Ela me via só como amigo - Cap. 13

Um conto erótico de Bruno (por Carlos_Leonardo)
Categoria: Heterossexual
Contém 7645 palavras
Data: 23/02/2026 08:21:56

- E então? – perguntou Wis, com um sorriso enviesado. – Vai ficar fazendo cara de paisagem até quando?

Eu tinha travado. Não era só a pergunta. Era o que a resposta significava. Era o timing dela. Como sempre.

- É… eu preciso de um tempo pra pensar.

Ela franziu a testa, divertida.

- Ué. Até onde sei, não tem nada que te prenda aí…

- Não tem? – devolvi, mais curioso do que defensivo.

- Meus informantes dizem que não.

Inclinei a cabeça.

- Seus informantes?

A expressão dela se abriu num riso genuíno. Daqueles que sempre me desmontavam.

- Sim. Sempre pergunto sobre você. E sempre me respondem.

- Quem? – perguntei, mesmo já desconfiando.

- Papai. Mamãe. Wanda. E Wendy.

- Ah…

Ela se divertia com a minha reação.

- E também sou muito boa em somar um mais um igual a dois… Ah… mas isso você já sabe.

Captei. Claro que sabia. Se ela falava com Wanda, sabia de tudo. Do caos recente. Do divórcio. Da carta. De Vitor. Talvez até de Adriana com Denis. Talvez até demais.

Sabia também que eu estava em pedaços. E talvez estivesse me chamando justamente por isso.

E, ainda assim, ali estava ela. Leve. Confiante. Como se o mundo inteiro coubesse dentro daquela chamada.

- Antes de decidir, talvez devêssemos conversar direito, não acha? – falei, tentando manter a calma. – Você me deve isso.

Ela assentiu sem hesitar.

- Sim. Devo. Por isso estou te chamando para cá.

Aquilo me pegou.

- Acho que eu deveria ir… depois dessa conversa.

- Ou – ela me interrompeu – a gente pode conversar aqui. Olho no olho.

O sorriso dela se ampliou. Seguro. Antigo. Familiar.

- Vamos – continuou. – Você não tem nada a perder. E, sinceramente? Você não viaja nunca. Tá mais do que merecendo isso. Ainda ganha uma guia turística de graça. Não é maravilhoso?

Ela sempre conseguia me desarmar com essa mistura de ousadia e doçura.

- A proposta é tentadora. Admito.

- E tem mais – ela emendou. – As mentorias podem ficar ainda melhores. Lembra quando estive aí? As horas que a gente passava estudando? Eu nunca aprendi tanto.

Era verdade. Quando se concentrava, Wis virava outra pessoa. Precisa. Focada. Incansável.

- Eu te respondo até o fim da semana.

Ela me olhou como se já soubesse o resultado.

- Sei que será um sim. Você só precisa admitir isso.

Acabei rindo.

- Veremos.

Nos despedimos. Mas a sensação que ficou não foi leve. Foi a de que eu já tinha atravessado metade do caminho sem perceber, antes mesmo da minha resposta.

Eu estava com vontade de aceitar o convite. Um mês com a Wis talvez me obrigasse a encarar o que existia entre nós dois. Mesmo assim, toda vez que pensava em ir, minha atenção voltava para minha mãe. O coração dela ainda estava em reconstrução. E eu sabia o quanto ela se esforçava para parecer mais forte do que realmente se sentia.

Durante o jantar, demorei para tocar no assunto. Sabia que, quando contasse, ela perceberia na mesma hora a minha vontade de ir. E também sabia que, se fosse preciso, ela engoliria qualquer tristeza para não me prender.

Por um instante, cogitei levá-la comigo. Mas eu queria aquele tempo a sós. Com a Wis. Só de admitir isso para mim mesmo, já me sentia culpado.

- Você quer ir – ela disse, antes mesmo de eu terminar de explicar. – Então não se preocupe comigo.

- Não é isso… – retruquei. – Eu não deixaria a senhora sozinha agora. Jamais. Ainda mais nesse momento.

Ela me olhou com um sorriso pequeno. Triste, mas sincero.

- Tenho minhas reservas com a Wis depois do que ela fez… – disse com calma. – Mas, como falei pra Wanda, talvez eu devesse ser grata a ela também.

Quase mencionei Trajano e Cecília. Quase disse que talvez fosse a hora de ela retomar a própria vida enquanto eu estivesse fora. Mas qualquer frase nesse sentido soaria como desculpa para viajar sem culpa. Engoli.

Ela percebeu.

- Pode ir, Bruno. Vou ficar bem. Não é como se você fosse desaparecer do mundo. E… – fez uma pausa curta – tenho novos amigos agora.

- Amigos? – perguntei, surpreso.

O sorriso dela se abriu um pouco mais.

- Remo e Érica.

Franzi o cenho.

- Vocês têm se falado?

- Temos. Não podia? – respondeu, com leve provocação.

- Claro que pode… – ri, tentando aliviar. – Que bom que gostou deles.

- E o Remo é um gato.

Revirei os olhos, mas sorri. Ela disse isso com leveza demais. Como se quisesse me convencer de que estava tudo resolvido. Queria que eu acreditasse que estava bem. Que tinha vida própria. Que não dependia de mim para seguir.

Eu queria acreditar também. Mas ainda não tinha certeza se estava pronto para ir sem sentir como se eu estivesse saindo no momento errado.

No dia seguinte, depois do trabalho, fui ao apartamento do Remo. Érica estava lá – como quase sempre. Aquilo já era praticamente a casa dela.

Conversamos trivialidades por alguns minutos, até que, como era inevitável, o assunto da minha mãe apareceu.

- Já falei com ela por mensagens – disse Remo. – Ela é divertida. Mas, confesso, em todas as conversas… você era o tema.

Ele riu e, em seguida, estendeu o celular na minha direção.

- Se quiser conferir, pega o fone.

- Você falando assim parece que eu estou desconfiado… ou com raiva.

- Pareceu – disse Érica, seca.

- Sério?

- É sua mãe, Bruno. Você a protege.

Ignorei a provocação e me afundei no sofá. Remo respirou fundo antes de continuar:

- Ela está superando um término complicado. E você, indiretamente, entrou no meio. Mas, até aqui, você fez tudo certo. Se reaproximou, acolheu, ouviu…

- É aqui que vem o “mas”? – interrompi.

- Que “mas”? – perguntou Érica.

Respirei fundo.

- A Wis me chamou pra passar um mês em Nova Iorque. Eu quero ir… mas não quero deixar minha mãe sozinha. Ela é minha prioridade.

Érica revirou os olhos, cruzando os braços.

- Então não vá.

- Calma – disse Remo. – Também não é assim.

- E vai deixar a mãe sozinha?

- Bruno não pode parar a vida dele – retrucou Remo. – E a cara dele diz que quer ir. Depois de tudo que aconteceu… ele precisa respirar.

- E eu não conto? – disse Érica.

Remo deu de ombros.

- Eu também quero meus meninos dentro de mim.

Olhei para ela, surpreso. Remo ignorou o comentário e seguiu:

- Sua mãe não quer que você abdique da vida por causa dela. Isso só faria ela se sentir pior. E, se esse é o seu problema… a gente fica por perto. Não é, Érica?

Ela bufou.

- É, né.

Acabamos rindo. Até ela.

Fiquei em silêncio por alguns segundos antes de falar:

- Eu me sinto culpado. Sei que ela está melhor comigo, mas o coração dela ainda está… em pedaços. Por causa do término.

- Ela é forte – disse Remo. – Independente. Bonita. Vai se reerguer. E, se quiser, encontra alguém que a mereça.

- Alguém tipo você? – provocou Érica.

- Se o Bruno me der a benção, por que não? – respondeu ele, teatral. – Eu seria o homem mais feliz do mundo. Ela é uma dama. Uma das três mulheres que eu desfilaria orgulhoso por aí.

- Quais são as outras duas? – perguntei, rindo.

- Wendy e… Érica.

Ao escutar seu nome, Érica corou. Eu arqueei a sobrancelha. E algo se encaixou.

- Você não se incomoda com ele se insinuando assim pra sua mãe? – ela me perguntou, querendo desconversar.

Remo abriu a boca, mas fui mais rápido:

- Minha mãe é adulta. Dona de si. Se ela estiver feliz, eu também vou estar.

- Evasivo – disse Érica.

- Se ela quiser se relacionar com o Remo, dou minha benção.

Silêncio.

- Melhorou? – questionei.

- …é – respondeu Érica, murcha.

Remo riu, satisfeito.

Eu tinha certeza de que nada aconteceria entre ele e minha mãe. Nem por parte dele, nem por parte dela. Mas outra coisa tinha ficado clara.

Muito clara.

- Mas eu sei de quem o Remo gosta de verdade.

Ele me olhou confuso. Érica arregalou os olhos.

- E ele ainda não percebeu.

Não disse mais nada, limitando-me a mudar de assunto.

Mas Remo tentou arrancar a resposta de mim algumas vezes, especulando nomes. Nenhum parecia plausível para ele. Dei corda até certo limite.

Quando fui embora, me senti mais leve. Pela primeira vez, a viagem deixou de parecer abandono. Se eu realmente viajasse… minha mãe não estaria sozinha.

Ainda naquela noite, quando já estava prestes a dormir, Wanda reapareceu.

> Wanda: sumi, mas tô aqui

> Wanda: e você?

> Bruno: estou aqui

> Bruno: como foi o aconselhamento?

A resposta demorou alguns segundos.

> Wanda: profundo

> Wanda: passei os últimos dias impactada

> Wanda: cheia de dúvidas

> Wanda: descobri coisas sobre o Vitor e sobre mim que eu jamais imaginaria

Esperei.

> Wanda: talvez eu e ele sejamos duas faces da mesma moeda

> Bruno: que bom

Ela respondeu quase de imediato:

> Wanda: você acha?

> Bruno: sim… falei errado?

> Bruno: o aconselhamento não é pra isso?

> Wanda: pra ele sim

> Wanda: pra mim não

Franzi a testa.

> Bruno: não entendi

> Wanda: eu disse que somos parecidos

> Wanda: mas na dor

> Wanda: e essa dor nos uniu de um jeito… doentio

> Wanda: eu quero sair disso

> Wanda: quero uma nova história

Li aquilo duas vezes.

> Bruno: então por que não sai disso logo?

> Bruno: por que não foca no divórcio?

Assim que enviei, me arrependi. Pensei em apagar. Tarde demais. Ainda assim, ela demorou a responder. O indicador de “digitando…” aparecia e sumia.

Eu já estava quase pegando no sono quando a resposta veio:

> Wanda: não posso deixar o Vitor assim

> Bruno: por quê?

> Wanda: não sou desumana, Bruno

> Bruno: não disse que era

> Wanda: tenho uma história com ele

> Wanda: muitos momentos bons

> Wanda: não vou simplesmente virar as costas

> Wanda: quero que ele fique bem

> Wanda: e que tudo termine bem

> Wanda: mas cada um no seu caminho

Suspirei.

> Bruno: às vezes esse tipo de desejo é impossível

> Wanda: eu sei

> Wanda: mas preciso tentar

> Wanda: é assim que eu consigo me sentir em paz

Fiquei olhando para a tela. Havia ali uma honestidade difícil de contestar. E, ainda assim, algo em mim se contraía – como se eu já tivesse vivido aquele tipo de “promessa” antes.

Antes que eu pudesse dizer algo, outra mensagem chegou:

> Wanda: a carta é minha única verdade, Bruno

Eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

Tentei escrever algo. Apaguei. Nada soava certo.

Então veio a mensagem que desorganizou tudo:

> Wanda: soube do convite da Wis

> Wanda: acho que você deveria ir

> Wanda: no seu lugar… eu iria

Fiquei imóvel.

Wanda e Wis pareciam dois mundos em choque.

> Wanda: bom… acho que você dormiu

> Wanda: boa noite

> Bruno: ainda não sei se vou

> Bruno: boa noite

Joguei o celular ao lado. O coração batia rápido demais para alguém que só estava deitado na própria cama.

Demorei a dormir. Não por falta de cansaço. Mas porque tive a sensação de que Wanda estava me empurrando… para longe dela, para uma vida que nunca incluiria nós dois.

Aqueles dias de indecisão ainda me reservaram uma surpresa desagradável.

Durante o almoço, rolei distraidamente as redes sociais. Foi então que vi a postagem do Denis. Uma foto. Ele sorria. Adriana beijava seu rosto. A legenda era simples demais para permitir qualquer outra interpretação: “minha namorada”.

Fiquei olhando a tela por tempo demais. Não era exatamente dor. Era um tipo de esvaziamento, como se aquela história tivesse sido retirada de mim sem aviso.

Voltei para a PHX com a sensação incômoda de que cada conversa no corredor tivesse mudado de tom. Que todos olhariam para mim e pensariam: “o funcionário está namorando a ex do chefe”.

Respirei fundo.

Na minha sala, empurrei o celular para longe. Empurrei o pensamento para longe também. Empurrei tudo para longe, menos o trabalho. Esse seria o meu foco. Só trabalho.

Durante a mentoria, Wis percebeu de imediato.

- Hoje você não parece só em dúvida… parece derrotado.

- Eu? – desconversei. – Impressão sua.

Ela sorriu.

- Sei. Às vezes mudar de cenário ajuda mais do que a gente imagina.

Ri, meio sem querer.

- Às vezes… a melhor forma de superar uma dor é seguir em frente, Bruno.

Ela sabia. Todo mundo parecia saber.

Soltei um suspiro.

- Obrigado, Wis Nara.

No fim da tarde, minha mãe me mandou uma selfie. Ela, Remo e Érica num café. Os três sorrindo.

> Mãe: <foto>

> Mãe: vou ficar bem enquanto você estiver viajando

Fiquei olhando para a imagem.

> Bruno: 🙂

> Bruno: eu sei

> Bruno: mas ainda não sei

Naquela noite, porém, contei a ela.

- Decidi viajar.

Ela sorriu de um jeito que me desarmou.

- Eu sabia. E fico feliz por você, meu filho. Você precisa respirar. Esse mês fora vai te fazer bem. E não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem.

- Vamos nos falar todos os dias – prometi.

- Eu sei.

Na última mentoria da semana, avisei Wis.

- Eu vou.

Ela abriu um sorriso gigante.

- Eu sabia. Compra a passagem e me manda o horário. Vou te buscar.

- Posso ficar em hotel… não quero atrapalhar suas colegas de apartamento.

Ela me olhou como se aquilo fosse absurdo.

- Bruno… eu moro sozinha.

Engoli em seco. Aquilo mudava a equação inteira.

- Pra quê gastar com hotel se você pode ficar aqui?

Não havia argumento possível.

- Você vai ficar aqui. Está decidido.

- Sim, senhora – brinquei, batendo continência.

Ela riu.

No fim do expediente, comuniquei aos sócios que passaria um mês em Nova Iorque. Meio férias. Meio trabalho remoto. Ninguém se opôs.

Trajano, participando por vídeo, apenas sorriu.

- Aproveite, Bruno. Nova Iorque é incrível. E dessa vez você vai poder viver a cidade de verdade. Vou avisar a Wis Nara pra te apresentar tudo.

Sorri de volta.

- Pode deixar. Conto com ela.

Desliguei a chamada. E pela primeira vez em dias, senti que uma decisão tinha sido tomada. Não porque eu sabia exatamente o que queria. Mas porque ficar onde eu estava já não fazia mais sentido.

Comprei a passagem para a segunda-feira seguinte, tarde da noite. Até o embarque, me concentrei em preparar a mala e aproveitar a companhia da minha mãe. Ela, a todo momento, me dizia para ir tranquilo.

- Tenho a impressão de que essa viagem vai te mudar.

Eu sorri, mas talvez tivesse medo de que ela estivesse certa.

Também não iniciei qualquer contato com Wanda. Nem ela comigo. Parecia não haver mais nada a ser dito. E ignorei completamente as redes sociais. Queria chegar a Nova Iorque sem carregar ruído.

Fui ao aeroporto sozinho. Não queria que minha mãe voltasse tarde para meu apartamento por minha causa.

A viagem foi tranquila. Dormi mais do que esperava. Acordei apenas para a conexão em Miami. Em algum momento, entre um cochilo e outro, pensei que talvez estivesse mesmo fugindo. Em outros, tive a sensação oposta: a de que estava finalmente me movendo.

Por volta de 11h, horário local, desembarquei no JFK.

Mandei mensagem para Wis e para minha mãe avisando que tinha chegado, mas levei quase duas horas até passar pela imigração. Quando finalmente atravessei as portas, parei por um instante no saguão.

Pessoas de todos os lugares do mundo cruzavam o espaço em direções opostas. Idiomas diferentes. Ritmos diferentes. Ninguém me conhecia. Ninguém sabia de Wanda, nem de Adriana, nem de nada.

Eu era apenas alguém chegando. E, pela primeira vez em dias, isso não pareceu ruim.

Foi então que ouvi:

- Bruno!

O som atravessou o ruído do aeroporto com precisão cirúrgica.

Quando me virei, vi Wis correndo na minha direção.

Ela vestia minha camisa clássica dos Beatles, como se tivesse escolhido exatamente aquilo para me lembrar de quem eu era quando estava com ela. Os olhos cor de mel me atravessaram como da primeira vez que nos reencontramos.

Não tive tempo de reagir.

Ela pulou nos meus braços sem hesitar. Como se tivesse decidido que, ali, podia se permitir.

As pernas se cruzaram na minha cintura. Os braços me envolveram com força. O rosto colou ao meu. Beijos rápidos na minha face, quentes, sem cerimônia.

- Seja bem-vindo à minha cidade – disse, entre um beijo e outro – Senti falta da sua presença.

O calor do corpo dela me atingiu de um jeito imediato – não era desejo apenas. Era reconhecimento.

- Eu também senti – respondi.

E, pela primeira vez desde que embarquei, parei de me perguntar se estava fugindo.

Fomos até o apartamento dela de Uber.

Durante o trajeto, ficamos de mãos dadas. A cabeça dela repousava no meu ombro com uma naturalidade silenciosa, como se aquele gesto tivesse sido apenas interrompido por algumas semanas e agora retomado de onde parou. Havia um sorriso constante em seu rosto. Contido, mas impossível de esconder. No corpo, uma tensão leve, elétrica, que parecia percorrer nós dois sem pedir licença.

Conversamos sobre coisas simples. Ela apontava prédios, ruas, referências da cidade, como se quisesse me situar ali antes de qualquer outra coisa. Havia cuidado no jeito como fazia isso. Como se preparasse o terreno.

Eu a observava de canto de olho. Nova Iorque passava pelas janelas, mas, naquele momento, era como se o centro de tudo estivesse ali, no banco traseiro daquele carro, ao meu lado.

Quando estávamos próximos de chegar, ela se virou de frente para mim. O sorriso diminuiu. O olhar ficou mais sério.

- Sei que você está cheio de dúvidas. Confuso. Eu também estou – disse, com calma. – Então… deixa eu fazer do meu jeito. No meu tempo. Pode ser?

Entendi o que ela queria dizer. Ainda assim, franzi o cenho, absorvendo.

Ela mordeu levemente os lábios antes de continuar:

- Não é medo… quer dizer, um pouco é. Mas não só isso. Eu também estou me controlando. Muito. E… nós dois estamos solteiros. Não devemos nada a ninguém.

Havia expectativa na forma como me olhava. Não era pressão. Era um pedido de confiança.

Sorri. Não pelo que ela disse, mas pela forma como dizia – como se tudo já estivesse mapeado dentro dela.

- Combinado? – ela insistiu.

- Combinado.

Ela assentiu. E voltou a encostar a cabeça no meu ombro, como se o pacto tivesse sido firmado sem precisar de mais palavras.

Do lado de fora, a cidade seguia em movimento. Dentro do carro, tudo parecia suspenso, como se aquele trajeto não fosse apenas até o apartamento, mas até um ponto de não retorno.

Cerca de trinta minutos depois, chegamos ao apartamento dela. Era diferente do anterior, aquele em que eu apenas deixara seus fichários. Ficava no Upper West Side.

Ela percebeu minha expressão de leve estranhamento.

- Me mudei faz um tempinho – explicou enquanto descarregávamos a mala. – Esse é menor. Mais adequado pra mim agora que moro sozinha. E o bairro é perfeito: residencial, seguro, silencioso. Do jeito que eu gosto.

O prédio era antigo, reformado com cuidado. O apartamento, compacto: dois quartos, sala integrada à cozinha e um banheiro. Tudo ali parecia escolhido para não sobrar nada além do essencial. Minimalista, funcional, sem excessos. Exatamente como ela.

Na sala, uma estante chamou minha atenção. Repleta de livros: investimentos, matemática e economia. Entre eles, reconheci os fichários que havia trazido na vez anterior. Ao lado, perfeitamente alinhada, estava sua impressionante coleção de carrinhos Hot Wheels.

- Eu te disse que ainda os tinha – comentou.

- São… impressionantes, Wis Nara. Tem peça aqui que só pode ser edição especial.

- E são.

Ela parecia discretamente orgulhosa.

Antes que eu me aprofundasse na estante, ela me puxou pelo braço.

- Vem. Vou te mostrar o seu quarto.

O quarto de hóspedes era pequeno, simples e funcional. Cama de casal, lençóis em tons de azul, tudo com cheiro de novo.

- Comprei especialmente pra você – disse, com um ar sapeca – Pode levar quando voltar pro Brasil.

Sorri.

Sentei na cama, sentindo a maciez do colchão, mas a verdade é que eu estava um pouco em pane. Não era nervosismo. Era a sensação de que qualquer gesto errado mudaria o ritmo que ela tinha desenhado.

Para piorar, não sabia exatamente qual seria o próximo passo. Não ali. Não naquele momento. Não com ela tão perto.

Houve um pequeno silêncio.

Então ela se aproximou e se ajoelhou à minha frente, sem pressa. Não havia submissão no gesto. Havia escolha.

- Eu estou tão feliz por você estar aqui comigo… só comigo.

O sorriso dela era genuíno. O meu deve ter respondido na mesma medida.

- Vamos fazer esse mês valer a pena.

Antes que eu conseguisse responder, ela me abraçou outra vez. Forte. Inteira. Como no aeroporto. Como no meu apartamento no Brasil. Como se aquele gesto fosse a única linguagem necessária entre nós.

Ficamos assim por um tempo difícil de medir. Sem pressa. Sem movimento. Sem intenção imediata de ir além.

E o tempo passou.

E, por enquanto, aquilo bastava.

Mas precisávamos nos mover. Ela me puxou pela mão até a cozinha. A expressão dela era a de quem saía de um transe lento.

- Vem. Vou cozinhar pra você. Como da primeira vez.

Dessa vez, ajudei. Ou tentei ajudar. Passamos a próxima hora preparando a macarronada que ela aprendera com minha mãe.

Não falamos muito sobre nós. Ainda assim, não parávamos de falar. Ela se movia pela cozinha com segurança quase profissional, citando termos que eu nunca tinha ouvido. Parecia uma chef. Eu, um desastre completo.

Rimos disso.

Hesitávamos sempre que nossos braços se tocavam, sempre que precisávamos passar um pelo outro naquele espaço pequeno demais para dois corpos conscientes além da conta.

Mas “sobrevivemos”.

E comemos bem.

O restante da tarde correu em conversas longas e calmas. Perdi um bom tempo diante da estante de livros. Ela me mostrava trechos marcados, explicava raciocínios, voltava páginas, defendia ideias. Debatíamos como se o tempo não existisse.

Olhei novamente para os fichários. Tive curiosidade, mas não perguntei. Parecia cedo demais para certas invasões.

Depois, ela passou quase duas horas me contando a história de cada carrinho da coleção. Alguns eram de antes mesmo de eu conhecê-la. Havia ali uma linha do tempo silenciosa da vida dela. E, de algum modo, eu estava sendo convidado a percorrê-la.

À noite, pedimos comida por aplicativo. Algo saudável de um restaurante que ela disse pedir sempre. Comemos no sofá.

Em certos momentos, o silêncio pairava entre nós. Não era desconfortável. Nossos olhares pareciam conversar sem palavras. Às vezes, um de nós sorria, meio sem motivo.

- Que foi? – ela perguntava.

- Nada… só te olhando.

Ela fazia uma careta, rindo.

- Feia?

- Pelo contrário.

Mais tarde, já perto de dormir, ela veio ao meu quarto. Eu tinha acabado de conversar com minha mãe por chamada de vídeo.

Sentou-se na beirada da cama. A mão pousou sobre meu peito. Ficamos nos olhando por um tempo que parecia ter parado. Então ela se deitou sobre mim, o rosto repousando no meu peito, como se aquele lugar lhe fosse familiar há anos.

Ficamos assim. Quietos. Respirando no mesmo ritmo.

Aquilo era o tipo de lembrança que se fixa.

Depois de um tempo, ela se ergueu um pouco. O rosto perigosamente próximo ao meu.

- Boa noite, Bruno. Até amanhã.

Inclinou-se e beijou meu rosto.

- Até amanhã, Wis Nara – respondi, quase em sussurro.

Ela saiu. Fechou a porta do quarto. Ouvi passos leves pelo corredor. Em seguida, o clique. Ela trancou a porta do próprio quarto. Exatamente como da primeira vez em que dormira no meu apartamento.

Lembrei do mesmo pensamento.

“Esperta”.

Sorri no escuro. Fiquei cheio de expectativas, mas sem ansiedade. Eu já sabia o que queria. Só não seria naquela noite. Seria no tempo dela. Por ela. E, talvez, também por mim. Por nós, com certeza.

Senti uma paz rara.

Logo adormeci.

No dia seguinte, acordamos cedo.

- Se arruma. Tem um café aqui perto que eu preciso te mostrar.

Saímos caminhando pelo Upper West Side. O bairro tinha um silêncio organizado, quase disciplinado. Prédios antigos, árvores alinhadas, gente caminhando com cachorro, corredores matinais voltando do parque. A sensação de segurança que ela descrevera não era exagero. Era palpável.

Em alguns trechos, Wis segurava minha mão para me puxar discretamente para o lado mais interno da calçada, desviando de bicicletas ou tampas irregulares no chão. Um gesto automático, quase técnico. Eu a deixava conduzir. Havia algo de natural na forma como ela assumia aquele papel.

O café ficava de esquina na Amsterdam Avenue. Pequeno, cheio, barulho baixo de xícaras e laptops abertos. Claramente um lugar que ela frequentava.

Assim que entramos, a atendente sorriu para ela com familiaridade.

- Bom dia, Wis Nara.

Ela respondeu no mesmo tom, confortável, como alguém que já fazia parte daquele microcosmo.

Sentamos numa mesa para dois. A atendente olhou para mim e perguntou, em inglês, se eu era um novo amigo.

Wis não hesitou.

- Mais que isso.

Ela disse sem teatralidade. Apenas olhando para mim com um sorriso leve.

A atendente abriu um sorriso cúmplice, fez uma expressão silenciosa de aprovação e saiu para buscar nosso pedido.

Tomamos café com calma. Ela me explicou as dinâmicas do bairro, apontando pela janela onde ficava a livraria que frequentava, a lavanderia, o mercado orgânico e o caminho mais rápido para o parque.

Depois seguimos a pé até o Central Park.

Entramos pela altura da 86th Street. O parque estava vivo, mas não cheio. Corredores, idosos caminhando, mães com carrinhos de bebê e músicos de rua ainda montando seus instrumentos.

Caminhamos sem pressa. Passamos pelo Jacqueline Kennedy Onassis Reservoir, onde a água espelhava os prédios ao longe. Ela me contou que gostava de andar por ali quando precisava organizar ideias difíceis. Contornamos o reservatório até chegar a um gramado mais aberto.

Não falávamos sobre nós. Ainda assim, conversávamos o tempo inteiro. Às vezes de mãos dadas. Às vezes em silêncio. Às vezes com ela encostada em mim.

Em certo momento, ela se sentou entre minhas pernas, apoiando as costas no meu peito. Ficamos assim por longos minutos, observando pessoas passarem, cachorros correrem, folhas se moverem com o vento frio.

Como sempre, não havia urgência. Não era espera. Era permanência.

Almoçamos num restaurante próximo à Columbus Avenue. Ela tirou o celular e me mostrou uma lista quase interminável de restaurantes para eu conhecer.

- Um por dia – ela disse.

Sorri.

Depois disso, fomos até sua universidade.

Dessa vez, havia um motivo mais concreto. Ela precisava formalizar uma ausência de quatro semanas. O semestre estava em andamento e ela não poderia simplesmente desaparecer. Tinha que alinhar: prazos de provas, entrega de trabalhos, manutenção da bolsa e autorização do departamento.

- Se eu não fizer isso direito, perco créditos do semestre – explicou. – E talvez parte da bolsa.

Aquilo tornava a viagem menos romântica e mais concreta. Ela não estava apenas me recebendo. Estava me escolhendo.

O campus era organizado, arborizado, típico de universidade americana. Andamos pelos corredores administrativos até que ela resolveu tudo em poucos minutos. Já parecia algo previamente negociado. Aquela ida era apenas formalização.

Na saída, encontramos Brenda, sua colega de turma. Ela era loira, americana, de olhos azuis e bastante direta. Olhou para mim, depois para Wis, e arregalou os olhos.

- É ele?

Wis sorriu.

- Sim.

Eu corei discretamente, mas estendi a mão.

- Prazer. Bruno.

Ela me cumprimentou com entusiasmo e, sem rodeios, nos convidou para o happy hour da turma na outra sexta.

Wis olhou para mim.

- Quer ir?

- Se você quiser.

- Eu quero.

- Então vamos.

Brenda pareceu satisfeita com a confirmação e logo se despediu.

Voltamos para o apartamento no fim da tarde. A luz já começava a cair entre os prédios. Nova Iorque ganhava aquele tom dourado de início de noite.

No elevador, Wis encostou levemente o ombro no meu.

- Acho melhor dormirmos cedo. Amanhã começa o cronograma de verdade.

- Cronograma?

Ela sorriu, satisfeita com minha surpresa.

- Sim. Eu projetei o mês inteiro.

O elevador subia. E, pela expressão dela, percebi que eu tinha entrado em algo que ela vinha desenhando há muito tempo.

“Do meu jeito. No meu tempo”.

Nos dias seguintes, Wis me arrastou pela história da cidade: o Metropolitan Museum of Art, a ponte do Brooklyn ao entardecer, a biblioteca pública na Fifth Avenue, pequenas livrarias do Upper West Side e uma sequência quase infinita de cafés e restaurantes que ela fazia questão de me apresentar – um por dia, às vezes dois. O roteiro parecia pensado para que eu conhecesse tudo no ritmo dela: com pausas, com respiros, com tempo. Como se ela estivesse me apresentando a cidade que existia para ela.

Voltávamos sempre caminhando. Às vezes em silêncio. Às vezes de mãos dadas. Os abraços se tornaram mais frequentes. Mais demorados, como se fosse possível. Não eram apenas cumprimentos. Eram pausas necessárias entre um deslocamento e outro.

Havia um cuidado consciente. Um acordo silencioso de não atravessar a linha antes da hora. Ainda assim, o calor entre nós crescia. Não como urgência. Como certeza.

Em uma das tardes, voltamos ao Central Park. Não porque fosse necessário, mas porque parecia inevitável. Sentamos na grama. Ela se acomodou entre minhas pernas, apoiada em mim. Ficamos ali por um tempo longo demais para ser casual. Curto demais para ser suficiente.

Em outras tardes, repetimos o ritual.

No apartamento, a dinâmica prosseguia. Cozinhávamos juntos, mais pelo prazer da presença do outro do que por necessidade. Em vez de simplesmente pedir comida por aplicativo, passávamos tempo lado a lado na cozinha, ocupando o mesmo espaço.

Sentávamos no sofá para conversar sem parar. Em certos momentos, ela encostava a cabeça no meu ombro e ali permanecia. Ou se deitava em meu colo. Nenhum de nós comentava. Mas, nesses instantes, ambos percebíamos que a distância entre nós deixava de fazer sentido.

Na hora de dormir, o mesmo ritual: um abraço demorado, um beijo no rosto e um “boa noite” carregado de um desejo cada vez mais consciente, mais palpável. Em seguida, o clique da porta do quarto dela sendo trancada.

Por um ou dois dias, esqueci de ligar para minha mãe. Ela não pareceu se importar. Pelo contrário, parecia saber que eu precisava daquele tempo.

- Continue se divertindo – dizia.

Wanda e Adriana começaram a parecer distantes. Em algum momento, percebi que tinha passado dias sem pensar nelas. Como se pertencessem a outra história. Outra vida.

Fui perdendo a noção dos dias até que Wis comentou:

- Sexta, tem o happy hour da turma. Lembra?

Assenti. Até então, a cidade tinha sido quase só nossa como numa vida paralela. A lembrança do convite soava como o primeiro passo de volta ao mundo real. E talvez como o início de outra fase.

Os dias seguintes mantiveram o mesmo ritmo: caminhadas, novos lugares, retornos ao parque, toques discretos, abraços cada vez mais firmes, olhares que demoravam um pouco além do necessário e conversas silenciosas.

Até que a sexta-feira chegou. E o ritmo que ela vinha desenhando parecia prestes a avançar.

Eu já estava pronto, na sala, aguardando ela se vestir. A saída seria em um bar, um reduto quase ritual da turma dela. Senti uma ansiedade discreta, difícil de nomear. Não era insegurança. Era antecipação. E, quando Wis apareceu pronta, o encanto substituiu qualquer outro pensamento.

- Como estou?

Ela vestia uma calça de alfaiataria preta bem ajustada, que alongava as pernas e desenhava a silhueta com elegância discreta. A blusa, de tecido leve e caimento preciso, em tom off-white, contrastava com a sobriedade da calça e deixava o colo delineado sem exagero. Por cima, um casaco longo e leve, aberto, que se movia com naturalidade a cada passo.

Nos pés, um salto baixo, elegante o suficiente para a noite, confortável o bastante para caminhar pela cidade. Nada chamativo. Tudo pensado.

O cabelo estava parcialmente preso, alguns fios soltos emoldurando o rosto. A maquiagem era mínima, mas exata, realçando os olhos e a linha da boca com a mesma precisão com que ela resolvia qualquer problema complexo.

Era uma versão dela que eu já conhecia: contida, segura, confiante. Bonita sem esforço. Ainda assim, havia algo diferente naquela noite. Não era apenas social. Era posicionamento. Uma intenção silenciosa. Um cuidado maior do que o necessário.

-Você está… linda – falei, dando um segundo a mais para me recompor. – Vamos?

O bar ficava numa rua lateral do Village, daqueles que parecem pequenos por fora e infinitos por dentro. Luz baixa, mesas altas, gente encostada no balcão falando um pouco mais alto do que a música permitia. Um lugar de encontros recorrentes, não de acontecimentos definitivos.

Quando chegamos, seus amigos já estavam lá. Três moças e dois rapazes. Ela me apresentou a todos.

Kelsi foi a primeira. Loira, confiante, consciente do próprio efeito. Chegou a morar com Wis no antigo apartamento. Eram diferentes em quase tudo, mas se tratavam com naturalidade antiga.

Depois Anna. Mais discreta, educada, com uma atenção genuína ao ambiente. Fez questão de me incluir nas conversas desde o início, explicando piadas internas antes que eu precisasse perguntar.

Então Tyler.

- Então… você é o famoso Bruno.

O aperto de mão foi firme, um pouco mais firme do que o necessário. Ele não escondia o interesse por Wis. Falava com ela próximo demais, inclinando o corpo, buscando atenção constante. Em determinado momento, ao passar atrás dela para alcançar o balcão, a mão dele roçou de leve a cintura dela. Um gesto rápido, quase automático. Ela não reagiu. Nem se afastou. Também não correspondeu. Continuou a conversa como se o gesto não tivesse relevância.

Registrei. Não disse nada. Apenas senti o maxilar se contrair por um instante.

O outro rapaz era Matt. Mais contido, óculos marcantes, ar intelectual sem arrogância. Falava pouco, observava muito. Em alguns momentos, percebi o olhar dele se demorar em Wis quando ela não via. Havia ali um interesse silencioso, mais cuidadoso, mas igualmente presente.

Por fim, Brenda. A mesma que havia nos convidado. Observadora, direta, com curiosidade genuína sobre mim. Meu inglês deu conta do básico. O suficiente para participar, não apenas ouvir.

A noite foi agradável, mas havia algo em suspensão no ar. Pequenas engrenagens sociais se moviam o tempo inteiro. Pessoas se levantavam, voltavam, trocavam de lugar. Em algum momento, percebi que estava sentado entre Anna e Brenda enquanto Tyler se inclinava para falar com Wis. Parecia casual demais para ser casual.

Quando voltei à mesa com as bebidas, Wis puxou levemente minha manga, abrindo espaço para que eu me sentasse ao lado dela. O gesto foi discreto, natural, quase automático. A coxa dela encostou na minha e permaneceu ali. Não se afastou.

Conversávamos com todos, mas nos observávamos o tempo inteiro. Bastava um segundo de silêncio e nossos olhares se encontravam. Aquela conversa sem palavras que já era familiar.

Em certo momento, me levantei.

- Vou pegar um ar.

Ela apenas sorriu. Ela sabia.

Saí do bar. Encostei no muro ao lado da porta. O ar frio ajudou a desacelerar o corpo.

Não demorou e ela veio atrás. Como se soubesse exatamente por que eu tinha saído.

Nos abraçamos sem dizer nada. Como se fosse o gesto mais lógico do mundo. O rosto dela apoiado no meu peito. Minha mão na sua cintura. Por um instante, tive a impressão de ver Brenda espiando pela porta de vidro. Talvez curiosidade. Talvez confirmação. Não importava.

Voltamos alguns minutos depois. O clima parecia o mesmo, mas não era. Algo tinha sido afirmado, mesmo sem palavras.

Permanecemos até mais tarde. Conversas, risos, copos que se renovavam. Mas a tensão não se dissipava. Apenas se organizava.

Na volta para o apartamento, caminhamos de mãos dadas. Nenhum comentário direto sobre a noite. Não era necessário. A cabeça dela repousou no meu ombro durante parte do trajeto. O silêncio era confortável.

Um reconhecimento silencioso entre nós, ainda não dito em voz alta, mas já impossível de negar.

Na hora de dormir, repetimos o mesmo ritual de sempre. O abraço, o beijo no rosto, o “boa noite” dito com mais consciência do que antes.

Por um instante, achei que a porta não seria trancada. Um segundo. Dois. O coração bateu diferente. Então veio o clique. Ainda não foi dessa vez.

No dia seguinte, não saímos. Ela sugeriu maratonar uma série. Trouxe um colchão para a sala e o estendeu no chão. Deitou-se ali, enquanto eu permaneci no sofá.

Vestia um pijama curto, justo, em tom roxo suave, que acompanhava as linhas do corpo sem exagero. Deitou-se de bruços, rosto voltado para a televisão, de costas para mim.

A série falava sobre criptomoedas. Eu não saberia dizer sobre o quê exatamente. E olhe que era minha área de atuação. Minha atenção estava em outro lugar. Nela.

Em determinado momento, ela pausou o episódio e se virou para mim, com um sorriso tranquilo.

- Aí deve estar desconfortável. Por que não se deita aqui?

Ele perguntou como se já soubesse que eu não conseguiria ignorar.

- Tô bem aqui – respondi, tentando soar casual.

- Não tá.

Ela se levantou, veio até mim e me puxou pela mão. Acabei caindo no colchão de maneira meio desajeitada, o que a fez rir. Ri também.

Deitamos.

Ela de costas para mim. Retomamos o episódio. Aos poucos, ela foi se movendo para trás. Um centímetro. Depois outro. Até que nossos corpos se tocaram. Ficamos assim, num encaixe perfeito.

Meu pau duro, sem esconder. A bunda dela empinada, coluna curvada.

Não falamos nada.

A respiração mudou primeiro. Depois o silêncio ficou mais denso. Pequenos ajustes, quase imperceptíveis, como se ambos buscássemos uma posição mais confortável ainda… ou mais próxima. E quão próximos ficamos!

Aproximei-me um pouco mais. O cheiro dela parecia mais familiar ainda. Inclinei a cabeça na direção do seu pescoço. Seus olhos estavam fechados, como se apreciasse cada segundo.

Minhas mãos repousaram na sua cintura. Depois subiram devagar, por baixo da blusa, tocando a pele com cuidado, como se testassem um território novo. Ela não se afastou. Apenas respirou mais fundo. Os pés se contraíram levemente contra os meus.

Ficamos assim. Por tempo suficiente para que o corpo entendesse antes da mente.

O interfone tocou. O som pareceu alto demais para um espaço tão silencioso.

Saímos do transe quase ao mesmo tempo. Ela se levantou rápido, ajeitando o cabelo e o pijama, tentando retomar o fôlego.

Atendeu. Era errado.

Voltou para sala.

- Você quer comer? – perguntou, ainda com a respiração irregular.

- Quero.

Fomos para a cozinha. O silêncio agora era diferente. Mais carregado.

Ela abriu a geladeira, mas parecia não ver nada. Eu a observava sem conseguir pensar em outra coisa.

Aproximei-me por trás. Abracei-a. Puxei-a de leve contra mim. O mesmo alinhamento de antes, mas mais consciente. Meu pau duro, sua bunda empinada. Ela não se afastou.

E assim ficamos. Sentindo. Quase hipnotizados.

Então, ela se virou lentamente, mas sem romper o contato. Nossos rostos próximos.

- Você me tira do eixo mais do que eu gostaria – disse, em voz baixa. – Me deixa impulsiva. Inconsequente.

Não respondi. Não era necessário.

- Às vezes… – continuou – eu preciso me controlar mais.

Sorriu logo em seguida. Não havia medo no rosto. Havia consciência.

Aproximou-se e beijou meu rosto com calma. Depois se afastou um passo.

- Preciso ligar pro papai. Já está quase na hora que combinei com ele.

Saiu da cozinha.

E o ar permaneceu carregado de excitação e eletricidade.

Naquela noite, deitado no quarto de hóspedes, demorei a dormir. Não pelo que aconteceu. Mas pelo que, claramente, era apenas uma questão de tempo.

Veio mais um dia. E depois outro. Os dias começaram a se repetir sem parecer repetição.

Saídas mais leves. Caminhadas sem roteiro. O normal passou a ser andar abraçados ou de mãos dadas. Quando, por algum motivo, nos soltávamos, era quase automático procurar o outro de novo. Um vício silencioso. Uma química que já não pedia explicação.

Falávamos menos com palavras.

No apartamento, passávamos horas vendo séries no colchão que ela, quase sempre, arrastava para a sala. Já não era improviso. Era método. O mesmo tipo de pijama. O mesmo cuidado. A mesma proximidade crescente.

Eu, cada vez com menos roupa.

- Tira esse calção – ela disse num desses dias, de forma rápida, quase prática, como se fosse apenas conforto físico. E talvez fosse isso mesmo também. – Se estiver te incomodando, é claro.

- Está sim.

Fiquei apenas de cueca box. Não houve constrangimento. Apenas a sensação de que pequenas barreiras estavam sendo atravessadas. Sem anúncio. Sem pressa.

Ela sempre dava um jeito de se aproximar mais. Eu também. A pele dela reagia ao toque com a mesma facilidade que a minha. Havia algo de inevitável naquilo. Minha ereção visível, palpável. Um reconhecimento físico que já não dependia de decisão consciente.

Naquela noite, depois do “boa noite”, ela saiu do meu quarto rumo ao seu. Esperei o clique da porta. Não veio.

Alguns segundos depois, ela voltou como se já tivesse decidido. Caminhou até a cama e deitou-se sobre mim, com naturalidade.

- Quero ficar mais um pouco aqui – disse, em voz baixa.

- Fica – sussurrei.

O corpo dela se acomodou sobre o meu. O encaixe aconteceu sem esforço, como se já fosse conhecido. Nossas intimidades se tocando. Permanecemos assim, imóveis por um tempo. Apenas sentindo.

Acabamos dormindo.

Acordamos quase ao mesmo tempo. Nossos olhares se encontraram. Não havia constrangimento. Apenas a sensação de que algo já tinha mudado de lugar. O tempo parecia apenas formalidade.

Horas depois, no café, o celular dela tocou. Era Brenda. Convite para mais um happy hour na sexta. Desta vez, em uma balada.

Wis desligou e me olhou.

- Acho que deveríamos ir.

Assenti.

Naquela noite, esperei que ela voltasse para dormir comigo de novo. Não voltou. Depois do “boa noite”, foi para o quarto. Fechou a porta.

Esperei o clique.

Não veio.

Esperei mais alguns segundos.

Nada.

Levantei-me.

Fui até a porta do quarto dela. Parei ali por um instante. A tentação de entrar era quase física. Em vez disso, fui ao banheiro. Molhei o rosto. Olhei-me no espelho. O desejo era evidente. Incontrolável. Meu pau querendo saltar da cueca box.

Quando voltei, a porta dela se abriu. Nos encontramos no corredor, quase no mesmo instante. Era difícil saber se aquilo era coincidência ou cálculo.

Nos esbarramos. Nos abraçamos.

- Tá tudo bem? – ela perguntou.

- Tá. E com você?

Ela me olhou. Mordeu levemente o lábio. Não havia dúvida no olhar. Apenas contenção.

- Eu… vou ao banheiro.

- Tá… eu vou pro meu quarto.

- Boa noite, de novo, Bruno.

- Boa noite, de novo, Wis Nara.

Voltei para a cama com o corpo ainda em alerta. A expectativa agora tinha forma. Tinha direção. E tinha prazo. Uma balada no dia seguinte. Com a turma dela. Com Tyler. Com Matt. E comigo.

Depois de alguns minutos, ouvi passos suaves pelo corredor. A porta do quarto dela se abriu. E se fechou. E ficou assim. Novamente sem clique. Algo tinha passado do ponto de retorno.

Demorei a dormir. Mas dormi.

Na noite seguinte, terminei de me arrumar e gostei do que vi quando olhei no espelho. Mais uma vez, esperei por ela. Quando Wis saiu do quarto, a diferença foi imediata.

O vestido, em vermelho fechado, acompanhava o corpo com precisão, marcando a cintura e o quadril sem exagero. O salto era mais alto do que o habitual. O cabelo, solto. A maquiagem, mais definida – olhos intensos, boca no mesmo tom profundo do tecido. Nada nela era excessivo. Ainda assim, impossível de ignorar.

Eu nunca a tinha visto assim por escolha. Não daquele jeito. Nem quando tentou. Nem quando teria sido mais fácil.

Ali havia escolha. E timing.

Intenção.

Ela sustentou meu olhar por um segundo a mais do que o normal, como se medisse o impacto. Não perguntou se estava bonita. Não precisava. Ela tinha certeza. Minha expressão deve ter me denunciado.

Entendi sem que ela dissesse: aquela versão não era só para a noite.

Era para mim.

Fomos até o local de Uber. Para quem via de fora, éramos um casal. De mãos dadas. Entregues à noite.

O lugar era um lounge escondido num segundo andar, com janelas altas e uma música que fazia o peito vibrar antes de chegar aos ouvidos. Não era um espaço de conversa. Era um espaço de decisão.

Quando avistamos a turma dela, o impacto foi imediato. Nem eles tinham visto essa versão da Wis. Anna e Brenda a olhavam admiradas. Tyler e Matt se remexeram em seus lugares, desconfortáveis. O desejo explícito em seus olhos.

Ela não soltou minha mão. Nem mesmo quando fomos buscar bebidas. Conversávamos com os demais, mas ela se aproximava cada vez mais de mim. Tocava meu ombro ao rir. Em um comentário meu sobre as ruas de Nova Iorque, ela riu alto, jogando a cabeça para trás, sempre permanecendo perto.

Também dançamos. Não era nossa primeira vez dançando juntos, mas era a primeira em que seu corpo se movia sem qualquer contenção – pela primeira vez por escolha. Ela se guiava por mim. Ao redor, percebia os olhares. Todos nela. O impacto era evidente. Até Kelsi, sempre segura de si e antes tentando parecer indiferente, parecia deslocada.

A tensão se ampliava no ambiente. Um jogo de interesse, de leitura, de escolha.

No único momento em que me afastei, Tyler se aproximou.

- Quero dançar com você também, Wis Nara.

Ela não respondeu. Não precisou. Me procurou com os olhos. Eu já estava voltando.

Segurei sua mão.

- Vem.

Ela veio sem hesitar.

Ou talvez fosse apenas déjà vu de algo que já aconteceu antes.

Encostei-a em uma parede mais afastada. Seus braços se elevaram, apoiados nas minhas mãos. O rosto dela não era desafiador. Havia entrega. Aceitação. Permissão.

Nossos olhos se encontraram por um instante. Depois, nossas bocas.

Primeiro, um toque breve entre lábios. Depois outro. E mais outro. E então o beijo veio inteiro, carregando tudo o que havia sido adiado ao longo de semanas.

Nada mais importava. O resto desapareceu antes mesmo que eu percebesse.

Não havia mais espaço para recuo.

Saímos do lounge. Caminhamos sem destino por alguns minutos. Paramos diante de um prédio qualquer entre tantos. Puxei-a para um canto mais reservado, encostando-a numa parede. Aproximei-me de novo. Nenhuma palavra. Apenas o gesto. O rosto dela entre minhas mãos. O olhar aberto. O beijo correspondido em igual medida.

Voltamos para o apartamento. O silêncio no elevador era denso. Contido. Quase insustentável.

Quando a porta de entrada se fechou, não havia mais controle.

Entre beijos e passos apressados, seguimos até o quarto dela. Ao entrar, ela fechou a porta e me encostou contra ela. O corpo pressionado contra o meu. Um abajur inesperadamente aceso revelava a expressão dela – desejo claro, sem disfarce.

Ficamos imóveis por um instante.

Com um movimento lento, a mão dela foi até a maçaneta.

E então ouvi.

O clique.

A porta fechada.

E eu estava dentro.

Continua...

Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo confirmado para quinta-feira que vem, às 17h.

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Comentários

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Bicho, eles dois juntos é fofinho e tal... Mas ela tá se metendo em uma história que não é dela e definitivamente as histórias do Bruno não estão encerradas pra que ele possa seguir em frente. Sei lá... Isso tem cara de problema.

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O próximo capítulo será só do Bruno e Wis tbm ou voltará pra história dividida na visão da Adriana e da Wanda tbm? Principalmente da Wanda e do Victor na terapia.

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obg pelo cap maninho! Demorou mas veio na mesma qualidade dos demais.

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Se a intenção dela é mostrar que ele poderia ficar sem pensar nas outras, até agora deu tudo certo!!

Não consigo entender a Wanda...mas que sou eu p julgar....e a Adriana está se perdendo com o cara lá, ou então se encontrando, depende do referencial...

Só fiquei noiado com esses amigos dela...

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Na verdade, ele tá vivendo tudo que viveu com a Wanda só que tomando as atitudes que deveria ter tomado lá atrás...

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