Onde o mar nos levou - Capítulo XXVIII

Um conto erótico de Rafa & Caio
Categoria: Gay
Contém 4032 palavras
Data: 29/11/2025 12:49:56
Última revisão: 29/11/2025 13:01:36

Capítulo XXVIII — As Sombras e a Luz!

A madrugada pairava sobre a cidade com um silêncio quase criminoso. O vento arranhava as vidraças da mansão de Augusto, e o relógio marcava três da manhã quando ele acendeu o charuto com a mesma calma com que alguém planeja um assassinato.

Os olhos frios refletiam a chama tremulante. O rosto, antes impecavelmente alinhado por ternos e sorrisos de empresário exemplar, agora estava tomado por olheiras fundas e um olhar de pura insanidade contida. O ódio que sentia por Rafael já não cabia mais dentro de si.

— Fracasso... vergonha... — murmurava, esmagando o charuto contra o cinzeiro. — Você me envergonhou diante de todos, Rafael. Me desafiou, me afrontou, se jogou nos braços daquele garoto... e ainda viveu pra contar.

O som seco do cristal quebrando ecoou quando ele arremessou o copo contra a parede.

Augusto se levantou devagar, andou até a janela e observou o reflexo da própria sombra no vidro. O homem que olhava de volta não era mais o mesmo. Era alguém que já tinha cruzado o limite da sanidade.

— Mas não por muito tempo... — disse, abrindo um sorriso torto. — Você vai morrer, filho. Vai morrer dormindo. E ninguém vai suspeitar.

Ele foi até a escrivaninha, abriu a gaveta secreta e retirou um frasco com um líquido transparente. Uma substância potente, silenciosa, impossível de detectar rapidamente. Tinha conseguido por meio de um contato antigo, um médico corrupto que devia favores.

Augusto sabia que, para entrar no hospital, precisaria de um disfarce. Tinha dinheiro, influência e uma frieza quase teatral. Era um homem que sabia sorrir enquanto pensava em matar.

Pegou o celular e discou.

— Roberto? Preciso que providencie uma credencial falsa. Setor médico, Hospital São Clemente. Até amanhã à noite.

— Vai ser difícil, senhor, estão com segurança reforçada.

— Então, pague o dobro ou o triplo, mas eu quero aquilo pronto.

Desligou.

No dia seguinte, comprou roupas brancas, um crachá com o nome falso “Dr. Henrique Moura” e passou horas observando o movimento do hospital de dentro do carro, como um predador paciente. Cada entrada, cada ronda de segurança, cada brecha nos turnos da enfermagem.

— Sábado à noite... plantão reduzido... é quando eu entro. — pensou.

Guardou o frasco dentro de uma maleta metálica, trancou, e pela primeira vez em meses, sorriu. Mas era um sorriso vazio, o sorriso de um homem que acreditava que matar o próprio filho era uma forma de “restaurar a honra”.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, a luz da vida voltava a brilhar.

Caio narrando...

Os dias que seguiram foram uma mistura de alívio e esperança. Cada manhã que eu via o Rafa abrindo os olhos, respirando melhor, era como ver o sol nascer dentro de mim.

O médico vinha sempre cedo, com aquele sorriso contido de quem não quer dar esperança demais, mas também não consegue esconder o orgulho pelo progresso do paciente.

— Seu namorado é forte, Caio. Mais alguns dias e, se continuar assim, poderá ir pra casa. Só precisamos tratar bem a anemia. O resto… o corpo dele está vencendo.

Essas palavras me fizeram chorar na frente dele, de novo. Eu não tinha mais vergonha de sentir. Rafa, do jeito dele, ria com aquele riso rouco, ainda fraco, e me chamava de “chorão", mas eu sabia que por trás do riso dele havia um coração batendo firme, querendo viver.

A rotina no hospital começou a mudar. Já não havia tanto medo, só cuidado e carinho. Eu o ajudava a caminhar pelo quarto, segurando ele pela cintura. Às vezes, ele fingia fraqueza só pra me abraçar mais.

— Você tá manhoso. — eu dizia, rindo.

— Tô aproveitando, ué. Daqui a pouco você vai me fazer lavar a louça de novo. — ele devolvia, com aquele brilho nos olhos.

Naquela manhã, o sol atravessava a janela do quarto com uma calma bonita. Rafa insistiu em levantar pra tomar banho. Eu o segurei o tempo todo, mas ele foi firme, determinado.

— Quero me sentir gente de novo, Caio. Já fiquei tempo demais preso a essas máquinas.

A água quente caía incessantemente, criando uma cortina que nos isolava do mundo inteiro. Cada gota escorria pelo corpo dele, refletindo a luz suave do banheiro do hospital, delineando os músculos ainda fracos, mas firmes. Eu sentia o cheiro do sabonete misturado com ele, uma mistura que sempre me deixava tonto, como se meu cérebro e coração tentassem registrar cada detalhe de uma vez.

— Caio… — Rafa murmurou, virando a cabeça para mim. A voz dele estava baixa, rouca, quase um sussurro. — Você não faz ideia do quanto eu esperei por isso. Por você. Por nós.

Aproximei meu rosto do dele e toquei seu queixo com cuidado.

— Rafa, eu… eu nunca mais quero perder você assim. Nunca mais quero sentir medo de te perder.

Ele sorriu, aquele sorriso tímido, mas carregado de desejo e alívio.

— Então, prova. Prova que você é meu, Caio.

Não precisei de mais nada. Nossas mãos exploravam lentamente, como se cada toque fosse uma promessa de reconstrução, de cura. Eu sentia o corpo dele se moldar ao meu, cada músculo tenso relaxando sob o calor da água, sob o calor do nosso reencontro.

— Sabe, você me deixa sem fôlego até hoje… — ele disse, brincando com o tom da voz, mas havia sinceridade por trás da provocação. — Mesmo depois de tudo.

— Você também, Rafa… sempre você. — respondi, apertando seus ombros, sentindo a força dele misturada à fragilidade. — Mesmo machucado, mesmo cansado, você me deixa assim.

Ele riu baixinho, e a água fez o som se misturar com a nossa respiração, criando uma espécie de música íntima, só nossa. Eu senti o coração dele batendo acelerado, e o meu respondendo em sincronia. Cada toque, cada beijo, cada sussurro era um lembrete de que estávamos vivos, juntos, e que ninguém poderia apagar isso.

— Caio, não me solta nunca mais. — murmurou, segurando meu braço com firmeza.

— Nunca. Prometo. — e foi sincero, cada palavra carregada de emoção.

O tempo parecia se dissolver dentro do vapor do banho. Rimos, nos provocamos, lembramos de momentos bobos e sussurramos segredos que só agora podíamos compartilhar sem medo. Ele se aproximou mais, e encostou a testa na minha.

— Você não sabe… como eu esperei por esse abraço.

— Eu também, Rafa. Cada segundo longe de você foi um inferno. — sussurrei, segurando-o junto de mim, sentindo que, por um momento, nada mais existia além daquele contato.

E ali, entre o calor da água e o calor do corpo dele, a entrega não era só física, era emocional. Era o perdão, a reconciliação, o amor em sua forma mais pura. Cada toque dizia: Eu te amo, eu te escolho, eu te quero, sempre.

Quando finalmente nos afastamos, ainda abraçados, o ar pesado de desejo e emoção pairava. Ele sorriu, ofegante, e eu pude sentir cada batida do coração dele em minhas mãos.

— Eu amo você, Caio… mais do que nunca imaginei.

— E eu te amo, Rafa. Para sempre. Você é meu.

Por um instante, eu pensei que nada, nem mesmo a escuridão que nos cercava, poderia apagar aquilo. A água continuava a cair, e nós apenas permanecíamos ali, respirando, sentindo, vivendo cada segundo como se fosse o mais precioso da nossa vida.

Alguns dias depois...

Os dias que se seguiram foram uma tortura silenciosa para Caio. Ele não desgrudava de Rafael, observando cada pequeno movimento, cada respiração. Às vezes, apenas segurava a mão do namorado, sentindo o calor tênue que ainda permanecia, como se fosse o único elo capaz de mantê-lo ali, vivo. O hospital, com seus corredores brancos e frios, parecia ainda mais silencioso nos dias em que a noite caía, e os sons de passos distantes ou o bip ritmado de algum monitor se transformavam em ecos assustadores.

Enquanto isso, Augusto permanecia fora da vista, planejando, anotando mentalmente cada detalhe. Ele sabia os horários exatos de troca de turno, o número de enfermeiros por ala, quando a vigilância era mais relaxada. Por dois dias, observou o hospital à distância, fingindo-se de visitante, analisando cada padrão, cada deslize que pudesse explorar. Cada detalhe se transformava em uma peça do quebra-cabeça de seu plano sombrio.

No terceiro dia, ele se preparou com precisão quase cirúrgica. Colocou o uniforme de enfermeiro que havia falsificado com extremo cuidado, ajustando o crachá com o nome de “Henrique Moura”, uma identidade inventada, mas crível o suficiente para enganar os desavisados. O avental impecável escondia qualquer traço de nervosismo, enquanto ele respirava fundo diante do espelho do carro, tentando controlar o coração que batia como um tambor, carregado de expectativa e ódio contido. Cada músculo do corpo estava alerta, pronto para a ação, mas ele sabia que qualquer hesitação poderia ser fatal.

Ao entrar no hospital, Augusto se moveu com naturalidade, como um profissional de saúde em plena rotina. Cada passo era calculado; os sapatos ecoavam suavemente pelo piso limpo e frio do saguão. Ele trocou olhares rápidos com a equipe da recepção, ajustou o crachá casualmente e seguiu em direção à ala onde Rafael se recuperava. Seu olhar varria o ambiente, atento a câmeras, portas trancadas e qualquer presença que pudesse comprometer seu plano.

No corredor, cada porta parecia uma barreira silenciosa, cada som, cada resmungo, amplificado em sua mente. Ele avançava com cautela, mantendo uma postura natural, respirando devagar, mas cada fibra de seu corpo estava tensa, pronta para agir. Ao chegar à porta do quarto de Rafael, Augusto se deteve por um instante, verificando se não havia câmeras diretamente voltadas para ele, e respirou fundo, controlando a ansiedade que ameaçava transparecer.

Empurrou a porta suavemente, como se fosse apenas mais um enfermeiro fazendo sua ronda. O quarto estava silencioso, iluminado apenas pela luz fria do monitor e pela iluminação suave do corredor. Caio estava sentado ao lado da cama, observando Rafael dormir, a mão deste repousando sobre o lençol como se fosse um tesouro frágil demais para tocar.

— Boa tarde — disse Augusto, mantendo a voz firme e controlada, cada sílaba ensaiada para parecer natural. — Sou da equipe de plantão, vim verificar os sinais vitais do paciente.

Caio ergueu os olhos, franzindo a testa com desconfiança. Ele não tinha como impedir a entrada de alguém uniformizado, mas sentiu um frio percorrer sua espinha. O coração bateu mais rápido, a intuição gritando que algo estava errado. Augusto avançou um passo, aproximando-se de Rafael, mas mantendo a máscara de profissionalismo impecável.

Ele se inclinou sobre o monitor do paciente, checando os sinais vitais, digitando anotações fictícias no tablet que carregava, tentando parecer totalmente focado na tarefa. Cada gesto era calculado: ajeitar o lençol, tocar o braço de Rafael levemente para verificar a circulação, posicionar o estetoscópio sobre o peito dele. Por dentro, Augusto sentia a tensão explodir, a frustração de ter que controlar cada impulso assassino até o momento certo.

Enquanto isso, Caio, sentindo a ameaça silenciosa, manteve os olhos fixos no suposto enfermeiro. Sem desviar, discretamente apertou o botão de chamada de enfermagem que estava ao alcance de sua mão. Augusto percebeu o movimento periférico, sentiu o leve tremor de desconfiança no olhar de Caio, mas continuou sua atuação, sem demonstrar reação. Um sorriso frio passou rapidamente por seus lábios, quase imperceptível, mas carregado de intenção.

Ele inclinou-se mais sobre a cama, ajustando o posicionamento do estetoscópio, aproximando-se do ponto exato onde podia executar seu plano. Cada respiração parecia durar uma eternidade, o ambiente silencioso amplificando o som do coração dele, do coração de Rafael e da tensão que pairava entre os três. Augusto sabia que qualquer passo em falso poderia não apenas falhar, mas também denunciá-lo antes que pudesse agir.

O instante final se aproximava...

Caio narrando...

Eu estava encostado na beirada da cama, a mão de Rafa tão quente e tão leve na minha que eu tinha medo de que qualquer movimento brusco a fizesse desaparecer. O quarto cheirava a antisséptico, soro e aquela mistura de álcool e remédio que virou trilha sonora dos nossos dias. Quando a porta se abriu, meu instômago apertou de um jeito que conheço bem: alarme.

Um homem entrou com um avental e um olhar de quem já sabia o mapa da rotina ali — calmaria suficiente para parecer parte do cenário. Ele falou o que qualquer enfermeiro diria, voz mansa, passo medido. Vou verificar a medicação do paciente, mas alguma coisa no jeito dele, na forma como suas mãos tremiam ao segurar o frasco, acendeu uma luz vermelha dentro de mim. Não era o tom de um desconhecido cuidando; era o jeito de quem vinha de uma história maior, mais antiga, carregada.

— Não finge, — eu disse antes de pensar, e a frase saiu curtinha, cortada. — Você não é médico.

Ele parou.

O frasco ficou suspenso no ar, um pequeno planeta girando entre nós. Quando ergueu o rosto, eu vi os olhos que, de repente, eram conhecidos demais, duros demais — era Augusto. O sangue gelou dentro de mim num segundo. À minha frente estava o homem que sempre foi a tempestade na vida do Rafa. Augusto. O que eu achava ter visto no corredor, o gesto que não encaixava, foi esclarecido num segundo que durou uma eternidade.

— O que você tá fazendo aqui? — eu perguntei, e a voz saiu baixa, controlada por um montinho de medo que eu respirava só pra não parecer pânico.

Ele deu um passo largo, o avental balançando, o frasco na mão. Havia uma falsa calma nele, um verniz de razão pregado a um ódio que já conhecíamos.

— Vim arrumar o que você estragou nesse menino, — ele disse, olhando pra Rafa como se aquele corpo fosse assunto administrativo.

— Esse moleque envergonhou minha família. Seguiu o caminho errado. Eu não criei um filho viado pra ficar de caso com outro homem, ainda mais um professorzinho. Eu não sou um homem de palavras vazias. Eu sou Augusto Santos Montenegro. Nosso nome tem continuidade, e eu não permitirei que você manche-o, Rafael.

Minha garganta fechou. Aconteceu como se o mundo tivesse diminuído só pra nós três, aquele quartinho hospitalar que parecia menor do que nunca. Rafa suspirou, fez um esforço pra abrir os olhos, e eu quis arrancar todos os monstros do rosto do pai dele com as minhas próprias mãos. Mas tinha que ser calmo; calma é estratégia quando o perigo aparece com botão e pretexto.

— Você não tem esse direito — disse Rafa, com voz que vinha de dentro de uma garganta que lutava por força. — Você não tem direito de decidir quem eu sou. Eu tenho o direito de ser feliz. Eu tenho o direito de amar. Eu escolho o Caio. Eu escolho a vida que eu quero viver. Não é seu legado que vai me dizer como ser.

Augusto estreitou os olhos; o corpo dele era só nó.

— Não faz sentido o que você fala. Você nasceu pra continuar meu legado. Amor é fraqueza, garoto. Fracasso é amar assim. — O ódio dele teve a força de uma maré que não se importa em afogar tudo.

Rafa tentou sorrir, um movimento pequeno, doído.

— Amor não é fraqueza. Quem ama protege. Quem ama cuida. E eu vou lutar por esse amor até o fim. Você pode não entender isso, pai, mas eu não vou me curvar ao medo que você tenta impor.

As palavras de Rafa eram punhais dóceis. Augusto deu um passo pra frente, e a mão que antes segurava o frasco buscou outra coisa no bolso do paletó. Eu vi o brilho de metal — a forma de uma arma — e o mundo perdeu o ar por um segundo. Ele a puxou como quem puxa um fim de fio: com pressa, com raiva, com intenção.

— Vai se colocar onde eu mandar, — ele disse, apontando a arma agora entre nós. — Se afasta. Você vai pro banheiro e fecha a porta. Ou eu acabo com você aqui mesmo, moleque.

O tom dele era clínico, como se fosse fechar um problema numa gaveta. Eu senti as mãos de Rafa apertarem as minhas, porque ele sempre segurava com força do mesmo lado, de um jeito que dizia “fica”.

Eu respirei devagar, contando, tentando achar um movimento que fosse útil. Não ia dar o que ele queria: não daria a Augusto o espaço de transformar nossas decisões em morte.

— Entra no banheiro, agora — ele repetiu, pondo a arma entre meu rosto e Rafa como se fosse régua e eu um grafite em branco. — Tranque. Não faça barulho.

Havia raiva cruel na voz dele, mas também medo. O tipo de medo que disfarça a certeza de que, se perder a pose, perde o controle. Eu decidi jogar um jogo perigoso: obedeceria, mas com as pernas prontas pra qualquer coisa. Me movi como se fosse atrás do comando, caminhando devagar, sem tirar os olhos dele, fingindo que ia cumprir a ordem. Naquele segundo, ele deu as costas por milésimos, os dedos apertando o coldre como a garantir posse.

No instante exato em que a porta do banheiro começou a fechar, eu me virei, como tinha planejado com quatro piscadas de olhar, e arremessei o ombro contra a porta, empurrando com toda a força. Augusto reagiu rápido, o corpo dele uma mola de violência, e me empurrou de volta com um soco no ombro esquerdo que doeu demais. A arma oscilou, e naquele torque de tempo o cano descreveu um arco baixo. Eu me atirei em cima dele, tomamos a luta como se duas ondas se chocassem num barco pequeno. Ele me deu um chute, eu retribuí com um tabefé que aprendi a dar em defesa. O chão ficou memória de impacto. Cada movimento era sangue e força, estalo e grito contido.

No meio do choque, senti o objeto metálico escapar de mão. Foi como ver uma estrela cair: a arma voou para o canto do quarto, batendo com um som surdo que fez o monitor do coração do Rafa chiar como um comentário. Augusto gritou, porque a coisa dele foi arrancada — e arrancar era sempre difícil pra quem se acostumou a manter tudo em punho. Eu tentei bloquear um soco; ele tentou me derrubar; durante três respirações tudo foi combate, o mundo resumido a nós, aos ruídos e ao som abafado do plástico do leito rasgando sob nossos pés.

E então, como um milagre cruel, vi Rafa se mover. O corpo dele tremia, cada músculo instrucionado por uma vontade que não cabia dentro da fraqueza. Ele arrastou o braço, esticou a mão e pegou a arma como quem encontra um pedaço do próprio destino. As mãos dele tremeram ao redor do coldre, mas ali havia uma firmeza que me fez ver o homem que ele era: não o filho que Augusto queria, mas o homem que tinha direito de existir, de decidir, de proteger. Os olhos dele brilharam com lágrima e luz.

— Augusto! — Rafa chamou, e a voz dele não tinha medo agora; tinha uma espécie de perdão cortante. — Nunca mais. Você nunca mais vai tocar no Caio. Eu sinto muito por ter que fazer isso, mas é necessário. Não é por prazer. Não é por ódio. É porque alguém tem que parar com esse horror que você chama de honra.

Augusto, morto de ira, partiu pra cima em reflexo, mas foi tarde. O disparo foi seco, dois estalos que romperam o ar — dois tiros que nem pareciam reais na hora. Augusto tropeçou, o corpo indo contra a parede como se a parede fosse aceitar a queda e livrar o mundo de um pedaço de maldade. Ele caiu sem real luta, como se a vida tivesse se esvaído na hora. Não houve sangue espalhado, nenhum detalhe grotesco; só o som do corpo batendo, o silêncio imediato e pesado que sucede um final. Augusto deixou de existir daquele modo frio e final, e a sala dobrou em si como quem recolhe uma cortina.

Eu corri até ao lado dele, mas as pernas tremiam, e não era só por esforço físico. Era a sensação de que a vida podia fazer escolhas tão duras que a gente voltaria a ser criança. Rafa largou a arma; as mãos dele tremiam, o rosto úmido de lágrimas que deslizavam como rios que tentarão lavar as marcas.

Ele caiu de joelhos, e eu fui ao mesmo tempo empurrado e puxado por um desespero que significava alívio e destruição. O abraço veio como algo que a gente não pergunta: veio automático, visceral, necessário. Eu abracei Rafa com tudo que sobrou de mim, segurando-o como se segurar significasse colar as partes que o mundo tentava separar.

— Eu não queria, — ele sussurrou no meu ouvido, num som que eu peguei e guardei. — Eu juro que não queria isso. Mas era isso ou ele me tirar você.

As palavras saíram quebradas, cheias de culpa que pesava mais que qualquer explicação. Eu sentia as mãos dele apertando minhas costas como se quisesse se agarrar à vida por uma última força. Eu senti o corpo dele tremer muito, e sabia que o peso do que tinha feito ia ficar nele por muito tempo.

— Eu sei, Rafa, — falei, e a voz falhou. — Eu sei que você não queria. Eu sei que foi por nós. Foi por nós.

Ficamos ali por um tempo que a gente não conta em horas, só em pequenos sangros de respiração. O bip do monitor parecia insistir em lembrar que o mundo continuava, uma batida de coração por vez. Eu olhei pra Augusto no chão, e não havia vitória ali, nada que fosse bonita. Havia só fim. Havia o que restou de uma história que não podia mais ferir. Augusto estava imóvel, os olhos abertos num olhar vazio que talvez não tivesse visto um pai de verdade na vida dele.

Talvez não tivesse visto nada. E eu pensei, como se fosse um pensamento curto e profundo, que a tragédia vinha com um preço que a gente não pedira.

Rafa chorava sem som, as lágrimas cortando trilhas molhadas pelo rosto. Ele repassava as palavras como se tentasse justificar cada som do disparo, como se o racional fosse consertar o que o instinto tivera que fazer. Eu o segurei mais forte, achei as mãos dele, senti o pulso disparado, cada batida ecoando como tambor numa câmara oca.

— Eu não queria, — ele repetiu, e dessa vez a voz dele foi tão firme que doeu. — Mas ele já provou que não entende amor. Ele nunca foi meu pai. Pai é quem cuida, pai é quem protege, pai é quem não humilha o filho por existir. Entre você e ele, eu sempre escolho quem eu amo.

Eu pressionei a testa contra a dele, e o mundo por fora ficou opaco. Havia cheiro de remédio, de desinfetante, de suor e de sal. E havia essa realidade crua: nós dois vivos, sujos de medo, inteiros no que importava. Eu senti a respiração dele se acalmar aos poucos, como se cada abraço fosse um remédio que não estava nos frascos, mas na presença. O choro dele era o reconhecimento do que não se queria, do que foi necessário, e eu não podia desfazer o que aconteceu. Só podia estar ali, segurar, tentar curar com o que eu tinha: o calor das mãos, a promessa de cuidar amanhã, de recomeçar.

Levantei os olhos e vi a arma no chão, imóvel, testemunha muda. Vi a distância entre a parede e o corpo de Augusto, e senti um alívio que doía junto. Não havia justiça fácil; havia apenas fim. E, na mesma medida em que eu quis vomitar o que o mundo nos forçara a fazer, quis também cantar a sorte absurda de termos permanecido juntos. Agarrei Rafa mais uma vez, como se fosse possível trancar o mundo lá fora com nossos corpos. Ele chorava, dizia “desculpa” numa sequência que significava mais do que palavras — significava reconhecimento, arrependimento, amor.

— A gente vai viver, — eu disse, mesmo sem saber se era verdade. — A gente vai tentar. A gente vai cuidar. A gente vai lembrar disso não como vitória, mas como o momento em que a gente se defendeu com tudo o que tinha.

Ele ergueu o rosto e sorriu com os olhos, um sorriso que era metade dor, metade promessa. E, no eco mudo da sala que tinha testemunhado tanto, nós dois ficamos ali, agarrados, enquanto o mundo entrava devagar na sala e a gente tomava fôlego pra responder. Não havia palavras capazes de apagar as coisas, mas havia um juramento simples e bruto: proteger um ao outro, sempre.

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Foto de perfil de T. Lys. RT. Lys. RContos: 30Seguidores: 4Seguindo: 2Mensagem "Escrevo com o coração em carne viva, transformando dor, amor e redenção em capítulos que sangram poesia — onde cada palavra carrega o peso da verdade e o alívio da esperança."

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