Saí do banheiro com o coração ainda acelerado, como se eu tivesse deixado parte de mim trancada naquela cabine. O corredor parecia longo demais, claro demais, barulhento demais para alguém que ainda sentia a boca formigar e as mãos tremerem.
Eu pensava no Caíque.
Na química que existia entre a gente, quase palpável, como eletricidade no ar antes da chuva. Pensava em como tudo estava esquentando rápido demais, intenso demais, e em como isso me assustava. Eu queria. Queria muito. Mas ao mesmo tempo havia um nó dentro de mim, uma insegurança antiga, a sensação de estar pisando em um terreno que eu nunca tinha explorado de verdade.
Eu nunca tinha feito nada assim, mas com ele dentro daquele banheiro, meu corpo esquentou. Meu corpo pedia mais, pedia mais toque, mais carinho...
Nunca tinha ido tão longe com alguém, nunca tinha sentido esse tipo de desejo misturado com medo. E isso me deixava inquieto. Não era falta de vontade. Era receio de não estar pronto, de não saber lidar com tudo que vinha junto.
Enquanto andava pelos corredores, cheios de vozes, risadas e passos apressados, tomei uma decisão silenciosa. Eu ia tentar. Mas depois do meu aniversário. Quando eu fizesse dezesseis. Parecia bobo, mas na minha cabeça fazia sentido. Como se aquela data pudesse me organizar por dentro, me dar um pouco mais de chão.
Estava tão perdido nesses pensamentos que acabei esbarrando em alguém.
— Opa, foi mal — falei automaticamente.
— Alec?
Era a Júlia.
Ela estava parada no meio do corredor, com os braços cruzados, o rosto fechado de um jeito que eu não costumava ver. Aproveitei a coincidência. Talvez fosse o momento.
— Júlia... — chamei. — Posso falar uma coisa com você?
Ela suspirou, impaciente.
— Fala.
— É sobre o Felipe. Eu sei que ele não tem dinheiro, nem esse status todo que o pessoal costuma valorizar, mas ele é um garoto bom. Ele gosta de você de verdade.
O olhar dela mudou na hora. Não foi surpresa. Foi irritação.
— O Felipe é completamente maluco — ela disse, seca.
Pisquei, sem entender.
— Como assim?
— Alec, por favor... — ela passou a mão pelo rosto. — Faz um favor pra mim. Dá um jeito de fazer aquele menino se afastar de mim. Eu não aguento mais.
Meu estômago revirou.
— O que aconteceu? — perguntei. — Ele fez alguma coisa?
Ela desviou o olhar.
— Eu não quero falar sobre isso.
— Júlia...
— Só confia em mim — interrompeu. — O Felipe tem um lado que você não conhece. E eu não quero mais nenhum tipo de contato com ele. Nenhum.
Antes que eu pudesse insistir, ela deu um passo para trás.
— Por favor — disse, já se afastando. — Me ajuda nisso.
E saiu andando, me deixando parado no corredor, com aquela frase ecoando na minha cabeça.
Um lado que você não conhece.
Fiquei ali por alguns segundos, sentindo um frio estranho no peito. Felipe sempre tinha sido gentil comigo. Engraçado, meio atrapalhado, intenso demais às vezes, mas nunca... perigoso. A ideia não encaixava. E, ainda assim, o jeito da Júlia não parecia exagero.
Voltei a andar, agora com a cabeça ainda mais cheia.
Como se não bastasse Caíque, meus próprios medos e esse sentimento crescendo fora de controle, agora havia essa sombra em cima de alguém que eu achava conhecer.
E, de repente, tudo parecia prestes a sair do eixo.
Percebi que o dia passou quase sem pedir licença. As aulas se arrastaram num ritmo estranho, como se o tempo tivesse aprendido a correr quando eu não estava olhando. Quando me dei conta, já estávamos no carro, eu e o Caíque, indo embora juntos, o fim de tarde escorrendo pelas janelas como uma promessa cansada.
O caminho até em casa foi silencioso, mas não um silêncio vazio. Era denso. Cheio de coisas não ditas, de olhares rápidos, de mãos que quase se encostavam. Eu sentia aquilo tudo vibrando por dentro, como se meu corpo soubesse de algo que minha cabeça ainda tentava organizar.
Assim que chegamos, subimos direto. Trocar de roupa, tomar banho, cumprir aquela rotina que já era nossa. Só que, dessa vez, tudo parecia um pouco mais intenso.
Caíque entrou no quarto primeiro. Tirou a camisa sem cerimônia, depois a calça, caminhando em direção ao banheiro como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quando ficou só de cueca, eu travei. Não consegui desviar o olhar. Não era só o corpo dele. Era a intimidade daquele gesto, a confiança silenciosa.
Ele percebeu.
Virou-se de uma vez e veio até mim com tudo, me puxando pela camisa, me segurando firme, como se tivesse medo de eu desaparecer. O beijo veio rápido, urgente, quente. As mãos dele me prendiam, a boca dele dizia tudo aquilo que a gente não conseguia falar em voz alta. Caímos na cama quase sem perceber, rindo entre um beijo e outro, o mundo inteiro reduzido àquele espaço pequeno.
Foi intenso. Demais.
Meu coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito. E, no meio disso tudo, um medo antigo voltou a apertar. Não era sobre ele. Era sobre mim.
Coloquei a mão no peito dele e o afastei devagar.
— Caíque... — minha voz saiu baixa, falha. — Eu... eu ainda não tô pronto.
Ele me olhou, confuso por um segundo, depois respirou fundo. Não insistiu. Só assentiu, encostando a testa na minha.
— Tudo bem — disse. — A gente espera.
Mandei ele ir pro banho, tentando sorrir. Quando a porta do banheiro se fechou, fiquei ali, deitado na cama, encarando o teto como se ele tivesse respostas escondidas nas rachaduras. O corpo ainda quente, a cabeça cheia.
Foi quando meu celular começou a vibrar.
Atendi e o rosto dos meus pais apareceu na tela, sorridentes demais para quem estava a quilômetros de distância.
— Oi, filho — minha mãe disse. — Seu aniversário tá chegando.
— A gente queria saber se você já pensou na nossa proposta — completou meu pai. — O que você quer fazer, onde quer passar.
Sorri sem perceber.
— Eu pensei sim — falei. — Queria ir pro interior. Passar um fim de semana ai. Matar a saudade.
Eles se entreolharam, animados.
— E quem você quer levar?
— O Caíque... — respondi, natural. — E o Felipe, um amigo meu. Acho que ia ser legal. A gente, os tios, todo mundo junto.
Minha mãe sorriu daquele jeito que parece enxergar além.
— Então tá decidido.
Quando desliguei, fiquei ali mais um tempo, abraçando o travesseiro, sentindo uma ansiedade boa crescer no peito. O aniversário. A viagem. A ideia de juntar todos aqueles mundos.
Eu não sabia o que ia acontecer depois.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu estava esperando por isso com o coração aberto.
A contagem regressiva começou sem que eu dissesse isso a ninguém, mas eu sentia cada dia passando como um aperto diferente no peito. Faltavam quatro dias para o fim de semana da viagem e tudo já estava decidido. Eu tinha falado com meus pais, meus tios tinham aceitado sem pensar duas vezes, Felipe topou animado, e Caíque fingiu uma tranquilidade que eu conhecia bem demais para acreditar. O carro de sete lugares já estava reservado, o plano era simples, quase banal, mas para mim nada daquilo era só logística. Voltar para o interior, para o lugar onde eu cresci, no meu aniversário, com ele ao meu lado, parecia grande demais para ser apenas um passeio.
Conforme os dias iam passando, ficava cada vez mais difícil ignorar o que estava acontecendo entre mim e Caíque. Não era só carinho, não era só costume. O toque dele me atravessava de um jeito novo, quase perigoso. Um encostar de mãos já fazia meu corpo reagir antes da minha cabeça conseguir acompanhar. Um abraço demorando um segundo a mais me deixava tonto. À noite, deitados juntos, era como se nossos corpos conversassem uma língua que eu ainda não sabia falar direito, enquanto minha mente insistia em puxar o freio. Eu queria, mas ao mesmo tempo tinha medo. Medo de ir rápido demais, medo de não estar pronto, medo de transformar algo tão bonito em algo apressado.
Três dias. Eu comecei a perceber que Caíque também estava lutando contra isso. O jeito como ele respirava fundo antes de se afastar, como fechava os olhos quando a gente se beijava, como ficava quieto, olhando para o nada, como se estivesse organizando sentimentos que não cabiam em palavras. Saber que não era só eu tornava tudo mais intenso. E mais real. E, de algum jeito, mais difícil também. Porque eu queria cuidar daquilo. Queria cuidar dele. E cuidar de mim.
Dois dias. A rotina seguia quase normal por fora. Escola, trabalhos, conversas que pareciam leves, mas que carregavam sempre algo por baixo. Felipe continuava por perto, aparentemente sem notar o turbilhão dentro de mim, enquanto a lembrança do que Júlia tinha dito sobre ele voltava de vez em quando, como um aviso que eu ainda não sabia interpretar. Mesmo assim, meus pensamentos sempre acabavam voltando para Caíque. Para o quarto. Para as noites em que a gente ficava acordado falando de um futuro que ainda não existia, mas que, só de imaginar, já parecia possível. Um futuro em que a gente não precisasse medir gestos nem silenciar sentimentos.
Um dia. Na véspera da viagem, eu mal consegui dormir. O corpo estava cansado, mas a cabeça não desligava. Eu pensava no aniversário, na estrada, no carro cheio, nos olhares atentos dos adultos, no meu tio, que sempre pareceu saber mais do que dizia. Pensava também no depois. Depois da viagem. Depois do fim de semana. Depois do momento em que eu talvez me sentisse pronto. Ou talvez percebesse que ninguém nunca se sente totalmente pronto para as coisas que realmente importam. Deitado ao lado de Caíque, ouvindo a respiração dele calma, eu tive certeza de uma coisa. Não importava o tempo. Não importava o ritmo. Eu não queria perder aquilo. Preferia segurar a vontade por mais um pouco do que acordar um dia com a sensação de ter ido rápido demais.
Enquanto o dia da viagem se aproximava, eu entendia com uma clareza quase dolorida que o maior conflito não estava na escola, nem na família, nem no que os outros poderiam pensar. Estava dentro de mim. Entre o que meu corpo pedia em silêncio e o que meu coração implorava para ser respeitado.
O dia anterior à viagem foi, sem explicação lógica, o mais difícil de todos. Talvez porque a estrada estivesse tão perto que eu já estivesse vivendo tudo antes de acontecer. Eu me pegava imaginando Caíque no interior, andando comigo até a cachoeira da cidade, pisando na terra vermelha da fazenda, rindo do silêncio que só quem cresce longe da capital entende. Eu queria mostrar tudo. Queria mostrar de onde eu vim. E, sem perceber, também estava preparando na minha cabeça como seria nós dois depois disso. Como se aquele fim de semana fosse uma espécie de fronteira invisível.
Cheguei da escola exausto, não de corpo, mas de pensamento. O Rio parecia ainda mais quente naquele dia, um calor quase irreal, daqueles que deixam o ar pesado, grudando na pele. Quarenta e dois graus, talvez mais. A casa estava silenciosa, só com o som distante da televisão da Olga lá dentro. Os pais do Caíque não estavam, e aquela ausência deixava tudo mais solto, mais suspenso.
Não pensamos muito. Fomos direto para a piscina.
A água estava morna, quase quente, mas ainda assim um alívio imediato. Entramos rindo, jogando água um no outro, como dois garotos tentando esquecer o peso das próprias cabeças. Ficamos ali, conversando sobre coisas bobas, lembrando histórias da escola, falando da viagem sem entrar nos detalhes que realmente importavam. Às vezes, o silêncio se alongava, mas não era desconfortável. Era cheio.
Caíque saiu da piscina por alguns minutos e voltou com algumas latinhas de Skol Beats, geladas, suando por fora. Ele me estendeu uma e eu aceitei sem pensar muito. Talvez fosse o calor. Talvez fosse a ansiedade. Talvez fosse a necessidade de afrouxar algo dentro de mim. Bebemos devagar, sentados na borda da piscina, os pés ainda dentro d’água, a conversa ficando mais solta, o riso mais fácil.
Em algum momento, eu senti que algo tinha mudado.
Não foi uma ação específica. Foi um clima. O jeito como ele se aproximou um pouco mais. Como o braço dele encostou no meu e não saiu. Como eu comecei a prestar atenção demais na respiração dele, no brilho do sol batendo na água e refletindo no rosto dele. Meu corpo reagia antes da minha cabeça conseguir organizar qualquer coisa. Era um impulso quente, confuso, quase desesperado.
A gente voltou para dentro da piscina e começou a brincar de novo, mas agora os movimentos eram mais próximos. Mãos se encontrando por acaso. Risadas que morriam no meio do caminho. Em algum momento, ficamos frente a frente, tão perto que eu conseguia contar os segundos pela respiração dele. Meu coração batia forte demais, e eu senti aquela vontade perigosa de simplesmente parar de pensar. De atravessar tudo de uma vez. De quebrar a barreira que eu vinha segurando com tanto cuidado.
Foi ali que eu quase me rendi.
Dentro da piscina, tudo ficou confuso rápido demais. A água batia nas bordas enquanto a gente ria, se empurrava de brincadeira, até que em algum momento o corpo dele ficou perto demais do meu para ser só isso. Quando percebi, as mãos do Caíque já estavam firmes na minha cintura, me puxando para perto, e o choque daquele toque fez um arrepio subir inteiro pela minha coluna. O calor do corpo dele atravessava a água e me deixava desnorteado.
O beijo veio sem aviso, intenso, urgente, como se fosse algo que a gente estivesse segurando há tempo demais. Não teve cuidado, não teve espaço para pensar. Só senti a pressão da boca dele na minha, o jeito como meu coração disparou, como se quisesse sair do peito. Minhas mãos foram parar nos ombros dele, depois no cabelo molhado, puxando de leve, como se eu precisasse daquilo para não perder o equilíbrio.
Tudo ao redor pareceu desaparecer. A piscina, o calor absurdo do Rio, o mundo inteiro ficou pequeno demais para o que eu estava sentindo. Meu corpo reagia sozinho, cada parte de mim gritando para continuar, para não parar, para deixar aquilo acontecer ali mesmo, sem pensar em consequência nenhuma.
Senti a mão de Caíque entrar na minha sunga por trás e apertar minha bunda enquanto beijava meu pescoço, e naquele momento, senti um arrepio por todo meu corpo e acabei me rendendo.
Caíque desceu sua língua até meu mamilo o chupando me fazendo delirar, afinal, aquela sensação era maravilhosa.
Sem fazer nenhum esforço sequer, senti ele levar meu corpo me pressionando na borda da piscina, me encaixando bem no meio de sua pernas, onde senti seu pau completamente duro encostar em mim.
Foi aí que a minha cabeça travou.
No meio daquele turbilhão, uma sensação estranha apertou meu peito. Um medo silencioso. Medo de ir rápido demais, de atravessar um limite que eu ainda não sabia lidar. Afastei o rosto dele com dificuldade, respirando fundo, sentindo meu corpo inteiro ainda tremendo. Encostei a testa na dele por um segundo, como se precisasse daquele contato para me manter de pé.
— Espera… — eu disse baixo, quase sem voz.
Caíque parou na hora. Não houve pressão, nem frustração explícita. Só aquele olhar intenso, preocupado, cheio de cuidado. A água parecia mais fria de repente, e o barulho da casa voltou aos poucos. O desejo ainda estava ali, forte, pulsando, mas agora misturado com a certeza de que, se eu não me segurasse naquele momento, talvez não conseguisse depois.
Eu me afastei um pouco, respirando fundo, fingindo que precisava sair da água. Caíque me olhou, atento, como se tivesse entendido tudo sem que eu precisasse explicar. Não disse nada. Só respeitou o espaço, e isso, de alguma forma, mexeu ainda mais comigo.
Ficamos ali até o sol começar a baixar, a água refletindo tons alaranjados, o dia se despedindo devagar. Eu sabia que aquele tinha sido o dia mais difícil justamente porque tudo estava pronto demais para acontecer. E eu ainda estava aprendendo a segurar o que sentia sem me perder dentro disso.
Quando saímos da piscina, com a pele quente e a cabeça cheia, eu tive certeza de uma coisa: se eu estava adiando, não era por falta de vontade. Era porque eu queria que, quando acontecesse, fosse inteiro. Não só de corpo, mas de tudo que eu estava sentindo.
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Galera, peço desculpas pela demora, mas minha vida ta uma correria e mudou tudo de uma hora para outra, então acabei realmente ficando sem tempo. Vou tentar dar um gás nessa semana para acelerar aqui pra vocês. <3