Tinha algo muito estranho acontecendo ali, de baixo do meu nariz. Mas como acreditar nisso? Será que eu estava ficando paranoica a ponto de ver coisas onde não tinha? Será que o ciúme tinha chegado a esse nível?
Minha mãe com a Cátia... Não é possível. Por mais que parecesse, devia ter outra explicação. Minha mãe não faria isso. E a Cátia — se fizesse, me contaria. Já fizemos tanta doideira juntas. Por que esconderia isso de mim?
A Cátia acordou, me deu um beijo rápido no rosto e disse que ia embora. Eu confirmei com a cabeça sem falar nada. Acho que o ambiente estava me sufocando. Eu precisava sair um pouco, respirar, colocar a cabeça no lugar.
Pensei no Caio.
O Caio era um amigo da faculdade que sempre foi apaixonado por mim, kkkk. Não era exatamente o meu tipo — quietinho, magrelo, com aquele jeitão de quem leva a vida com muita seriedade. Tinha quase certeza que era virgem. Mas era um cara bom, de verdade bom, e era exatamente o que eu precisava naquele momento: alguém de fora de tudo aquilo, com quem eu pudesse conversar sem ter que explicar nada demais.
Desci as escadas e vi o Júlio sentado na sala. Eu já tinha quase certeza que ele não tinha passado a noite em casa, mas precisava confirmar.
Lari: Júlio, bom dia!
Júlio: Eai, Lari? Bom dia!
Lari: Você esteve em casa ontem à noite?
Júlio: Não, ontem não. Tinha umas coisas pra resolver fora da cidade. Por quê?
Lari: ... Nada. Achei que ouvi sua voz, só isso. Fala pra mãe que vou passar a noite fora hoje? Depois da faculdade vou na casa de um amigo.
Júlio: Blz, aviso ela. Juízo, ein? Não faz nada que a gente não faria, kkkk.
Lari: Ah, cala a boca.
Então era isso. O Júlio realmente não tinha estado em casa.
Na faculdade chamei o Caio. O bom é que ele mora sozinho, então seria perfeito. Perguntei se podia dormir na casa dele e ele ficou todo tímido do outro lado da linha — uma pausa longa antes de responder que sim, claro, pode vir. A Cátia não apareceu na faculdade naquele dia.
Depois das aulas ele me levou de bike até o apartamento dele. Um lugar pequeno, arrumado demais pra um menino de vinte e poucos anos, com uns livros empilhados numa prateleira e uma planta no canto que ele claramente regava com cuidado. Pedimos comida e ficamos esperando, sentados no sofá, e foi aí que ele perguntou:
Caio: O que tá te incomodando tanto?
Lari: Ai, Caio... Não posso te contar tudo, mas... É que parece que tem algo muito estranho acontecendo com pessoas muito próximas de mim. Tipo, muito próximas. Parece que estavam escondendo coisas de mim — ou talvez sempre esconderam, não sei. É como se eu olhasse pra elas agora e não reconhecesse mais. Tudo mudou rápido demais.
Ele ficou quieto por um segundo, olhando pro copo na mão.
Caio: Olha... não sei da situação em questão, mas é normal a gente achar que conhece alguém e na verdade só conhecer o que essa pessoa decide mostrar. Ninguém conhece o outro cem por cento — não importa o quanto sejam próximos. O segredo é ir se adaptando com as coisas novas que vão aparecendo com o tempo.
Lari: Uau, kkkk. Que sabedoria. Mas eu entendi. É que eu não esperava que fosse acontecer com pessoas tão próximas assim. Me pegou de surpresa. Como eu não percebi antes?
Caio: Bem... você não é exatamente o tipo perceptivo.
Ele falou baixinho, quase pra si mesmo. Mas eu ouvi.
Fiquei me perguntando se ele estava falando sobre eu não perceber que ele gostava de mim. Porque eu percebia — só achava que não seria justo alimentar aquilo. Ele merecia alguém que fosse de verdade pra ele, não alguém que estava ali fugindo de uma semana de merda.
Lari: E você, Caio? Me conta. A gente não troca ideia assim faz tempo. Já arrumou uma namorada?
Caio: Ah, não, kkkk. Ainda não. Quero, mas tem que ser a pessoa certa. Tem que ser ela, sabe?
Dito assim, olhando pra lateral, com um sorriso de canto que ele claramente não conseguia segurar. Não era o jeito dele ser ousado — mas foi.
Lari: E eu conheço essa pessoa?
Caio: Talvez você conheça sim, kkkk. Mas deixa quieto.
Lari: Caio...
Tinha que ser justa com ele. Abrir o jogo de uma vez.
Lari: Eu não sou o tipo de mulher pra você. E não é sobre você — você é um cara incrível. Mas eu sou... complicada. Você merece alguém que esteja inteira, e eu não estou.
Caio: Entendo. Não sou como os caras que você sai, né?
Lari: Nem como as mulheres que eu saio.
Ele piscou.
Caio: Vo... você sai com mulheres?
Lari: Sim. Já saí com a maioria dos seus amigos, Caio, e com algumas amigas também. Não quero que você perca seu tempo se iludindo com algo que eu não sei se consigo ser. Você é bom demais pra isso.
Ele ficou olhando pra mim por um tempo. Não com aquela cara de quem levou um balde de água fria — com uma calma estranha, como se já tivesse ensaiado o que ia dizer.
Caio: Você não deveria pensar assim de si mesma. Você é a garota mais bonita que já conheci, e tem um coração bom — só é um pouco... intensa. Mas isso pode ser da fase. E olha, eu não vou desistir. Não importa quantos caras você saia. Ou mulheres. Porque um dia você vai perceber que talvez um cara como eu faça sentido pra você. E quando esse dia chegar, eu quero estar por perto.
Fiquei olhando pra ele.
Não foi o que ele disse — foi o jeito. Sem drama, sem súplica. Só aquela certeza quieta de quem acredita no que fala.
Não sei se foi o momento que eu estava passando. Não sei se era carência, cansaço, ou a semana inteira pressionando. Mas eu precisava daquilo. Daquele carinho sem segunda intenção, daquela voz sem veneno. Então eu me aproximei e beije ele.
Ele levou um segundo pra reagir — e quando reagiu foi com aquela doçura toda. Um beijo lento, atencioso, de quem não tinha pressa nenhuma. E ele beijava bem. Muito bem, na verdade. Aquilo me surpreendeu.
Mas era diferente de tudo que eu estava acostumada. A mão dele continuava no mesmo lugar de antes do beijo começar, kkkk — pousada com cuidado no meu joelho, imóvel, como se tivesse pedindo licença pra existir ali. Não tinha a fome dos outros, aquela coisa de quem quer devorar. Era um beijo de quem queria ficar.
Me sentei no colo dele e continuei o beijo, e quando me movi levemente em cima dele senti que ele já estava duro.
Lari: Tá avisado... Agora não tem volta. Não essa noite. Não aqui. Não nesse clima.
Caio: Eu quero, Lari.
Tirei a blusa e em seguida a saia — não usava sutiã — e voltei pro colo dele de calcinha, esfregando devagar no pau dele com o tecido ainda entre a gente como última barreira. Dava pra sentir o tamanho dele através da calça. Não era pequeno. Dentro da média, sólido.
Peguei nas mãos dele e coloquei no meu corpo — no meu peito primeiro, pedindo sem palavras que ele me tocasse. Ele apertou levinho, com aquela delicadeza toda, e disse que eu era linda em voz baixa, quase como se estivesse falando pra si mesmo. Eu não ri. Naquele momento não quis rir.
Me levantei, tirei a calcinha. Ele olhou paralisado, os olhos azuis bem abertos, e aquilo foi mais erótico do que qualquer reação exagerada teria sido.
Dei a mão pra ele se levantar e fomos pra cama. Sentei na beirinha e fui desabotoando a calça dele devagar, tirei, e o volume que dava pra ver sobre a cueca fez minha boca secar um pouco. Não tirei a cueca ainda. Me aproximei e passei a língua na cabeça dele por cima do tecido, molhando tudo. Ele se contraiu todo, os dedos apertando o lençol dos lados.
Tirei a cueca. Fisicamente ele não chamava atenção — magrinho, branquinho, cabelo liso caindo no rosto — mas tinha aqueles olhos azuis que eram uma loucura, e o pau dele tinha a cabeça bem rosada, redondinha, que me deu uma vontade imediata, kkkk.
Peguei nele com a mão, devagar, e comecei a chupar com calma — não do jeito de quem está apressada, mas do jeito de quem quer que ele sinta cada coisa. Ele ficou completamente quieto por uns segundos, e depois soltou um gemido baixo que ele claramente tentou segurar e não conseguiu. A mão dele foi até o meu cabelo, sem puxar, só pousando ali.
Não demorou muito. Senti ele começar a tremer, as coxas ficando rígidas, e entendi. Tirei a boca antes que acontecesse e ele gozou na barriga, ofegante, com aquela expressão de quem acabou de passar por algo que não esperava.
Fui deitar do lado dele. Ficamos em silêncio por um tempo, ele me beijando a testa de vez em quando, me elogiando com aquela voz baixa. Fui passando os dedos no cabelo dele — tinha uma coisa relaxante naquilo — enquanto ia acariciando o pau dele de leve, sem intenção, só por estar ali.
Chega de quase. Eu estava sem uma boa foda fazia dias e aquela semana toda estava pesando em cima de mim.
Pouco a pouco senti ele endurecendo de novo na minha mão. Abri as pernas e ele entendeu o recado. Se posicionou em cima de mim, olhando pra minha cara com aqueles olhos azuis que não desviavam — e aí eu vi. O nervosismo. A respiração um pouco rápida demais, a tensão nos ombros. Ele foi se aproximando e posicionou o pau na entrada, mas alguma coisa travou. Eu senti ele tentando, e senti também que o corpo dele não estava colaborando.
Quando olhei, ele estava mole na mão.
Um silêncio.
Caio: É... eu só preciso de um pouco de tempo. Já vou estar bom, prometo.
A voz dele era baixa demais. Ele se afastou um pouco e ficou sentado na beirada da cama de costas pra mim. Ouvi ele falando consigo mesmo em sussurro, frustrado, aquele tipo de cobrança silenciosa que a gente faz quando não quer que ninguém escute.
E os olhos dele marejaram.
Meu coração apertou. Não de pena — de reconhecimento. Aquele nó na garganta de quando o corpo não acompanha o que a gente quer e parece que é o fim do mundo.
Lari: É sua primeira vez, Caio?
Uma pausa longa.
Caio: É. E seria com você. A mulher que eu gosto.
Lari: Vem cá.
Puxei ele pelo braço, deitei ele de volta e fiquei do lado, passando a mão no peito dele.
Lari: Para de se cobrar assim. Você ficou nervoso — isso é normal, acontece muito mais do que você imagina. Não tem nada de errado com você. E eu não vou contar pra ninguém, tá?
Caio: Eu sei, mas... É horrível. Com você de todas as pessoas.
Lari: Ei. Olha pra mim.
Ele virou.
Lari: Tudo isso aqui já conta como nossa primeira vez, tá bom? A gente não precisa de mais nada pra isso ser real.
Ele ficou me olhando por um segundo e deu um sorriso pequeno, do tipo que aparece quando a pessoa não quer demonstrar o quanto foi afetada.
Caio: Olha, Lari... Você pode ficar à vontade aqui, mas eu preciso de um tempo sozinho. Posso te chamar um Uber?
Não era o que eu queria — eu não queria ir pra casa. Mas ele precisava daquele espaço, e eu sabia disso.
Lari: Tá. Relaxa. Fica bem.
Ele me chamou o Uber, me deu um abraço longo na porta, e eu fui.
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O trajeto foi silencioso. Fiquei olhando pela janela sem pensar em nada de específico, só deixando a cidade passar. Quando o carro dobrou na minha rua eu percebi que não tinha levado a chave — mas nosso bairro era tranquilo, e com o Júlio em casa minha mãe costumava deixar a porta da cozinha aberta.
Pedi pro motorista parar na frente e fui ver. Fechada.
Estranhei. Fui até a garagem — o Júlio guardava uma chave reserva da porta da sala num cantinho lá — e encontrei. Entrei na casa. As luzes da parte de baixo estavam todas apagadas. Lá em cima, acesas.
Pensei: o Júlio e minha mãe aproveitando a noite. Normal.
Fui acender a luz do corredor e parei.
As sandálias da Cátia estavam do lado da porta.
Fiquei olhando pra elas por uns três segundos. Rosa, com uma tirinha fina. As mesmas de sempre.
O carro do Júlio estava na garagem. Minha mãe tinha saído. E as sandálias da Cátia estavam na entrada da minha casa às onze da noite.
Apaguei a luz que tinha ligado. Subi devagar, encostando o peso na parede pra não fazer barulho, um degrau de cada vez. Quanto mais eu subia, mais eu ouvia.
Cátia: Isso, mete... mete na minha bucetinha, mete...
Júlio: Puta gostosa... Olha essa bunda como balança. Do jeito que eu gosto.
Parei no corredor. O quarto estava fechado. Não precisava entrar pra confirmar — mas eu queria uma prova. Algo concreto, algo que eu pudesse usar quando quisesse, algo que não desse pra negar.
Tirei o celular do bolso e abri a câmera. Comecei a gravar. Fiquei parada ali, a mão tremendo levemente, o coração batendo alto demais.
Júlio: Potranca maldita... Rebola no meu pau, vadia. Vai, sua cachorra.
Cátia: Tá gostoso, tio? Tô indo bem, mamãe?
Mamãe.
Eu pisquei.
Mamãe?
Luana: Tá, tá indo bem. Mas você ainda não passou no teste. Pra ser minha filinha você tem muito a aprender, kkkk.
O celular quase caiu da minha mão.
Minha mãe estava lá dentro.
Minha mãe estava lá dentro e estava... comandando. Não era traição. Era encenação. E ela estava na direção.
Saí andando. Não corri — meu corpo não deixou correr, as pernas foram pesadas e mecânicas descendo a escada, peguei meu chinelo no chão sem me lembrar de ter abaixado, abri a porta e saí. Só quando cheguei na esquina é que parei, sentei no meio-fio, e olhei pro celular na minha mão.
A gravação tinha 2 minutos e doze segundos.
Dei play com o dedo tremendo.
Luana: Tá, tá indo bem. Mas você ainda não passou no teste. Pra ser minha filinha você tem muito a aprender, kkkk.
A voz dela. Inconfundível. Com aquele kkkk que eu ouvia desde criança.
Fiquei sentada ali no meio-fio por um tempo que não soube medir, olhando pro nada com o celular no colo. Sem choro. Sem raiva, ainda. Só aquela coisa estranha de quando o mundo vira do avesso rapido demais pra você processar de uma vez.
Eu não conhecia minha mãe.
Nunca conheci.
E ela — eu tinha quase certeza agora — conhecia muito mais de mim do que eu imaginava.
Continua na temporada 2, caso tenham gostado dessa primeira temporada!