Raul ainda vestia o quimono e carregava os amortecedores para as pilhas próximas as paredes.
- Ficou por último hoje? - perguntei.
Ele ergueu as sobrancelhas. A academia estava quase toda no escuro a não ser pelas luzes dos corredores. A maior parte do pessoal havia saído. Nossa voz ecoava pela sala enorme.
Raul alongou os braços e o pescoço, veio em minha direção, eu estendi a sacola com o assai.
- Está com uma voz de choro – ele disse – deixa eu ver…
- Para Raul, - tirei as mãos dele do meu rosto – acho que estou gripando.
Ele pousou as mãos nos meus ombros me forçando a sentar em um dos vãos dos bancos de ferro em que os alunos descansavam do treino.
- Andou chorando sim…
- Come logo isso e vamos embora – eu insisti.
Raul comia com voracidade, em poucos minutos estava na metade do pote.
- Vai, conta logo o que aconteceu… - e se espreguiçou relaxando as costas – não enrola.
Eu engolia saliva tentando pensar em um jeito de não contar a ele o que eu estava doido para contar porque depois de tanto tempo, Raul era meu único amigo de verdade, uma pessoa que eu podia confiar de olhos fechados.
- João voltou…
- Sério...? Ah... O João... - ele sorriu. - A gente jogava bola junto… Nossa parece que passou um tempão né? E é por isso que você chorou?
Eu respirei fundo soltei, olhei para ele, e meus olhos encheram de lágrimas novamente:
- Temos uma coisa mal resolvida… - falei. - Resumindo muito tudo a gente deu um beijo, alguém viu, falou com o pai dele eu acho…
- Puta que pariu, e isso tem quanto tempo? Sério, só foi isso?
- Pelo que entendi o pai dele…
- Henrique, no papel de seu amigo, devo dizer que enquanto você não se permitir viver o que tem para viver com esse cara vai ficar o resto da vida assim.
- Assim como?
- Travado! - ele respondeu. - Nesse tempo todo eu nunca te vi com ninguém.
- Claro, porque nunca apareceu ninguém!
- Não, não, sempre teve, mulher e homem, tu que é cego nesse teu primo e nunca viu nada – ele suspirou – mais uma vez, sou seu amigo, e sou louco por você também, eu digo isso dia sim, dia não…
- Ru…
- Tá tudo bem! Eu sigo em frente, e a gente continua amigo, sério! Sem dramas – Raul estava de pé. - Vou bater uma ducha e a gente vai para casa. Ou você quer beber?
- Não, nem posso…
João levou pelo menos quinze dias para aparecer mais uma vez. Eu tinha chegado do cursinho, quando ouvi barulhos no quintal, cheguei da porta da cozinha, e vi alguém lá em cima, agarrado ao galho.
Era meu primo, sem camisa, suado, e caralho “João virou um gostoso!”, eu pensei, admirando os braços e o peitoral definido. Ele desceu carregando um balde cheio de mangas. Abriu um sorriso enorme ao me ver e não consegui evitar retribuir.
- Quer manga? - perguntou.
A boca toda suja com os fiapos da manga e a cor amarela do sumo da fruta. Ele estava descalço e com uma calça jeans dobrada nos joelhos. Eu lembrei da minha conversa com mamãe, e o Raul: aceitei a manga.
- Do quê está rindo posso saber? - perguntei.
- A faca – apontou – rasga isso no dente mesmo, assim ô.
Ele deu uma mordida na casca da manga e o sumo escorreu pelos cantos da boca.
Eu sorri sem conseguir me conter.
- Não obrigado, prefiro descascar mesmo.
- Com isso você perde toda a graça da coisa…
João dizia sorrindo e parou par ficar olhando para minha cara, eu desviei sentindo minhas bochechas arderem. Ele voltou ao assunto dizendo que comer as coisas diretamente com as mãos tinha outro sabor, e enquanto falava nem parecia que havia se passado três anos.
João esfregava as mãos na água do quintal de um cano a meio metro do chão, agachado, ele metia a cabeça debaixo da torneira, molhando os cabelos, os ombros, e o peito.
A água escorria livremente sobre a clavícula, o mamilo amarronzado, o umbigo com a estradinha de pelos brilhando pela umidade.
- Que deli… - mordi meu lábio.
Eu falhava miseravelmente tentando não registrar os detalhes do quanto João ficara gostoso!
- Ei, - João chamou. - Tenho uma proposta para te fazer! Irrecusável!
- Mesmo? - repeti distraído pelos detalhes do seu corpo tão próximo de mim. - Uma proposta?
- Irrecusável! - ele continuou. - Um parque de diversões!
João abriu os braços em um gesto teatral como se apresentasse o parque inteiro no espaço entre os braços. Eu era todo atenção aos seis gomos do busto. Seu peito laminado pela luz do sol.
- Diversão… - eu disse mordendo o lábio interessado no cós do jeans dele.
“Será que esse volume estufando o zíper da calça é vácuo ou saco?”, corei me censurando pelo pensamento.
- Então você vai comigo hoje? - ele arregalou os olhos e ao bater as mãos, despertei da pequena miragem.
- Não!
- Ah, qual é? Por favor! - ele juntou as mãos. - Quer que eu implore? Quero muito fazer isso! Mas sozinho… não tem a menor graça.
As feições do rosto dele, bochechas, testa, queixo nariz, tudo assumira com o tempo uma forma mais séria mais retangular, entretanto, ainda unia as sobrancelhas criando uma ruga na altura do nariz, do mesmo modo de antes, suspirei.
- João, não leva a mal, você parece que acabou de sair de uma solitária!
Ele suspirou também de maneira fofa concordou:
- De certa forma… - e logo abriu um sorriso – mas não quero falar sobre isso, então, você vai?
Eu assenti. Meu primo avançou mais sobre mim envolvendo seu braço no meu pescoço e pressionando o punho cerrado na minha cabeça.
- Quer que eu desista? - falei ajeitando meu cabelo.
João ergueu as mãos e pediu desculpas.
- Tá, podemos sair daqui umas nove então?
Eu não sabia onde ficava o tal parque, e me arrependi um pouco por não tentar saber antes, João chegou antes das oito, filou um sanduíche, e me passou um capacete, sua moto era uma XRECara, por que não vamos de uber?
Ele estava montado na moto, calça jeans, tênis, camisa polo, e uma jaqueta preta impermeável, virou para mim:
- E perder a chance de ter você agarradinho em mim?
A ardência nas minhas bochechas voltaram com força. Eu estava passando a perna por cima para montar logo atrás dele, quando o ouvi dizer isso, e o aviso:
- Segura firme!
Não tive outra escolha a não ser segurar no apoio de trás com mede de me estreitar ao corpo do João, meu primo, estacionou em frente a um sinal fechado, e mandou eu me segurar nele porque era mais seguro.
- Vai devagar…
João segurou as minhas mãos e as passou por seu abdômen na altura do estômago, depois acelerou, e não conseguir evitar apertá-lo mais contra mim. Era estranho estar com ele tão próximo assim depois de todo aquele tempo.
Além do quê, as medidas daquele corpo eram muito diferentes do que eu conheci.
- Olha lá!
João reduziu a velocidade: um arco-íris de luzes multicoloridas erguiam na malha azul marinho do céu noturno, um leque vermelho, amarelo, verde, rosa, o espetáculo das luzes vinha dos brinquedos, sobretudo da roda gigante, e do chapéu mexicano.
- Uau! - falei radiante.
João registrou com um clique minha reação de espanto e felicidade. Saltamos da moto, no estacionamento pago, uma rua antes. João chaveou meu pescoço com o braço, colocou a língua para fora e disse:
- Diga X!
O flesh do Iphone nos atingiu em cheio, e no caminho para o parque, alguns metros a nossa frente, ele mostrou a foto. Mas como uma criança deixou o aparelho nas minhas mãos e correu para a primeira cabine de ingressos que encontrou pela frente.
- Ei maluco espera! - chamei.
- Vamos querer todos!
Olhei em volta e havia muitos brinquedos, e barracas, o João colocou os bilhetes nos bolsos da jaqueta, entrelaçou nossos dedos, avançando com para um vendedor de maçãs do amor.
- Tira uma foto – ele pediu – uma selfie!
A cada parada tirávamos fotos com pessoas estranhas, os barraqueiros, e as pessoas que estavam esperando ou saindo dos brinquedos. Fomos primeiro no carrinho de bate-bate, depois num minhocão, e então, a roda gigante!
- Eu não sei se quero ir… olha a altura disso!
- Segura a minha mão, - João demonstrou entrelaçando os seus dedos aos meus.
O calor da palma da mão dele sobre a minha transmitiu um choque no meu corpo me arrepiando dos pés a cabeça.
- Como eu cheguei aqui? - perguntei bestificado ao sentir o encosto frio do banco da roda. - Tenho pavor de altura.
Ele apertou mais a mão na minha, aproximou-se da minha orelha e sussurrou:
- Fica tranquilo, eu estou com você…
Virei em sua direção vendo um pouco do meu reflexo dentro dos olhos do João, de repente a roda girava, senti mão quente dele segurando minha nuca, e puxando-me para seus lábios, como foi doce!
Ele pressionou os lábios nos meus, e foi como se os anos tivessem retornado, como se ainda fossemos os meninos na piscina, sentindo o gosto do coloro, e o calor do sol na pele.
Eu entreabri para a língua dele, e o gosto de menta, uniu-se ao calor da sua língua contornando a minha, senti meu corpo reagindo, e estremeci.
- Vamos com calma…
Ele ainda olhava para minha boca, e eu tentava não ficar ainda mais ansioso com a altura em que estávamos.
Assim que descemos do brinquedo, um grupo de três homens, aparentando uns vinte anos mais ou menos, vieram em nossa direção.
- Ei seus veados nojentos não têm vergonha de ficar nesse agarra, agarra na frente de todo mundo não?
Um mais fortinho se juntou ao outro:
- É seus veados aqui tem criança.
João franziu as sobrancelhas, percebi como suas mãos fecharam-se, ele deu um passo para a frente e mandou todo mundo tomar no olho do…
- Repete rapaz! Repete para ver o que te acontece! - um magrelo que até então não havia dito nada falou.
Eu segurei o João pelo ombro e implorei para que a gente fosse embora e deixasse aquilo de lado. Saímos em direção a barraca de tiro ao alvo mas quando eu peguei o urso de pelúcia que ele havia conseguido acertando cinco tiros, percebi os caras nos rondando.
- João, podemos ir embora? - pedi.
Ele respirou fundo:
- Tudo bem… Podemos sim…
Ele entrelaçou mais uma vez sua mão na minha e o medo, a ansiedade de olhar para trás e ver aqueles caras, intensificou meu frio, meu queixo já vinha tremendo por causa do sereno de leve que começou.
- Ele é lindo, obrigado… - eu falei abraçando o urso.
João sorriu tirou a jaqueta e cobriu meus ombros, ele gargalhou dizendo:
- Estou me sentindo em uma comédia romântica – olhou para mim de lado. - E nós somos o casal principal.
Eu senti minhas bochechas arderem mais uma vez. João estava muito sexy com a camisa justa nos braços, acentuando os seus bíceps, e o peito durinho que senti quando tirei uma casquinha ao segurá-lo para virmos embora.
Montamos na moto e só então fiquei mais tranquilo, o sereno começou a se tornar uma chuva, eu me aconcheguei mais ao João, paramos em frente ao sinal vermelho. Um HRV grafite parou ao nosso lado, o vidro baixou e eu tomei um susto.
“Deve ser coincidência” pensei comigo mesmo “esses caras devem estar indo para casa também”, eram os mesmo sujeitos do parque. Eu sussurrei para o João mas com a chuva,o vento e o frio absurdo impediu que ele ouvisse.
- Acho que estão nos seguindo! - João gritou para mim.
A moto estava chegando a oitenta por hora em uma rodovia reta, e o veículo nas nossas costas estavam próximos, a alguns palmos de nós. Eu me apertava ao João e podia jurar que nossos corações estavam na mesma batida.
O HRV cortou pela esquerda e parou de repente alguns metros a nossa frente, João freou no acostamento.
- Você está bem? - João perguntou.
- Estou…
Ouvimos o barulho das portas do carro abrindo e fechando, os faróis estavam em cima de nós, João mais uma vez tomou a minha frente mas eu sabia como me defender.
- Agora vocês vão… - uma das vozes começou.
João não deixou que terminasse de falar, voou em cima do cara, e o derrubou já estava em cima do segundo, quando vi que o outro ia pegar ele por trás, eu lembrei do que Raul havia me ensinado no jiu-jitsu e consegui encaixar um mata-leão no sujeito.
Magro cheirando a maconha, caímos no chão de terra e capim. O cara ainda tentou lutar mais, mas eu abaixei a minha cabeça como o Raul havia ensinado e o sujeito parou de reagir.
- Para por favor! - um deles gritou. - Foi mal! Foi mal!
Eu larguei o cara, e corri para a moto, João, entrou no veículo, e voltou par a moto, montamos, e disparamos pela estrada. João atirou a chave para longe e um celular também, chegamos na frente da minha casa, as duas da madrugada.
Ele estacionou, eu desci para abrir o portão onde ficava o carro, João, tirou o capacete, veio até mim e segurando em minha cintura, o meu estava para cima já, sorri olhando pra os lábios vermelhos dele, e o beijei também, respiramos juntos.
- Xiii… - eu fiz olhando em direção a casa. - Vamos entrar de fininho.
Senti sua língua mais uma vez querendo mais e mais, João, trancou o portão, e entramos no meu quarto pulando a janela.
- Vem cá, - eu o ouvi dizer.
Meu corpo todo arrepiado, meu sangue fervendo, aquela confusão toda, intensificou o que já estava acumulado, e nos agarramos no chão, inicialmente como uma briga, mais com as roupas, eu o apertava inteiro, e não conseguia deixar de dizer:
- Gostoso…
Mas em instantes voltávamos a nos beijar e eu começava a pensar que era possível viciar em uma boca, em uma língua, o João me pressionava contra o chão, e o sentia sua perna entre as minhas, sentia seu peito quente nas minhas mãos.
- Lindo, perfeito… - ele me disse fungando no meu pescoço.
Ele puxou minha calça, eu arranquei a camisa, e os sapatos, o João beijou meu peito, meu umbigo, e com a perna, sarrou meu pênis, eu passeava com as mãos em seu corpo, sentindo sua musculatura, e consegui virá-lo para o chão e lamber o mamilo direito.
- Primo você ficou tão gostoso…
João arrancou a calça, e me puxou para cima de si, segurando apalpando minha bunda com as mãos, senti-lo assim foi um choque, senti uma onda percorrer todo meu corpo, eu sentei encostando meu pênis ao dele ainda por cima das boxers.
Eu estava tão envolvido, tão interessado naquele corpo, naquele homem, que nem mesmo pensei no fato de ainda ser virgem!
João segurou a minha mão esquerda e a direcionou até o volume na sua cueca, ao sentir o volume endurecido furando o tecido da cueca e a umidade, achei correto dizer:
- Eu sou virgem…
João olhou para mim, iluminado apenas pela luz dos ledes da parede do meu quarto, numa cor branca, gelada, e voltou a beijar minha boca, chegando ao meu ouvido, ele disse:
- Eu também…
Rimos. Eu toquei em seu rosto, sentindo seus ombros, seu peito, e deixamos rolar, conforme os nossos desejos iam se expressando em cada gesto, como em uma dança sem um condutor definido.