As férias de meio de ano tinham chegado como um intervalo estranho na minha vida. As férias, naquela época, sempre tiveram um gosto diferente para mim. Um tempo meio suspenso, sem horários, sem a rotina que organizava meus dias. Os dias ficaram mais longos, mais vazios e, justamente por isso, mais perigosos.
Foi numa dessas tardes sem compromisso que o convite chegou. Heitor me ligou com aquele jeito casual que nunca era totalmente casual:
— Você não quer dormir aqui hoje? – disse ele, com uma naturalidade ensaiada – Minha mãe vai sair com o marido. A casa vai ficar tranquila.
Eu fiquei alguns segundos em silêncio.
— Dormir aí… como?
— Ué, normal. A casa vai estar vazia. A gente vê um filme, conversa. Como dois amigos.
A palavra “amigos” veio carregada de segundas intenções, mas também de um pedido sincero. Hesitei. Pensei em dizer não. Pensei em proteger a mim mesmo. Mas pensei também no quanto sentia falta dele.
— Meus pais não gostam muito que eu durma fora.
— Inventa alguma coisa.
Houve um silêncio curto do outro lado da ligação.
— Estou com saudade de você.
Era sempre assim: Heitor dizia pouco, mas acertava exatamente onde doía. Eu cedi.
— Tá — respondi por fim — Eu vou.
Inventei uma desculpa simples para os meus pais e, no começo da noite, saí de casa com uma mochila pequena e um frio conhecido no estômago. Antes de sair de casa, me olhei no espelho. O olhar culpado que encontrei me irritou.
A casa enorme estava silenciosa quando cheguei. Sem música, sem festas, sem o movimento habitual (Rafael também estava viajando; somente Heitor, Julia e Miguel estavam na casa). Apenas o barulho distante da televisão. Heitor abriu o portão sorrindo, me recebendo com um misto de alívio e expectativa.
— Conseguiu fugir? Achei que você ia desistir.
— Eu quase desisti — confessei.
— Então entra – disse, baixinho, como se alguém pudesse nos ouvir naquela casa vazia.
Nós dois travamos o olhar, o nervosismo prévio se transformou em algo mais pesado, uma excitação que pulsava em nossos peitos. Entrar naquela casa sempre me dava a mesma sensação ambígua: conforto e perigo misturados. No quarto, Heitor havia montado um cenário quase infantil para disfarçar o que nós dois sabíamos que inevitavelmente aconteceria: um colchão no chão, ao lado da sua cama.
— Pra ninguém desconfiar — explicou, meio sem graça — Se alguém perguntar, você dormiu aí.
Sorri. O ar estava carregado com o cheiro de lençóis recém lavados e um toque fresco, misturado ao perfume do desodorante que eu havia passado antes de sair de casa. Olhei para o colchão, depois para Heitor, que sorriu com um ar de quem já tinha planejado tudo.
— Bem convincente.
— É pra você não ficar com medo de dormir na minha cama – diz Heitor, jogando um travesseiro no colchão com um gesto exagerado, como se estivesse fazendo um grande favor.
Ficamos ali como dois garotos normais. Pedimos lanche, assistimos a um filme qualquer, comentamos cenas bobas, rimos de coisas sem importância, conversamos sobre a cidade, sobre música, sobre lembranças antigas. Durante algumas horas, tentamos fingir que éramos apenas isso: dois amigos muito próximos passando uma noite comum.
Mas havia uma eletricidade silenciosa no ar. Sempre havia. E a intimidade tem memória. Conforme a madrugada avançava, as conversas foram ficando mais baixas, mais espaçadas. Heitor escolhera um filme de suspense, sim, mas quem conseguia acompanhar a trama quando as pernas dele tocavam as minhas, sem parar?
O filme terminou e nenhum de nós teve vontade de escolher outro. O quarto escureceu, restava só a luz azulada da TV. Quando os créditos subiram, Heitor simplesmente desligou a televisão. O silêncio era pesado, carregado de expectativa.
— Boa noite, então — disse ele, se esticando na cama.
Eu me acomodei no colchão, tentando manter a promessa invisível que fiz a mim mesmo de que não iria complicar mais nada. Pena que durou poucos minutos. Heitor olhou para mim estendido no colchão no chão, depois para a própria cama.
— Você vai ficar aí mesmo? — perguntou Heitor, baixinho — Você não precisa dormir aí se não quiser.
— Foi você que montou o colchão.
— Eu sei… mas não precisava ser tão literal.
Senti o coração acelerar.
— Heitor…
— Vem pra cá – ele murmurou, puxando o lençol num gesto aberto e convidativo.
Senti meu estômago se encolher. Mas não houve grandes decisões. Houve apenas aquele movimento quase inevitável de quem sabe exatamente onde quer estar. Me levantei do colchão no chão, me apoiei de joelhos na cama macia e aguardei, lado a lado com Heitor, sem falar nada.
Heitor se sentou, aproximou devagar a mão e colocou sobre o meu peito, sentindo a batida acelerada, os olhos cinzas fixos em mim, como um predador que sabe que a presa não vai fugir.
— Você tá nervoso? – a voz dele baixa, quase um sussurro.
— Tô – respondi, rindo da minha própria voz trêmula.
— Não precisa – Heitor murmurou – Deixa eu te ajudar com isso.
A sinceridade quebrou o gelo. Heitor deslizou os dedos por dentro da minha camiseta, encontrando minha barriga lisa, subindo os dedos até roçar de leve meus mamilos excitados. Arqueei o peito involuntariamente, sentindo o toque queimar minha pele, deixando escapar um “hmmm”, sem conseguir formar palavras. O som curto, surpreso, encheu o quarto de uma eletricidade que nos fez ambos estremecer.
Primeiro com cuidado, depois com naturalidade. E, como sempre acontecia conosco, o espaço entre nós dois foi diminuindo até desaparecer. Não houve urgência, nem pressa. Apenas aquela aproximação inevitável de quem já se conhece pelo toque.
Abraços demorados, mãos que se procuravam, sussurros que ninguém além de nós precisava ouvir. Uma intimidade construída mais de afeto do que de qualquer outra coisa. Ali, longe de todos, das brigas, das desconfianças, nós voltamos a ser apenas dois jovens se refugiando um no outro.
Heitor tirou a minha camiseta bem devagar, como se cada centímetro de pele revelada fosse uma página nova, o tecido raspando contra os meus mamilos sensíveis, me fazendo estremecer. Ele beijou meu ombro, minha clavícula, desceu até meu umbigo. O hálito quente provocou ondas de formigamento em mim, que se juntaram ao calor que já latejava entre as minhas coxas.
Antes que eu pudesse reagir, Heitor já estava de joelhos na minha frente, as mãos quentes deslizando pelas minhas coxas magras, apertando a minha carne firme enquanto a boca se fechava sobre um dos meus mamilos.
A língua úmida e ágil trabalhava em círculos, chupando com força, e eu soltei um gemido abafado, as mãos indo instintivamente para a cabeça de Heitor, os dedos se enterrando nos cabelos escuros dele.
— Porra, Heitor… — consegui dizer, a voz trêmula, enquanto o outro mamilo recebia a mesma atenção, sendo beliscado entre os dedos antes de ser sugado com avidez.
— Gosta quando chupo seus peitinhos, né, seu putinho? – Heitor provocava, levantando o rosto por um segundo, os lábios brilhantes de saliva – Tá todo duro já, aposto.
Não precisei olhar para baixo para saber que era verdade. Meu short estava apertado demais, meu pau latejando contra o tecido, e quando Heitor deslizou a mão para dentro do elástico, seus dedos roçando a base do meu membro antes de o envolver com firmeza, eu soltei um suspiro entrecortado.
— Heitor, cara… — tentei protestar, mas a palavra se perdeu quando Heitor começou a bombear devagar, o polegar espalhando o pré-gozo que já escorria pela minha glande.
— Cala a boca e geme pra mim – Heitor ordenou, a voz grossa de desejo, enquanto se levantava e me empurrava em direção à cama – Depois eu te como todo, seu safadinho.
Caí de costas no colchão, as pernas abertas sem vergonha. Sacudia a cabeça, pedindo mais, “mais, por favor”, sem formalidades nem rodeios. Heitor gostou do pedido e devolveu um sorriso safado. Enquanto arrancava o meu short, murmurou:
— Vai gemer pra mim, vai? Não quero ouvir outra coisa a não ser você gemendo bem gostoso — um pedido que ambos sabíamos desde logo que seria cumprido.
Meu short e a cueca desceram de uma vez. Meu membro saltou ereto, bateu leve contra o meu próprio abdômen, apontando para o teto, pulsando a cada batida do meu coração. Heitor não perdeu tempo, se ajoelhou entre as minhas coxas, a boca já aberta, segurou na base do meu pau, fez um carinho com o polegar no freio e, sem avisar, abocanhou a cabecinha, a língua saindo para lambuzar a ponta do meu pau, antes de o engolir todo, em um único movimento, sem aviso.
Meus quadris se levantaram, sem controle, empurrando o pau mais fundo. Soltei um gemido agudo, abafando a boca com o meu antebraço.
— Para com isso – pediu Heitor, baixo – Quero ouvir você gemendo pra mim.
Obedeci prontamente, mas minha voz sumia diante da língua que percorria o comprimento do meu pau, indo até a base e voltando com uma sucção firme, sucessiva. Heitor não se afobava. Ele trabalhava com calma, a cabeça subindo e descendo em um ritmo lento, as bochechas ocas, os olhos fixos nos meus, como se quisesse gravar cada careta de prazer, cada suspiro rouco.
De vez em quando, ele parava para cuspir na mão e passar no meu pau, lubrificando ainda mais, antes de voltar a me chupar com ruídos obscenos.
— Isso, seu viado… — ele murmurou, soltando o meu membro com um pop molhado — Tá gostando de ser chupado como um cachorrinho no cio?
Não respondi com palavras, mas quis retribuir. Empurrei Heitor, o deitando de costas, desci seu calção e puxei o volume que se anunciava duro contra o tecido. O calor do seu cacete me surpreendeu: senti o coração disparar de novo quando o pau de Heitor escapou para minha mão.
Apalpei, medi, curvei e lambi a pica de Heitor, provando o sabor salgado da primeira gota. A reação direta de Heitor, que rosnava (“isso, gostoso, chupa mais”), me animou: abri bem a boca, acolhi o máximo que consegui e enrolei a língua por baixo da vara rígida.
As nádegas de Heitor se contraíram, as coxas se ergueram instintivamente, empurrando mais fundo. Eu tossia, recuava, voltava, queria tudo, queria provar daquele cacete doce que me viciava cada vez mais. O prazer oral durou minutos que pareceram horas, cada gemido reverberando no quarto. Quando Heitor sentiu as bolas pulsarem, segurou o meu rosto, me afastando.
— Espera… quero mais de você. Vira.
A instrução soou rouca. Me virei de quatro, sem hesitar, me apoiando nos braços, tremendo. O medo pontual surgiu, mas Heitor me relaxou: depositou beijos doces nas minhas costas, desceu pela minha coluna, abriu as minhas nádegas macias e soprou ar quente sobre o meu anelzinho tensionado. Contraí o corpo inteiro, até que a língua de Heitor entrou em cena: círculos largos, batidas rápidas, penetrações curtas. A linguagem desapareceu; restaram os gemidos abertos, irrestritos.
— Vai – pedi, ofegante.
Heitor tirou a boca um segundo:
— Vou comer esse cuzinho gostoso, vai ver… aguenta — e mergulhou outra vez a língua em meu cuzinho, babando, lubrificando.
Ele levou a mão até os meus testículos, os massageando com cuidado, enquanto a outra mão explorava as minhas nádegas. Ele afastou um momento, cuspiu no próprio dedo indicador, trabalhando a entrada em movimentos circulares.
Quando o dedo encontrou o buraquinho apertado, Heitor não hesitou: pressionou a ponta contra a entrada, úmido de saliva, e começou a penetrar devagar, em círculos. O primeiro dedo pressionou, passou, entrou; respirei fundo, apoiei a testa no travesseiro.
— Ahn, caralho… mais devagar – eu arfava, meu corpo se contorcendo, minha bunda se levantando do colchão para encontrar o dedo que agora deslizava para dentro e para fora, me esticando sem piedade.
Heitor acatou, mas não parou: um segundo dedo se juntou ao primeiro, me abrindo, espalhando a saliva. Heitor cuspiu novamente para lubrificar e, dessa vez, quando os dois dedos se afundaram dentro de mim, eu tive que conter um grito, minhas coxas tremendo.
— Vai gozar assim, seu putinho? – Heitor perguntou, a voz abafada – Ou quer que eu te coma direito?
A cada estocada curta ele murmurava, “que delícia, seu cuzinho me deixa louco”, o palavrão soando quase um carinho, arrancando suspiros que eu nem sabia que podia dar.
Quando Heitor retirou os dedos, minhas pregas estavam escorregadias. Mas ele não terminou aí. Heitor espalhou um lubrificante extra, afastou minhas nádegas com as mãos, expondo meu buraquinho ainda pigando de saliva, e se posicionou atrás de mim.
— Agora eu vou te foder direito, seu viadinho – Heitor rosnou, cuspindo entre as minhas nádegas antes de se ajoelhar em cima de mim, o pau duro batendo contra a minha entrada, já relaxada pelos dedos – Você vai sentir cada centímetro...
Agarrei o lençol, Heitor encostou a cabeça da sua pica, fazendo uma massagem leve, entrando só a metade num primeiro impulso. O calor me apertou com força; Heitor parou, me deixando respirar.
— Tá doendo?
— Um pouco… mas continua – respondi, a voz quebrada, olhos marejados de excitação misturada à dor passageira.
Heitor avançou lento, centímetro a centímetro, até que a pele do seu corpo se uniu à minha. Aí, se controlou: ficou imóvel, beijando as minhas costas, sussurrando nomes, urros de paixão irreprimível.
Quando comecei a empurrar de volta, demonstrando a clara vontade de mais velocidade, Heitor obedeceu: retirou quase totalmente o seu pau, voltou em estocada firme e repetiu. O som dos corpos batendo ecoou, salpicado por gemidos abafados.
— É isso, fode meu cu, Heitor, vai mais fundo… – eu perdia a vergonha a cada sílaba, e a linguagem excitava ainda mais Heitor.
Eu empinava o quadril, aumentando o ritmo até a cama ranger. A tensão interna cresceu, nós dois suando, nossos corpos úmidos em atrito. Heitor se inclinou, envolveu o meu pescoço com o braço, segurou o meu membro com a mão livre e bateu uma punheta em mim no mesmo compasso da penetração. Urrei, perto do orgasmo:
— Vou gozar, porra, continua…
Não aguentei mais. Três bombadas mais fundas e o meu corpo convulsionou, com um gemido gutural, jorrando leite branco, quente e espesso sobre o lençol e sobre meus próprios braços. Meu cuzinho, que envolvia o cacete de Heitor, se contraiu em espasmos; Heitor não aguentou: se fincou até o fundo, soltou um rosnado rouco e liberou o próprio orgasmo dentro do meu cuzinho apertado, pulsando com força, torcendo os dedos dos pés.
Ficamos imóveis, os corações disparados batendo em sincronia. Heitor retirou seu pau com cuidado. Ele me abraçou por trás, soprando um beijo úmido na minha nuca.
— Tá bem?
— Tô – respondi, ainda ofegante, sentindo o sêmen escorrer entre meu próprio corpo e o lençol.
O quarto cheirava a sexo, transpiração, a algo que ambos carregaríamos como memória durante muito tempo. Heitor, sem querer me soltar, se aconchegou ainda mais, puxou o edredom até os nossos ombros e murmurou, na penumbra azul que ainda restava da noite:
— Amanhã a gente repete… se você quiser.
Respondi com um afago lento nos nossos dedos entrelaçados, de forma demorada, prometendo, mesmo sem palavras, que não haveria fuga.
A madrugada passou assim: lenta, cúmplice, silenciosa. Entre sussurros, carinhos contidos e beijos demorados, a noite avançou sem que nenhum de nós dois se preocupasse com o relógio. Ali, protegidos do resto do mundo, nós nos entregamos mais uma vez ao que sentíamos, ou ao que acreditávamos sentir.
Sem promessas. Sem explicações. Só presença.
Quando abri os olhos na manhã seguinte, a luz fraca já entrava pelas frestas da cortina, desenhando linhas claras no quarto ainda adormecido. Heitor ainda dormia de lado, sereno, como se nada no mundo o pudesse atingir. A correntinha de ouro repousava tranquila sobre o peito descoberto, subindo e descendo com a respiração lenta. Por alguns minutos, eu fiquei apenas observando em silêncio.
A cena era bonita. Confortável. Quase doméstica. E foi justamente essa tranquilidade que me assustou. Eu tentei organizar os meus próprios sentimentos, como quem arruma gavetas bagunçadas por dentro.
Sentia atração por Heitor, isso era inegável. Desejo, carinho, saudade. Até paixão, de verdade. Mas, naquela manhã silenciosa, surgiu uma pergunta nova, mais madura, mais difícil: será que havia amor de verdade ali? Admiração? Confiança? Ou eu estava apenas viciado na intensidade de Heitor. Essas perguntas começaram a pesar mais do que a leveza da manhã.
Me lembrei das últimas semanas: o ciúme excessivo, as brigas, as inseguranças, o modo como Heitor às vezes me tratava como algo que precisava ser guardado, escondido, controlado. Me lembrei também de Rafael, de Júlia, de toda a confusão que aquela relação havia criado. Pensei em tudo que já tínhamos vivido: nas mentiras, nos segredos, nos encontros escondidos. Virei o rosto para o lado e fechei os olhos.
“Até onde isso tudo vale a pena?”, pensei.
Gostava de estar ali, sim. Eu me sentia seguro com Heitor, na maioria das vezes. Mas também sentia que estava caminhando num terreno escorregadio demais para alguém como eu, tão novo, tão sem bagagem, tão sem experiência. Eu já começava a enxergar as falhas dele com clareza: a dependência emocional, o ciúme excessivo, a falta de rumo.
Eu não era mais o garoto deslumbrado do começo da história. Agora eu via as coisas com mais nitidez e, justamente por isso tudo, elas pareciam mais complicadas. Talvez Heitor me quisesse. Talvez me desejasse profundamente. Mas querer não era a mesma coisa que saber amar.
Heitor se mexeu na cama e acordou pouco depois, abrindo os olhos devagar e sorrindo ao me ver já desperto.
— Bom dia.
— Bom dia.
— Tá acordado faz tempo? — perguntou, com voz rouca de sono.
— Um pouco.
— Vem cá.
Ele me puxou para perto num abraço preguiçoso. Trocamos um beijo suave, quase inocente, e por alguns minutos eu me permiti esquecer todas as dúvidas. Quando levantamos, já perto do meio-dia, tomamos café juntos na cozinha vazia, conversamos sobre coisas pequenas, fizemos planos vagos que nenhum de nós dois sabia se realmente cumpriríamos. Tudo muito simples. Parecíamos um casal comum. Mas, no fundo, eu sabia que nós nunca o seríamos.
Mas eu sentia dentro de mim uma inquietação nova. Eu já não sabia se aquele relacionamento era um porto seguro ou um terreno escorregadio. Se Heitor era meu lugar de chegada, ou apenas uma parada longa demais no caminho. Ao nos despedirmos mais tarde, Heitor me beijou atrás do portão.
— Dorme aqui de novo essa semana?
Sorri, mas não respondi imediatamente.
— A gente vê.
Quando voltei para casa, com a mochila nas costas, eu carregava uma sensação estranha, um peso diferente no peito. Não era mais o peso da paixão, era o da consciência. Não era arrependimento. Mas também não era felicidade plena. Era algo no meio do caminho, um sentimento adulto demais para o garoto que eu ainda era.
Percebia, enfim, que aquela relação não podia continuar sustentada apenas por paixão e prazer. Faltava alguma coisa. E eu, pela primeira vez, comecei a admitir para mim mesmo que talvez essa coisa nunca tivesse existido de verdade.
