Percebi recentemente que algumas lembranças não envelhecem, apenas se escondem, até que você acorda num dia aleatório pensando em algo bonito que aconteceu mais de duas décadas atrás, aos seis anos perdi minha mãe, cedo demais para compreender a ausência, meu pai ainda jovem, quarenta anos mal completos, atravessou o luto como pôde, com o tempo seguiu a vida, namorando bastante, quase todos os relacionamentos atrapalhados por mim ou por meus irmãos, admito hoje com certo arrependimento, mas agora entendo que, do jeito dele, tentava ensinar ao filho uma coragem que talvez nunca tivesse tido, eu não era como meu pai, forte e galanteador, eu era loiro, usava o cabelo um pouco mais comprido naquela época, tinha os olhos verdes sempre meio dispersos pelo mundo, corpo magro e um jeito tímido, observador, já havia vivido pequenos ensaios de romance, namoradinhas breves, um beijo dado por uma amiga da minha irmã, que me beijou a pedido dela só para confirmar se eu era hétero, já que eu era um pouco delicado demais aos olhos dos outros, nada disso me marcou de verdade, até o dia em que a casa mudou, quando a irmã mais nova do meu pai veio morar conosco, Fabiana era dois anos mais velha, vinha de longe, de outro estado, de outra vida, depois da morte da minha avó, morena, cabelos cacheados, olhos castanhos lindos, riso fácil, um corpo que o mundo insistia em chamar de errado, mas que para mim sempre pareceu excessivamente certo, a afinidade foi imediata, quase desconcertante, conversávamos como se nos conhecêssemos há anos, sem cuidado, sem censura, passávamos as tardes juntos, rindo, falando de tudo, numa liberdade que eu nunca tivera com nenhuma outra mulher, até aquela tarde de chuva, sentados num sofá velho, numa parte da casa ainda inacabada, só paredes nuas e a laje exposta, que um dia seria a casa da minha irmã mais velha quando se casasse, a água caía pesada lá fora, alguns respingos entravam pelo vão que no futuro receberia uma janela, e a conversa fluía gostosa, quando ela perguntou, você já namorou com quantas meninas?, respondi sem pensar muito, namorei só uma, a Franciele do fim da rua, você já viu ela, mas já beijei uma menina que eu nem conhecia direito, a Mirela, amiga da Geovana, na quermesse do ano passado, e você?, ela riu sem graça e disse, nossa, que vergonha, você é dois anos mais novo que eu e já beijou mais do que eu, provoquei quase sem perceber, ah para, você deve ter beijado uns caras na escola, ela desviou o olhar, que nada, eu sou gorda, os meninos não gostam, aquilo me confundiu, sempre achei que mulheres com curvas eram as mais bonitas, mas parecia que o mundo não concordava comigo, e então falei, não brinca, você é doida, eu ficaria fácil com você, a frase saiu antes que eu pudesse segurá-la, o silêncio que veio depois pesou mais que a chuva, ela respondeu, ah, você fala isso só pra me agradar, porque sou sua tia, vocês homens gostam de mulher magrinha, senti o rosto queimar, abaixei a cabeça, mas ainda assim disse, quase num sussurro, não, mulher magra pra mim é bem desinteressante, eu prefiro mulheres como você, ela sorriu de canto, nessa hora você diz “se não fosse minha tia” como desculpa, né?, meu coração disparou, as palavras tremiam, mas saíram, na verdade, mesmo sendo minha tia, eu ficaria com você, se você quisesse, foi então que a voz do meu pai cortou o ar, chamando para ajudá-lo com umas madeiras velhas no quintal, levantei sem saber o que dizer, deixando para trás o sofá, a chuva, e uma pergunta que não encontrou resposta.
A tarde acabou se resumindo a ajudar meu pai a improvisar um portão com tábuas velhas para o cachorro não escapar para a rua, ele tinha crescido meio bravo e meu pai morria de medo de que mordesse alguém, depois disso fui tomar banho, a água caindo e minha cabeça presa no que eu tinha dito para a Fabiana, a vergonha me queimava por dentro, mas junto dela vinha uma ansiedade estranha, quase um desejo de resposta, no jantar a mesa cheia não permitia conversa alguma que não fosse alta e atravessada, éramos muitos, dos meus sete irmãos, cinco ainda moravam em casa, dois já tinham ido trabalhar em cidades vizinhas, somando meu pai, a Fabiana e eu, éramos oito falando ao mesmo tempo, rindo, discutindo coisas banais, mas ela estava quieta, não me olhava nos olhos, e aquilo doeu mais do que eu esperava, senti o peito arder com a certeza de que tinha ido longe demais e talvez tivesse perdido a amizade mais íntima que já tivera na vida, depois do jantar ainda vimos alguma coisa na televisão e logo todos foram dormir, ela ficou no quarto das meninas com minhas irmãs, eu no quarto dos meninos com meus irmãos, o único quarto isolado era o do meu pai, com entrada pelo lado de fora, deitei mas o sono não vinha, o corpo cansado e a cabeça em alerta, até que levantei para beber água, a televisão ficava na cozinha, não tínhamos sala, e ela estava lá, sentada, assistindo sozinha, você também tá sem sono?, perguntei quase em sussurro, é, não tava conseguindo dormir, respondi sentando numa cadeira ao lado, ficamos ali uns bons minutos em silêncio, só o som baixo da TV preenchendo o espaço, até que tomei coragem, olha, Fabi, desculpa se eu te ofendi de algum jeito, ela nem virou o rosto, se você acha que ofendeu é porque tava me zoando, né?, não, eu tava falando sério, ela soltou um riso curto, amargo, para, Davi, já perdeu a graça, por que você ia querer ficar com uma gorda feia como eu?, não deixei que terminasse, interrompi as palavras com um beijo, minha mente virou um caos, ela é minha tia, é linda, meu pai me mata se souber, foi ele mesmo que sempre me dizia pra ficar com mais meninas, mas não a irmã dele, não isso, e ainda assim, naquele instante, tudo desapareceu, o mundo encolheu naquele gesto, naquele contato inesperado, pensei que depois resolveria as consequências, porque naquele segundo só existia a sensação, quente, intensa, o melhor beijo da minha vida, e eu me entreguei a ele como se o tempo tivesse parado ali.
Só retornei ao mundo real quando ouvi a voz da minha irmã, ah, seus safadinhos, sabia que tava rolando alguma coisa, ela riu, e eu gelei por inteiro, me afastei devagar da boca da Fabi, não queria parecer envergonhado dela, só atordoado com o mundo voltando de uma vez, Geovana era seis anos mais velha do que eu, a mais rebelde entre meus irmãos, Davizinho, não esperava isso de você, disse com um sorriso malicioso, e você, titia, hein, dando um trato no sobrinho, adorei, ela riu de novo, fala baixo, Vana, vai acordar o bairro todo, Fabi respondeu sem graça, relaxa, minha irmã disse, só não deixa o pai saber que você tá pegando a irmã dele, ou ele quebra vocês dois na porrada, falou rindo, como se aquilo fosse apenas mais uma travessura da noite, aquilo me atingiu como um balde de água fria, o peso do que tinha acontecido finalmente se acomodando no peito, acho melhor eu ir dormir, disse a Fabi, levantando devagar, e eu fiquei ali, sentado, com a televisão ligada, o coração disparado, sabendo que nada dali em diante seria simples outra vez.
Não preguei o olho a noite inteira, o dia seguinte amanheceu ainda chuvoso, cinza, como se o tempo tivesse decidido ficar suspenso junto comigo, meu pai já tinha ido trabalhar, levantei cedo, mas não tinha cabeça nenhuma pra escola, peguei o mesmo caminho da tarde anterior e fui até o sofá velho na construção, sentei ali só pra ouvir a chuva cair e pensar na Fabi, em tudo que tinha sido dito, no que tinha ficado no ar, quando menos esperei ouvi passos atrás de mim, e ela apareceu na entrada, com o mesmo olhar cansado que eu devia estar carregando, acho que tivemos a mesma ideia, ela disse baixo, tentando sorrir, respondi quase automático, mentes brilhantes pensam parecido, não é?, houve um silêncio curto, pesado, até ela respirar fundo, Davi, o que aconteceu ontem…, eu interrompi antes que ela terminasse, as palavras saíram atropeladas, Fabi, não vem com essa de que é errado e que não pode acontecer de novo, tá?, meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito, foi o melhor momento da minha vida, eu não me arrependo, e eu vou querer de novo sim, eu quero você, e não me importa o que o meu pai vai dizer, ela corou na mesma hora, desviou o olhar, as mãos tremendo, eu… eu só ia dizer que eu gostei, a voz saiu fraca, você foi a primeira pessoa que eu…, ela parou, respirou fundo, que eu senti algo assim, e então, ouvindo tudo o que eu tinha acabado de dizer, ela começou a chorar, um choro contido, silencioso, que me desmontou inteiro, eu não sabia o que fazer, só fiquei ali, sentindo um nó apertar a garganta, até ela falar, quase num sussurro, o Dudé não vai deixar, você sabe, e naquele instante eu entendi que não era só a chuva que caía pesada naquele dia.
Mas o choro dela não durou. Seus olhos castanhos, ainda úmidos, se ergueram para os meus, e neles vi não só dúvida, mas um fogo que espelhava o meu. Ela deu um passo à frente, o corpo gordinho se aproximando devagar, como se testasse o ar entre nós. A chuva tamborilava na laje, um ritmo hipnótico que abafava o mundo lá fora. Sentei-me mais reto no sofá velho, o tecido úmido grudando nas costas, e estendi a mão. Ela a pegou, trêmula, e se deixou puxar para o meu colo.O peso dela sobre mim foi como um sonho ganhando forma — curvas macias se moldando ao meu corpo magro e tenso, coxas grossas apertando minhas laterais, o calor da sua pele morena atravessando as roupas encharcadas. Nossos rostos se aproximaram, respirações misturadas, quentes e rápidas. "Davi...", murmurou ela, voz rouca, antes que meus lábios silenciassem as palavras restantes. O beijo veio faminto, línguas se entrelaçando num dança urgente, lenta no início, depois voraz, como se quiséssemos devorar anos de silêncios.Minhas mãos grandes, calejadas de ajudar o pai nas obras, subiram pelas suas costas cacheadas, sentindo os fios molhados escorrerem entre os dedos. Desci até a base da espinha, apertando a carne farta da bunda que tanto me obcecava, puxando-a mais contra mim. Ela gemeu baixo na minha boca, um som que vibrou pelo meu peito, e começou a rebolar devagar, criando uma fricção deliciosa onde nossos corpos se uniam. Senti-a pulsar contra mim, quente e insistente, enquanto minhas coxas se abriam instintivamente para acomodá-la melhor.Ela afastou-se um instante, só o suficiente para arrancar a blusa fina, revelando seios cheios e morenos, mamilos escuros endurecidos pela chuva e pelo desejo. Inclinei-me para frente, lábios famintos traçando um caminho molhado pelo vale entre eles, chupando e lambendo a pele salgada, sentindo-a arquear as costas e cravar as unhas nos meus ombros. "Você me quer mesmo assim?", sussurrou, voz entrecortada, e eu respondi com ações: mãos explorando cada curva, apertando, massageando, venerando o corpo que o mundo chamava de "errado".Fabiana deslizou as mãos pelo meu peito loiro, abrindo a camisa com urgência, dedos traçando os músculos tensos que o trabalho na casa havia esculpido. Ela se ergueu um pouco, desabotoando minha calça, e o alívio veio quando ela se posicionou, guiando-nos num movimento fluido, profundo. Entramos em sintonia perfeita — quente, apertado, um encaixe que nos fez ofegar juntos. Ela desceu devagar, centímetro por centímetro, olhos fixos nos meus verdes, e começamos a nos mover: ela rebolando em círculos lentos, eu empurrando de baixo para cima, mãos firmes nas suas nádegas, ditando um ritmo que acelerava com a chuva.O sofá rangia sob nós, mas nada importava além do suor misturado à água, dos gemidos abafados contra pescoços e ombros, do cheiro dela — terra molhada, desejo cru. Seus seios balançavam com cada investida, roçando meu peito, e eu os capturei com a boca, sugando forte enquanto ela acelerava, unhas arranhando minhas costas. O prazer crescia em ondas, tenso e inevitável, até que ela tremeu inteira, corpo convulsionando no meu colo, um gemido longo e liberador escapando dos lábios. Segui logo depois, explodindo dentro dela, braços a envolvendo como se o mundo pudesse nos separar.Ficamos ali, ofegantes, colados, a chuva diminuindo para um chuvisco suave. "E agora?", ela perguntou, voz sonolenta de satisfação. Sorri, beijando sua testa. "Agora a gente descobre.