Nota do autor: pessoal acrescentei alguns diálogos pra enriquecer a história, precisei fazer leves alterações para que a história fique mais fechadinha, por favor, se quiserem ter uma imersão completa dessa série, releia a parte 1 e 2! (A 2 eu também vou precisar mexer um pouquinho, nada que altere a história da série, apenas soma a ela!!)
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— Nossa, o povo é muito porco, na moral! — Sam reclamou atrás de mim.
— Nem me fala — respondi, encarando uma fralda suja enfiada no meio de um arbusto de hibisco. — Jesus amado, sorte que eu tô de luva!
Puxando a fralda com a pontinha dos dedos por entre os galhos, joguei a nojeira num dos dois sacos de lixo pretos de cem litros que eu vinha arrastando. O primeiro era pra latinha e garrafa pet, o segundo pra qualquer outra imundície que aparecesse.
— O que era? — Sam perguntou. — Mais nojento que aquele X-Tudo podre que eu achei que quase me fez chamar o Raul?
— Era uma fralda. — Virei pra ela, abrindo um sorriso torto. — Recheada com aquela "mostarda" de bebê, então acho que tô ganhando no campeonato de nojeira.
Sam levantou de trás da moita e deu de ombros.
— Beleza, vou deixar passar essa, mas só porque a gente nem terminou ainda e eu sinto que vou achar coisa pior.
— Veremos. — Apontei o dedo pra ela. — Lembra do trato: quem perder paga a entrada do próximo filme de terror.
— Então guarda tua grana. Vai estrear um filme de zumbi semana que vem com mó cara de ser trash. — Sam riu. — E dessa vez eu quero o combo grande de pipoca, sem miséria, Bruno.
— Se é assim, não vou pegar leve. Vou querer um milkshake gigante e uma caixa de Bis só pra mim.
— Cê já namora uma Bis-cate, pra que quer uma caixa deles? — Sam sorriu, esperando eu morder a isca.
Sem conseguir segurar, rebati:
— Pelo menos eu tô namorando alguém. E você, pegou alguém quando? No carnaval passado?
— Prefiro ficar sozinha do que com aquela piranha — ela respondeu, tirando o boné do Flamengo e secando o suor da testa com as costas da mão.
— A Júlia não é piranha. Por que tu sempre implica com ela?
— Porque ela é, ué. Talvez você enxergasse se parasse de pensar só na comissão de frente dela.
— Fazer o quê? — Ri. — Ela tem peitos bonitos.
— Eu sei. Na real, a torcida do Flamengo inteira sabe. Não é como se ela fizesse questão de esconder.
— Se você tivesse, também ia querer mostrar. — Dei um sorrisinho de canto, sabendo que tava tocando na ferida.
— Eu tenho peito, caramba! — Sam estourou, caindo na minha pilha. — Só não fico desfilando por aí esfregando na cara dos outros.
— Eu tô ligado — falei, apontando pra camiseta rosa do Flamengo que ela usava. — Essa aí é do teu irmão? Tá parecendo um saco de batata em você.
— Eu me visto pra ficar confortável, tá? — Ela contornou o arbusto, arrastando o saco de lixo e a mochila nas costas. — Não preciso ficar fazendo propaganda. — Ela jogou a cabeça pro lado, fazendo a trança castanha dar uma chicoteada no ar. — Se um cara quiser ficar comigo, quero que seja porque ele curte meu papo, não porque quer comer minha bunda.
— Tu tem bunda dentro dessa calça? Jurava que tinha esquecido em casa.
Sam olhou pra trás, checando o jeans preto largo e meio desbotado que tava usando.
Caí na risada. — Que foi? Tá procurando?
— Qual é a tua hoje, hein? Tá querendo ser babaca? — perguntou, os olhos castanhos escuros fuzilando. — Tô gastando meu sabadão te ajudando a ganhar pontinho com aquela patricinha, e tu fica me tirando!
— Opa! — Levantei as mãos em rendição. — Calma, Sam, só tô gastando uma onda. Desde quando tu virou manteiga derretida?
— Não tô sensível. — Ela parou na minha frente e largou o saco no chão. — Mas cansa ficar ouvindo piadinha o tempo todo, e não é só de você. — Suspirou. — Pelo menos você não me chama de sapatão.
— Eu nunca falaria isso — disse firme, saindo de trás do mato. — Quem te chamou disso?
— Aqueles idiotas, o Jonas e o Dudu. — Sam fez um gesto de descaso com a mão. — Eu devia só ignorar, vindo de quem vem...
— Eu trampo com o Dudu. Na próxima vez que eu trombar com ele, vou mandar ele segurar a onda ou vou quebrar a cara dele.
— Não preciso que você me defenda — ela retrucou. — Aqueles dois são uns Zé Ruelas. Não importam.
— Importa se te deixa puta.
— Só tô meio de saco cheio hoje, acho... mas valeu por querer me defender. — Ela revirou os olhos, mas sem maldade. — Deus sabe que meu irmão não faria isso nem ferrando.
— É pra isso que servem os amigos, né não?
— É. — Sam olhou ao redor do bosque do Parque Municipal que eu tinha me voluntariado pra limpar como parte do projeto do Dia da Terra da Júlia. — E acho que servem pra ajudar a catar garrafa de Catuaba e lixo podre também.
— Pois é. — Tirei os óculos escuros e levantei a barra da camisa pra secar o rosto. — Te devo essa, Sam. Seguinte: o próximo cinema é por minha conta.
Ela arqueou as sobrancelhas. — Combo grande?
— Combo grande, e eu ainda pago dois refrigerantes em vez de dois canudos.
— Uhul! Me trata assim que eu fico mal acostumada! — Ela bateu os cílios longos pra mim, fazendo aquela cara de Gato de Botas. — Obrigada pelo meu próprio refri pessoal, Bruno! Posso pedir Sonho de Valsa também?
— Aí já tá forçando a amizade.
— Por favorzinho? — Ela fez biquinho.
— Golpe baixo.
— Por favor, vai? — O lábio inferior dela começou a tremer de mentirinha, e eu bufei, teatral.
— Tá bom, pode levar Sonho de Valsa, mas a gente divide.
— Fechado! — Ela bateu as palmas enluvadas e deu uns pulinhos igual criança quando ganha doce.
Ri daquilo. — Você é muito figura.
— Sério?
— É. Me lembra minha priminha quando faz isso.
— Ah. — Ela fechou a cara. — Podia ser pior.
— Bom — levantei a mão, vendo que tinha falado besteira —, tu é bonitinha de outros jeitos também. Você é gata.
— Acha mesmo? — Ela me olhou desconfiada.
— Ah, acho. Você é gatinha sim. Sabe, aquele tipo "menina da vizinhança".
— Vou aceitar o elogio. — Ela sorriu.
— É, e tem muito cara que curte isso. Não estilo "gostosona", mas gatinha.
— Você precisa aprender a hora de calar a boca, Bruno.
— Foi mal, eu quis dizer...
— Bora dar um tempo? — ela me cortou. — A gente já fez metade. O parquinho ali na frente é rapidinho, então que tal a gente rangar alguma coisa e mata o resto de uma vez depois?
Dei um tapa na testa. — Almoço? Putz, nem pensei nisso! Quer dar um pulo lá na lanchonete do...
— Imaginei que você ia esquecer. — Passando por mim, Sam sentou na raiz de uma árvore grande e abriu a mochila, tirando uma caixinha marrom e jogando na minha direção. — Toddynho?
— Salvou minha vida! — Peguei a caixinha no ar e furei com o canudo, sentando de frente pra ela.
— Eu te conheço — disse ela, tirando um pote de plástico com dois sanduíches embrulhados no papel alumínio. — Assim como sei que sanduíche de pastrami com queijo prato é teu favorito.
— Trouxe mostarda picante? — Minha boca encheu d'água quando peguei o pote.
— Mas é lógico!
Enquanto Sam tirava uma garrafa de Guaraná Antarctica e uma banana da mochila, tirei minhas luvas e virei metade do Toddynho num gole só.
— Caraca, desceu redondo — falei.
— Tipo a Júlia — Sam respondeu, chutando os All-Stars pra longe e esticando as pernas compridas na minha direção. — E pode comer tudo. Trouxe os dois pra você.
— A Júlia não é rodada, Sam. Já te falei, a gente tá junto há seis meses e a gente só fica nos amassos.
— Não falei que ela rodou na sua mão — Sam murmurou, baixo o suficiente, mas eu ouvi.
— Sério, Sam?
— *Sério*, Bruno. — Ela pausou, descascou a banana e enfiou na boca, fazendo um movimento com a cabeça pra cima e pra baixo, imitando um boquete na cara dura. Depois piscou. — Exatamente assim, pra qualquer um que der moral pra ela.
Não respondi na hora. Ver a Sam engolindo a banana daquele jeito me pegou desprevenido. Não que devesse. A Sam não só se vestia meio "moleque", mas tinha a boca mais suja e a mente mais poluída que a maioria dos meus amigos homens. Ela estragou a cena mordendo a ponta da fruta.
Me recompondo, entrei na defensiva. — Olha, a Júlia pensa igual a mim. Ela foi criada pra levar sexo a sério, por isso a gente não transou ainda. Ela acha que só deve rolar quando você realmente gosta da pessoa.
— Ela é uma alma muito caridosa mesmo.
— Corta essa, Samanta! — Ela já tava me tirando do sério.
— *Samanta?* — Ela riu. — Você nunca me chama pelo nome inteiro. A verdade dói?
— Por que você se importa tanto? Você não faz nada além de malhar a Júlia desde que comecei a namorar. Fala que ela é metida, que é piranha, e mal troca ideia com ela. Qual é teu problema?
— O problema é que eu me importo com você e acho que tão te fazendo de otário. — Sam deu a última mordida na banana e jogou a casca na mochila. — Olha pra hoje. Ela paga de "natureba", diz que o Dia da Terra é super importante, mas você tá aqui no sol quente e cadê a bonita?
— Ela tá em Grumari limpando a enseada. Não tem muita gente ajudando, então ela dividiu a turma.
— É, ela tá dividindo bem as coisas. Minha irmã disse que o ex dela tá no grupo da praia. Acho que ele tá... — Ela estalou os dedos. — Na praia. Você pensa o que quiser, mas não tem chance nenhuma dela não estar dando pro Robinho e sei lá mais quem. Ela tá te usando, Bruno, mas acho que você vai ter que quebrar a cara sozinho pra aprender.
Encarei ela, franzindo a testa. Eu tinha ouvido falar que o Robinho, o ex da Júlia, tava rondando, mas sempre que eu tocava no assunto ela ficava brava, dizia que eu era ciumento e não devia me preocupar. Quando eu insistia, a Júlia jogava na minha cara o tempo que eu passava com a Sam e como ela não tinha ciúmes.
Observando a Sam desembrulhar um sanduíche natural de pasta de amendoim com geleia e começar a comer, lembrei de como eu garanti pra Júlia que eu e a Sam éramos melhores amigos desde a quinta série, e que nunca rolou nada.
A Júlia insistia que era porque eu que não via, jurava que a Sam tinha uma queda por mim, que eu era ingênuo demais. Do mesmo jeito que a Sam tava me chamando de ingênuo por achar que a Júlia tava esperando o momento certo comigo.
Eu sabia muito bem que tendia a aceitar as pessoas pelo valor aparente e era confiante demais; mas nesses casos eu tava certo. Sam era uma boa amiga e não tinha zero interesse em ser mais que isso, assim como eu não tinha interesse nela como garota.
Também tinha certeza de que a Júlia não tava transando por aí. Diferente de mim, a Júlia já tinha ficado com alguém antes, e provavelmente mais que só o Robinho. Por outro lado, eu era a única pessoa da minha idade que conhecia que não tinha ficado com ninguém.
Mas depois que minha mãe descobriu que meu pai babaca tinha transado com qualquer uma que aparecesse por anos, ela me criou pra acreditar que sexo deveria ser especial na primeira vez, com alguém que significasse algo.
Eu não só concordava com ela, mas jurei pra ela que seria um homem melhor que meu pai e esperaria até conhecer alguém especial. Não que tenha sido fácil. Embora nunca tivesse conhecido ninguém por quem tivesse interesse sério até a Júlia, teve algumas garotas que deixaram bem claro que poderíamos nos divertir.
Às vezes me perguntava se não era idiota esperando, perdendo algumas chances de curtir. Mas minha mãe tava empolgada com minha promessa de tornar minha primeira vez significativa e isso meio que me prendeu a manter minha palavra. Tinha vezes que achava que podia só meter e ela nunca saberia, mas isso me faria um cachorro mentiroso não melhor que meu pai.
Quantas mulheres você comeu não te fazia homem; manter sua palavra com alguém que você amava fazia. E jurei manter meu voto e não ser um cachorro no cio. Eu sabia, no entanto, o suficiente pra não contar pra ninguém. Isso não significava que tinha que anunciar o fato de ser virgem. Qualquer garota que tivesse interessada só numa diversão, eu inventava a desculpa que tava namorando alguém. E eu era esperto demais pra contar pros caras.
A Sam sabia porque a Sam sabia praticamente tudo sobre mim, assim como eu sabia mais sobre ela que o próprio irmão e irmã. Nos conhecemos na quinta série quando fomos colocados juntos como parceiros de laboratório e imediatamente viramos bons amigos. Ambos gostávamos dos mesmos livros, filmes e videogames, e tínhamos as mesmas personalidades tranquilas. Onde éramos diferentes era quando se tratava do que as pessoas pensavam sobre nós.
A Sam basicamente marchava ao som do próprio tambor se vestindo como moleque e assistindo futebol e filmes de terror ruins enquanto passava mais tempo comigo e meus amigos que com as outras garotas.
Eu, por outro lado, usava roupas de marca e me preocupava bastante com minha aparência. O suficiente pra Sam, junto com minha mãe, me chamar brincando de "mauricinho" que geralmente tentava me apresentar como descolado.
Olhei pras pernas da Sam esticadas na minha frente. Os pés dela estavam descalços, e meus olhos ficaram na tatuagem de borboleta em cima do pé esquerdo. Deixei meu olhar vagar pelas pernas compridas, que eu tinha que assumir que estavam debaixo da calça larga. Enquanto ela olhava pra esquerda observando as crianças correndo pelo pequeno parquinho, foquei no peito dela.
Não tinha nada visível na camisa folgada. Não era a primeira vez que me perguntava o que ela tinha ali embaixo. Não era interessado no sentido de que eu a queria, mas nos anos que a conhecia nunca tinha visto a Sam usar algo justo ou minimamente revelador.
Ela nunca ia em nenhum baile da escola e mesmo quando fomos nadar algumas vezes ela usava bermuda e camiseta. Essa era praticamente a única vez que tinha visto as pernas dela, que embora meio magras, eram bem bonitas.
Voltei a olhar a tatuagem. Era colorida e num lugar que eu considerava sexy, mas ela raramente usava até sandálias pra mostrar. As unhas dos pés estavam pintadas de preto, e notei um anel de prata no dedo do meio.
A Sam tinha comentado uma vez que teve um namorado que gostava dos pés dela. Fiquei curioso se era por isso que ela tinha feito a tatuagem e usava o anel. Não querendo parecer que tava encarando, olhei pra cima.
A Sam tinha terminado de comer e tava descansando a cabeça na árvore com os olhos fechados. Eu tinha falado sério; ela era bonitinha. A Sam nunca usava maquiagem mas parecia não precisar. A pele era lisa e as bochechas tinham uma cor natural, e ela tinha os cílios mais longos que já tinha visto.
Esses cílios, junto com aqueles olhões castanhos, ela usava com bom efeito em mim, assim como nos irmãos mais velhos e no pai. A mãe dela tinha os mesmos olhos e sempre dizia pra Sam parar com aquilo, que ela tinha criado aquele truque e era imune.
O uso dos olhões geralmente vinha acompanhado dela fazendo biquinho de criancinha. Os lábios da Sam eram carnudos, e uma vez eu ouvi uns caras dizendo que ela tinha boca de chupadora. Voltei pro lance de alguns minutos atrás quando ela fez aquele show chupando a banana e como os lábios dela ficaram em volta da fruta. Balancei a cabeça.
Dando uma mordida no sanduíche, olhei de novo pro pé dela, me perguntando que diabos um cara faria com os pés dela. Me afastei dessa imagem, pensando que as coisas tavam ficando tensas quando eu começava a pensar nas escapadas sexuais da Sam.
Mas tudo isso ia mudar, e logo. Um sorriso cruzou meu rosto ao pensar no que eu tinha planejado pra amanhã à noite. Minha mãe e o namorado dela, o Beto, iam viajar hoje de tarde pra visitar uns amigos em Campos do Jordão e só voltavam na segunda.
A Júlia vinha dando a entender que tava confortável o suficiente pra querer transar, e quando mencionei que minha mãe ia ficar fora no fim de semana, ela perguntou se eu queria companhia.
A Júlia, que era praticamente o oposto da Sam, era loira com olhos azuis clarinhos. Enquanto a Sam era alta e meio magrela, a Júlia era baixinha com um par de peitões enormes que, como a Sam disse, ela fazia questão de exibir. A bunda dela era top demais também e ela não tinha vergonha de mostrar.
Mal podia esperar pra dar uma olhada naqueles peitos, sentir eles, chupar eles, e quem sabe até colocar meu pau no meio deles igual nos filmes pornô que eu assistia todo dia pra bater uma.
Bom, amanhã à noite eu ia gozar de verdade. A ideia de ter a Júlia pelada na minha cama fez meu pau inchar. Ao mesmo tempo, um friozinho de nervosismo passou pelo estômago. A Júlia não sabia que era minha primeira vez.
Eu devia ter mencionado, mas ela tinha experiência e eu não queria parecer idiota. Mas agora que parecia que a hora tinha finalmente chegado, eu ia ficar nervoso com só vídeos pornô como referência e com uma mina que já tinha feito. E se eu gozasse rápido ou não fizesse ela gozar rápido o suficiente? E se...
— Por que tu tá encarando meu pé?
Olhei pra cima. — Hã?
— Tu fica olhando pro meu pé. — A Sam mexeu os dedos. — Tem alguma coisa errada com eles?
— Não, parecem normais.
— Tu acha que meus pés são normais? — Ela riu. — Tu tem fetiche em pé?
— Claro que não! — Não querendo ser zoado, virei a conversa pra outro lado. — Então por que tu faz isso?
— O quê? — Ela franziu a testa, olhando pros pés. — A tatuagem?
— É, isso e as unhas e o anel. Tu quase nunca usa sandália, mesmo quando tá calor, então qual é a jogada?
— A jogada é que eu sei que tá ali e eu gosto de como o anel fica. — A Sam deu de ombros. — Eu faço por mim, não pros outros.
Sorri pra ela. — E quanto ao cara do pezinho?
— Não fiz a tatuagem por ele. Acabei de fazer quando conheci ele. — Ela piscou. — Mas ele disse que fez um baita alvo.
— Eca! — Torci a cara. — Informação demais!
A Sam deu risadinha. — Mas enfim, o que importa é o que tá por dentro, Bruno — não por fora.
— Eu entendo isso com sentimentos e tal, mas por que importa com a aparência?
— Porque gente vaidosa é gente superficial. — A Sam estendeu a mão e colocou na minha perna. — Mas você é diferente. Tu se veste igual os mauricinhos babacas, mas tu é gente boa.
— Eu não me visto...
— Papo furado! — Ela apontou pros meus óculos escuros. — Quanto custou essa porra?
— Duzentos conto, mas são Ray-Ban...
— Os meus vieram da loja de 1,99 e fazem o serviço. — Ela puxou minha bermuda. — Que marca é essa?
— São da... — comecei, mas ela continuou.
— E essa é uma camisa da Reserva que tu tá usando pra limpar o suor. Quanto foi, uns oitenta conto? E tu tá usando ela pra limpar lixo de parque. — Apontando pra própria camisa, ela disse: — Essa aqui foi dez reais e o jeans foi a mesma coisa em promoção. Meu look inteiro com os tênis sai menos que tua bermuda.
— Dá pra ver. — Dei um sorrisinho sacana.
A cara da Sam me disse que eu tinha pisado na bola, e ela rapidinho me cobrou. — Tu nunca teria feito essa gracinha antes de começar a namorar a Júlia.
— Ah, qualé! Só tô te zoando.
— Ah, só isso? Beleza, então que tal essa aqui? Eu me visto que nem pobre moleque e tu é o mister GQ mauricinho, mas qual de nós ainda é virgem?
— Que porra de comentário é esse? — Larguei o sanduíche. — Que que isso tem a ver?
— Bom, tu acha que eu sou tão simplona e me visto tão mal, mas eu tive uns caras que não tiveram problema nenhum em querer me conhecer melhor.
— E daí? Eu tive chances, mas prometi pra minha mãe que ia tentar fazer do jeito certo. Tu decidiu abrir as pernas quando teve a chance.
— Tá me chamando de vadia?
— Claro que não! Tu sabe disso. Mas tu sabe que isso é assunto sensível comigo.
— Mas tu nunca pensa que alguma coisa me incomoda. — A Sam acenou a mão com desdém. — Tu realmente me trata igual moleque.
— Eu... eu te trato igual amiga. Desde quando eu preciso te tratar toda delicadinha?
— Tu não precisa, mas de novo tu nunca tratou uma delicadinha, tratou? — Ela ergueu as sobrancelhas depois dessa, como se me desafiando a superar.
— Acho que tu me pegou nessa — disse com um dar de ombros casual. — Mas olha só, que tal tu me perguntar de novo depois desse fim de semana?
Os olhos da Sam se estreitaram. — Como assim?
— Significa que eu só posso...
Meu celular tocou e não consegui evitar sorrir quando "Ai Se Eu Te Pego" começou a tocar alto. Era a Júlia. O timing não podia ser melhor.
— Como se ela não achasse que é linda. — A Sam resmungou.
— E aí, gata. — Mordi o lábio pra não rir da cara emburrada dela.
— E aí, gostosão! — A Júlia cantou no meu ouvido. — Como tá indo a faxina do parque?
— Na metade — falei. — Deve ficar pronto em umas duas horas.
— Nossa! Que rápido!
*Tomara que ela não vá dizer isso na cama*, pensei, mas falei: — Tenho ajuda.
— Que legal! Quanto mais melhor! Fiquei surpresa que tu conseguiu convencer algum dos teus amigos a acordar num sábado de manhã.
— Não consegui. A Sam tá me ajudando. — Mesmo enquanto falava, me perguntei por que mencionei ela.
### Parte 2 - Completa
— Sam? — A Júlia riu. — Consigo imaginar. Ela não parece o tipo de menina que tem nojo de sujar a mão. Provavelmente nem precisou pensar que roupa usar. Ela se veste daquele jeito todo dia...
— Júlia. — Virei de costas pra Sam e abaixei a voz. — Já te pedi pra parar com isso. Por que tu sempre pega no pé dela?
— Por que você sempre defende ela?
— Porque ela é minha melhor amiga.
— Homem e mulher não conseguem ser só melhores amigos. Um dos dois sempre acaba querendo alguma coisa a mais.
— Sábia pra seus dezoito anos — falei.
— É verdade. — Ela suspirou. — Você anda com ela porque ela é tipo um dos caras, mas sem a atitude escrota, e ela anda com você porque... bom, ela prova meu ponto.
— Essa de novo? Qual é, Júlia. Já te falei que a Sam é só parceira.
— *Você* vê assim. Mas enfim, muito obrigada por me ajudar com isso, Bruno! O Dia da Terra cai no meio da semana, então esse sábado é a melhor chance que a gente tem pra fazer bastante coisa.
— De boa. — Sentindo movimento, olhei por cima do ombro e vi a Sam calçando os All-Stars de novo. — E aí, que tu vai fazer hoje de noite? Minha mãe vai viajar daqui a pouco.
A Sam levantou e colocando o boné do Flamengo virado pra trás, pegou o saco de lixo e foi em direção a outro monte de arbustos, deixando a mochila pra trás.
— Bom, como vai tomar boa parte do dia aqui, a gente pensou em aproveitar e fazer uma festinha, acender uma fogueira, dar um rolê, curtir um pouco.
— Sério? — Lembrando que o Robinho tava lá, senti mais que um frio na barriga. — E se eu der um pulo aí?
— Bom... — A Júlia pausou, e o frio virou um nó no estômago.
— Bom o quê?
— Olha, Bruno, às vezes eu só quero sair com as amizades e, sabe, nem sempre ficar grudada no namorado.
— Como assim? — falei, levantando a voz e olhando de canto pra ver se a Sam tinha percebido, mas ela tava de joelhos puxando garrafas de cerveja de debaixo dos arbustos.
— Ei, não fica bravo, amor — a Júlia ronronou. — Só quero relaxar com uma galera que não vejo há um tempo, beleza?
— Mas eu pensei...
— Agora, amanhã, por outro lado — ela disse, dando aquela risadinha —, corre um boato que meu namorado gostoso vai ter a casa só pra ele até o dia seguinte. Hmmm.
Meu ciúme foi rapidamente substituído por outro aperto, mas esse mais embaixo que o estômago.
— Sabe, Bruno, você tem sido tão fofo esperando por mim, acho que tá na hora da gente ficar bem mais perto.
— Tá? — Não foi exatamente suave, mas eu não conseguia pensar em nada além da Júlia na minha cama olhando pra cima com aqueles olhões azuis, o corpo nu dela se mexendo contra o meu.
— Tô sim, amor. Tenho umas coisas pra fazer de manhã, mas que tal eu aparecer lá pelas três?
— É, isso parece ótimo.
— Te vejo lá então, amor. — A Júlia soltou um suspiro doce no telefone que fez meu pau latejar e completou: — Vou fazer valer cada segundo que você esperou.
A Júlia não fazia ideia de quanto tempo eu tinha realmente esperado. Sorrindo igual idiota, falei:
— Tenho certeza que vai compensar e muito.
— Ah, vou sim, e tenho que te agradecer pela ajuda de hoje também, então vou ter que achar alguma coisa legal pra vestir e pensar num jeito de mostrar minha gratidão.
Eu tava duro feito pedra só de ouvir ela falando em vir aqui e tive que ajustar a bermuda em volta do pau dolorido.
— Bruno, falando na tua ajuda... Sabe que tá rolando uma competiçãozinha na escola pra ver qual turma consegue limpar mais esse fim de semana?
— Sei.
— Então, como você vai terminar cedo, será que dá pra passar naquele parquinho lá na Rua das Acácias?
— Hã, bom, eu tava pensando em... — comecei.
— Por favor, amor? Vou ficar muito grata.
— Bom, talvez...
— Vou te dar um agrado especial. — Ela deu aquela risadinha que deixa qualquer um de pau duro de novo.
— Agrado? — repeti. *Por favor, seja o que eu tô pensando!*
— Claro, eu imagino que se você vai limpar pra mim, eu deveria ficar toda suja pra você. — Ela suspirou. — Faz tempo que tô pensando em te chupar gostoso, isso seria uma boa recompensa?
— Eu... caralho, com certeza! — exclamei, sem me importar se soava igual moleque empolgado.
— É, amor, quer sentir esses lábios antes daqueles lábios? — A Júlia riu. — Eu adoro chupar pau. Tomara que você retribua o favor, sabe, beijo por beijo.
— Seria o mínimo de justo — disse, tentando soar mais casual.
— Eu sou toda sobre justiça, Bruno. Mas só liguei pra dar um oi e ver como tava indo. Te vejo amanhã.
— Mal posso esperar — respondi. Mas ela já tinha desligado.
— Caralho. — Coloquei o celular de volta no clipe do cinto e me forcei a levantar.
Mantendo as costas viradas pra Sam, ajeitei o volume na bermuda e virando, peguei o pote cobrindo o sanduíche que sobrou e coloquei na mochila.
Joguei nas costas e tentei não deixar a mente viajar com pensamentos sobre o que o amanhã traria. Um boquete antes do sexo ia me tirar da bronca de ser rápido. Fiquei imaginando se a Júlia ia engolir ou cuspir, ou talvez me masturbar e gozar nos peitos incríveis dela.
Respirei fundo, tirando pensamentos da Júlia da cabeça. Precisava começar a ajudar a Sam antes dela começar a reclamar, e fazer isso sem um pau duro óbvio. Minha mente já no sexo oral, pensei no que a Sam tinha feito com a banana e me peguei imaginando se ela engolia? O lance da Sam era que se eu perguntasse, ela provavelmente responderia, e de forma bem crua.
A Sam ficava puta quando era considerada um dos caras, mas ela mesma causava isso com o jeito que se vestia e a linguagem que usava. Alguns dos meus amigos e eu já debatemos se ela era uma tarada ou só papo. Pessoalmente, minha impressão era que ela seria selvagem na cama, mas não com qualquer um. A Sam tinha ficado com dois caras que eu sabia e tinha namorado os dois por meses antes de dar.
— Ei! Ajudar é uma coisa, mas eu não vou fazer essa merda sozinha — ela gritou.
— Foi isso que tu disse pro teu último namorado? — brinquei. Uma checagem rápida mostrou que meu pau tava sob controle. Virei a tempo da resposta dela.
— Vindo do rei da punheta?
— Ri à vontade, Sam. Tu não vai poder fazer essas piadas depois de amanhã.
— Como assim? — Ela levantou do arbusto que tava na frente e limpou a terra do jeans.
— Era a Júlia. Ela vem aqui amanhã de tarde, e ela tá pronta.
— Ela tá sempre pronta — a Sam rebateu, mas não sorriu. Em vez disso, ficou séria. — Tu tem certeza que ela não tá te zoando? Ela prometeu mês passado também, lembra? Daí do nada ela precisava fazer alguma coisa com os pais.
— Aquilo foi diferente. Ela me disse depois que tava só nervosa. Não, amanhã é o dia, Sam.
— Tu tem certeza que quer com ela, Bruno? Não acho que ela realmente gosta de ti.
— O que importa é que eu vou estar dentro dela. — Ri, fui até a árvore à direita e tirei uma garrafa de cerveja que tava enfiada num buraquinho.
— Engraçadinho, é exatamente essa atitude que tua mãe não quer que tu tenha.
— Não vem com essa! — Ela tava me irritando de novo. — Eu tô com a Júlia há seis meses. Ela se importa sim e ela quer sim.
— Tenho certeza que ela quer, Bruno. Tu é um cara bonito que trata ela melhor do que ela merece. Mas não acho que ela se importa.
— Óbvio que tu não acha. Tu não gosta dela.
— Não acho que tu se importa tanto com ela também.
— O quê?
— Tu gosta dela, mas tu ama ela? Toda vez que fala dela, é sobre como ela é gostosa, não sobre como ela é doce ou legal. Acho que tu só tá ficando tarado e não quer mais esperar.
— Eu me importo com a Júlia. — Não falei com tanta força quanto deveria.
Eu gostava da Júlia. Gostava muito dela, mas eu amava ela? Eu sabia o que era amor? Porra, eu tinha dezoito anos. "Gostar muito" tava perto o suficiente, e eu tinha sido certinho tempo demais. Além disso, talvez depois que transássemos isso levasse a gente pro próximo nível.
— Não acredito em ti. — A Sam pegou uma latinha e jogou no saco. Suspirando, ela veio até mim. — Bruno, sei que tu tá cansado de eu te zoar, e desculpa.
— Tudo bem, Sam. — Dei de ombros. — É pra isso que servem os amigos. A gente zoa um ao outro, tu faz piadinha de virgem e eu faço piada de moleque.
— É, mas a questão é que eu te admiro por isso. De verdade.
— Admira? — Ergui as sobrancelhas esperando o final da piada.
— Admiro. Não tanto sobre o sexo, mas o fato de tu ter feito uma promessa de ser um certo tipo de homem, e tu é. — Ela colocou a mão no meu antebraço. — Esquece amanhã. Ela não é a certa.
— Ah, qualé! — Revirei os olhos. — Sabe de uma coisa, Sam? Talvez tu tenha razão que eu não tô perdidamente apaixonado, mas eu gosto dela e a gente tá junto há um tempo e... Talvez isso deixe a gente mais perto.
— Tu deveria amar a pessoa primeiro.
— E tu amava? — Joguei na cara dela. — Tu tava apaixonada por aquele babaca do Caio? Tava apaixonada pelo Diego?
— Não, mas eu nunca prometi que ia esperar e... — Ela balançou a cabeça. — Eu... me contentei, com os dois.
— Como assim? — perguntei.
— Se a gente vai conversar, vou pra sombra.
A Sam sentou debaixo da árvore de onde tirei a garrafa e me juntei a ela, sentando na frente.
— Não me entende mal, Bruno. Tinha alguma coisa ali. O Caio e o Diego foram legais comigo, mas não era amor. Mas, bom, eu pensei nas duas vezes, pra que eu tô esperando? Um romance de novela das seis? Algum cara perfeito? Então decidi só me divertir. Acho que foi isso porque nenhum deu certo.
— Então tu sabia que não amava eles?
— Isso.
— Então qual é a porra do teu problema comigo e a Júlia? — falei, abrindo as mãos. — Tu tá sendo uma puta hipócrita.
— Eu... acho que tu tem razão, mas eu nunca planejei que fosse especial, e pelo menos aqueles caras eram sérios comigo. A Júlia tá te usando. É um jogo pra ela. Por que amanhã? O que ela tá fazendo hoje de noite?
— Ela vai... ficar lá na praia e sair com...
— O Robinho. Bruno, a Júlia tá dando pro Robinho.
— Tu...
— E tenho certeza que ela vai aparecer amanhã e transar contigo porque ela quer sim, mas seria só isso e tua primeira vez vai ser resto de homem e...
— Por que caralho tu se importa tanto? — gritei com ela. — Puta que pariu, Sam, dá um tempo e fica feliz que eu tô feliz!
— Eu me importo porque tu é bom demais pra isso, Bruno, e tem coisa melhor que ela por aí. Se nada mais, meninas tipo a Júlia tem aos montes por aí, mas tu queria que a primeira vez fosse especial.
— Vai ser.
— Então por que não esperar mais um pouco? Termina com aquela vadia e...
— Eu não vou esperar! Por que caralho tu acha que eu posso fazer tão melhor? Deixa pra lá. Não vou começar do zero e ficar me perguntando quanto tempo ia demorar com outra pessoa.
— Tu pode fazer melhor porque tu merece melhor. — A Sam olhou pro chão e parecia estar tentando decidir o que dizer a seguir. Uma primeira vez pra ela.
Erguendo a cabeça, ela disse baixinho:
— Bruno, por fora, tu é um cara pra caralho de bonito, especialmente assim. — Ela bagunçou meu cabelo preto e grosso. — Gosto do teu cabelo assim, não daquele jeito que tu enche de gel na maioria das vezes. E quantas meninas te falam como esses olhos verdes são lindos?
Sorri. — Umas quantas.
— E tu jogou futebol e vôlei. — Ela colocou a mão no meu braço e apertou. — Tu era um nerd magrelo quando a gente se conheceu. Agora olha pra ti.
Ri e fiz questão de flexionar o braço. — Eu malho.
— E tá bem óbvio, mas...
— Tu tá me olhando?
Quis dizer como piada, mas a Sam disparou:
— Claro que não! Eu... eu não olho pra ti desse jeito. Eu só tava tentando... fazer uma observação.
Ela desviou o olhar, mas não antes de eu notar que ela tava corando, o que definitivamente era novidade.
— Tu tá corando?
— Não! Tô com calor! — Ela tirou o boné e limpou a testa.
— Nada, só bonitinha, lembra? — brinquei.
— Confia em mim, Bruno, eu sei que não sou gostosa. — Ela soou irritada.
— Ei! Eu tava brincando!
— Mas a Júlia é, e só pra constar? Nunca imaginei que tu seria o tipo de cara que vai só pela aparência.
— Eu gosto dela por outras razões.
— É, as duas enormes pulando pra fora da blusa dela. Tu é diferente perto dela, Bruno. Quando tá comigo e com o Jim e o resto da galera, tu é tu, e quando tá com ela, tu é... um babaca metido.
— Eu não sou!
— Tanto faz. — A Sam levantou. — O ponto que eu tava chegando era que mesmo sendo bonito e popular, tu é um cara gente boa, e isso é bem raro na nossa idade. Essa é a melhor parte sobre ti, e por isso tu merece melhor. A Júlia é só uma vadia superficial.
— Tu é mais que isso e merece mais. Agora, eu te falei como me sinto e tu não liga muito, mas pelo menos eu disse. Espero que tu se divirta amanhã. — Ela pegou o saco e virou as costas pra mim, encerrando a conversa.
Pensei em me defender, mas por quê? Quando a Sam teimava, nada mudava a cabeça dela. Ela tinha feito um bom ponto sobre o quanto eu realmente me importava com a Júlia, mas eu não ia cancelar amanhã. Pela própria admissão dela, a Sam não tinha sido super empolgada com os caras que tinha ficado. Ela ficou de boa. Por que eu não deveria ficar?
Pela próxima meia hora, nos movemos pelos arbustos e árvores em silêncio, exceto pelo som de garrafas e latas tilintando juntas. Eu me sentia um babaca. A Sam tava me ajudando e eu tinha tratado ela que nem lixo. Sim, ela tinha ficado pegando no pé, mas o que tinha de novo nisso?
Na minha cabeça, ouvi a voz da minha mãe e uma das frases clichês que ela vivia repetindo: "Se te incomoda, é porque a verdade dói". Mentalmente mandando minha mãe calar a boca, olhei pra cima dos arbustos, aliviado ao ver que tínhamos quase chegado ao fim do pequeno bosque de árvores que fazia a borda de um lado do parquinho.
— Ei — a Sam chamou —, parece que eu ganhei aquele cinema no final das contas.
— Eu te falei que ia pagar por tu me ajudar — respondi, feliz que ela tinha falado e ainda querendo manter nossa tradição de cinema.
— Não importa, eu ia ganhar a disputa do nojento de qualquer jeito.
Virando, vi ela pegar um graveto e cutucar alguma coisa na grama.
— O que é, alguma coisa morta?
— Não, mas não só bem nojento, como bem apropriado. Aqui!
A Sam deu uma cutucada com o graveto na minha direção e alguma coisa caiu aos meus pés. Olhei pra baixo e vi uma camisinha, uma camisinha obviamente usada.
— Isso é nojento! Por que é apropriado? Porque eu vou precisar de umas amanhã?
— Não, porque é igualzinho a você, usada.
— Muito legal, Sam. — Me forcei a não levantar a voz. — Por que tu fica repetindo isso?
— Porque é óbvio, Bruno, e eu consigo ver o que tá na minha cara.
Antes que eu pudesse responder, ela soltou um longo suspiro. — Pena que tu não consegue ver o que tá bem na sua frente.
***
>> CONTINUA…