Boys don't cry - Meninos não choram! - 19

Um conto erótico de Pedro
Categoria: Homossexual
Contém 1186 palavras
Data: 06/09/2013 10:42:27
Última revisão: 06/09/2013 10:44:33
Assuntos: Gay, Homossexual

Eu fiquei calado. Ele continuou:

- Parece uma maldade o que eu estou fazendo não é mesmo Pedro? Parece que eu estou sendo o pior de todos os seres humanos. – levantou-se e foi pegar uma garrafa de vinho na adega – quem souber dessa história um dia poderia dizer: “Nossa como o André é mal, sem escrúpulos, é um mau caráter”. Poderia me bater, me humilhar e me dizer que eu sou o pior dos seres. Não acho que seja!

Eu olhei para ele, ele olhou para mim e bebeu um generoso gole de seu vinho caro. Eu não queria falar nada, apenas deixei que continuasse com o seu monologo, e assim ele fez:

- Na vida Pedro, a gente sofre muito. Sim, sim, a gente sofre muito. Você não deve saber bem o que é isso Pedro, talvez você não conheça o que é pedir um brinquedo à mãe e ela não poder dar. Talvez você não saiba o que é ter um pai alcoólatra, estudar em uma escola publica... Não! Definitivamente você não sabe o que é isso. Você nasceu em berço de ouro, graças a Deus – bebeu mais um gole do seu vinho caro – Você sempre teve de tudo, boa escola, boa alimentação, boa saúde, bons amigos, boa casa, enfim... Teve um padrão de vida que não é da maioria, você quase nunca precisou lutar pelo que quis você e seu Gabriel.

Parecia que quanto mais ele bebia mais ele tinha gosto por falar. Ele puxou um pequeno puffe branco e sentou de frente para mim. Eu apenas escutava, e ele falava:

- Eu venci na vida, venci sim. Hoje eu tenho a casa que queria, o emprego que queria, paguei o tratamento contra o alcoolismo do meu pai, dei uma ótima vida a minha mãe, que sempre me amou. Tenho uma vida em que as pessoas olham e dizem: “Nossa, ele venceu!”. Mas falta uma coisa Pedro, falta uma coisa que eu nunca tive. Falta um amor correspondido.

Eu o interrompi:

- Não é assim que você vai conseguir o meu amor, nem o de ninguém. Minha voz saiu sem emoção.

- E por que não? – perguntou – Eu já tive três decepções amorosa, - fez sinal de “três” com as mãos - em todas eu sofri para caralho, em todas eu sofri muito, pois nenhuma foi correspondida, ninguém olhou para mim e disse: “Eu te amo André”. Você não será o quarto da lista. Definitivamente não.

Ele bebeu mais um pouco e depois deixou o copo e a garrafa de lado, já estava um pouco alterado, parecia que não tinha muita tolerância ao álcool. Eu falei:

- Eu não vou te amar André! Você sempre representou alguém que me ajudou muito. Só isso. Mas agora você está sendo mal!

- Eu mal? Eu acho que você está confundindo as coisas meu amor – senti nojo quando ele disse isso – O que é o mal? O que é o bem?

Eu não soube lhe responder, aquelas perguntas pereceram mais difíceis do que eu imaginava, ele retornou a sua reflexão filosófica:

- Se eu te faço um mau Pedro, mas para mim estou fazendo algo bom, eu estou sendo mau e bom? Se eu faço algo bom para a humanidade hoje, logicamente as pessoas iriam me vangloriar, mas e se daqui a mil anos a sociedade visse a minha atitude como algo ruim. Eu estaria sendo mau ou bom?

Definitivamente eu não sabia lhe responder.

- Para os adeptos de Hitler o que ele fazia era o bem para a humanidade, assim como para os adeptos de Gandhi. Mas e para os inimigos de Hitler e os de Gandhi? Para eles Hitler era mau e Gandhi também. Então, Hitler e Gandhi são maus ou bons?

- Eu não quero saber disso! Você não tem o direito de me fazer essa proposta André. Falei.

- Tenho sim Pedro, tenho sim. Eu posso te ajudar, e em troca você me ajuda. Pense, se seu pai não encontrar um novo emprego sua família vai decair, possivelmente sua mãe brigará constantemente com o seu pai, e ele com você. Vocês não terão dinheiro para manter o padrão de vida que por tanto tempo sustentaram, será extremamente doloroso Pedro, será extremamente caustico.

Eu fiquei calado, estava desarmado pelas palavras do André, que pareciam fazer sentido.

- E o Gabriel, o “seu amor”, será que ele te ama mesmo? Será que não é só uma confusão da sua cabeça? Eu não sei, nem você, mas sei que você o ama. Não consigo compreender, não consigo entender... Afinal, o que ele fez por você?

- Ele me amou, e ainda me ama, ele fez por mim o que ninguém jamais fez por você!

- Talvez. – tornou a encher o copo com vinho e bebe-lo – Talvez ele tenha feito isso sim, mas Eu faço tudo para ter você.

- É isso que te torna diferente do Gabriel, ele jamais me chantagearia!

- Tem certeza? Você é totalmente ciente do que está me dizendo? Será mesmo que ele não te chantagearia para te ter? Como você afirma com certeza? Eu pesquisei sobre ele, e ele não me parece o melhor dos homens...

Fiquei calado, realmente o Gabriel não era o melhor dos homens.

- Mas ele está arrependido, ele não quer mais ser assim!

- Será?

Ficamos nos encarando por um momento, ninguém disse nada, eu apenas olhava diretamente no fundo dos seus olhos. Via ali uma pessoa que realmente seria capaz de TUDO por mim. Pensei na divida que o Gabriel tinha, esses pintas sempre eram perigosos, eles não tinham muito a quem temer, a policia era falha. Eu não queria ver o Gabriel sofrendo na mão de nenhum bandido, nem o meu pai na pindaíba. A proposta do André, por mais insana que parecesse, ainda era uma boa opção, pelo menos para o meu pai e minha mãe, e para o Gabriel, que era a pessoa que eu mais amava. Eu chorei mais uma vez.

André se levantou e foi até o belo piano preto que estava ali na sala. Eu o acompanhei com o olhar, a ideia de aceitar aquela proposta vinha na minha cabeça na mesma intensidade da ideia de sair dali naquele momento e nunca mais ver o André na minha vida. Ele sentou-se de frente ao piano, falou:

A Tale*. Um Conto. Adoro essa musica.

A musica invadiu a sala no momento em que seus dedos começaram a dançar no teclado do piano. Eu adorava piano, mas aquela musica me deixou mais triste, e eu voltei a chorar. A idéia de ver o Gabriel mau pela divida, e o meu pai sem dinheiro para pagar as contas me acometeu, como fantasmas a atormentar uma criança.

André tocou, tocou e tocou, parecia que cada nota invadia meu corpo como se eu levasse um pequeno choque elétrico. Por fim a musica acabou. Ele se levantou, olhou mais uma vez para mim e perguntou:

- Vai aceitar a proposta?

- Sim!

Minha vida definitivamente jamais seria a mesma depois daquelas palavras.

Continua...

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** ”A Tale” é uma musica do filme O labirinto do Fauno (2006), por tanto não existia na época onde esse evento aconteceu. Na verdade o André tocou Moonlight Sonata, do Beethoven.

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Comentários

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Eita poh, vc aceitou,. aff's..

Eu amo piano!, o filme, eu tenho em casa, tenho toda uma partidura de Beethoven no meu pc

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Proposta indecente. Demais cara o conto.

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