Acordei com a sensação estranha de que não era meu quarto. A luz que entrava pela fresta da cortina era suave, quase tímida, como se tivesse medo de incomodar o silêncio frio que preenchia o ambiente. Meus olhos demoraram alguns segundos para entender onde eu estava, como se minha mente ainda estivesse presa na madrugada, misturando sonho e realidade em um borrão lento.
O cheiro foi o que me trouxe de volta primeiro. Um perfume amadeirado, quente, masculino, misturado com o ar gelado do ar-condicionado. Não era meu. Nunca foi. Era um cheiro que eu ainda estava aprendendo a reconhecer, mas que já grudava na minha pele como algo que eu não sabia se queria afastar ou guardar.
Piscar se tornou uma tarefa consciente. Me espreguicei devagar, o corpo ainda pesado, e então senti a textura da coberta. Era mais macia, mais fria nas extremidades e mais pesada sobre meu peito. Diferente da minha. Diferente de tudo que eu estava acostumado.
Foi só quando virei para o lado que percebi.
A cama estava vazia.
O colchão tinha uma marca leve, uma sombra da presença de alguém que tinha dormido ali. Aquele afundamento sutil do lado direito dizia mais do que qualquer palavra conseguiria dizer. Me fez lembrar instantaneamente da madrugada. De cada detalhe dela. Do calor das costas dele encostadas nas minhas. Do jeito que a respiração dele batia no meu pescoço. Dos dedos entrelaçados, tão naturalmente que parecia que já tínhamos feito aquilo antes, muitas vezes.
Meu peito apertou ao lembrar. O coração bateu mais rápido, como se estivesse tentando correr para alcançá-lo de volta. Havia algo estranho dentro de mim, algo indefinido, quase doloroso. Algo que eu não tinha nomeado, talvez por medo, talvez por ignorância.
Mas ele não estava ali.
Senti o vazio ao meu lado como se fosse mais profundo do que a cama podia comportar. Fiquei olhando para o teto, deixando meus pensamentos escorrerem como água fria pela mente. Tentei entender se tudo aquilo tinha sido um sonho, um delírio da minha cabeça cansada, uma invenção do meu corpo carente. Parte de mim queria acreditar que sim. Seria mais fácil.
Mas a outra parte, a que ainda sentia o calor dele na pele, sabia que não.
O quarto estava silencioso demais. As paredes claras, o armário grande no canto, a prateleira com livros que eu nunca tinha visto… eu observava tudo como se estivesse invadindo um lugar que não era meu. Como se estivesse vivendo uma vida que também não era.
Foi então que ouvi a porta abrindo.
Aquele som seco e ao mesmo tempo suave fez meu corpo inteiro despertar.
— Finalmente acordou — disse o Caíque, entrando no quarto com uma energia que não combinava nem com a hora, nem com a confusão dentro do meu peito.
Ele parecia… perfeito. Ridiculamente perfeito para alguém que provavelmente tinha acordado muito antes de mim. Estava com o uniforme impecável: camiseta branca que ressaltava os ombros largos, bermuda azul marinho alinhada, o tênis tão limpo que dava a impressão de ser novo. O cabelo arrumado daquele jeito meio rebelde, meio planejado.
E nos braços, ele carregava um uniforme dobrado, que jogou para mim com um sorrisinho convencido.
— Eu ia te chamar daqui a pouco. Toma, seu uniforme. Vai se arrumar, novato. Hoje é dia de enfrentar os “monstros".
Ele riu sozinho, como se tivesse contado a melhor piada do mundo, e eu só fiquei olhando para ele, meio atordoado, meio tentando acompanhar o ritmo dele. Eu ainda estava parado na madrugada, enquanto ele já estava quilômetros à frente.
Peguei o uniforme das mãos dele. Por um segundo, nossos dedos se tocaram. Foi rápido, quase imperceptível, mas meu corpo inteiro reagiu com uma onda quente, como se aquele toque acendesse algo que eu estava tentando ignorar desde ontem.
Ele fingiu que não sentiu.
Eu também.
Me levantei, meio sem saber onde colocar meus pés, e fui direto para o banheiro. Fechei a porta devagar, como se qualquer barulho pudesse quebrar o pequeno fio de calma que eu tentava segurar.
Me olhei no espelho.
Parecia outra pessoa. Ou talvez eu estivesse começando a enxergar quem eu realmente era.
Primeiro dia de aula.
Cidade nova.
Uma escola gigante onde ninguém sabia meu nome.
E o Caíque.
Meu estômago revirou de um jeito estranho. Não era só nervosismo. Era algo mais profundo, mais inquietante. Como se fosse uma mistura de medo e expectativa, uma vontade louca de que algo acontecesse e, ao mesmo tempo, um desejo desesperado de que nada mudasse.
Engoli em seco.
Tirei a roupa, vesti o uniforme. Ele era bonito, confortável, mas eu me sentia pequeno dentro dele. Arrumei o cabelo, lavei o rosto várias vezes, como se a água pudesse me acordar para fora das emoções que eu não sabia onde guardar.
Inspirando fundo, voltei para o quarto.
O Caíque estava sentado na beira da cama, amarrando o tênis. O jeito como ele se inclinava, como os músculos das costas marcavam por baixo da camiseta… tinha algo hipnotizante ali. Algo que eu me forcei a não olhar por mais tempo do que precisava.
— Bora — ele disse, levantando num salto. — Minha mãe não tá em casa, mas a Olga deixou café pronto. A gente desce, come rapidinho e o motorista já tá esperando.
A forma como ele falava era sempre prática, direta, como se vivesse em um ritmo diferente do resto do mundo. Eu me senti pequeno por alguns segundos, mas ao mesmo tempo… protegido. Era estranho. Eu tentava não demonstrar nada. Nem mesmo para mim.
Descemos juntos. A cada degrau, eu sentia o cheiro da casa ficando mais forte: pão quente, café passado, manteiga derretida. Era um cheiro de lar, e isso me deu um aperto inesperado. Eu não sabia quando tinha sido a última vez que senti cheiro de lar em algum lugar que não fosse a minha casa antiga.
A cozinha parecia saída de catálogo: ampla, clara, com móveis que eu só via em revista ou na casa de pessoas ricas. A mesa estava posta com frutas cortadas, suco fresco, pães variados, e eu me senti deslocado de novo, como alguém que entrou errado no espaço de outra família.
Comi pouco. Não era fome. Era ansiedade. O estômago parecia um nó apertado que não soltava de jeito nenhum.
No carro, sentei ao lado da janela. A cidade passava rápida demais, prédios altos, ruas movimentadas, pessoas apressadas. Tudo grande demais. Tudo assustador demais. Eu sentia minhas mãos suarem contra a mochila.
Foi aí que o Caíque cutucou meu braço com a ponta do dedo, leve, como se não quisesse assustar.
— Ei. — Ele sorriu de canto. — Lembra do que eu te falei ontem. Se precisar de qualquer coisa… qualquer coisa mesmo… me chama.
Aquilo me desmontou por dentro de um jeito que eu não soube controlar.
— Mas você vai estar no terceiro andar, né? — murmurei, mais pra mim do que pra ele.
— Uhum. — Ele balançou a cabeça. — Terceirão é lá em cima. Primeiro ano fica no térreo. Mas é só mandar mensagem. Eu desço. Ou te busco. Ou mando alguém te buscar. — Ele deu uma risadinha. — Sou quase o dono da escola.
Eu tentei sorrir, mas foi pequeno demais, tímido demais. Mesmo assim, ele percebeu. Ele sempre percebia.
E então o portão da escola abriu.
E o mundo ficou ainda maior.
A escola parecia um outro planeta. Um planeta cheio de gente, cheio de barulho, cheio de energia demais para alguém que ainda estava tentando entender como respirar naquele universo novo. Assim que desci do carro, senti o calor do sol bater no meu rosto, forte demais depois do ar gelado do carro. Era como se o mundo lá fora me agarrasse pelas roupas e me puxasse para a realidade sem piedade.
E logo em seguida, todo mundo agarrou o Caíque também.
Foi instantâneo. Em segundos, ele estava cercado. Dois garotos encostaram nele como se o conhecessem desde o útero. Uma menina de cabelo cacheado gritou alto demais alguma coisa sobre “treino”, e eu só fiquei parado, travado, meu corpo inferiormente colado ao chão como se algo invisível tivesse puxado minhas pernas.
Meu primeiro instinto foi recuar. Me afastar um passo. Depois outro.
Eu tinha aprendido a ser assim. A ser discreto, a ser o que observa. Nunca o centro. Nunca o centro de nada.
E por mais que o Caíque estivesse ali, a poucos passos, tão fácil de alcançar com a mão… ele também parecia muito longe. Inserido num mundo que não era meu. Ele falava com todo mundo ao mesmo tempo, ria alto, distribuía abraços, cumprimentava gente com aquele toque de mãos complicadíssimo que só os populares sabem fazer. Ele parecia brilhar ali, como se aquele fosse o habitat natural dele.
Eu me perguntei se algum dia eu brilharia em algum lugar.
Quando percebi que ele estava ocupado demais para olhar pra mim, dei mais um passo pra trás. E mais um. E então me virei, como se estivesse fingindo interesse em qualquer outra coisa. Olhei para o lado, para o pátio enorme, para as escadas, para os blocos de salas. Eu fingia, mas a verdade é que eu estava tentando fugir da sensação de… abandono?
Não era culpa dele, eu sabia disso. Mas o sentimento existia, e era forte. Como se fosse ruim demais perceber que eu não sabia lidar com lugares grandes, com gente demais, com barulho demais, com olhos demais olhando para pessoas que não eram eu.
Eu era invisível. Sempre fui. Só que ali… parecia ainda pior.
O pátio se estendia na minha frente como um mar de concreto. Grupos conversavam alto, garotos jogavam uma bolinha de papel como se fosse futebol, meninas cochichavam com as mochilas nos ombros, e eu… eu era um ponto minúsculo no meio daquele caos.
Respirei fundo e comecei a andar.
Era isso.
Só andar.
Achar minha sala.
Me misturar.
Sobreviver.
O papel com o número da minha turma estava amassado na minha mão. Acho que eu dobrei e desdobrei tanto aquele papel que ele quase virou poeira. Eu o lia como se isso fosse mudar alguma coisa, como se pudesse me teletransportar direto para a sala certanúmero simples.
Uma missão impossível.
Os corredores eram longos, frios, muito mais bem iluminados do que eu esperava. O som era uma mistura de passos, risos, portas batendo, ventiladores antigos girando, vozes apressadas. O cheiro era uma combinação de desinfetante forte com perfume doce demais e papel novo, aquele cheiro de caderno recém-aberto. Era tudo tão vivo, tão movimentado… e eu me sentia estagnado ali no meio, como se estivesse preso numa redoma.
Foi então que ouvi o barulho.
TAC!
O som seco cortou o corredor como uma pedra batendo em metal. Eu virei a cabeça na hora, por reflexo, e vi três garotos saindo de uma sala, empurrando-se como se fossem donos do prédio. Eles riam, riam alto, como se achassem graça em tudo que passava pelas mãos deles. Os três tinham a mesma postura arrogante: camiseta pra fora, mochilas jogadas nas costas, aquele andar que tenta imitar homens adultos, mas só mostra insegurança.
Foi então que vi o estrago.
No chão, espalhado em uma bagunça humilhante, estavam cadernos, lápis, estojos rasgados, folhas amassadas. E no meio disso tudo, ajoelhado, com os ombros curvados demais para alguém da idade dele, estava um garoto.
Ele recolhia as coisas com cuidado exagerado. Cuidado demais.
Como alguém que já viveu aquela cena repetidas vezes.
Como alguém que se acostumou a ser tratado daquele jeito.
Meu peito apertou.
De verdade.
Por um segundo, minhas pernas decidiram antes da minha mente. Quando percebi, eu já estava indo em direção a ele, como se alguma coisa me puxasse. Talvez fosse empatia. Talvez fosse identificação. Talvez fosse porque uma parte minha sabia exatamente o que era ser invisível demais para ser defendido, mas visível o suficiente para ser humilhado.
Me abaixei ao lado dele.
— Ei… quer ajuda?
Ele mal levantou o rosto.
— Não precisa… — disse baixinho. — Eu já tô acostumado com isso.
Aquela frase me atingiu como um soco emocional.
Eu conhecia aquela sensação.
Conhecia aquela resignação no tom de voz.
Era o tom de quem tenta sobreviver em silêncio.
Sem pensar, respondi:
— Cara… ninguém tem que se acostumar com isso.
E comecei a ajudar. Juntei as folhas, peguei os lápis que rolaram até a parede, catei um caderno com a capa rasgada. Nossos movimentos eram rápidos, mas cuidadosos, como se estivéssemos montando os pedaços de alguém que tentaram quebrar.
Numa dessas, nossas mãos se tocaram.
Foi rápido.
Quase nada.
Mas eu senti.
Ele também.
Ele levantou o rosto. Pela primeira vez, me olhou de verdade.
E eu… eu fiquei meio sem ar.
Ele tinha um sorriso tímido, mas bonito. A pele negra tinha um brilho que a luz do corredor destacava, e o uniforme dele estava impecável, arrumado com um cuidado que dizia muito sobre quem ele era. Um cuidado de quem tenta sobreviver chamando o mínimo de atenção possível.
— Valeu — disse ele, sorrindo pequeno demais. — Eu sou o Felipe.
— Alec — respondi. Apertei a mão que ele estendeu.
E naquele aperto rápido, senti força.
Os braços dele eram definidos, como se ele treinasse, mas sem se gabar. Um corpo moldado mais por necessidade do que por vaidade.
Ele suspirou, recolhendo o último lápis.
— Eles sempre fazem isso com o bolsista. Essa escola é um inferno.
Eu senti a raiva subir tão rápido dentro de mim que meu rosto quase esquentou.
— Sério? — murmurei, incrédulo.
Ele assentiu, devagar.
— Entrei aqui no nono ano. Passei na bolsa 100%. Minha mãe chorou quando viu o resultado. Eu também quase chorei, pra ser sincero. Mas… — ele deu um riso triste — no nono ano eu era bem magrelo. Bem mesmo. Aqueles garotos ali detonavam comigo. Achei que se eu ficasse forte… isso ia parar.
Ele me olhou com um sorriso quebrado.
— Mas não parou.
Meu coração apertou de um jeito que quase doeu fisicamente.
Eu queria dizer tantas coisas.
Queria dizer que ele não merecia aquilo.
Queria dizer que ele era bonito demais pra alguém fazer ele se sentir pequeno.
Queria dizer que ele tinha um sorriso que deveria ser protegido, não apagado.
Mas só consegui dizer:
— Onde fica a sala 1003?
Ele levantou uma sobrancelha.
— É a minha.
E sorriu.
Um sorriso real dessa vez.
— Coincidência boa. Eu te levo.
E eu segui ele.
E, pela primeira vez desde que cheguei naquela escola enorme, senti um pouquinho de paz.
Como se a vida estivesse me mostrando que talvez… só talvez… eu não estivesse tão sozinho quanto achava.
Entrar na sala 1003 foi como atravessar uma porta que me levava para um espaço que pulsava em outro ritmo. As cadeiras estavam enfileiradas, A sala era feia e impessoal, diferente da minha antiga escola. Havia um ar-condicionado que deixava a sala feito um iglu. Escola de rico né? Havia cartazes nas paredes com frases motivacionais: trabalhe duro, vença seus limites. Sentei na carteira ao lado do Felipe, com o peito cheio de uma calma boba que eu não esperava sentir depois da correria do corredor.
O professor de História entrou com um ar de quem adorava dramatizar e já começou a falar de datas e revoluções como se contasse um filme épico. A voz dele era boa pra prender atenção; meus olhos, no entanto, desviavam vez ou outra para o corredor pela porta entreaberta, esperando ver Caíque. Era um costume novo — procurar por ele — e tinha um constrangimento dentro disso que eu não sabia rotular. Será que estava começando a depender? Será que isso tinha nome?
O Felipe mexia no lápis com aquele tique nervoso e me explicava coisas baixinho, como já tinha feito antes. Ele tinha um jeito de me salvar sem grande alarde: pequenas informações, um sussurro aqui, um comentário que me fazia entender o que estava pegando. Isso me fazia sentir mais humano. Menos exposto.
As horas passaram em fragmentos. Aula de Educação Física com histórias de alguém que correu uma meia-maratona; Português com uma professora de olhar severo, que sublinhava erros de ortografia como se fosse um ofensa pessoal; e por fim, o sinal agoniante que indicou que tínhamos, finalmente, intervalo.
Saímos para o pátio. O sol batia forte, o ar cheirava a poeira aquecida e a mistura de protetor solar com suor. O pátio estava cheio de grupos, pequenas bolhas sociais que pareciam territórios demarcados. O Felipe e eu fomos para a cantina pegar algo, rimos de uma história besta dele do nono ano e, por alguns segundos, tudo soou mais leve, até que a presença do Matheus veio como uma sombra.
Percebi antes da voz. A tensão mudou o ar, as risadas ficaram breves, alguns olhares se desviaram. Matheus entrou no espaço como um navio atravessando um lago calmo: o deslocamento era inevitável. Ele veio com intuito, com aquela arrogância de quem acredita que pode impor medo com o corpo. E quando ergueu o olhar e me viu, e viu o Felipe ao meu lado, o sorriso predatório se formou.
Sentei junto ao Felipe em uma mesa afastada, tentando fingir que não notava. O Felipe ficou tenso; eu senti. E, quando Matheus se aproximou, a voz dele carregou o mesmo veneno que eu já tinha ouvido no corredor.
— Ahhh… olha só. — ele provocou, fingindo surpresa. — O bolsista arrumou um amiguinho. Que gracinha.
O Felipe baixou o rosto. Meu sangue subiu. Algo dentro de mim empurrou-o antes de eu pensar melhor. Levantei-me com uma impulsividade que me assustou: não queria que ele passasse vergonha, não ali, não naquele primeiro dia, não sob aquele tipo de riso. Não por alguém que achava que dinheiro, tamanho e intimidação eram argumentos.
— A gente não quer falar com você. — falei, a voz saindo firme demais para minha própria surpresa. — Você está incomodando. Sai daqui.
Provocar sem medo me deu um frio na espinha. Matheus sorriu com desdém e avançou. A mão dele agarrou a gola da minha camisa com força; a respiração quente dele tocou meu rosto. A intensidade do aperto fez meu estômago encolher. Senti o peso da presença dele como se fosse um soco sem punho.
— Como é que é? — ele rosnou, encostando o rosto no meu.
Foi como se o tempo tivesse diminuído: os ruídos do pátio minguaram, o coração martelava tão alto que podia jurar que todo mundo ouvia. Senti medo real pela primeira vez naquele dia, um medo que não era abstrato; era concreto porque podia ser tocado. Fechei os olhos esperando um golpe, esperando humilhação.
Então, do nada, o mundo mudou de direção.
— Tá encostando no meu primo por quê?
A voz veio feroz, carregada de uma raiva controlada que fez o Matheus recuar só o suficiente para que eu percebesse a figura que se aproximava. O Caíque estava ali, a poucos passos, e eu notei algo diferente nele naquele instante: não era mais só o garoto sorridente que me deu abrigo. Era alguém com linhas duras no rosto, com a postura pronta para confrontar. Os dedos dele estavam cravados na gola do Matheus, puxando-o com força suficiente pra que o outro cambaleasse.
A presença do Caíque mudou tudo. O brilho que antes eu associava a ele — aquele carisma que atraía multidões — agora tinha um volume de proteção que me deixou desnorteado. A boca dele estava fechada, os olhos fixos, e havia uma ameaça silenciosa no ar que fez o Matheus sorrir falso.
— Tinha que ser da sua família mesmo… — Matheus resmungou, tentando desdenhar.
Caíque não respondeu com palavras longas. Subiu um passo e ficou muito perto, quase testa com testa. O tom que saiu dele foi quase um aviso:
— Próxima vez que eu te pegar encostando no meu primo, eu vou descer a porrada em você. Não vai sobrar um dente na tua boca. Ouviu?
A voz dele foi baixa, mas cada palavra reverberou, cortando o barulho do pátio. Matheus estufou o peito por um segundo — o teatro clássico do valentão — mas quando olhou para o rosto do Caíque, viu que aquilo não era teatro. A expressão dele vacilou. O professor surgiu logo depois, com aquele ar de autoridade que quebra brigas com palmas e ordens, e empurrou os garotos para longe como quem remenda uma curva perigosa.
Quando tudo se acalmou, o Caíque veio até mim. Diferente do rosto duro que tinha exibido minutos antes, agora havia preocupação lá — aquela preocupação que me fez perceber o quanto eu era importante pra ele, mais do que eu pensava. Ele colocou a mão no meu ombro com um cuidado que doeu por dentro. A mesma mão que havia sido dura com Matheus agora era gentil comigo.
— E aí, primo… — disse ele, quase murmurando. — Cê tá bem? Ele te fez alguma coisa?
A forma como ele falou “primo” tinha um peso que mudou tudo dentro de mim. Não era só parentesco; era posse afetuosa, era um escudo. Eu balancei a cabeça, ainda tremendo.
— N-não. Ele só… me segurou.
Caíque mordeu o lábio, um gesto que mostrou que aquilo mexeu com ele mais do que gostava de admitir.
— Aquele cara é um babaca — falou, com desprezo. — Sempre foi problema. Sempre metido a dono do lugar. Fica de boa que enquanto eu estiver por aqui, ninguém toca em você.
O orgulho no som da voz dele me deixou embaraçado e, ao mesmo tempo, aqueceu algo meu que eu não sabia nomear. Era uma mistura de gratidão e… conforto, talvez. Era como se alguém tivesse colocado um cobertor sobre minha insegurança.
O Felipe ficou ao meu lado, olhando para Caíque com uma expressão que misturava alívio e reconhecimento. Alguns colegas cochicharam, outros lançaram olhares de aprovação. A sensação de estar um pouco menos invisível surgiu ali, não por mérito meu, mas pelo reflexo da proteção que me havia sido dada.
Mais tarde, enquanto eu e Felipe caminhávamos de volta para a sala, senti olhares que antes não existiam. Alguns sorrisos, algumas perguntas. A notícia parecia correr: o primo do Caíque tinha sido defendido. Por mais que eu não quisesse aquilo, por mais que me incomodasse ser “aquele primo”, aquilo me colocou de alguma forma em outro lugar dentro da escola — um lugar com menos perigo imediato.
Mas também deixou algo inquieto em mim. Vi o Caíque conversando com amigos, rindo como sempre, mas por trás daqueles risos havia uma linha de proteção que agora eu sabia existir. E isso mexeu com coisas que eu nem tinha certeza de entender ainda: vergonha por precisar de defesa, gratidão por recebê-la, e um reconhecimento novo de que havia laços me segurando naquele lugar enorme.
Quando o sinal tocou e a sala 1003 me recebeu de novo, senti o peso do dia mudar. O primeiro dia já não parecia só um teste de sobrevivência. Começava a parecer um lugar onde alianças se formavam, onde escolhas — de proteger, de ser protegido — eram expostas no calor do pátio. E eu, por mais confuso que estivesse, sentia que pela primeira vez desde que chegara, havia um fio que me ligava a algo — a alguém — que me fazia acreditar que talvez eu conseguisse atravessar aquele ano sem me dissolver.
O resto do dia passou como se o tempo estivesse decidindo se queria correr ou arrastar. Cada aula parecia um bloco compacto de vozes, explicações e barulhos de páginas virando, mas eu não conseguia prestar atenção de verdade. Minha mente voltava, inevitavelmente, para a cena do intervalo.
O momento em que Matheus segurou minha camisa.
O instante em que eu realmente achei que ele fosse me bater.
E, acima de tudo, a expressão do Caíque quando apareceu.
Aquela mistura de raiva, proteção e um cuidado que me deixou completamente desarmado. Eu ainda sentia o impacto daquilo no peito, como se aquela imagem estivesse gravada na parte interna das minhas pálpebras. Sempre que piscava, lá estava ele, entrando no pátio como se fosse puxado por instinto — como se tivesse escutado meu medo de longe.
Quando o último sinal finalmente tocou, o corredor ganhou aquele fluxo caótico de fim de expediente: risos altos, passos apressados, gente chamando amigos para irem embora juntos. Eu estava guardando meu caderno quando o Felipe tocou meu ombro.
— Quer ir junto comigo até o portão? — ele perguntou, ainda com aquela gentileza tímida, como se sempre estivesse pedindo permissão pra existir.
Assenti, e saímos juntos. Do lado de fora, o sol da tarde já caía, deixando tudo num tom dourado que fazia a fachada da escola parecer maior do que era. Caminhei distraído, pensando no dia inteiro, tentando entender por que tudo parecia tão grande, tão intenso, tão… pessoal.
Quando saímos no pátio, o sol da tarde deixava tudo alaranjado, dando aquele ar de filme adolescente americano. Mas o que realmente chamou minha atenção foi a movimentação perto das quadras. Tinha uma rodinha de gente. Várias garotas rindo. Alguns meninos do time de futebol. E bem no meio… o Caíque.
Ele estava abraçado com uma garota morena, de cabelo liso e sorriso aberto, parecia íntima dele, íntima o suficiente pra passar os braços pelo pescoço dele como se fizesse isso todo dia.
Eles estavam conversando rindo, muito próximos, e antes que eu entendesse o porquê, ela deu um selinho rápido nele. Um selinho simples. Normal. Comum.
Mas meu peito travou.
Eu senti.
Uma pontada.
Pequena, mas afiada.
Como se algo tivesse me cutucado por dentro. Eu não soube explicar na hora. Só senti aquela coisinha desconfortável, ciúme? Inveja? Sei lá. Eu só sei que… incomodou. Muito mais do que deveria.
— Aquela é a Bianca — o Felipe disse ao meu lado, percebendo que eu fiquei olhando. — Eles ficam desde o ano passado. Terminam, voltam… aquele ciclo tóxico que ninguém entende.
Eu apenas murmurei um “ah”, fingindo que não era nada.
Mas por dentro… não sei.
Parecia que alguma coisa estava começando a se mover dentro de mim, devagar, como se eu estivesse percebendo algo que eu ainda não tinha coragem de admitir.
— Ei… — perguntei a ele — tu sabe como eu faço pra chegar na minha casa daqui? Tipo… de ônibus? — disfarcei a sensação estranha que estava sentido..
— Ué, tu não veio com motorista? — ele disse me encarando como se percebesse algo errado.
— Vim, mas… sei lá. Eu queria saber o caminho. Acho que quero ir de ônibus hoje. — falei pegando meu celular e mostrando o endereço pra ele.
O Filipe deu de ombros, mas sorriu.
— Dá pra ir sim. É pertinho. Inclusive é o meu ônibus. Se quiser, a gente vai junto.
Eu aceitei na hora. Não queria ver mais nada no pátio. Não queria pensar. Eu só queria sair dali.
Enquanto a gente andava pro ponto, meu celular vibrou. Duas vezes. Três. Era o Caíque ligando e ru não atendi. Esperei a ligação parar e mandei só um WhatsApp, rápido, quase seco:
“Já tô indo pra casa. Tô com um amigo.”
A mensagem entregou. Ele saiu do “online” na mesma hora. Eu respirei fundo e guardei o celular no bolso.
Às vezes, a gente foge sem saber de quê. Eu só sei que… alguma coisa dentro de mim mudou desde aquele selinho. E eu não tenho a menor ideia do porquê.