Casa dos Contos Eróticos

Escarlate e Dourado

Autor: Fauno
Categoria: Homossexual
Data: 03/04/2016 22:10:14
Última revisão: 21/11/2016 12:42:30
Nota 10.00
Assuntos: Heterossexual
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Há mais de meio século, alimento-me do sangue e ouro dos vivos; com exceção de breves e furtivos passeios noturnos, não faço senão vegetar nas sombras da minha cela, sem qualquer companhia ou legado à posteridade além de um punhado de escritos. Morto. Escrevo com conhecimento de causa sobre a sede insaciável de uma espécie dita 'anti-natural', sendo eu mesmo uma dessas criaturas, embora de uma ordem nobre, rica, influente e infinitamente mais perigosa, com raízes no próprio berço da civilização, um patrimônio imobiliário multinacional e anjos da guarda munidos de fuzis automáticos.

Adivinhe o quê? Vampiros existem. E eu sou um deles.

Antes de tudo, explico que nem todo vampiro se alimenta dos vivos. Na verdade, a maioria é absolutamente inofensiva. Tais criaturas têm se tornado cada vez mais fortes e resistentes à luz natural, ao contrário de nós, eternamente fadados à escuridão, seguros apenas do pórtico para dentro, onde as regras se invertem para nosso proveito. Quanto às crenças populares sobre alho, espelhos e crucifixos, são todas falsas. Nossos verdadeiros delatores são os relógios digitais, que atrasam, param ou até regridem na presença de representantes da Ordem. Mas a maioria das pessoas ignora isso. A maioria das pessoas sequer desconfia do que somos e muito menos do que fazemos dentro ou fora dos nossos abrigos. No silêncio dos nossos claustros, à luz das luminárias espalhadas pelas nossas longas e pesadas mesas de estudos, ressuscitamos polêmicas em torno de épocas e personagens há muito mortos e enterrados, como Giordano Bruno, Savonarola e Cosimo de Medici, cada qual com seu 'justo' veredicto: herege, herege, herói. Conhecemos com propriedade de praticantes tanto o Mal em si quanto a arte de vesti-lo com visões tão ricas, belas e delicadas que fariam um anjo ou santo chorar, se é que existem anjos e santos tais como descrevemos. Esse é um talento obscuro, assim como nossa coleção de ficção erótica e de horror iniciada há cerca de dois milênios, cujo maior fruto você talvez já tenha lido. Por mais que desejemos e trabalhemos para isso, não vivemos na Idade das Trevas. Andamos desacreditados demais para conduzir nossos negócios abertamente, e mais que nunca nossas alegorias devem carregar a assinatura de nomes e rostos comuns. Que sejam dedicadas aos entes queridos desses nomes e rostos, desde que levem nossas palavras aos não-inclinados, àqueles alheios à essência dessas visões a que se entregam com a confiança de moleques.

Um moleque de cerca de vinte anos era o que eu via atravessar o pórtico naquela tarde primaveril de céu azul e clima ameno. A própria mãe nos trazia pela mão essa beldade de cachos dourados e passos leves, etéreo como um anjo de Caravaggio, tão entretido com os feixes de luz refratados pelos vitrais multicoloridos que foi extremamente fácil para mim manobrá-lo até a mesa de cerimônias. Fosse outro membro da Ordem, decerto teria feito isso destilando uma miríade de palavras nobres que mascarasse sua intenção de iniciá-lo no sangue — um novo vampiro não para o mundo, mas para si. E que confiança sua mãe parecia depositar tanto em mim quanto em todos aqueles que falam, se vestem e vivem como eu; com que confiança se fechou no confessionário, deixando seu maior tesouro solto na nave como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo. Sua beleza fragmentada nos pequenos losangos da treliça me fez morder o lábio inferior com força suficiente para inundar minha boca do gosto metálico pelo qual eu ansiava mais que tudo. Ela dizia qualquer coisa sobre seu marido tentar coagi-la a algum tipo de perversão sexual, mas só o que eu podia ouvir era seu sangue ronronando nas veias. Minha sede era tão grande que tive ganas de estraçalhar a frágil divisória e rasgar-lhe a garganta ali mesmo. Seus menores pecados seriam a fonte das minhas racionalizações, mas a mente dessa era vazia, como geralmente são as das puras e inocentes. Depois de cumprir penitência pelo erro do marido, deixou sua contribuição no saquinho de feltro escarlate e carinhosamente tomou a mão do filho. Os dois já se dirigiam à saída quando Filippo apressou três passos para sussurrar às suas costas: "Lembrem-se, cuidado com lobos em pele de cordeiro”.

Eu quase podia ver os caninos por trás daquela máscara de contrição que era seu rosto emaciado. Seguiu os dois até o pórtico feito predador no encalço da presa e achei que fosse dar uma palmada no traseiro da mãe ou do filho. Que voltassem em segurança para casa e lá ficassem, longe de nós e da nossa sede.

"Você o quer", Filippo disse com um sorriso, apontando-me molemente o indicador de unha comprida e amarelada. "Conheço você há tempo suficiente para saber."

"Achou que sabia desde o começo, não é? Por isso me escolheu."

"E não vi o que você era? Não vi o fogo nos seus olhos?"

"O que você viu nos meus olhos foi seu próprio reflexo, como Narciso se viu no lago."

"Cuidado com referências pagãs em público." Olhou-me duramente por um segundo antes de voltar a sorrir e apontar o dedo. "Ele é seu, se você quiser."

"Nunca."

"Dilemas morais? Ainda?" Pontuou a pergunta com uma risadinha suína.

"Morais? Não."

"Um surto de teísmo, então? Ora, deixe as superstições para os ignorantes. Para isso queimamos livros e eruditos. Já disse que se quiser..."

"Não é ele. É a mãe."

"Quer a mulher?" Arqueou as sobrancelhas.

"Quero uma coisa que ela tem."

"O quê? Por quê?"

"Não sei. Não achei nada nos seus pensamentos. Mas isso não quer dizer que ela não esconda algo. Talvez um erro imperdoável. Talvez ela tenha alguém que a odeie mais que eu."

"Não se engane, Sandro. Ninguém pode odiar uma mulher mais que um vampiro, principalmente uma mulher que se permite o que um vampiro não pode ou acha que não pode fazer. Você sabe do que somos capazes, sabe o que já fizemos e faríamos mais um milhão de vezes se tivéssemos meios e principalmente prestígio. Mas isso não me interessa. Podem existir mil desculpas para os crimes de um homem." Insensivelmente deu de ombros e sugeriu, já de saída: "Faça o que bem entender, desde que não me invente de viver com ela".

Enfim sozinho, postei-me de joelhos num dos bancos da ala esquerda, olhos fixos no altar. O furor do escarlate fora há muito substituído pela pureza do branco e sobriedade do preto, mas o dourado continuava lá, símbolo da riqueza de eras passadas, tão falso quanto nossas promessas. O que outros membros da Ordem fariam se me flagrassem ali, ajoelhado para ninguém? Que diria o superior por quem fui ordenhado, digo, ordenado? Chamaria-me de louco? Jogaria-me num hospício? Não se conhecesse meus planos.

Quando os últimos raios de luz deixaram a terra, pedi a proteção do meu anjo — não um anjo celestial, mas um anjo de carne e osso, um anjo armado, um anjo da guerra — e saí munido do meu amuleto e minhas justificativas. Sob o olhar vigilante do meu guardião, contornei a piazza apinhada de ciganos e entrei a passos vagarosos e insuspeitos por uma ruela escura, buscando as trevas como o próprio Mal encarnado, sempre para trás e para a direita, das calçadas estreitas que mal comportavam dois pedestres perfilados ao campo rodeado de cipestres. Minha vítima caminhava com calma, confortável na familiaridade da sua vizinhança. Não se sobressaltou de todo com minha chegada, embora me olhasse com certa desconfiança.

[Servatis a periculum, servatis a malificum.]

"Tudo bem, jovem? Como achou o sermão de hoje?"

"Bom..."

"E a confissão? Talvez tenha se esquecido de algo?"

"Não, nada."

"Tem certeza? Poderia se confessar melhor nas sombras..." Inclinei-me na sua direção.

"Mas acabei de me confessar." Deu um passo para trás, mãos na altura do rosto, como se enfim se convencesse da ameaça que eu representava. Então era verdade? Estava tão óbvio o fogo queimando no fundo do azul-celeste dos meus olhos?

"Calma, não se assuste. Foi Deus que me mandou para purificar você dos seus pecados..."

Eu estava prestes a livrá-la do incômodo diário que eram suas roupas e saciar minha sede. Virou-se para correr, mas já era tarde. Foi ao chão com estardalhaço, numa profusão de saias e mechas de um cabelo tão comprido que por si só já era uma penitência, tentando se desvencilhar das minhas garras e gritar por socorro por entre meus dedos ossudos.

"Quieta, jovem. Shhh, não chore."

Provei do suor da sua luta; tirei-lhe a vida, as jóias, o dinheiro da carteira e as chaves de casa. E não era tudo. Minha fome estava guardada para o prato mais esperado e saboroso, o único capaz de me saciar por completo. Achei-o num pequeno quarto sem janelas, recém-saído do banho, nu da cintura para cima, cabelos pingando sobre os ombros largos. Enquanto seus olhos me fitavam com perplexidade, os meus se banquetearam no seu peito hirsuto, abdômen trabalhado e trilha de pêlos que levava à área coberta pela toalha vermelha. Ele era lindo, com cabelos castanhos lustrosos, pele muito clara, maçãs do rosto salientes e fisionomia algo familiar. Decerto me tomando por uma das três coisas que eu acabara de me tornar — um assassino, um ladrão e um violador —, correu para a única saída, mas eu, mais perto dela, bloqueei a passagem. A luta durou menos de cinco segundos. Com a força de três homens, peguei-o pelos braços e o arrastei para a cama, numa ostentação de poder sobrenatural que o alarmou e fez calar. Meu peso o forçou a se deitar na cama comigo entre suas pernas, virilha contra virilha, desejo contra desejo. Sabendo-o pronto para minha boca, estreitei meu abraço e mergulhei fundo nele. Seus lábios se moveram debilmente sob meus dedos, seu hálito quente roçou minha pele e sua voz soou baixa e rouca nos meus ouvidos. Gemidos? Não. Seu nome. Matteo. Ah, que nome doce. Matteo, Matteo...

Bebi dele até a última gota; o gosto característico, o calor do seu corpo, tudo misturado numa explosão orgástica, nunca tão intensa, nunca tão satisfatória. Pela primeira vez eu me sentia preenchido, completo. Tinha-o dentro de mim, percorrendo meus caminhos, fluindo nas minhas veias. Quase a contragosto, limpei com a língua o filete escarlate que ainda escorria pelo seu pescoço, pousei um beijo casto nos seus lábios pálidos e arranjei os membros do seu corpo sem vida de forma que parecesse apenas adormecido. Virava-me para sair quando seu filho apareceu na porta do quarto, tão aturdido com a cena que não fez senão balbuciar algo ininteligível. Eu quis lhe dizer que mandara seu pai para o céu, embora ele parecesse alheio a conceitos como ‘céu’ e ‘inferno’ e eu mesmo não estivesse muito certo daquilo. Em vez disso, me esgueirei em silêncio pela porta e ganhei a rua, só para me ver parado na calçada minutos depois, lutando para abotoar meu sobretudo no frio de cerca de quinze graus. A dificuldade em concluir tarefa tão simples trouxe à tona todo o pânico latente. Meu tremor beirava as convulsões de um colapso nervoso. O ar me faltou, minha cabeça girou, as luzes dos bares e lojas próximos escureceram até se apagarem por completo e duas superfícies duras roçaram a parte posterior dos meus braços. Era como se eu caísse em espiral, rodando e rodando, mais e mais fundo, em meio a um turbilhão de cenas de textos e telas sacras. O livro do Apocalipse, A Divina Comédia, Dante e Virgílio no Inferno. Os dois poetas, em trajes escuros, observam à distância a cena em destaque: cercados por demônios e outras almas condenadas ao segundo círculo do inferno, dois homens travam uma luta completamente nus, um segurando o outro pelo pulso enquanto penetra com os dentes seu pescoço, com as unhas seus flancos e com o joelho flexionado a concavidade das suas costas arqueadas. Uma obra-prima do obsceno, capaz de transformar a cabeça do espectador numa arena onde se digladiam desejo, culpa e medo. E não é só. Veja o torso ligeiramente desproporcional do dominador. É uma aberração, um monstro cujo destino é o inferno. Veja como Virgílio protege o rosto da cena e como Dante encarna uma presença confortadora, uma ilha de virtude e segurança em meio ao cenário caótico sob o céu laranja. Ah, mas suas vestes são tintas de escarlate, sempre o escarlate...

"Shhh. Você está delirando", disse uma voz feminina próxima do meu ouvido.

Com algum esforço, consegui abrir os olhos para a jovem freira que me vigiava com ingênua preocupação. Em volta se viam bancos de madeira escura, mulheres de hábito branco, brinquedos espalhados pelo piso de linóleo claro e miseráveis de idades variadas. Eu estava num orfanato. De uma parede a outra, corri os olhos pelos estranhos em busca de uma presença familiar, talvez algum dos órfãos escolhidos por membros da Ordem para discípulos ou ajudantes, mas todos ali pareciam agitados demais com a notícia de uma tragédia recente ocorrida nas redondezas; segundo a jovem, um casal padecera vítima de uma repentina e misteriosa enfermidade, deixando seu único filho sob a tutela de Filippo, a despeito dos apelos veementes dos avós maternos. Senti meu estômago se revirar. Eu me sentia fisicamente doente. E meu anjo se fora.

Comentários

04/04/2016 01:51:24
Muito interessante, nunca havia lido um conto desses aqui no CDC. Espero que continue

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