[LGBTQ+] PANDEMIC LOVE - DIÁRIO DE UMA QUARENTENA / 12 - RELICÁRIO

Um conto erótico de EscrevoAmor
Categoria: Gay
Contém 2183 palavras
Data: 19/08/2020 23:06:45

Inferno de Corona vírus. Eu não conseguia acreditar que havia pegado essa doença maldita. A febre não deu sinal de vida, segundo a Nadine uma vitória, mas eu ainda não conseguia sentir cheiros ou sabores. A minha distração se tornou o videogame, vez ou outra, os meninos jogavam comigo.

Levantei da cama e peguei o calendário do LOL, sorri, pois, lembrei do sonho maluco que tive dias atrás. Faltavam quatro dias para eu refazer os exames, teoricamente, a doença não seria mais transmissível.

Qual seria a primeira coisa que faria? Abraçar meus pais, comer um prato de macarronada ou beijar o André. Todas as opções eram tentadoras, mas com certeza, o André estava na frente. Nos últimos dias, ele trouxe outros bilhetes. O Quintino se tornou um ótimo professor, não conseguia imaginar as torturas que o André sofreu por parte do meu primo. Ficava paquerando as mensagens, gostava de receber cartas, algo bem retrô, não é?

Outra coisa que mudou foi a Nadine, pela primeira vez, ela não usou aqueles trajes especiais. Quase me senti normal de novo. Naquela tarde, a enfermeira utilizava apenas uma máscara resistente e um sobretudo do mesmo material da máscara.

Aquele horário, a gente costumava a jogar Mário Kart e, para minha surpresa, a Nadine pegou a manha e venceu algumas partidas. Eu não percebi, mas ela se tornou uma grande amiga. O meu único contato durante o tratamento.

Devido a doença que chegou na Fazenda, alguns funcionários pediram demissão. Por mais que os meus pais procurassem, ninguém, eu disse ninguém queria arriscar ficar doente, então, nada de trabalhadores. Para não sobrecarregar o Seu Nestor e André e, claro, buscando uma forma de castigar a Rêh e Lukas, o papai decidiu que eles ajudariam nos afazeres do dia a dia.

Saí para varanda, o dia estava tão bonito, céu azul e vento batendo no rosto. Adorava esses dias de sol, mas com uma temperatura baixa. Cheguei na beirada, levantei os braços e me espreguicei. Encostei os cotovelos na grade de segurança e observei a movimentação.

Uma cena chamou minha atenção, vi a minha irmã carregando um grande pedaço de feno. Ela vestia um macacão e um top rosa. Com muita dificuldade, a Rêh segurava o feno, deixou no chão e descansou uns poucos minutos.

Quase ri, quando o André passou por ela, a Rêh abriu um sorriso, mas ele passou direto, nem se importou. Será que ele ficou chateado por causa de mim? O André gostava de mim, esse tanto?

— Ei! — Gritou Quintino.

— Quintino? — Perguntei olhando para baixo e avistando meu primo. — O quê? — Gritei de volta dando um tchau.

— Volta logo! — Ele exclamou acenando para mim.

— Pode deixar!

O Lukas, exibido como sempre, estava alimentando os animais, quase reproduzindo um vídeo pornô de baixo orçamento. Ele vestia apenas uma bermuda folgada e um par de botas brancas, aquelas de plástico. O sorriso do meu irmão era contagiante, nunca conheci uma pessoa carismática igual a ele.

A tosse atrapalhou o meu banho de sol, então, a Nadine ordenou que eu entrasse para o quarto. Do que adiantava ter uma varanda enorme se era obrigado a ficar preso. Pelo menos, o trabalho árduo não caiu para mim.

Entediado, resolvi arrumar a minha prateleira. O meu quarto se tornou uma extensão de um hospital, vários maquinários hospitalares e alguns móveis brancos. Peguei quatro livros que comprei, mas nunca li e o diário preto que ganhei da senhora, doutora.

— Isso é um Death Note? — Questionou Nadine ao ver o caderno preto caindo no chão.

— Queria que fosse, mas é um diário que minha terapeuta me deu. — Expliquei pegando o diário no chão.

— Olha, e o que você escreveu? — Ela perguntou deixando a prancheta na cômoda e se aproximando de mim.

— "Quem é você?". — Falei mostrando a minha anotação.

Fiz um breve resumo dos meus problemas para Nadine. Lembrei sobre a minha vida como filho de atores renomados, mostrei meu vídeo fazendo xixi em rede nacional e, também, a paixonite pelo André.

— Nossa, são muitas coisas para escrever. Você começou?

— Ah, não. Meio que perdi o contato com a Doutora Cida. Ela é um amor de pessoa, mas essa situação do Covid—19. Complicado. — Contei, enquanto guardava o diário na minha mochila. — Vou começar a escrever, mas online. Tem muita coisa que preciso colocar para fora.

— Tempo você tem, meu filho. Agora, preciso trocar o meu equipamento. Hora de visitar a Rosinha.

— Ela ainda está ruim? — Perguntei com um tom de voz mais baixo.

— Sim, mas ela é uma guerreira. Vai conseguir superar tudo isso. — Ela tentou me reconfortar, sem sucesso.

— Por favor. Lute por ela. — Pedi, antes de pegar o notebook e levar para cama.

Olhei para a tela do notebook por uns 10 minutos. Eu não sabia como começar o diário. Tentei escrever algo formal e não gostei do resultado. Lembrei da nossa conversa e imaginei a senhora ali na minha frente. Quando dei por mim, já estava inspirado e as coisas fluíram de forma natural.

Como diria a Sandy: "A noite cai, o frio desce". O dia que havia sido tão lindo se tornou quase uma regravação de Frozen 2. O termômetro do celular marcava 12 graus. Fui até o guarda-roupa e escolhi um casaco bem quente. Era preto, com alguns detalhes verde escuro, eu o adorava. Tão quentinho.

Para a janta, Nadine trouxe algumas peças de Sushi, quase não acreditei. Em cima da tampinha de plástico da tupperware uma cartinha. Abri todo feliz pensando ser do André, mas era da Regina.

"Eu sinto muito. Nunca vou parar de repetir isso. Te amo demais. Espero que goste do Sushi. Tirei todo o camarão"

Nem sempre a Rêh nos tratou mal. De acordo com a Rosa, logo que eu cheguei do hospital, a minha irmã não desgrudava de mim. Queria me dar banho, colocar as roupinhas, e até, dar de comer. A Rosa deixava, pois, segundo ela, a melhor forma dos irmãos se conectarem é com a convivência.

Não sei quando a chave da inveja virou na cabeça da Rêh, eu só sabia que não tinha culpa. Afinal, fui um acidente dentro de um voo comercial da Argentina para o Brasil. Não pedi para atrapalhar a vidinha perfeita que ela levava. Vidrado em meus pensamentos nem me toquei que amassei todo o papel.

Infelizmente, a Regina ainda despertava toda a raiva que havia dentro de mim, e juro, nunca me considerei uma pessoa vingativa. Lembra do plano de vingança que ia tramar contra ela? Nunca nem pensei nele. Só queria ficar bom para cuidar da Rosa, a única pessoa que importava naquele momento.

No auge da minha raiva, nem reparei que o André me observava. Ele estava tão fofinho, e pela primeira vez, o vi com uma roupa diferente. Usava um moletom preto, uma calça jeans azul e botas pretas. O André se aproximou da janela, passou uma outra cartinha pela fresta e sorriu, maldito sorriso perfeito. Ficamos nos olhando por alguns minutos, mas a Nadine nos trouxe de volta para a realidade. Dei um sorriso sem graça, quando virei o meu crush não estava mais lá.

Abri o papel e quase derreto ali mesmo. O André fez uma cartinha, só que havia outro papel dentro. Era um desenho meu, feito com caneta vermelha. Eu não sabia que o André tinha um traço tão bonito. Na ilustração, eu vestia um macacão azul, a blusa xadrez vermelha e meus fones maravilhosos, estava na frente do notebook. Fiquei muito fofo na versão ilustrada.

Com todo carinho do universo, peguei o desenho e coloquei na parede do meu quarto, próximo a um poster da Lux de LOL. A Nadine se aproximou, observou o desenho e olhou para mim, ela sorriu e entregou os meus remédios. Engoli tudo sem um copo d'água, um dos meus talentos escondidos e, voltei para o notebook. Estava inspirado em relatar tudo o que aconteceu na fazenda nos últimos dias.

— Higor, vou ficar com a Rosa. Qualquer coisa, grita. — Ela disse saindo do quarto.

Recebi uma ligação do Quintino. Naquela tarde, o meu primo atualizou todas as fofocas da casa. Segundo ele, a Rêh estava fazendo todo o serviço doméstico com a mamãe. Ela também começou a cozinhar e, para a surpresa de todos, bem. O Lukas estava em um momento delicado, se desligou de vez da banda e faria uma live para tocar alguns sucessos. O papai marcou meu irmão de perto.

— Caramba. Nem acredito que você ficou mal. — Comentou Quintino.

— Estou bem agora. Só me recuperar e ajudar vocês. — Falei, deitando na cama e colocando os pés pra cima. — Ei, durante as aulas, o André, tipo, ele comenta sobre mim? — Perguntei tentando não parecer desesperado.

— Sim, mas preciso te contar uma coisa. — Soltou Quintino em um tom enigmático.

— O quê?

— Estou apaixonado pelo André. Eu não queria juro, mas aqueles olhos castanhos estão acabando comigo. — Ele fingiu um choro dramático e começou a rir. — Brincadeira. Gostou da surpresa dele? Eu ajudei.

— Adorei. — Confessei parecendo uma adolescente americana em uma comédia romântica.

— Que bom. Agora preciso desligar. Vou alimentar os porcos. Sério, Higor, se o teu pai não achar nenhum funcionário vou me mudar para sala secreta do vovô. Até! — Desligando.

Coloquei o celular de lado, pegue a lista e fiz um circulo na primeira missão. Eu queria o André, não aguentava mais esperar para beijá-lo. Tá, eu sei que isso seria impossível um beijo tão cedo, mas sonhar não custa nada, não é? Foquei em melhorar. Tomei todos os remédios, comi todas as frutas cítricas , e claro, pratiquei atividades físicas para aumentar a minha resistência.

Alguns dias se passaram e uma tarde de quarta-feira, voltei a sentir cheiro novamente, infelizmente, foi em um momento péssimo, durante uma flatulência. Ok, acidentes acontecem, não é? Fiquei muito feliz e mandei uma mensagem de voz para o Quintino. Ele vibrou mais do que eu. Doutora, só entre nós, posso dizer uma coisa bem louca? Eu senti falta do meu primo do Quinto dos infernos.

Outra pessoa que ficou feliz por mim foi a Nadine, ela logo anotou a novidade em sua prancheta. Decidi fazer uma lista de coisas que eu queria fazer quando saísse da quarentena. Número um, me declarar para o André; dois, perdoar a Rêh; três, ajudar o Lukas; quatro, tentar uma aproximação melhor dos meus pais, e o último, cuidar da Rosinha. Ela ainda estava ruim, então, o momento era crítico.

Ainda atrás de ideias para a minha lista, coloquei a caneta apoiada no queixo. Uma ideia horrível, Doutora, pois, a caneta escorregou e caiu no chão. Com uma preguiça descomunal, fiquei em pé e não a vi. Resolvi procurar de baixo da cama e, acabei achando a caixa do vovô. Por causa do corona vírus tentando acabar comigo, acabei esquecendo da caça ao tesouro.

Retirei a caixa do saco com todo cuidado do universo e a coloquei em cima da cama. Joguei a sacola no lixo e voltei para descobrir a próxima pista. Dentro dela havia uma carta como de costume e um relicário dourado. Nunca tinha visto um de perto, abri e tomei um susto.

— Que merda. — Falei olhando para uma foto do meu avó e do Rodolfo, o escritor.

Meu coração acelerou, não perdi tempo e comecei a ler a carta. Eu não conseguia acreditar. Vovô e Rodolfo eram amantes. As lágrimas desceram com uma facilidade ímpar.

"Romeu e Julieta. Bentinho e Capitu. Eugênio e Margarida. Sabe o que esses casais tem em comum? São todos oriundos de paixões impossíveis. Durante muito tempo, tentei negar algo que me consumia por dentro. Eu gostava de homens, sempre gostei, mas o preconceito falou mais alto e tive que entrar no padrão que a sociedade pregava."

Eu não conseguia ler aquilo, estava confuso demais. Como assim, o vovô gay? Apaixonado por outro homem. E a vovó? Ela não significava nada para ele. Afinal, os dois tiveram duas filhas, a mamãe e tia Ana. Abri o relicário novamente e dentro continha uma frase.

"Se amor é cego, nunca acerta o alvo" (WS)

Dei um Google, claro, queria entender mais aquele contexto assustador. A frase foi escrita por William Shakespeare no livro "Romeu e Julieta". Então, o vovô era gay e, viveu uma vida miserável devido ao preconceito. Caramba, essa situação levava a caçada para outro nível.

— Como eu vou contar isso para a mamãe? — Perguntei em voz alta.

— Contar o quê? — Questionou Nadine.

— Nada. —Falei me atrapalhando e deixando o relicário cair no chão.

— Cuidado! — Alertou Nadine pegando o objeto e entregando para mim.

— Obrigado. — Agradeci, guardando o relicário na minha escrivaninha.

Voltei a atenção para a carta. Dessa vez, o vovô escreveu mais. Me dei conta que era a sua história com o Rodolfo. E, agora? Eu lia ou não. Estava preparado para descobrir os segredos mais profundos do seu Aroldo?

"E são dois cílios em pleno ar

Atrás do filho vem o pai e o avô

Como um gatilho sem disparar

Que invade mais um lugar

Onde eu não vou

O que você está fazendo?

Milhões de vasos, nenhuma flor

Oh uô uô, o que você está fazendo?

Um relicário imenso deste amor"

(Nando Reis)

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