A vida é plena quando não se tem amarra nenhuma mais que você mesmo, preso somente ao que se gosta, fiel aos próprios defeitos e orgulhoso de poder ser quem se é, sem fingimentos, regras impostas e outras merdas que nos empurram garganta abaixo como uma fórmula pra ser feliz.
Por isso cheguei em Paris, mesmo sem grana e sendo ilegal, viver aqui é bacana porque ninguém me enche o saco - os franceses tem isso de respeitar a individualidade alheia e não se metem uns com os outros, coisa de gente civilizada.
Depois de um ano no perrengue, já tenho meus contatos e faço meus corres, afinal, tenho que sobreviver. Aí bateu o inverno e começou a fazer um friozinho. E o friozinho piorou. E começou a nevar. E agora, há um mês está nevando pra caralho e faz um frio da porra.
Vai por mim, inverno em Paris é duro pra quem não está acostumado. Resolvi que não vou mais sair de casa até a primavera. Minha quitinete é derrubada? Que se foda, eu vivo bem feliz da vida aqui, eu e meu gato, talvez o único ser que me entende e gosta de mim, desde que eu o mantenha alimentado e não insista em lhe fazer carinho - ele não gosta disso, nem eu.
Eu já levo um tempão nisso, só tomando meu umas cervas e conversando com o gato, entrei numas, não quero mais sair de casa, não faço a barba e fico pelado, bem à vontade, só me enrolo numa toalha quando batem à porta. Nem sei que horas são, aliás, eu nem sei que dia é, ou se é mesmo de dia, pois a noite vem e vai embora, enquanto lá fora é sempre escuro e, sinceramente, eu nem me dou conta.
Estou hibernando sem fim, só eu e o gato, quando aparece alguém querendo erva, eu vendo e eu fumo, sei lá, vem tudo quanto é maluco pra comprar comigo, eu não sou seletivo, gosto de todo tipo de gente, desde que fumem um belo baseado, levem algo de erva e depois vazem, para eu poder continuar a não fazer nada, tranquilo, como um esquimó no seu iglu.
Isso é o retrato da plenitude pra mim!
Daí uma hora qualquer me aparece na porta aquela garota, branca feito gesso com os cabelos negros e um corte na altura dos ombos com franjinha, olhos redondos e puxados nos cantos, parecendo uma chinesinha, se é que não era mesmo - eu não sei, porque meu francês básico não alcança definir se tinha sotaque ou não.
Jaqueta de couro, uma camisa com a bandeira nacional estampada, mini-saia plissada xadrez e meia de lã cor-de-rosa até o alto das pernas compridas, com um six-pack de cerveja na mão. Diz que é amiga de alguém, sei lá quem, e que veio pra fumar um, ela nem torce o nariz pra bagunça da quitinete, não estranha eu estar só de toalha e até ri quando o gato sobe na cama pra desfiar meu cobertor. Gosto do visual e dela trazer cerveja.
Sentamos no sofazinho, enquanto eu enrolo o trem ficamos conversando sobre o frio, o gato e coisas da vida dela que, honestamente, não me lembro. Não é descuido meu, acreditem, há anos eu entrei numa briga de bar, apanhei, bati a cabeça e, desde então, eu não tenho memória recente, só breves lembranças.
Ela tira algo da bolsa, coloca uma pílula na minha língua e engole outra, a quitinete está esfumaçada, a cerveja acaba e eu estou doidaço, bate aquela letargia gostosa, a garota segue falando de sua vida, sua voz soa plana e constante como um mantra, “moi, moi, moi, moi, moi, moi, moi…”, eu desligo a cabeça, entro no piloto automático e dou aquele sorriso pra mim mesmo, a vida é mais bela assim, sem pensar em muita coisa, só deixando rolar.
Meu coração acelera, tá batendo feito doido, é pura energia se espalhando no meu corpo e eu nem sei porquê, olho pra baixo e a garota abriu minha toalha, ela tá me chupando com o rosto mergulhado no meu pau, tá mais doida do que eu, me estiro no sofá e deixo rolar, é gostoso pra caralho sentir sua língua passando pelas minhas bolas, vê-la lambendo a cabeça do pau, brincando com ele de fazer gulosa, engolindo até o fundo e deixando ele todo babado. Gostei mesmo dessa garota, gente boa.
Lá fora faz menos sei lá quanto, mas aqui dentro tá esquentando pra valer, ela tirou a jaqueta e a blusa com a bandeira da França, não está de sutiã, voltou pra cima de mim, só de sainha xadrez e meia de lã, afastando a calcinha pro lado e sentando no pau duro, as pernas compridas dobradas em volta do meu corpo, fica se mexendo como se montasse um cavalo, as mãos de unhas cor-de-rosa apoiadas no meu peito, os seios de de bicos pequenos, escuros e pontudos balançando na minha frente com a buceta pulando no pau e a boquinha carnuda de chinesa entreaberta deixando escapar o ar a cada golpe, “moi, moi, moi, moi, moi…”, e eu me sentindo o rei do sofá.
Ficamos nisso sei lá quanto tempo, estávamos anestesiados e o tempo não passava, acho que pedimos uma pizza, sim, e mais cerveja, chegaram uns caras pra fumar baseado e minha garota no sofá, só de calcinha preta minúscula enfiada na bunda gostosa e os peitos bicudos de fora, e eu só enrolado na toalha, fumando e vendendo erva. E o tempo vai passando, acho até que já estamos morando juntos, chega gente, e sai gente, e eu só dispensando o povo, comprando pizza e pedindo mais cerveja, para voltar e seguir trepando com a garota chinesinha no sofá.
Atendo a porta, pego a pizza, dou a volta e a vejo descendo do sofá, ela me olha passando a língua nos lábios e vem engatinhando no tapete puído da quitinete, um tapete todo fodido, gasto, arruinado, e ela ali de quatro comigo engatado atrás daquele traseiro branquinho com um cigarro pendurado na boca, o pau mergulhando na bucetinha cor-de-rosa que chega a pingar de tão molhada, eu bombando rápido como se tivesse tomado umas anfetas e dando uns tapas de leve na bunda da garota, ela rindo e seguindo as bombadas na sua buceta deixando a acaparar com voz aguda, “moi, moi, moi, moi…”, sem parar, nós dois a mil, até gozarmos.
Estamos de volta no sofá, atirados um contra o outro com as pernas entrelaçadas, bebendo, fumando e comendo a pizza, a quitinete está um lixo e a gente se diverte, a porta abre sem aviso, sei lá, esqueci de trancar, mas aqui não tem nada pra roubar.
Uma garota alta de cabelos coloridos e piercing no nariz entra e começa a gritar, fazendo escândalo, caralho, é minha namorada, a dona do gato, está puta com a gente - e eu não me lembrava de que tinha uma namorada, não mesmo, fico embasbacado enquanto ela grita e puxa minha chinesinha do sofá, a briga é feia, os pratos sujos voam pela sala e se espatifam, a pia quebra com as duas se agarrando, elas rolam entre as garrafas vazias e as caixas de pizza no tapete arruinado, uma confusão do cacete.
A chinesinha pega as roupas e vai embora ainda com os peitos de fora e o nariz sangrando, minha namorada desconhecida pega o gato e sai batendo a porta, e eu fico ali sozinho, só de toalha e com a barba mal-feita, enrolando um baseado. Não me importa, não me importa mesmo, eu sou o rei do sofá!
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Esse conto foi escrito para o desafio pirata 2: música. Foi inspirado no punk-rock divertido do belga Plastic Bertrand chamado “Ça Plane Pour Moi” (É Pleno Pra Mim), que eu conheci quando era um pirralho dos cabelos descoloridos espetados com gel e coleira no pescoço.
Ainda que você não fale um caralho de francês tal como eu, vale reler ouvindo a música na versão da banda The Presidents of the United States, só pra entrar no clima!
