O interfone tocou e eu sabia que era você. Não pelo som — aquele bipe seco e eletrônico que cortava o silêncio — mas pelo vácuo de cinco segundos que precedeu o toque, onde o ar parecia denso demais para respirar, como se o próprio apartamento contivesse a respiração antes da sua chegada. Eu estava sentado no chão da sala, costas contra a parede onde outrora pendera o quadro emoldurado que você tanto amava, aquela fotografia panorâmica do quarto em Maldivas que tiramos na lua de mel — o mar turquesa infinito visto da varanda privativa, a cama king com lençóis brancos esvoaçantes ao vento, a luz dourada da tarde tingindo tudo de âmbar. O quadro caíra na semana passada, durante uma daquelas noites em que o vento sul bate as janelas com raiva, e eu o deixara ali, virado para o chão, vidro rachado em teias de aranha, porque não tinha forças para pendurá-lo sozinho, nem para admitir que você não estava mais aqui para me ajudar a centralizá-lo.
Quando abri a porta, você não sorriu. Isso já era esperado, mas ainda assim cortou. Você usava aquele sobretudo cinza que compramos juntos em São Paulo, lembra? Naquela tarde de inverno antes do show do Coldplay no Morumbi, quando entramos num shopping procurando algo que te protegesse do frio paulista. Você experimentou cinco casacos até escolher esse, o tecido de lã italiana que agora estava surrado nas pontas, marcado pelo tempo e pela distância. Foi você quem organizou tudo — os ingressos, o Uber que nos levou até o estádio, a área VIP que você conseguiu Deus sabe como, tudo de presente de aniversário para mim, tudo perfeito, tudo planejado com aquele cuidado obsessivo que era sua marca. Por baixo do sobretudo, uma blusa de lã preta que escondia demais. Seus olhos — aqueles olhos cor de mel escuro que eu uma vez comparei à bebida que você desperdiçava em noites de insônia — estavam fundos, com círculos roxos que a maquiagem não conseguia disfarçar completamente. Você segurava uma maleta pequena, de couro marrom gasto, e eu soube imediatamente: você não vinha ficar. Vinha buscar o resto das suas coisas, ou talvez apenas me devolver algo que eu não sabia que ainda a mantinha presa a mim.
— Pra que mentir? — você disse, ao invés de "oi". Sua voz estava rouca, diferente, como se tivesse passado semanas sem falar, ou meses gritando sozinha.
Eu abri a porta mais, dando passagem. O apartamento cheirava a mofo e a café frio, o mesmo cheiro de abandono que se instalara nos meses desde que você fora embora, desde que descobrira — como? uma mensagem no celular, um recibo de motel, o perfume errado na minha camisa? eu nunca soube exatamente o momento do impacto, apenas o estrondo depois — que eu havia traído não apenas o seu corpo, mas a geometria exata da nossa confiança. Você entrou devagar, os passos arrastados, e notei que você usava meias de hospital, aquelas antiderrapantes azuis, por baixo das botas de couro. Um detalhe estranho, fora de lugar, que me fez querer perguntar, mas a sua expressão — aquela máscara de educação forçada que você usava como escudo — me impediu.
— Fingir que perdoou — continuei eu, fechando a porta, o som da chuva diminuindo, ficando abafado, criando uma câmara de ressonância para o que viria.
Você deixou a maleta no chão, ao lado da mesa de centro onde ainda havia duas xícaras de café da manhã que eu não lavara, uma delas com o batom cor de vinho seco na borda, seu batom, ainda ali, como uma amostra de DNA de um cadáver relacional. Você olhou para as xícaras, depois para mim, e havia tanta coisa naquele olhar — rancor, saudade, repulsa, amor ainda vivo e sangrando — que eu tive que desviar para o chão de madeira, para as marcas de arranhões que os móveis deixaram quando você os arrastara para fora, naquela noite de agosto, enquanto eu chorava no quarto como uma criança castigada.
— Tentar ficar amigos sem rancor — você disse, e era uma constatação, não uma pergunta. Você se sentou no sofá, o único móvel que restara na sala, aquele de veludo verde que você odiava mas que eu insistira em manter porque havia sido da minha avó, da casa grande no interior do Rio, aquela propriedade bucólica e vazia agora onde passávamos verões inteiros quando éramos crianças, antes de nos conhecermos, antes de tudo. Você cruzou as pernas, aquelas pernas que outrora envolviam minha cintura com força suficiente para quebrar costelas no quarto de Maldivas, quando fazíamos amor com as portas abertas para o mar, e agora pareciam duas hastes frágeis, tremendo levemente, mesmo com o calor do apartamento.
Eu me sentei no chão novamente, não porque quisesse, mas porque minhas pernas não me sustentavam. Ficamos em silêncio, o som distante de um liquidificador no apartamento de cima — a vizinha fazendo vitamina às dez da noite, rotina de viúva — preenchendo o vazio. E foi então que eu vi: a sua mão esquerda, segurando a borda do sofá com uma força que fazia os nós dos dedos ficarem brancos, tremia incontrolavelmente. Não de emoção. De fraqueza. De algo físico, profundo, errado.
— A emoção acabou — eu disse, mas minha voz quebrou no final, porque eu sabia que era mentira, que a emoção não acabara, apenas se transformara em outra coisa, algo tóxico e pegajoso que nos mantinha presos um ao outro mesmo quando a lógica dizia para fugirmos.
— Que coincidência é o amor — você respondeu, e um riso seco escapou dos seus lábios, um som que não tinha humor, apenas consternação. — A nossa música nunca mais tocou.
Eu sabia qual música você queria dizer. Não era a que tocava no rádio agora, uma bossa sem alma de violão e voz de fadiga. Era aquela outra, a de Cazuza, aquela que você cantarolava no banho quando achava que eu não ouvia, a que tocou na noite em que nos conhecemos, num bar sujo de Ipanema, quando você derramara cerveja no meu colo e eu dissera que aquilo era um sinal, e você rira dizendo que sinais eram para iludidos. A música que depois, nos anos bons, nós dançávamos embriagados na cozinha, você usando apenas minha camisa, eu usando apenas o seu sorriso. A mesma música que tocou no final do show do Coldplay, quando Chris Martin fez aquele bis inesperado e você chorou nos meus braços na área VIP que você conseguira, no presente de aniversário que você planejara durante meses, dizendo que nunca tinha sido tão feliz, que aquele era o melhor dia da sua vida.
— Pra que usar de tanta educação? — eu perguntei, levantando-me, aproximando-me devagar, como quem se aproxima de um animal ferido que pode morder ou fugir.
Você ergueu o rosto, e havia lágrimas brotando, sendo contidas com violência, sendo presas, engolidas. — Pra destilar terceiras intenções — você sussurrou. — Eu vim aqui para buscar uma coisa só, Rafael. Uma coisa que eu deixei para trás e que não consigo viver sem.
— O quê? — eu perguntei, ajoelhando-me diante de você, as mãos pousadas nos seus joelhos, sentindo o calor anormal da sua pele, ou talvez fosse o frio das minhas mãos.
Você não respondeu imediatamente. Suas mãos encontraram o meu rosto, dedos longos, unhas sem pintura agora, diferente dos anos anteriores quando você as mantinha vermelhas como sinal de guerra. Você tocou minha testa, minhas têmporas, meu queixo, como se estivesse memorizando o território que perdera, ou como se estivesse se despedindo dele. E então você se inclinou, e eu pensei que você fosse me beijar, e meu coração parou, mas você apenas colocou a boca no meu ouvido e sussurrou:
— Desperdiçando o meu mel.
A frase foi um soco. Eu sabia o que você queria dizer. Nos últimos meses da nossa relação, antes da traição vir à tona, você havia tentado me alimentar com carinho, com atenção, com pequenos gestos que eu ignorava, ocupado demais com a novidade da outra, com a adrenalina barata da mentira. Você dera o seu mel — sua essência, sua energia, sua vida, tudo aquilo que você me ofereceu em Maldivas quando prometemos recomeçar depois da primeira crise, tudo aquilo que você planejara no Morumbi quando me deu aquele presente perfeito — e eu deixara que caísse no chão, que se misturasse à poeira, que fosse pisoteado. E agora você estava aqui, doente, eu podia ver agora, a palidez, a fraqueza, a forma como você respirava com dificuldade, e eu entendi: o mel também era literal. Você estava se consumindo por dentro, uma doença degenerativa que você me escondera, ou talvez que eu me recusara a ver, ocupado demais com meus próprios dramas.
— Devagarzinho — eu disse, e minhas mãos subiram pelas suas coxas, não por luxúria, mas por desespero, por necessidade de tocar algo que estava se esvaindo.
— Flor em flor — você completou, e seus olhos fecharam, as lágrimas finalmente escapando, correndo livres, molhando suas bochechas, caindo sobre minhas mãos que agora seguravam suas coxas com força suficiente para deixar marcas.
Eu a puxei para mim. Você veio sem resistência, caindo do sofá, aterrissando no meu colo no chão de madeira fria. Eu a abracei, e você enterrou o rosto no meu pescoço, e senti o seu corpo tremer violentamente, soluços silenciosos sacudindo seus ombros frágeis. Você estava tão leve. Tão leve. Como se já estivesse partindo, como se a gravidade estivesse perdendo a batalha contra alguma coisa maior.
— Entre os meus inimigos — eu sussurrei no seu cabelo, sentindo o cheiro familiar do seu shampoo de camomila, misturado agora com um cheiro químico, hospitalar, de medicação.
— Beija-Flor — você disse, e era o codinome. O nosso codinome. Aquele que você usava quando me ligava de números desconhecidos, quando escrevia nos bilhetes que deixava na minha pasta de trabalho, quando queria dizer "sou eu" sem dizer o nome, sem deixar rastros para o mundo, apenas para nós. O codinome que nasceu naquela manhã em Maldivas, quando um beija-flor entrou no quarto pela varanda aberta e pousou na cabeceira da cama enquanto nós ainda dormíamos entrelaçados, e você acordou primeiro e me acordou sussurrando "olha o beija-flor, olha", e nós ficamos imóveis, quase sem respirar, vendo aquela criatura impossível beber néctar das flores ornamentais do quarto, e depois ela voou, e você disse "é a gente, somos nós, beija-flores", e eu concordei, sem saber que anos depois aquilo seria tudo que restaria.
Eu a segurei mais forte. — Eu tentei proteger o teu nome por amor — eu disse, e a verdade doeu ao sair. — Mas não consegui. Eu não estava em meu estado normal. Estava quimicamente alterado, drogado com substâncias psicoativas que eu usava para trabalhar, para aguentar. E quando a pressão veio, quando as pessoas perguntaram, eu contei. Eu te expus. Eu destruí o nosso segredo porque eu estava destruído, porque não sabia mais quem eu era sem aquelas drogas, sem aquela falsa lucidez que me deixava mais burro, mais fraco, mais covarde.
— Em um codinome — você respondeu, a voz abafada contra minha pele, mas havia compreensão ali, não acusação. — Beija-Flor. Você tentou. Eu sei que tentou. A culpa não foi toda sua. As drogas... elas te roubaram de mim antes que eu pudesse te perder de outra forma.
Nós ficamos ali, no chão, abraçados, a chuva aumentando do lado de fora, batendo nas janelas como dedos impacientes. O liquidificador do andar de cima parou, e o silêncio ficou absoluto, apenas o nosso som, o nosso ar, a nossa dor compartilhada. Eu não sabia o que você tinha. Não sabia se era câncer, se era algo neurológico, se era o coração partido se tornando físico, real, mortal. Mas eu sabia que você estava indo embora. Não apenas do apartamento. Da vida. De mim. Voltando para aquele mar turquesa de Maldivas, mas dessa vez sozinha, sem mim para segurar sua mão.
— Não responda nunca — você disse, se afastando um pouco, olhando nos meus olhos, as mãos segurando meu rosto. — Meu amor, nunca.
— Pra qualquer um na rua — eu completei, entendendo. Você estava me pedindo para não contar mais, para não falar mais, para manter o que ainda restava de segredo, para proteger o que ainda podia ser protegido, mesmo que eu tivesse falido nessa tarefa antes.
— Beija-Flor — você sussurrou, e seus lábios encontraram os meus.
O beijo não foi de perdão. Foi de despedida. Foi o último gole de néctar antes da morte. Seus lábios estavam secos, quentes, e eu senti o gosto de sal das lágrimas, e algo mais, algo metálico, químico, remédio. Eu a beijei como se pudesse sugar a doença de você, como se eu pudesse ser o beija-flor que tira o veneno da flor, mas eu era o veneno, eu sempre fora.
— Que só eu podia — você disse, quando nos separamos, ofegantes.
— Dentro da tua orelha fria — eu respondi, e beijei sua orelha, sentindo-a realmente fria, a circulação falhando, a vida se retirando para os centros mais importantes.
— Dizer segredos — você gemeu, e sua cabeça caiu no meu ombro, pesada demais.
— De liquidificador — eu terminei, e a metáfora se fez clara, cruel, perfeita. Nós havíamos triturado nosso amor em pedaços tão pequenos que era impossível reconstruí-lo, havíamos misturado tudo — carne e osso, mentira e verdade, saúde e doença, a felicidade de Maldivas e a traição de São Paulo, o presente perfeito do Morumbi e a ingratidão que veio depois, as drogas que me roubaram de mim mesmo e te roubaram de mim — até virar uma pasta indistinguível, cinzenta, sem forma.
Eu a carreguei para o quarto. Você não pesava quase nada. Deitei-a na cama, a nossa cama, e você sorriu, um sorriso triste, mas dessa vez havia algo mais ali — uma fagulha de paz, talvez, ou resignação gentil. — Você sonhava acordada — eu disse, cobrindo você com o cobertor, mesmo você estando com febre, quente demais.
— Um jeito de não sentir dor — você respondeu, fechando os olhos.
Eu me deitei ao seu lado, envolvendo-a em meus braços, e você se encaixou na curva do meu corpo, como nos velhos tempos, como naquela primeira noite em Maldivas quando fizemos amor pela primeira vez como marido e mulher, com o som do oceano entrando pelas portas abertas, misturando-se aos nossos gemidos, aos nossos sussurros de amor eterno que não duraram nem cinco anos. Eu sentia seu coração bater, irregular, às vezes acelerando, às vezes quase parando, e eu acompanhava cada batida com o meu próprio coração, tentando sincronizar, tentando mantê-la aqui através de pura força de vontade.
— Prendia o choro — você sussurrou, e uma lágrima escapou, correndo pelo seu rosto, caindo sobre o travesseiro.
— E aguava — eu disse, beijando sua têmpora, sentindo a pele fina, quase translúcida.
— O bom do amor — você completou, e sua voz era um fio de seda, prestes a romper.
Nós dormimos assim, ou fingimos dormir, ou apenas ficamos imóveis, preservando energia, preservando o momento. Quando acordei, já era manhã, a luz cinzenta entrando pelas cortinas, e você estava quieta demais. Por um segundo terrível, pensei que tivesse perdido você durante a noite, mas então você se moveu — levemente, quase imperceptivelmente — e respirou fundo. Você havia ficado. Você não tinha ido embora durante a noite. Você estava ali, ainda comigo, ainda respirando.
Sobre o travesseiro, ao lado de onde sua cabeça ainda repousava, havia um bilhete escrito com a sua letra firme, apesar da doença — você deve ter escrito durante a madrugada, enquanto eu dormia:
*"Não responda nunca. Pra qualquer um na rua. Beija-Flor. Mas para você, para nós, ainda há tempo. Vamos para a casa no interior. Vamos recomeçar onde tudo começou, antes de virarmos isso. Te amo. Sempre amei. Sempre amarei."*
E ao lado, uma pena. Pequena, iridescente, verde e vermelha, como a de um beija-flor. E por baixo da pena, uma fotografia — a mesma do quadro que caíra, a vista panorâmica de Maldivas, mas essa era menor, uma cópia que você guardara na carteira todos esses anos. No verso, escrito com sua letra: *"Aqui fomos felizes. Aqui podemos ser de novo. Beija-Flor."*
Eu fiquei ali, segurando a pena e a fotografia e o bilhete, e pela primeira vez em meses, chorei não de desespero, mas de algo mais complexo — tristeza pelo tempo perdido, melancolia pelo que destruímos, culpa pelas drogas que me transformaram em alguém que você não reconhecia, mas também uma fagulha minúscula de esperança. A casa no interior. Aquela propriedade bucólica e vazia no interior do Rio, com seus jardins selvagens e varandas largas, onde os beija-flores reais visitavam as flores todas as manhãs. Onde poderíamos, talvez, tentar novamente. Onde o tempo se movia mais devagar. Onde o mel não se desperdiçava tão rápido. Onde eu poderia estar limpo, sóbrio, eu mesmo novamente.
Você abriu os olhos então, e me olhou, e havia fragilidade ali, mas também determinação. "Vamos?" você perguntou, voz rouca de sono e doença e esperança contida.
Eu não respondi com palavras. Apenas a puxei mais perto, enterrando o rosto em seu cabelo, inalando camomila e químico e a possibilidade frágil de recomeço. A nossa música nunca mais tocou no rádio, mas talvez pudéssemos aprender uma nova. Talvez pudéssemos ser beija-flores de novo — não os de Maldivas, perfeitos e intocados, mas os do interior do Rio, sobreviventes, marcados, mas ainda capazes de voar, ainda capazes de buscar néctar, ainda capazes de viver.
Porque alguns amores são assim: nascem em paraísos, morrem em apartamentos vazios de Copacabana sob chuva de verão, mas às vezes — só às vezes — renascem em casas antigas no interior, cercadas de flores selvagens e do canto matinal de beija-flores reais que não sabem nada sobre traição ou doença ou dor ou drogas que roubam quem você é, apenas sobre o mel que ainda existe, esperando para ser bebido, devagarzinho, flor em flor, com cuidado dessa vez, com gratidão, com a consciência frágil e preciosa de que toda segunda chance é um milagre que não merecemos mas que recebemos mesmo assim.
*Beija-Flor.*
O codinome que carregávamos juntos agora, não como segredo de vergonha, mas como promessa de recomeço. E quando nos levantamos daquela cama, eu segurei sua mão — tão leve, tão frágil — e começamos a fazer as malas. Para o interior. Para a casa vazia. Para onde os beija-flores reais nos esperavam, sem julgamento, apenas com flores cheias de mel e a promessa silenciosa de que ainda havia tempo, ainda havia vida, ainda havia nós. E dessa vez, eu estaria limpo. Dessa vez, eu seria quem você merecia desde o início. Dessa vez, eu protegeria seu nome, nosso nome, nosso codinome, com a lucidez que só a sobriedade pode dar.
***
Nota: baseado em fatos extremamente reais.