Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer Capítulo 3 — Sob a Superfície do Que Não Se Diz

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 3684 palavras
Data: 08/01/2026 15:45:43

— Bernardo… você tá bem?

A pergunta do Yan veio baixa, próxima demais do meu ouvido. Mas eu não respondi.

Eu ainda estava olhando.

O corredor no segundo andar parecia mais estreito do que realmente era. A iluminação amarelada criava sombras irregulares nas paredes, e entre essas sombras, os corpos se moviam com uma urgência que dispensava explicações.

Camille estava encostada na parede, o corpo arqueado num ângulo que deixava claro que ela já tinha parado de pensar havia algum tempo. O biquíni não acompanhava mais seus movimentos — uma alça caída, o tecido desalinhado, pele demais exposta para ser apenas descuido. Os sons que escapavam da boca dela eram baixos, quase engasgados, misturados a risadas curtas, nervosas, como se o próprio corpo estivesse pedindo silêncio enquanto fazia exatamente o contrário.

Arthuro estava diante dela.

As mãos dele não hesitavam. Não havia cerimônia, nem delicadeza ensaiada. Havia domínio. Camille reagia a cada movimento como se fosse guiada por um fio invisível, o corpo respondendo antes mesmo da consciência.

Eu senti um peso estranho no peito. Não era choque. Não era exatamente ciúme. Era algo mais silencioso, mais fundo. Uma sensação de estar vendo algo que, de alguma forma torta, também me dizia respeito.

Então Arthuro levantou o rosto.

O olhar dele encontrou o meu sem tropeçar. Não houve surpresa. Houve intenção.

Ele manteve o corpo colado ao de Camille, mas os olhos estavam em mim. Fixos. Um sorriso lento se formou no canto da boca, quase preguiçoso, como se ele soubesse exatamente o efeito que aquela visão causava. Como se dissesse, sem palavras: eu sei que você está vendo. E pior — eu quero que você veja.

Meu estômago se contraiu.

— Ber — a mão do Yan fechou em torno do meu pulso, firme, decidida. — Vamos sair daqui.

Não foi um pedido. Eu deixei.

Enquanto descíamos as escadas, o som da festa foi engolindo aquela cena como uma onda. Música alta, risadas soltas, corpos molhados passando uns pelos outros sem se importar. Tudo parecia excessivamente vivo, enquanto eu ainda carregava aquela imagem presa atrás dos olhos.

— Ele sempre… — comecei, mas parei no meio da frase.

Ian me olhou de lado, entendendo mais do que eu disse.

— O Arturo? — sorriu de leve. — Sempre.

Havia algo curioso no tom dele. Não era ressentimento. Era constatação.

— Ele é assim — continuou. — Onde chega, puxa tudo pra órbita dele. Gente daqui já se envolveu com ele de todas as formas possíveis. Não é novidade.

Assenti, sem saber exatamente o que aquilo significava pra mim.

— Mas hoje não é sobre ele. — É sobre você. Sobre se soltar um pouco.

Sorri, sem muita convicção.

— Completou, aproximando-se mais. — E eu não quero que você fique pensando em outra coisa agora

— Então vamos beber — falei. — Acho que já passou da hora.

Os drinks vieram rápidos demais. O álcool queimou a garganta, desceu quente, e aos poucos foi soltando nós que eu nem sabia que estavam ali. Yan comemorou isso como uma vitória pessoal.

— Tá vendo? — disse, encostando a testa na minha. — Não dói tanto assim.

— Relaxou.

Os beijos começaram ali mesmo. Primeiro leves, quase brincalhões. Depois mais demorados. Mais fundos. A mão dele encontrou minha cintura, meus dedos subiram pelo peito dele. O mundo ficou mais lento. A festa mais distante.

Nos afastamos da piscina, da música mais alta, até uma área externa menos iluminada. Havia redes presas entre colunas de madeira. Escolhemos uma quase escondida pela sombra.

Deitamos ali, lado a lado.

— Você ficou quieto lá em cima — comentou Ian depois de um tempo, a voz baixa, sem acusação. — Achei que tinha se perdido nos próprios pensamentos.

— Talvez eu tenha — respondi. — Essa festa… é muita coisa ao mesmo tempo.

Ele riu baixo e passou o polegar pela minha mão.

— Normal. Aqui tudo acontece rápido demais.

Ficamos ali conversando, alternando silêncio e toques leves. O beijo voltou, mais lento agora, mais atento. Havia menos urgência e mais permanência. Ian parecia satisfeito com isso, como se estivesse me deixando escolher o ritmo.

Foi quando passos se aproximaram.

Camille surgiu entre as luzes fracas, o cabelo visivelmente desalinhado, o sorriso largo demais para ser casual. Ajustava o biquíni com pressa, respirando fundo, como quem tenta se recompor sem muito sucesso.

— Yan — chamou, rindo. — Me ajuda aqui? Isso aqui não quer ficar no lugar.

Ele se levantou para ajudá-la, ainda sorrindo.

Eu observei em silêncio.

E, quase sem perceber, perguntei:

— Cadê o Arthuro?

Camille me olhou por um segundo a mais do que o necessário.

Depois sorriu...

O sorriso de Camille demorou um segundo a mais do que o necessário.

— O Arthuro? — ela respondeu, ajeitando a lateral do biquíni com um gesto rápido, quase automático. — Ele foi ao banheiro. A bebida não caiu muito bem.

Disse isso com naturalidade, mas havia algo no tom — um cansaço leve, talvez — que me fez prestar mais atenção do que eu gostaria.

— É… — murmurei. — Ele nunca foi muito forte pra bebida.

Camille riu, passando a mão pelo cabelo, ainda um pouco desalinhado.

— Nem você, né? — comentou, me olhando de cima a baixo. — Pelo menos não parece muito confortável com o drink.

— Não sou — confirmei. — Pra mim também é coisa rara.

Yan terminou de ajudá-la a ajeitar a parte de trás do biquíni e perguntou, casual:

— Vai pra onde agora?

— Me divertir — respondeu ela, piscando. — Aproveitar enquanto a noite ainda tá quente.

Antes de sair, Yan comentou:

— Se ele precisar de alguma coisa, me avisa.

Camille deu de ombros.

— Logo ele melhora. Foi só exagero.

Ela se afastou, misturando-se novamente à festa. Fiquei parado por um instante, sentindo aquele incômodo crescer no peito — não era preocupação pura, tampouco curiosidade. Era algo entre cuidado antigo e um desconforto novo, que eu ainda não sabia nomear.

— Vou dar uma olhada nele — disse, mais pra mim do que pro Ian.

— Quer que eu vá junto? — ele perguntou.

— Não… eu só vou ver se ele tá bem.

Atravessei a área externa e entrei novamente na casa. A música parecia mais alta ali dentro, as luzes mais agressivas. Levei alguns segundos para localizá-lo.

Arturo estava sentado em um sofá baixo, cercado por duas pessoas que conversavam animadamente. Sorria, mas não era o sorriso fácil de sempre. Havia algo no jeito como ele se mantinha um pouco inclinado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, que denunciava um certo desconforto.

Aproximei-me e toquei de leve no ombro dele.

— Ei — chamei.

Ele virou o rosto na hora.

— Ber — disse, o sorriso se formando, agora mais sincero. — Oi.

— Você tá bem?

— Tô melhor — respondeu. — A bebida que não desceu direito. Acho que misturei coisa demais.

Observei o rosto dele com atenção. Os olhos ainda brilhavam, mas havia um cansaço discreto ali.

— Quer água? — perguntei. — Ou ir embora?

Ele ia responder quando uma voz surgiu logo atrás de mim.

— Ele já tá acostumado — disse Yan, num tom leve demais para a situação. — Daqui a pouco tá ótimo de novo. Vamos aproveitar a piscina.

Antes que eu pudesse reagir, senti a mão de Arthuro se fechar na minha.

— Não — disse ele, levantando-se. — A gente já tá indo.

O jeito como ele falou — firme, sem hesitar — fez com que eu o encarasse, surpreso.

— A gente? — perguntei, quase sem perceber.

— É — respondeu, ainda segurando minha mão. — Eu não tô me sentindo bem. E você vai me levar pra casa.

Ian franziu levemente a testa.

— Mas… — começou. — O Bernardo também bebeu.

A frase caiu entre nós como algo fora de lugar.

Arthuro virou o rosto devagar pra mim.

— Você bebeu?

Havia surpresa ali. Não acusação. Mas algo mudou no olhar.

— Um pouco — respondi. — Nada demais.

Ele soltou um riso curto, quase incrédulo.

— Você nunca bebe.

— Hoje eu quis — retruquei, simples.

Por um segundo, ninguém disse nada. O barulho da festa parecia distante demais para aquele pequeno círculo de tensão.

— Então como vocês vão embora? — insistiu Yan. — Dá pra esperar mais um pouco, chamar um Uber depois. Não precisa sair agora.

Arthuro respirou fundo, passando a mão pelo rosto.

— Eu quero ir agora.

— A gente pode chamar um carro — sugeriu Yan, olhando pra mim. — Fica mais um pouco. Tá cedo.

Olhei de um para o outro. Senti claramente o peso daquela escolha, embora ninguém tivesse colocado isso em palavras.

— Eu prefiro ir — disse, enfim. — Agora.

Arturo apertou minha mão com mais força, como se confirmasse algo em silêncio.

— A gente resolve o carro — completou ele. — Não se preocupa.

Yan me observou por alguns segundos. Havia algo diferente no olhar dele agora — menos brincadeira, mais avaliação.

— Tudo bem — disse, por fim. — Se mudarem de ideia, vocês sabem onde me achar.

Ele se afastou, misturando-se novamente à festa.

Ficamos ali, parados, ainda de mãos dadas, por um instante longo demais para ser casual.

Arthuro soltou minha mão devagar.

— Eu não sabia que você tinha bebido — disse, mais baixo.

— Não é nada — respondi. — Só… aconteceu.

Ele me olhou como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas não disse. Apenas assentiu.

E naquele gesto simples, eu senti que algo tinha se deslocado entre nós — não quebrado, mas definitivamente fora do lugar de antes.

Já do lado de fora da casa, o ar parecia mais fresco. A música vinha abafada, misturada a risadas soltas e vozes que iam ficando para trás. Arthuro ajeitou a camisa, passou a mão pelos cabelos ainda um pouco desalinhados e respirou fundo, como se precisasse daquele gesto para se recompor.

— Tá… — ele disse, olhando ao redor. — Como a gente vai fazer pra ir embora?

— A gente chama um Uber — respondi, simples, já puxando o celular do bolso.

Arthuro balançou a cabeça negativamente.

— Eu preciso pelo menos tirar meu carro daqui. Não quero deixar ele aqui na rua.

Guardei o celular.

— Você vem pra dirigir?

Ele soltou um meio sorriso cansado.

Houve um breve silêncio. Olhei para ele, avaliando.

— Olha… — comecei. — Eu bebi só dois drinks. Não me fez mal. Acho que consigo levar o carro tranquilo.

Arhturo franziu o cenho, pensativo, me encarando com atenção.

— Você se importa de se arriscar? — perguntou, num tom mais baixo. — Acha mesmo que consegue?

— Consigo — respondi, sem hesitar. — Sem problema algum.

Ele assentiu, como se aceitasse algo além da proposta em si.

Seguimos em direção ao estacionamento. Já perto do carro, Arthuro desacelerou o passo. Seu olhar desviou para a lateral da área externa.

Camille estava encostada perto do muro, rindo, com um rapaz alto à sua frente. As mãos dele estavam na cintura dela. Os rostos se aproximaram sem cerimônia, e logo estavam se beijando, sem qualquer cuidado com quem pudesse ver.

Parei por reflexo.

— Uau… — murmurei, genuinamente surpreso.

Arthuro soltou um riso seco, quase inaudível.

— Piranha… — murmurou, mais pra si do que pra mim.

Não houve raiva explícita na voz dele. Era mais um misto de ironia, decepção tardia e algo que ele mesmo não parecia interessado em destrinchar.

Sem olhar novamente, ele seguiu em direção ao carro.

Antes que eu entrasse, ouvi passos rápidos atrás de nós.

— Bernardo!

Virei. Yan vinha em nossa direção, sorrindo, já com o celular na mão.

— Passa seu número aqui — disse, direto. — A gente se fala depois.

Peguei o celular dele, digitei meu contato e devolvi. Ele se aproximou mais um pouco e, sem pedir permissão, segurou meu rosto com as duas mãos.

O beijo foi calmo, bonito, cheio de intenção. Não teve pressa. Nem exagero. Apenas presença. Senti o mundo diminuir por um segundo, como se aquele gesto fosse uma espécie de despedida que merecia ser sentida.

— Se cuida — ele disse, com um sorriso curto.

— Você também — respondi.

Ele se virou para Arthuro.

— Boa noite — disse, educado, com um aceno de cabeça.

— Boa — respondeu Arthuro, seco, mas não hostil.

Entramos no carro. Ajustei o banco, coloquei o cinto. Arthuro fez o mesmo, apoiando a cabeça no encosto, os olhos fechados por um instante.

Antes de dar partida, ele falou:

— O que você achou do Yan?

Pensei por um segundo.

— Gostei de conhecer — respondi. — A festa foi bacana… apesar de rápida pra gente.

Ele assentiu, esperando mais.

— Ele é gente boa — continuei. — Mas não é alguém pra se apaixonar. É alguém pra viver o momento.

Arthuro riu de leve.

— Concordo.

Engatei a marcha, mas antes de sair, devolvi a pergunta.

— E a Camille?

Ele demorou um pouco mais pra responder.

— Ela é só um lance — disse, enfim. — Uma vontade antiga. Algo que aconteceu. Eu queria pegar ela, simples assim.

Olhei de lado.

— Discurso bem hétero top, hein?

Ele soltou uma gargalhada curta.

— Não foi o que pareceu?

— Definitivamente não — respondi, rindo. — Mas tudo bem. Cada um com seus roteiros mal escritos.

Quando voltei os olhos pra frente, senti a mão dele pousar novamente sobre minha perna. Não foi um gesto invasivo. Foi lento, quase cuidadoso, como se testasse um limite invisível.

Olhei pra ele.

— Tá confortável demais aí? — provoquei.

— Só garantindo que você não vai sumir também — respondeu, num tom meio sério, meio brincalhão.

Sorri, dei partida e saímos devagar do estacionamento.

Alguns minutos depois, já na rua, senti o peso dele ceder. Arturo inclinou o corpo, apoiando a cabeça no meu ombro, os olhos fechados.

Não disse nada.

Segui dirigindo, atento à estrada, enquanto o silêncio entre nós deixava de ser vazio e passava a ser denso — carregado de coisas que ainda não tinham nome, mas já pediam espaço.

Arthuro acabou dormindo em algum ponto do caminho.

Não foi imediato. Primeiro, o peso dele foi cedendo aos poucos, como se o corpo tivesse desistido de sustentar qualquer vigilância. A cabeça escorregou devagar até repousar no meu ombro, quente, pesada, estranhamente familiar. O cheiro dele — uma mistura de perfume, álcool e pele — ficou mais presente dentro do carro fechado.

A estrada estava vazia. Poucos postes, o asfalto passando rápido sob a luz dos faróis. Tudo parecia acontecer depressa demais e, ao mesmo tempo, lento o suficiente para que minha cabeça fosse longe.

Vinte minutos, no máximo. Mas minha mente conseguiu revisitar muita coisa.

Pensei no beijo mais cedo.

Não no gesto em si — rápido, quase automático — mas no que ele carregava. Na intenção que veio antes, no silêncio logo depois. Pensei em como Arthuro não comentou. Não brincou. Não provocou. Nada. Como se aquele beijo tivesse sido engolido pelo que aconteceu com Camille logo em seguida.

Talvez tivesse sido só isso mesmo. Um impulso. Um reflexo antigo.

Ou talvez não.

Balancei a cabeça levemente, como se pudesse afastar os pensamentos sem acordá-lo. Mantive o volante firme, a atenção na estrada, enquanto o peso dele no meu ombro parecia ancorar algo dentro de mim que eu não sabia nomear.

Quando cheguei em frente à casa dele, estacionei com cuidado. O portão alto, a fachada silenciosa, tudo iluminado apenas pela luz amarela da rua.

Inclinei um pouco o corpo.

— Chegamos, bonitão — murmurei, num tom baixo, quase íntimo demais.

Arthuro se mexeu de imediato.

— Hã? — Ele piscou, confuso. — Onde…? Já?

— Já.

Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo e soltou um riso curto.

— Apaguei, né?

— Totalmente.

Saímos do carro. O ar da noite estava mais frio ali. Peguei minha camisa no banco de trás, vesti devagar, como se não tivesse pressa alguma de encerrar aquele momento.

Enquanto isso, puxei o celular do bolso e fiz o gesto automático de abrir o aplicativo.

Arthuro percebeu.

— O que você tá fazendo?

— Chamando um Uber — respondi, simples. — Pra ir embora.

Ele franziu o cenho.

— Não. Fica.

Levantei o olhar.

— Arthuro…

— Fica — repetiu, com mais firmeza. — Aqui tem espaço. Tem quarto. Você pode dormir aqui.

Balancei a cabeça, já prevendo aquela conversa.

— Não quero incomodar.

Ele deu um passo mais perto.

— Como que eu vou deixar você ir embora assim? — perguntou, a voz mais baixa. — Fica. Dorme. Descansa. Amanhã eu acordo e te levo em casa.

— Eu prefiro ir — insisti. — De Uber é melhor.

Arthuro me observou por um segundo longo demais. Então sorriu daquele jeito enviesado, meio provocador.

— Tá bom — disse. — Então faz assim.

Ele puxou a chave do carro do bolso e girou nos dedos antes de jogar pra mim.

Peguei no ar, surpreso.

— Você leva o carro — continuou. — Sua casa é perto. Amanhã, quando eu acordar, passo lá e busco. Dá até pra ir andando, se quiser.

— Tem certeza disso? — perguntei, genuinamente.

— Claro — respondeu, sem hesitar. — Não tem problema nenhum.

Ele fez uma pausa curta, o olhar pousando em mim de um jeito diferente.

— Mas o convite pra ficar continua — acrescentou. — Não seria nada diferente do que já foi no passado. Você cansava de dormir aqui.

Soltei um sorriso pequeno.

— É… mas no passado.

— E agora? — provocou.

Houve algo no tom. Um meio sorriso. Um silêncio que dizia mais do que as palavras.

— Agora é diferente — respondi, por fim.

Arthuro assentiu devagar, como quem entende, mas não concorda totalmente.

Voltei pro carro. Ele ficou parado, observando, as mãos nos bolsos, o corpo relaxado demais pra quem dizia estar cansado.

Antes de sair, abaixei o vidro.

— Tchau — falei.

Arthuro se aproximou, apoiando o braço na porta aberta.

— Foi bom — disse. — ter saído. A noite ter acontecido.

Sorri.

— Foi.

— A gente podia repetir mais vezes — completou, em tom casual demais pra não significar algo.

Ele se inclinou e depositou um beijo leve na minha testa.

— Obrigado pela companhia.

— Sempre — respondi.

Levantei o vidro, dei partida e segui pela rua silenciosa, deixando Arthuro ali, parado, me observando ir embora.

Enquanto dirigia em direção à minha casa, tive a estranha sensação de que nada tinha acontecido — e, ainda assim, tudo tinha mudado.

A viagem até minha casa foi curta. Cinco minutos, no máximo. Ruas conhecidas, silêncio quebrado apenas pelo som do motor e pelo que ainda ecoava dentro de mim. Estacionei em frente ao prédio, desliguei o carro e fiquei alguns segundos parado, respirando fundo, como se precisasse marcar mentalmente o fim daquela noite.

Subi, entrei em casa, deixei as chaves sobre a bancada e peguei o celular quase no mesmo gesto automático.

Mandei mensagem para Arthuro.

— Cheguei bem. Obrigado pela noite.

A resposta veio rápida.

— Arturo: Eu que agradeço a companhia. Boa noite 😘

Sorri de leve. Bloqueei a tela… e logo em seguida ela voltou a acender.

— Yan.

Uma mensagem não lida.

— Yan: Chegou?

Antes que eu respondesse, outra notificação.

— Yan : Você já chegou?

— Yan : ???

Deixei o celular de lado e fui tomar banho. A água quente escorrendo pelo corpo parecia lavar mais do que o cansaço — levava junto o excesso da noite, os estímulos, os olhares cruzados, as escolhas não ditas.

Quando voltei, já deitado, peguei o celular novamente. Arthuro já tinha se despedido. Yan ainda aguardava resposta.

— Cheguei sim. Tô inteiro, só cansado.

A resposta veio quase imediata.

— Yan: Ainda bem.

— Yan: Gostei muito de te conhecer hoje.

Houve uma pausa curta.

— Yan: Foi… diferente. Bom.

Troquei algumas mensagens com ele. Nada longo demais, nada profundo demais. Ele comentou que, logo depois que saímos, também acabou indo embora. Disse que a festa já tinha cumprido o papel dela.

— Yan: Acho que fez mais sentido assim.

Concordei. Disse que a noite tinha sido intensa, que eu precisava dormir.

Ele respondeu com algo que me fez prender a respiração por um segundo.

Uma notificação de vídeo.

Visualização única.

— Abri.

Yan apareceu deitado, sem camisa, coberto por um lençol branco que subia até a altura do peito. O cabelo loiro estava bagunçado, o rosto relaxado, os olhos claros brilhando sob a luz suave do quarto. Ele sorriu — um sorriso aberto, tranquilo, íntimo demais para aquela hora.

— Boa noite, Ber — disse, em voz baixa. — Dorme bem.

Nada mais.

O vídeo terminou.

Fiquei alguns segundos olhando para a tela apagada. Curti o vídeo. Respondi.

— Boa noite, Yan. Dorme bem.

Deixei o celular sobre o criado-mudo e apaguei a luz.

O sono veio rápido, pesado.

Acordei no dia seguinte por volta das dez da manhã. A claridade já tomava o quarto. Peguei o celular ainda meio sonolento.

Uma mensagem de Arthuro.

— Arturo: Quando puder, me avisa que eu passo aí pra buscar o carro.

Respondi sem demora.

— Pode vir a hora que quiser.

Poucos segundos depois, outra mensagem.

— Arthuro: Então… pedi pro meu pai passar aí pra buscar o carro pra mim.

— Ainda não tô 100% 🤢

Li duas vezes.

Sr. Juan.

Senti o estômago dar um pequeno salto — não de nervosismo exatamente, mas de algo mais antigo, mais fundo.

— Sem problema nenhum. Fico aguardando.

Levantei. Tomei banho com calma, preparei um café simples, tentei manter a rotina em ordem enquanto o pensamento insistia em voltar.

Quarenta minutos depois, a campainha tocou.

Abri a porta.

— Oi, Ber. Tudo bem?

A voz grave, segura, familiar demais.

Sr. Juan estava ali, apoiado de forma relaxada no batente. Usava uma polo preta que marcava o peito largo, bermuda clara e chinelos. Simples — e ainda assim impossível de ignorar.

— Arthuro pediu pra eu buscar o carro — completou, com um sorriso fácil.

— Claro — respondi. — Só um segundo, vou pegar a chave.

Enquanto me virava, senti o olhar dele percorrendo meu corpo. Voltei com a chave na mão — e foi então que o vi de verdade.

Sr. Juan tinha os mesmos olhos verdes dos filhos, mas neles havia algo mais calmo, mais denso. O rosto era marcado, bonito de um jeito maduro. O corpo, mesmo sob roupas simples, denunciava força, cuidado, presença. Braços firmes, postura aberta, um charme que não precisava se anunciar.

Entreguei a chave.

Ele segurou minha mão por um segundo a mais do que o necessário.

— Obrigado — disse, baixo.

— Não precisa me chamar de Senhor Juan, pode me chamar de Tio, como sempre chamou, eu só tenho 40 anos, risos.

— Ainda sou bem jovem para ser Senhor

— Sorri um pouco tímido, e concenti com a animação do Tio Juan.

Logo percebi que eu estava apenas de short, cabelo ainda úmido do banho. Ele pareceu notar.

— Você devia ir mais vezes lá em casa — comentou, já se afastando em direção ao carro.

Sorri.

— Eu devia.

Antes de entrar no carro, ele se virou novamente.

— Passa lá mais tarde — disse. — O Arthur vai gostar de te ver… ainda mais agora que tá de molho.

Havia algo no tom. No olhar que sustentou. No leve inclinar da cabeça.

Uma promessa não dita. Um passado que não precisava ser nomeado.

Sr. Juan piscou devagar.

Entrou no carro. Deu partida. Foi embora.

Fiquei ali, parado, sentindo o corpo responder antes do pensamento.

Com a certeza silenciosa de que aquela história não estava se encerrando...

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Comentários

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Nossa, são raros os contos que me fazem sentir emoções fortes de fato e esse tá começando a me fazer senti-las, gosto disso. Quero saber mais do seu passado com tio Juan e o pq de você de certa forma evitar ir na casa deles. Esperando ansiosamente pelo próximo capítulo.

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Obrigado, eu logo irei contar a respeito.

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Sempre que leio um conto bem escrito, me sinto completamente imerso, como se estivesse em um bom livro, vivendo a vida do protagonista. Você sabe despertar nossa imaginação e nos conduzir muito bem. Sinto o climax se aproximando e mal posso esperar pra ler mais da tua história. Ansioso para conhecer mais do Tio Juan e conhecer também Arthur e sua personalidade. Parabéns pelo conto.

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Obrigado pelo feedback. Estou tentando escrever da maneira mais descritiva possível, e organizando para não haver erros ortográficos e entregar um capítulo por dia... Vamos ver se consigo nesse ritmo rs.

Com toda certeza logo vocês vão conhecer maia de cada um deles, e vão se surpreender com a personalidade, caráter e ações de cada um.

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