Comprei Um Carro E Descobri Que Sou Corno

Um conto erótico de Mais Um Autor
Categoria: Heterossexual
Contém 935 palavras
Data: 11/01/2026 22:07:11

Eu estava afundado na merda financeira, como de costume. Aos 40 anos, preso num emprego pessíssimo que pagava uma miséria, ainda precisava correr atrás de bicos pra não afundar de vez nas contas que chegavam como enxurrada.

Foi o Felipe, meu amigo de faculdade, que veio com a salvação: “Compra um carro usado aqui na concessionária, João. Começa a rodar de Uber. Fiz umas planilhas aqui, olha só, vai resolver sua vida.” Ele mostrou uma apresentação de PowerPoint com gráficos bonitinhos, projeções otimistas, tudo super profissional.

Eu sabia, no fundo, que o filho da puta tava mais interessado em empurrar um estoque encalhado do que em me tirar do buraco, mas os números faziam sentido. Daria pra pagar a prestação do carro, sobraria uma graninha por mês, e eu ainda poderia usar o carro pra levar as crianças na escola, fazer mercado, essas coisas.

Senti um aperto no peito de pura vergonha quando entrei na concessionária. A gente havia estudado administração juntos, morado na mesma república, conquistado o diploma na mesma colação de grau. Hoje ele era o dono de um negócio próprio e eu fazia conta de quantos pães eu conseguia comprar na padaria antes do meu cartão de crédito estourar. Naquele momento achei que tinha batido no fundo do poço. Mal sabia que o poço era milhares de quilômetros mais fundo.

Os primeiros dias do Uber foram um inferno. Oito horas no meu trampo CLT, almoçando sanduíche frio na frente do computador, depois mais cinco, seis horas dirigindo pela cidade, ouvindo passageiro reclamar de trânsito, ser mal-educado, batendo a porta do meu carro. Quando chegava em casa, as costas pareciam ter sido moídas numa britadeira. Mas bastava abrir a porta e ver o rostinho das crianças correndo pra me abraçar, ou a Letícia sorrindo daquele jeito calmo, de quem segura a barra toda, que a dor amenizava.

A gente tinha nosso ritual sagrado. Depois do jantar em família, onde eu perguntava pros meninos sobre a escola, ouvia minha esposa contar do dia dela e fingia que a vida era só aquela sala, a gente se jogava no sofá. Eu deitava atrás da minha esposa, fazendo a conchinha perfeita, minha mão coçando as costas dela devagarinho, fazendo cafuné no cabelo enquanto ela suspirava e dizia, voz baixa: “Você é o melhor pai do mundo, amor. O melhor marido. A gente tem tanta sorte de ter você.” Aquilo me enchia o peito de um calor idiota, quase infantil. Fazia todo o sacrifício parecer valer a pena. Eu acreditava nela. Acreditava pra caralho. A gente só entende as coisas quando já é tarde demais.

Era uma segunda-feira. Peguei o primeiro passageiro do dia, um moleque que não devia ter nem metade da minha idade, com uma camiseta de marca que provavelmente custava mais do que eu ia faturar na semana inteira rodando feito um condenado. Nem bom dia deu, só entrou e bateu a porta com força.

Beleza. Esse é o trabalho. Engoli seco e segui.

Cinco minutos depois, paramos no farol. De repente, o Bluetooth do carro conectou sozinho num dispositivo por perto. Fiquei olhando aquilo como idiota, sem entender porra nenhuma. Pelo retrovisor, vi que o garoto também franzia a testa, tipo "que caralho é isso agora?".

Aí veio a voz. Alta, clara, inconfundível.

“Pode vir, amor... o corno já saiu daqui. Tô com a pepeca raspadinha do jeito que você gosta. Vem logo que eu tô louca pra te sentir dentro de mim.”

Silêncio mortal no carro. O moleque arregalou os olhos, boca aberta.

Ela insistiu: “Alô? Alô? Alô?” E desligou, achando que a ligação tinha caído.

O passageiro explodiu numa gargalhada.

“Puta merda! Ainda bem que não sou eu o corno dessa piranha! Que safada do caralho, hein?”

Pisei no freio com tudo. Carros começaram a buzinar ao meu redor, pneus cantando, gente me xingando. Mas eu nem me importei, o sangue subiu tão rápido que minha visão embaçou.

“Sai do carro.”

“Quê?”

“Sai. Do. Carro. Agora.”

Ele parou de rir na hora, confuso pra cacete. “Peraí, mano, o que eu fiz? Eu só—”

“Sai antes que eu te arraste pela janela.”

Ele resmungou algo sobre dar uma estrela e que eu era lunático, mas desceu. Ele espancou a porta do meu carro, meti o pé e saí dali queimando pneu.

Claro que o coitado não tinha culpa. Como ele ia saber que a voz misteriosa vindo do meu rádio era da minha mulher? Mas na hora a raiva era um bicho solto dentro de mim, e ele era a pessoa mais próxima.

Dirigi pra casa com a cabeça a mil. Tentava racionalizar: devia ser o antigo dono do carro, o celular dele ainda estava pareado no Bluetooth. Era uma coincidência do caralho — o amante da minha esposa marcando de foder na minha casa exatamente quando eu estava parado no mesmo farol que ele. O universo tem um senso de humor sádico da porra.

Estacionei o carro, longe da minha casa, mas num lugar que eu ainda conseguia ver o portão. Sentia a minha garganta fechar, mas ainda tinha uma pontada de uma esperança idiota. Talvez tudo aquilo não passava de uma paranóia minha, eu estava louco de tanto trabalhar e aquela não era a voz da minha esposa.

Só que não demorou nem dez minutos para essa esperança morrer. Vi o cara chegando a pé pela calçada, discreto, olhando pros lados. Entrou sem nem tocar a campainha.

Não conseguia acreditar em quem era. Naquele instante, eu soube que minha vida inteira tinha virado uma grande e amarga piada.

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Comentários

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Boa autor

Eu vi o segundo capítulo.

Eata bom demais a narração do marido .

Vc consegue me mandar um pix e eu faco o pagamento e vc me manda pelo emeil ?

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No hotmart tem pagamento por pix!

Mas pode mandar msg no X ou no reddit que eu te mando tbm!

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