando, ainda rindo. — Não aguenta? Tão novo e já cansado? Esperava mais de você. Esse corpo todo pra morgar na braçada?
Era provocação, claro. Eu ri, batendo a mão na água para espirrar nele:
— Vai com calma aí, Michael Phelps... Eu admito, você tá bom. Mas me respeita, viu? Há alguns anos atrás você vinha no meu ombro.
Ele gargalhou. O clima era leve, descontraído, e naquela água parecia que todo peso se dissolvia.
O restante da tarde seguiu assim. Voltamos para a barraca, tomamos mais cocos, pedimos petiscos — camarão frito, carne de sol com farofa. Ficamos até o fim do dia ali, entre conversas soltas, risadas e silêncios bons, desses que não pesam.
Eram quase dezessete horas quando decidimos ir para casa. Sabíamos o trânsito que nos esperava. No decorrer da tarde, não voltamos mais ao mar, então já estávamos relativamente enxutos para voltar ao carro. Fechamos a conta. Jéssica apareceu sorridente, como sempre. O Henrique, lembrando da brincadeira de mais cedo, pediu desculpas a ela. Mas ela, muito gentil, respondeu:
— Imagina! Vocês foram ótimos clientes. Quem dera todos fossem assim.
Na hora dos 10% opcionais, Henrique não resistiu ao velho hábito. Perguntou se realmente ia para o garçom:
— Se não for, eu prefiro te pagar à parte. Faço até um pix.
Ela garantiu que sim, que podia ficar tranquilo. Agradeceu demais pela atitude e despediu-se sorridente.
Voltamos para o carro. No fundo, minha vontade era de tentar esticar até o Porto da Barra, mas a realidade me puxava: eu ainda precisava levar Henrique para casa, e depois encarar a minha.
No caminho, não falamos mais sobre o assunto pesado, sobre a noite que se aproximava. Mas, sozinho, no meu canto, claro que eu pensava. Tentava disfarçar, sorridente, brincalhão. Talvez o Henrique soubesse que eu estava me escondendo por trás daquele jeito. E, de certa forma, parecia que ele queria mesmo era deixar aquele dia leve. E conseguiu.
Foi, de verdade, um dos dias mais leves que eu tive na vida. Não lembrava a última vez que larguei tudo no trabalho para simplesmente... viver. Só eu e meu irmão. Foi incrível.
No carro, vesti a regata, joguei a mochila e as roupas “molhadas” no banco de trás. Henrique colocou a playlist dele para tocar. E aí não tinha escapatória: em algum momento, sempre vinha Calcinha Preta, Limão com Mel, umas músicas de arrocha. Entre uma faixa e outra, surgia Ivete, Bell Marques. Ele se empolgava, cantava junto, batia no painel como se fosse percussão. E eu ria. Porque ele realmente parecia feliz.
Por volta das dezessete e vinte e cinco, talvez trinta, deixei Henrique na portaria do condomínio dele. Nos despedimos sem tocar no assunto que os dois sabíamos que ainda existia, pairando entre nós como um anúncio de tempestade. Ele desceu do carro, contornou até o meu lado, apoiou a mão no meu ombro e disse, simples, direto:
— É só me ligar. Qualquer coisa, você pode dormir aqui. O que precisar, eu tô aqui. Me manda mensagem, me avisa. Não me deixa aqui imaginando mil cenários. E... boa sorte, meu irmão. Coragem. Você não tá só. Não vai ser fácil, mas sozinho você não vai estar. Tranquilo? Vai lá. Pensa em como vai fazer, no que vai dizer. Só me avisa.
Assenti. Não consegui responder muito além de um "obrigado". Ele deu dois tapinhas leves no meu ombro, sorriu daquele jeito que segura a gente no lugar, e entrou pelo portão.
Fiquei alguns segundos parado, mãos no volante, respirando fundo. A rua tinha o barulho comum de fim de tarde, mas dentro do carro só havia silêncio. Liguei o motor, ajustei o espelho, então eu segui. A cidade passava pelas janelas como um filme sem som, e eu, entre o alívio de ter sido amparado e o medo do que vinha pela frente, só conseguia repetir para mim mesmo: bora.
Entre engarrafamentos e sinais vermelhos, o celular vibrava no banco ao lado. Peguei rápido, e um deles era uma mensagem de Daniel. Um áudio. Dei play sem pensar muito. A voz dele veio firme, mas carregada de cuidado:
— Oi, Pedro... como é que você tá? Aconteceu alguma coisa? A gente não falou mais desde o que aconteceu de manhã. Tá tudo bem contigo? Eu tive uma tarde produtiva, já tô indo pra casa. Não sei se tô sendo chato, ou desnecessariamente preocupado... mas me manda uma mensagem, quando puder, se quiser. Espero que esteja tudo bem.
Quando terminou, fiquei alguns segundos em silêncio, sorrindo sozinho, o trânsito começando a fluir à minha frente. Apertei o botão de gravar e falei:
— Oi, Daniel... pra ser bem sincero, eu não consegui fazer nada no trabalho. Procurei meu irmão mais uma vez pra conversar, porque dentro do meu ciclo familiar, ele é quem sabe de tudo que tá acontecendo e é quem tá me amparando. E aí, do nada, esse louco resolveu ter a ideia de praia, e eu aceitei. Saí do trabalho, fomos pra Stella Maris, tomamos um banho de mar. Agora tô voltando, ainda meio úmido, acabei de deixar ele em casa. E... desculpa não ter falado nada. Desde que saí do seu escritório, quando cheguei no meu, eu não consigo parar de pensar em tudo que a gente fez. No quanto eu gostei. E no que vai ser da minha vida depois disso.
Enviei. Sem esperar a resposta, apertei de novo o botão e deixei sair, quase num fôlego só:
— E, cara... deixa eu te falar uma coisa. Eu tô disposto a chegar em casa e conversar tudo com a minha esposa. Eu não vou deixar algo assim crescer sem contar a verdade. Já errei no que eu fiz, mas é uma culpa minha — não culpo você em nada. Eu não sei o que vai rolar entre a gente, ou o que vai continuar... eu não sei. Eu tô confuso. Mas, independentemente do que for acontecer com você ou não, eu preciso falar sobre isso. Porque eu gostei da experiência. E eu quero viver.
Fiz uma pausa curta, engoli seco, e continuei:
— Eu não sei o que você acha disso... o que acha dessa minha atitude. Mas eu gostei demais do que fizemos hoje de manhã. E o tanto que eu penso nisso só me dá mais certeza de que eu preciso resolver essa parte da minha vida.
Soltei o botão. Enviei.
Demorou só alguns minutos. Eu já estava com as mãos no volante, pensando no que tinha falado, quando o celular vibrou de novo. Olhei pra ele, ali apoiado na minha perna, e vi a notificação de Daniel. Mais um áudio. Dessa vez, mais longo — algo em torno de dois minutos. Apertei o play.
A voz dele vinha firme, mas trêmula em alguns pontos:
— Pedro... eu não sei nem por onde começar. Eu... eu não sei o que fazer com isso que eu tô sentindo. Saí de um relacionamento de quase quatro anos, e na mesma madrugada em que terminou, eu te conheci. Eu não acredito que o destino funcione assim, mas... eu não sei explicar. Eu nem acreditava nesse negócio de gostar à primeira vista. Mas você... talvez você não faça ideia do quanto eu fiquei pensando em você. Do quanto eu dormi tarde com sua imagem na cabeça.
Uma pausa curta, como se ele respirasse fundo antes de continuar:
— Pedro... eu acho bizarro o que eu sinto por você. Inexplicável. Porque eu não te conheço há tempo suficiente pra sentir isso. E mesmo assim... eu sinto. Eu me julgo todos os dias por isso. Me julgo porque sei que você é pai, sei que você é casado. Mesmo você dizendo que eu não tenho culpa... eu sinto que tenho.
A voz dele fraquejou, mas logo retomou:
— Eu não sei o que te dizer sobre essa decisão de contar tudo pra sua esposa. Eu nunca vivi nada parecido, não conheci ninguém que tenha passado por isso. Mas... eu quero te dizer que eu tô aqui. Tá? Eu quero estar aqui. Eu quero que você saiba de verdade: eu vou estar aqui.
Silêncio de alguns segundos, e ele concluiu:
— Me manda mensagem mais tarde, me fala o que aconteceu. Eu sei que você tem seu irmão, que ele é sua família e que ele tá te apoiando. Mas eu quero que você saiba que você tem um amigo acima de tudo aqui. Eu quero ser seu amigo. Eu quero estar aqui. Você pode contar comigo.
O áudio terminou. E o silêncio dentro do carro ficou ainda mais pesado.
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Continua
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Devo um enorme pedido de desculpas a todos vocês. Infelizmente, não pude ler as mensagens diretas que me enviaram, pois elas dependem de assinatura da plataforma.
Muita coisa aconteceu, muita mesmo. Cheguei a pensar em desistir de tudo em alguns momentos. Ter “abandonado” isso aqui foi apenas um dos reflexos do turbilhão que eu estava vivendo.
Hoje está tudo “bem”. Independentemente de milhares ou de poucos leitores, vou concluir o que comecei aqui. Se tudo correr bem, acredito que no cap. 12 eu finalizo.
Por mais longos que meus textos sejam, por mais cuidadoso que eu seja ao escrever, nunca é tudo. Sempre há mais, e muita coisa não pode ser dita. Isso aqui foi realmente terapêutico quando decidi falar da minha vida em uma plataforma para milhares de desconhecidos. Eu senti cada mensagem, cada desejo de boa sorte, e sou grato por isso.
Alguém, em algum relato anterior, comentou sobre o Daniel escrever a perspectiva dele das coisas. Acredita que ele tem sei lá quantas páginas disso? Sempre me incentivando a voltar e concluir.
A realidade é que muita coisa já está escrita, meio que “rascunhada”. Preciso reler, ajustar a pontuação, corrigir a grafia e publicar. O próximo texto é muito forte e foi difícil escrevê-lo, porque escrever me fazia relembrar. Mas, como eu disse: comecei, e vou concluir.
Forte abraço!