Anti Herói - Capítulo Dezessete

Um conto erótico de _alguemsolitario
Categoria: Gay
Contém 2855 palavras
Data: 26/06/2020 22:44:21

Só os deuses sabem o quanto me arrependi dessa ideia. Definitivamente, o Pedro servia apenas para dormir sozinho. Acordei-me com todo o seu peso em minhas costas, ele estava literalmente deitado em cima dela. Mexo-me um pouco tentando acordá-lo, mas é em vão.

— Pedro, sai de cima de mim! - digo empurrando-o levemente, mas seu sono era pesado demais. Com um pouco de dificuldade, consigo sair debaixo dele. Lá fora, o sol já havia raiado, mas ao contar pelo frio devia ser muito cedo. Pego meu travesseiro e o meu cobertor e saio em direção sala, deixando meu amigo sozinho em meu quarto.

A casa, ainda silenciosa, indicava que ninguém havia acordado. Deito-me no sofá e me aconchego, agora sim, poderia enfim desfrutar do meu sono. Acordo horas depois com o meu pai me chamando.

— Filho, vai para cama! Dormiu aí por quê? - perguntou quase sussurrando.

— O Pedro, está dormindo lá no quarto! - respondo com os olhos cerrados e a voz rouca. Meu pai fez uma expressão confusa, parecendo não entender a situação, porém não me questionou, apenas me desejou um bom sono e me deixou em paz.

Eram umas nove horas da manhã quando eu acordei totalmente. Tudo ainda estava quieto, a não ser o barulho de água corrente vindo da cozinha. Provavelmente provocados pela minha mãe ou meu pai. Pego minhas coisas e volto novamente ao meu quarto. Ao passar passar para o banheiro, observo meu amigo em minha cama. Os lençóis ao chão, as pernas para o lado de fora e uma posição impossível de alguém normal descansar, sinceramente, como ele conseguia dormir daquele jeito? Sorrio comigo mesmo e deixo-o de lado.

Depois de devidamente tomado banho, volto para o quarto e já encontro o Pedro acordado. Ele me encara mas não diz nada, deu um bocejo e assim manteve os olhos fechados.

— Vai sair? - pergunta ao me ver trocar de roupa.

— Não! - respondi. — Está se sentindo descansado? - eu agora estendia minha toalha molhada em cima da minha poltrona.

— Sim! - ele se levanta e senta-se na cama — Notei que você saiu do meu lado ontem noite... - comentou.

— Digamos que, você não é a melhor companhia para se dormi - digo com um ar risonho. Ele franze as sobrancelhas, intrigado.

— Sério? Por que? - questiona.

— Porque parece que você joga futebol, de tanto chute que dá enquanto dorme. - concluo bem humorado e ambos compartilhamos uma breve risada.

— Desculpa - ele pede.

— Não se preocupa! Ah... e por falar em preocupação, já falou com a sua mãe? - recordo-o, de fato a sua mãe deveria estar preocupada. Ele parece pensativo e então se levanta, vai até suas roupas, e do bolso de suas calças, retira seu celular.

— Várias mensagens... - ele diz.

— Liga para ela! Eu vou descer e preparar o café. - complemento me dirigindo a porta, mas antes que eu saísse ele me chamou.

— Oli...

— Sim! - pergunto virando-me em sua direção. Ele silencia por alguns segundos e me olha.

— Tudo o que eu te disse ontem, foi de verdade! Eu vou resolver tudo! Eu prometo! - disse olhando em meus olhos, mas apenas me limitei a sorrir e balançar a cabeça afirmativamente, saindo em seguida. Não iria criar expectativas, tinha que ser realista. O que for pra ser, será.

No andar debaixo encontro meu pai, dou bom dia para ele e sigo para cozinha, onde minha mãe, como de costume quando estava em casa, cortava alguns legumes para o almoço. Desejo-a bom dia e me encaminho a despensa, de lá, trago umas fatias de pão, requeijão e leite. Aquele seria meu café. Sento-me na mesa e me sirvo.

— Filho, depois vem me ajudar a lavar o carro? - pede meu pai ao adentrar a cozinha.

— Claro pai, assim que eu comer, eu vou! - respondo vendo-o procurar por algo nos gabinetes.

— Tá certo! Vou estar lá na frente!

Assim que terminei de comer, cumpri minha promessa e fui ajudá-lo. Aquela hora o sol já estava forte e bateu uma vontade enorme de tomar um banho de mangueira, como nos tempos em que eu que eu era mais jovem e me divertia com meus amigos na rua. Era uma verdadeira folia enquanto nós molhavámos uns aos outros para nos refrescarmos sob aquele sol nordestino. Bons tempos! Em frente a garagem, vejo meu pai passando a esponja ensaboada em seu carro.

— Quer que eu vá limpando os vidros? - pergunto me oferecendo.

— Sim, pode ser! - ele para de esfregar a lataria e põe suas mãos nas costas — Ai... acho que já estou ficando velho. - eu encaro-o e sorrio, apanhando uma flanela e o limpa vidros que estavam no chão, em seguida.

— Eu vou lá dentro, já volto! - ele entra novamente em casa e eu começo a esfregar os vidros do seu automóvel. Não demorou, e logo ele reapareceu carregando um som portátil.

— Vai colocar um pancadão? - brinco.

— Tem nada de pancadão! Hoje só quero ouvir meu Elvis! - ele ri e lembro-me do fato de que meu velho, era fã do rei do rock.

Não demorou muito e ele deu play em suas músicas. Logo na primeira canção, Can't Help Falling In Love, um dos trechos diz: "Homens sábios dizem que só os tolos se entregam, mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você"; E foi impossível não se indentificar.

Talvez eu realmente fosse um idiota em ter nutrido sentimentos pelo meu melhor amigo, mas me apaixonar por ele não foi uma escolha minha. Eu não escolhi sentir o que sentia por ele, só aconteceu e não tinha como ninguém ter evitado isso. Se fosse para ter sido diferente, teria sido.

— ...eu e sua mãe, fizemos você ouvindo essa música. - disse meu pai cortando meus pensamentos. — O quê? Não! Eu não precisava saber disso. - digo surpreso ao me dar conta do que ele havia dito. Meu pai sorri, articula algo, mas antes que dissesse fomos interrompido.

— Oli... - gritou alguém por mim - Estava te procurando!

— Pedro? Quanto tempo? - falou meu pai sorrindo ao avistar meu amigo. Ele caminhou em sua direção e o abraçou.

— Realmente, tio Ricardo! Como vai o senhor? - perguntou meu amigo simpáticamente.

— Vou bem, obrigado! E você, não vai parar de crescer, não? - diz meu pai olhando-o de cima a baixo, rapidamente. Meu amigo sorri.

— Acho que agora tô no tamanho certo! Tá lavando o carro? Posso ajudar? - se oferece.

— Claro! Ia agradecer muito! Pode começar ajudando o Oli a limpar os vidros...

— Mão de obra de graça, meu pai não recusa! — digo interrompendo os dois. Ambos sorriem.

— Deixa de ser chato, mané! - diz Pedro.

— Esse aí não tem jeito - completou meu pai, ele agora esfregava o para-choque do seu carro. Meu amigo vem até onde estou e eu lhe entrego outra franela.

— Você já comeu? - pergunto vendo-o fazer a mesma tarefa que eu.

— Sua mãe me ofereceu, mas não estava com muita fome. Comi apenas uns biscoitinhos! - explica. — Quer fazer algo depois que terminarmos aqui?

— Não sei! Acho que vou tirar um cochilo mesmo... - respondo, estava num clima mais caseiro. Ele me olha de soslaio e sorri.

— O que foi? - pergunto. Ele balança a cabeça negativamente e responde, ainda com um ar risonho.

— Nada!

— Querido, pode chegar aqui um segundinho por favor? - falou minha mãe ao aparecer de surpresa na porta.

— Eu? - pergunto confuso querendo saber a quem ela se referia.

— Não! Seu pai! - respondeu, e meu velho prontamente respondeu, largando o que estava fazendo.

— Claro, amor! Meninos, eu já volto! - os dois saem e eu continuo o meu trabalho. Já havia terminado uma das janelas e me dirigia agora, ao para-brisa.

— Sabe o que eu tô com vontade? - pergunta o Pedro para mim.

— O quê? - meu amigo chega mais perto de mim e segura a minha cintura. Paro meu serviço e me viro para ficar de frente para ele, nossos rostos bem próximos. Sentia sua respiração se misturando com a minha e um frio correr-me o corpo. Meu coração disparado. Era incrível o poder que ele exercia sobre mim.

— Porra, olha o que tu faz comigo! - ele diz, encostando ainda mais em meu corpo, chegando próximo a meu pescoço. Sinto meus pelos se eriçarem. — Sabe quão torturante é querer te beijar a todo o momento e não poder?

— E por quê não pode? - meu coração batia a cem por hora. Nós não deveríamos ficar naquela provocação, mas era inexplicável o quanto ele mexia comigo.

— Não brinca assim, Oli... - ele se inclina um pouco mais e encosta seu nariz no meu. A vontade de agarrá-lo ali mesmo só crescia, mas a sensatez falou mais alto e eu afasto-o, porém ele continua segurando minha cintura. — Me dá uma semana? Uma semana e eu resolvo nossas vidas!

— Pedro...

— Não vai passar disto! Eu prometo! - fito seus lábios vermelhos perfeitamente desenhados e penso por alguns instantes sobre o quanto somos capazes de tornármos coisas simples em complicadas.

— Eu não quero criar expectativas. Faça o que você achar melhor para você! - era dolorido, mas preciso. Tinha que manter o pé no chão.

— Você é o meu melhor! - seus olhos brilhavam olhando para mim. Desse jeito as coisas ficariam mais difíceis. Baixo minha cabeça sem saber muito o que dizer e encaro-o novamente. A adrenalina a mil.

— Eu... - tento formular algo, mas...

— Que porra é essa? - a Júlia nos assustou — Meu deus, vocês vão se pegar? - disse minha amiga enquanto se aproximava de nós. Tentei me soltar de Pedro, mas ele me agarrou mais forte.

— Tô aqui, conversando com meu amorzinho! - disse ele sorrindo.

— Eu não digo?! Os homens de hoje em dia são todos viados! - minha amiga sorri. — E essa música de enterro aqui em? - por um segundo esqueci do som do meu pai.

— O Rei do Rock, baby! Não tem cultura, por isso não o conhece. - digo enfim, já afastado de Pedro.

— Eu sei quem é Elvis, meu querido! Quero saber por quê você não está ouvindo um funk? Quero mexer a bunda, mas essa música não encaixa na dança. Olha só! - ela tenta rebolar ao ritmo da música e eu começo a gargalhar.

— Não acredito em quem estou vendo? Júlia? - falou meu pai retornando para o lado de fora. Minha amiga, doida como sempre, correu até ele e o abraçou.

— Tio Ricardo... quanto tempo? - embora meu pai ficasse frequentemente em sua sede no Canadá, faziam meses que ele não via meus amigos.

— Pois é! Está mais bonita? - comenta meu pai gentil.

— Sempre fui, né? - diz Júlia jogando os cabelos para trás.

— Não dá corda, pai... - repreendo-o morrendo de rir.

— Calado, recalcado! O que vocês acham de aproveitarmos essa tarde de sol e irmos para a praia? - propõe minha amiga.

— Até iria, mas o Oli falou que só quer ficar em casa hoje! - responde Pedro. Já sabia o que ele estava tentando fazer.

— Eu não tô no clima ir para rua! Além do mais, tenho que terminar de lavar o carro do papai. - fui sincero.

— Nem vem com essa! - diz minha amiga recusando minha desculpa — Termine sua tarefa aí, depois suba, coloque uma sunga e vamos ver o mar. - pois é, quando ela encarnava...

— Acho melhor obedecé-la! - fala meu pai sorrindo.

— Eu que não sou doido de dizer não! - atiçou Pedro. A controvérsia, digo que aceitei, apenas por não querer discutir que não iria.

Minha amiga começou a conversar com meu pai, e Pedro e eu, voltamos ao que estávamos fazendo. Depois dos vidros limpos, espelhos e partes mais cuidadosas do carro devidamente limpa, chegou a hora da lataria. Enquanto meu pai e meu amigo ensaboava todo o automóvel, fui buscar a mangueira para enxaguá-lo. Desenrolo todos aqueles tubos flexíveis de plástico e conecto na torneira. Começo a molhar as rodas e a parte traseira.

— Lembrei que também tenho que lavar o meu carro! - comentou Pedro. Do outro lado da rua observo sua caminhonete, realmente, precisava lavá-la. Depois da fazenda e de horas de estrada, ela estava completamente empoeirada e suja de lama.

— Vai fazer ainda hoje? - pergunto para ele.

— Acho que não! Vou levar no lava-jato! É melhor!

— Ui, toda burguêsa ela... - brinco.

— Sua bunda - ele ri e me mostra o dedo do meio. A Júlia continuava a papear com meu pai, haja assunto para aqueles dois. Olho para o meu amigo distraído ensaboando o carro, e só penso em uma coisa. Sorrio malicioso e sem pestanejar, direciono a mangueira para ele, atingindo seu rosto com um jato de água.

Ele se assusta, dando um pulo para trás, tentando colocar a mão na frente do água, mas era tarde demais, ele já estava todo molhado. Tanto eu, como a Júlia e meu pai, nós acabávamos de rir. — Para, porra! - gritou irritado enquanto eu continuava a molhá-lo. Fecho a torneira e me contorcendo de tanto gargalhar mais. Deveras, ou foi uma cena cômica demais, ou talvez eu que fosse muito abestalhado.

— Esses meninos não tem jeito! - disse meu pai sorrindo também. A Júlia parecia uma gralha e isso deixou o Pedro mais estressado ainda, pois, se tem uma coisa que minha amiga tem, é uma risada irritante e debochada. Tento formular alguma pensamento, mas só sentia vontade de sorrir. Revoltado, Pedro vem em minha direção.

— Nã... - risadas — Não... — mais risadas — Sa..i - digo enquanto me afastava dele. Ele toma a mangueira da minha mão e eu corro.

— Acha engraçado, é? - diz tentando me acertar, porém vou na direção da Júlia e me escondo atrás dela, que começa a gritar desesperada. Meu pai com medo que sobrasse para ele, saiu logo de cena.

— Ai... Pedro, não! - gritava minha amiga. — Pedro, caralho para! - o sorriso no rosto do meu amigo era diabólico, e no da Júlia de terror. Íamos de uma lado para o outro, eu encostado nela, afim de nós desviarmos da mira dele. — Tu também Oliver, me solta! Ele quer molhar, tu! - implorava ela.

— Tão com medo de água? Agora eu quero pegar os dois coelhos, com um jato d'água só! - e assim ele fez, molhando nós dois, enquanto corríamos desembestados pelo meio da rua.

— Filho da mãe! Tu vai me pagar! - berrava Júlia. Eu não conseguia conter meus sorrisos.

Algum tempo depois terminamos de lavar o carro e com aquela bagunça. Nós tomamos banho, e como já é de costume, eles vestiram roupas deles que já estavam em meu armário.

— Porra, acho que entrou água no meu ouvido, Oli! - reclamou Pedro enxugando sua orelha com uma toalhinha. Eu e ele já havíamos nós trocado e apenas a Júlia estava no banheiro secando o cabelo. Ele senta-se na cama e eu faço o mesmo.

— Foi mal! - digo tentando ser sério, mas logo gargalhei de novo.

— Pode rir! - ele diz e logo se cala. Um silêncio estranho paira sobre nós e eu fito o chão, até sentir seu olhar sobre mim.

— Posso te pedir uma coisa, Oli? - pergunta firme. Olho em seus olhos.

— Diz aí! Não sendo dinheiro...

— Eu quero te beijar. Desde aquela noite em que me declarei é só nisso que consigo pensar. - penso um pouco. Era óbvio que eu queria o mesmo.

— Acho melhor não! A Júlia tá aí! - digo e isso parece atingí-lo em cheio. Sua feição logo se transformou e seu olhar se entristeceu. Ele tentou disfarça mas foi impossível não notar.

— Não, tudo bem! - ele forçou um tímido sorriso e baixou a cabeça. Me partiu vê-lo cabisbaixo. Reflito por alguns instantes. Eu estava tentando me evitar sofrer, mas eu queria aquele beijo tanto quanto ele. É nessas horas que duvidamos se devemos seguir a emoção ou a razão.

— Pedro... - chamo-o. Ele ergue a cabeça, e num impulso, junto os meus lábios ao seu. Não se demora e sinto sua língua pedindo passagem, e de uma forma mais tranquila do que a outra vez, nos beijamos. Um beijo curto, mas cheio de emoção. O medo de ser pego e o sentimento reprimido, o tornou mais especial. Ao fim, ele sorriu.

— Acho melhor você ir! - digo.

— Quê? - questiona confuso.

— Sua mãe, ainda não lhe viu, deve estar preocupada. - já eram mais de duas da tarde, e mesmo a tia Isa sabendo que ele estava comigo, sabíamos como era coração de mãe.

— Ela sabe que estou com você! Não tem porquê... - argumenta.

— Mesmo assim, mãe só sossega quando nos vêem inteiro na frente delas! - ele sorri.

— Tem razão! Eu vou! Mas antes, quero mais um beijo e que você me leve até o carro. - retribuo o sorriso.

— Tá! Mas vamos lá para fora, assim ninguém nos pega! - digo e nos levantamos. Ele pega sua carteira e seu celular e saímos. Suas roupas ficariam aqui. Descemos as escadas e nos dirigimos até a porta, na sala não havia ninguém, provavelmente meus estavam deitados, como era de costume após o almoço. Vendo que a barra estava limpa, me despeço dele na porta.

— Cuidado! Quando chegar me avisa! - reforço e ele assente. Chega mais próximo de mim e se inclina em direção ao meu rosto, me dando mais um beijo.

— Te amo, viu? - ele diz, e isso me causa medo. Mas instintivamente eu respondi de volta.

— Eu também! - ele me deu mais um selo e partiu. No que eu estava me metendo? Várias coisas passavam pela minha cabeça. Felicidade, angústia... Fecho a porta e ao me virar para voltar para o meu quarto, me assusto ao dar de cara com o meu pai.

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Comentários

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Muito bom seu conto só não para por aqui.

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