Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer Capítulo 4 — Suor na Pele, Fome no Olhar!

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 4273 palavras
Data: 09/01/2026 00:09:09

Depois de tudo o que aconteceu, eu precisei de silêncio.

Não aquele silêncio vazio, mas o tipo de silêncio que organiza. Passei boa parte do dia sentado à mesa da sala, provas espalhadas, caneta na mão, tentando ser responsável. Corrigi uma por uma, com atenção, mas meu corpo não estava totalmente ali. Ele ainda carregava resquícios da noite anterior: olhares que demoraram demais, proximidades que não eram inocentes, aquela sensação incômoda — e deliciosa — de que algo tinha ficado em aberto.

Eu estava de bermuda sem camisa. Simples. Em casa, sempre fico assim. Em algum momento, me dei conta de que estava me mexendo demais na cadeira, cruzando e descruzando as pernas, como se o corpo estivesse pedindo outra coisa além de papel e correção.

Duas horas depois, larguei tudo.

— Chega por hoje — murmurei pra mim mesmo.

Olhei o relógio. Final da tarde. O sol ainda quente, daquele jeito que gruda na pele. Meu corpo pedia movimento, suor, descarga. Correr sempre foi meu jeito de organizar pensamentos e gastar excesso de energia — de qualquer tipo.

Troquei de roupa com calma: short de corrida, tênis, camiseta leve. Prendi o celular no braço e saí.

O bairro estava tranquilo, pois era final de semana. Árvores altas, poucas pessoas na rua. Comecei devagar, sentindo o impacto dos pés no chão, a respiração entrando no ritmo. Em poucos minutos, o suor já escorria pela testa, pelo pescoço, pelas costas. A camiseta começou a colar no corpo, desenhando tudo sem pedir licença.

O celular vibrou.

Diminuí o ritmo e olhei.

Yan.

— O que você tá aprontando?

Sorri sozinho enquanto digitava, ainda ofegante.

— Tentando não surtar.

— Corrigi prova a tarde inteira. Agora tô correndo.

A resposta veio rápida demais pra ser casual.

— Correndo…

— Isso explica muita coisa.

Voltei a correr, sentindo o calor aumentar, o corpo mais vivo a cada passo.

— Explica o quê? — respondi.

Alguns segundos depois:

— Explica por que minha cabeça acabou de ir pra um lugar bem específico.

Soltei uma risada baixa. O suor escorria pelo peito, e eu sabia exatamente o que ele estava imaginando. Parei perto de uma árvore, inclinei um pouco o corpo pra frente, mãos nos joelhos. Respiração pesada. O coração batendo forte.

Abri a câmera do celular.

Tirei uma primeira foto: eu ainda de camiseta, rosto suado, expressão cansada. Olhei. Sem graça.

— Não — falei sozinho.

Apaguei.

Sem pensar muito, puxei a camiseta pela barra e tirei de uma vez. O ar bateu direto na pele quente. Meu peito subia e descia devagar, o abdômen marcado pelo esforço, suor escorrendo sem pudor nenhum. Joguei a camiseta no ombro e tirei outra foto, mais baixa, pegando o tronco inteiro.

Essa eu encarei por alguns segundos antes de enviar.

Enviei.

O “visualizado” apareceu quase imediatamente.

A resposta veio curta, mas carregada.

— Você tá de sacanagem comigo.

Passei a mão pelo peito molhado, sentindo a própria pele quente sob os dedos.

— Foi você que começou — respondi.

— Só tô correndo.

— Correndo assim? — ele escreveu.

— Isso não é corrida, é provocação.

Sorri. Era exatamente isso.

Antes que eu respondesse, o celular vibrou de novo.

Chamada de vídeo.

Arthur.

Meu dedo escorregou. Atendi sem querer.

A imagem abriu com ele deitado, o rosto ainda marcado pelo tédio, mas com aquele sorriso fácil que nunca vinha sozinho.

— Ei — ele disse. — Te atrapalhei?

Eu ainda estava sem camisa. Suado. O corpo inteiro exposto na tela. Senti um leve gelo na espinha.

— Não… — respondi. — Tava correndo.

Arthur ficou em silêncio por um segundo a mais do que o normal. O olhar dele percorreu a tela sem pressa nenhuma.

— Dá pra perceber — disse, com um meio sorriso.

Ajeitei o celular, tentando parecer mais casual do que realmente estava.

— Você tá melhor? — perguntei.

— Tô indo — respondeu. — Ainda meio quebrado.

— Mas confesso que isso aí ajuda a distrair.

Ele não disse mais nada. Não precisava. O silêncio que se formou era denso, carregado de coisa não dita. Minha respiração ainda estava pesada, e eu sabia que ele percebia.

— Vou te deixar descansar — falei, quebrando o clima antes que ficasse perigoso demais.

Arthur sorriu de canto...

— Passa aqui em casa... depois da corrida.

O Arthuro e o Papai vão estar aqui, assim vamos conseguir de fato nós ver.

— Poxa… — eu falei, passando o antebraço pela testa, sentindo o suor escorrer pela lateral do rosto. — Tô imundo. Suado, fedendo a rua, a asfalto quente.

Arthur riu, um riso baixo, quase preguiçoso.

— Ué, e isso é novidade agora? — provocou. — Nada diferente de quando a gente era moleque. Você vivia aparecendo lá em casa desse jeito, todo suado, descabelado, com cara de quem tinha aprontado.

— Isso foi há uns bons anos atrás, né? — respondi, arqueando a sobrancelha. — Hoje em dia eu pelo menos finjo que sou adulto responsável.

— Finjo — ele reforçou, rindo de novo. — Passa aqui, B. A gente pede uma pizza, você toma um banho… roupa não vai faltar.

Eu balancei a cabeça, quase automaticamente.

— Roupa eu até aceito… só não pode ser do Arthuro.

Arthur soltou uma gargalhada mais alta.

— Relaxa. Do Arthuro não dá mesmo. Aquilo ali é GGG fácil.

— Nem me fala — respondi. — A camisa dele parece um vestido de tão grande.

A gente ficou alguns segundos só se olhando pela tela, sorrindo. Tinha uma intimidade ali que não precisava ser explicada. Nunca precisou.

— Passa aqui depois da corrida — ele insistiu, agora num tom mais calmo. — Sem pressão. Papai vai estar em casa, o Arturo também. Casa cheia, pizza, nada demais.

— Você fala isso como se nunca desse em nada — provoquei.

— E desde quando “nada demais” impediu você de aparecer?

Suspirei, olhando para a rua à minha frente, sentindo o corpo ainda quente do exercício.

— Tá… depois da corrida eu passo. Uma hora, mais ou menos.

— Fechado — Arthur disse, satisfeito. — Te espero.

A chamada foi encerrada antes que eu pudesse mudar de ideia.

Fiquei alguns segundos parado, celular na mão, respirando fundo. O peito subia e descia num ritmo lento agora, e eu me sentia vivo daquele jeito — cansado, quente, atento demais ao próprio corpo.

Quando voltei para a conversa com o Yan, tinha mensagem nova esperando.

— Sumiu por quê?

Sorri sozinho.

— Quase fui atropelado por uma ligação inesperada — respondi.

— Espero que tenha valido a pena.

— Depende do ponto de vista.

Não demorou para o Yan responder.

— Você correndo daquele jeito… valeu.

Antes que eu pudesse perguntar do que ele estava falando, outra notificação apareceu. Uma foto.

Não era nada explícito, mas dizia tudo. Ele estava deitado, luz baixa, só o tronco à mostra, o tecido da roupa marcando mais do que devia, o corpo relaxado demais para ser inocente. O tipo de imagem que não precisava mostrar nada para acender tudo.

Meu estômago revirou num calor imediato.

— Você faz isso de propósito? — escrevi.

— Faço.

— Você me deixou assim.

Passei a língua pelos lábios, sentindo a boca seca. O corpo ainda quente da corrida respondeu fácil demais à provocação. O sangue parecia correr mais pesado agora, concentrado, atento.

— Safadinho — respondi. — Devia estar descansando.

— Descansando eu descanso depois.

— Quero saber quando a gente vai se ver de novo.

Encostei o celular no peito por um segundo, respirando fundo.

— Minha semana é meio caótica — escrevi. — Vida de professor não é tão glamourosa quanto parece.

— Tem algum dia que você não dá aula?

— Segunda, por exemplo.

— Então já é um começo.

Sorri de novo, dessa vez mais lento.

— Você é direto assim sempre?

— Só quando sinto que vale a pena.

Antes que a conversa escorregasse mais, ele mandou outra mensagem.

— Que tal um treino juntos qualquer dia desses? Academia, nada comprometedor.

— “Treino” — repeti, rindo sozinho. — Você não presta.

— Mas você gosta.

Guardei o celular no bolso da bermuda, sentindo o peso daquela troca ainda vibrando no corpo. O domingo estava longe de acabar, e eu já tinha a sensação de que muita coisa ainda ia se desenrolar — dentro e fora de mim.

Voltei a correr, o coração acelerado por mais motivos do que o exercício, com a certeza incômoda e deliciosa de que aquele fim de semana estava longe de ser simples.

E, de algum jeito, eu não queria que fosse.

A corrida terminou rápido depois disso. O corpo ainda quente, o suor secando devagar na pele enquanto eu caminhava até a casa do Arthur. O trajeto era curto, conhecido demais para exigir atenção. Mesmo assim, cada passo parecia carregado de expectativa.

Parei diante do portão, ajeitei a camiseta no corpo e toquei a campainha.

— Já vai! — a voz dele veio de dentro, arrastada, familiar.

Esperei. Um minuto. Dois. Quando levantei a mão para bater na porta, ela se abriu de repente.

Arthur estava ali.

De muletas, com a perna imobilizada numa bota ortopédica preta que subia até quase o joelho. O contraste com o resto do corpo era quase cruel. Ele vestia apenas uma cueca branca, simples à primeira vista, mas de tecido macio, firme, daquelas que se moldam ao corpo sem esforço. A marca discreta na lateral denunciava o cuidado — Polo Ralph Lauren — e o algodão esticado acompanhava perfeitamente as coxas fortes, o quadril largo, o volume insinuado sem precisar dizer nada.

A pele clara, levemente branca levemente bronzeado, ainda parecia carregar o calor do dia. O abdômen não era exagerado, mas definido o suficiente para chamar atenção. Natural, bonito. Um corpo vivido.

Meus olhos demoraram mais do que deveriam.

Arthur percebeu. Sempre percebeu.

— Antes que você fale qualquer coisa… — ele disse, rindo de canto. — Eu tentei colocar uma roupa.

— Tentou — repeti, ainda olhando.

— Juro. Mas você chegou rápido demais.

— Não tô reclamando.

Ele arqueou a sobrancelha, divertido.

— Entra, Ber. E desculpa a falta de… formalidade.

Passei por ele sentindo o cheiro de casa, misturado ao perfume dele, algo limpo, masculino, familiar demais. Arthur se virou com cuidado e fechou a porta.

— Cadê o seu pai e o Arthuro? — perguntei, tentando parecer casual.

— Saíram rapidinho. Shopping. — Ele fez um gesto vago com a mão. — Vão trazer pizza. Noite dos rapazes, lembra?

Sorri.

— Aquela que nunca aconteceu direito.

— Pois é — respondeu. — Hoje vai.

Ele se jogou no sofá com cuidado, apoiando a perna lesionada em algumas almofadas. A cueca subiu um pouco mais na coxa quando ele se ajeitou. Me peguei acompanhando o movimento sem pudor nenhum.

— Você separou alguma roupa pra mim? — perguntei, limpando a garganta. — Tô me sentindo… sujo.

Arthur inclinou a cabeça, me analisando de cima a baixo.

— Sujo é uma palavra forte — disse, arrastando o olhar pelo meu corpo. — Eu diria… bem usado.

Ri, balançando a cabeça.

— Você sempre foi péssimo com trocadilhos.

— Mentira. Você sempre gostou.

Ele apontou com o queixo para a escada.

— Pode subir. Meu quarto. O de sempre. — Fez uma pausa curta, maliciosa. — E o banheiro do segundo andar tá livre. Se quiser tomar banho…

— Vou querer — respondi rápido demais.

Subi as escadas com naturalidade, como se aquele espaço nunca tivesse deixado de ser ser conhecido. O quarto dele continuava o mesmo: organizado demais para quem dizia não ligar, cheiro de roupa limpa, cama arrumada com cuidado.

Abri o guarda-roupa e escolhi algo simples: uma camiseta escura, de algodão leve, larga o suficiente para mim, e um short confortável. Passei os dedos pelo tecido antes de fechar a porta, um pensamento rápido atravessando minha cabeça sobre quantas vezes aquele quarto já tinha sido cenário de coisas não ditas.

Segui até o banheiro do segundo andar. Quando minha mão tocou a maçaneta, ouvi o som de alguém atrás de mim.

— Olha só… — a voz veio antes da imagem. — Se não é o atleta suado da noite.

Virei o rosto e dei de cara com Arthuro, parado no corredor, já sem a expressão cansada da festa. Ele vestia uma camiseta simples, clara, colada no peito largo, e um short que denunciava as pernas fortes. O cabelo ainda estava levemente bagunçado, como se o dia tivesse sido corrido.

— Fala — respondi, sorrindo. — Achei que você ainda estivesse no shopping.

— Acabei de chegar — ele disse, me analisando sem disfarçar. — E pelo visto cheguei na hora certa.

Olhou para meu corpo de cima a baixo. Camiseta grudada pelo suor, o peito marcando por baixo do tecido, as pernas ainda quentes da corrida.

— Tá um espetáculo — completou. — Sujo, suado… bem no ponto.

Ri, balançando a cabeça.

— Para com isso. Vou tomar banho.

Arthuro apoiou o ombro na parede, cruzando os braços.

— Só um detalhe — disse, com aquele meio sorriso provocador. — Esse banheiro aí só tem água fria.

— Não tem problema — respondi. — Tá calor.

— Se quiser água quente… — ele inclinou a cabeça, aproximando um passo. — Só nos banheiros dos quartos. Do Arthur, do meu pai… ou no meu.

O jeito que ele disse “meu” não foi inocente.

— Vou sobreviver com água fria — retruquei. — Prometo.

— Corajoso — ele respondeu. — Ou teimoso.

Entrei no banheiro antes que a conversa fosse longe demais. Fechei a porta, encostei as costas nela por um segundo, respirando fundo. A cabeça confusa, imagens demais passando rápido demais.

Coloquei a roupa limpa sobre a pia e liguei o chuveiro. A água fria bateu no corpo quente, arrancando um suspiro involuntário. Passei a mão pelo cabelo, depois pelo peito, sentindo a pele reagir ao contraste. O sabonete escorrendo devagar, o toque automático, quase mecânico — e ainda assim, carregado de pensamentos que eu preferia não nomear.

Em algum momento, meu corpo respondeu sozinho. Nada exagerado. Apenas aquela reação silenciosa, física, consequência de estímulos demais em pouco tempo.

Respirei fundo, deixando a água fazer o trabalho dela.

Ouvi uma batida leve na porta.

— Ber — a voz do Arthuro veio baixa. — Se precisar de alguma coisa… é só chamar.

— Valeu — respondi. — Já tô terminando.

Desliguei o chuveiro, me sequei com calma e vesti a roupa limpa. Quando abri a porta, o corredor estava vazio.

Desci as escadas já me sentindo mais leve — até dar de cara com Sr. Juan.

— Olha ele aí — disse, abrindo um sorriso largo. — Tá bonito, garoto.

— Oi, Sr. Juan — respondi automaticamente, antes mesmo de pensar.

Ele se aproximou e me puxou para um abraço firme demais para ser apenas cordial. O braço forte envolveu minha cintura, a mão descendo um pouco mais do que o necessário antes de subir de novo.

— Já falei pra me chamar de Tio... Nada de Sr. Juan — murmurou perto do meu ouvido. — Você anda sumido.

Senti o toque, o peso da presença, o cheiro dele — masculino, quente, marcante. Ele se afastou devagar, piscando um olho.

— Fica à vontade — completou. — A casa é sua.

Tio Juan seguiu para a cozinha dizendo que ia resolver algumas coisas. Fiquei ali um segundo parado, tentando reorganizar os pensamentos.

Na sala, Arthur estava deitado no sofá, a perna elevada, as muletas encostadas ao lado. Arthuro sentou numa poltrona próxima.

— E aí? — Arthur perguntou. — A festa foi boa ou foi confusão?

— Foi… intensa — respondi.

— Melhor nem entrar em detalhes — Arthuro interrompeu, rindo.

— Ainda mais se envolver a Camille — complementei.

Arthur fez uma careta.

— Aquela piranha.

Rimos juntos.

A mesa lateral tinha petiscos, copos espalhados, aquele clima típico. Juan voltou pouco depois, equilibrando uma caixa de pizza quente.

— E então — disse ele —, o que vamos assistir?

Depois de alguma discussão rápida, acabamos escolhendo “Deadpool 2”. Filme alto, debochado, exatamente o tipo de coisa que não exigia concentração demais.

Sentei no chão, encostado no sofá. Arthuro, depois de um tempo, desceu da poltrona e sentou ao meu lado com cuidado.

— Mais perto — comentou. — Assim eu enxergo melhor.

Pegou um cobertor e jogou por cima das nossas pernas. O tecido pesado criava um espaço fechado, íntimo demais para ser casual.

Em dado momento, senti a mão dele se mover sob o cobertor. Primeiro de leve. Depois mais firme. Os dedos deslizando pela minha coxa, lentos, conscientes.

Olhei para ele.

Arthuro sorriu de canto e piscou um olho.

Continuou ali, alisando minha perna como se fosse o gesto mais natural do mundo.

E eu deixei...

O filme terminou sem que eu percebesse direito. As luzes da sala continuavam baixas, o cobertor ainda jogado de qualquer jeito sobre as pernas, e aquele silêncio pós-créditos ficou mais pesado do que deveria.

— Acho que vou indo — falei, quebrando o clima. — Já ficou tarde.

Arthuro, sentado ao meu lado no chão, virou o rosto devagar.

— Não precisa se preocupar — disse, tranquilo. — Se ficar muito tarde, eu te levo pra casa.

Antes que eu respondesse, Arthur, ainda apoiado nas muletas, se manifestou do sofá:

— Nada disso. Dorme aqui.

Olhei pra ele.

— Sério, não quero incomodar…

— Não incomoda — ele interrompeu. — Tem espaço de sobra. Amanhã cedo o Arthuro sai pra trabalhar, ele te deixa em casa. Dá tempo de você se arrumar tranquilo.

Pensei por alguns segundos.

— Segunda eu não dou aula… — murmurei, mais pra mim do que pra eles.

— Então pronto — Tio Juan concluiu, batendo palmas uma vez. — Decidido.

Respirei fundo e acabei sorrindo.

— Já que estamos decidindo coisas… — comecei —, eu tenho uma notícia pra contar.

Os três me olharam.

— Passei no concurso.

O silêncio durou meio segundo. Depois veio a reação.

— Eu sabia! — Sr. Juan disse, abrindo um sorriso largo. — Sempre falei. Comprometido, focado… parabéns, Bernardo.

Arthur apoiou as muletas e fez força pra se levantar.

— Vem cá — falou.

Me puxou pra um abraço apertado, cuidadoso por causa da perna, mas sincero.

— Orgulho de você — disse, baixo.

— Segue o exemplo — Sr. Juan brincou, olhando para os filhos.

Arthuro riu.

— Eu já sabia, o Ber me contou uns dias atrás

O clima estava leve, bom. Talvez bom demais.

Sr Juan fez uma careta teatral.

— Acho que exagerei no refrigerante. Vou ao banheiro.

Arthuro levantou o olhar primeiro.

— Pode ir no banheiro do meu quarto — disse, naturalmente. — É o único banheiro aqui embaixo.

— Tranquilo — respondi, já me levantando.

Arturo se levantou logo em seguida.

— Eu te mostro — falou. — Aproveito e pego o videogame pra levar pra sala depois.

Seguimos lado a lado pelo corredor. A casa estava mais silenciosa ali, distante da televisão e das vozes da sala. A iluminação era baixa, amarelada, criando sombras longas nas paredes.

— Vocês vão jogar depois? — perguntei, só pra quebrar o silêncio.

— Talvez — ele respondeu. — Se a noite permitir.

O tom não era exatamente casual.

Chegamos ao quarto. Arthuro abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse primeiro.

Assim que pisei ali dentro, percebi a diferença imediatamente. O quarto do Arthuro não tinha nada da organização quase clínica do quarto do Arthur que eu conhecia. Era outro clima. Outro cheiro. Pesos livres encostados num canto, halteres, faixas elásticas, livros de educação física espalhados, roupas jogadas de forma estratégica — não bagunçado, mas vivido. Corporal.

Antes que eu pudesse observar mais, senti o corpo dele vindo logo atrás. Um esbarrão leve, mas proposital. O suficiente pra alinhar nossos corpos por um segundo a mais do que o necessário.

Ele fechou a porta.

— O banheiro é ali — disse, apontando com o queixo. — Vou pegar o videogame.

Dei dois passos na direção indicada, mas antes que eu chegasse ao banheiro, senti a mão dele firme na minha cintura. Fui puxado de volta com facilidade, ficando de frente pra ele. Próximo demais.

O olhar de Arthuro estava diferente. Mais escuro. Mais decidido.

— Eu cansei de esperar por isso — ele disse, baixo.

Não tive tempo de responder.

Ele me beijou.

O beijo não foi um pedido. Foi uma decisão.

Antes que eu pudesse processar as palavras dele — “Eu cansei de esperar por isso” —, Arthuro já tinha cruzado a distância entre nós. Não foi um passo, foi um avanço. O corpo dele, que até então parecia apenas perto, tornou-se em cima. O calor dele me encontrou primeiro: o peito contra o meu, a respiração dele batendo no meu lábio superior, a mão direita que subiu rápida, mas firme, até a minha nuca, os dedos se enfiando entre os cabelos, puxando minha cabeça para baixo — não porque eu fosse mais alto, mas porque ele queria me ter inteiro naquele instante.

A boca dele encontrou a minha com uma precisão que parecia ensaiada. Não houve hesitação. A língua dele cruzou o limiar antes mesmo que eu pudesse abrir os lábios, e quando eu finalmente o fiz, foi para receber tudo. O gosto dele era doce, e algo mais — vontade reprimida, talvez dias, talvez semanas. O beijo era molhado, profundo, tão profundo que parecia que ele estava tentando extrair de mim uma resposta para uma pergunta que ninguém ousava formular.

Senti a mão esquerda dele descer com velocidade controlada: deslizou pela minha costela, encontrou o final da camiseta, enfioou-se por baixo, a pele da barriga contra a palma dele, quente, úmida de suor. Os dedos se abriram, apertaram, sentiram o contorno do músculo que eu não tinha tanto quanto ele, mas que, naquele momento, parecia suficiente. Ele roçou a unha levemente na minha pele, um estímulo tão leve que quase doía de tão excitante.

A língua dele dançava com a minha, mas era ele quem marcava o ritmo — um vai-e-vem lento, depois mais rápido, depois mais lento outra vez, como se estivesse testando quanto eu aguentava. E eu aguentava. Mas não em silêncio. Um gemido escapou, abafado entre nossas bocas, e ele respondeu com um som mais grave, quase um rosnado, que reverbeu no meu peito.

As pernas dele se moveram. Um joelho entre os meus, empurrando, abrindo espaço. Eu senti a coxa dele — dura, quente, viva — pressionando o meu quadril, e meu corpo respondeu antes que eu pudesse pensar. A mão que estava na minha nuca puxou mais, inclinando minha cabeça para o lado, e o beijo se aprofundou. A língua dele encontrou o céu da minha boca, desceu, lambeu o canto dos meus lábios, voltou para dentro, e eu senti que estava sendo devorado com uma lentidão que me fazia querer implorar por mais.

A mão que estava debaixo da camiseta subiu. Encontrou o mamilo, passou o polegar por cima, um círculo lento. Eu arqueei as costas. Ele fez de novo. E de novo. E quando eu tentei respirar, ele não deixou — a boca dele cobriu a minha, sugou o ar que eu tinha, e deu o dele de volta, quente, úmido, necessário.

Senti os dedos dele deslizando agora para trás, encontrando a cintura da bermuda. Não abriu. Apenas pressionou, sentiu o contorno, desceu um pouco, subiu de novo, como se estivesse lendo o que estava por baixo do tecido. A outra mão, que até então segurava meu rosto, desceu rápida, encontrou minha nádega, apertou com força — não era carinho, era posse. Os dedos se enfiaram no tecido da bermuda, na carne, e ele puxou meu quadril para ele, como se quisesse que eu sentisse exatamente o quanto aquilo já não era só um beijo.

Eu tentei falar. Não sabia o quê. Talvez só o nome dele. Talvez só um “por favor”. Mas antes que qualquer som saísse, ele afastou os lábios por um segundo — um segundo que pareceu uma eternidade — e colocou o indicador sobre a minha boca, os olhos verdes fixos nos meus, brilhando.

Não fala nada — ele disse, a voz tão baixa que era quase um roçar. — Só me beija.

E beijou.

Desta vez, foi ainda mais devagar. A boca dele encontrou a minha como se estivesse reaprendendo o formato. A língua deslizou, não entrou — apenas roçou, provocou, esperou. Eu abri os lábios, implorando sem palavras. Ele entrou. Mas devagar. Tão devagar que eu sentia cada milimetro, cada movimento, cada respiração. A mão na minha nádega desceu, encontrou a parte de trás da minha coxa, ergueu-a com facilidade — ele era mais baixo, mas era mais forte — e eu envolvi a perna dele, puxando-o para mais perto. A fricção foi instantânea, real, úmida de suor e de desejo.

A língua dele encontrou a minha, e desta vez foi eu que dancei sob o ritmo dele. Ele deixou. Por um segundo. Depois retomou o controle, e eu senti que estava sendo beijado com uma intensidade que não cabia naquele quarto, naquela casa, naquela noite. Era como se ele estivesse tentando me transpassar com a boca, como se quisesse que eu nunca mais esquecesse o gosto dele.

As mãos dele subiram, encontraram minhas costas, desceram, subiram de novo, arranhando levemente a camiseta, a pele. Eu sentia os músculos dele se contraírem contra o meu corpo, o peito que subia e descia em ritmo frenético, o quadril que roçava o meu com uma cadência que parecia música — lenta, pesada, insistente.

Quando as bocas se separaram — por necessidade de ar, não por falta de vontade —, permanecemos colados, testa contra testa, o hálito misturando-se, os olhos ainda fechados. A mão dele ainda segurava minha perna, a outra ainda apertava minha nádega, e eu sentia o pulso dele batendo rápido contra o meu estômago.

Tentei falar de novo. Dessa vez, só consegui um sussurro:

— Arthuro...

Ele abriu os olhos, encontrou os meus, e respondeu com um sorriso preguiçoso, os lábios inchados, a voz tão perto que era quase dentro da minha cabeça:

— Ainda não acabou.

E voltou a me beijar — mais lento, mais fundo, como se aquele beijo fosse o único lugar onde estávamos autorizados a existir...

Quando nos afastamos minimamente, ainda próximos, respirações desencontradas, consegui finalmente falar:

— Como assim? — murmurei. — Essa é a segunda vez que a gente se beija.

Ele sorriu de canto, aquele sorriso que não explicava nada e prometia tudo.

— Deveria ter sido bem mais do que a segunda — respondeu.

Passei a mão pelo rosto, confuso.

— Arthuro…

— Confia em mim — ele interrompeu, tocando de leve meu braço. — Depois eu te explico tudo.

Ele se afastou, pegou o videogame sobre a cômoda como se nada tivesse acontecido.

— Vai lá — disse, já abrindo a porta. — Antes que desconfiem.

Fiquei parado por um segundo, tentando organizar o caos dentro de mim. Depois, segui para o banheiro.

Fechei a porta atrás de mim.

Encostei as mãos na pia.

Respirei fundo.

Meu reflexo no espelho não parecia exatamente o mesmo de alguns minutos atrás. Algo tinha mudado. E eu sabia que aquela noite tinha acabado de cruzar um ponto sem volta.

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Comentários

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Mistério e mais mistério. O beijo foi real e com Arthuro, mas sinto que há mais com os outros também. Tanto com Arthur como com o pai me parece que tem muita coisa ainda não revelada. Se ainda não aconteceu vai acontecer, o desejo está no ar e é quase palpável. Parece que todos os homens dessa família querem o "B". Ou já tiveram ou querem ter, estou me coçando de tanta curiosidade. Seu texto sem sombra de dúvida e de primeira qualidade, parabéns.

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É impressão minha ou ar ficou meio quente? Rsrsrs. Esse conto tem uma aura de mistério que me prende, quero muito saber do seu passado com esses meninos. Ainda tenho um pé atrás com arhuro, mas vamos ver o que futuro nos reserva.

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É maravilhoso que num site de contos eróticos alguém entrega LITERATURA, uma artesania de palavras falando de emoções, sentimentos e sensações com uma riqueza vocabular e uma habilidade descritiva fabulosa. Me conquistou!!!!!!!!!!!

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Eu fico lisonjeado tendo você como leitor, imagina recebendo elogios.

De verdade estou dando o melhor nas descrições, e por isso acabo gastando um pouco mais de tempo para entregar qualidade erótica, além de vulgaridade... obrigado.

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gosto de quem escreve muito sabendo escrever e isso você domina, dança com as palavras, brinca com ela, constrói paisagens que convidam o leitor a se transportar para elas.

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