O Garoto Rosa – Parte 10: O Som das Correntes Invisíveis

Da série Nick
Um conto erótico de Nick
Categoria: Trans
Contém 1664 palavras
Data: 09/02/2026 05:38:22

O ar da manhã em Curitiba estava cortante, mas eu não sentia o frio. O "eu te amo" do Caio ainda reverberava no meu peito como um mantra, uma batida rítmica que me dava uma sensação de invencibilidade que eu nunca experimentara antes. Eu caminhava em direção ao café com a saia midi balançando contra as pernas, o coque rosa perfeitamente imperfeito e as unhas vermelhas brilhando sob a luz pálida do sol de inverno. Eu me sentia o protagonista da minha própria vida, finalmente dono do meu corpo e do meu desejo, pronto para olhar nos olhos da Martina e entregar a ela o mesmo amor que agora transbordava da minha alma.

Porém, a imagem que encontrei ao dobrar a esquina foi um balde de gelo na minha euforia. Martina estava sentada à mesa externa de um café discreto, mas sua postura era de completa derrota. Ao lado dela, um homem que exalava uma aura de autoridade gélida. Ele era grisalho, aparentando uns sessenta anos, vestindo um terno cinza de corte impecável que gritava dinheiro, poder e conservadorismo. Passei por eles para entrar no café e senti o peso de um olhar de desprezo absoluto. Ele me escaneou dos pés à cabeça, detendo-se no meu cabelo rosa e na minha saia com um nojo tão visceral que eu não soube dizer se era pelo meu gênero, pela cor do meu cabelo ou pela minha mera existência.

Entrei, pedi um café preto e, movido por um instinto de proteção, sentei-me na mesa logo atrás deles, separada apenas por uma divisória de vidro e algumas plantas ornamentais. A voz dele era grave e cortante, o som de alguém que está acostumado a ser obedecido sem questionamentos.

— Eu não pago essa faculdade de Publicidade e esse aluguel caro para você se portar como uma qualquer, Martina — ele disse, batendo levemente o anel de ouro na mesa de ferro. — Olhe para você. Onde estão aquelas roupas de boutique que eu comprei? Onde está a feminilidade que uma mulher da sua posição deve ostentar diante da sociedade?

Meu sangue gelou. Entendi, em um estalo doloroso, o motivo de tantas roupas de luxo no armário dela que nunca víamos nas ruas. Não era o estilo da Martina; era a coleira que ele tentava colocar nela, a fantasia de "filha perfeita" que ele exigia que ela performasse.

— Pai, eu... os estágios me cansam, eu só queria conforto — a voz dela estava embargada, um sussurro quebrado que partiu meu coração. Ela, que sempre fora a "muleca" autêntica, estava sendo massacrada por ser quem era.

— "Pai" nada! — ele interrompeu, a voz subindo um tom, atraindo olhares curiosos dos outros clientes. — Eu ouço boatos, Martina. O povo da nossa cidade comenta. Estão dizendo que você anda com tipos estranhos aqui na capital, que virou sapatão. É isso? Eu estou bancando a libertinagem de uma invertida? Se eu descobrir que você está me envergonhando, eu corto cada centavo hoje mesmo. Você volta para o interior e eu mesmo cuido da sua disciplina.

Eu apertei a xícara de café com tanta força que minhas unhas ficaram brancas. A vontade era de levantar, virar a mesa e gritar que ela era a mulher mais incrível do mundo. Mas o olhar de pânico que ela lançou na minha direção pela fresta do vidro me paralisou. Ela estava implorando, em silêncio, para que eu não interferisse. Eu vi a Martina, a mulher dominante e forte que me ensinou a amar a minha feminilidade, murchar sob o peso daquele carrasco machista e preconceituoso. Depois de mais alguns minutos de humilhação, onde ele jogou na cara dela que "quem paga manda", ele se levantou, limpou o canto da boca e saiu sem olhar para trás, largando-a ali como um objeto quebrado.

Assim que o carro dele dobrou a esquina, eu corri. Martina desabou em um choro convulsivo. Eu a abracei, ignorando o mundo, e decidi que aquela era a última vez que ela sofreria assim. Levei-a para a minha república. Embora as regras fossem rígidas e a presença de acompanhantes fosse limitada, eu sabia que a Dona Ester, a senhora que cuidava do lugar, tinha uma sabedoria que transcendia as normas. Quando entramos, ela olhou para o estado de Martina e apenas acenou. — Leve-a para o quarto, Nick. Vou preparar um chá — disse ela, com uma compreensão materna.

Meu quarto ficava no térreo, em uma ala que eu dividia com outros dois meninos, mas o corredor estava ficando vazio. Como o semestre estava acabando e eu vinha guardando dinheiro de alguns freelas de edição e design, uma ideia louca e audaciosa começou a tomar forma. Martina me contou, entre soluços, que seus pais eram separados devido à agressividade do pai, e que ele usava o poder financeiro para ouvir esporros como o de hoje. Se ela não seguisse as regras dele, perdia tudo.

— Ele nem sonha que nós dois namoramos, Nick. Ele cometeria loucuras se soubesse que estou com um "garoto de saia" — ela desabafou.

Pedi para ela esperar e fui até a cozinha conversar com Dona Ester. Contei a verdade sobre o perigo que Martina corria e propus uma mudança radical. A república da Dona Ester era dividida: a parte de cima era das meninas, com três quartos privativos, uma mini cozinha e um banheiro. A parte de baixo era dos meninos, com o quarto dela em um corredor separado.

Propus que o Caio — que estava terminando a faculdade e precisava de um lugar para morar — e a Martina assumissem o segundo andar comigo. As duas meninas que moravam lá desceriam para os quartos que estavam vagando no térreo. O terceiro quarto lá de cima, que Dona Ester pretendia reformar, ficaria como um depósito para as nossas bagunças e equipamentos de cinema. Assim, o andar de cima se tornaria o nosso refúgio privativo. Como o Caio era um "homem, homem" de postura séria, ele ajudaria a manter o controle e a segurança da casa, facilitando para a Dona Ester aceitar a mistura.

— Se vocês se comportarem e mantiverem a ordem, eu aceito — Ester disse, após ouvir o plano. — Eu já conheço a história de vocês, Nick. Eu topo.

Liguei para o Caio na hora. Contei a situação por cima e ele, sem pensar duas vezes, aceitou. "Eu confio em você, Nick. Se é para proteger a Martina e estarmos juntos, eu mudo amanhã mesmo", ele garantiu com uma voz que misturava carinho e firmeza.

Voltei para o quarto e contei a novidade para Martina. Se juntássemos o que eu ganhava com os freelas e o que o Caio pagaria, poderíamos bancar o quarto dela ali. Ela teria a liberdade de ser a "muleca" que quisesse, longe das roupas de boutique obrigatórias e do olhar inquisidor do pai. Martina começou a chorar de alegria, um alívio que parecia lavar sua alma.

— Nick... essa é a minha chance de ser feliz — ela disse, puxando-me para um beijo profundo.

Olhei para ela com um sorriso, limpei uma lágrima do seu rosto e sussurrei: — Eu te amo, Tininha.

Nos beijamos novamente, um beijo que carregava a promessa de uma vida nova. Para quebrar o clima pesado antes de voltarmos à sala para apresentá-la oficialmente como a nova moradora para a Ester, eu a olhei de cima a baixo com um brilho travesso nos olhos. — Além do mais, Tininha... vai me facilitar muito ter acesso diário e direto ao seu armário de boutique sem precisar atravessar a cidade. Agora eu vou poder "assaltar" suas roupas de luxo toda manhã.

Ela soltou uma gargalhada deliciosa, a primeira do dia, e nos abraçamos com a certeza de que a nossa família — a que nós escolhemos — estava apenas começando sob aquele novo teto.

O domingo chegou com um sol tímido, mas a energia dentro da república da Dona Ester era contagiante. Estávamos os três, imersos no caos organizado da mudança. Caixas de papelão, tripés de câmera, as araras lotadas com os vestidos de boutique da Martina e os halteres pesados do Caio se misturavam no corredor do segundo andar. A conexão entre nós era palpável; não éramos apenas amantes, éramos melhores amigos construindo um refúgio.

As duas meninas que moravam nos quartos de cima foram incríveis. No momento em que contei a situação da Martina, elas nem questionaram a mudança para o térreo; simplesmente pegaram suas coisas e desceram, oferecendo ajuda com os móveis mais pesados. Agora, o andar de cima era oficialmente nosso território privativo. Enquanto o Caio carregava o último armário e a Martina organizava os cabides, olhei para os dois e senti uma paz que nunca achei que teria. No entanto, o silêncio da rua foi subitamente quebrado pelo som de um envelope sendo deslizado por baixo da porta principal, e o nome escrito no remetente, em letras garrafais e autoritárias, fez o sangue da Martina fugir do rosto mais uma vez.

O domingo chegou com um sol tímido, mas a energia dentro da república da Dona Ester era contagiante. Estávamos os três, imersos no caos organizado da mudança. Caixas de papelão, tripés de câmera, as araras lotadas com os vestidos de boutique da Martina e os halteres pesados do Caio se misturavam no corredor do segundo andar. A conexão entre nós era palpável; não éramos apenas amantes, éramos melhores amigos construindo um refúgio.

As duas meninas que moravam nos quartos de cima foram incríveis. No momento em que contei a situação da Martina, elas nem questionaram a mudança para o térreo; simplesmente pegaram suas coisas e desceram, oferecendo ajuda com os móveis mais pesados. Agora, o andar de cima era oficialmente nosso território privativo. Enquanto o Caio carregava o último armário e a Martina organizava os cabides, olhei para os dois e senti uma paz que nunca achei que teria. No entanto, o silêncio da rua foi subitamente quebrado pelo som de um envelope sendo deslizado por baixo da porta principal, e o nome escrito no remetente, em letras garrafais e autoritárias, fez o sangue da Martina fugir do rosto mais uma vez.

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Foto de perfil de Sayuri MendesSayuri MendesContos: 66Seguidores: 64Seguindo: 4Mensagem uma pessoa hoje sem genero, estou terminando medicina e resolvi contar a minha vida e como cheguei aqui, me tornei que sou depois de minhas experiencias, um ser simplismente inrrotulavel

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