Alguns dias depois, tarde da noite, o computador zumbia na escuridão do quarto, com um som hipnótico. Na tela, um loop de cinco segundos rodava. Era o instante exato em que Júlia, no vídeo, gozava com o consolo. Seu rosto, uma máscara de tensão sublime, os olhos verdes arregalados, não fitavam a lente. Fitavam um ponto logo acima dela, um ponto no espaço vazio do apartamento que, naquele dia, era ocupado pelo meu rosto.
Gemido.
Clique.
Gemido.
Clique.
Minha mão no mouse estava úmida de suor. O dedo indicador clicava com um ritmo involuntário, repetitivo, como o tique de um relógio condenado. A cada repetição, um choque duplo percorria minha espinha: a pontada aguda de culpa e a onda quente e imediata de tesão. Era um ritual de autoflagelação, uma tentativa doentia de dessensibilizar o cérebro para aquela imagem que agora era o centro do meu universo privado.
- Para - sussurrei para a tela, para o meu reflexo fantasmagórico sobreposto ao rosto dela. Mas o comando não chegava aos dedos.
Era a expressão dela que me destruía. Não era a cara de puta performática que ela tentava fazer. Era o momento de abandono total, quando a performance rachava e revelava a garota assustada e voraz por prazer por baixo. A boca entreaberta, os olhos vidrados num ponto fixo, nos meus olhos, a testa franzida. Ela estava linda. E estava olhando para mim.
Com um ruído gutural que saiu do fundo do meu peito, ergui a mão e desliguei o monitor com um golpe seco. Respirei fundo, tentando afogar o caos interno em ar. Não funcionou. O gemido dela ainda ecoava no meu crânio, grudado nas paredes da mente como um fantasma úmido.
Foi então que a ideia surgiu, não como um plano, mas como um desespero. Precisávamos sair daquele apartamento, daquele círculo vicioso de câmeras, telas e segredos abafados. Precisávamos fingir normalidade, mesmo que por uma hora. Celebrar o sucesso. Sim, isso era perfeito. Celebrar. O dinheiro estava entrando com os vídeos que eu postei, os números explodindo.
- Júlia! - chamei, minha voz soando estranhamente alta no silêncio do corredor. - Vamos jantar fora. Comemorar.
Ela apareceu na porta do quarto, envolta num short e numa camiseta larga, o cabelo preso num rabo de cavalo desleixado. Parecia uma garota qualquer. Mas eu já não conseguia ver ela assim. Só via a mulher do loop de cinco segundos.
- Sério? - perguntou, um sorriso cauteloso surgindo em seus lábios. - Aonde?
- Em um restaurante da orla. Tem vista pro mar.
Seu sorriso se abriu, genuíno, e algo dentro do meu peito se contraiu. Era fácil, tão fácil, fazer ela feliz com coisas simples. Por um instante, o monstro recuou, envergonhado.
- Que delícia! Vou me arrumar!
O vestido dela era um daqueles vestidos "simples", que são tudo menos simples. De um azul marinho profundo, um tecido leve que parecia derreter sobre as curvas do seu corpo. O decote não era exagerado, mas era preciso, terminando logo acima do início dos seios, sugerindo tudo e mostrando a perfeita sombra do vale entre eles. A cintura era marcada, e o comprimento, que deveria cair até o meio da coxa, parecia ter encolhido um pouco, ou talvez fosse só o movimento natural das suas coxas grossas que a empurrava para cima a cada passo. O cabelo loiro escuro solto, um brinco simples. Estava deslumbrante. E estava completamente alheia ao efeito nuclear que causava.
O restaurante era aconchegante, com toalhas xadrez e velas na mesa. O cheiro de alho e manjericão enchia o ar. Eu tentei focar no cardápio, nas palavras italianas que não faziam sentido, em qualquer coisa que não fosse a forma como o tecido azul se esticava sobre os joelhos dela quando ela se sentou, ou como a luz da vela fazia seus olhos verdes brilharem como vidro polido.
Foi quando eu vi o Fernando atravessar o salão. Meu estômago deu um nó instantâneo. Ele era um garoto, basicamente. Vinte e poucos anos, malhadinho, meio imbecil. Trabalhava no departamento de marketing do escritório, era daqueles caras que acham que tem intimidade com todo mundo.
- Ricardo! E aí, meu velho, que surpresa! - ele veio direto para nossa mesa, ignorando completamente o protocolo de não se intrometer no jantar alheio. Seus olhos, no entanto, já haviam feito um escaneamento completo de Júlia antes mesmo de pousarem em mim. - Não sabia que você era um homem de bons vinhos e belas companhias.
Forçando um sorriso que senti rachar nos cantos, me levantei para apertar sua mão.
- Fernando. Tudo bem? - minha voz soou mais seca do que a intenção.
Mas ele já estava voltado para Júlia, o olhar descaradamente apreciativo, o sorriso ainda mais largo.
- E nossa, quem é essa deusa? Você não me apresentou, Ric!
O sangue começou a ferver. Ric. Ele me chamava de Ric, dá pra acreditar?
- Júlia, esse é o Fernando, um colega do escritório - falei, as palavras saindo curtas e cortantes como estilhaços. - Fernando, essa é a Júlia, minha sobrinha.
A mão dela já estava estendida, mas em vez de um aperto, ele se inclinou e, com uma naturalidade que fez meus músculos do braço se contraírem, deu um beijo na sua bochecha. Ficou perto demais, por tempo demais. Eu vi os olhos dele, por uma fração de segundo, mergulharem no decote.
- Minha nossa, que mulherão, hein! Tão bonita, nem parece que compartilham o mesmo sangue - ele riu, alto e descontraído, olhando para mim como se compartilhasse uma piada interna. - Cuidado em exibir ela por aí assim hein Ric, se não vou acabar querendo entrar pra família!
O sorriso no meu rosto congelou. Virou uma careta de gesso, pesada e frágil. Eu não via o Fernando, o colega de trabalho. Via o avatar de todos aqueles comentários sujos, de todos os olhares na praia, da horda anônima que cobiçava o que era meu. Ela tinha, para ela, o mesmo olhar que eu tinha quando achava que ela não estava vendo. A mesma avaliação lasciva, a mesma fome. Só que nele, era permitido. Era um elogio.
- Fernando, estamos em um jantar privado - a frieza na minha voz fez o sorriso dele esmorecer um pouco. - Só família.
- Ah, claro, claro, desculpa aí - ele levantou as mãos, mas o olhar dele escorregou para Júlia mais uma vez, rápido e ganancioso. - É que é difícil não notar, né? Uma beleza dessa não se esconde. Bom, não vou atrapalhar o jantar de vocês. Nos vemos amanhã no escritório, Ric. Foi um prazer, Júlia.
Ele deu mais um aceno e se misturou à multidão. Eu me sentei lentamente, os nós dos meus dedos brancos de tanto apertar o encosto da cadeira. A atmosfera na mesa tinha mudado. A leveza se foi. Júlia olhava para mim, um pouco confusa.
- Ele pareceu legal - ela comentou, levando o copo de água aos lábios.
Legal. A palavra ecoou na minha cabeça como um insulto. Eu não respondi, fiquei em silêncio, olhando fixamente para o prato vazio à minha frente, mas sem ver nada. Só via o olhar do Fernando. O beijo na bochecha. O sorriso dele dizendo "entrar pra família". Uma fúria primitiva e possessiva fervilhava nas minhas veias, tão intensa que tinha gosto de metal na boca. O jantar passou como um borrão. Comi sem saber o que estava comendo, respondi a Júlia com monossílabos. O monstro, agora completamente solto, rosnava por dentro, cego de um ciúme que não tinha direito de existir, mas que era o sentimento mais verdadeiro e devastador que eu já tinha experimentado.
O silêncio no carro durante a volta foi tão espesso que parecia sufocante. Cada farol, cada semáforo, era uma eternidade. Eu conseguia sentir os olhares ocasionais de Júlia, a confusão dela pairando no espaço entre nós como um vapor. A fúria dentro de mim não havia esfriado, havia se compactado em um bloco sólido e pesado no centro do meu peito.
Ao entrar no apartamento, joguei as chaves na mesa com um ruído agressivo. Tirei a camisa, não com o cuidado de sempre, mas arrancando os botões que insistiam em não ceder. Respirava fundo, mas o ar não chegava aos pulmões.
- Tudo bem, tio? a voz dela veio atrás de mim, suave, cautelosa.
Me virei. Ela estava parada à entrada da sala, o vestido azul ainda deslumbrante, mas agora manchado pela memória do olhar do Fernando. A corda esticada dentro de mim arrebentou.
- Não, Júlia. Não tá tudo bem - a explosão saiu rouca, carregada de um veneno que eu não sabia que tinha estocado. - Aquele imbecil... A forma como ele te tocou, como ele olhou pra você... E todos os outros! Esses caras nos comentários, com seus desejos baratos e sujos... Os olhos deles em você... - avancei um passo, inconsciente, os punhos se apertando até doer. - Você não vê? Eles te olham como um pedaço de carne!
Júlia recuou um passo, não com medo, mas com surpresa. Seus olhos verdes estavam arregalados, analisando minha fúria como um fenômeno estranho.
- São só... Pessoas, tio - ela disse, e a razão na voz dela era um insulto ainda maior. - É o negócio. Você mesmo disse: engajamento. Visualizações. É... é assim que funciona.
“É assim que funciona.” A frase, minha própria arma, voltou para me atravessar. Ela estava citando meu manual, meu discurso de sócio pragmático. E de repente, com um choque que me tirou o equilíbrio, fez o chão parecer inclinar sob meus pés, eu entendi.
Eu não estava bravo com o Fernando, ou com os comentários, ou com o “negócio”. A ideia de qualquer outro homem tocando nela, pensando nela, cobiçando, era fisicamente insuportável. Era porque ela... Ela já não era um produto. Não para mim. Há tempos não era.
Ela era minha.
A revelação me atingiu como um golpe. Ofegante, eu me afastei, como se a proximidade dela pudesse queimar. A fachada do sócio e do tio desmoronaram em ruínas barulhentas dentro da minha cabeça, expondo o esqueleto podre e verdadeiro: eu a desejava como um homem deseja uma mulher. Sua mulher.
- Preciso de ar - engasguei, a voz irreconhecível. Virei e quase corri em direção à varanda, escapando da sala, dela, da verdade.
A noite lá fora era fria, o vento salgado do mar cortante. Encostei as mãos no parapeito de concreto gelado. Não sei quanto tempo se passou. O som da porta da varanda sendo aberta me fez estremecer.
Júlia saiu e ficou ao meu lado, olhando para o mar escuro, sem me encarar. Ela trazia um casaquinho leve sobre os ombros agora, cobrindo um pouco do vestido, do decote.
- Eu pensei na sua proposta - ela disse, a voz clara e contida cortando o vento. - Da... da parceria.
Meu coração parou. Parceria. Que palavra inocente.
- E? - a palavra saiu áspera, um farelo de som.
Ela se virou para mim. Na penumbra, seus olhos pareciam enormes, sérios. Não havia medo neles.
- Eu aceito.
O ar sumiu do mundo. Aceitava. Ela aceitava.
- Agora? - a pergunta saiu de mim antes que eu pudesse pensar, carregada de uma urgência animalesca que não tentei disfarçar.
Ela hesitou por uma fração de segundo, desviando o olhar. Então, um leve aceno.
- Sim, pode ser.
Viramos e entramos no apartamento. O ar dentro estava carregado, elétrico, como antes de uma tempestade. Meus movimentos foram robóticos, tensos. Peguei a câmera, ajustei o tripé com dedos que pareciam de madeira. Liguei as luzes de LED, que estalaram e cuspiram sua claridade cruel, e posicionei a câmera, já gravando. Eu era um técnico montando o set para a sua própria execução. Eu sentia meu pau, já uma barra dura e insistente dentro da calça jeans, latejando em sincronia com as batidas aceleradas do meu coração. Era uma presença obscena, um traidor que anunciava a verdade muito antes de minha mente admitir.
Júlia ficou parada no centro da sala, observando, o casaco ainda nos ombros. Quando terminei, nossos olhos se encontraram. Não havia mais script. Só o precipício, e nós dois, prestes a saltar.
Ela tirou o vestido, os saltos, os acessórios, enquanto eu assistia, hipnotizado, quase babando. Comecei a me despir também. Meus movimentos eram mecânicos, desprovidos de qualquer sensualidade. Camisa, jeans, cueca. Quando a última barreira caiu, e meu pau saltou livre, já totalmente ereto e imponente, um som escapou dela, um pequeno suspiro ofegante.
Seus olhos, antes tão determinados, se arregalaram. Ela olhava fixamente pro meu pau.
- Nossa... - ela sussurrou, e a voz tinha uma mistura de admiração genuína e algo que poderia ser medo. - É... é do tamanho do consolo. Até... até mais grosso, eu acho.
As palavras dela, carregadas de uma avaliação comparativa e crua, foram como gasolina no meu desejo. Meu pau pulsou violentamente, um movimento involuntário de triunfo animal. Me senti, naquele instante, invencível. Eu tinha o equipamento, eu tinha o conhecimento. E eu tinha ela.
Embalado por essa onda de poder primitivo, fechei a distância entre nós. Meus olhos se fixaram em seus lábios, que pareciam tão suaves. Era o que faltava. O que tornaria aquilo mais do que negócio, mais do que gravação. Um beijo seria o selo, a confirmação de que aquilo era entre nós.
Mas quando me inclinei, ela recuou a cabeça, um movimento rápido e decisivo.
- É melhor não - disse, e sua voz tinha uma firmeza que me paralisou. - Beijar... beijar é muito íntimo. Isso aqui é... São só negócios, certo, tio? Trabalho.
O golpe foi certeiro e gelado. “Só negócios.” A frase que eu mesmo criei, a fachada que ergui, voltava para me esganar. Ela acreditava na minha mentira. Ou, pior, ela estava usando como escudo.
- Certo. É isso - concordei, a voz anormalmente áspera.
Me virei, evitando seu olhar, e procurei a camisinha que tinha deixado sobre a mesa. O ato de colocá-la foi o ritual mais solitário e deprimente da minha vida. Um ato de “negócio”. Um ato de contenção para um incêndio que já consumia tudo.
- Vem - ordenei, sentando no sofá, no ângulo que eu havia calculado mil vezes na minha cabeça. A câmera nos observava, o olho vermelho do gravador aceso. Minha voz tentou encontrar a firmeza de diretor, mas saiu trêmula, quebrada. - V-Vem por cima. Assim a câmera pega seu rosto, sua bunda e o... o encaixe - engoli em seco. - Olha para a lente, não para mim.
Ela obedeceu. Subiu no sofá, suas coxas grossas se abrindo, e se posicionou sobre mim. Sua sombra me envolveu. Eu senti a ponta do meu pau, envolta no látex, pressionar contra a entrada daquela bucetinha perfeita e melada. Então, ela desceu.
Um gemido rouco e profundo, gutural, rasgou a sala. Veio da minha garganta. Não era um som dirigido. Não era parte da gravação. Era a pura, bruta e animal reação de um corpo sendo invadido pelo paraíso proibido. A sensação foi de um aperto úmido e quente, uma pressão perfeita que envolveu cada centímetro de mim com uma voracidade que tirou meu fôlego. A buceta dela era apertada, deliciosa, exatamente como eu havia imaginado.
- Olha pra câmera e... Faz a cara de... - tentei continuar, o diretor tentando reassumir o controle. Mas as palavras morreram em meus lábios. Meus olhos, contra todas as ordens que eu mesmo havia dado, subiram e encontraram os dela.
Ela não estava olhando para a lente. Estava olhando para mim.
Seus olhos verdes, tão parecidos com os meus, estavam vidrados, a pupila dilatada, transbordando uma entrega que não era performance. Era prazer cru. Era surpresa. Era a Júlia, minha princesa, se deliciando em estar sentindo minha rola.
A racionalização desmoronou. Toda a fachada de negócio, de parceria, de direção, caiu em ruínas silenciosas. Não havia mais script. Não havia mais público. Só havia ela e eu, unidos pela carne, pelo sangue, pelo pecado.
Ela começou a se mover, um ritmo inicialmente hesitante, então mais seguro. Seus olhos, de vez em quando, piscavam para a câmera, um reflexo treinado. Mas invariavelmente retornavam aos meus, presos, como se eu fosse o único ponto fixo em um universo que girava loucamente.
- Tio... - ela gemeu, ofegante. - Assim está bom?
O jeitinho que ela me chamou de tio, gemendo, foi como uma facada dolorosa no estômago que me encheu com mais tesão ainda.
- Está sim... - meu próprio gemido foi uma confissão. - Está perfeito, Ju. Você tá sentando muito gost... Muito bem. O vídeo vai ficar perfeito.
Eu não estava nem aí para o vídeo. Tudo o que importava era o quadril dela sobre mim, o som úmido da nossa união, o mel quente dela escorrendo e lubrificando cada movimento, fazendo meu pau, já tão sensível, pulsar com uma urgência insana.
- Aiii, tio... Eu não consigo mais segurar... Eu vou... - a voz dela era um fio de agonia e prazer.
- Eu também, princesa... - o último fio de racionalidade se soltou, levado pela maré de sensações e pela posse absoluta daquele momento. Meus quadris arquearam para encontrar os dela num ritmo final, desesperado. - Goza na pica do tio, Ju. E eu vou gozar com a sua buceta me apertando.
Foi a sentença final. Não havia mais direção, só instinto. Ela me abraçou forte e eu correspondi enquanto o clímax nos atingiu quase ao mesmo tempo, brutal, sincero, um terremoto que nos sacudiu. Um grito abafado dela, um rugido rouco meu. O mundo se reduziu a espasmos cegos e à pressão úmida e convulsiva que me extraía tudo, até a alma.
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado do cheiro do sexo e do choque. Ofegantes, encharcados de suor, nos encaramos. Nos olhos verdes dela, idênticos aos meus, eu vi o reflexo do meu próprio horror. E, misturado a ele, um êxtase residual que era um eco do meu.
Eu me afastei primeiro, a separação física soando como um estalo seco no silêncio. Ela saiu de cima de mim, desajeitada, e se sentou na outra ponta do sofá, recuperando o fôlego.
Sem uma palavra, me levantei, minhas pernas tremendo, e fui até a câmera. Apertei o botão de parar com um movimento brusco, violento, como se estivesse desarmando uma bomba. O LED vermelho se apagou.
Virei para ela. Minha voz, quando saiu, era apenas um sussurro rouco e gasto.
- Esse vídeo... não vamos usar.
Ela me olhou, sem entender.
- Ficou... ruim - completei, a mentira patética pairando no ar poluído entre nós.
Mas nossos olhos se encontraram novamente, e não havia dúvida. A verdade era muito pior. Não tinha ficado ruim. Tinha ficado real demais.
Júlia não contestou. Apenas puxou casaco do chão e se envolveu nele num movimento rápido, como se tentasse se apagar da cena.
Eu me virei e comecei a desmontar o equipamento com uma fúria contida. Desliguei as luzes de LED, que estalaram ao se apagarem, mergulhando um canto da sala de volta na penumbra. Desparafusei a câmera do tripé, meus dedos encontrando dificuldade nas roscas simples. Cada clique, cada movimento, era um eco vazio do ritual que havíamos executado minutos antes.
Nenhum de nós falou. O som era apenas o meu ruído mecânico e a respiração ainda um pouco ofegante dela, que tentava disfarçar. O cheiro do sexo impregnava o ar, um fantasma físico do nosso crime, mais eloquente que qualquer palavra.
Quando o último cabo foi enrolado, eu fiquei parado no meio da sala, a câmera inútil na minha mão. Para onde ir? O que fazer? Meu quarto era uma cova de segredos digitais. A sala, o palco da nossa queda. A varanda, o lugar da minha covardia.
Júlia se levantou do sofá. Sem me olhar, ela murmurou para o chão, a voz anasalada e pequena:
- Vou... vou tomar um banho.
Era uma fuga. A mais básica e humana das fugas. Se lavar. Tentar apagar o que não tinha volta.
- Ju... - a palavra saiu antes que eu pudesse pará-la. Um sílaba presa, um apelo sem direção.
Ela parou, mas não se virou. Apenas inclinou a cabeça, um gesto mínimo que significava "O que?" ou talvez "Por favor, não."
Eu não tinha nada para dizer. Nada que não fosse um desabafo de culpa, de desejo, de posse doente. Nada que não piorasse tudo. Então, engoli o grosso nó na garganta e balancei a cabeça, mesmo sabendo que ela não podia ver.
- Nada. Vai lá.
Ela desapareceu no corredor, e logo o som da água correndo no chuveiro preencheu o apartamento. Um som comum, doméstico. Um som que tentava, em vão, lavar a nossa nova e suja normalidade.
Eu desci a câmera no chão, cuidadosamente, como se fosse um artefato explosivo. E, de certa forma, era. Nela estava o vídeo que "não íamos usar". A prova. O registro do momento em que deixamos de ser tio e sobrinha, sócio e modelo, e nos tornamos... isso. O que quer que isso fosse.
Sentei no sofá, ainda quente, e encostei a cabeça. Fechar os olhos foi pior. A memória era mais vívida, mais cruel que qualquer gravação.
Agora que o abismo foi cruzado, o que diabos a gente faz do outro lado?
(N.A.: O que estão achando da história até agora? É sempre bom ter feedback. Agradeço a todos os comentários feitos nos capítulos anteriores.)
