Capítulo 4: Lírios e Lava
(Quando o corpo chega primeiro)
A rodovia era um borrão de asfalto quente e canaviais passando pela janela, mas minha atenção estava presa no celular fixado no painel. O GPS indicava que faltavam vinte minutos para o destino, mas o aparelho não calculava a intensidade da tortura que estava sendo aquele trajeto.
Ayandara não me deixou fazer a viagem em paz. Ela decidiu que a "audição" começava antes mesmo de eu descer do carro.
O celular vibrou. Não era texto. Era áudio.
Minha mão suada apertou o volante. O ar-condicionado estava no máximo, mas eu sentia um calor febril subindo pelo pescoço. Dei play.
Não houve palavras imediatas. O som preencheu o carro: uma respiração pesada, arrastada, seguida de um gemido baixo, rouco, que parecia vir do fundo da garganta dela. E então, o som inconfundível, úmido e estalado, de pele batendo contra pele. Ela estava se tocando.
— ...Malik... — a voz dela surgiu no meio do gemido, como se estivesse lutando para falar. — Uma regra para a estrada, Rei. Presta atenção. Você não toca no seu pau. Não importa o quanto esteja doendo aí dentro. Eu quero você explodindo. Se você chegar aqui "aliviado", nem precisa descer do carro.
O áudio acabou. O silêncio voltou ao carro, mas minha cabeça estava gritando.
— Porra... — rosnei, batendo a mão no volante.
Meu jeans estava insuportavelmente apertado. Cada vibração do motor do carro parecia provocar minha ereção, que latejava, dolorida, clamando pelo toque que ela proibiu. Obedeci. Transformei o tesão acumulado em velocidade, contando os quilômetros como um prisioneiro conta os segundos para a liberdade.
Quando finalmente entrei na rua dela, daquela cidade estava alto, castigando o meio-dia. Estacionei na frente do portão que vi tantas vezes pelo Google Maps. Desliguei o carro. O silêncio repentino do motor foi preenchido pelo som do meu próprio sangue batendo nos ouvidos.
Olhei para o banco do passageiro. Um buquê de lírios brancos repousava ali, inocente. O contraste era obsceno: as flores, símbolo de pureza e paz, ao lado de um homem que estava à beira de um colapso carnal. Peguei as flores — minha oferenda de paz para a guerra que eu desejava travar — e saí do veículo.
O portão se abriu antes que eu tocasse a campainha.
E lá estava ela.
As fotos do WhatsApp eram apenas rascunhos; a realidade era a obra-prima. Ayandara estava no portão, não vestida para impressionar, mas vestida para existir. Usava um vestido simples de tecido leve, que desenhava o quadril largo sem pedir licença e deixava os braços à mostra. O cabelo curto guardava vestígios de umidade do banho recente.
Ela me olhou de baixo para cima, os olhos escuros fazendo uma varredura lenta, conferindo se a "mercadoria" batia com a propaganda.
Desci do carro. Minhas pernas, acostumadas a sustentar 1,80m de estrutura, pareceram vacilar. Caminhei na direção dela. Não houve beijo de cinema, não houve abraço afoito. Parei a um passo de distância, respeitando a fronteira daquele território.
O cheiro dela me atingiu primeiro. Atravessou a calçada e me invadiu. Não era perfume importado. Era cheiro de manteiga de karité, de pele limpa e de algo mais profundo, doce e ferroso, que meu cérebro primitivo identificou imediatamente como fêmea no cio.
— Você chegou — ela disse. Não era uma pergunta. Era uma constatação.
— Cheguei.
Estendi os lírios. O gesto a pegou de surpresa por um milésimo de segundo. Os olhos dela, firmes e avaliadores, suavizaram ao pousar nas pétalas brancas.
— Lírios? — Ela ergueu uma sobrancelha, um sorriso de canto, cínico e encantador, brotando nos lábios. — Veio pedir perdão ou pedir benção?
Dei um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, sentindo o calor que emanava do corpo que eu desejei por meses.
— Vim pedir passagem — respondi, a voz rouca, falhando. — E trazer um pouco de paz... antes de eu tirar a sua.
Ayandara riu baixo, um som que vibrou no meu peito. Ela pegou as flores, roçando os dedos nos meus. Aquele choque estático foi o suficiente. Meu olhar desceu para a boca dela, depois para o colo, lembrando da foto da clavícula com óleo.
Ela se aproximou, ficando na ponta dos pés, e sussurrou perto do meu ouvido, o hálito quente arrepiando minha nuca:
— Flores brancas, Malik. Tão puras. Mas o cheiro que está saindo de você... é cheiro de homem que obedeceu a regra e tá guardando toda a sujeira pra mim.
Fechei os olhos, rendido ali mesmo na calçada.
— Entra — ela ordenou, abrindo espaço. — O altar tá pronto. Vamos ver se o sacrifício vale a pena.