Entre Irmãos - Briga Entre Irmãos

Da série Entre Irmãos
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2639 palavras
Data: 12/01/2026 22:07:46
Última revisão: 12/01/2026 22:17:49

Rafael viu tudo.

Não de um ponto fixo, nem de um lugar óbvio, ele nunca observava assim. Viu em movimento, circulando pela casa como quem não procura nada, mas registra tudo, somando gestos pequenos demais para quem não prestava atenção.

Me viu rir com Lucas, aquele riso que não pedia permissão. Viu o corpo de Heitor endurecer aos poucos, o maxilar travar, a música perder importância, seu olhar atravessando a sala como lâmina. Me viu desaparecer sem alarde para dentro da casa, mas em colapso. Viu Heitor ir atrás de mim.

E viu o que não precisou ver: a ausência prolongada, o quarto fechado, a festa continuando sem nós. O tempo passando.

Quando a festa acabou, já tarde, de madrugada, Rafael estava sentado na beira da piscina, os pés dentro da água fria, fingindo distração, quando viu Heitor descendo as escadas comigo perto demais do peito, perto demais do que não se mostra em público.

Ele ouviu o barulho do portão. Viu Heitor sair comigo quase sustentado, o braço firme em torno dos meus ombros, o cuidado ostensivo demais para ser casual. Saindo juntos. Indo embora.

Era sempre assim. Apesar de tudo, apesar do jogo inteiro, eu sempre voltava para Heitor, Rafael constatou. Aquilo doeu de um jeito feio, infantil, quase humilhante. Não era só desejo. Era a confirmação de uma hierarquia que Rafael odiava desde sempre. Primeiro, virou um silêncio espesso dentro de Rafael. Depois, inveja. E, por fim, algo mais maldoso: a necessidade de destruir (se ele não pode ter, ninguém mais pode).

Dois dias depois, ele escolheu o momento certo. Heitor estava sozinho na garagem, mexendo no carro velho do pai. Aquele ritual silencioso que ele repetia sempre que precisava pensar. A casa estava vazia, a tarde morna, o cheiro de óleo e ferrugem no ar.

— Bonita festa — disse Rafael, encostando no batente, casual demais.

Heitor nem levantou a cabeça.

— O que você quer?

Rafael sorriu de canto. Um sorriso sem humor.

— Nada. Só conversar — fez uma pausa curta — Sobre o Mateus.

A chave inglesa parou no ar. Heitor se virou devagar, o olhar já armado.

— Não fala dele.

Rafael se aproximou um passo.

— Difícil — respondeu Rafael — Ele anda… em todo lugar.

Silêncio. Heitor respirou fundo.

— Você não tem nada a ver com isso.

— Tenho mais do que você imagina. Engraçado, do jeito que você fala… parece achar que é dono dele.

A frase caiu como uma lâmina mal colocada. Heitor deu um passo à frente.

— O que você tá insinuando? – perguntou Heitor, cada palavra contida à força – Fala logo o que você quer dizer.

Rafael se aproximou também, encurtando o espaço entre eles de propósito. Heitor era mais alto, mas Rafael era mais forte. Ele falava baixo, preciso.

— Que você não é o único – Rafael respirou fundo, não por nervosismo, mas por prazer antecipado – Você sabe que ele não é exatamente... exclusivo, né?

O impacto foi imediato. Não uma explosão, um choque seco.

— Cala a boca.

— Não vou — Rafael sustentou o olhar — Você acha mesmo que ele só some pra ficar com você? Que aquele jeitinho de menino perdido é exclusividade sua?

Heitor empurrou Rafael contra a bancada com força suficiente para fazer as ferramentas chacoalharem e caírem, metal contra chão, barulho seco retinindo.

— Você não sabe do que tá falando.

Rafael riu, mesmo sentindo o impacto. Um riso curto, ferido.

— Sei sim – provocou, erguendo-se devagar – Sei como ele olha. Sei como provoca. Sei como finge que não sabe o efeito que causa na gente e te põe doido. E ele anda bastante... confortável comigo.

Heitor deu um passo à frente. Agora estavam próximos demais de novo.

— Você está mentindo.

— Estou nada — respondeu Rafael, num fio de crueldade calculada — Digamos que o Mateus não gosta de escolher só um lado.

Heitor o segurou pela gola da camiseta.

— Se você encostou nele...

— Eu fiz bem mais do que só encostar.

A palavra saiu limpa. Cruel. O soco veio antes do pensamento. Não foi forte o suficiente para derrubar Rafael, mas suficiente para cortar o lábio. O gosto de sangue só fez o sorriso voltar, agora torto.

— Olha só — disse Rafael, limpando a boca com o dorso da mão — É assim que você reage quando descobre que perdeu o controle? Era isso que eu queria ver. Você perde o controle tão fácil…

Heitor avançou de novo. Os dois se embolaram, tropeçando entre o carro e a parede. Não era uma briga bonita, era suja, desajeitada, cheia de coisas antigas demais para caber ali. Cotovelos, empurrões, respirações curtas.

— Fica longe dele – ameaçou Heitor.

— Não posso — respondeu Rafael, firme agora — Ele não quer que eu fique.

A frase foi mais um estopim. Os dois se chocaram de novo, corpos duros, irmãos como estranhos. Não havia técnica, só raiva acumulada, anos de desdém, exclusão, ciúme antigo. Não tinha ninguém ali para apartar. Era cru.

— Você sempre quis o que era meu — rosnou Heitor.

Rafael riu, sem fôlego.

— Não. Eu só tô de saco cheio de viver das suas sobras.

— Você está fazendo isso só pra me atingir! — gritou Heitor.

— Claro que estou — Rafael devolveu, sem negar — Pela primeira vez, eu tenho algo que você não controla.

Heitor congelou por um segundo, respirando pesado, os olhos queimando como gelo. Foi o suficiente para Rafael se soltar.

— Ele não é um prêmio, Heitor — Rafael ajeitou a camiseta, os olhos escuros brilhando de algo perigoso — Mas também não é seu.

— Você tá usando ele — disse Heitor, a voz agora baixa, ameaçadora.

— E você não? — Rafael inclinou a cabeça — Pelo menos eu não finjo que é amor.

Aquilo acertou onde não devia. Heitor ficou parado, o peito subindo e descendo rápido demais. Rafael deu um passo para trás, já se afastando. Heitor ainda estava com o corpo tenso quando Rafael falou de novo. Não houve pressa. Ele sabia que já tinha ganhado a discussão.

— Você fica bonito quando finge que é o único que sofre — disse Rafael, a voz baixa, quase íntima — Parece até que tá protegendo alguém.

Heitor apertou os punhos.

— Você não sabe nada do que eu sinto por ele.

Rafael inclinou a cabeça, avaliando.

— Sei o suficiente pra saber que não é tão nobre quanto você conta pra si mesmo.

Heitor deu uma risada seca, incrédula.

— Você acha que isso é um jogo pra mim?

— Acho — respondeu Rafael, sem hesitar — Um jogo confortável. Do jeito que você gosta.

Silêncio.

— Você chega, encanta, envolve — continuou Rafael — Ensina a tocar, leva pra passear, protege quando convém… e depois esconde. Porque é só isso que você oferece pra ele: um lugar à sombra.

Heitor se virou de repente.

— Eu nunca escondi ele.

Rafael sorriu, cruel.

— Não? Então apresenta. Assume. Conta pra Júlia. Conta pro Miguel. Conta pra mãe. Conta pros pais dele. Conta pra cidade toda que você tá namorando um adolescente — deu um passo à frente — Ou prefere continuar fingindo que isso é só um “momento complicado”?

A palavra ficou no ar. Heitor passou a mão pelo rosto, nervoso.

— Eu sei que ele é novo — disse, mais baixo — Eu não quero...

— Machucar? — Rafael interrompeu — Ou perder o controle da situação?

Heitor levantou o olhar, furioso.

— Você tá distorcendo tudo.

— Não. Só tô simplificando pra você — Rafael cruzou os braços — Me diz uma coisa, Heitor. Que futuro você oferece pra ele?

Heitor abriu a boca. Nenhuma palavra saiu.

— Um relacionamento? — Rafael continuou — Um plano? Um “vamos ver”? Você vai buscar ele na escola? — fez uma pausa curta — Ou só essa intensidade bonita, escondida, enquanto dura?

Heitor engoliu em seco.

— Você fala como se eu fosse um predador.

— Não — Rafael balançou a cabeça — Você é pior. Você acredita que é a vítima dessa situação.

Aquilo doeu mais do que qualquer soco.

— Você se apaixonou pela inocência dele — disse Rafael — Pela forma como ele te olha como se você fosse um mundo inteiro. Mas não percebe que esse olhar também te dá poder, faz bem pro seu ego, pra sua vaidade — aproximou-se mais um pouco — E você gosta disso.

Heitor desviou o olhar. O silêncio confirmou o que ele não queria admitir.

— Você usa o Mateus pra preencher o seu ego — concluiu Rafael — Eu uso pra me vingar — um sorriso amargo — A diferença é que eu não finjo que é amor puro.

Heitor respirava pesado agora.

— Você só tá tentando me atingir.

— Não — respondeu Rafael — Só tô te tirando do pedestal onde você se colocou sozinho.

Rafael se afastou, já indo embora, mas parou na porta.

— Ele não é uma criança indefesa. O Mateus vê tudo. Muito mais do que você imagina. E você também não é nenhum herói, muito menos a vítima dessa história — olhou por cima do ombro — E quando ele perceber isso… talvez não volte pra você.

Essa foi a frase que mais doeu. Porque, no fundo, Heitor sabia: eu não era mais o mesmo. E talvez, só talvez, Rafael estivesse certo sobre uma coisa. Algo tinha escapado do controle.

— Fica tranquilo — disse Rafael, antes de sair — Se ele tiver que escolher… você vai saber. Todo mundo vai.

A garagem ficou em silêncio. Heitor encostou as mãos no carro do pai, sentindo o frio do metal. Pela primeira vez desde que tudo começara, uma certeza incômoda se impôs: eu não estava apenas no meio. Eu era o centro. E Rafael tinha acabado de virar o jogo.

Heitor não foi atrás de mim imediatamente, no impulso. Precisou de tempo para que a raiva assentasse em algo mais denso, mais perigoso que o impulso: a necessidade de saber. O confronto com Rafael não tinha deixado marcas visíveis, mas tinha aberto uma fenda. E agora tudo o que Heitor via passava por ela.

Nessa noite, Heitor quase não dormiu, ainda carregava o gosto metálico da discussão com Rafael na boca. A imagem voltava sempre do mesmo jeito: eu rindo no meio da sala, o corpo solto demais, o olhar atento demais, a minha importância gravada na memória, dissolvida como música ruim depois da madrugada. O que ficava era a sensação de ter sido observado, desafiado, deslocado do centro.

Rafael também não saía da cabeça de Heitor. Não exatamente pelo que dissera, mas pela precisão cruel com que dissera. Não era culpa, nem remorso. Era algo mais feio: a sensação de ter sido desmascarado.

Na manhã cinzenta seguinte, Heitor foi até a minha escola sem avisar. Esperou. Observou. Me viu sair da aula com uma mochila leve demais para quem carregava tanto por dentro. Eu caminhava rápido, como se sempre estivesse atrasado para alguma coisa invisível.

— Mateus.

Eu me virei. O susto foi mínimo. A tensão, não.

— Heitor.

Não houve abraço. Nem sorriso. Só aquele reconhecimento imediato de que a conversa, enfim, tinha chegado.

— A gente precisa falar — disse Heitor.

Olhei ao redor, avaliando o espaço aberto, os bancos de concreto, o movimento disperso de estudantes.

— Aqui não.

Andamos até um jardim lateral, um trecho esquecido atrás da escola, onde as árvores abafavam o som e o mundo parecia sempre em suspensão. Nos sentamos distantes. A proximidade, agora, era perigosa. Heitor foi direto.

— O Rafael disse que você ficou com ele.

Eu não respondi de imediato. Observei uma folha caída, presa na sola do meu próprio tênis.

— O Rafael diz muitas coisas.

— Eu não estou perguntando sobre ele — a voz de Heitor saiu dura — Estou perguntando sobre você.

Eu ergui o olhar. Sustentei.

— Eu não preciso te contar nada — disse, com calma cansada — Mas não vou mentir.

A frase veio igual a uma sentença já ensaiada.

— Então diz — insistiu Heitor.

Eu respirei fundo. O gesto era pequeno, mas carregava decisão.

— É verdade, eu fiquei com ele.

Heitor sentiu o impacto como um soco seco. Não gritou. Não se moveu. Apenas endureceu.

— Quando?

— Não importa.

— Importa pra mim.

Eu desviei o olhar por um instante, depois voltei.

— Importa se você quiser transformar isso numa guerra — e completei, com firmeza contida — Eu não preciso te contar como foi. Nem quanto durou. Nem o que significou.

O ar pareceu entrar de novo nos pulmões de Heitor, mas durou pouco. Ele passou a mão pelo rosto.

— Então por que me contar?

— Porque eu não quero que você acredite em tudo o que ele fala — uma pausa — E porque mentir faria de mim exatamente aquilo que ele diz que eu sou.

O silêncio se espessou entre nós dois.

— Você sabe o que isso provoca — disse Heitor, com a voz agora rouca — O que provoca em mim. Nele. Na Júlia.

Eu apoiei os cotovelos nos joelhos.

— Sei — olhei para Heitor — E sei também o que provoca em mim quando vocês me disputam e me tratam como se eu fosse apenas posse.

Heitor fechou os olhos por um instante.

— Você deixou que ele acreditasse que podia continuar.

— Sim – assenti.

— Por quê?

Eu demorei a responder.

— Porque vocês sempre querem vencer alguma coisa. E eu aprendi cedo que, se não escolho um papel, escolhem por mim. E, nessa história, eu não quero ser somente um prêmio para o vencedor. Eu quero decidir a minha própria vida, fazer as minhas próprias escolhas, acertando ou não, a decisão é minha.

— Você está jogando com todos nós? — Heitor perguntou, ferido.

Eu respirei fundo.

— Não. Eu estou tentando não desaparecer no meio do jogo de vocês.

O silêncio se alongou. Heitor sentiu a raiva retornar, mas agora misturada a algo mais incômodo: culpa.

— O Rafael acha que eu te escondo — disse, enfim — Que eu te uso. Que eu finjo ser melhor do que ele.

Eu inclinei a cabeça, pensativo.

— E você acha que ele está completamente errado?

Heitor abriu a boca. Não respondeu.

— Você nunca me levou pra dentro da sua vida — continuei, sem acusação, apenas constatação — Só pra dentro do seu quarto. Me chama quando ninguém vê. Me quer inteiro, mas só nos intervalos da sua vida.

Meu olhar não era duro. Era triste.

— E eu aceitei – continuei – Porque eu também não posso exigir mais do que isso.

— Mas eu quero te proteger — disse Heitor, quase num pedido de desculpa.

— Eu sei — sorri de leve, sem alegria — Mas querer não é o mesmo que conseguir, Heitor. Nós não somos namorados, a gente nunca falou sobre compromisso, nem nada. Nunca conversamos sobre isso, sempre evitamos qualquer assunto mais profundo sobre nós. Apesar de todo o sentimento que eu tenho por você, e não nego, a gente vem vivendo somente uma aventura escondida, uma paixão física intensa, mas superficial. Você nunca me prometeu nada, então como pode exigir algo de mim em retorno?

Heitor sentiu o chão ceder um pouco.

— Então o que você quer de mim?

Eu demorei.

— Verdade. Mesmo que doa, como estamos fazendo agora — e completei — E que você pare de brigar com os outros por minha causa, como se eu fosse um troféu. Eu não sou.

A frase atingiu em cheio. Heitor entendeu, ali, que não me estava disputando com Rafael. Estava disputando a própria ideia de poder. De fato, eu não era o prêmio da rivalidade entre eles, eu era o espelho dela. E nenhum de nós gostava do que via refletido.

— Eu não sei te oferecer mais do que isso agora — admitiu, derrotado.

Eu assenti, como quem já esperava.

— Eu sei.

Me levantei. Ajustei a mochila no ombro.

— Mas precisava que você soubesse que eu não sou inocente, não sou uma vítima, ninguém me usou — olhei para trás — Só estou cansado de tudo isso. Vocês brigam entre si porque querem vencer uns aos outros. Não porque querem me entender de verdade.

Heitor sentiu algo ceder dentro dele.

— Então por que você volta pra mim? — perguntou, quase num pedido.

Eu demorei a responder.

— Porque você é o único que ainda me olha como pessoa — engoli em seco.

A frase ficou suspensa entre nós dois, insuportável. Eu fui embora. Heitor ficou sentado, sentindo, talvez pela primeira vez, que o desejo não era refúgio, era arena. E que eu, no centro dela, já estava ferido demais.

“Sem promessas, sem exigências, o amor é um campo de batalha.”

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Comentários

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Mateus, e o Miguel?? Vai entrar pra jogar a bomba?

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Oi, Jota! Têm tido comentários insistentes sobre o Miguel, por isso, sem querer dar spoilers sobre a continuação, até pra não gerar uma falsa expectativa, preciso esclarecer que nunca rolou nada com o Miguel. Então ele não vai ter nenhum envolvimento maior na história. Lamento decepcioná-los. Grande abraço e obrigado por acompanhar os contos e sempre participar.

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