Casa dos Contos Eróticos

Porque é você que eu amo! | Capítulo 23

Autor: Di Ângelo
Categoria: Homossexual
Data: 13/08/2017 07:28:43
Nota 10.00
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Naquela manhã saí mais cedo da faculdade depois de entregar meu trabalho de Animação e fazer um outro ainda mais extenuante no qual precisei liderar uma sessão de fotos com modelos em peças íntimas de uma marca pouco conhecida. Sete pessoas - quatro mulheres e três homens - desfilando e fazendo caras e bocas em cenários montados enquanto os flashes da minha câmera frisavam cada momento freneticamente. Embora o trabalho fosse em equipe, e meus parceiros estivessem se esforçando para dar conta da iluminação, conforto dos modelos e tudo mais, eu sentia um cansaço mortal que me tirava todo o ânimo para fazer aquilo. Algo que havia acontecido mais cedo ainda estava me incomodando e eu só conseguia pensar nisso.

No restaurante, depois de cumprimentar alguns colegas de trabalho, segui até o quartinho dos fundos para me trocar. Guardei minha bolsa no armarinho que fora dado a mim e peguei meu uniforme. Era um conjunto simples, porém bem produzido: uma boina vermelha, camisa social branca enfiada por dentro da calça social preta, cuja cintura era envolta por um avental verde. E para completar, um lustroso par de sapatos Side Gore. As mangas curtas da camisa eram o único detalhe que me incomodava um pouco, pois ficavam um tanto justas nos meus bíceps.

Fechei meu armário depois de dar uma última conferida no pequeno espelho na porta e então fui em direção a cozinha. O movimento no restaurante estava enorme. Bem maior que durante à noite, que é meu turno habitual. Acredito que por ser horário de almoço e grande parte do pessoal que vem para comer ser turista que gosta de almoçar fora.

Dona Esperanza estava a todo vapor na cozinha. Ela mexia em uma panela, temperava algo em outra, cortava legumes aqui, provava um pouquinho de algo

ali. Nunca deixava de me impressionar com a disposição daquela velhinha de óculos redondos e sorriso simpático. Flora, sua jovem ajudante de não mais que vinte e sete anos e meigos olhos castanhos, estava ocupada arrumando os pratos na bancada, de onde os garçons - e estou me incluindo - levavam até as mesas. Ambas ainda não tinham me notado, e só o fizeram porque Pietro e Pierre, os gêmeos grandões, passaram por trás de mim para apanhar os pedidos.

- Ragazzo! - disse dona Esperanza sorrindo para mim. Ela limpou as pequenas mãos na toalha em seu ombro direito e depois ajeitou os óculos com o mindinho. - Chegou bem na hora!

- É, eu vi. - Dei risada enquanto me aproximava. Flora me olhou e sorriu daquela maneira que você sabe que a pessoa está na sua, mas eu apenas dei um meio sorriso em resposta. - Vim perguntar o que exatamente eu tenho que fazer hoje.

- Bom, primeiro quero que ajude os ragazzi gemelli a entregar os pedidos. Eles não são muito bons na tarefa e já cometeram três enganos. - Ela riu, simpática. - Depois que tudo estiver mais calmo, veremos em que mais você pode ajudar.

- Certo! Então, hã... - virei-me para os pratos no balcão e perguntei: - De quem são esses?

- Mesas quatro, cinco, oito, dez e doze - respondeu Flora pondo mais um ao lado. Ao todo haviam uns vinte e cinco pratos. Moleza!

- Então deixa comigo!

Com certa facilidade, e um pouco de equilíbrio, empilhei dez dos vinte e cinco em duas bandejas e segui para o restaurante. Os gêmeos passaram por mim e sorriram ao me ver entrando em ação. Não é difícil diferenciá-los depois que você aprende que o gêmeo mais velho, isto é, Pietro, tem o cabelo quase raspado e o gêmeo mais novo, Pierre, deixa a barba um pouco maior.

O lugar estava realmente abarrotado de pessoas, e algumas que iam das mesas para o banheiro e vice-versa acabavam complicando um pouco a tarefa de chegar aos meus destinatários. Mesmo assim, entreguei os pedidos rapidamente e logo voltei para pegar mais.

Era um ciclo vicioso. Enquanto alguns acabavam de comer e pagavam a conta, outros vinham com tanta, senão mais fome quanto. Fiz o caminho entre o restaurante e a cozinha umas vinte vezes sem parar, pois havia decidido tomar conta da entrega da comida sozinho enquanto os gêmeos cuidavam das bebidas. Ao menos isso eles conseguiam fazer sem errar. Não que eu esteja os chamando de idiotas, mas é fato que eles são melhores carregando caixotes e caixas que trasitando entre mesas com bandejas nas mãos.

Quando eu finalmente consegui uma pausa, a baderna já mais controlada, me encostei no balcão de pães e bolos para descansar. Pierre sentou-se no banco ao lado e bateu no meu ombro um pouco mais forte do que ele certamente achava que havia feito.

- Belo trabalho, garoto! - Ele riu, as covinhas de suas bochechas aparecendo sob a barba acastanhada. - Você salvou o dia.

- Valeu! - Suspirei uma risada. - Mas, só pra saber, a Amélia não trabalha nesse horário também?

- Sim. Mas ela não pôde vir hoje. A nonna dela está acamada...

- Ah...

Amélia é a garota que cuida da parte dos doces e salgados, e que ajuda Bernardo e eu nos dias, ou melhor, noites de muito movimento. Eu realmente esperava que a avó dela ficasse bem.

- Ei, seus preguiçosos, parem de flautear e vamos voltar pro trabalho! - Pietro apareceu. Ele tentava manter a expressão séria, e seus braços cruzados deixavam os bíceps tatuados assustadoramente grandes, mas a diversão estava estampada em toda a postura desleixada.

- Vá plantar uvas, seu chato! - respondeu o irmão mais novo, fazendo nós três rirmos.

- Um dia eu vou! E aí quando eu ficar rico e famoso como o maior produtor de vinhos do país vou poder me livrar de você.

- Você não vai fazer isso! - disse Pierre cruzando os braços, um sorriso convencido brotando em seu rosto. - Você não vive sem mim.

Pietro passou um braço em volta do pescoço do irmão e bagunçou seu cabelo, ambos rindo. Eu não consegui segurar o sorriso meio idiota vendo aquilo. Embora fossem meio bobos era divertido estar na companhia daqueles dois. Me lembravam um pouco...

Sacudi a cabeça para afastar os pensamentos indesejados. Não era hora para isso.

- Ei, rapazes, dona Esperanza está precisando da ajuda de vocês lá atrás - disse Flora aos outros dois.

- Deixa com a gente! - responderam juntos.

Eles a seguiram de volta para a cozinha. Mas antes ela me lançou um sorriso tímido e acenou para mim, ao que eu ergui a mão em cumprimento, sorrindo sem jeito.

Levantei do meu lugar quando ouvi o som do sininho na porta anunciando a entrada de novos clientes. Só que quando virei, senti o sangue descer de vez assim que vi quem eram.

Eu não conhecia o cara negro grandão, embora o reconhecesse vagamente de algumas vezes que o encontrara ali. Porém o baixinho que se agarrava ao braço direito dele era quem me fazia sentir náuseas de nervosismo.

"O que ele faz aqui?", me perguntava. "Por que logo aqui?"

Levi foi guiado pelo outro até uma das poucas mesas vazias restantes no extremo direito do restaurante. O cara sentou-se à sua frente, comentando algo aparentemente interessante que fez meu irmão rir.

"Não! Não, não, não, não, não!!!"

Merda! Mas por que raios eles tinham que vir logo para o Ricette Della Nonna? Logo onde eu trabalho? Quais as chances...?

Meu coração disparou quando vi o amigo de Levi olhar para mim e fazer um gesto com a mão para chamar minha atenção. Só então me dei conta da real gravidade da situação: não havia mais nenhum garçom por ali além de mim, então EU teria que atendê-los.

"Porra!!! E agora?!"

Suspirei. Eu não tinha escolha, afinal. Era o meu trabalho independentemente de qualquer coisa.

- Tudo bem, Enzo - disse a mim mesmo. - É só ficar calmo e manter a boca fechada que ele nunca vai saber que é você.

Me aproximei meio hesitante, o bloquinho de notas e a caneta em mãos. Eu tinha a sensação de que haviam dezenas de olhos sobre mim, como se um auditório inteiro esperasse por isso há tempos e os últimos momentos de suspense finalmente fossem acabar. Parei ao lado da mesa deles e não pude deixar de olhar rapidamente para Levi, que passava com cuidado os dedos sobre as pétalas da rosa no vasinho no centro da mesa.

- Hã... pode anotar nosso pedido? - perguntou seu acompanhante, me trazendo de volta a mim.

Forcei um sorriso e ergui o bloquinho, esperando que não se importasse com a minha falta de palavras.

- Bom... - Ele fez uma expressão confusa, mas logo apanhou o cardápio, passando rapidamente os olhos pelo mesmo antes de se voltar a Levi. - Tem algo em mente, Levi? Pode pedir qualquer coisa.

- Me surpreenda! - disse meu irmão com um sorriso, ao que o outro também sorriu

- Bem... eu nunca gostei muito dessa coisa de entrada, primeiro e segundo prato... Então vamos direto ao que interessa. Vamos querer dois pratos de espaguete com almôndegas, dois de risoto de camarão, um pouco de suco de uva e... - Fechou o cardápio e me fitou. - Vocês têm aqueles pãezinhos?

Acenei em afirmação.

- Ótimo! Vamos querer isso também e gellato de uva como sobremesa.

- Você gosta bastante de uva, né? - Levi comentou com diversão.

- Ei, eu sou metade italiano. Está no sangue.

- Eu sou italiano até o último fio de cabelo e nem por isso uva é minha fruta favorita.

- Você é estranho! - O cara riu.

- Então eu não sou o único!

Tendo certeza de que era só aquilo que eles iriam querer, me retirei dali com o peito doendo de tanto respirar pesadamente. Eu nem entendia direito por que a presença do meu irmão me deixava tão inquieto. Na última vez que nos encontramos a sensação que eu tive era que estava com medo por ele e não dele. Agora era como se ele tivesse invadido meu espaço pessoal de uma vez, mesmo sem saber, e eu não estava gostando daquilo.

E ainda tinha aquele cara que estava com ele... O marmanjo olhava meu gêmeo como se... se... como se estivesse a fim dele ou algo assim.

"Deixa de besteira, Enzo! Mais hétero que aquele cara só você mesmo."

Talvez andar com Bernardo estivesse me deixando meio paranóico achando que todo cara que eu via era gay.

Mas, hã, verdade seja dita, sendo paranóia ou não, não pude deixar de notar a forma como aqueles dois se entrosavam. Me perguntava há quanto tempo se conheciam, uma vez que Levi nunca teve muitos amigos além de Sebastian, Bianca, Adelle e outros poucos que não fiz questão de conhecer. Em dado momento, quando Levi se sujou um pouco com molho de tomate do espaguete, o cara levou a mão ao seu rosto e limpou-o com o polegar de uma forma que, a menos que eu realmente estivesse imaginando coisas, foi um pouco... carinhosa demais para o meu gosto.

"Qual é a desse cara?", era a pergunta que rondava minha mente, meus olhos estreitos como os de quem estava prestes a pular em seu pescoço.

Mesmo ocupado com os outros clientes, tentei sempre ficar de olho neles. Alguma coisa me fazia ficar alerta para aqueles dois. Talvez fosse meu estúpido instinto de irmão mais velho de novo.

De toda forma, eu iria investigar sobre as intenções daquele cara. Depois que o irmão de Bernardo havia ameaçado machucar as pessoas que amo, eu precisava... precisava...

Espera, eu acabei de dizer que amo o...?

Não! Não, nada a ver! Eu quis dizer de forma geral. Levi não está necessariamente... Isto é, eu só não quero que ele se machuque por minha causa. Apenas isso!

Olhei mais uma vez na direção do meu gêmeo e seu amigo, vendo-os se lambuzarem com o gellato que pingava do pão que eles haviam recheado com a sobremesa. Levi sorria e ria como eu só tinha visto fazer com Sebastian - isso nas poucas vezes que eu ficava perto dele porque as circunstâncias me obrigavam. Pela primeira vez eu realmente parei para prestar atenção nele. Era bobo, como sempre. E também patético. Mas genuíno.

Uma sensação estranha fervia em meu peito. Ver Levi daquela maneira me trazia lembranças. Lembranças da nossa infância, quando ainda éramos unidos e tudo o que eu queria era estar ao lado dele.

"Isso não é hora!", me repreendi enquanto apertava os olhos e sacudia levemente a cabeça. "Pensamentos estúpidos! Lembranças estúpidas!"

Quando eles acabaram de comer, se levantaram e seguiram na direção do banheiro. Alguns minutos depois estavam de volta, e vi o cara procurando por algo, ou melhor, alguém; que deduzi ser eu, então disfarcei que anotava algo enquanto andava em uma direção aleatória entre as mesas, mas ciente de estar me aproximando deles.

- Por favor... - o ouvi dizer.

Ergui a cabeça e lancei-lhe meu melhor sorriso de "pois não?"

- Poderia nos trazer a conta?

Confirmei com um gesto de cabeça e voltei para pegar a conta deles. Ele pagou tudo certinho, e ainda deixou gorjeta. Eles logo iriam embora, o que teria sido maravilhoso e me salvaria de ter que continuar naquela situação, mas descobri que o universo me odeia um pouquinho mais...

O amigo de Levi se levantou primeiro. Levi foi logo depois e envolveu seu braço no dele, como fazia quando chegaram. Um cliente que possivelmente também desejava pagar a conta me chamou em uma mesa que ficava atrás da dos dois. Quando fui passar por meu irmão, eu não sei como nem onde e nem por quê, mas ele escorregou e caiu por cima de mim.

Não chegamos a nos estatelar no chão, se é o que está pensando. Antes disso consegui firmar os pés no chão e nos manter de pé. Porém, olhando para seu rosto assustado pelos poucos segundos que ficamos juntos antes do amigo dele o puxar para longe de mim, percebi que ele havia notado algo em mim. Eu tinha quase certeza de que ele sabia que era eu ali, segurando-o pela cintura e dividindo o mesmo ar e calor naquele pequeno espaço de tempo.

- M-me desculpe - pediu envergonhado, as bochechas coradas. - Eu sou um pouco desajeitado. Sinto muito.

- Tudo bem, Levi, foi um acidente - disse seu amigo enquanto ajeitava a roupa dele. Então me olhou e, com um sorriso acanhado, pediu: - Foi mal, cara. Você está bem?

Um pouco desnorteado, e de certa forma assustado pela possibilidade de Levi ter me reconhecido de alguma maneira, apenas acenei que sim e recuei alguns passos, me virando para o outro cliente. Mas ainda olhei por cima do ombro quando ouvi o sininho da porta soando, só para ver a expressão confusa e pensativa do meu irmão enquanto era guiado para fora do restaurante.

"Merda!"

.

À medida que o tempo passava, os pensamentos sobre Levi que ocupavam minha mente eram pouco a pouco substituídos por outros direcionados a Bernardo, que já me preocupava com sua demora. Eu ligara para ele em algum momento depois que Levi tinha ido embora e ele me garantiu que chegaria logo, embora tivesse decidido vir a pé da faculdade. Esperei por quase uma hora, entre anotações e entregas de pedidos, mas nada do Bernardo aparecer.

Já cogitava ligar novamente quando o vi entrando apressado e indo em direção ao quartinho dos funcionários. Precisei atender um casal e um grupo de velhinhas antes de poder ir atrás dele.

- Bernardo! - chamei, mas não obtive resposta. - Eu sei que está aí. Abre a porta!

Sem resposta outra vez. Suspirei. Tinha algo de errado, eu conseguia sentir.

- Bernardo, por favor, abre a porta.

- E-eu já vou - disse ele enfim. - Só um minuto.

Levou só alguns segundos, e então a porta se abriu. Por um instante, um breve instante, vi o sorriso dele e quase senti certo alívio. Quase. Só que depois de talvez meio segundo, olhando direito, percebi que Bernardo, embora tentasse mostrar o contrário, parecia completamente acabado. Ele estava pálido, com o rosto suado e avermelhado como se tivesse levado uma surra ou algo assim. Os olhos castanhos, geralmente tão meigos, estavam sombreados e carregados de algo que lhes davam um aspecto adoecido.

- O que aconteceu com você? - perguntei ao entrar no quartinho e fechar a porta outra vez.

- C-como assim? - gaguejou. - Eu estou bem, ué.

- Bem como alguém que acabou de ser atingido por um raio - retruquei. - Bernardo, você está horrível.

Levei uma das mãos ao rosto dele, o segurando pelo queixo e virando de um lado ao outro para ver melhor o que seriam aquelas marcas avermelhadas.

- O que houve com o seu rosto? Parece que te fizeram de saco de pancadas.

- Não é nada, Enzo. - Ele se soltou, desconcertado. - Eu só estou um pouco cansado por causa daquele teste.

- Sei... E eu acabei de nascer. Conta outra! - Cruzei os braços e o encarei como quem acusa alguém de estar mentindo. - Você vai falar ou eu vou ter que te obrigar?

Bernardo ficou em silêncio. Ele aparentemente estava em um conflito interno sobre o "dizer" e o "não dizer", o que só aumentava minha ansiedade. Talvez ele já tivesse entendido isso, mas eu realmente me preocupava com seu bem estar, e encontrá-lo nesse estado acabava comigo.

- Enzo, por favor, só desta vez, não me force a falar - pediu quase suplicante, a voz bem baixa. Conhecendo Bernardo como o conhecia, apostava que ele entraria em pratos se pudesse.

- Eu não estou te forçando a nada, Bernardo. Justamente desta vez estou apenas pedindo uma explicação pro motivo de você estar tão abatido.

Pus a mão no pescoço dele para sentir sua temperatura, e confirmei minha suspeita.

- Você está até com febre - disse eu. - Isso não tem nada de normal.

- Eu já disse que só estou um pouco cansado. A rotina desses últimos dias tem acabado comigo. Só isso.

Soltei um suspiro alto e cruzei os braços novamente, frustrado. Minha vontade era pressioná-lo até ele abrir a boca, mas sabia que, por enquanto, isso não levaria a nada.

- Ok - me resignei -, eu vou fingir que acredito em você. Então como não está em condições de trabalhar, você vai subir pro apartamento da sua avó e vai ficar lá quietinho até a hora que eu tiver que ir embora.

- Não preci...

- Eu não estou sugerindo, Bernardo - disse com a voz mais firme. - Estou MANDANDO você subir!

- Enzo...

- Bellvedere! - exclamei, irritado, e vi Bernardo se encolher. Eu tenho ciência do meu poder sobre ele quando estou irritado, e chamá-lo pelo sobrenome dessa maneira é a forma mais fácil de explicitar isso. E Bernardo não é nem louco de tentar me desafiar, ele simplesmente se cala e me obedece porque sabe que comigo não tem discussão. É do meu jeito e pronto!

Ele então tirou a boina, o avental e os guardou em seu armário. De cabeça baixa, tentou seguir para a porta, mas quando ia passar por mim eu o abracei pela cintura. Primeiro ele pareceu surpreso, ou talvez assustado, mas relaxou e pressionou o nariz em meu pescoço, aspirando meu cheiro.

- Eu não sei o que está acontecendo - disse bem próximo ao seu ouvido. Minha barba por fazer roçava em seu pescoço, lhe causando arrepios que não pude deixar de notar. - Mas eu prometo que tudo vai se resolver.

O soltei e caminhei para fora do quartinho, mas antes de ir virei e sorri carinhosamente para ele.

- Descansa, Bell - pedi siceramente. - Por favor. Ainda temos muito o que conversar, mas isso depois que você estiver melhor, ok?

Passei o resto da tarde e a noite perdido em uma confusão de pensamentos. As ideias do que poderia ter acontecido a Bernardo me deixavam nervoso, e eu tinha quase certeza de que seus pais estavam envolvido. Ou até pior: seu irmão.

Não cheguei a trocar nenhum pedido por estar distraído, mas quase derramei sopa quente em uma moça que passava por mim para ir ao banheiro. Por sorte, ela não precisou me xingar nem nada, porque eu mesmo fiz questão de me sentenciar por ser tão desastrado e me desculpei.

Na hora de fecharmos o restaurante eu só faltei bater palmas e gritar "FINALMENTE!" tamanha foi minha satisfação pelo expediente ter terminado. Fui me trocar no quartinho e me despedi dos meus colegas que ainda estavam ajudando dona Esperanza a arrumar o lugar e limpar tudo para o dia seguinte.

- Ótimo trabalho hoje, ragazzo - disse Pietro sorrindo, e me deu um "tapãozinho" amigável no ombro mais forte do que ele provavelmente achava que fosse.

- Valeu! - Sorri meio dolorido.

Logo levei outro tapa no outro ombro. Pierre também sorria para mim.

- Até amanhã, ragazzo.

- A-até... - gaguejei enquanto sentia que perderia os dois braços por causa daqueles grandalhões.

Eu havia decidido deixar Bernardo dormindo no apartamento da avó dele. Ele merecia um descanso, depois de tudo. Claro que, por isso, não iria para a casa dele sozinho. Não pensara realmente em onde passaria a noite, mas isso eu resolveria depois.

O que me preocupava mesmo era a chuva que começara a cair desde pouco tempo depois que havia mandado Bernardo subir. De lá para cá ela só tinha aumentado e parecia que perduraria a noite inteira.

Suspirei. Talvez devesse deixar minha mochila com dona Esperanza. Não poderia arriscar perder meu celular e meu notebook, tinha muita coisa importante em cada um deles.

- Dona Esperan...

De repente me vi com um guarda-chuva vermelho apontado bem no meio da cara. Dona Esperanza sorria para mim e seus olhinhos brilhavam divertidos atrás dos óculos redondos.

- Não estava pensando em sair nessa chuva, não é, ragazzo? - perguntou como se fosse óbvio. - Você pode ficar doente.

- Ah, b-bom... na verdade, eu estava pretendendo lhe pedirguarda-chuva? - sugeriu. - Aqui!

Ela atirou o objeto para mim e riu quando quase o deixei cair. Ao pegá-lo, vi que era grande o bastante para mim e mais um dos gêmeos e ainda sobraria algum espaço.

- Bem, hã, obrigado...

- Disponha. - Ela sorriu, mas logo seu sorriso esmaeceu um pouco. - Tem certeza que não quer ficar aqui com mio bambino? Minha casa é pequena, mas sempre há um lugar para os que precisam. Podemos dar um jeitinho.

- Não se preocupe. Eu agradeço, mas realmente vou ficar bem.

Olhei para fora através da vidraça da entrada para a chuva que cobria a cidade com certo romantismo e alguma melancolia. Uma sensação como a de chorar por alguém assolava sobre mim, embora não sentisse vontade de derramar uma lágrima. É difícil explicar.

- Talvez seja o melhor pro Bernardo... - falei um pouco distante. Logo sacudi a cabeça e sorri para dona Esperanza, que me olhava com curiosidade e, talvez, preocupação. - Obrigado mais uma vez. Prometo que amanhã mesmo trarei seu guarda-chuva de volta.

Ela franziu o cenho, parecendo incerta. Depois deixou os ombros caírem e fechou os olhos, para então sorrir de volta e dizer:

- Não se preocupe com isso, ragazzo. Eu tenho mais quinze desses guardados.

- Oh! - me surpreendi. Para que uma pessoa precisava de tantos guarda-chuvas?

Dona Esperanza riu. Sua risada, embora fosse, com o perdão da palavra, velha, era gostosa de ouvir. Dava um sensação de nostalgia.

- Ah, só mais uma coisa - disse eu. - Bernardo estava um pouco febril quando chegou e eu não pude ir vê-lo depois que o mandei subir. A senhora poderia...

- Eu vou dar uma olhada nele, fique tranquilo - garantiu, sorrindo tranquilizadora.

- Obrigado. - Sorri também. - Qualquer coisa, me ligue. Deixei meu número anotado no meu bloquinho de notas, que está ali no balcão de doces.

- Tudo bem. Tome cuidado, ragazzo.

- Pode deixar!

Me despedi dela com o que poderia ser considerado um abraço, eu acho, e segui para a saída. Abri o guarda-chuva e saí para o ar frio da noite chuvosa, tomando caminho para a estação de metrô.

Havia pouco movimento pelas ruas àquela hora. Devia ser pouco mais de 23:30, então as pessoas que se aventuravam pela cidade nesse horário e nessa chuva estavam na segurança e no conforto dos estabelecimentos noturnos que ainda estavam abertos. A pouca iluminação que me permitia ver para onde estava indo vinha dos postes, e estes mais se assemelhavam a castiçais carregando enormes bolas de fogo acobreado por causa das gotas grossas de água que os rodeavam.

Eu mal havia andado e as pernas da minha calça já estavam completamente enxarcada, a água fria causando arrepios por toda a parte baixa do meu corpo. Conseguia sentir também o esguicho dos meus sapatos a cada passo e como a água invadia minhas meias para correr por entre meus dedos. Era irritante. Ainda mais porque eu odiava ficar com os pés enrugados e cheirando a meia suada.

Apanhei meu celular no bolso e disquei o número do tio Fillipo. Torcia para que ele não estivesse dormindo ou que pelo menos não estivesse trabalhando hoje. Se eu fosse até sua casa e a mãe do Sebastian me atendesse, certamente receberia uma dezena de xingamentos por perturbá-la tão tarde da noite antes de, por fim, ter a porta batida na minha cara. Nunca entendi o que tio Fillipo viu nela, e muito menos como meu melhor amigo pode ser seu filho e ambos serem tão diferentes.

- Enzo?! - Tio Fillipo atendeu. Sua voz mostrava surpresa, acredito que por conta do horário.

- Oi, tio.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou preocupado. - Você está bem?

- Não, não. Calma, tio. - Eu sorri, achando engraçada sua preocupação. - Eu só quero saber se você está em casa.

- Sim... - respondeu, confuso. - Mas por quê?

- Posso passar a noite aí? Saí do trabalho agora pouco e estou... um pouco desabrigado no momento.

- É claro, filho! Você sabe que sempre há lugar pra você aqui.

- Obrigado, tio Fillipo. - Suspirei com alívio. - Chego em alguns minutos.

- Certo. Qualquer coisa me liga que eu vou estar acordado te esperando.

Nos despedimos e eu pus o celular de volta no bolso. Estava muito aliviado por não ter que procurar uma pensão a essa hora da noite. Além de estar cansado demais para isso, não estava com muito dinheiro na carteira, então, na melhor das hipóteses, só conseguiria alugar um quartinho com uma cama de colchão duro.

Cheguei na estação quase meia-noite. Havia só mais três pessoas ali além de mim - um casal se pegando no canto, uma senhora com um carrinho de compras cheio de papelão, e um cara que claramente tinha acabado de sair de um bar. Eles entraram em outros vagões, enquanto eu entrei sozinho num dos últimos e me sentei lá no final. Com os fones nos ouvidos tocando uma música qualquer, me permiti relaxar um pouco no banco e encostei a cabeça na janela.

Passei um tempo assim, e quando as portas do trem se fecharam eu percebi que não estava tão só quanto imaginava. Lá na frente, no canto oposto ao meu, um cara encapuzado vestido inteiramente de preto permanecia quieto como se não tivesse me notado. Estava de cabeça baixa e com os braços cruzados. Talvez estivesse dormindo...

Dei de ombros e voltei a me acomodar, mas ciente da presença do estranho e da potencial ameaça que ele poderia ser. Só por precaução, abaixei o volume da música e pus a mochila no chão, entre minha pernas. Qualquer coisa que pudesse vir a acontecer eu partiria para cima.

O vagão ficou nesse clima mórbido pelo resto do caminho. Mesmo com a One Republic cantando vigorosamente All Fall Down em meus ouvidos o silêncio parecia se sobressair. Eu vi o cara bêbado e o casal fogoso irem descendo em suas estações cada um, mas nada daquele esquisito ir também.

Bem, de toda forma, se estivesse realmente dormindo, não seria eu quem iria acordá-lo. Quando minha estação chegou, mais que depressa desliguei a música, coloquei a mochila no ombro e parti rumo à escadaria, encontrando novamente a rua. O vento frio e a chuva eram aconchegantes naquela parte da cidade. Mais alguns quilômetros de caminhada e poderia enfim descansar.

Foram vários minutos até que eu pudesse diminuir o passo quando vi a casa do tio Fillipo. Mas quando estava prestes a atravessar a rua, num movimento automático de olhar para os dois lados antes, vi o mesmo cara do trem dobrando a esquina mais atrás de mim.

"Aquele filho da puta está me seguindo!", pensei irritado.

Desgraçado. Ele realmente estava só esperando eu descer para vir atrás de mim. Ah, mas se ele achava que iria me assaltar tão fácil estava muito enganado. Eu quebraria o pescoço dele antes de sacar qualquer que fosse a porra da arma que estivesse prestes a usar.

Arrogante por natureza e louco por causa do sono que sentia, fiquei parado no lugar esperando ele me alcançar. Enxarcado e na escuridão noturna, o fulano parecia mais uma sombra se movendo perigosamente em minha direção. Mas medo era a última coisa que sentia. Não nasci para pagar de otário e deixar um imbecil me roubar.

(N/A: Isso é coisa do Enzo, gente. JAMAIS resistam a um assalto!)

Quando estava perto o bastante para eu conseguir ouvir seus passos, me lancei em cima dele com tudo, o agarrando pela gola do casaco. O guarda-chuva caiu da minha mão e foi rolando até uma árvore no jardim do vizinho, e em poucos segundos minhas roupas estavam igualmente molhadas.

- QUAL É A TUA, CARA? - gritei enquanto o empurrava contra um muro. - TÁ ME SEGUINDO POR QUÊ?

- C-calma, Enzo! - pediu erguendo as mãos. Mais surpreendente que ele saber meu nome foi a voz que reconheci no mesmo momento.

Puxei o capuz de seu casaco para trás, vendo os olhos castanhos assustados de Caio. Eu não o via desde aquela noite em que lhe dei um murro na cara por dizer o que não devia sobre Adel e eu.

- Caio?! O você está fazendo aqui?

- E-eu... eu preciso falar com você, Enzo. É muito importante.

O soltei e me afastei, mas ainda sentia o sangue correndo depressa em minhas veias. Aquele imbecil tinha me deixado nervoso me fazendo pensar que iria me assaltar, mas só queria falar sei lá o que comigo.

- Qual é o seu problema, Bianco? - perguntei aborrecido. - Ficou doido em vir atrás de mim assim? Eu já estava pronto pra te dar umas porradas pensando que era um assaltante.

Ele riu, mas vendo minha expressão séria se calou e abaixou a cabeça.

- Desculpa - pediu. - Eu só estava com... c-com vergonha de chegar perto de você depois do que aconteceu na última vez que nos vimos.

- Eu nem acredito que você teve a cara de pau de vir até aqui pra falar comigo depois de tudo - falei sem mudar a expressão, deixando claro que não estava nem um pouco feliz em ver a cara dele. - Eu devia era te dar um outro soco e te mandar embora daqui. Ainda não esqueci o que você disse.

- E é sobre isso que eu quero falar com você, Enzo! - Caio apressou-se em dizer. - Quero me desculpar. De verdade. Desde aquela noite fiquei me sentindo muito culpado. Não devia ter dito aquelas coisas sobre você e a Adelle...

- Não devia mesmo! - retruquei, cruzando os braços.

Caio baixou os olhos e fitou os próprios pés por um tempo. Aproveitei para pegar de volta o guarda-chuva e me abrigar, muito embora agora já estivesse todo molhado e só pudesse torcer para que meus bens eletrônicos não tivessem queimado. Isso me fez ter mais raiva de Caio, pois se ele não estivesse brincando de delinquente no meio da noite nada disso teria acontecido.

- Me perdoa, Enzo. Eu sinto muito, mesmo. Sei que fui um otário, mas estou arrependido. Você não faz ideia do quanto sua amizade é importante pra mim.

- Isso não me importa! - vociferei, ajeitando a mochila torta nas costas. - Não vou simplesmente passar a não na tua cabeça e fingir que nada aconteceu, Bianco. Você vacilou feio comigo e eu não vou te perdoar tão fácil.

- Eu sei - disse ele, cabisbaixo. - Eu sei que não vai. Mas realmente quero seu perdão, Enzo.

Caio passou a mão no cabelo molhado, o pondo para trás, mas alguns fios voltaram a cair para a frente por causa da chuva constante.

- Você é um cara muito legal, Enzo. E sei que vou ter que rebolar muito pra me redimir pelo que fiz, mas estou disposto a tudo pra que você me perdoe. Apenas me diga o que quer que eu faça e eu farei. Me dê mais uma chance, por favor!

Eu não queria dar chance nenhuma para ele. Na verdade, tudo o que queria era dar-lhe as costas e continuar meu caminho para a casa do tio Fillipo, onde uma cama quente e aconchegante me esperava. Mas por algum motivo eu não fiz isso. Por alguma razão, eu continuei ali, parado, olhando para a figura esguia de Caio na minha frente.

Ele parecia triste de verdade. E, olhando melhor, desconsiderando o moletom negro ensopado que pesava em seu corpo e a calça de tecido grosso, pude notar que ele estava mais magro também. Até um pouco pálido. Haviam olheiras sob seus olhos e suas bochechas estavam um pouco afundadas, fazendo seu rosto parecer mais longo.

Alguma coisa me fazia hesitar em deixá-lo ali, sozinho. Talvez meu senso de ética, ou quem sabe algum velho sentimento de amizade que me fazia reconsiderar minhas atitudes.

"Merda!", cerrei os punhos e travei o maxilar, irritado comigo mesmo agora.

- Escuta bem, Bianco - falei sem encará-lo. - Isso não quer dizer que te perdoei, mas aceito conversar melhor com você na faculdade, de manhã. Agora não é hora e muito menos lugar pra isso.

Olhei para ele e vi surpresa em seus olhos. Um sorriso idiota se formou timidamente em seu rosto e ele deu um passo à frente, como se fosse me abraçar, mas ergui uma mão para indicar que mantivesse distância. Caio ficou constrangido, mas manteve o sorriso.

- Obrigado, Enzo - disse ele. - Eu juro que...

- Não promete o que não pode cumprir, Bianco! - disparei. - Nós dois sabemos que você nunca foi bom com promessas.

- M-mas essa eu vou cumprir. Você pode acreditar, eu vou aproveitar muito bem essa chance que está me dando. - Seu sorriso era tão radiante que quase apagava os traços de seu atual estado decadente.

- Tanto faz! - Rolei os olhos. - Agora cai fora. Eu também preciso ir.

Dito isso, girei sobre os calcanhares e retomei meu caminho sem olhar para trás. Mas ouvi Caio dizendo:

- Pode acreditar, Enzo, não vou desperdiçar essa chance!

Atravessei a rua e caminhei em direção à porta da casa do tio Fillipo. Nem precisei bater, pois quando estava prestes a fazer isso a porta se abriu e o próprio tio Fillipo apareceu em meio à escuridão que a casa se encontrava.

- Até que enfim! - disse ele e suspirou com alívio. - Eu já estava ficando preocupado. Você disse que levaria só alguns minutos.

- Eu sei. Foi mal, tio. É que... - pensei brevemente no que dizer - houve um imprevisto.

Não valia a pena encher a cabeça do tio Fillipo com bobagens. Seria melhor guardar isso apenas para mim.

- Bem - disse ele -, tudo bem. Mas vamos, saia dessa chuva.

Ele me deu passagem e eu entrei, deixando o guarda-chuva no canto. Enquanto tirava a mochila das costas, olhei pela brecha da cortina azul marinho para o lugar onde até poucos minutos estivera cara a cara com Caio. Ele não estava mais lá, e parecia nunca ter estado. Era uma sensação estranha que me incomodava no fundo do meu ser.

- Olha só pra você, filho - disse tio Fillipo me ajudando a tirar o casaco molhado. - Está ensopado.

- Pois é... Hã... O guarda-chuva fugiu da minha mão e precisei correr um pouco atrás dele. - Sorri um pouco constrangido. Detestava mentiras, por mais necessárias que fossem de vez em quando.

- Tudo bem, o Sebastian deve ter algumas roupas que sirvam em você. Vou pôr as suas pra lavar e secar e de manhã já devem estar prontas pra serem usadas de novo. - Ele sorriu daquela maneira paternal que aquecia meu coração e instintivamente um sorriso se formou em minha face também.

Enquanto tio Fillipo ia ao quarto do Sebastian - que estava com a namorada, segundo ele - para pegar algumas mudas de roupa para mim, verifiquei minhas coisas e por alguma sorte que ganhei de repente nem meu celular e nem o notebook haviam queimado. Apenas os livros da faculdade ficaram um pouco molhados, mas ainda eram utilizáveis. Eu só consegui suspirar, aliviado, pois estava cansado demais.

Mas ainda não podia dormir. Aproveitaria que estava com tio Fillipo e falaria sobre algo muito importante que estava pensando já há algum tempo.

De roupas trocadas, acompanhei meu tio postiço até a cozinha, em silêncio, onde sentei-me ao balcão de mármore branco polido e fiquei observando-o preparar chocolate quente para nós.

- Mas então - disse ele -, o que aconteceu pra você me ligar àquela hora perguntando se podia dormir aqui. Você e seu amigo brigaram?

Ele pôs uma caneca verde cheia de chocolate à minha frente. Cinco marshmellows boiavam no líquido quente como pequenos e fofos botes salva-vidas. Envolvi a caneca com as mãos, aceitando de bom grado o calor confortável que aquecia meus dedos gelados pelo ar frio da noite.

Um trovão soou distante.

- Não. É que houve um problema... - disse eu, ainda olhando para os marshmellows flutuantes. - Ele adoeceu e eu o deixei descansando na casa da avó dele, então não seria muito educado aparecer em sua casa sem ele, não é? Os pais dele certamente não iriam gostar.

- Entendo. - Tio Fillipo bebeu um pouco de seu chocolate e sentou-se do outro lado do balcão. - Mas ele está bem?

- Sim, sim. Só um pouco debilitado por causa da rotina cansativa de faculdade e trabalho, sem falar em ter que aturar os pais em cima dele o tempo todo.

Suspirei. Às veses eu gostaria de poder guardar o Bell num potinho onde só eu pudesse tocá-lo e falar com ele, para protegê-lo de tudo e todos que o fizessem mal. Embora não pudesse lhe dar o amor que ele queria, eu daria todo o carinho que conseguisse só para suprir sua necessidade de ter mais alguém que não fosse eu.

- Você parece preocupado - comentou tio Fillipo, me fitando com um pequeno sorriso. - Pensativo, melhor dizendo.

- E estou - disse eu. - O que, a propósito, me lembra que preciso conversar com você sobre algo importante, tio.

- Pode falar.

Outro trovão.

Bebi um pouco do meu chocolate e comi um dos marshmellows. Enquanto engolia pensava no que dizer exatamente sem me enrolar nas palavras.

- Tio - comecei -, uma vez você me disse que se eu tivesse lhe procurado antes, quando saí da casa dos... meu pais - fechei os olhos, incomodado -, poderia ter ficado aqui.

- Sim. Você sabe que sempre vai ser assim, filho. Esta é sua casa também.

- Bem, hã... - Senti meu rosto se aquecer. - Sendo assim, eu quero saber se... se posso vir morar com você.

Tio Fillipo ficou em silêncio, me encarando com extrema surpresa. Por um momento que me pareceu interminável, tudo o que eu ouvia eram os sons da chuva e dos trovões lá fora, além de sentir como se uma bola de gelo estivesse descendo para meu estômago lentamente.

- Diz alguma coisa, tio Fillipo!

Ele piscou algumas vezes como se saísse de um transe e sorriu brevemente antes de se desculpar.

- É que você me pegou de surpresa - disse ele. - Quero dizer, eu sonhava com este dia... ou noite, no caso... mas nunca pensei que você realmente fosse aceitar morar aqui comigo e Sebastian. E é claro que você pode, filho. Eu já disse isso.

- Obrigado, tio. Você é o melhor.

Ele sorriu. Um sorriso ainda mais radiante que qualquer outro que eu tenha visto em muito tempo.

- Estou muito feliz por ter você aqui, filho. Se seu irmão também viesse seria ainda melhor, mas acho que Enrico não iria gostar de saber que estou "roubando" seus filhos. - Ele riu, e eu o acomoanhei, embora me sentisse incomodado em ouvir falar do meu... pai.

- É um pouco irônico, considerando sua profissão - disse eu.

- Sim. - disse ele rindo enquanto mordia um marshmellow. - Mas me diz uma coisa, você parecia tão certo de não querer sair de perto do seu amigo... Por que decidiu fazer isso agora?

Engoli a saliva antes de responder:

- Porque eu estava errado.

Tio Fillipo crispou os lábios e ergueu as sobrancelhas.

- Você, admitindo estar errado?

- É, eu sei. - Apoei o rosto em uma das mãos, o calor contido nela por causa da caneca passando para minha bochecha. Solte um suspiro cansado. - Mas com o passar do tempo me dei conta de que estou sendo uma pedra no caminho do Bernardo.

- Como assim?

Fitei as três últimas guloseimas afofadas no chocolate da minha caneca distraidamente. Em vez de botes salva-vidas, desta vez elas me lembravam mais confortáveis travesseiros nos quais eu adoraria deitar a cabeça e dormir até não poder mais. Meus olhos pesavam, quase fechavam, mas eu resistia.

- Eu adoro o Bell, tio. Ficar perto dele me faz bem. Mas isso também o machuca, e não estou me referindo ao que ele sente por mim. Seus pais estão o sufocando porque acreditam que somos namorados ou algo assim. E também tem o irmão mais velho dele... - Abri os olhos com dificuldade e fitei tio Fillipo, que permanecia quieto, apenas ouvindo atentamente. - Eu não tenho certeza se isso vai dar certo ou não. As coisas podem melhorar pra ele ou podem continuar como estão. Mas é fato que a melhor maneira de ajudar o Bernardo é mantendo distância.

Tornei a fechar os olhos e foquei na imagem do Bernardo de hoje de manhã, no quanto ele estava abatido, cansado. Então tentei buscar na memória o seu sorriso bobo das vezes em que eu elogiava algo que ele fazia. Tão meigo. Tão adorável.

- Eu ainda vou dar meu apoio a ele, como você me indicou fazer - continuei. - Só que vou tentar fazer isso de longe, sem muito contato. Pelo menos por algum tempo, enquanto busco outra solução.

- Eu compreendo - Tio Fillipo finalmente se pronuciou. Mas sua voz veio de longe. Bem longe. - Siga o seu coração, filho. O que você decidir vai ser o melhor tanto pra você quanto pro seu amigo. E eu estou aqui pra te ajudar no que precisar.

Consegui sorrir pequeno, ainda de olhos fechados. Bocejei uma vez e ouvi tio Fillipo se movimentando, vindo para perto de mim. Senti quando seu braços me envolveram e meu rosto foi pressionado contra seu peito. Eu ouvia o coração dele batendo lá dentro, calmo e forte.

- Vamos, você precisa descansar um pouco.

Acho que fui carregado, mas não tenho certeza. Não lembro bem o momento exato em que perdi a consciência do mundo externo para entrar no meu próprio mundo. Lembro apenas de ouvir mais um trovão e de ver dóceis olhos castanhos brilhando junto de um sorriso meigo que eu reconhecia bem.

"Bell..."

[ Continua...? ]

____________________________________________________

Oi, pessoal!

Eu não sei bem o que dizer aqui sem parecer repetitivo como aconteceram nas últimas vezes que postei algum conto. Mas o aconteceu pra que eu sumisse por tanto tempo foi algo bem maior e mais complicado que nas outras ocasiões.

Não vou entrar em detalhes porque não gosto de expor minha vida dessa maneira, mas tudo se resume em: família, amizade e amor. Foi a duras penas que eu consegui terminar este capítulo porque minha vontade era abandonar de vez a escrita. Não havia mais ânimo, não havia mais inspiração, tampouco vontade de escrever.

Devo muito aos leitores que me mandaram e-mails pedindo o meu retorno e me incentivando a não desistir, a continuar apesar de tudo. Então eu dedico este capítulo a vocês, meu queridos, pois sem vocês nada disso teria acontecido.

Peço desculpas se não ficou tão bom. Dei o meu melhor, mesmo não estando 100% ainda (talvez nunca mais esteja). E peço desculpas também aos meus leitores que comentam aqui na CDC e aos que apenas lêem pela imensa demora. Vou tentar voltar mais rápido com o próximo.

Grande abraço. Até logo e fiquem com Deus!

Comentários

17/08/2017 10:16:09
Olá!! Nem acreditei quando vi q vc tinha retornado com o conto, é tudo tão maravilhoso, não abandona não por favor, continua, sei q é muito dificil conciliar tudo principalmente quando se tem problemas particulares mas faz um esforço vai, vou aguardar ansioso o próximo capítulo, um grande abraço meu querido.
14/08/2017 22:41:29
Fico Feliz com seu retorno. Tomara que volte a escrever o mais rápido possível.
14/08/2017 03:44:25
Endo, gosto muito da sua história pois é como se eu voltasse a Roma, você conseguiu descrever uma perfeita cantina, me lembra muito de uma que fui em Nápoles. Quanto a sua demora, problemas são problemas e temos que resolve-los, antes de tudo seu bem estar, depois a história, espero que esteja tudo bem com você agora. Em relação ao conto achei o capítulo interessante, mas senti falta de Levi e Sebastian. Abraços.
14/08/2017 03:14:06
Sei que é difícil pra vc, mas acho que o melhor é procurar um final pra essa história, sei lá acho que tá se arrastando um pouco, não que o capítulo não foi bom, mas não sei até onde você pretende levar a história sabe, o pior de tudo é que eu adoro esse conto, mas fico confuso as vezes. E cara nem lembrava mais o que tava acontecendo, afinal quem é esse Caio? Kkkkkk nem lembro da existência dele. Bom espero que você consiga postar mais rapidamente dessa vez. Estava preparando um textão aqui repreendendo você pela demora, mas depois que li seu recado no final repensei. Beijão, espero que tudo se ajeite aí. Mas mantenha contato, o maior problema não é o conto demorar a ser postado e sim não sabermos o que aconteceu pra ele ter demorado tanto.
13/08/2017 19:56:00
ta mt bom e eu to adorando. Por favor continua.
13/08/2017 13:28:16
Ficou muito bom, mas esperava ser um capítulo narrado pelo Levi ou pelo Sebastian, a história já está a 3 capítulos seguidos narrados pelo Enzo! E uma coisa, no início do conto os gêmeos não eram idênticos? Como o acompanhante do Levi não percebeu se tratar de gêmeos?
13/08/2017 09:27:48
Fico feliz com o seu retorno, eu quero muito vê o final dessa historia.

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