Tempestade 03

Um conto erótico de Igor Alcântara
Categoria: Homossexual
Contém 3674 palavras
Data: 30/12/2023 00:51:00
Última revisão: 31/12/2023 02:58:00

Naquela manhã Rodrigo amanheceu sorridente. Mesmo ainda levemente incomodado com o silêncio e a falta de interação matinal entre sua família ele preparou seu habitual misto quente no fogão e café preto feliz por ser uma segunda. Dia de atendimentos na clínica então teria horário de almoço e poderia encontrar Davi.

Aquela semana as coisas estavam bem entre ele e Paula. Não houveram brigas e ela estava muito paciente e calada. Até demais, se ele parasse para pensar. Mas Rodrigo não pensava muito em Paula. Rodrigo agora, quase 3 meses depois de conhecer Davi, se sentia "um outro homem". Ele ria sozinho ao mexer no misto e pensar isso.

Hoje Rodrigo usava roupas novas, algumas com mais cores. Laranja, azul, vinho e até uma cor chamada salmão que ele nem sabia que existia. Era a cor da sua camisa social naquela manhã, inclusive. A achava tão bonito que considerava um crime cobri-la com o jaleco. Rodrigo comia e seu relógio despertou avisando que deveria sair. Dirigindo ele recebeu uma mensagem de Davi.

Que puta pontada no peito! Eram 6:30 da manhã. Rodrigo se controlava para não mandar mensagens a ele ao acordar, afinal era madrugada e agradeceu a todos os deuses por Davi tomar essa iniciativa. Ainda ao volante ele não se controlou e revisou a mensagem.

Na mensagem dizia: "Bom dia! Foi mal o horário mas você me disse que sempre estaria acordado. Os caras querem marcar futebol hoje. Falei que você manjava um pouco. Mas tem que confirmar cedo a reserva e fazer o Pix. Quando ver essa mensagem me confirma se posso manter seu nome na lista. Bora lá?"

Futebol? Meu Deus faziam séculos que Rodrigo não sabia o que era isso. Ele parou de jogar desde que assumiu o emprego da clínica e ocupou sua semana. O que ele devia fazer? Aceitar? Rodrigo nem sabia mais como seria sua performance. Manter seu nome na lista? Manter? Então Davi já o havia colocado? E se passasse vergonha na frente dos demais? Que droga de insegurança Rodrigo, que droga...

- Bom dia! - Ele riu - Faz muito tempo que eu não jogo Davi. Devo ter duas pernas esquerdas. Tem certeza? - ele respondeu em áudio.

Davi parou de responder e parou por tempo demais. Que droga! Será se tinha perdido o programa de quarta com Davi? Rodrigo chegou a clínica tão atento ao celular que passou pela recepção de costume apenas cumprimento os demais com o olhar. Entrou em seu consultório ansioso. Toque, celular. Toque, droga! Finalmente meia hora depois seu celular vibrou. Não acreditava que deixou passar essa chance.

"Tá a fim do futevôlei? 19h"

"Com certeza" - Rodrigo digitou às pressas para não correr o mesmo risco de antes. Ele nem sabia como iria jogar depois de tanto tempo.

"Eu vou tirar nossos nomes da lista do futebol. Vamos jogar futevôlei. Por favor me recompense hoje kkk"

"Vou sim. Prometo."

"Fechado então" - Davi finalizou.

Rodrigo atendeu a todos os pacientes radiante aquela manhã. Até se levantou para abrir a porta do consultório para alguns. Saia de tempos em tempos para beber água na cantina da clínica e sorria para todos. Ele sabia que naquela noite iria sair com Davi. Era o primeiro programa diferente deles além do habitual almoço algumas vezes na semana.

As 11h, no fim do atendimento, seu celular tocou. Rodrigo catou o celular às pressas já imaginando ser Davi dizendo que estava indo para a praça de alimentação mas era Paula pedindo para ele buscar Matheus na escola e trazê-lo para casa já que ela não conseguiria.

Era incrível como ver o nome de Paula no celular lhe fazia broxar numa situação alarmante. Rodrigo não sentia mais nada por Paula. Nem mesmo a habitual irritação e, inclusive, naquele instante percebeu que eles não faziam sexo há meses. Eram como um casal separado em casa e Paula não demonstrava se incomodar.

Ele explicou a Davi sobre a obrigação e foi buscar o pequeno na escola. Tudo bem. Ele iria recompensá-lo mais tarde. Ria sozinho. Deixou Matheus em casa e se certificou do seu almoço.

- Você tem tudo que precisa? - ele perguntou a Paula na cozinha já pronto para sair.

- Por agora sim mas quando você voltar da clínica passa na padaria e traz pão e queijo. Pode pagar com o seu cartão do BB no débito.- ela disse.

- Paula... Você não precisa me indicar qual cartão pagar.

- Como se você controlasse isso... - ela disse cortando legumes.

- Eu sei quanto tenho em dinheiro na conta e sei como usar.

- Rodrigo só faz o que tô pedindo, por favor. - ela disse bufando.

- Eu acho melhor você ir comprar. Eu não vou voltar direto pra casa hoje.

Paula parou de cortar os legumes e finalmente se virou olhando Rodrigo nos olhos.

- Então vai ser isso agora?

- Como assim?

- Rodrigo, você almoça comida cara no shopping toda semana. Agora deu pra comprar roupa direto. Abastece o carro com muito mais frequência... Eu e o Matheus não merecemos pão? E pra onde você pensa que vai?

- Não se trata disso e como você sabe que tô comendo no shopping?

- Pagando com cartão.

Rodrigo se sentiu burro. Paula tinha o controle das finanças da casa e sabia cada gasto nos cartões.

- Eu vou... Jogar futevôlei com uns amigos. - Rodrigo tentou falar com o máximo de confiança que conseguiu.

- Você? Há quantos anos faz que você não joga?

- Não importa.

- Onde vai ser esse jogo? Quem vai?

- Num clube. Não sei ainda onde fica... - tentou desconversar sobre quem iria. Disfarçou checando os bolsos fingindo conferir as chaves.

- Que horas?

- As 19h. Você não vai a loja hoje?

Paula tinha uma loja de roupas femininas no centro da cidade em sociedade com a irmã. A irmã dela, Débora ficava mais tempo na loja enquanto Paula se dava o luxo de ficar em casa. Acontece que Paula havia entrado com mais capital no negócio então a irmã ficava com essa parte mais "braçal" da coisa toda. Inclusive era essa loja e mais a vida boa com a renda de Rodrigo que fazia com que Paula decidisse não atender mais como Nutricionista com frequência. Paula, controladora, gostava de as vezes passar na loja no fim da tarde algumas vezes na semana para conferir caixa e aquela era uma ótima tarde para ela fazer isso. Pensou Rodrigo.

- E você saindo da clínica as 16h não pode passar aqui? - ela cruzou os braços.

Ele nem havia notado essa diferença de tempo. A verdade é que Rodrigo inconscientemente já queria encontrar Davi e ter mais tempo com ele antes do jogo.

- Tudo bem... Eu passo na padaria.

- Acho bom. - ela falou esquadrinhando cada centímetro de Rodrigo enquanto ele se esforçava para manter a calma. - Voce tá fora de forma, sabe disso né?

- Eu sei... - Rodrigo disse enquanto recolhia o prato do filho e levava até a pia para lavar. - e não me importo.

- O que?

- Não me importo de estar fora de forma. Jogar vai ser bom para perder peso.

Paula apertou sua pele por cima da camisa. Ele odiava quando nutricionistas o avaliavam assim desde que ganhou peso. Aquela pinçada com os dedos era horrível. Se sentia um hamster. Oprimido. Avaliado. Isso despertava gatilhos horríveis em Rodrigo.

- Eu chuto que você precisa perder uns 8 kgs. Voltar para a casa dos 70kg. Pra sua altura. É o peso ideal.

- Me solta! Não faz isso. - ele desviou a cintura de sua mão ainda com as mãos debaixo da água corrente.

- Que chilique. Nem é tanto assim... - ela disse sem se importar.

Pela primeira vez Rodrigo sentiu repulsa por Paula. Repulsa ao toque dela. As coisas estavam piorando cada vez mais e naquele instante teve certeza que não conseguiria mais transar com ela. Talvez nunca mais.

Beijou o filho e voltou a clínica. Passou pela padaria no percurso para ganhar tempo. Terminou os atendimentos da tarde e voltou para casa para entregar os pães e o queijo pedido. Nem mesmo desligou o carro enquanto deixava os itens no balcão. Pegou o filho no colo, brincou um pouco. Rodrigo estava radiante.

- Comprou brioche? Você sabe que eu só como pão bri...

- Sim. Brioche. Tá tudo aí. - Rodrigo subiu as escadas correndo com Matheus no colo.

Colocou Matheus na cama e a criança pulava atrás dele enquanto ele encarava uma dura realidade. Como iria jogar futevôlei sem nenhum shorts ou sunga descentes? Não! Aquilo não podia ser verdade. Revisou todos os seus shorts e não tinha opção. Iria jogar de jeans mas não faltaria.

Continuava a brincar com o filho enquanto tirava a camisa e a calça as peças, chutando os sapatos. Vestiu uma bermuda jeans surrada e uma camiseta. Trouxe Matheus de volta para a sala simulando um foguete em suas costas.

- Até mais! - ele dizia saindo catando suas chaves.

Paula não respondeu nada. Ele não se importava.

Eram 18:00 e ele estava chegando ao clube pela localização que Davi havia enviado no WhatsApp. Entrou e viu as quadras e piscinas diversas. Era entrando mais tinha um cheio bom naquele lugar. Rodrigo conhecia a expressão memória olfativa. Memória da época que jogava com os amigos da faculdade. Parecia fazer tanto tempo.

- Fala Rodrigo! - Davi gritou de longe.

- Ei! - e se virou para ver Davi.

Porra. Davi estava sem camiseta. Num short tactel preto e liso acima do joelho. A camiseta estava no ombro e na mão sua carteira e celular. Davi exibia um peito forte, um abdome magro, forte e fino. Perfeito. Ombros até que bem desenvolvidos para alguém magro. O coração de Rodrigo acelerou. Ele corou.

- Você... Vai jogar? - Davi disse olhando para a bermuda jeans de Rodrigo.

- Sim! Eu... Não tenho um short sequer pra isso.

- Pode jogar de sunga.

Sunga? Só podia ser uma piada. Rodrigo nunca se exibiria assim.

- Vamo beber algo. A galera chega já já.

- Vamo lá.

Tomaram uma cerveja rápida no bar de apoio e voltaram para a quadra reservada. No jogo formaram duplas. Rodrigo e Davi num time. Fernando e Ezequiel no outro. Rodrigo tirou a camisa acanhado e percebeu que Davi o observou. Ele chegou a corar novamente.

- Fortinho, heim? - Davi disse rindo.

- Já estive melhor. - Rodrigo disse envergonhado.

- Tá de brincadeira, né?

- Você não me acha gordo?

- Gordo? - Davi o olhava de cima abaixo se perguntando de onde ele tirou aquilo. - Eu te chamei de forte!

- É mais eu já tive mais magro.

- 2 meses jogando isso aqui umas 3x na semana você seca o que tiver te incomodando. - Davi disse parecendo fazer desdém da preocupação de Rodrigo. - Pra mim você já tá ótimo.

Rodrigo se sentiu bem com o elogio. Sorriu sozinho enquanto colocava a camiseta de canto. A sincronia entre os times era perfeita. Principalmente entre Rodrigo e Davi, que elogiava constantemente cada ponto feito com Rodrigo e comemorava com bateres de palmas, abraços e gritos.

Que noite incrível. Aquela energia que o esporte causava era maravilhosa. Rodrigo não sentia aquilo há muitos anos. Meu Deus, como ele podia ter deixado isso se perder? O tempo passou tão rápido que já eram 23h. Pagaram a reserva da quadra.

- Então daqui a pouco você precisa entrar no modo médico de plantão novamente?

- É... Aquela coisa. Posso ficar em casa e dormir mas se chamarem preciso ir correndo até de pijama se duvidar.

- Você é muito responsável. Eu admiro muito isso.

Rodrigo não se sentia admirado por alguém próximo há tempos.

Naquela madrugada Rodrigo foi chamado as 3:45 para uma ocorrência. Tentou não reclamar muito já que nas últimas semanas quase não houveram ocorrências pela madrugada mas era sempre desgastante. Fez a reconstrução de praticamente um rosto todo cheio de fraturas de um rapaz de 29 anos. Mesma idade de Davi.

Não pode deixar de pensar no quanto gostava de Davi e temia pela segurança dele. Se algo acontecesse com Davi seria ele quem iria cuidar dele? E se acontecesse numa noite em que ele não estivesse de plantão? Que pensamento doido...

Voltou para casa próximo das 6h da manhã e caiu no sono. Próximo das 11h acordou e a casa estava vazia. Catou o celular sonolento e havia uma mensagem de Paula.

"Fui almoçar na casa da mamãe. Tem carne pronta na geladeira."

Esse não era um problema. O problema era a mensagem do próximo remetente. Davi dizia.

"Cara eu tô todo quebrado. Me ajuda!"

Os pensamentos da madrugada vieram como um turbilhão. Rodrigo pulou da cama em solavanco e sentiu muita dor nas costas e pernas. Abriu as mensagens. Davi contou que acordou com muita dor depois do jogo da noite passada.

"Onde você tá?" - Rodrigo quis saber.

"Em casa. Não consegui ir trabalhar."

"Também tô um pouco dolorido. Mas foi o jogo. Me manda seu endereço."

Rodrigo foi a casa de Davi e ao chegar lá não era uma casa. Quer dizer, era uma casa mas sendo construída.

"O GPS diz que tô na porta." - Rodrigo enviou do carro.

"Desculpa. A garagem não tá pronta."

Rodrigo estacionou e o portão automático abriu. Ele entrou e literalmente era um canteiro de obras.

- Davi? - ele chamou do "jardim."

- Opa! - Davi abriu a porta e mancou com dificuldade até ele. - Entra.

Ao fundo Rodrigo notou homens trabalhando na construção.

- Desculpa a bagunça. - Davi disse de forma honesta. - Eu tô morando no meio dessa obra.

A sala estava rebocada mas havia um cheiro forte de tinta e cimento. A cozinha por outro lado estava muito avançada, já com azulejos e armários. Haviam móveis jogados e sujos.

- Que reforma enorme. - Rodrigo admirou.

- Na verdade é uma construção. Eu não podia morar de aluguel e arcar com a prestação do financiamento. Então pedi que adiantassem meu quarto e cozinha para eu poder me mudar e morar na obra economizando o aluguel. - Davi dizia trazendo Rodrigo para a cozinha.

- Mas tá indo super bem. Enfim, o que houve? Me deixou um pouco preocupado. Inclusive, não manda mais mensagens dizendo aquilo. - Rodrigo coçou os cabelos tentando disfarçar.

- Desculpa... Foi meio sem noção mesmo. Cara eu nunca senti tanta dor nas pernas nem quando fiz musculação. Pegamos muito pesado ontem.

- Também tenho dor mas não tanto assim.

- Tá vendo! Falei que você é fortão. Eu quase não consigo caminhar! Fiquei com medo. Não sabia o que fazer. Não parece ser grave o suficiente pra eu chamar uma ambulância e aparecer como seu paciente no hospital. Já pensou? - Davi disse e riu.

Rodrigo teve um gatilho. Ele queria proteger Davi. Lembrou do outro rapaz que havia cirurgiado mais cedo. Não! Não! Nem pensar! Davi não podia ter nenhuma complicação. A noite passada foi tão divertida! Ele não queria perder a chance de repetir.

Eu tenho algumas coisas no carro. Mas preciso que você se deite no sofá pra te examinar.

- Então vem pro meu quarto porque eu não tenho sofá aqui.

Rodrigo corou. Meu Deus. Aquilo poderia facilmente ser usado como flerte. Que droga. O que ele estava pensando? Que Davi havia o atraído pra lá com outras intenções? Ele não faria isso. Não... E também tinha a questão de Rodrigo ser... Casado. Não. Isso não era certo. Davi não faria isso.

- Eu volto já. - Rodrigo saiu tentando organizar as ideias. Pegou um aparelho de eletrochoque e um gel de massagem. Voltou e subiu até o quarto de Davi.

- Ok... - Rodrigo parecia nervoso como se fosse sua primeira consulta. Davi esperava as instruções sentado na cama. - Eu preciso que você deite e me diga onde foi exatamente.

- Nas duas pernas. Coxas e panturrilhas. Muito. - Davi deitava com esforço fazendo cara de dor.

Rodrigo tocou Davi pela primeira vez em quase 6 meses de amizade. Sua coxa firme como uma rocha não só pela musculatura mas pela dor muscular. Rodrigo engoliu um seco. Nunca tinha se sentido assim com um paciente.

- Eu preciso primeiro massagear e ver pontos de tensão. Só então posso tentar outra coisa. Minha especialidade são ossos, sabe...

- Faça o que precisar. Desculpa, só agora pensei nisso. Que idiota.

Rodrigo massageou a coxa direita de Davi que gemeu ao toque.

- Desculpe. Eu preciso pegar na dor.

Davi trancou a cara e aguentou. Rodrigo massageava e com o auxílio do gel sua mão corria facilmente pela perna de Davi. Ele pôde sentir cada fibra de Davi se contorcer de dor.

Dobrou sua perna e depois a outra checando a amplitude do movimento.

- So aguento até aí. Para por favor. - Davi sinalizava com a perna semiflexionada.

- Ok.

Rodrigo massageava agora mais gentilmente e sentiu Davi relaxar em suas mãos. Por um minuto pensou ter visto Davi desfazer a cara de dor e o encarar. Ele evitava o contato visual e ficava em ser o mais profissional possível.

Colocou para agir o aparelho de eletrochoque para relaxar a musculatura de Davi. Explicou como funcionava e observa as pernas de Davi contraírem e relaxarem sozinhas enquanto o aparelho lançava pulsos elétricos.

- Valeu por cuidar assim de mim. - Davi disse após um tempo em silêncio.

Porra. Aquilo o queimou. Queimou dentro do peito de Rodrigo escutar aquele agradecimento, aquele reconhecimento.

- Não foi nada. - Rodrigo disse sabendo que seu sorriso estava enorme.

- Queria te retribuir com um almoço mas acho que você não vai querer almoçar escutando uma máquina de preparar cimento funcionar no seu ouvido.

- Não precisa se preocupar... - ele tirou o aparelho das pernas de Davi e... Aquilo era uma leve ereção? Aquilo deixou Rodrigo corado feito um tomate.

Que droga, Rodrigo! Você é um homem. Calma. Homens ficam duros. Você sabe. Calma. Calma!

Davi levantou rápido da cama ajustando a camisa.

- Obrigado por cuidar... Eu já disse isso. É... Amanhã é sexta. Você sai da clínica e se quiser almoçar comigo...

- Eu quero almoçar com você todos os dias, Davi.

Davi abriu um largo sorriso na cama.

- Todos os dias junto comigo?

- Todos... os dias. - Rodrigo disse tremendo com o aparelho em mãos se dando conta do que soltou.

Houve um pequeno momento de silêncio que pareceram minutos. Davi se levantou e caminhou mancando até perto de Rodrigo o olhando nos olhos. Rodrigo instintivamente levou uma mão ao ombro e outra a cintura de Davi.

- Cuidado!

- Cara... - Davi disse trocando o olhar rapidamente entre um olho e outro de Rodrigo como se quisesse conferir se ele estava 100% atento.

- Fala. - Rodrigo disse quase implorando. "Por favor. Fale porque eu não tenho coragem. Eu não tenho essa maldita coragem Davi! Fale!"

- Não vou mais... - numa fração de segundos quando Davi disse isso Rodrigo arregalou os olhos pensando o pior. Não vai mais o que? Almoçar comigo? Me chamar quando precisar? Não vai mais? Não vai mais o que porra? - Não vou mais segurar isso não. - Davi disse se rendendo.

Davi deu mais um passo a frente e beijou Rodrigo. No início Davi apenas colou seus lábios e esperou ser correspondido. Rodrigo parecia quase infartar. Veio uma pontada do peito que parecia que ia sair pelas costas de tão profunda. Ele olhava para o rosto de Davi tão próximo dele, com os lábios grudados nele. Que porra ele estava fazendo? Por que não havia correspondido??? Quantos segundos se passaram? Dois? Três? Cinco?

Rodrigo sentiu os ombros de Davi murcharem e ele se afastar brevemente olhando para o chão. Pela primeira vez em muito tempo Rodrigo chegou ao ápice do ódio de si mesmo. Ele desperdiçou aquele momento. Num rompante, num rompante ainda com Davi há centímetros dele - e se distanciando - ele jogou o aparelho na cama e agarrou a cintura de Davi reiniciando o beijo.

Ele colou os lábios no de Davi de uma forma forte e quase bruta. Rodrigo sentiu doer mas necessitava tanto daquilo. Daquele contato, do toque, só cheiro, do gosto do beijo de Davi. Davi agarrou seu pescoço e as bocas trabalhavam numa sincronia ainda mais perfeita que passes do futevôlei da noite anterior.

Rodrigo não sabia quando tempo aquele beijo feroz durou. Ele só queria aproveitar. Beijou Davi mais e mais vezes. Respiravam quase com bocas grudadas e voltavam ao beijo.

Quando se separaram, nem mesmo a máquina preparando cimento na parte de fora da casa poderia superar o silêncio entre os dois.

- Desculpa. Não queria te assustar. - Davi disse.

- Não assustou... - Rodrigo disse coçando a cabeça e catando seus pertences.

- Não quero que isso mude nada entre a gente. Por favor. Desculpa cara...

- Não vai mudar. Tá tudo bem. - Rodrigo dizia começando a esboçar um sorriso. - Foi bom.

- Foi ótimo. - Davi disse aliviado.

O celular de Rodrigo tocou. Era uma chamada do hospital.

- Eu preciso ir pro hospital agora. - Rodrigo disse decepcionado.

- Não se preocupe. - Davi pôs a mão em seu ombro.

Rodrigo riu bobo.

- Aqui tem relaxante muscular. - ele catou um comprimido da sua maleta. - So tem esse. Toma e vê se melhora. Se não, me diz que trago mais.

- Obrigado.

Eles ficaram em silêncio enquanto Rodrigo fechava sua maleta. Não havia o que dizer. Eles haviam se beijado. Rodrigo estava nas nuvens. Foram meses esperando aquilo e aconteceu. Quase escorregou por suas mãos mas aconteceu.

- Rodrigo.

- Oi.

- A gente vai se ver de novo, né? - Davi falava apreensivo. - Cara... Eu nem sei o que dizer.

Rodrigo deu um passo a frente e abraçou Davi forte. Tragou o cheiro do seu pescoço o fazendo tremer. Abriu os olhos e encarou o chão por cima do ombro de Davi. Meu Deus. O que ele estava fazendo??? Foda-se!

- Pode apostar que sim! - ele se separou olhando Davi nos olhos com um sorriso preso. Lhe deu um selinho rápido e carinhoso que fez Davi abrir o sorriso de vez.

Rodrigo deixou Davi no quarto ainda dolorido demais para descer as escadas e saiu pelo portão elétrico que foi aberto por Davi pela janela.

Foi instantâneo. A vida de Rodrigo deu uma guinada daquele dia em diante.

Espero que estejam curtindo o conto. Todo amor e carinho pelos comentários. É gratificante ler cada um. ♥️ Vi que o site agora dispõe de algumas funções pagas como enviar mensagens privadas. Ainda não assinei a plataforma e por isso não consigo ler as mensagens que me enviam aqui. Sinto muito. Então sempre respondo os comentários públicos e deixo o e-mail no final dos contos para respondê-los melhor.

Abraço.

Igor.

kazevedocdc@gmail.com

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Comentários

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O tema escolhido e bem interessante, mostra um casamento praticamente falido, onde a esposa ao que parece só se preocupa com o dinheiro, não se preocupa com o relacionamento, já que tem meses que eles não transam, e ainda por cima questiona o marido por fazer compras e mudar o guarda roupas, é o pior de tudo na valoriza ele, só sabe criticar e falar merda. Tem muitas pessoas iguais essa esposa, e digo que ambos os sexos, pessoas que só pensam em si, aí quando a pessoa cansa e pede divórcio se fazem de vítima.

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Mais um item a ser colocado, relacionamento não é só sexo, tem que ter companheirismo, respeito e diálogo, é isso não tem no caso do relacionamento do Rodrigo com a esposa, toda vez que ele tem um convite para evento, ela sempre inventa uma desculpa, ou seja estão empurrando com a barriga, não dá mais pra manter esse relacionamento.

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MEU DEUS, POR QUE RODRIGO AINDA CONTINUA CASADO COM ESSA MEGERA? POR QUE DEIXA ELA CONTROLAR AS FINANÇAS? POR QUE PERMITE QUE ELA FAÇA COMENTÁRIOS MALDOSOS COM SEU CORPO? ISSO É BULLYIMG, CHANTAGEM, CONSTRANGIMENTO, OU SEJA TUDO QUE É DE RUIM. DÁ UM PÉ NA BUNDA DELA.

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Rodrigo tem algumas características de um amigo meu, em quem ele foi inspirado. Uma delas é essa passividade e a vontade de fazer o certo. De ser provedor e de que deve se dedicar 100% ao seu lar. Isso vem principalmente pelos ensinamentos do pai sobre paternidade e família. Estar apaixonado por Davi ainda dentro do seu casamento é um dilema para ele. Porque apesar dele gostar do Davi ele tem um sentimento de que está transgredindo regras da sua vida toda. É um dualidade de verdade.

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Nossa..o conto é tão bom que até parece que eu que estou vivenciando ele!!

Parabéns!!!

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Adoro essa sensação de imersão quando estou lendo. É muito doido porque enquanto escrevo também fico tão imerso no conto que vejo os amigos em quem os personagens são inspirados e por vezes até confundi as realidades. Kkk

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Igor muito obrigado! O site tava precisando, mais uma vez, de um conto assim. Parabéns, continua por favor, e, FELIZ ANO NOVO PARA VOCÊ

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Delicia demais quando o sexo vem com romance e sendo bem (d)escrito, é maravilhoso. Tô adorando a história.

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Cara que sensação maravilhosa essa expectativa, mensagem, coração acelerado, tocar o corpo, ereção e no final como total recompensa, o beijo. Quase enfartei também. Descoberta de um novo sentimento, principalmente quando se está numa inércia é maravilhoso. Adrenalina, tesão, é se sentir vivo outra vez. Sei que não vai ser fácil mas espero ansioso por esse romance que promete. E viva o amor. Obrigado pelo conto e feliz ano novo.

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Meu Deus você captou exatamente tudo que eu queria passar. Esse amor juvenil, novo, de aquecer o peito. Rodrigo tá descobrindo tudo isso de novo e por isso esse misto de sensações.

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Você manda muito bem, Igor! Essa construção dos personagens é incrível. Dá pra se sentir em cada um deles. Muito foda. Seguindo o conselho do amigo Roberto, li Um Estranho e A Primeira Vista, já sou seu fã! Hehehe

Feliz ano novo!

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Sempre construo personagens assim. Em mais capítulos. Não me sinto pressionado a acelerar as coisas. É bom ver que gostam. Obrigado por acompanhar os contos!

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