Os viscondes só tem olhos para os condes

Da série Brasil Colônia
Um conto erótico de Bento
Categoria: Homossexual
Contém 1506 palavras
Data: 08/02/2026 20:41:52

Nas sombras da Casa Grande da fazenda de São Lourenço, onde o cheiro de cana queimada se misturava ao perfume das damas-da-noite, eu, Bento, escravo de quarto do jovem Visconde de Araguaia, via tudo. Via mais do que me era permitido ver, e calava mais do que me era permitido calar.

Meu sinhô, Dom Luís de Araguaia, herdara o título há menos de um ano, quando o velho visconde, seu pai, fora levado pela febre terçã. Com o título viera também a notícia da ruína: dívidas nos armazéns do Rio, hipotecas nos engenhos, e uma pilha de letras de câmbio que cresciam como erva daninha. O sinhô passava as noites curvado sobre livros de contas, a luz do candeeiro refletindo nos olhos fundos, e eu, de pé junto à porta, ouvia-o murmurar números como quem reza ladainhas.

Mas não era a falência que mais o consumia. Era o Conde de Barbacena.

Dom Pedro de Barbacena chegava à fazenda em dias de festa, montado num cavalo alazão que parecia feito de fogo, a casaca azul bordada a ouro reluzindo. Trazia sempre um sorriso fácil para as damas, uma palavra gentil para os senhores, e, para meu sinhô, um único olhar, suficiente para que o coração do Visconde de Araguaia parasse e depois correr desatinado.

O conde estava prometido a Dona Isabel de Belmonte, filha única do Marquês de Jacarepaguá, que em breve seria marquesa por casamento. Diziam-na bela como uma imagem santa, com dote tão grande quanto sua devoção. As mães da corte já bordavam o enxoval, e os padres marcavam a data na capela de São Francisco de Paula. O conde cortejava-a com flores, serenatas e passeios de carruagem pelo Campo de Santana, como convinha a um noivo exemplar.

E meu sinhô via tudo.

Eu o vestia todas as manhãs com mãos trêmulas, ajudando-o a ajustar o colarinho de renda, e sentia o calor que subia do seu peito quando, da varanda, ele avistava o conde chegando para uma visita de cortesia. "Bento", dizia-me ele, voz baixa, "traze-me o lenço de linho, aquele com as iniciais bordadas pela minha mãe." E eu trazia, sabendo que ele o usaria para enxugar não o suor do calor, mas algo mais salgado.

Na noite do sarau na casa do Barão de Cotegipe, era um palácio de luzes e risos, com salões cheios de damas em sedas franzidas e senhores de casacas bordadas. O ar estava pesado com o perfume de jasmins e o som distante de violinos que tocavam modinhas portuguesas. Mas por trás das máscaras de cortesia, eu via as correntes que prendiam os corações.

O Barão de Cotegipe, homem de vasta fortuna em engenhos e escravos, tinha uma filha única, Dona Carlota, moça de dezoito anos, de pele alva como leite e olhos castanhos que pareciam sempre pedir proteção. Ele a exibia como quem exibe uma joia rara, e naquela noite não era diferente. Desde que o velho visconde morrera, deixando meu sinhô com as dívidas e o título, o barão vinha tecendo seus planos. Eu ouvia os cochichos nos corredores: “O Visconde de Araguaia precisa de um bom casamento para salvar as terras. Minha Carlota traria dote suficiente para pagar todas as letras de câmbio.” O barão aproximava-se de Dom Luís com sorrisos largos, batendo-lhe nas costas como a um filho, e apresentava Dona Carlota com orgulho exagerado. “Veja que graça, que educação francesa! Seria uma viscondessa digna do nome Araguaia.” Meu amo sorria educado, mas eu via o vazio nos seus olhos. Ele não queria Carlota, nem o dote. Queria o que não podia ter.

O champagne corria, e as danças se sucediam. O Conde de Barbacena chegará tarde, como sempre, causando frisson entre as damas. Dona Isabel de Belmonte, sua prometida, estava ao seu lado, radiante em vestido de cetim azul, mas o conde parecia distraído. Seus olhos buscavam meu sinhô pela sala, e quando os encontravam, havia neles uma chama que ninguém mais via. Durante a valsa, o conde dançou com Dona Isabel e Dom Luís com Dona Carlota. Momentos depois, ao passar pelo Visconde, murmurou algo baixo que só eu, de pé junto à parede, captei: “No jardim, atrás do pavilhão das laranjeiras. Quando a lua subir.”

Meu sinhô empalideceu, mas assentiu quase imperceptivelmente. Eu o vi beber mais uma taça, fingindo conversa com os coronéis, enquanto o coração lhe batia descompassado. O Barão de Cotegipe, o cercava: “Meu caro visconde, pense na proposta que lhe fiz. Carlota admira-o tanto.” Dom Luís respondeu com vagas promessas, mas eu sabia que sua mente estava longe, no jardim.

Quando a lua se ergueu alta, prateando as folhas, meu amo escapou discreto. Eu o segui, como sempre fazia, escondido nas sombras, não por ordem, mas por lealdade. Um escravo vê o que os senhores escondem. Atrás do pavilhão das laranjeiras, onde o cheiro doce das frutas maduras se misturava ao da terra úmida, os dois se encontraram.

O conde já esperava, encostado numa árvore, a casaca desabotoada, o colarinho aberto revelando o pescoço forte. Quando viu o Visconde, sorriu aquele sorriso guardado só para ele, não o de corte, mas o verdadeiro, faminto. Sem palavras, aproximou-se e tomou-lhe o rosto entre as mãos, beijando-o com urgência contida. Meu sinhô, rendeu-se de imediato. Os lábios com fome antiga, línguas se entrelaçando como se temessem que o momento acabasse.

As mãos do conde desceram pelo peito do Visconde, desabotoando a casaca, abrindo a camisa de linho fino até expor a pele pálida, marcada pelas noites de insônia. “Luís”, murmurou o conde contra sua boca, “quanto esperei por isso.” Meu amo gemeu baixo, as mãos tremendo ao puxando o quadril dele contra o seu sentindo a dureza do seu pau que já estufava as calças. Eles tropeçaram até uma clareira escondida por arbustos altos, onde o chão era macio de folhas caídas.

O conde empurrou o Visconde contra o tronco de uma laranjeira, beijando-lhe forte o pescoço, mordiscando a clavícula enquanto desabotoava suas próprias calças. A lua iluminava os dois como uma bênção secreta. Dom Luís, ofegante, deixou que o conde lhe abaixasse as calças até os joelhos, expondo à sua rola ao ar fresco da noite. O conde que nunca se curvava, ajoelhou-se por um instante, tomando-o na boca com devoção que nenhum padre compreenderia, língua quente rodeando a cabeça exibida, lábios semi cerrados sugando devagar até que meu sinhô arqueasse as costas, gemendo o nome do conde “Pedrooo” entre dentes cerrados.

Depois ergueram-se os dois, e foi o Visconde quem tomou a iniciativa, colocando o conde de costas, apoiado em uma árvore. Com mãos ansiosas, arriou as suas calças, expondo as nádegas brancas cobertas por pelugem e firmes, e cuspiu na palma para preparar-se. O conde apoiou as mãos no tronco, cabeça baixa, respirando fundo sofrendo no aguardo, enquanto meu amo entrava devagar, centímetro por centímetro, com os lábios colados em sua nuca, até que os dois estivessem unidos por completo. “Mais”, pediu o conde, voz rouca, “não pare.” E o Visconde obedeceu, movendo-se primeiro devagar, comprimindo suas ancas afim de penetrar por completo, o máximo possível. Depois com mais força, os corpos batendo um contra o outro no ritmo antigo do desejo proibido. Eu, ali no meio da escuridão escoltando o local para evitar surpresas.

Os gemidos eram baixos, abafados, mas eu os ouvia todos — o conde chamando “Luís, meu Luís”, o Visconde respondendo com sussurros de amor que nunca diria à luz do dia. As mãos do conde desceram para se masturbar enquanto era arregaçado, e o Visconde acelerou, uma mão tapando a boca do amante para conter os sons, a outra apertando-lhe os peitos. O prazer cresceu como onda, até que o conde gozou primeiro, jorrando sobre as folhas, corpo tremendo. Meu sinhô seguiu logo depois, enterrado fundo, derramando-se dentro dele com um gemido longo, quase um soluço.

Ficaram assim por minutos, abraçados, ofegantes, o conde virando-se para beijar o Visconde com ternura agora, limpando-lhe o suor da testa. “Isso não pode continuar”, murmurou Dom Luís, voz partida. “Você casa-se com Dona Isabel, eu... talvez com Carlota, para salvar as terras.” O conde apertou-o mais forte. “Já lhe disse que não precisa, eu pago as dívidas da sua família, nos tornamos sócios vitalícios, Isabel será a cortina perfeita.” Beijaram-se mais uma vez, devagar, como quem guarda o sabor para os dias de fome.

Eu me afastei antes que voltassem, coração pesado. Quando meu sinhô retornou ao salão, rosto composto, o Barão de Cotegipe já o esperava com Dona Carlota ao lado para mais uma dança.

Meu amo sorriu, pálido, dançaram com sorrisos no rosto, mas eu sabia: ele carregava no corpo as marcas do conde, e no peito a dor de saber que o dote de Carlota poderia salvar as terras, mas nunca salvaria sua alma.

Naquela noite, ao ajudá-lo a despir-se, vi as marcas vermelhas no pescoço, o brilho diferente nos olhos. Ele não disse nada, e eu também não. Apenas lhe entreguei a camisa limpa e fiquei de pé junto à porta, como sempre. Porque eu via tudo. E calava tudo.

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