[Perspectiva de Elaine]
Tive uma noite agitada. Minha mãe me ajudou a dormir. Ela me abraçou, e conversamos sobre a vida e como as coisas sempre se resolvem para o melhor. Ela confirmou o que a Dra. Wilson tinha dito: "Todos cometemos erros. Alguns fazemos conscientemente, outros subconscientemente, influenciados pelos outros. Quando percebemos o impacto, ou aceitamos e lidamos com as consequências, ou ignoramos. A terceira opção é ficarmos tão devastados que não conseguimos nos recuperar, o que arruína nossa vida."
Meu erro me jogou num estado depressivo. Fiquei devastada, duvidando do meu valor como esposa. A Dra. Wilson me ajudou a entender que não foi uma falha de caráter, mas uma química animal. Foi o cenário perfeito: um homem entrou na minha casa e violou meu corpo porque quis. A força física dele me dominou, e meu desejo reprimido o deixou entrar. O problema não foi meu caráter, mas a necessidade física de satisfação, amplificada pela falta de sexo, que permitiu que aquele predador me controlasse.
A avaliação da médica fez sentido. Sou uma mulher muito sexual. O Alfonso sempre satisfez minhas necessidades, mas ele estava viajando, e um predador desconhecido entrou na minha casa.
A doutora explicou: "Foi a tempestade perfeita. Um macho alfa predador encontra uma fêmea carente e excitada. Os feromônios se misturaram. Naquele momento, ninguém negaria o prazer. A agressividade do Matheus e seu desejo de ser desejada criaram a explosão."
Ela me perguntou se eu já tinha sentido algo assim antes. Não. Já estive com outros homens antes do Al, mas nunca senti aquele magnetismo animal, aquela atração bruta que senti pelo Matheus.
O Matheus era gostoso, e eu fiquei excitada. Ele ficou duro só de me olhar. Tinha um corpo lindo e um pau enorme. Quando o vi nu, nada me impediria. A luxúria foi um incêndio. Nada fora daquela cama importava — nem o Alfonso, nem meu casamento. O Matheus queria meu corpo todo, e eu queria ser usada por ele.
Como expliquei pra Dra. Wilson, quando nossos corpos se juntaram, viramos uma máquina. Ele era o pistão mergulhando fundo no meu motor, nos levando a alturas que nunca experimentei. Explodimos juntos numa bola de energia sexual. Foi incrível. Quero isso com o Alfonso toda vez que fizermos amor!
Suspirei na cama. A sessão de hoje vai me dar respostas. Agora que sei que tenho essa necessidade, como canalizo isso pro Alfonso pra que ele seja sempre o único a liberar meu demônio sexual?
Me sentindo melhor, mandei mensagem pro Alfonso.
Minha mensagem: "Bom dia, meu amor. Sinto muito pelo que aconteceu, mas ao mesmo tempo, fico feliz que tenha acontecido. Parece estranho, mas vou te explicar. Espero que tenha dormido bem. A médica me ajudou muito. A sessão de hoje vai me dar os passos pro nosso futuro. Sim, nosso futuro, se você ainda quiser um. Te amo, Alfonso Friese, e quero ter muitos 'Friesinhos' com você. Esteja pronto pra mim hoje à noite. Vou te encher de amor e beijos. Te vejo mais tarde!"
Deitei, imaginando a resposta.
Alguém bateu leve na porta. Minha mãe abriu uma fresta. Eu estava nua na cama, mas não me cobri. Essa sou eu agora.
Olhei o celular: 7h24.
"Bom dia, querida. Posso entrar?" Mamãe sussurrou.
"Claro." Ela entrou com duas xícaras de café. Amo tanto ela!
Não me cobri, só me encostei na cabeceira.
Olhei pra minha mãe. Deus, ela é gostosa pra uma mulher de cinquenta anos. Estava quase nua, só de calcinha de renda rosa transparente e uma camiseta velha da Stock Car que o papai deu pra ela. Ela usa essa camiseta quase toda noite desde que ele morreu num acidente com motorista bêbado, quatro anos atrás. O papai era o amor da vida dela, assim como o Alfonso é o meu. Ela sofreu muito, mas foi forte. Assumiu a corretora de seguros dele e fez o negócio crescer. Com o dinheiro do seguro de vida e do processo, criou uma ONG pra ajudar vítimas de trânsito.
Ela se aninhou comigo, sorrindo. "Vai ficar nua?"
Tomei um gole de café. "Sim, essa é a nova eu. Sou um espírito sexual agora."
Mãe sentou. "Segura isso." Me deu o café dela.
Ela ficou de pé na cama, tirou a camiseta e a calcinha. Fiquei chocada. Ela estava ali, a meio metro de mim, totalmente nua, mãos nos quadris.
Mãe era linda. Corpo firme, seios naturais grandes (tipo sutiã 46), com caimento natural. Quadris largos de quem teve três filhos. Mas a barriga era chapada, e a depilação estava em dia — lisinha. A fenda dela era funda, lábios grossos como os meus. Ela estava incrível.
Engoli em seco quando ela perguntou: "O que acha desse corpo velho?"
Provoquei: "Caramba, dona Edie, preciso arrumar um homem pra cuidar de você!"
Ela riu, se jogou na cama e ficamos ali, tomando café nuas, curtindo a companhia.
[Perspectiva de Alfonso]
Meu celular vibrou às 7h18. Dormi bem.
Mensagem da Elaine. Fiquei animado. Talvez ela esteja evoluindo.
Mensagem da Elaine: "Bom dia, meu amor. Sinto muito pelo que aconteceu, mas ao mesmo tempo, fico feliz... Posso explicar..."
Ela parecia otimista. A Dra. Wilson deve ter ajudado. Fiquei feliz que ela estava voltando. Podíamos superar isso.
Fiz uma lista mental para a noite. Precisava ser memorável.
Respondi:
Minha mensagem: "Amor, fico feliz que esteja bem e queira voltar. Vamos superar isso. Que horas você chega?"
Ela respondeu rápido:
Mensagem da Elaine: "Ah Al, que bom! Tenho médico às 15h, vou direto de lá. Tenho uma fofoca engraçada da minha mãe pra te contar. Te amo, até mais!"
Mandei uns emojis e uma berinjela no final. Sutil.
Comecei a arrumar a casa. Troquei os lençóis pelos de seda egípcia. Fiz a cama impecável.
Passei o dia comprando coisas pro jantar. Filé mignon com bacon e batatas gratinadas (comprei prontas no mercado gourmet pra facilitar). Fiz aquela salada wedge com gorgonzola que ela adora.
Tomei banho e assisti um jogo na TV.
Repassei o plano. Tinha preparado um acordo pós-nupcial draconiano. Ela teria que assinar. Se traísse de novo, sairia sem nada. Era duro, mas necessário.
Não faríamos amor hoje. Ela precisava de exames de DST primeiro. O Matheus podia ter deixado "presentes". Isso seria um choque pra ela.
Contaria sobre as outras mulheres que o Matheus enganou. As histórias tristes de divórcios.
Seria um retorno tenso, mas necessário. Precisávamos de resolução.
O relógio marcava 16h20. O coração acelerou.
[Perspectiva de Elaine]
O dia com a mãe foi estranho. Ela não quis se vestir. No almoço, me contou sobre o Edson, um viúvo rico da rua de cima. Estavam tendo um caso. Tentei não ouvir detalhes, mas ela estava empolgada.
Parece que herdei o desejo sexual dela. Meus pais eram ativos, e a viuvez a deixou carente. Até o Edson aparecer.
Ela começou a falar que o boato sobre homens negros era verdade. Tive que interromper quando ela ia descrever o sexo oral. Combinamos que ela podia se divertir, mas sem detalhes sórdidos pra filha.
Fui pra consulta. A Dra. Wilson me alertou sobre coisas que eu não tinha pensado: o Alfonso podia não querer sexo hoje. E DSTs. O Matheus gozou dentro de mim cinco vezes. Gelei. Ela me indicou uma clínica.
Também disse que o Al podia ter problemas de desempenho, imaginando o Matheus. Disse que a culpa era 100% minha e que eu nunca devia mencionar aquela noite ou comparar. Se fizesse isso, perderia ele.
Saí de lá preocupada, mas esperançosa.
Quando virei na minha rua, gelei. A Fiorino do Matheus estava lá, junto com outras quatro caminhonetes. Cinco homens parados na calçada, segurando pedaços de pau e barras de ferro. Passei direto e liguei pro Alfonso.
"Alô Elaine?"
"Al, pega as armas! O imbecil do Matheus e os amigos dele estão aqui na frente com paus e ferros. Vão invadir!" Gritei.
"Calma, eu imaginei. Liga pro Jason e pro Edwin. Manda eles entrarem pelos fundos. Espera longe daí e liga pra polícia se precisar, mas não aparece. Amo você. Vai dar tudo certo."
Desliguei, liguei pros amigos dele e manobrei pra assistir de longe. Coração na boca. Que merda eu fiz.
[Perspectiva de Alfonso]
Liguei pro Roberto e pro Tim, vizinhos e CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores). Mandei virem "carregados" — espingardas calibre 12 com munição de elastômero (bala de borracha) e sal grosso. Mandei mensagem pros outros maridos traídos. Nove homens apareceriam como "vizinhos curiosos". Liguei pro Paulo, dono do guincho 24h da frente. Ele mandaria dois caminhões pra rebocar os carros dos invasores e causar confusão.
Fui pro sótão (tenho uma janela tática lá). Eram cinco, mais o inútil do Matheus mancando. Vi uma espingarda de caça com eles, mas eu estava mais bem preparado. Montei meu rifle de precisão (legalizado para tiro esportivo) com supressor. Carreguei com munição de borracha de alta densidade. Iam ficar roxos por semanas.
Os guinchos chegaram e fecharam as caminhonetes deles. O motorista desceu com a ordem de serviço falsa. O Paulo saiu gritando que tinha chamado porque eram carros suspeitos abandonados. Era a deixa. A discussão começou.
Era hora. Mirei no quadril do Matheus e disparei. O supressor abafou o som. Ele gritou e caiu. Acertei o líder da gangue no ombro e o outro no braço. Caíram urrando. Os outros dois correram pros carros e fugiram cantando pneu.
Mandei mensagem pra Elaine: "Não chama a polícia. Resolvido."
Os guinchos saíram rápido. O Paulo entrou. Ficaram só os três estropiados no chão. Liguei pro Matheus.
"Matheus, cala a boca e escuta! Você tem um minuto pra sumir daqui. Se eu vir sua lata velha no meu bairro de novo, a munição vai ser letal. Entendeu? E outra: falei com nove maridos que você chifrou. Eles sabem quem você é. Sugiro que suma da cidade até semana que vem. Depois disso, é temporada de caça aberta. Vaza!"
Dei mais três tiros nos para-brisas das caminhonetes deles pra enfatizar.
Eles se arrastaram pros carros e fugiram apavorados.
Mandei mensagem no grupo dos maridos: "Valeu o apoio, pessoal. Recado dado. Ele vai sumir."
Liguei pra Elaine.
"Amor, pode vir. O lixo foi levado. Vem pra casa."
Ouvi o portão da garagem abrindo.
Fui pra cozinha. Ela correu pros meus braços. Abracei forte. O cheiro dela... senti falta.
Trouxe as malas dela. Minha esposa estava em casa.
[Perspectiva de Elaine]
O que foi aquilo? Matheus e uma gangue vindo atacar o Al?
Entrei tremendo. O Alfonso estava calmo, limpando o rifle.
"Elaine, você tá bem?"
"Não! O que aconteceu?"
"Vou explicar. Mas primeiro, bem-vinda de volta." Ele me beijou.
Abracei ele chorando. "Tô aqui, amor. Pra sempre."
"Senta aí. Vou pegar um vinho." Ele trouxe um rosé gelado.
"Elaine, quando você saiu, investiguei o Matheus. Achei o site dele e vi avaliações de mulheres conhecidas. Liguei pra Cláudia, que te indicou ele. Sabia que ela transava com ele há um ano e o marido largou ela por isso?"
"O quê? Não! Sabia que ela separou, mas não disso!"
"Pois é. Ela me deu nomes. Falei com várias mulheres e maridos. Todos cornos do Matheus. Fizemos uma reunião no Zoom ontem. Montamos uma rede de proteção. Sabia que o ego dele ia fazer ele vir atrás de mim."
"Hoje, quando você avisou, ativei o plano. Os vizinhos ajudaram, o Paulo do guincho ajudou. Usei meu rifle com bala de borracha. Acertei o Matheus e os líderes. Eles fugiram morrendo de medo. E avisei que os outros maridos estão atrás dele. Ele vai ter que mudar de estado."
Fiquei boquiaberta. Meu marido não só me perdoou (espero), como organizou um exército pra defender nossa casa e expulsar o predador.
Ele serviu mais vinho. "Agora, temos coisas sérias pra conversar sobre nós. Mas o Matheus... esse é passado."
[Perspectiva de Alfonso - Continuação]
Eu ficava olhando pra ela beber o vinho, vendo aquele sorriso aliviado estampado no rosto. A Elaine achando que tava tudo resolvido. Que o plano era só expulsar o Matheus e voltar pro nosso conto de fadas. Que eu era o herói que tinha organizado tudo, que tinha perdoado, que tava pronto pra seguir em frente.
O rosé escorria pelo canto da boca dela e eu só conseguia pensar em sangue.
Sangue no deserto. Sangue nas ruas de Mossul. Sangue do Jorginho, meu companheiro de pelotão, que tinha metade da cabeça vaporizada por um atirador enquanto a gente tomava café da manhã num checkpoint qualquer. O cheiro daquele café... pó preto, aguado, misturado com pó de giz e sujeira... e aquele crack seco, e o Jorginho simplesmente não tava mais ali. Só a névoa vermelha pairando no ar por um segundo que durou uma eternidade.
Eu tinha voltado daquele inferno com um buraco na alma que a Elaine ajudou a tapar. Com terapia, com amor, com aquela puta de uma rotina cafona de casal que eu abracei como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Porque era. Era.
Mas agora... agora eu sentia o mesmo vazio de volta. Só que pior. Porque antes era o inimigo lá fora, era o talibã, era o terrorista suicida. Agora o inimigo tava sentado na minha sala de estar, usando uma blusa que eu dei de presente de aniversário, com o cabelo preso num ratinho desleixado que ela sabia que eu amava, cheirando a shampoo e a traição.
Ela tava realmente achando que eu ia perdoar assim tão fácil? Que organizar uma milícia de chifrudos e dar uns tiros de borracha no Matheus ia resolver o que ela fez?
A Dra. Wilson. Porra, a Dra. Wilson. Eu devia ter atirado nela também. Aquela vaca me ligou ontem à noite, depois da sessão da Elaine. Me deu um relatório completo. "Alfonso, a Elaine está em um estado vulnerável. Ela precisa de segurança, rotina, e principalmente, de sentir que você é a âncora dela." Âncora? ÂNCORA? Eu era o navio inteiro afundando, e ela queria que eu fosse a âncora da puta que me traiu?
Mas o pior... o pior foi o detalhe que a Dra. Wilson deixou escapar sem querer. "Ela descreveu o ato com o Matheus como... libertador. Uma máquina. Um pistão. Uma altura que nunca experimentou."
Eu senti o gosto de metal na língua. O mesmo gosto de antes, quando a gente entrava nos veículos e não sabia se ia sair. O gosto de adrenalina pura e medo mortal se misturando numa sopa de merda que eu engolia sem reclamar porque era meu trabalho.
Mas agora... agora eu podia escolher.
E eu escolhi.
"Al, você tá estranho. Tá me olhando..." ela começou, mas eu cortejei.
"Tô só pensando, amor. Em tudo que a gente precisa reconstruir." Meu sorriso devia parecer genuíno, porque ela relaxou. Seu ombro desceu, aquele sorriso bobo voltou.
Eu ia reconstruir tudo, sim. Mas não do jeito que ela esperava.
O plano com o Matheus foi só a fase um. A fase dois... a fase dois era sobre ela.
Deixei ela no sofá, fui pro escritório. Peguei o acordo pós-nupcial que o advogado tinha preparado. Era draconiano mesmo. Se ela traísse de novo, perdia tudo. Mas eu sabia que documento era papel. Papel não cura traição. Papel não apaga imagens. Papel não faz você esquecer que sua mulher gemeu o nome de outro homem na sua própria cama, no seu próprio quarto, no espaço sagrado que eu construí com meu suor e meu sangue de guerra.
Eu precisava de algo mais... visceral.
Abri o cadeado do armário de segurança. Tinha duas armas lá dentro que ninguém sabia que eu tinha. Um revólver .38 que comprei no mercado negro de um PM aposentado em Betim. E uma faca de combate que trouxe da Síria, ilegalmente, claro, escondida na mala diplomática. Aquela faca tinha cortado gargantas. Aquela faca tinha sangue de inimigo. E agora ia ter sangue de traição.
Não o sangue dela. Não ainda. Talvez nunca. Talvez eu só precisasse sentir o peso dela na mão de novo, lembrar que eu ainda era aquele soldado. Que eu ainda podia fazer escolhas duras. Que eu não era só o marido corno que ficou em casa cozinhando filé mignon enquanto o predador comia minha esposa.
A Elaine tava no banheiro agora. Ouvir a água do chuveiro caindo. O mesmo chuveiro onde ela deve ter se lavado depois do Matheus. Será que ela sentiu o cheiro dele saindo do corpo? Será que ela ficou ali, debaixo da nossa ducha, com aquela água quente escorrendo pelos seios que eu beijava todo domingo de manhã, e pensou "nunca mais vou sentir aquilo de novo" ou pensou "quero sentir de novo"? A Dra. Wilson disse que ela queria canalizar isso pra mim. Mas e se ela não conseguisse? E se eu não conseguisse?
A água parou. Ouvi ela cantarolar. Cantarolar! Depois de tudo isso, ela cantarolava.
Fui até a porta do banheiro, me encostei no batente. O cheiro de vapor e shampoo de coco invadiu meus pulmões. O cheiro de "tudo normal". Mas eu sabia que nada tava normal. Eu sentia o buraco no meu peito se expandindo, aquele buraco que só fecha com violência ou com amor. E o amor tinha virado pó.
"Al? Você tá aí?" ela chamou, toalha enrolada. Vi o corpo dela, as curvas que eu memorizei, as marcas de sol que eu beijava no verão. Tudo parecia igual. Mas tava coberto de uma camada invisível de sujeira que eu não sabia como limpar.
"Tô, amor. Só queria ver você." Meu sorriso tava firme. Meus olhos devem ter tido um brilho estranho, porque ela deu um passo pra trás.
"Você... você parece diferente. Tá tudo bem?" A voz dela vacilou. Pela primeira vez desde que tudo começou, eu ouvi medo na voz dela. Medo de mim.
"Claro que tô bem. Nunca estive melhor, na verdade." Me aproximei, passei a mão na bochecha dela. Ela estava quente, macia. "Agora que o Matheus tá fora do caminho, a gente pode focar no que importa. Só nós dois."
Ela sorriu, aliviada. "Sim! Eu tô tão feliz, Al. Vamos reconstruir tudo. Eu vou te mostrar o quanto eu te amo."
"Eu sei que vai." Beijei a testa dela. O beijo demorou dois segundos a mais do que o normal. O tempo que meu cérebro precisava pra registrar que aquele era o mesmo local onde ela beijava o Matheus? Ou onde ele beijava ela? "Vai ser uma noite inesquecível. Eu preparei tudo."
Saí, deixando ela se arrumar. Fui até a cozinha, abri a geladeira. O filé mignon tava lá, perfeito, temperado. As batatas gratinadas, prontas. A salada, fresca. Uma refeição de reconciliação.
Mas na minha cabeça, eu tava planejando a próxima fase.
Primeiro, a cena. A cena da reconciliação. Eu ia ser o marido perdojoso, compreensivo, mas firme. Ia fazer ela assinar o acordo pós-nupcial. Ia fazer ela fazer os exames de DST. Ia isolar ela de tudo e de todos, pouco a pouco. Não de forma óbvia. De forma cirúrgica. Amigos que sumiam. A mãe dela que de repente tava "ocupada demais". O trabalho dela que ia ter problemas (problemas que eu ia causar, claro, com uns telefonemas anônimos pro chefe dela sobre "indiscrições da Sra. Friese").
Depois, a mente. Eu ia precisar quebrar aquela confiança dela de que o sexo com o Matheus foi "especial". Ia precisar mostrar que eu podia ser pior. Melhor. Mais intenso. Mais brutal. Mais tudo. Mas do meu jeito. Do jeito que eu sabia fazer. O jeito que aprendi quando interrogávamos prisioneiros. Quando quebrávamos mentes antes de quebrar corpos.
E por último, o coração. Porque a única forma de realmente me vingar era fazer ela me amar de novo. Completamente. Desesperadamente. E aí, quando ela tivesse 100% minha, quando não conseguisse mais respirar sem meu cheiro, quando não conseguisse mais dormir sem meu corpo ao lado... aí eu ia decidir.
Decidir se eu ficava. Ou se eu ia embora. Deixando ela com nada. Nem o amor que eu tinha construído de volta, nem a casa, nem a dignidade. Só o buraco. O buraco que eu sei bem como criar. O buraco que eu carrego dentro de mim desde Mossul.
A Elaine desceu, linda, vestindo aquele vestido vermelho que eu comprei pra ela no nosso terceiro aniversário. O vestido que ela usou na noite que a gente fez amor pela primeira vez depois que eu voltei da guerra. O vestido que ela jurou que só usava pra ocasiões especiais comigo.
Eu sorri. Dei a mão. Servi o jantar. Dancei com ela na sala. Fiz tudo direitinho. O marido perfeito.
Mas debaixo disso, eu sentia o metal frio do revólver no meu tornozelo, preso na coxeira. Eu sentia o peso da faca de combate no fundo da minha gaveta de meias, embrulhada num pano oleado. Eu sentia o gosto de sangue na minha língua, mesmo sem ter mordido nada.
Porque a guerra não acaba quando você volta pra casa. A guerra só muda de terreno. E eu tinha acabado de descobrir que meu próprio lar era o novo front.
"Al, você tá quieto demais. Tá pensando no que aconteceu?" ela perguntou, a cabeça no meu peito.
"Sim." Respondi, verdadeiro. "Tô pensando em tudo que a gente precisa reconstruir. E como vai ser bom, amor. Como vai ser... inesquecível."
Ela não viu meu sorriso no escuro. Mas se tivesse visto, talvez tivesse percebido que aquele sorriso não era de um marido apaixonado.
Era o sorriso de um soldado que acabou de encontrar o inimigo.
E dessa vez, o inimigo dormia no meu quarto.
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E vocês? Vai dar merda? Vai dar bom? Tá ficando sombrio isso heim… oq acharam da reviravolta?! Da instabilidade/loucura pós guerra? Comentem meus lindos! Essa história tá sendo bem pesada de escrever!