Primo, eu ainda te amo! | Capítulo 09: Até que a morte os separe?

Um conto erótico de Th1ago-
Categoria: Gay
Contém 3238 palavras
Data: 10/01/2026 15:39:42

A semana tinha passado rápido.

Rápido demais até, as obras da casa finalmente tinham acabado, os quartos estavam prontos, pintados, cheirando a tinta nova e promessa de recomeço. Já fazia dias que eu poderia ter saído do quarto do Caíque. Mas não saí.

Eu já estava com uma pilha de roupas no braço quando me dei conta do que estava fazendo. Meus olhos ardiam, meu fone de ouvido tocava a música "Duas metades" do Jorge e Matheus, o que não ajudava, pois além de sentir a letra, me lembrava da casa dos meus pais, da minha roça, do meu interior.

Mas eu precisava sair do quarto de Caíque o quanto antes, até porque era fácil ficar, era confortável.

Porque dormir com ele tinha virado hábito, e hábito vira abrigo antes da gente perceber.

Era bom demais dividir a cama, dividir o silêncio, dividir o escuro. O jeito que ele se aproximava quando dormia, como se o corpo dele me procurasse mesmo inconsciente. O calor. A respiração. A sensação de não estar sozinho.

Mas agora… agora eu não sabia mais.

Depois do que eu vi na escola, alguma coisa tinha rachado dentro de mim. Não foi um estalo. Foi mais como uma infiltração lenta, silenciosa, que vai molhando tudo por dentro até não dar mais pra fingir que tá seco.

Como alguém pode segurar minha mão dentro do carro e dizer “o que temos”…

e minutos depois deixar outra pessoa segurar o rosto dele daquele jeito?

Eu não queria drama. Não queria confronto. Só não queria me machucar, então eu comecei a tirar minhas coisas do quarto dele assim que cheguei em casa.

Caminhei até o quarto novo, bem em frente ao dele. A porta ficava exatamente de frente para a porta do quarto do Caíque. Uma ironia meio cruel. Como se a casa estivesse me lembrando que a distância entre a gente agora era só um corredor… mas parecia quilômetros.

Coloquei as roupas em cima da cama, abri o armário ainda vazio. O YouTube music entendia que eu estava sofrendo com toda certeza e só colocava músicas tristes na minha sequência.

Dobrei camisetas ao som de Marília Mendonça que dizia que por ironia do destino dizia que "Traição não tem perdão".

Tudo era muito mecânico. Eu não queria estar saindo do quarto de Caíque, mas precisava e quando percebi, já estava ajeitando o armário, empurrando as roupas pra ficar tudo alinhado, como se ordem externa pudesse resolver o caos aqui dentro.

Foi aí que senti.

Algo quente e molhado escorreu pelo meu rosto. Não foi um soluço, não foi desespero. Foi só… uma lágrima. Silenciosa. Teimosa. Como se meu corpo tivesse decidido chorar sem me avisar.

Passei a mão rápido no rosto, mas outra veio. E outra.

Sentei na beira da cama.

Fiquei encarando as roupas dentro do armário, pensando em como, até pouco tempo atrás, elas estavam no quarto dele. Pensando em como eu tinha achado que aquele lugar também era meu. Pensando em como tudo ficou confuso rápido demais.

O celular vibrou na minha mão e quando olhei era minha mãe. Já fazia alguns dias que não falava com meus pais.

Respirei fundo, enxuguei o rosto do jeito que deu e atendi.

— Oi, mãe.

— Oi, meu amor. — a voz dela veio suave, cuidadosa. — A gente tava pensando em você. Como você tá?

Engoli seco.

— Tô bem… — menti mal.

— Tá mesmo? — meu pai entrou na ligação. — Sua voz tá estranha.

Me levantei da cama e comecei a andar pelo quarto, sem saber onde colocar o corpo.

— É só cansaço.

— A gente estava conversando hoje aqui… — minha mãe disse, com aquele tom de quem tenta parecer casual. — Seu aniversário tá chegando, né? XVI anos…

XVI.

A palavra pesou.

— É… — respondi. — Daqui a pouco.

— Tá ansioso? — ela perguntou. — Nervoso?

Olhei em volta o quarto novo, as caixas vazias, as roupas que ainda não pareciam minhas ali.

— Não sei… acho que sim. Um pouco.

— E aí? — meu pai perguntou. — Como estão as coisas aí na casa do seu tio? Você parece… diferente.

Fechei os olhos por um segundo.

— Tá tudo bem. De verdade. — falei, escolhendo cada palavra. — Eu só… tô passando por umas coisas. Normais.

— Você sabe que pode falar com a gente, né? — minha mãe disse. — Sempre.

— Eu sei.

E sabia mesmo. Mas não era uma conversa pra agora. Não pelo telefone. Não com tudo ainda bagunçado dentro de mim.

— A gente tava pensando que no fim de semana do seu aniversário você podia vir pra cá, matar a saudade — disse ela empolgada — traz seu primo, uns amigos da escola. O que acha?

Meu coração apertou.

— Eu ia gostar.

— Então combinado. — meu pai disse ao lado dela. — Se cuida, filho.

— Me cuido.

Desliguei.

Fiquei parado no meio do quarto, ouvindo a música tocar ao fundo, sem realmente escutar. Olhei para a porta, e lá do outro lado do corredor estava o quarto do Caíque.

Eu não sabia se aquilo era um fim, um começo ou só uma pausa dolorida, eu só sabia que, naquele momento, ficar ali… doía menos do que fingir que nada tinha mudado.

E às vezes, proteger o próprio coração é o único jeito de continuar respirando.

Eu devo ter apagado em algum momento.

Lembro de deitar na cama nova com a música ainda tocando baixo, o celular largado ao meu lado, a cabeça pesada demais pra continuar pensando. O cansaço venceu antes que eu pudesse decidir qualquer coisa. Dormi vestido mesmo, de lado, abraçando um travesseiro que ainda não tinha cheiro nenhum.

Acordei com um barulho seco.

O rangido do armário.

Abri os olhos devagar, ainda meio confuso, tentando entender onde eu estava. A luz do quarto estava acesa. O coração acelerou quando reconheci a silhueta.

Caíque.

Ele estava de costas pra mim, a porta do armário aberta, puxando minhas roupas de dentro como se fossem dele. Minhas camisetas, minhas calças, sendo empilhadas sem cuidado.

Demorei alguns segundos pra conseguir falar.

— O que você tá fazendo aqui? — minha voz saiu rouca, confusa. — Eu… eu não tô entendendo.

Ele virou na mesma hora. O olhar estava duro, diferente do sorriso fácil de sempre.

— Você acha mesmo que pode simplesmente sair do meu quarto e vir pra cá como se nada tivesse acontecido? — disse, segurando um monte de roupas no braço. — A gente ficou esses dias todos juntos, Alec. A gente… a gente tem que ficar juntos.

Aquilo bateu errado dentro de mim.

Levantei num pulo, o sangue subindo rápido demais. Fui até ele e segurei as roupas junto com a mão dele, impedindo que continuasse.

— Com que direito você acha que pode fazer isso? — falei, sentindo a raiva misturada com dor. — No mesmo direito que você teve de beijar aquela garota na escola?

Ele travou.

Literalmente.

Ficou parado, olhando pra mim, como se não tivesse entendido.

— Do que você tá falando?

— Você acha que eu não vi? — minha voz falhou um pouco, mas continuei. — Na saída. Ela chegou correndo, te agarrou, segurou teu rosto e te beijou. A Bia. Você não fez nada.

Caíque largou as roupas na cama. Veio um passo mais perto, os olhos fixos nos meus.

— Tem certeza de que eu não fiz nada?

Engoli seco.

A pergunta me desmontou mais do que qualquer defesa.

— Eu… — fiquei encarando ele, sem saber o que responder.

Foi aí que ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto, claramente tentando se controlar.

— Alec, a gente não vive num filme. Nem num livro. — a voz dele saiu mais baixa, mais séria. — Você não pode ver metade de uma cena e ir embora achando que sabe tudo.

Ele se aproximou mais um pouco, mas sem me tocar.

— Eu quero ser alguém confiável pra você. Quero ser seu porto seguro. Quero que, quando alguma coisa acontecer, você venha até mim e pergunte. Não vá embora sozinho com isso.

Meu peito começou a apertar.

— Ela me agarrou, sim. Ela me beijou, sim. — ele continuou, firme. — Mas assim que eu entendi o que tava acontecendo, eu afastei ela. Porque eu não queria. Quando aquilo aconteceu, a única pessoa que eu pensei foi você.

Senti os olhos arderem.

— E eu pensei que não queria que você visse. — ele completou. — Não porque eu tivesse culpa, mas porque eu não queria te magoar.

As lágrimas começaram a se formar sem pedir licença. Pisquei rápido, tentando segurar, mas uma escorreu mesmo assim.

Caíque percebeu.

O rosto dele mudou. Ficou mais vulnerável.

— Isso também tá sendo difícil pra mim. — ele disse, agora mais baixo. — Tá estranho. Confuso. Eu nunca senti isso antes por nenhum cara. Nunca. Mas com você… é diferente. Tudo é diferente. Eu tô gostando de você, Alec. E eu não sei o que fazer com isso.

Ele respirou fundo outra vez, os ombros tensos.

— Então me diz. — ele falou, olhando direto nos meus olhos. — O que você quer que eu faça? Quer que eu saia gritando pra todo mundo que eu gosto de você? Que eu quero estar com você? Que você é a pessoa com quem eu quero dormir toda noite?

Meu coração batia tão forte que parecia doer.

— Porque eu não sei. — ele confessou. — Eu tô confuso. Eu tô aprendendo agora. Mas eu tô aqui. Não tô brincando com você.

As lágrimas finalmente caíram de vez.

E naquele momento, tudo o que eu mais queria não era resposta nenhuma, era só acreditar que aquilo era real.

Eu respirei fundo antes de conseguir falar. Meu peito doía como se eu tivesse corrido quilômetros sem parar. As palavras estavam todas ali, emboladas, machucando por dentro, mas eu sabia que, se não dissesse agora, ia acabar me quebrando em silêncio.

— Caíque… — minha voz saiu fraca. — Sabe a verdade do porquê eu saí do quarto?

Ele ficou parado, com uma blusa minha ainda nas mãos. Assentiu devagar, esperando.

— Eu fiquei muito cansado hoje à tarde. Muito. — engoli seco. — Cheguei a chorar. Fiquei andando pela casa, pensando, pensando… peneirando tudo dentro da minha cabeça até não sobrar quase nada que não doesse.

Ele franziu a testa, os olhos já brilhando.

— E no meio disso tudo… eu entendi o que tá acontecendo com a gente.

Dei dois passos pra trás e sentei na cama, sentindo o colchão afundar como se me puxasse junto.

— A gente não pode ficar juntos, Caíque. Não de verdade. A gente não vai poder. — minha voz falhou. — Ninguém nunca ia aceitar isso. Nossa família não ia aceitar. Ia dar problema. Muito problema.

Ele abriu a boca pra falar, mas eu levantei a mão, pedindo um segundo.

— E isso me dói. Dói muito. Porque eu não quero ser a pessoa que fica com você só à noite. — senti as lágrimas queimarem. — Eu não quero você só pra dormir comigo e, quando amanhecer, fingir que nada tá acontecendo. Fingir que você é só meu primo. Fingir que eu não quero segurar sua mão.

Minha voz começou a tremer de vez.

— Eu não quero te querer só no escuro. Eu não quero te amar escondido. Não quero ter que desviar o olhar quando você chega perto. Não poder te abraçar. Não poder andar do seu lado. Isso… isso me mata por dentro.

O silêncio que veio depois foi pesado. Denso. Eu ouvi o barulho da respiração dele mudar. Quando levantei o rosto, vi as lágrimas escorrendo sem que ele tentasse esconder.

— Você acha que isso não dói pra mim também? — ele falou, a voz embargada. — Você acha que eu não tô sentindo tudo isso?

Ele largou as roupas no chão e passou as mãos pelo cabelo, andando de um lado pro outro.

— Eu nunca me senti assim por ninguém. Nunca. — ele disse, quase num desabafo desesperado. — Nunca foi assim com menina nenhuma. Nunca foi confuso desse jeito. Nunca foi intenso desse jeito.

Ele parou na minha frente.

— E aí você chega… e bagunça tudo. — deu um riso sem humor. — E agora eu tenho que fingir que você é só alguém que divide o teto comigo? Que eu não penso em você o tempo todo?

As lágrimas dele caíam livres agora.

— Eu também não quero você só à noite, Alec. — ele disse. — Eu não quero te tocar escondido, não quero te proteger só quando ninguém tá olhando. Mas eu também não sei como enfrentar o mundo inteiro.

Eu levantei devagar e fiquei na frente dele. Tão perto que dava pra sentir o calor do corpo dele.

— Então por que dói tanto? — perguntei num sussurro. — Se não fosse importante, não doía assim.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse tentando se manter inteiro.

— Porque eu tô com medo. — ele confessou. — Medo de te perder se eu fizer errado. Medo de te machucar se eu fizer certo demais. Medo de não ser forte o suficiente pra bancar isso.

Eu senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto e não tentei limpar.

— Eu só não quero ser um segredo que te machuca. — falei. — Eu não quero acordar todo dia com medo de alguém descobrir e te arrancar de mim. Eu não sei se eu aguento isso.

Ele respirava rápido, como se estivesse prestes a quebrar.

— Então o que você quer que eu faça? — ele perguntou, a voz quase implorando. — Me diz, Alec. Porque eu tô perdido.

Eu olhei pra ele por alguns segundos longos demais.

— Eu quero que você fique. — respondi. — Mas fique sabendo exatamente o que isso significa. Sem mentiras. Sem fingir que é simples. Sem prometer o que não dá pra cumprir.

Ele assentiu devagar.

— Eu não sei se isso vai durar. — completei. — Mas eu sei que o que a gente sente é real. E isso… isso eu não quero negar.

Ele se aproximou e me abraçou forte. Forte como se tivesse medo de me perder naquele instante. Eu afundei o rosto no ombro dele e chorei em silêncio, sentindo as mãos dele nas minhas costas, firmes, presentes.

Nenhum beijo. Nenhuma promessa grandiosa.

Só dois corações batendo rápido demais, tentando entender como amar sem se perder.

E, pela primeira vez desde que eu tinha saído daquele quarto, eu não me senti sozinho.

Eu ainda estava abraçado a ele quando senti o corpo do Caíque relaxar um pouco. O choro dele diminuiu, mas os braços continuaram firmes em volta de mim, como se soltar fosse perigoso demais. O rosto dele ficou apoiado no meu ombro, a respiração quente atravessando a camisa, e eu passei a mão pelas costas dele sem pensar, só sentindo.

Foi então que ele falou, baixo, quase como se tivesse medo de ouvir a própria voz.

— Volta pra mim… só mais essa noite.

Eu senti meu peito apertar.

Ele ergueu o rosto devagar, os olhos vermelhos, molhados, me encarando como se eu fosse a única coisa estável naquele quarto.

— Não vai embora agora. — a voz dele falhou. — Amanhã a gente resolve. Amanhã a gente pensa no que fazer, no que é certo, no que dá ou não dá. Mas hoje… — ele respirou fundo. — Hoje não me deixa dormir longe de você pela primeira vez desde que você chegou aqui.

As palavras dele me atravessaram inteiro.

Eu olhei nos olhos dele. De verdade. Vi medo, confusão, carinho, uma entrega que não pedia promessas, só presença. E naquele instante eu entendi que fugir também era uma forma de machucar.

— Só essa noite — repeti, mais pra mim do que pra ele.

Ele assentiu rápido, como se tivesse medo de eu mudar de ideia.

Eu me rendi.

Levei a mão até o rosto dele, sentindo a pele quente, ainda úmida pelas lágrimas. Passei o polegar devagar abaixo do olho dele, limpando o rastro que tinha ficado.

— A gente resolve amanhã — falei baixo. — Mas agora… fica comigo.

Ele não respondeu com palavras.

Caíque se aproximou devagar, como se me desse tempo de recuar. Mas eu não recuei. Quando os lábios dele tocaram os meus, foi diferente de antes. Não foi leve. Não foi só carinho. Foi necessidade.

Eu correspondi.

O beijo começou contido, quase inseguro, mas logo ganhou corpo. O coração batia tão alto que eu achei que ele fosse ouvir. As mãos dele subiram pelas minhas costas, me puxando pra mais perto, e eu senti aquele beijo como se fosse um pedido silencioso pra não soltar.

Quando nos separamos, foi por falta de ar.

E foi nesse exato segundo que eu ouvi.

O som da maçaneta girando.

A porta abrindo.

Meu corpo inteiro gelou.

Caíque se afastou num susto, e eu virei o rosto no mesmo instante, como se o movimento pudesse apagar o que tinha acabado de acontecer.

A porta se abriu por completo.

Meu tio apareceu no vão, com a expressão séria, o olhar passando rápido pelo quarto, pelas roupas fora do lugar, por nós dois parados próximos demais.

— Então, meninos… — ele disse, a voz firme demais para aquele horário. — Tá tudo bem por aqui?

O silêncio caiu como um peso.

E eu soube, naquele instante, que nada mais seria simples dali pra frente.

A voz dele nunca saiu de mim.

Às vezes eu posso estar distraído, fingindo que o passado ficou onde devia ficar, mas basta um segundo de silêncio errado para aquela entonação voltar inteira. Grave. Controlada. A mesma voz que atravessou o quarto naquela noite.

— Então, meninos… tá tudo bem por aqui?

Eu sinto o arrepio antes mesmo de perceber onde estou. O estômago contrai, a nuca esquenta, o peito aperta como se alguém tivesse fechado uma porta por dentro. Meu corpo reage antes da minha cabeça.

E quando eu dou por mim, já não estou mais ali.

Estou aqui.

Os bancos da igreja são duros. A madeira polida reflete a luz quente dos vitrais. O cheiro de flores brancas é forte demais, quase sufocante. Alguém soluça duas fileiras à frente. O padre ajeita o microfone, pigarreia, abre o livro.

Eu sei exatamente o que vem a seguir.

— Caíque — a voz ecoa pelo salão — você aceita Bianca como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, todos os dias da sua vida?

Meu coração dispara como se a pergunta fosse pra mim.

Caíque está lá na frente. Bonito demais. O terno claro cai perfeitamente sobre o corpo que eu conheço de olhos fechados. O cabelo arrumado, o mesmo sorriso contido que ele sempre teve quando estava nervoso. Ele respira fundo.

E então diz:

— Aceito.

A palavra atravessa o ar como um estalo seco.

Meu peito afunda.

O som das palmas começa devagar, cresce, se espalha pela igreja inteira, mas pra mim tudo fica distante, como se eu estivesse debaixo d’água. O mundo continua acontecendo e eu fico parado no mesmo lugar, congelado naquela única sílaba.

Aceito.

Eu sinto alguém se aproximar. Não preciso olhar para saber quem é. Reconheceria aquele passo em qualquer lugar.

Meu tio se inclina devagar, o corpo próximo demais, a voz baixa, só pra mim.

— Você sabe que era pra ser você ali.

Meu corpo inteiro endurece.

— A única pessoa que faria o meu filho feliz é você — ele continua, sem desviar os olhos do altar. — E eu não sei… eu realmente não sei por que não é você ali agora.

Eu viro o rosto devagar, encontrando o perfil dele. Os olhos marejados, a expressão carregada de coisas que nunca foram ditas no tempo certo.

Não consigo responder.

Uma lágrima escapa antes que eu possa impedir. Ela desce quente, lenta, bem no meio daquele casamento perfeito, daquele momento que deveria ser só alegria.

Ninguém percebe.

Ninguém olha pra mim.

E talvez isso seja o que mais doa.

Porque enquanto eles celebram o amor que deu certo, eu continuo preso naquele que nunca pôde existir.

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 17 estrelas.
Incentive Th1ago a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Foto de perfil genérica

Será que estou meio confuso ou alguém mais, quero entender o tempo de como evoluiu até chegar no altar, o pai soube e aceitou depois do flagrante no quarto, teve sexo como foi, explica melhor por favor.

0 0
Foto de perfil genérica

Já sabíamos que isto ia acontecer desde o primeiro capítulo.

Mas outra vez, mais uma anacronia, agora da elipse. Eram dois jovens adolescentes apanhados meio em flagrante pelo pai e agora já estão no casamento ocorrido anos depois.

Acho que o autor tem um deslumbramento por estas artimanhas narrativas mas, tenho sérias dúvidas de que elas resultem numa mais valia literária pois geram uma descontinuidade temporal que, embora prendam a curiosidade do leitor, comprometem seriamente a sequência fatual e a compreensão da lógica emocional do enredo.

Enfim...

A continuação do Santo Evangelho, segundo São Mateus, é para ser ouvida nas missas dominicais enquanto pensamos em tudo, menos naquilo que o padre está dizendo.

A missa torna-se chata e demorada e só queremos mesmo é que acabe depressa. O mais rápido possível.

0 0
Foto de perfil genérica

Curioso pra saber o que levou Caíque até esse altar. Ainda não entendi.

0 0
Foto de perfil genérica

Não estou gostando desta forma que vc está colocando. Este salto no tempo. Sei que está colocando como sendo memórias vindo durante o casamento. Mas está se tornando muito enrolado, um chove e N molha. Criando 2 expectativas, primeiro para saber toda a istoria dos dois e segundo pra saber se será feito alguma coisa para os dois ficarem juntos.

0 0
Foto de perfil de Jota_

Uau! Que águas rolaram por baixo dessa ponte?? Curioso demais!

0 0
Foto de perfil genérica

NEM DÁ. CADÊ TODO AMOR QUE CAIQUE TE PROMETEU? ATÉ SEU TIO ENTENDEU E ACEITOU, MAS QUEM SAIU VITORIOSOS FORAM CAIQUE E BIANCA. LAMENTÁVEL. LAMENTÁVEL. MAIS UMA HISTÓRIA DE AMOR FRUSTRADO. LAMENTÁVEL. SÓ FALTA CAIQUE FICAR COM OS DOIS. RSSSSSSSSSSSSSSS TERIA A ESPOSA BIANCA E VOCÊ. E TENHO QUASE CERTEZA QUE VOCÊ ACEITARIA ISSO. RSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

0 0