# O Manipulador
A tempestade arrebentou contra a costa como um punho fechado. Cada onda sacudia os alicerces do resort, e o vento carregava sal grosso e algas apodrecidas pela fresta da porta do bar — aquele cheiro úmido, primitivo, que gruda no fundo da garganta e lembra que o oceano não é bonito, é violento. As luzes tinham caído duas vezes já. Agora, só velas. Dezenas delas, espalhadas sobre mesas de madeira escura e encaixadas em garrafas de vinho vazias, lançando sombras longas e trêmulas que faziam os rostos parecerem mais velhos, mais honestos.
O barman — um sujeito magro com bigode de outro século — secava copos que já estavam secos, os dedos trabalhando no automático enquanto murmurava para ninguém sobre a previsão. Duas mulheres numa mesa ao fundo riam baixo sobre alguma coisa no celular, a luz azul da tela competindo com o âmbar das velas. Um homem de cabelo branco dormia no canto, o queixo no peito, um copo de medronho intocado na frente dele.
Foi nesse cenário que Rafael de Souza Meireles entrou.
Ele não entrou — ele apareceu. A diferença é importante. Homens que entram fazem barulho. Rafael simplesmente estava ali onde antes não estava, como se o espaço tivesse aberto lugar para ele por cortesia. Quarenta e seis anos, um metro e oitenta e cinco, ombros largos sob um suéter de cashmere cinza-carvão que abraçava o tronco como se tivesse sido costurado sobre ele. Maxilar quadrado, nariz aquilino com uma leve torção à esquerda — quebrado uma vez, talvez duas, nunca consertado porque a imperfeição servia melhor que a simetria. Cabelo escuro com fios grisalhos nas têmporas, penteado para trás sem gel, só disciplina. As mãos eram grandes, dedos longos de pianista ou cirurgião, e ele as usava quando falava — gestos lentos, precisos, como quem desenha no ar a forma exata do que quer dizer. Os olhos eram o problema. Castanho-esverdeados, atentos demais, do tipo que olham para você como se já soubessem a resposta antes de fazer a pergunta.
“Dois casais. O rapaz é territorial mas não é esperto. A mulher dele tem o tipo de tédio que se confunde com lealdade. Quarenta minutos.”
Atrás dele, Helena. Helena Kessler-Meireles. Quarenta e dois anos usados com a brutalidade elegante de quem não esconde nada. Um metro e setenta, magra nos braços e ombros, generosa nos quadris e coxas — o corpo de alguém que correu maratonas nos trinta e parou de correr nos quarenta sem pedir desculpa. Rosto oval, maçãs do rosto altas, pele clara com sardas pálidas espalhadas pelo nariz e colo como constelações displicentes. Cabelo loiro-escuro, cortado na altura da clavícula, secando em ondas irregulares por causa da chuva. Usava um vestido de linho cor de areia, molhado nas barras, e sandálias de couro que deixavam os pés à mostra — unhas pintadas de bordô escuro, descascando nos cantos. Sem maquiagem. Sem necessidade. A boca era cheia e naturalmente curvada num meio-sorriso que parecia dizer eu sei algo que você ainda não descobriu.
“Ele já escolheu. Sempre escolhe rápido. Pelo menos essa é bonita — vai ser menos patético de assistir.”
Camila estava de costas para a porta quando eles chegaram. Tua mulher, sentada no banco alto do bar com as pernas cruzadas, o vestido preto curto subindo até o meio das coxas porque ela tinha parado de puxar fazia uma hora e dois copos de vinho verde. Trinta anos, um metro e sessenta e oito, cintura estreita, seios fartos apertados no decote quadrado do vestido — o tipo de corpo que não pede atenção, toma. Cabelo castanho-escuro, grosso, caindo em cachos pesados sobre um ombro. Pele morena-dourada, sem marcas, exceto uma cicatriz fina no joelho esquerdo — bicicleta aos doze, ela sempre contava rindo. Rosto redondo com queixo fino, olhos grandes e negros, sobrancelhas grossas que ela nunca domou. Cheirava a protetor solar de coco e aquele perfume de baunilha e âmbar que ela passa no pulso e atrás das orelhas.
“Tô entediada. Tô bonita. E tô um pouquinho bêbada. Qualquer coisa que acontecer agora é culpa do universo, não minha.”
Rafael se aproximou do bar. Não de vocês — do bar. Escolheu o banco ao lado de Camila com a naturalidade de quem escolhe a mesa com melhor vista. Pediu um tinto do Douro sem olhar o cardápio, perguntou ao barman se a adega tinha algum Barca Velha escondido — sabia que não teria, mas a pergunta servia outro propósito. O barman riu. Camila olhou de canto.
A isca estava no anzol.
— Noite terrível para estar num paraíso, não? — A voz dele era baixa. Grave como madeira velha rangendo. Ele não olhou para Camila quando disse isso. Olhou para o copo. E é exatamente por isso que ela virou o rosto inteiro na direção dele.
Helena sentou-se ao teu lado. Sem cerimônia, sem apresentação. Cruzou as pernas, pediu o mesmo que o marido, e te deu um sorriso que era educado demais para ser só educado.
— Vocês chegaram hoje? — Ela falou baixo, perto o bastante para que a pergunta fosse só tua. O linho do vestido dela cheirava a lavanda e chuva.
Do outro lado do bar, Rafael já tinha feito Camila rir. Não uma risada grande — pior. Uma risada curta, surpresa, o tipo que escapa antes da pessoa decidir se quer dar. Ele inclinou o corpo na direção dela — não muito, apenas o suficiente para que os ombros quase se tocassem — e disse algo que a fez morder o lábio inferior.
Teu estômago torceu. Não de ciúme. Ainda não. Era algo anterior, mais primitivo: o reconhecimento de que alguém acabou de mover uma peça num tabuleiro que você nem sabia que estava jogando.
Rafael levantou o copo na tua direção por cima do ombro de Camila, sorrindo com metade da boca.
— Brindemos ao temporal — disse ele. — As melhores noites começam quando os planos vão pro inferno.
O vinho desceu quente. A chuva batia nos vidros como dedos impacientes. Helena pousou a mão no balcão entre vocês dois, os dedos a centímetros do teu braço, e ficou ali — parada, presente, uma barreira suave entre ti e o que acontecia a cinco bancos de distância, onde Rafael já estava inclinado sobre Camila, e Camila já tinha descruzado as pernas.
* * *
A suíte de Rafael ficava no último andar. Claro que ficava. Homens como ele não reservam quartos — reservam territórios. A porta abriu para um espaço que cheirava a cedro, vinho entornado e sal marinho que entrava pelas frestas da varanda fechada. Piso de pedra escura, tapete felpudo cor de osso no centro, cama king com lençóis de linho cru que pareciam nunca ter sido tocados. Duas poltronas de couro voltadas para a parede de vidro onde o Atlântico se despedaçava contra as rochas — cada onda um estrondo surdo que subia pelas paredes e vibrava nas solas dos pés. Velas aqui também, espalhadas por Helena quando subiram — ela já sabia onde estavam as caixas de fósforo, onde ficavam os castiçais. Como se já tivesse feito aquilo antes. Porque tinha.
“Ele escolheu a morena. Sempre a morena, ou a ruiva, ou a que estiver mais carente naquela noite. O padrão muda, o jogo não. Minha parte é segurar o marido. Sou boa nisso. Melhor do que deveria ser.” — Helena acendeu a última vela sobre a cômoda e se virou com aquele sorriso calculado que parecia generosidade.
A ideia de subir não tinha sido de ninguém — e tinha sido de Rafael. Esse era o talento dele. Ele não sugeria, ele construía inevitabilidades. Uma terceira garrafa de vinho, um comentário sobre como o bar estava gelado, a mão de Helena no teu braço dizendo “eles têm uma lareira no andar de cima, não têm, amor?”, e de repente vocês quatro estavam no elevador, e Camila estava entre ti e Rafael, e o perfume dela — baunilha, âmbar, suor leve — competia com a colônia dele, algo almiscarado e caro que grudava no ar como uma declaração de posse.
Agora estavam aqui. Rafael serviu o vinho sem perguntar quem queria. Entregou o copo a Camila com os dedos roçando os dela — um toque que durou meio segundo a mais que o necessário. Ela aceitou. Bebeu. Os olhos grandes e negros fixos nos dele por cima da borda do copo.
Tu sentaste na poltrona da esquerda. Helena sentou no braço da mesma poltrona, a coxa encostando no teu ombro, o linho do vestido subindo o bastante para mostrar a pele clara acima do joelho. Ela cruzou as pernas devagar, e o peso do corpo dela se inclinou na tua direção. O cabelo úmido roçou teu pescoço. Cheirava a lavanda e shampoo de hotel e algo mais quente por baixo — pele viva, sangue correndo perto da superfície.
— Relaxa — ela murmurou, a boca perto da tua orelha. O hálito quente, com gosto de tanino. — A noite tá só começando.
Do outro lado do quarto, Rafael encostou-se na parede de vidro com Camila a meio metro dele. Falavam baixo. Tu não ouvia as palavras, só o tom — grave, lento, o ritmo de uma confissão ou de uma promessa que ninguém pediu. Camila riu de novo — aquela risada curta, rendida — e passou a mão pelo próprio cabelo, jogando os cachos para trás e expondo a curva do pescoço. Um gesto que ela fazia quando estava nervosa. Ou excitada. A diferença, contigo, sempre foi difícil de notar. Com Rafael, parecia não existir.
“Ele fala como se o mundo fosse feito de segredos e ele soubesse todos. Isso é ridículo. Eu sei que é ridículo. Mas a mão dele tá tão perto da minha cintura e eu não consigo lembrar a última vez que alguém me olhou assim, como se eu fosse a única coisa no quarto que importa.” — Camila molhou os lábios com o vinho e não se afastou quando o polegar de Rafael encontrou a curva da cintura dela, por cima do vestido, pressionando devagar.
Teu peito apertou.
Helena percebeu. Claro que percebeu — era o trabalho dela. A mão desceu do braço da poltrona e pousou no teu joelho. Leve. Quente. Os dedos longos acariciando o tecido da calça em círculos lentos, subindo um centímetro a cada rotação, até que a ponta dos dedos estivesse na metade interna da tua coxa.
— Eles se dão bem — disse ela, o tom casual demais para ser casual. — Isso te incomoda?
Antes que pudesses responder, Rafael moveu-se. Foi um passo — só um — mas fechou a distância entre ele e Camila até que os corpos se tocassem: o peito dele contra os seios dela, espremidos no decote apertado. Ele a encostou na parede de vidro com a mão espalmada nas costas dela, puxando-a pela base da coluna. Camila soltou um som — não um gemido, menor que isso, um “nh” preso entre os dentes — e inclinou a cabeça para trás. Os olhos meio fechados. O copo de vinho esquecido na mão, pendendo perigosamente.
Rafael tirou o copo da mão dela e colocou sobre a cômoda sem olhar. Os olhos nunca saíram dos dela. Depois baixou o rosto até o pescoço de Camila e a boca dele encostou na pele morena-dourada abaixo da orelha — lábios abertos, quentes, sem pressa.
— Aaah… — Camila exalou, os dedos agarrando o cashmere do suéter dele, amassando o tecido nos punhos. A boca de Rafael desceu pela curva do pescoço até a clavícula, onde a língua traçou uma linha lenta, molhada, e ele sugou a pele ali com força suficiente para deixar marca. Os quadris dela empurraram contra os dele por instinto — um movimento involuntário, mecânico, o corpo fazendo o que a cabeça ainda fingia não querer.
“Pronto. O corpo dela já decidiu. A cabeça vai seguir em dois minutos. O marido tá ali — bom. Que assista. Helena vai mantê-lo exatamente onde ele está.” — Rafael subiu a mão pela lateral do corpo de Camila até o seio esquerdo, apertando por cima do vestido, o polegar encontrando o mamilo já duro sob o tecido fino.
Tu fizeste menção de levantar.
Helena se moveu. Rápida, fluida, escorregou do braço da poltrona para o teu colo, montando as coxas, o vestido de linho subindo até a raiz das pernas. Ela segurou teu rosto com as duas mãos — palmas macias, dedos frios — e encostou a testa na tua.
— Shhh — sussurrou. Os olhos castanho-claros, pupila dilatada, fixos nos teus a cinco centímetros de distância. — Tá tudo bem. Olha pra mim.
Mas tu não querias olhar pra ela. Por cima do ombro de Helena, vias Rafael virando Camila de costas — as mãos dele nos quadris dela, posicionando-a contra o vidro como quem enquadra uma fotografia. Camila apoiou as palmas na superfície fria e embaçada pela condensação, os dedos deixando rastros na névoa. Rafael colou o corpo nas costas dela, a pélvis contra a bunda redonda apertada no vestido preto, e começou a mover-se devagar — uma moagem lenta, rítmica, que fazia o tecido subir a cada impulso. A mão direita dele contornou a cintura e desceu pela frente do vestido, entre as coxas de Camila, por cima do tecido, pressionando com dois dedos exatamente onde devia.
— Mmmhh… porra… — Camila gemeu contra o vidro, a respiração criando círculos de vapor na superfície. Empurrou a bunda contra ele e o som que saiu de Rafael foi um grunhido baixo, controlado, de quem está exatamente onde planejou estar.
Helena apertou as coxas ao redor das tuas. Ondulou o quadril — uma vez, lenta, sentindo teu pau endurecer sob a calça. Sorriu. Desceu os lábios até teu pescoço, e a língua dela era quente e sabia exatamente onde pressionar, logo abaixo do maxilar, aquele ponto que faz o sangue correr mais rápido. A mão dela escorregou pelo teu peito, pelo abdômen, até o cinto.
Mas não abriu.
Os dedos traçaram a fivela. Brincaram com o couro. Puxaram o bastante para sentires a pressão — e pararam.
— Calma — ela disse contra tua pele, o sorriso audível na voz. — Não precisa ter pressa.
Do outro lado do quarto, Rafael não tinha pressa nenhuma — e ao mesmo tempo não parava. Ele tinha puxado o vestido de Camila até a cintura. As mãos dele — grandes, possessivas — apertavam a bunda exposta dela, os dedos afundando na carne morena. Calcinha preta de renda, fio dental, o tecido fino desaparecendo entre as nádegas. Ele puxou o fio para o lado com o polegar e deslizou dois dedos pela boceta dela — devagar, de baixo pra cima, separando os lábios, sentindo a umidade que já escorria quente pela virilha.
— Ahhhnn… — O gemido de Camila encheu o quarto. Gutural. Rendido. Os joelhos dela cederam por um segundo antes de se firmar de novo no vidro.
“Encharcada. É sempre mais fácil quando elas já estão frustradas. A frustração faz metade do meu trabalho.” — Rafael afundou os dedos dentro dela até a segunda falange, curvando-os para frente, massageando aquele ponto esponjoso com uma precisão técnica, cirúrgica. Camila arqueou as costas e o som que soltou — “uuuhh, caralho, assim” — não era mais para ti. Não era para ninguém. Era involuntário, primitivo, o corpo falando uma língua que não tem gramática.
Tu tentaste de novo. Segurou a cintura de Helena para movê-la. Ela não se moveu. As coxas apertaram. A mão que brincava no teu cinto subiu para o teu peito e empurrou — gentil, firme.
— Não — disse Helena, e a palavra era um muro de veludo. — Essa parte é dele. A tua… — Ela inclinou a cabeça, estudando-te como se decidisse algo. — A tua é outra. Depois. Talvez.
O talvez tinha dentes.
Rafael abriu o cinto dele com uma mão. O som da fivela metálica cortou o quarto — clank — seguido do zíper descendo. Calça caindo pelos quadris, pau saindo duro, grosso, levemente curvado para cima, veias marcadas na extensão — o tipo de pica que parece projetada para ser vista, para ser o centro da sala. Ele esfregou a cabeça contra a boceta molhada de Camila sem entrar, deslizando de cima a baixo pelos lábios dela, misturando o pré-gozo com o tesão encharcado dela até que os dois brilhassem na luz das velas.
Camila estendeu a mão para trás e agarrou o quadril dele, puxando.
— Para de provocar — a voz dela era rouca, irreconhecível. — Mete.
Rafael olhou por cima do ombro dela. Direto para ti. E sorriu.
Depois empurrou — lento, centímetro por centímetro, esticando-a, abrindo-a — até que os quadris dele batessem na bunda dela com um slap surdo e Camila gritasse contra o vidro, os dedos arranhando a superfície embaçada.
— AHHHH, caralho, que delícia… — A voz dela quebrou no meio, virou ar, virou nada.
Ele começou a meter. Devagar no início — puxando quase todo o pau pra fora até que só a cabeça ficasse dentro, depois enfiando de volta inteiro num movimento contínuo, profundo, que fazia Camila empurrar a testa contra o vidro e gemer num ritmo que acompanhava cada estocada. Slap. Slap. Slap. O som de pele contra pele misturado com o barulho da tempestade, e o cheiro — sexo tem cheiro, almíscar forte e doce ao mesmo tempo, misturado com suor e vinho e sal do oceano, tudo saturando o ar quente do quarto fechado.
Helena segurou teu queixo. Forçou teu rosto na direção dela.
— Olha. Pra. Mim.
Os olhos dela eram frios. Não cruéis — algo pior. Profissionais. Este era o papel dela. Segurar-te. Prender-te. Manter-te exatamente ali, com o pau duro e inútil dentro da calça, enquanto o marido dela comia tua mulher a cinco metros de distância com uma eficiência que fazia cada gemido de Camila soar como uma acusação.
Ela te beijou. Lábios macios, gosto de vinho e mentira. A língua dela encontrou a tua e era boa — Helena sabia beijar como quem sabe cozinhar, com paciência e técnica e nenhuma emoção verdadeira — mas quando tua mão desceu pela coxa dela em direção ao meio das pernas, ela agarrou teu pulso. Firme.
— Não — repetiu. Mais baixo dessa vez. Quase com pena.
O ritmo de Rafael acelerou. Os quadris batendo contra Camila com força, cada impacto sacudindo os seios dela dentro do vestido arregaçado, empurrando-a contra o vidro com um thud ritmado que se misturava com os gemidos dela — “ahh, ahh, ahh, não para, caralho, não para” — uma ladainha obscena e honesta que ela jamais tinha soltado contigo, não assim, não com essa entrega suicida, não com o corpo inteiro tremendo e a boceta apertando a pica dele como se quisesse arrancar algo que só ele pudesse dar.
Rafael enterrou os dedos no cabelo de Camila e puxou — firme, controlado — arqueando as costas dela, expondo a garganta. A outra mão desceu pela frente e os dedos encontraram o clitóris inchado, esfregando em círculos rápidos enquanto continuava metendo no mesmo ritmo brutal.
Camila gozou com um grito que não parecia humano. O corpo inteiro enrijeceu — coxas tremendo, dedos brancos contra o vidro, boca aberta num “AAAHHHHNNN” longo e partido que ecoou na suíte e se perdeu no estrondo da tempestade. A boceta dela pulsou ao redor do pau de Rafael, apertando e soltando em espasmos visíveis, e o líquido escorreu pela virilha, brilhando nas coxas morenas à luz das velas.
Rafael não parou. Desacelerou. Movimentos longos, profundos, fodendo-a através do orgasmo com a paciência de quem sabe que a noite é dele e não tem pressa de devolvê-la.
Helena soltou teu pulso. Levantou-se do teu colo. Alisou o vestido de linho, passou os dedos pelo cabelo, e caminhou até a cômoda para pegar o copo de vinho como quem sai de uma reunião de trabalho.
Tu ficaste na poltrona. Pau latejando dentro da calça. Mãos vazias. A imagem de Camila curvada contra o vidro, derretida, com o pau de outro homem enterrado nela até a base, gravada atrás das tuas pálpebras como uma queimadura de flash.
Rafael encontrou teus olhos novamente. O sorriso era o mesmo — metade da boca, olhos atentos, calculados. Ele passou a mão aberta pelas costas de Camila num gesto que parecia carinho mas era propriedade, e tua mulher — tua mulher — ronronou sob o toque dele e empurrou os quadris para trás pedindo mais.
A chuva não parava. Helena bebeu o vinho em silêncio junto à cômoda, os olhos fixos em lugar nenhum, e do outro lado do quarto Rafael recomeçou a se mover dentro de Camila com a cadência lenta e deliberada de quem está longe de terminar.
* * *
O relógio na mesinha de cabeceira mudou de dígito sem som. Meia-noite passada. Dia dos namorados oficialmente morto e enterrado sob lençóis amarrotados e o cheiro espesso de sexo que agora dominava o quarto — almíscar pesado, suor salgado, a acidez metálica de excitação prolongada misturada com vinho tinto derramado no tapete felpudo onde o copo de Camila tinha caído fazia vinte minutos e ninguém se mexeu para limpar. O ar condicionado tinha morrido com a queda de energia e a suíte era agora uma estufa de pedra e vidro: janelas embaçadas por dentro, condensação escorrendo em linhas sinuosas que refletiam o âmbar trêmulo das velas quase no fim. A tempestade lá fora tinha encontrado um segundo fôlego — rajadas de vento sacudiam a varanda fechada, e a cada onda que arrebentava contra as rochas o chão vibrava e as chamas das velas estremeciam, fazendo as sombras dançarem nas paredes como público assistindo ao espetáculo.
Rafael tinha saído de dentro de Camila. Não por cansaço — por coreografia. Ele se afastou dois passos, o pau ainda duro, lustroso de tesão dela, pulsando levemente com cada batida cardíaca. A cabeça inchada, vermelha-escura, brilhante. Ele o segurou na base com uma mão e ficou ali, parado, olhando para Camila como quem avalia uma escultura inacabada. Ela estava exatamente onde ele a tinha deixado — curvada contra o vidro, as pernas abertas, o vestido preto enrolado ao redor da cintura como um torniquete. A boceta inchada e molhada entre as coxas, os lábios separados, um fio de umidade conectando-a ao nada. A respiração dela era visível — ombros subindo e descendo, costelas marcando sob a pele dourada a cada inspiração.
— Vira — disse Rafael. Não era um pedido. A palavra saiu como a instrução de um diretor de cena que sabe exatamente a posição da próxima marca no chão.
Camila virou. As costas contra o vidro gelado — ela estremeceu, e o contraste entre o frio da superfície e o calor do corpo arrancou um som dela, um “ssshhh” sibilante entre os dentes. Os cachos castanhos grudados na testa pelo suor. Os olhos negros vidrados, pupilas enormes, o branco ao redor quase invisível. Os seios tinham escapado do decote em algum momento — cheios, pesados, mamilos escuros e duros como pedrinhas, a pele ao redor marcada por uma linha vermelha onde o tecido tinha mordido a carne. Ela estava descalça. As sandálias tinham voado em algum momento. Os dedos dos pés se encolhiam contra a pedra fria do chão.
“Eu devia parar. Eu sei que devia parar. Ele tá ali, sentado na poltrona, e eu consigo sentir os olhos dele nas minhas costas mesmo quando tô de frente pro Rafael. Mas essa pica… caralho. É como se o corpo dele tivesse sido feito pra encaixar no meu. E ele me olha como se eu fosse… eu não sei. Importante. Não bonita — importante. Quando foi a última vez que alguém me fez sentir assim?” — Camila mordeu o lábio inferior e abriu mais as pernas, o peso do corpo apoiado no vidro atrás dela.
Rafael se ajoelhou.
O movimento foi lento, controlado, e devastadoramente deliberado. Ele desceu mantendo contato visual com Camila até que o rosto dele ficasse na altura da boceta dela — tão perto que a respiração quente dele tocava a carne inchada e Camila soltou um “nnhh” só com a proximidade. As mãos grandes subiram pelas coxas dela, os polegares abrindo os lábios, expondo o rosa escuro molhado por dentro, o clitóris inchado e pulsante no topo, a abertura contraindo em espasmos involuntários.
— Bonita — ele disse, e a palavra foi soprada diretamente contra a boceta aberta.
Camila tremeu como se tivesse levado um choque.
Depois a boca dele encostou nela. Não com pressa — com arquitetura. A língua era larga e quente e começou de baixo, na entrada, onde colheu o gosto dela num movimento longo e ascendente que terminou no clitóris com uma pressão firme e circular. Camila jogou a cabeça para trás e o crânio bateu no vidro com um thunk surdo que ela nem registrou. As mãos desceram e os dedos agarraram o cabelo grisalho de Rafael, puxando o rosto dele contra si.
— Aaahh… puta que pariu, assim… — As palavras saíam aos pedaços, entrecortadas pela respiração irregular.
Tu olhavas. Não conseguias não olhar. A poltrona de couro era uma armadilha gravitacional e teu corpo inteiro tinha virado um nó de adrenalina e ciúme e tesão indesejado — o pau latejando na calça, pressionando dolorosamente contra o zíper, e a vergonha quente subindo pelo pescoço porque parte de ti, uma parte que querias estrangular, estava excitada com aquilo. Com o som molhado da língua de Rafael na boceta da tua mulher — shlk, shlk, shlk — ritmado, obsceno, misturado com os gemidos dela que agora eram contínuos, um fluxo de som sem palavras reconhecíveis.
Helena apareceu no teu campo de visão. Ela tinha se sentado na outra poltrona, as pernas cruzadas, o copo de vinho equilibrado no joelho, e observava a cena com a expressão de quem assiste a um documentário que já viu três vezes. A boca era uma linha neutra. Os olhos percorriam o marido e Camila com uma familiaridade técnica — notando os ângulos, os tempos, a mecânica — sem excitação visível. Sem raiva. Sem nada.
“Terceira vez esse ano. Quarta? Perdi a conta. Ele leva três meses em média entre caçadas. A morena é bonita — mais bonita que a de Lisboa. Menos experiente que a de Mykonos. O marido é jovem, possessivo, provavelmente pensando agora que vai me foder de vingança. Não vai. Ninguém me fode sem o Rafael decidir. Esse é o arranjo. Esse foi sempre o arranjo.” — Helena bebeu um gole de vinho e o olhar dela encontrou o teu por um segundo. Não desviou. Não sorriu. Apenas sustentou. Depois voltou para a cena como quem vira a página de um livro.
Rafael sugou o clitóris de Camila entre os lábios e introduziu dois dedos dentro dela — curvados para cima, pressionando contra a parede anterior, massageando aquele ponto com movimentos de vem cá enquanto a língua trabalhava o nervo inchado com lambidas rápidas e precisas. A boceta dela estava encharcada — o líquido escorria pela mão dele, pelo pulso, pingando no chão de pedra entre os joelhos dele com um plk, plk discreto que de alguma forma era mais obsceno que qualquer gemido.
Camila se contorcia. O corpo não obedecia mais a uma vontade central — cada parte reagia por conta própria. Os quadris empurrando contra a boca dele em movimentos circulares e erráticos. As coxas tremendo. Os dedos nos cabelos dele apertando e soltando. Os seios balançando com cada espasmo, os mamilos duros roçando no ar como antenas captando estímulos invisíveis.
— Eu vou… aaahh… eu vou gozar de novo, caralho, não para, não tira, NÃO PARA… — A voz dela subiu numa escala aguda que se quebrou no topo, e o corpo inteiro enrijeceu — quadril travado contra a boca dele, coxas se fechando ao redor da cabeça dele, as mãos puxando o cabelo com uma violência que faria qualquer outro recuar. Rafael não recuou. Sugou mais forte. Os dedos aumentaram o ritmo dentro dela. E Camila gozou com um grito estrangulado — “AAAHH FOOODE” — que encheu o quarto e competiu com o trovão lá fora. O corpo dela sacudiu em espasmos rítmicos, a boceta apertando os dedos dele num pulso visível, e um jato quente escorreu pela mão de Rafael, pelo antebraço, encharcando o tapete sob os joelhos dele.
Ele ficou ali até o último tremor. Paciente. Meticuloso. Depois retirou os dedos devagar — brilhantes, cobertos — e levantou-se limpando a boca nas costas da mão com a naturalidade de quem limpa restos de comida boa. O pau dele estava tão duro que apontava quase reto para cima, a cabeça roxa-escura pulsando.
Camila escorregou pelo vidro até o chão. Sentada, pernas abertas, vestido arruinado, cabelo desgrenhado, olhar perdido. Respirando como se tivesse corrido uma maratona. A boceta avermelhada e inchada, cintilando sob a luz das velas.
Rafael olhou para ti. Direto. Sem o sorriso dessa vez. Algo pior: indiferença calculada. Como se tua presença fosse um detalhe de produção — necessário para o efeito, irrelevante para a trama.
— Tá gostando do espetáculo, amigo? — A voz grave, casual, como se perguntasse as horas.
Tu não respondeste. Não conseguias. A garganta estava seca, as mãos apertadas nos braços da poltrona, os nós dos dedos brancos. O ciúme era uma coisa viva, quente, com dentes, vivendo no centro do peito. Mas embaixo dele — embaixo, onde não querias olhar — a excitação estava ali, traidora, e o pau continuava duro e latejando e tu odiava cada centímetro dele por isso.
Rafael estendeu a mão para Camila. Ela aceitou. Ele a puxou para cima com um braço só — forte, fácil, como se ela não pesasse nada — e a guiou até a cama. Os passos dela eram instáveis, pernas bambas, e ele segurou a cintura com uma possessividade que parecia cuidado para quem não soubesse ver a diferença.
Deitou-a de costas nos lençóis de linho cru. Camila afundou no colchão com um suspiro longo, os cachos castanhos se espalhando no travesseiro como um halo irregular. Os seios subiram e desceram com a respiração. A pele brilhava de suor sob a luz âmbar — cada curva, cada vale, cada marca de dedo que Rafael tinha deixado nos quadris e coxas estava visível, um mapa de posse desenhado em vermelho sobre o dourado.
Ele tirou o suéter de cashmere pela cabeça. Debaixo, o tronco era exatamente o que se esperaria — largo, definido sem ser esculpido, com uma camada fina de gordura sobre o músculo que dizia eu sou forte, não vaidoso. Pelo escuro no peito, afinando numa trilha até o abdômen. Uma cicatriz longa e fina no lado esquerdo das costelas — faca, acidente, história que ele provavelmente contava de formas diferentes dependendo da audiência. Desceu a calça até os tornozelos e chutou para o lado. Nu. Sem cerimônia. O pau projetando-se para a frente como uma declaração de propósito.
Subiu na cama sobre Camila. Os joelhos entre as coxas dela, abrindo-as. As mãos nos lados do rosto dela, prendendo-a no lugar. Desceu o corpo lentamente até que a pica encostasse na boceta — só encostasse, a cabeça inchada pressionando os lábios molhados sem entrar, escorregando na umidade.
— Pede — disse ele. Baixo. Na boca dela. Os lábios quase se tocando.
Camila fechou os olhos. As mãos subiram pelas costas dele, as unhas arranhando a pele, deixando trilhas brancas que se tornaram vermelhas. Ela engoliu em seco. A garganta se moveu. E quando os olhos abriram, por meio segundo — meio segundo maldito — eles encontraram os teus através do quarto.
Depois voltaram para Rafael.
— Mete em mim — a voz era um fio. Rouca. Destruída. — Mete tudo.
Rafael empurrou num movimento único. Inteiro. Até o talo. A pélvis contra a pélvis, os corpos se encaixando com um slap molhado que ecoou na suíte. Camila arqueou as costas e o gemido que saiu — “AAAHHhhnnn” — foi tão longo e profundo que parecia vir do estômago, não da garganta.
Ele começou a foder. Dessa vez sem a paciência calculada do vidro. Estocadas longas e fortes, o quadril batendo contra o dela com uma cadência que sacudia a cama inteira — o headboard de madeira batendo na parede num toc, toc, toc ritmado que se acelerava a cada trinta segundos. O som de pele molhada contra pele molhada era alto, obsceno, schlap, schlap, schlap, misturado com os grunhidos dele — baixos, contidos, quase animais — e os gemidos dela que tinham abandonado qualquer pretensão de controle.
— Ahhh… ahh… ahhhhh porra, que pica gostosa, caralho… — Camila enrolou as pernas ao redor da cintura dele, os calcanhares pressionando a bunda de Rafael, puxando-o mais fundo. Os seios sacudiam a cada impacto, pesados, os mamilos escuros subindo e descendo como marcadores de um metrônomo obsceno.
“Ela vai querer de novo. Vão todas. Vou dar meu número depois. O marido nunca vai saber. Ou vai — e vai ligar no mês seguinte perguntando se podemos repetir. São sempre os territoriais que voltam rastejando.” — Rafael ajustou o ângulo, levantando os quadris de Camila com as mãos sob a bunda, inclinando a pélvis dela para cima. A mudança de ângulo fez a pica atingir o ponto certo e Camila gritou — sem palavras, puro som, uma nota aguda e partida que era indistinguível de dor para quem não visse o rosto dela contorcido em prazer absoluto.
Tu te levantaste.
Não pensaste. O corpo decidiu antes da cabeça. Três passos na direção da cama.
Helena apareceu. Como uma sombra. De pé entre ti e eles, o corpo magro bloqueando o caminho com a eficiência tranquila de uma porteira que já fez aquilo mil vezes. A mão no teu peito. Firme. Fria.
— Senta — disse. A voz não era dura. Era pior: era cansada. — Não é a tua vez.
E havia algo no tom dela — um acúmulo de noites idênticas comprimido em três palavras — que te travou no lugar mais do que qualquer força física. Ela empurrou. Suave. Implacável. E tu recuaste. Um passo. Dois. O couro da poltrona gemeu quando caíste nela de novo.
Na cama, Rafael tinha virado Camila. De bruços. Rosto afundado no travesseiro. Bunda empinada para ele como uma oferenda. Ele segurou os quadris dela e enfiou de volta num golpe só — SLAP — e Camila mordeu o travesseiro para abafar o grito, o tecido de linho escurecendo onde a boca encontrava saliva e lágrimas. Ele fodeu por trás com uma brutalidade que era diferente — mais crua, mais possessiva, cada estocada empurrando o corpo inteiro dela para frente na cama, os seios comprimidos contra o colchão, o som molhado e ritmado preenchendo cada canto da suíte.
— Mhhmm… mmmHHH… AAAHH… — Os gemidos dela eram abafados pelo travesseiro, mas o corpo contava tudo: as coxas tremendo, os dedos dos pés enrolados, as costas arqueando e relaxando num ritmo que espelhava as investidas dele.
Rafael levantou a mão e bateu na bunda de Camila. Forte. O SLAP foi estalo seco que cortou o ar. A carne morena ficou marcada instantaneamente — a forma dos dedos dele impressa em vermelho na nádega direita. Camila gritou dentro do travesseiro e empurrou a bunda contra ele com mais força.
— Mais — a voz abafada, desesperada. — Bate mais.
Ele bateu. Duas vezes. Três. Cada tapa deixando uma nova marca no mapa que ele estava desenhando na pele dela, e a cada impacto a boceta apertava ao redor da pica dele — ele sentia, a mandíbula cerrada, os olhos estreitados, o controle escorregando pelos dedos pela primeira vez na noite.
— Caralho… — A palavra saiu dele entre os dentes. Ele acelerou. Os quadris batendo na bunda vermelha de Camila com uma velocidade que fazia o headboard arranhar a parede em movimentos rápidos, frenéticos. Os testículos, pesados e apertados, batiam contra o clitóris inchado dela a cada estocada, e o som úmido era agora constante, ininterrupto, uma sinfonia obscena de corpos no limite.
Camila gozou primeiro. Pela terceira vez. O corpo inteiro travando, os músculos da boceta contraindo em pulsos violentos ao redor do pau dele, o grito rasgando o travesseiro — “AAAHHHH PORRA AAAHH” — enquanto os quadris sacudiam em espasmos incontroláveis e a umidade escorria pelas coxas, encharcando os lençóis de linho sob os joelhos.
Rafael gozou dez segundos depois. Enterrou até o fundo, a pélvis colada na bunda dela, e o corpo dele estremeceu — uma vez, duas, três espasmos longos e profundos enquanto a porra jorrava dentro de Camila em jatos quentes e grossos. Um grunhido saiu dele — “nnhhh” — mais ar que som, e os dedos apertaram os quadris dela com força suficiente para deixar hematomas que só apareceriam amanhã.
Ele ficou dentro por mais trinta segundos. Respirando. O peito subindo e descendo contra as costas dela. Depois puxou devagar — centímetro por centímetro — e a pica saiu lustrosa, coberta, seguida por um fio branco e espesso que conectou a cabeça à boceta dela por um instante antes de se romper e pingar no lençol. A porra escorreu de dentro de Camila imediatamente — cremosa, abundante — descendo pela virilha até o lençol encharcado.
Rafael se levantou. Caminhou até a cômoda. Pegou o copo de vinho que Helena tinha deixado ali, bebeu um gole longo, e ficou de costas para o quarto por um momento — nu, o suor secando nas costas, a silhueta recortada contra o vidro escuro onde a tempestade continuava despedaçando o mundo lá fora.
Camila estava imóvel na cama. De bruços. O rosto virado para o lado, olhos abertos mas desfocados, a boca entreaberta, respiração lenta e profunda. O vestido era uma tira de tecido enrolada na cintura. As pernas abertas. A boceta inchada, vermelha, brilhando de porra e tesão misturados. As marcas dos tapas ardiam nas nádegas em tons de rosa e carmesim. Ela não olhava para ti. Não olhava para ninguém. Estava num lugar onde nomes e rostos não chegavam.
“Eu não me arrependo. Devia me arrepender? Acho que devia. Mas o corpo inteiro tá formigando e eu consigo sentir a porra dele escorrendo de dentro de mim e é quente e eu nunca fui tão bem fodida na vida e se isso me faz uma pessoa terrível então tá, sou uma pessoa terrível, mas agora eu só quero dormir, ou que ele faça de novo, qualquer um dos dois.”
Helena levantou-se da poltrona. Passou por ti sem olhar. Caminhou até a cama, pegou o lençol fino que estava dobrado ao pé do colchão, e cobriu Camila com um gesto que era quase maternal. Depois alisou o cabelo da tua mulher — um único gesto lento, dos cachos suados grudados na testa até atrás da orelha — e se virou.
“Pronto. Acabou. Amanhã ela vai acordar e vai sentir vergonha e vai chorar no banheiro e o marido vai fingir que não ouve. Daqui três semanas ela vai achar o cartão de Rafael na bolsa e vai ligar. Acho que sei por que ele escolhe sempre as casadas. Não é pelo sexo. É pelo estrago.” — Helena apanhou as sandálias de Camila do chão, colocou-as organizadamente junto à porta, e caminhou até Rafael.
Ele enrolou o braço ao redor da cintura dela com a mão que ainda cheirava a Camila. Helena não se afastou. Não se encostou. Ficou ali, no semicírculo do braço dele, como uma peça que encaixa sem amar o quebra-cabeças.
Tu ficaste na poltrona. As velas tinham derretido quase até a base, a cera escorrendo pelas garrafas em trilhas solidificadas. O quarto cheirava a sexo e cera queimada e sal oceânico e o vinho entornado no tapete que amanhã ninguém saberia explicar. A tempestade lá fora estava perdendo força — os intervalos entre os trovões se alongavam, e a chuva passava de parede sólida a cortina fina.
Na cama, Camila se mexeu sob o lençol. Os quadris ajustaram-se no colchão. Um suspiro longo, sonolento, escapou dos lábios inchados. A mão desceu preguiçosamente entre as pernas e os dedos encontraram a umidade — a mistura — e ficaram ali, pousados, como quem guarda algo que não quer perder.
Rafael conduziu Helena até a porta da suíte, pegou o suéter do chão, e vestiu-se com movimentos mecânicos. Na soleira, ele parou. Virou-se. E te olhou pela última vez naquela noite com aqueles olhos castanho-esverdeados que sabiam a resposta antes da pergunta.
— Boa noite — disse. Simplesmente.
A porta se fechou com um clique suave que doeu mais que um estrondo, e o silêncio que ficou era do tipo que pesa nos ombros, que tem textura e cheiro e gosto — o gosto de vinho azedo na boca seca, o cheiro de outro homem na mulher que dormia a três metros de ti, o peso da certeza de que amanhã ela ia acordar, olhar para ti, e vocês dois iam fingir que aquela noite não existiu até que a mentira fosse grande o suficiente para viver dentro dela confortavelmente.
Tu te levantaste da poltrona. As pernas dormentes, formigando. Caminhaste até a cama onde Camila dormia de bruços, o lençol fino mal cobrindo as coxas. Sentaste na borda. O colchão afundou sob teu peso e ela se mexeu sem acordar, murmurando algo que não era teu nome. O travesseiro cheirava à colônia dele — almíscar caro e suor de outro corpo.
Do lado de fora, a tempestade se reduzia a um sussurro de chuva fina, e o Atlântico lambia as rochas agora com a mansidão obscena de quem acabou de destruir alguma coisa e está satisfeito com o resultado.
