O amor é estúpido!
Não falo de qualquer paixonite ou casinho, como tantos por aí. Falo do amor intenso, desmedido, apaixonado no limite. Falo de amor pra caralho, como poucos. Esse sim, é estúpido.
Estamos no final da década de cinquenta e o mundo se divide entre a magia inocente dos anos dourados e a rebeldia displicente da juventude.
Pensei muito sobre como contar essa história. Tenho certa dificuldade em começar falando sobre mim: apesar de minha inconsequência ser comum entre os jovens, creio que extrapolei os limites da razoabilidade.
Não, definitivamente, ainda não estou pronto para ir por aí, chegaremos lá mais adiante. Éramos três os envolvidos, então vou começar falando sobre o Machado, o Machadinho.
Num triângulo, Machadinho certamente viria a ser nosso ângulo reto: firme, duro, estruturado, uma base sólida que determina em grande parte o comportamento dos outros lados e ângulos dessa história.
Já nessa época tais características eram perceptíveis nele, filho de coronel e todo enquadrado. Machadinho era bom em tudo, esportes, matérias, raciocínio. Só não tinha muito traquejo em relações pessoais, pois, para ele, tudo era só uma questão de disciplina e determinação.
Todo o seu jovem conservadorismo, é claro, o levou à seguir os passos do pai. Foi no último ano do Instituto Militar de Engenharia, lá na Praia Vermelha, justo quando estava prestes a virar tenente, que ele conheceu Ivetinha num baile dos cadetes.
Moreninha mignon, com covinhas nas bochechas e corpinho cheio de curvas nos lugares certos, Ivetinha chamou a atenção do rapaz, envolta num vestido de corpete justo e saia rodada, com um colarzinho de pérolas brancas que ressaltavam seu lindo sorriso de dentes bem alinhados e uma tiara de princesa coroando o coque elevado nos cabelos castanho-claros.
Quando Machadinho se aproximou da mesa de Ivetinha apresentando-se a seus pais e pedindo permissão para dançarem a próxima valsa, vestindo sua farda de gala com casaca azul escura e calça preta, seu Arnaldo e dona Margot sorriram de orelha a orelha.
Com uma carreira promissora pela frente, o rapaz era um partidão para uma boa moça de família. Esses bailes serviam para isso, era a tradição. Os convites eram disputados, todos queriam apresentar as filhas aos aspirantes a oficial para garantir-lhes um futuro seguro e uma vida melhor.
Haviam muitas moças na mesma condição de Ivetinha, todas bem arrumadas e ansiosas, esperando um convite para dançar. Mas, para um jovem como Machadinho, aquilo se tratava de eliminar opções, separar o joio do trigo, escolher o melhor alvo e atacar sem dar chances ao acaso.
Ele passou um bom tempo parado, analisando cada mesa, medindo as roupas e os sorrisos, com especial atenção para as mães das pretendentes. O coronel havia ensinado ao filho: “uma esposa se escolhe pela mãe, é o retrato de como ela será quando envelhecer!”
Por isso, quando Machadinho pôs os olhos em dona Margot, não teve dúvidas de que Ivetinha seria a escolhida.
A postura ereta ao sentar-se, as mãos envoltas em luvas brancas delicadamente postas sobre a mesa, o cabelo loiro bem armado com laquê sem nenhum fio solto, os braços finos à mostra equilibrando um par de seios rígidos e bem proporcionados com os ossos do colo demarcados na pele alva, a maquiagem discreta sem exageros, tudo fazia com que Margot, do alto de seus quase quarenta, parecesse uma atriz de cinema dos Estados Unidos.
A valsa foi agradável. Ivetinha era leve e ágil, não pisou em seus pés, guardou uma distância recatada e deixou-se levar rodopiando pelo salão atendendo aos comandos de seu par.
Com uma mão retendo-a pela cintura guiando os passos e a outra enlaçada na de Ivetinha, Machadinho sentia o perfume suave exalando desde o pescoço fino da garota e apreciava a precisão com que ela correspondia aos seus passos, mesmo quando ele errava um giro propositalmente ou mudava a direção sem aviso somente para testá-la.
Ao voltarem à mesa, Machadinho fez questão de sentar-se e entabular uma conversa com seu Arnaldo, o pai de Ivetinha que, vestindo colete e casaca, dava largas baforadas num charuto cubano e sorria um tanto demais, devido ao entusiasmo movido pelo scotch on the rocks.
Se Machadinho apenas devolvesse a garota, tudo terminaria ali. Contudo, ele havia sentado e contado sobre a vida de interno na academia e sua família em São Paulo, onde seu pai era coronel. Essa atitude indicava que tudo fora bem na dança, e que o rapaz tinha intenções sérias para com Ivetinha.
Seu Arnaldo seguiu o protocolo e apresentou suas credenciais de advogado do homem que comandava o maior banco privado do país, que lhe fizera o grande favor de conseguir os convites para aquele baile.
Trocaram contatos e, para não deixar sua presa escapar, seu Arnaldo convidou Machadinho para almoçarem no Copa já no próximo domingo.
Após esta breve interação, Machadinho despediu-se e voltou ao dormitório, onde fez uma ligação para São Paulo e reportou ao pai que a missão fora cumprida: ele escolheu uma bela pretendente, moça recatada e de boa família, a futura esposa necessária para garantir o próximo passo de sua promissora carreira militar.
Já no salão de festas, seu Arnaldo chamava Margot e sua filha para se retirarem. Não havia porque permanecerem além do necessário, a estrada até a zona sul era traiçoeira e Ivete tinha fisgado um cadete dos bons, se não o melhor deles, filho de um coronel.
No caminho, enquanto dona Margot suspirava ao comentar como o baile havia sido lindo e recordava quando conhecera Arnaldo, o homem tinha a mente longe, pensando que as coisas agora melhorariam e Ivetinha tomaria um rumo certo na vida.
Era difícil ter uma filha nessa idade, os hormônios falavam alto, o comichão lhes ardia adentro, e não faltavam rapazes transviados de lambreta, jaqueta de couro e gel no topete para aproveitar-se de moças inocentes.
Mal sabia ele que em nosso triângulo sua filha seria o ângulo de 60º, incontrolável, aberto como uma boca que deseja engolir o mundo de uma só vez, o encontro entre as retas capaz de tragar todo o sabor da vida, indiscreto, escandalizando os ângulos retos que a cercavam, como Machadinho e o próprio seu Arnaldo.
Dona Margot bem sabia, via na filha todos os sinais do que vivera na juventude, quando seu pai apressou o casamento com Arnaldo. E aí dela se questionasse, em sua época o que esperava de uma filha era submissão absoluta. Mesmo tendo uma queda por uniformes, Margot obedeceu e casou-se com o então jovem advogado.
Pensar em uniformes a fez lembrar-se outra vez do baile. Todos aqueles cadetes bem apostos com suas fardas de gala, um verdadeiro deleite para os olhos. E o tal Machadinho então? Ivetinha tirara a sorte grande, o rapazote era um pedaço de mal caminho, forte, alto, bonito e, a julgar pelo volume em suas calças quando a cumprimentou, bem dotado.
Sem nem perceber, enquanto Arnaldo roncava a seu lado na cama, Margot sentia calores subindo por seu corpo e respirava fundo, tentando conter os espasmos provocados por seus dedos entre suas pernas, enfiados lá dentro, provocando a si mesma ao lembrar de Machadinho.
Quanto a Ivetinha, seus planos eram bem outros. A garota não se importava com os desejos do pai e nem pensava no tal cadete como sua mãe. Ao pular a janela do sobrado, Ivetinha mais uma vez escapava da vigilância constante dos pais.
Na esquina, seu amor secreto, um rapaz de jaqueta de couro e topete engomado montado numa lambreta vermelha a esperava. Esse era eu, João Paulo, ou Jôpa, como me apelidavam.
Pois é, nesse triângulo, eu cheguei antes de Machadinho e era o ângulo agudo, de 30º, afiado, contundente, incômodo e provocativo, capaz de indicar o caminho, mas também capaz de ferir quem o seguisse.
Nos conhecemos fazia uns dias, depois de um racha onde nossa turma arrebentou uns carinhas esnobes de Ipanema. Eu não tinha carro, mas queimei a pista com a lambreta, devo ter batido os setenta por hora, passei pela reta final como um raio e deixei todo mundo comendo poeira.
Foi arriscado, não tinha nem capacete, mas comigo era assim, tudo ou nada.
Depois da corrida fomos para o drive-in comemorar e a Célia, uma amiga lá do meu bairro na zona norte, veio comentar que uma moreninha estava perguntando sobre mim, querendo saber se eu tinha namorada e essas coisas.
Peguei meu pente, ajeitei o topete e fui lá xavecar, afinal, quando o assunto eram garotas, eu não marcava bobeira.
Célia nos apresentou e ter conhecido Ivetinha mexeu comigo. Essa garota era diferente, logo vi. Sem o recato e as manhas das outras que já havia conhecido, ela foi direta e objetiva.
– Então, você é que é o tal? O rei da lambreta? Já te vi por aí. Estava esperando para te conhecer melhor.
– Rei da lambreta? Não diria tanto. É que eu tenho uns truques, só isso. Sei mexer nos motores, faz a diferença.
– E esses truques… São só de motores, ou você sabe mexer em algo mais?
– Broto, você nem imagina no que eu sei mexer.
– Não, não imagino, mas aposto que você vai gostar de mostrar pra mim!
Esse foi o início da conversa. Ficamos um tempinho de provocação e, por incrível que pareça, Ivetinha subiu na minha garupa para irmos dar umas voltas, até terminarmos no mirante. Esse era um local conhecido, mas geralmente à noite só iam lá os amantes, casais que são casados, mas não um com o outro, se é que me entendem.
Havia um par de carros estacionados, sacolejando e com os vidros embaçados. Fiquei meio constrangido, mas Ivetinha riu e achou divertido, quando muitas garotas da nossa época ficariam chocadas - e provavelmente jamais iriam até lá naquela hora por causa disso.
Eu saltei da lambreta, mas Ivetinha permaneceu sentada na garupa. A brisa morna que soprava do mar ameaçava subir sua saia e ela a retinha no lugar para não mostrar demais. Ainda assim, por estar sentada ali, a saia estava bem acima dos joelhos, no meio de suas coxas morenas e bem torneadas.
Cheguei mais perto e voltei a sentar-me, dessa vez de frente para ela. Seus olhos brilhavam com a luz da lua que nos banhava e o perfume que exalava vinha suave pela brisa até mim. Nossas pernas se sobrepunham enquanto nos olhávamos e suspiramos ao mesmo tempo.
Creio que foi nesse momento que me apaixonei.
Por um curto tempo, o silêncio só era rompido pelo som das ondas quebrando nas pedras lá embaixo, até eu decidir retomar nossa conversa.
– Então, broto… O que você faz? Ainda na escola?
– Não, bobo, eu já terminei. Agora queria estudar história, mas o meu pai não deixa. Ele acha que eu tenho que casar em vez de seguir os estudos.
– História? E pra quê estudar isso? O seu velho tem razão, história não combina com um pitelzinho como você!
– Olha só quem fala. E você, faz alguma coisa além de querer morrer em cima de uma lambreta?
– É claro que sim. Depois da escola, virei mecânico na oficina do meu pai. É a minha paixão, carro, lambreta, barco, não importa. Se tem motor, é comigo!
– E avião? Já mexeu em motor de avião?
– É claro que não. Mas eu mexeria, se um deles caísse nas minhas mãos.
– Pois olha só, pãozinho, hoje é seu dia de sorte. Esse avião aquí acabou de pousar nas tuas mãos e está prontinho pra decolar!
– Como é?
– Jôpa, nós viemos até aqui só pra ficar de conversinha? Vamos lá, pãozinho, meu motor está ronronando por você!
Sentados sobre a lambreta, ela reclinou o corpo e aconteceu nosso primeiro beijo. Nunca havia conhecido uma garota assim, tão decidida, mas essa era Ivetinha: ela sabia o que desejava e não tinha vergonha de correr atrás.
Meu coração batia disparado, eu mal podia acreditar. Numa só noite, ganhei o racha, conheci uma garota da zona sul, fomos para o mirante e agora eu ganhava meu primeiro beijo de verdade.
No calor do momento, coloquei minhas mãos sobre suas pernas, segurando seus joelhos enquanto nossas bocas se exploravam. Senti sua pele morna e macia, aquilo era tentação pura. Fui deslizando para cima, subindo pelos músculos de suas coxas até entrar por baixo da barra da saia, quando ela me deteve, segurando minhas mãos ali para marcar o limite de sua permissividade.
Não se enganem, isso pode parecer pouco, mas não era. Apesar de toda a provocação entre nós, ambos éramos virgens e era praticamente impossível que isso acontecesse entre dois jovens, sendo eu um rapaz de cor da periferia que sonhava em ser mecânico e ela uma moça de família da zona sul.
Sinceramente? Agora sim, eu me sentia o próprio rei da lambreta!
Nos dias que se seguiram, eu passei a esperar Ivetinha na esquina de sua casa todas as noites. Depois que seus pais se deitavam, ela escapava pela janela do quarto e vinha para mim. Não íamos encontrar a patota, nosso romance era proibido e secreto.
Em vez disso, rumávamos para o mirante, onde fazíamos planos de fugir juntos e nos beijávamos livremente com carícias cada vez mais ousadas à medida que ganhávamos mais intimidade e que a paixão se acirrava. Sem perceber, eu me amarrei à Ivetinha. O cupido me flechou e eu nem percebi.
Naquela noite, como Ivetinha tinha sido arrastada pelos país para um baile no Círculo Militar, ela chegou mais tarde e já não dava para ir ao mirante. Trocamos só uns beijinhos furtivos sem que ela sequer subisse na lambreta, pois estávamos em sua vizinhança. Ivetinha, um tanto constrangida, entrou no assunto.
– Jôpa, querido, temos que conversar…
– O que foi, broto? Algum problema?
– É… Bem, tem umas coisinhas que tenho que contar.
– É sobre o seu pai? Acha que teremos que fugir antes do planejado, é isso?
– Jôpa, me desculpe. A gente não vai mais fugir. Eu vou me casar!
Enquanto isso, lá na praia vermelha, deitado na cama da caserna, Machadinho não conseguia dormir. Era sério, se quisesse chegar a general um dia, ele teria que casar com aquela garota pelo resto da vida. Conhecia o coronel e sabia que, uma vez dado o telefonema, não havia mais escapatória. “Os Machado sempre avançam, nunca recuam e nem se rendem” - era o que sempre ouvira do pai.
Tentando não pensar demais em tudo que aquela noite significava para seu futuro, Machadinho fez o que sempre fizera quando não conseguia dormir. Levantou-se, bateu no ombro do Pinda, o companheiro que dormia no catre ao lado, e rumou para o banheiro no final do dormitório.
Pinda, um rapaz magricelo vindo lá de Pindamonhangaba, filho de um civil qualquer que, por ser muito inteligente, conseguira entrar no Instituto de Engenharia, era o saco de pancadas do pelotão liderado por Machadinho.
Durante os anos passados no IME, Pinda aprendera a obedecer seus superiores sem questionar, assim que colocou seus óculos de armação grossa e, ainda sonolento e meio trôpego, seguiu o outro.
Ao entrar no banheiro, encontrou Machadinho em pé com a cueca abaixada e o pau duro nas mãos, masturbando-se. “Ajoelha e dá uma mamada, viado!”, foi a ordem recebida.
Enquanto socava a piroca na boca do Pinda, Machadinho ia apagando da mente as suas preocupações, as notas, a ascensão à tenente, o coronel lá em São Paulo, o baile, o almoço com a família de Ivetinha no próximo fim de semana e o futuro casamento.
Tudo ia se desfazendo enquanto ele segurava o Pinda pela nuca e o fazia engasgar metendo em sua boca, avançando o pau com força até a garganta, como um Machado de verdade devia fazer, ao imaginar que estava sobre a mesa na frente de todos em pleno baile, fodendo… dona Margot, a mãe de Ivetinha que mais parecia uma atriz americana!
Assim andavam as coisas, Ivetinha me contou do baile e do tal Machadinho, a quem eu já comecei a odiar sem nem mesmo conhecer. Por isso, ela agora teria que se afastar de mim, mas mesmo assim custava a largar o osso - e o osso, no caso, era eu, de novo.
– Jôpa, é só um tempo, querido.
– Um tempo? Ivete, você vai casar! Vai casar com outro cara em vez de fugir comigo!
– Eu sei, parece estranho agora, mas a gente vai conseguir dar um jeito!
– Um jeito? Que jeito? É um casamento! O cara vai ter você para o resto da vida!
– O resto da vida… Não, isso parece muito tempo. É claro que ele vai querer fazer coisas comigo, afinal, será o meu marido. Mas ninguém disse que tem que ser o único. E, Jôpa, eu gosto mesmo é de você!
– Ivete, não seja doida. É um casamento, é coisa séria. Eu vou ser o seu amante é isso? A gente ia fugir juntos, e agora eu vou ser o plano B?
– Querido, e os carros no mirante? Ter amantes é uma coisa normal, hoje em dia todo mundo tem! Não vejo problema nenhum em me casar com o Machadinho e a gente continuar saindo!
– Não, Ivete, definitivamente não! Ou é pra ser do caralho, ou é melhor não ser nada!
Nem bem eu disse essas palavras, já me arrependi. Eu perdi a Ivete exatamente ali, ao impôr aquela condição de exclusividade. Não sei como era o tal Machadinho, mas eu jamais aceitaria dividi-la com outro. E esse era o ponto final entre nós.
Sim, o cupido é estúpido e suas flechas só trazem a agústia e dor, foi o que eu aprendi com Ivetinha. Eu dei meu coração a uma bela moça achando que ela me faria feliz, mas ela o mastigou feito chiclete, fez uma bolha e estourou na minha cara, deixando só desilusão.
Passei uma semana horrível. Só o trabalho nos motores me acalmava. Depois que a oficina fechava, eu pegava a lambreta e saía por aí, bebendo e acelerando, nem sei como não sofri um acidente.
No final de semana piorou. A oficina fechava e nem o consolo dos motores eu tinha. Meu desespero era tanto que peguei a lambreta e fui até a zona sul. Fiquei de tocaia na esquina de Ivetinha. Eu só queria vê-la uma vez mais, quem sabe assim conseguiria esquecê-la.
Enquanto esperava sobre a lambreta, ideias confusas surgiam na minha cabeça.
Mas afinal, o que eu achei? Que aquele broto da zona sul, criada repleta de mimos, ia mesmo fugir com um preto pobre da periferia? Rei da lambreta uma ova, eu era só um brinquedo para ela!
Mas, ao mesmo tempo, nossas noites no mirante eram tão especiais, a energia entre nós era tão potente e nossos beijos eram tão verdadeiros, que devia haver realmente amor ali. Ivetinha até já estava quase se entregando para mim!
Não, se não fosse pelo seu pai, e o tal Machadinho, ela seria minha! Minha! Casamento uma ova, se ao menos eu pudesse fazê-la entender, se a fizesse ver o que eu via, certamente Ivetinha jogaria tudo para o alto e fugiria comigo!
Em meio a essa contradição, o carro dos pais de Ivetinha passou por mim. Tão perto e tão longe, lá estava ela, sentada no banco de trás. Num impulso, dei no pedal e comecei a seguí-los. Eu precisava só de uma oportunidade para falar com ela e mudar tudo.
Os segui até o Copacabana Palace, provavelmente iriam almoçar lá. Fiquei de longe, olhando como a família de Ivetinha se dirigia a uma mesa onde um engomadinho com um conjunto de linho branco os esperava.
Este devia ser ele, o meu rival, o Machadinho.
Fui até a barra e pedi uma cuba-libre que devia custar o meu salário inteiro, enquanto os via conversar. Ivetinha estava linda, vestindo uma blusa justa sem mangas e uma saia lisa com uma fita em meio aos cabelos, como se fosse uma pin-up de revista
Pude ver seu olhar distante perdido na praia depois da avenida, e notei que ela mal se dirigia ao tal Machadinho. Enquanto os pais de Ivetinha se derramavam em atenções para com o rapaz, ela não estava nem minimamente aí para ele. Isso era muito bom!
Fiquei esperando uma oportunidade, eu já ia pela terceira cuba-libre e nem sabia como pagaria aquela conta, enquanto eles comiam seu prato principal. Machadinho era só sorrisos e boas maneiras à mesa, o que me enfurecia por dentro, principalmente porque era visível o quanto Ivetinha estava incomodada de sentar-se ao seu lado.
Em dado momento, ele colocou sua mão sobre a dela enquanto conversavam e para mim foi o estopim. Aquele riquinho seboso estava tocando na minha garota e eu tinha que ficar só olhando? Nem pensar, eu ia partir pra cima dele!
Só nessa hora Ivetinha percebeu que eu estava ali, quando saltei do banquinho e fui como um trator até eles derrubando umas cadeiras. Ela viu como agarrei uma faca de uma das mesas no caminho e dei uns encontrões nuns garçons que se aproximaram querendo me segurar.
Cheguei lá botando a maior banca e berrando para o tal Machadinho se afastar dela!
Ok, eu estava mal vestido para aquele ambiente, com meus jeans e jaqueta de couro, era a única pessoa de cor ali e apontava uma faca a poucos centímetros do rosto de dona Margot, enquanto gritava coisas sem sentido por estar bem bêbado.
Não foi a melhor apresentação, eu tentava me explicar mas as palavras saiam arrastadas, todos no restaurante me olhavam espantados e Ivetinha virou o rosto para o lado, tentando disfarçar e fingindo não saber quem eu era.
Quando os seguranças pularam sobre mim e me atiraram ao chão, tudo o que consegui gritar que fizesse sentido foi: “Ela é minha, caralho! A gente se ama e vai fugir junto!”
Cinco horas depois do vexame, meu pai conseguiu me tirar da delegacia. Só saí limpo porque o delegado era da zona norte e consertava o carro na oficina. Busquei a lambreta e, enquanto voltava para casa, as palavras do velho ressoavam na minha cabeça: “Jôpa, toma jeito. É a última vez que faço isso. Da próxima, deixo você na cadeia!”
Não consegui ir para casa, estava morrendo de vergonha dos meus pais. Fiquei na pracinha do bairro vendo o dia escurecer, sem saber o que faria da vida. Foi aí quando vi Célia se aproximando, a mesma amiga que havia me apresentado à Ivetinha.
– Oi Jôpa! Nossa, você está arrasando, hein?
– Eu? Arrasando? Celly, eu estou mais para arrasado!
– Que nada, pão! Eu já soube de tudo, falei com Ivete ao telefone. Nossa, achei tão romântico! Uma brasa!
– Romântico uma ova, eu paguei o maior vexame. A Ivete deve estar me odiando, eu queimei o filme dela com os pais e eles devem achar que sou um marginal!
– Não, Jôpa! Na hora, pareceu que você estava falando com a dona Margot, o pai dela ficou furioso com a esposa pensando que vocês tinham um caso! O que importa é que a Ivetinha saiu limpa.
– Mesmo assim. Depois do que eu fiz, ela nunca mais vai querer me ver!
– Que nada, ela confessou que gostou muito de você ter tomado uma atitude! Já avisou toda a patota do que aconteceu, de tão excitada que ficou!
– A turma toda? Caralho, que vergonha!
– Jôpa, não estou te entendendo. O pessoal está comentando sem parar, você enfrentou os pais da Ivete e até foi preso, tudo em nome do amor! Você agora é o nosso herói!
Essa era boa. Eu ali todo envergonhado e no final as coisas nem eram tão ruins assim. Quer dizer, não eram tão péssimas, mas continuavam sendo ruins. Eu até queria ter a esperança de que Ivetinha voltasse para mim depois de todo aquele desastre, mas sabia que era altamente improvável.
– Nossa, eu não imaginava que isso estivesse acontecendo, sério mesmo. Mas isso não muda o fato de que a Ivetinha vai casar com aquele riquinho.
– Realmente, eles vão se casar. Mas é isso que torna a história toda mais legal, o pessoal está questionando isso de casamento e tradição! É quase uma revolução!
– Tá, mas ela vai se casar, mesmo assim. E eu vou ficar chupando o dedo.
– Jôpa, ela vai casar porque o pai dela está obrigando, mas gosta mesmo é de você.
– E eu vou fazer o quê? Ser o amante dela? Esperar que ela desquite para ficarmos juntos? Sabe quanto tempo isso vai demorar? Não dá Celly, simplesmente não dá!
– Olha só, vou dar um toque. Uma garota como Ivetinha nunca vai terminar com um mecânico. Nada contra, mas, ainda que os pais não fossem um problema, é muito pouco para gente do naipe dela.
– Então acabou mesmo, porque é isso o que eu gosto, de motores.
– Eu sei. Mas olha só, porque você não faz faculdade, tipo engenharia, por exemplo? O tempo vai passar, a Ivetinha não vai aguentar o tal Machadinho. Nem ele vai aguentar a barra. Ivetinha é…moderninha demais!
– Tá doida? E eu lá tenho pinta de militar para estudar no IME? Nem pensar!
– Não precisa ser lá. Pode ser qualquer faculdade. O importante é que você seja um profissional formado quando Ivetinha terminar o casamento. Tudo isso já vai ser passado e ninguém mais vai se lembrar. Aposto que ela vai entrar na sua e os pais não vão criar caso!
Por mais estranho que fosse, a conversa com a Célia me deixou pensando. Eu não podia modificar o presente, Ivetinha ia se casar e ponto final. Mas eu podia me preparar para o futuro, e nisso Célia tinha razão.
Eu não era burro, sempre tirei boas notas, até curtia ler e só não me interessava mais pela escola porque eu gostava mesmo era de mexer em máquinas. Eu bem poderia fazer faculdade, mas tinha que ser algo que não incomodasse muito e me permitisse seguir na oficina.
Economia? Não, devia ter muitos números. Direito? Chato, ficar atrás de uma mesa escrevendo baboseira. Medicina? Era caro e tinha muito sangue, deus me livre.
E foi aí que eu tive aquela idéia. Mas é claro, como eu não tinha pensado nisso antes! Eu ia cursar História! Sim! História era o curso predileto da Ivetinha e não daria muito trabalho, eu podia estudar à tarde e trabalhar na oficina de manhã. E o curso nem devia ser tão caro!
Aquilo foi como uma lufada de ar fresco. Agora, eu tinha um plano e um futuro pela frente, e esse futuro me levaria diretamente à Ivetinha! Não importava se o cupido era estúpido, eu iria superar tudo e voltar a batalhar pelo meu amor!
A cara dos meus pais quando voltei pra casa e disse que ia fazer faculdade…
Minha mãe queria chorar de felicidade, eu ia ser o primeiro da família a ter um diploma. Meu pai sorria incrédulo, de uma hora para outra, deixei de ser o filho transviado da lambreta para ser o futuro da nação!
Passei meses estudando para as provas e seguia de dia na oficina, entre os carros e as motocicletas. A preparação para os exames era extensa e tinha muita matéria que cobrir. As ciências exatas me custavam um pouco mais, mas as humanas iam até com facilidade. Principalmente história.
Acho que foi nesta época que meus olhos se abriram. Quanto mais eu estudava, mais criava a certeza de que seria o curso certo. Se era para ter um diploma, tinha que ser esse.
Comecei a entender mais sobre a história da riqueza do homem, porque as sociedades eram tão desiguais, como o capitalismo se estabeleceu entre nós e toda a miséria que causava, as jogadas políticas de todas as elites ao longo do tempo para se perpetuar no poder, as revoluções do povo em busca de liberdade e todos os massacres movidos pela força da grana que ergue e destrói coisas belas…
Enfim, eu comecei a achar história uma brasa, mora? Quem diria!
Enquanto isso ocorria, as outras pontas do nosso triângulo se moviam, querendo transformar-se numa reta. Sim, uma reta, o caminho mais curto entre dois pontos, sendo um deles Ivetinha e o outro, Machadinho.
Quando ele se graduou como tenente, seus pais vieram de São Paulo para a cerimônia. Seu Arnaldo aproveitou a ocasião e deu uma recepção para a família do coronel Machadão, com tudo arranjado entre eles para anunciar o noivado dos filhos.
Ivetinha olhava desconfiada para seu pai, que conversava animadamente com o coronel, os dois fumando seus charutos e discutindo política. Eram tempos um tanto controversos, o presidente estava preparando a mudança da capital para os quintos dos infernos e a Revolução Cubana havia estourado há poucos meses, ambos temas dividiam acirradamente as opiniões e qualquer discussão podia terminar em briga.
Quando dava a volta, Ivetinha ficava mais desconfiada ainda, ao ver dona Irene, a mãe de Machadinho, sozinha enchendo a cara de martínis numa festa onde ela não se sentia à vontade de dizer uma palavra. Nas poucas vezes que tentava interagir com alguém, o coronel subia uma sobrancelha em sinal de desaprovação e a dona voltava a ficar muda, com um sorriso meio patético estampado no rosto.
E piorava.
Se Ivetinha terminasse a volta, o que via era seu noivo e futuro marido, aquele tenente bonitão, muito próximo à dona Margot, mas tentando a todo custo disfarçar que não tirava os olhos de sua mãe. E ela, ao invés de ignorá-lo, ria animadamente com as coisas que ele cochichava em seu ouvido e até segurava o braço do rapaz, num claro sinal de intimidade.
Nesse momento, dona Margot parecia uma reta inclinada que insistia em correr em direção ao mesmo ponto que Ivetinha, dando a impressão de que um novo triângulo ainda mais perigoso poderia formar-se. Bem, provavelmente isso era tudo fruto de sua imaginação e da tensão por estar dando um passo tão sério na vida.
Ivetinha foi até a barra pedir um refresco para esfriar os ânimos e acalmar suas idéias e ali acabou conhecendo os rapazes, o grupo de colegas do pelotão de Machadinho que fora convidado por cortesia. Aquilo, sem dúvida, era muito mais interessante que o resto da festa.
Os jovens todos usavam seus trajes de gala e era lindo de se ver como aqueles rapazes bem apessoados se divertiam, bebendo e relembrando os casos que viveram com Machadinho no Instituto. A cada brinde, contavam histórias sobre troças que pregaram nos professores, as escaramuças que fizeram entre eles e as brincadeiras que ficaram marcadas entre o grupo.
Era quase como um reencontro de uma fraternidade, não obstante as tais brincadeiras às vezes pudessem soar um tanto exageradas, parecendo inadequadas para quem não havia estudado com eles. Ivetinha ficou por ali, brindou e riu um pouco, mas sentiu-se um pouco desconfortável. Ao notar um outro jovem meio afastado do grupo, viu a oportunidade de sair dali o quanto antes.
– Oi! E você, porque está aí no canto bebendo, em vez de brindar com os outros?
– Ãhn? Ah, sim… É Ivete, não é? A noiva… Essa é boa, noiva…
– Como é? Olha, que tal parar de beber? Acho que já passou um pouquinho da conta e…
– Me deixa, dona Machadinha. Você não manda em mim. Nenhum deles manda em mim. Ninguém mais manda em mim!
Ivetinha ficou meio constrangida mas, vendo que o rapaz estava bêbado, tentou interferir mais uma vez. Não seria um merdinha embriagado que estragaria sua festa de noivado, por mais estranho que tudo estivesse.
– Olha só, acho que começamos com o pé esquerdo. Olá, eu sou Ivete, a noiva. E você, como se chama?
– Subtenente Carlos Vinícius. Mas pode me chamar de Pinda. Todo mundo me chama assim. Eu odeio. Olha só que ridículo: Subtenente Pinda se apresentando, senhora Machadinha!
– Então, Carlos Vinícius, porque você não vai lá com seus amigos? Eles podem cuidar de você, seja lá qual for o seu problema.
– Eles não são meus amigos. Odeio todos eles. Todos. Principalmente o seu noivo, se quer saber. Ele é o pior de todos!
– Mas… mas porque isso? O que o Machadinho te fez? Estou certa de que não pode ser tão grave assim, a ponto de odiá-lo!
– Hum, essa é boa! Quer saber o que ele fez? Quer mesmo? Ele fez da minha vida um inferno nos últimos quatro anos!
– Como assim? Se ele é amado pelo pelotão! Eu mesma estava ali com eles e vi como o adoram!
– É mesmo? Pois eu quero ver você adorá-lo depois do casamento, quando o Machadinho te obrigar a se ajoelhar no banheiro pra ficar chupando pau até ele esporrar na sua boca! Todas as noites! Todas!
A essa altura, Pinda já estava berrando e o grupo de colegas ali perto veio rapidamente interceder antes que aquilo virasse um escândalo. Terminaram arrastando o Pinda para fora mas, mesmo assim, ele seguia gritando ao gargalhar: “Bando de chupa-pau! Tudo viado! Te prepara, Machadinha! Tu vai comer muita porra!”
Houve um certo mal estar na festa após este acontecimento. Era como se um elefante com uma melancia pendurada no pescoço entrasse no salão peidando alto e todos fingissem não notar, tentando disfarçar seu incômodo. Já no carro voltando para casa, Ivetinha tinha cara de enterro, enquanto seu pai tentava apaziguar as coisas.
– Aquele rapaz meio embriagado passou um pouco dos limites, ainda bem que o retiraram à tempo. Fora isso, a festa foi ótima!
– A festa foi ótima mesmo, pai. O senhor ficou de fuxico com o coronel, que subjuga sua esposa como se ela fosse um capacho. Já a mamãe ficou de fuxico com o meu noivo que, por sinal, parece que é o viado da corporação! Realmente, uma beleza de festa!
– Mas minha filha, o que é isso? Se eu fiquei conversando com seu noivo, era exatamente para ter certeza de que ele vai tratá-la bem depois do casamento, ora bolas!
– Margot, nem vem. Você estava dando em cima do Machadinho, que eu bem vi. Já disse para parar com isso! Depois ele entra num restaurante ameaçando a gente com uma faca e vira um novo escândalo!
– Ah é, Arnaldo? Já disse que não tive nada a ver com aquele rapaz do Copa! Eu não estava dando em cima do Machadinho, era você que estava todo-todo lá com o coronel! O que foi aquilo? Vai chupar o pau dele, é? Olha que a família deles gosta!
Eles seguiram brigando por todo o caminho, e continuaram mesmo depois de chegarem. Na verdade, a desavença se instalou na casa de Ivetinha desde aquele almoço no Copa.
Arnaldo acusava Margot de ser uma vagabunda. Margot, que não tinha culpa, acusava Arnaldo de ser um chauvinista possessivo. E Ivetinha, contrariada, aproveitava para gritar que não queria se casar com nenhum tenentinho de merda.
Mas ninguém fazia nada, eles só gritavam uns com os outros por horas, até pararem de se falar, exaustos de tanto brigar.
Contudo, dessa vez havia algo diferente, ao menos para Margot. Ela podia mentir e tentar enganar aos demais, mas não a si mesma. O tema era justamente Machadinho…
Como aquele rapaz de uniforme, o mais bonito entre todos, que ficava jogando charme para ela a ponto de deixá-la ardendo por dentro, podia ser um transviado? Era mesmo verdade aquilo? Não, ela tinha que saber, pelo bem de Ivetinha, tinha que saber!
Durante a semana após o noivado, inquieta por esta dúvida, Margot tomou uma condução até a central, que ficava quase em frente ao comando militar. Para surpresa de Machadinho, quando ele atendeu ao telefone da portaria, um soldado avisou que uma tal de dona Margot estava ali procurando por ele.
Quando a viu perto do balcão de entrada, Machadinho chegou a suspirar. Margot estava mais linda do que nunca, usando um conjuntinho amarelo da Chanel como os de Jackie Kennedy, com luvas brancas e uma capa marrom felpuda sobre os ombros. A mãe de sua noiva era o próprio retrato da beleza com estilo!
– Oi dona Margot, que surpresa, a senhora por aqui!
– Oi Machadinho. Por favor, somos quase família. Nada de dona ou senhora. Pode me chamar de Margot.
– Está bem, Margot, melhor assim. Mas ao que devo o prazer? Posso ajudar em algo? É Ivetinha? É isso?
– Não querido. É você. Precisamos conversar. Desde o noivado, fico pensando numa coisa e… enfim, preciso falar contigo.
– Eh…. O noivado? Claro, claro. Mas melhor vamos até uma confeitaria. Tem uns lugares ótimos aqui no centro. Assim conversamos melhor!
– Não. Nem aqui no Comando, nem em confeitaria nenhuma. Preciso falar com você a sós. É sério, rapaz.
– Está bem, Margot. Então melhor pegamos o carro e vemos para onde ir, eu já estava saindo mesmo.
Ao cair da tarde, Margot e Machadinho seguiam pelas ruas da cidade mudos no Simca Chambord novinho do rapaz. Margot não sabia como abordar aquele assunto, mas precisava fazê-lo ou iria explodir. Já Machadinho, angustiado, tinha dúvidas.
Ela mencionou a festa de noivado, mas ali duas coisas bem diferentes haviam acontecido. Por um lado, ele não conseguiu resistir e se atreveu a dar em cima dela descaradamente. Por outro, teva a história do Pinda, que saiu de lá bebado e gritando que ele era viado.
Ao que Margot se referia? De qualquer maneira, ele teria que dar explicações e não seria fácil em nenhuma das hipóteses.
Os bairros iam passando e nenhum deles se atrevia a dizer uma palavra. Atravessaram Botafogo, Leme, Copacabana, Leblon, Ipanema e já iam rumo à Barra, quando Machadinho viu o Mirante e decidiu estacionar. Lá estava vazio naquela hora, ao entardecer.
– Então, Margot? O que você queria conversar?
– Eu… Eu…. Mas porque você parou aqui?
– Parei porque já estamos saindo da zona sul e eu estou morrendo de curiosidade, sem saber o que você tem a me dizer.
– É sobre o noivado. A festa, quero dizer. Aquele rapaz, o tal subtenente.
– Pinda. Um idiota, bêbado. Vou cuidar para ele ser castigado, não se preocupe.
– Mas é que ele disse… Bem, melhor irmos ao ponto: Machadinho, você é viado? Se for, pode dizer, eu não conto pra ninguém. A gente termina seu noivado com a Ivetinha e tudo bem. Eu só estou preocupada com a minha filha.
– Margot, eu juro que não sou viado. Mas acontecem coisas na caserna, você não vai entender, mas lá a gente tem que se impor, ser respeitado, ou não consegue subir na carreira. É quase uma tradição. E o Pinda terminou pagando esse pato.
– Mas então, você o obrigou a… a…
– Sim, eu obriguei o Pinda a chupar meu pau. Mais de uma vez. Mas aquilo não era prazer. Era só um Machado impondo a moral sobre os subalternos.
– E você sentiu prazer nisso? Quer dizer, enquanto o pobre estava lá, obedecendo ordens. Você gozou com isso?
– Gozei sim, não vou mentir. Enchi a boca do Pinda de porra, tal como ele merecia. Mas quanto a ter prazer, bem isso nos leva a uma outra questão.
– Outra questão? Qual outra questão? Para mim está claro, você gosta que outros homens chupem seu pau e sente prazer nisso!
Machadinho estava tenso. Margot não era fácil de enganar como as menininhas que ele conhecia, então havia optado por ser sincero e contar a verdade. Agora que já havia começado, ele ia ganhando coragem e sentia-se cada vez mais pronto para dizer tudo. Mas tudo era bastante coisa, talvez mais até do que ela quisesse ouvir.
– A outra questão é você, Margot. Você! Porque enquanto eu estava lá, sendo chupado pelo Pinda, na verdade eu estava pensando em você!
– Em mim?
– Isso mesmo, Margot. Eu fazia ele me chupar e imaginava que estava comendo você.
– Mas garoto, isso… Ai meu deus, isso não…
– Eu sei, eu sei, é errado, eu devia estar pensando na Ivete, mas o fato é que eu sinto tesão por você! Desde que a conheci! Você! Só você, Margot!
– Machadinho me leve de volta agora, por favor!
– Não Margot! Você queria conversar? Então vamos conversar até o fim! Eu sei que você gosta quando eu lhe dou atenção. Gosta quando eu cochicho no seu ouvido. Sei que você me quer, mas que não pode por causa da Ivetinha!
– Isso, eu não posso, então a conversa acaba aqui!
– Não mesmo, não senhora. Margot, chupa meu pau!
– O quê? Ficou doido?
– É uma ordem! Obedece, caralho! Margot, chupa meu pau agora! - disse Machadinho já abrindo a calça do uniforme e puxando a rola dura para fora.
Aquilo excitava tanto a ele quanto a ela. Sim, Margot estava excitada. Após anos sonhando com uniformes e aturando noites sem graça com seu advogado, agora ela tinha um jovem tenente, cheio de vigor, mandando nela como se fosse uma qualquer, uma desclassificada, uma devassa capaz de trair o marido e a filha ao mesmo tempo…
Margot se inclinou e começou a lamber o pau de Machadinho, aquilo fora demais para ela, tentação demais, emoção demais. Ela não conseguiu resistir à flecha daquele cupido estúpido e começou a chupar dedicadamente aquela rola.
Ávida e tomada pelo desejo acumulado durante os anos, Margot não se contentaria somente com aquilo. Sentir o calor de Machadinho pulsando em sua boca foi só o início, a fresta que faz a barragem estourar e vir abaixo.
Ainda tendo Machadinho em suas mãos como se não pudesse largá-lo, Margot veio sentar-se sobre ele no banco do carro e tal proximidade os levou a beijarem-se, com fogo e desespero, na pressa por se consumirem, com ele agarrando suas nádegas enquanto ela o masturbava.
No calor daquele beijo, Machadinho puxou a blusa Margot fazendo os botões saltarem pelo ar e deixando à mostra seu par de seios ofegantes ainda presos pelo sutiã, bem à sua frente, chamando-o.
Sentindo os dedos cravados em suas nádegas e a língua do rapaz em seus seios, ela olhava para o alto e mal conseguia respirar, exasperada de tanta vontade que sentia de que ele a tomasse, a fizesse sua, lhe desse ordens imperativas, a impedisse de resistir e a obrigasse a se entregar como nunca antes o fizera.
A unhas e dentes foram arrancando as roupas um do outro até que, nus no banco do Simca Chambord de vidros embaçados, Margot estava sobre Machadinho sentindo o pau ereto roçando entre suas pernas, prestes invadi-la, quando ela se deixou descer e a rola veio abrindo caminho, fazendo-a gemer de tesão a cada investida afoita do rapaz que dominava seu corpo inteiro.
Machadinho veio faminto, apertando-lhe as carnes, sugando os bicos tesos de seus seios e lambendo sua pele macia, dedicado totalmente a fazê-la sua, instalando-se em seu corpo como quem toma posse de um campo de batalha e despertando nela o espírito de lutar com seu sexo como se sua vida dependesse de sobreviver aos tremores do orgasmo que a atingia, poderoso e absoluto, preenchido com os jorros repetidos que alagavam suas entranhas.
Consumada aquela traição, era natural que Margot sentisse culpa. Não tanto por Arnaldo, de quem se via distante pelos anos de convivência e as recentes brigas constantes, mas principalmente por Ivetinha. Nem a pior das mães faria com sua filha o que ela fizera.
Mas aquilo não era só culpa, era algo mais profundo e corrosivo. Era remorso. Sim, um remorso dolorido porque, mesmo sendo um desatino e uma traição, ao mesmo tempo, foi bom. Não somente bom, havia sido pleno, de forma que ela nem conseguia se arrepender. E o remorso é isso, ela descobriu: culpa sem arrependimento.
“Nunca mais, infelizmente, nunca mais”, Margot repetia para si mesma silenciosamente durante o trajeto de volta à casa, até saltar do Simca Chambord na mesma esquina onde Ivetinha costumava partir para suas escapadas noturnas.
Na cama, fingindo dormir ao lado de Arnaldo, o corpo de Margot ainda se arrepiava ao lembrar do pau de Machadinho entre seus lábios, do sabor a macho impregnando-se nela, atiçando o louco desejo que a fez cair em tentação.
“Nunca mais, não foi nada, ninguém viu e ninguém nunca saberá, já passou”, ela tentava se convencer para aplacar o aperto do remorso no peito, quando na verdade não estava segura de que seria assim, de que conseguiria resistir se uma nova oportunidade se desse, de que não voltaria a cavalgar o pau de Machadinho se ele a procurasse, exigindo dela a entrega que já possuía.
Agora bem, essa flecha que atravessou Machadinho e Margot ao mesmo tempo, atirando-os num mundo de prazer e angústia, subverte nossa geometria. Dois triângulos irregulares, posicionados um ao lado do outro, formam um quadrilátero tão disforme e imperfeito como aquela união proibida entre sogra e genro.
E dizer que “nunca mais, sem consequências”, julgando que ninguém jamais saberá, era uma suposição inocente de Margot. Ela não sabia e não podia ter certeza. Mesmo porquê não era verdade.
Acontece que eu, mesmo determinado a passar nos exames de ingresso da faculdade, às vezes pensava em Ivetinha e sofria de uma melancolia que me esvaziava como a água descendo pelo ralo, em redemoinho, até não sobrar nada.
Nestas ocasiões, eu me permitia sofrer em silêncio, como se não falar sobre isso permitisse apagar tal sentimento e recobrar minha determinação de ocupar produtivamente o tempo até que pudesse ter Ivetinha outra vez.
Geralmente, subia na lambreta e rodava pelas ruas sem destino, tentando esvaziar a cabeça, até que, sem perceber, eu me via no mirante onde ia com Ivetinha. Ficava olhando o mar quebrar nas ondas lá embaixo e ouvindo o estrondo surdo me chamando para baixo.
Foi por isso que eu vi.
Sim, eu estava lá naquele fim de tarde e vi o Simca Chambord estacionando com Margot e Machadinho dentro, vi como discutiam e como se agarravam, vi quando arrancavam suas roupas e deixavam os vidros embaçados, vi o carro balançando como tantos outros que já vira ali, no embalo dos encontros proibidos entre amantes traidores.
Meu primeiro impulso foi contar tudo a Ivetinha. Eu acabaria com aquele noivado e ela voltaria para mim, seria fácil e não exigiria todo o esforço que fazia para tê-la no futuro.
Mas, ao contar, eu acabaria também com seus pais, um dano colateral necessário que a faria sofrer, talvez tanto quanto eu sofria agora.
Refletindo melhor, calculei que não tinha provas, e aquilo era algo bem difícil de acreditar. Eu fui testemunha, mas seria minha palavra contra a deles.
O escurinho rebelde que apontou uma faca no restaurante acusando uma mãe de família loira e o jovem tenente prestes a casar.
Ivetinha não acreditaria em mim, ninguém acreditaria em mim.
É duro ter a verdade nas mãos e precisar escondê-la, principalmente quando uma flecha arde no peito e essa mesma verdade pode arrancar a dor que provoca. Mas, depois de todas as considerações, resolvi me calar.
Eu não faria Ivetinha sofrer, não enfrentaria aquela família com a verdade questionável que detinha e muito menos formaria um quadrilátero amorfo naquela trama entre Ivetinha, Margot e Machadinho.
Eu teria que reter essa verdade calado, guardando-a por se acaso um dia precisasse, assim como vinha me guardando para Ivetinha no futuro e seguir até lá tentando atravessar dignamente o inferno de sobreviver ao amor que me foi negado.
Eu não podia imaginar, mas, a partir daquela noite, começava também o inferno de Machadinho. O tenente havia desejado Margot em silêncio por tanto tempo que, agora que esse grito contido fora solto, era impossível não escutá-lo.
Contudo, por mais que desejasse Margot, ele teria que ignorar aquele ruído ensurdecedor, calado como eu.
Revelar que se imiscuíra com uma mulher mais velha e casada, mãe de sua noiva, seria um escândalo capaz de exterminar sua carreira militar e, pior ainda, manchar a honra do coronel lá em São Paulo e atirar o nome dos Machado na lama.
Contudo, diferente de mim, que não via mais Ivetinha e só tinha sua imagem nos pensamentos, Machadinho estava condenado a conviver com a presença de Margot e aquele segredo pelo resto da vida.
A cada encontro, cada almoço ou jantar, cada festa ou visita dominical, Machadinho estava obrigado a ver Margot, sentar-se próximo a ela, sentir seu perfume e a maciez de seu rosto de atriz quando lhe dava um beijo de cumprimento na face, tudo isso suando para conter a ereção que vinha e a lembrança daquele fim de tarde entre os dois no mirante.
Curioso destino esse, onde eu detinha a verdade, enquanto eles viviam várias mentiras: um noivado de mentira, outro casamento de mentira, uma falsa honra mentirosa e uma arrogância social insustentável.
Ainda assim, todos emudecemos frente a tensão do que não podia revelar-se.
Essa tensão atingiu seu limite num sábado de manhã, enquanto eles estavam na Igreja da Glória celebrando sua falsidade numa cerimônia de casamento infeliz e eu me via sentado numa carteira, prestando os exames da faculdade de história.
Foi tão fácil para mim entrar na faculdade quanto foi difícil para Machadinho responder “sim” ao padre ao lado de Ivetinha, olhando para Margot com um falso sorriso estampado em seu rosto nas escadas do altar e vendo como seu novo sogro praticamente lambia as botas do uniforme de gala do coronel Machadão, forçando uma intimidade familiar que não existia.
A lambança do estúpido cupido, contudo, agora recaia com mais peso sobre Ivetinha. Se ela tivesse assumido seu amor por mim, se houvesse contrariado seus pais e enfrentado a realidade, dizendo “não” ao padre para recusar Machadinho, certamente não sofreria tanto.
Mas ela disse que sim, e essa pequena palavra inocente a levou ao hotelzinho em Santa Teresa na noite de sua lua de mel para entregar sua virgindade ao novo marido.
Machadinho não a amava e sequer a desejava, de tão obcecado que estava por Margot, mas cumpriria seu dever marital como quem recebe uma missão, sem questionar ou vacilar, afinal, os Machado não recuam nem se rendem.
Não lhe importava a lingerie branca rendada de Ivetinha, especialmente comprada para a ocasião, ressaltando a cor morena de sua pele e as curvas tentadoras distribuídas naquele corpo intocado.
Não lhe importava que ela estivesse sobre a cama, esperando ansiosa por carinhos e uma entrega de seu corpo carregada de dor e prazer como diziam ser a primeira vez.
E muito menos lhe importava iniciar um convívio agradável com aquela garota estranha e muda que agora seria sua esposa até que a morte viesse a separá-los.
Todo esse descaso era grave, mas ainda assim seria bom se fosse só isso. Mas não, havia outra coisa pior movendo-se dentro de Machadinho e o descaso era só um paliativo para não aceitar que, no seu âmago, o que se contorcia era uma revolta raivosa como a de um cão doente espumando.
Machadinho veio ainda vestido com a farda de gala e um olhar frio em sua direção, a tomou pelos tornozelos e a puxou bruscamente até a borda da cama.
Ivetinha, surpresa, quis protestar, mas a resposta foi um tapa em sua face e uma ordem para que se calasse, enquanto ele abria a calça e puxava o pau para fora, apresentando a ela o membro que a fustigaria dali em diante sem pedir licença ou permissão.
Ela se debatia, mas Machadinho era forte e a retinha enquanto administrava para tirar sua lingerie, que terminou rasgando no embate entre os dois.
Ivetinha, que nunca se despira diante de um homem, agora estava nua em pêlo, com as pernas abertas em pleno ar seguras pelas mãos firmes do marido, que olhava diretamente para ela sem demonstrar nada, nem prazer nem desejo, enquanto se posicionava em meio à suas coxas e apontava a rola para seu pequeno sexo, especialmente depilado para aquele pesadelo.
Ele veio duro e seco, num só golpe firme até o fundo, como um machado rompendo a lenha, causando a sensação em Ivetinha de que estava sendo rasgada ao meio de baixo para cima.
Exasperada, ela sentiu os avanços do marido repetindo-se uma e outra vez, mecanicamente, cronometrado, sempre no mesmo ritmo que parecia nunca terminar, até que seu corpo passou a absorver aquilo como se estivesse anestesiado, quando na verdade era sua mente que se distanciava buscando bloquear seu medo.
Aqueles foram os minutos mais longos que vivera, até Machadinho se cansar de usá-la. Nesse momento, ele só segurou seus cabelos e a puxou para sair da cama, arrastando ao chão para que ficasse de joelhos, chorando ante ele, enquanto enfiava o pau em sua boca e ordenava: “chupa, piranha, que hoje tú vai aprender a comer porra!”
Este seria o matrimônio de Ivetinha. Da mesma forma que Machadinho descarregava suas frustrações no Pinda durante os anos no Instituto, ele agora transbordava sobre ela sua raiva por não ser Margot ali, buscando castigar sua filha por algo que a garota desconhecia a razão de ser.
E assim, a flecha do estúpido cupido que nos uniu também nos separou, ao menos por alguns anos. Nosso triângulo viveu desconectado por um período, suas linhas foram apagadas enquanto eu avançava na faculdade de história, Machadinho progredia em sua carreira militar e Ivetinha sofria isolada os martírios de sua própria escolha.
O que nenhum de nós podia imaginar era que os anos dourados terminariam e, muito em breve, tudo iria pro inferno.
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Este conto foi escrito para o “desafio pirata 2: Música” e foi inspirado pelo sucesso “Estúpido Cupido”, de Celly Campelo, gravado em 1959.
Eu planejei uma história maior e queria usar algumas músicas, de forma que terminei fazendo esta série chamada “Fora da Ordem”, título de uma música fantástica de Caetano VelosoAh, sim, em todas as partes existem da série referências sobre muitas outras músicas, mas isso eu deixo para vocês descobrirem. Espero que se divirtam ao ler, tanto quanto eu me divirto ao escrever.
Aquele abraço!
